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Entrevistas / HQ

Guilherme Kroll e as perspectivas da Balão Editorial para 2019: “Gosto de livros que sejam acessíveis”

Em 2018 houve uma tendência explícita por parte das principais editoras brasileiras de quadrinhos de investir em publicações caras, em capa dura, formatos luxuosos e de autores estrangeiros. A Balão Editorial seguiu na contramão dessa corrente. O selo publicou quatro títulos (Hell No! – Os diabos tão soltos, Hell No! – Uma busca dos diabos, Quando você foi embora, Por muito tempo tentei me convencer de que te amava), todos de autores nacionais, com poucas páginas e custando entre R$ 20 e R$ 35.

No post de hoje da série de entrevistas com editores nacionais sobre as perspectivas de suas editoras para 2019, compartilho um bate-papo com Guilherme Kroll, um dos sócios da Balão Editorial.

Na conversa, Kroll adianta que tem fechada a publicação do quarto e último capítulo da Hell No!, de autoria do quadrinista Leo Finocchi. Ele comenta a repercussão de Quando você foi embora, de Ana Cardoso, e Por muito tempo tentei te convencer de que te amava, de Thiago Souto – e com a minha participação no papel de editor. Por último, ele comenta a linha editorial da Balão e seus temores em relação ao mercado editorial em crise e a chegada de um governo de extrema-direita ao poder. Ó:

Trecho de capa de Hell No – Parte 3, do quadrinista Leo Finocchi, publicado pela Balão Editorial

Você pode, por favor, adiantar e comentar alguns dos lançamentos da editora em 2019?

Para 2019 a única certeza é que sai o capítulo final da saga Hell No! do Leo Finocchi. Estamos bastante empolgados com os esboços que ele mandou, acho que os leitores que estão acompanhando vão ter uma grata surpresa. De resto, ainda não temos nada acertado.

Como foi o retorno de vocês em relação aos quadrinhos publicados pela Balão Editorial em 2018?

Publicamos quatro HQs em 2018 (Hell No! – Os diabos tão soltos, Hell No! – Uma busca dos diabos, Quando você foi embora, Por muito tempo tentei me convencer de que te amava) e as resenhas sempre foram positivas. O público parece ter gostado e cada um dos títulos encontrou o seu nicho. Acho que, nesse sentido, não poderia ter sido melhor.

Ilustração do álbum Por muito tempo tentei me convencer de que te amava, HQ de Thiago Souto publicada pela Balão Editorial

O ano de 2018 foi marcado por muitos lançamentos de obras internacionais, caras e em acabamentos luxuosos. Todos os quadrinhos publicados pela Balão Editorial em 2018 foram obras curtas, baratas e de autores brasileiros. Por que você vai na contramão dessa tendência do ano passado?

Gosto de livros que sejam acessíveis. Sempre que publicamos uma obra, conversamos com o autor e procuramos encontrar uma forma pela qual o livro sairá o mais barato possível sem prejudicar a visão artística dele. Posto isso, capa dura nunca será a versão mais barata de uma obra, então dificilmente optaremos por isso. Não desmereço o uso de capa dura, há livros que pedem por isso, mas geralmente são reedições, títulos consagrados ou obras que saem com uma contraparte em brochura para bolsos mais modestos. Não descarto reeditar algo em capa dura no futuro, caso ache que a obra peça por isso. Editar é escolher e escolhemos caso a caso. Quanto às obras nacionais, já publicamos material estrangeiro antes e talvez publiquemos de novo no futuro, mas no momento acho que já tem bastante gente lançando coisas gringas de forma competente, então podemos nos focar no material nacional que eu gosto bastante.

Quais as principais lições que a Balão Editorial tirou da crise das grandes livrarias que aflorou em 2018? Como a editora pretende lidar com essa crise em 2019?

Nós, da Balão, sempre tivemos uma relação diferente com as livrarias. Pelo fato dos nossos livros costumarem ser mais baratos, a logística para envio às livrarias grandes ficava um pouco proibitiva. Fechávamos apenas grandes pedidos, o que acabou nos deixando um pouco fora do circuito. Esse mesmo circuito colapsou em 2018 e nós quase não fomos afetados pois já estávamos voltados para uma distribuição mais alternativa.

Como a editora está lidando com a chegada ao poder de um governo de extrema-direita que acabou com o Ministério da Cultura e que promete cortes em políticas públicas e sociais de fomento às artes?

Não temos muito o que fazer no momento. Continuamos nossa linha editorial e procuramos fazer oposição a medidas que nos prejudicam. Por enquanto, não temos muito a dimensão do que vai acontecer. O fim do Ministério da Cultura é uma tristeza que pode nos prejudicar muito, porém acho que esse problema vai ser em um prazo maior. O que eu acho que realmente pode ser um duro golpe para editoras e artistas é o aventado fim do Sistema S. Sem o Sesc perderíamos feiras, cursos de formação para autores, editores, etc.

A capa de Quando Você Foi Embora, HQ de Ana Cardoso publicada pela Balão Editorial

Entrevistas / HQ

Zarabatana promete para 2019 o 10º volume de Macanudo, de Liniers

Dois dos melhores quadrinhos publicados em português em 2018 saíram pela Zarabatana Books. O selo editado por Claudio R. Martini republicou o clássico Música para Antropomorfos, parceria de Fabio Zimbres com a banda Mechanics, e lançou Fugir – O Relato de um Refém, do canadense Guy Delisle. A agenda de publicações da Zarabatana em 2019 ainda está em construção, mas a editora adiantou para o blog o lançamento do 10º álbum da série Macanudo, do quadrinista argentino Liniers, uma edição especial com o dobro de páginas dos nove números prévios.

“A explicação do autor é que publicando livros com 96 páginas, muitas tiras acabavam ficando de fora e então Liniers resolveu acertar o passo e fazer um volume duplo”, explica Martini em conversa com o Vitralizado.

O editor ainda adianta que um outro título estrangeiro está em fase final de negociação e revelou conversas com alguns artistas nacionais sobre possíveis títulos brasileiros a serem lançados em 2019. Na entrevista a seguir, Martini faz um balanço sobre os trabalhos da Zarabatana em 2018, fala sobre os próximos planos da editora e analisa o mercado editorial em crise. Ó:

Quadros de Fugir, obra do quadrinista Guy Delisle publicada em 2018 pela Zarabatana Books

Você pode, por favor, adiantar e comentar alguns dos lançamentos da editora em 2019?

Por enquanto, apenas o Macanudo 10 está acertado para publicação. Um outro título estrangeiro está em fase final de negociação e tem algumas obras de autores brasileiros que estou conversando com os autores. O último volume de Macanudo (o #9) publicado pela Zarabatana foi em 2017 e este de número 10 é especial, pois tem o dobro de páginas dos outros. A explicação do autor é que publicando livros com 96 páginas, muitas tiras acabavam ficando de fora e então Liniers resolveu acertar o passo e fazer um volume duplo. Espero em breve também acertar o passo com as edições argentinas.

Em 2018 a Zarabatana publicou dois dos títulos mais interessantes lançados no Brasil: Música para Antropomorfos e Fugir. Qual foi o retorno do público em relação a esses títulos?

Só para situar: Música para Antropomorfos é uma reedição da HQ de Fabio Zimbres em parceria com o grupo Mechanics e que estava esgotada desde 2007. Fugir é um dos melhores livros de Guy Delisle (Pyongynag, Crônicas de Jerusalém etc.) e narra o drama de um colaborador da ONG Médicos Sem Fronteiras sequestrado por rebeldes chechenos. Os dois livros foram muito bem recebidos, e mesmo nesta era de crise (já estou usando “era”, pois não termina nunca) estão indo bem. Creio que são duas obras muito diferentes entre si e diferentes também da produção habitual de quadrinhos, inovando na narrativa e nos temas abordados.

Quadros de Música para Antropomorfos, clássico das HQs nacionais republicado em 2018 pela Zarabatana Books

Quais as principais lições que a Zarabatana tirou da crise das grandes livrarias que aflorou em 2018? Como a editora pretende lidar com essa crise em 2019?

A lição é: não confie em ninguém com mais de uma dúzia de lojas. Agora, como lidar com isso é uma coisa que estamos tateando e buscando alternativas (eu e tantas outras editoras), procurando participar de mais eventos, fazer promoções pontuais etc.

Como a editora está lidando com a chegada ao poder de um governo de extrema-direita que acabou com o Ministério da Cultura e que promete cortes em políticas públicas e sociais de fomento às artes?

É difícil dizer alguma coisa neste momento inicial do governo. São muitas notícias desencontradas e vários desmentidos. Com exceção do ProAC do governo do estado de São Paulo – que é muito importante e creio que irá continuar –, as políticas culturais federais não impactam muito em uma editora pequena como a Zarabatana, na verdade ficamos à margem delas. Já participei de muitos editais do antigo PNBE e tive apenas um livro selecionado: Bando de Dois. O atual PNLD está mais complexo e cheio de exigências que seria difícil para uma editora pequena cumprir. Vamos analisar quando abrirem novos editais. Se abrirem. Isso diretamente. Indiretamente, é preciso avaliar com o tempo. Editorialmente, acredito que temos que, dentro do possível, procurar publicar livros que enfrentem esta guinada conservadora, como é o caso da HQ Gibi de Menininha, uma parceria da Zarabatana com Germana Viana e outras 12 autoras e que traz “histórias de terror e putaria”, como explica o subtítulo.

Tiras do quadrinista argentino Liniers presente no 10º álbum da série Macanudo
Entrevistas / HQ

O Manifesto Comunista em Quadrinhos, Marcello Quintanilha, Ed Piskor, Camilo Solano e Juscelino Neco: confira os lançamentos da Veneta para os primeiros meses de 2019

A editora Veneta adiantou para o Vitralizado os principais lançamentos do selo nos quatro primeiros meses de 2019. Além do já anunciado e aguardado Luzes de Niterói, do quadrinista Marcello Quintanilha, para fevereiro está prevista chegada às lojas de O Manifesto do Partido Comunista em Quadrinhos, adaptação assinada pelo britânico Martin Rowson para o texto escrito em 1848 por Karl Marx e Friedrich Engels.

“Rowson transforma em desenhos a lógica furiosa e sarcástica de Marx. Até os não-marxistas irão se divertir”, promete o editor Rogério de Campos em papo com o blog em relação ao trabalho do quadrinista inglês, cartunista do jornal The Guardian.

Para março está agendado o segundo volume da série Hip Hop Genealogia, do quadrinista norte-americano Ed Piskorentrevistado aqui no blog em 2016, quando saiu o primeiro volume da coleção em português. Outra novidade é o livro Uma História da Tatuagem no Brasil, de Silvana Jeha. Em abril deverão chegar às lojas Fio do Vento, próxima HQ de Camilo Solano, e a adaptação ainda sem título de Juscelino Neco para o clássico Reanimator (1985).

Fiz uma breve entrevista por email com Rogério de Campos, editor da Veneta, sobre esses primeiros lançamentos do selo em 2019. Ele também comentou a repercussão de alguns dos títulos publicados pela editora no ano passado e perspectivas relacionadas ao mercado editorial brasileiro em crise. Saca só:

Quadro de Luzes de Niterói, o mais recente trabalho de Marcello Quintanilha

Você pode, por favor, comentar alguns dos lançamentos da editora em 2019?

Pensamos aqui a respeito da Veneta ficar mais comportada, mais adaptada aos novos tempos medievais. Mas não é de nossa natureza, assim um dos primeiros lançamentos do ano é o Manifesto Comunista em Quadrinhos. Uma adaptação criada pelo celebrado desenhista e escritor inglês Martin Rowson, o grande herdeiro da tradição inglesa do sarcasmo desenhado, uma tradição que vem lá dos tempos do James Gillray e que gerou o Monty Python, por exemplo. E Rowson transforma em desenhos a lógica furiosa e sarcástica de Marx. Até os não-marxistas irão se divertir. Mas não é recomendável para crianças: elas podem se tornar comunistas!

Três das principais publicações da Veneta em 2018 foram A Terra dos Filhos, Ayako e O Perfeito Estranho. Qual foi o retorno do público em relação a esses títulos? Vocês planejam publicar outras HQs do Gipi no Brasil? Há planos para mais mangás e outros quadrinhos do Osamu Tezuka?

A recepção foi ótima, não é? E veja: A Terra dos Filhos é o mais recente livro de um autor contemporâneo, o italiano Gipi. Ayako é uma HQ publicada originalmente em 1972 e O Perfeito Estranho reúne HQs que Krigstein criou na década de 50. No entanto, todas as três são igualmente vivas, surpreendentes. Ou seja, encontramos o novo em todos os lugares, até no passado.

Quadro de Luzes de Niterói, o mais recente trabalho de Marcello Quintanilha

Os dois nomes mais consagrados dos quadrinhos brasileiros contemporâneos são publicados pela Veneta, Marcelo D’Salete e Marcello Quintanilha. Além do já anunciado Luzes de Niterói, há planos para outras obras deles para breve?

Acho que uma das razões da minha boa relação com os autores é que eu não costumo chateá-los tanto com cobranças. Os livros vêm no seu tempo.

E em relação a jovens autores brasileiros, vocês têm em vista projetos de autoria de novos nomes da cena nacional de HQs?

Sim! Aliás autores e autoras. É uma pena o mercado brasileiro estar essa lástima, porque a produção de quadrinhos de hoje é talvez a melhor de todos os tempos. Gostaria de lançar vários novos autores por mês.

Quais as principais lições que a Veneta tirou da crise das grandes livrarias que aflorou em 2018? Como a editora pretende lidar com essa crise em 2019?

Grandes mesmo são as pequenas.

Como a editora está lidando com a chegada ao poder de um governo de extrema-direita que acabou com o Ministério da Cultura e que promete cortes em políticas públicas e sociais de fomento às artes?

Prefiro não comentar. Do jeito que a foi a primeira semana do governo, arrisca ser ex-governo quando você publicar a entrevista.

A capa da edição norte-americana do segundo volume da série Hip Hop Genealogia, do quadrinista Ed Piskor
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Papo com Jeff Smith, o autor de Bone: “A filosofia de Peanuts, os estilos de Carl Barks e de Walt Kelly, a humanidade de Krazy Kat são o que me trouxe aos quadrinhos”

Entrevistei o quadrinista Jeff Smith, autor do clássico Bone, sobre o lançamento do primeiro volume da versão em cores da série no Brasil. A obra rendeu dez prêmios Eisner e 11 Harvey ao autor e fez dele um dos grandes nomes dos quadrinhos mundiais. A promessa da editora Todavia é que as duas coletâneas que fecham a coleção sejam lançadas no país até o final de 2019. Transformei a minha conversa com o artista em matéria para o jornal Folha de São Paulo e você confere o meu texto clicando aqui – recomendo a leitura da matéria para que você compreenda um pouco mais da jornada de Smith e Bone até o lançamento dessa edição brasileira.

Reproduzo a seguir a íntegra da minha entrevista com Jeff Smith. Na nossa conversa ele falou sobre as origens dos primos Bone ainda na sua infância, comentou as principais influências de sua formação como artista, abordou os desafios de manter uma série independente de 55 edições ao longo de 13 anos e adiantou um pouco sobre seu próximo projeto. A entrevista foi traduzida pelo jornalista, crítico, pesquisador e tradutor Érico Assis (valeu pela ajuda, Érico!). Papo massa, saca só:

“Era fim dos anos 1970. Tolkien, Moebius e, óbvio, Star Wars. Foi chute e gol. Logo eu me dei conta que preferia cultura pop a artes plásticas”

Qual a memória mais antiga que você tem da presença de quadrinhos na sua vida? Eu li que os seus pais eram leitores de quadrinhos, correto?

Meu pai gostava da Mad e lia ela pra mim quando eu era pequeno. Eu amava os desenhos, principalmente Spy v. Spy e os cartuns do Don Martin. Lembro de aprender a ler sozinho com um livrinho de tiras dos Peanuts. Ainda tenho esse livrinho!

Também li que você começou a criar os personagens e o universo de Bone quando era muito jovem. Qual foi o momento em que você decidiu transformar todos esses conceitos em uma série? Você lembra do instante em que decidiu explorar o mundo de Bone?

Lembro, sim. Depois do ensino médio, quando entrei na universidade, os Bones foram parar na mesma caixa das coisas de criança. Estudei artes plásticas, mas na época tinha uma onda de fantasia na cultura pop. Era fim dos anos 1970. Tolkien, Moebius e, óbvio, Star Wars. Foi chute e gol. Logo eu me dei conta que preferia cultura pop a artes plásticas. Em 1979, desenterrei os três primos Bone e comecei a trabalhar com essa ideia de como eles podiam se encaixar em um mundo vasto e de fantasia.

“Eu sabia que personagem de cartum tinha quatro dedos, nariz gigante e pé gigante, então desenhei assim”

Por que Bones? Em termos de fantasia estamos muito mais acostumados com criaturas como elfos, trolls e hobbits, conceitos de certa forma muito mais identificáveis e acessíveis para os leitores, você não acha?

Era o que eu tinha na mão. Eles eram meus! Como você mesmo lembrou, eu inventei os três quando tinha uns cinco anos. Eu sabia que personagem de cartum tinha quatro dedos, nariz gigante e pé gigante, então desenhei assim. E eles parecem ossinhos [bones]! O importante era eles terem personalidade. Já estavam lá, nos gibis toscos que eu fiz quando era criança, o carinha normal, o avarento e o pateta.

No final das contas, Bone é uma história com início, meio e fim em mais de 1400 páginas de quadrinhos, desenvolvidas por você ao longo de mais de 13 anos. O quanto da história você já tinha definida quando começou a publicar a série? O quanto você já sabia dos rumos e do fim da história quando ela teve início?

Minha primeira rodada com o Bone impresso foi uma tira diária no jornal da faculdade. Acho que eu recebia sete dólares por tira. Foi o que eu fiz, cinco dias por semana, durante quatro anos. Como eu tive esse tempo todo, consegui errar bastante e aprender o ofício, mas também brotaram umas coisas que eu ia usar depois. Fone Bone gamado na menina da fazenda, a Espinho. A misteriosa relação entre Vovó Ben e o Dragão Vermelho. A jornada de Fone Bone e Smiley Bone às montanhas para devolver o filhote perdido. O primeiro encontro com Queixo Duro, o leão gigante, e aquela figura meio Morte que mandava nas Ratazanas; tudo virou baliza no épico que depois eu tracei pra revista. O que aconteceu com a tira foi que, como toda tira, ela não tinha fim. Era uma série infinita de piadinhas e aventuras. Eu queria uma trama de verdade, e tramas têm fim. Quando eu inventei o final, consegui usar esses pontos de parada pra criar uma trama, no que eu esperava que virasse uma série em quadrinhos épica.

“Quando eu inventei o final, consegui usar esses pontos de parada pra criar uma trama, no que eu esperava que virasse uma série em quadrinhos épica.”

Ainda sobre Bone ser essa imensa saga de 1400 páginas: você tinha consciência da etapa da história em que você se encontrava enquanto desenvolvia o quadrinho?

Tinha, sim. Tinha que ter. Estava sempre ciente da narrativa, mas às vezes me perdia na selva. Eu tinha o hábito muito ruim de fugir no roteiro quando surgia uma coisa engraçada. Humor é um ímã, no meu caso. Talvez me dê mais trabalho pra voltar à trama, mas vale a pena expandir. Eu tinha uns arquivos e anotações para não sair muito da linha, em todo caso.

Você pensa sobre as experiências distintas entre ler Bone como foi lançado originalmente e nessas coletâneas imensas? O que você acha que alguém que nunca leu Bone pode ganhar tendo acesso à sua história pela primeira vez nessas edições gigantescas?

Se estes volumes mais recentes, e lindos, são seu primeiro contato com Bone, você vai sentir toda a textura e ritmo da trama, a jornada, como um romance ou um filme. Os leitores originais de Bone tiveram a experiência seriada, de uma série em quadrinhos que saía mais ou menos de dois em dois meses. Durante treze anos, cada edição tinha que se sustentar por si só e fazer o leitor voltar pedindo mais. Tenha em mente que, naquela época, a ideia de histórias mais compridas, ou graphic novels, ainda estava no início. Não sei se alguém notou que as aventuras dos Bone estavam se armando para uma conclusão até chegarmos bem pertinho do final! Claro que eu sabia, e por isso que, mais ou menos uma vez por ano, Vijaya e eu republicávamos os gibis em livro, para os novos leitores ficarem em dia. Eram os nove volumes que você precisava ler. Em preto e branco.

Edições em preto e branco são muito mais baratas do que coloridas, ainda mais no caso se publicações independentes, como era o seu caso quando começou com Bone. Quais são os benefícios para a história do preto e branco original do seu trabalho?

Eu gosto de gibi em preto e branco. Os gibis originais de Bone, a série, eram em preto e branco. Isso em parte porque eu não tinha dinheiro pra pagar por cores, mas também porque as tiras que eu adorava, como Peanuts e Dick Tracy, eram em preto e branco. Mas não há como discutir que as versões coloridas fazem mais sucesso.

Você poderia falar um pouco sobre a sua decisão de colorir Bone? Você sempre teve em mente a possibilidade de lançar uma versão colorida?

A decisão de colorir foi, em parte, pragmática e, em parte, inspiração. Pragmática porque a maior editora de livros infantis do mundo, a Scholastic, nos procurou e queria lançar um selo de graphic novels com Bone. Uma das maneiras de renovar a história era colorir. No início eu hesitei, mas fui buscar conselhos com um dos meus ídolos, Art Spiegelman, criador da biografia gráfica Maus. Foi o Art quem me incentivou a colorir. Quando eu perguntei por quê – já que Maus, uma das inspirações para eu investir nos quadrinhos como minha arte, é em preto e branco – ele respondeu o seguinte: ‘Maus trata da guerra e devia ser em preto & branco, mas Bone trata da vida e só vai estar acabada quando estiver colorida.’

“Não sei se alguém notou que as aventuras dos Bone estavam se armando para uma conclusão até chegarmos bem pertinho do final”

Eu li uma resenha famosa de Bone, publicada pela revista Time, que diz que a série é ‘a melhor graphic novel para todas as idades já publicada’. Você tinha um público específico em mente quando começou a produzir Bone? Quais foram as suas impressões quando Bone começou a ser lida tanto por adultos quanto por crianças?

Fiquei surpreso. Quando eu lancei Bone, havia pouquíssimas crianças comprando ou lendo revistas em quadrinhos nos EUA. Isso mudou aos poucos. As graphic novels e o mangá ajudaram. Talvez eu nem devesse me surpreender, já que me esforcei para criar o gibi que eu queria ler quando criança! Hoje em dia, quando eu faço sessões de autógrafos, a fila tem adultos e crianças misturados.

Eu li várias entrevistas nas quais você fala sobre a influência de tiras de jornais na sua formação. Você poderia falar um pouco como essa influência se fez presente em Bone?

No timing do humor, quem sabe? A filosofia de Peanuts, os estilos de Carl Barks e de Walt Kelly, a humanidade de Krazy Kat são o que me trouxe aos quadrinhos. Ao mesmo tempo, são o que me prendem na prancheta.

“Quando alguém pergunta no que você trabalha, você diz ‘Eu desenho quadrinhos’ e respondem: ‘Massa! Que interessante!’ Isso não acontecia, sabe?”

Bone foi publicado pela primeira vez nos anos 90 e quase 30 anos depois nós ainda estamos aqui falando sobre essa série. O quanto você acha que o mundo dos quadrinhos mudou desde o começo da sua carreira?

Ih, cara. Tanta coisa. Tem resenhas de quadrinhos em jornais e revistas. Os gibis voltaram às mãos de milhões de crianças, você compra gibis onde tiver livros, música ou filmes. Hoje todos os filmes são de super-heróis. Quando alguém pergunta no que você trabalha, você diz ‘Eu desenho quadrinhos’ e respondem: ‘Massa! Que interessante!’ Isso não acontecia, sabe?

O que são quadrinhos para você, hoje?

Não sei uma definição específica, mas sei quando funciona. Quando uma série de imagens com palavras e figuras começa a se mexer, a transmitir tempo e espaço, aquilo ganha vida. Quando isso acontece, o leitor embarca na viagem.

Qual é o seu próximo trabalho? Você está desenvolvendo algum projeto novo no momento?

Estou trabalhando em um projeto chamado Tuki and the Dinga. É a reformulação de um projeto que eu larguei há uns anos e agora quero retomar. Ele se passa na aurora da nossa espécie, há dois milhões de anos.

A última! Você poderia recomendar algo que tenha lido, visto ou ouvido recentemente?

Recomendo tudo que foi escrito ou desenhado pelos fabulosos irmãos Bá e Moon. Atualmente estou lendo Macanudo, do argentino Liniers, e tenho uma compilação de discos ao vivo do Tom Petty em looping perpétuo. Agora eu vou fazer um sanduíche. Obrigado mais uma vez pela atenção! Tudo de bom!

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Papo com as editoras da revista A Criatura: “Tendo em vista a conjuntura política atual, surge a urgência de reafirmação da potência revolucionária das publicações independentes”

Está marcado para as 14h de domingo (16/12), em Belo Horizonte, o lançamento da revista A Criatura. A publicação é editada pelas artistas Clarice G. Lacerda, Ing Lee e Maria Trika e reúne o trabalho de 29 mulheres em homenagem ao aniversário de 200 anos do clássico Frankenstein ou O Prometeu Moderno, de Mary Shelley. Você confere outras informações sobre a festa de lançamento da revista na página do evento no Facebook. Além de um bate-papo com a presença das três editoras e de algumas das artistas presentes na publicação, o evento contará com uma exposição de trabalhos impressos na revista e show da banda Não Não-Eu.

As 76 páginas em preto e branco de A Criatura apresentam trabalhos de 29 artistas de estilos e origens distintos, além das três editoras e da responsável pelo projeto gráfico da publicação. A obra também marca a estreia do selo A Zica – capitaneado pelos editores da revista homônima que recentemente chegou ao seu quinto número.

Enviei algumas perguntas por email para Clarice G. Lacerda, Ing Lee e Maria Trika perguntado sobre o projeto. As três falaram sobre a origem d’A Criatura, justificaram a decisão de homenagear a obra-prima de Mary Shelley, trataram do processo de edição da revista e ressaltaram a importância de uma publicação independente composta apenas por trabalhos de artistas mulheres em um contexto de conservadorismo aflorado no país. Reproduzo a seguir a lista com os nomes das 33 artistas envolvidas na produção d’A Criatura e, em seguida, a íntegra da minha conversa com as três editoras da publicação. Ó:

(na imagem que abre o post, trabalho da artista Abajur presente na revista A Criatura)

Qual é a origem da Criatura? Como esse projeto teve início?

Maria Trika: A Criatura partiu de um convite dos meninos d’A Zica zine, que tinha acabado de lançar sua quinta edição através de um financiamento coletivo. O financiamento arrecadou mais do que o necessário e por isso eles decidiram investir no selo A Zica, com o objetivo de expandir e incentivar outras publicações independentes, com um recorte específico. Daí os meninos selecionaram eu, Ing e Cla para mergulharmos nessa e editar a publicação com total autonomia, sendo idealizada e realizada exclusivamente por mulheres, com o apoio financeiro d’A Zica.

Clarice G. Lacerda: Como a Maria colocou, A Criatura surgiu por um convite dos editores d’A Zica. Como felizmente a meta do financiamento coletivo foi inclusive ultrapassada, e tendo os editores recebido críticas sobre um desequilíbrio entre o número de artistas mulheres x artistas homens selecionadas para A Zica #5, optou-se que esta outra publicação, primeira a ser lançada pelo selo A Zica, fosse produzida apenas por mulheres. Em nosso primeiro encontro, os editores da Zica nos sugeriram um viés de trabalho que abordasse a colagem, ou o remix, como me lembro do João Perdigão dizer. E havia também a questão histórica: 2018 marcava o aniversário de 200 anos da criação do Frankenstein ou O Moderno Prometeu, da Mary Shelley. Colocado isso na reunião geral, eu, Ing e Maria seguimos com a conversa, pensando os possíveis de um modo feminino de trabalho, e nos perguntando o que poderia significar isso editorialmente. Conversamos um bocado sobre a obra literária e a autora que optamos por homenagear, era muito impactante pra nós imaginar uma jovem inglesa criando aquela narrativa duzentos anos atrás! Entendemos que esse monstro nunca teve nome próprio, e assim batizamos nosso projeto com o mesmo termo utilizado para nominar tal ser, assim surgiu A Criatura. Nos pareceu instigante pensar as relações entre o clássico, pioneiro da ficção científica, e as muitas formas como seguimos com o desafio de criar, de forma contínua, as mulheres que queremos ser. Decidimos que nossa metodologia de trabalho com A Criatura seria distinta daquela adotada pela A Zica, não nos interessava receber trabalhos prontos para selecionar. A chamada aberta que lançamos era sobretudo um convite ao encontro, ao diálogo, às trocas possíveis quando afirmamos o lugar de fala de cada uma. O desejo era de partilhar leituras e olhares sobre o Frankenstein, enxergar como o livro poderia reverberar hoje, como a obra, produzida num contexto tão distinto do nosso, poderia gerar ligações com o que está sendo produzido contemporaneamente por um grupo heterogêneo de mulheres.

“É uma afirmação da vida e de suas potencialidades tratar as dores que se carrega como combustível para criação de algo”

Trabalho de Paula Puiupo presente na revista A Criatura

Por que homenagear a Mary Shelley e os 200 anos da publicação de Frankstein?

Ing Lee: A obra dela foi inegavelmente um grande marco para a história da ficção científica. A narrativa de Frankenstein teve diversos desdobramentos ao longo de todos estes anos, possuindo relevância até os dias de hoje, por ser uma história que não apenas refletia os anseios de seu tempo, como também questões inerentes à existência humana, ou, ainda, como se lida com a diferença e o lugar do ‘outro’ na sociedade, cujas estruturas de poder marginalizam individualidades consideradas fora da norma vigente.

Maria Trika: Motivos não faltam, na minha opinião. Mary Shelley além de ser uma grande escritora, foi uma das poucas mulheres autoras (mas não foi a única, vale ressaltar outras precursoras como Ann Radcliffe e Jane Austen) da Literatura Gótica, durante o século 19, criando uma de suas maiores obras. Além disso, pessoalmente, tenho grande fascínio por Frankenstein, por suas peculiaridades perante aos demais clássicos sobre monstros, devido ao fato de sua monstruosidade estar relacionada diretamente a questões mais internas e abstratas como a memória, o olhar e a concepção de determinados conceitos como corpo, vida e morte.

Clarice G. Lacerda: Como a Ing colocou, a homenagem se justifica pela relevância que o livro tem ainda hoje, que o torna tão atual, pela muitas formas como ainda é possível acessá-lo e tecer caminhos de reflexão. Trata-se de uma narrativa densa, que coloca a relação morte-vida em primeiro plano, como colocado pela Maria, que não esconde o lado mais escuro, sombrio e monstruoso que todas nós temos. A narrativa trata do gesto da criação de uma forma não idealizada, mas sim problematizada eticamente, apontando as motivações e os perigos de uma ambição desmedida em desvendar os mistérios, quando há desejo excessivo de controle e poder. Mary Shelley me parece ter elaborado muitos aspectos de sua biografia, rica em doloridos desafios, na produção desta obra, e isso para mim é de relevância ímpar, de valor atemporal. É uma afirmação da vida e de suas potencialidades tratar as dores que se carrega como combustível para criação de algo, e não para a mortificação ou vitimização paralisante do sujeito. Nos debruçarmos sobre a trajetória da autora e mergulharmos em sua obra foi uma oportunidade de atualizarmos esse gesto afirmativo perante a realidade, especialmente quando vivenciávamos um período eleitoral bastante cruel. Foi uma chance de reformularmos perguntas juntamente com as artistas e a publicação é um conjunto de respostas possíveis, são trabalhos que nos colocam diante de mulheres que existem por que criam, resistem, insistem. Mulheres cheias de coragem, que estão abertas a enxergar e encaram de frente o monstro.

O evento de lançamento da revista A Criatura está marcado para o dia 16 de dezembro de 2018 em Belo Horizonte

Vocês podem falar um pouco, por favor, sobre o conteúdo d’A Criatura? Que tipo de trabalho está presentes na revista? Não é uma publicação exclusivamente de quadrinhos, correto?

Ing Lee: A publicação não se limita aos quadrinhos, abrangendo fazeres artísticos que vão desde as artes gráficas até a escrita. Tivemos inscrições de artistas de trajetórias bastante distintas e chegamos a selecionar algumas que trabalham com performance, que se interessaram pelo nosso projeto e se propuseram a experimentar outras linguagens.

Maria Trika: Correto. A publicação não é exclusivamente de quadrinhos. Na real, o conteúdo da revista é uma diversidade de trabalhos artísticos de mulheres que admiramos, que acreditamos na potência dos trabalhos e que teriam haver com a proposta d’A Criatura.

Clarice G. Lacerda: O conteúdo dA Criatura é muito heterogêneo, o que reflete também a equipe editorial formado por nós três. O grupo é formado por artistas de idades e localidades diferentes, que investigam linguagens e modos distintos de produção, o que colaborou para riqueza e potência da publicação, que contempla a diversidade, tramando relações entre singularidades. Em tempos de ‘outrofobia’ (citando um autor, Alex Castro) essa convivência editorial me parece ter grande relevância, para não dizer que se trata de uma proposição necessária.


“O conteúdo da revista é uma diversidade de trabalhos artísticos de mulheres que admiramos”

Trabalho da artista Si Ying Man presente na revista A Criatura

Vocês podem comentar, por favor, o processo de curadoria da revista? Como vocês chegaram nessas 33 artistas que tiveram trabalhos impressos nessa primeira edição?

Maria Trika: A ideia da curadoria das 29 artistas se deu da seguinte forma: após diversas conversas entre nós, as editoras, optamos por fazer abrir uma chamada para mulheres – cis e trans – artistas. No entanto, ao invés de analisarmos trabalhos já prontos, pedimos as candidatas que enviassem seus portfólios e uma ‘carta de intenção’ (só que sem tanta formalidade hahaha) dizendo porquê gostariam de participar d’A Criatura. Optamos por essa forma por acreditarmos em um processo mais harmonioso, cuidadoso, subjetivo e acolhedor, já que desde o início fez-se claro que A Criatura demandaria um trabalho em conjunto, diferente dos moldes normativos (estabelecidos, em boa parte – se não por inteiro – por homens brancos héteros, seguindo uma lógica quase que fálica de lidar com as coisas), que aparentemente, levam o título de alcançarem maior ‘produtividade’.

Ing Lee: Assim como a Maria disse acima, optamos por um processo diferente do que A Zica propõe: ao invés de selecionarmos pelos trabalhos já feitos, selecionaríamos primeiramente as artistas e só assim se iniciaria a feitura dos trabalhos para a publicação, que foi acompanhada de uma forma mais individualizada e levando em conta as particularidades de cada uma. Foi um processo que nós editoras pensamos ser mais acolhedor e visando estabelecer um vínculo mais próximo das artistas envolvidas.

Clarice G. Lacerda: 33 é o total de mulheres da equipe: três editoras, eu, Ing, Maria; Ana Paula Garcia, artista gráfica que integrou a equipe; e as 29 mulheres criadoras. Na real selecionamos 30 mulheres a partir da chamada aberta, mas uma delas optou por se dedicar integralmente à campanha do Haddad depois do resultado do segundo turno da eleição presidencial. Daí ficamos com esse número meio curioso, 29, pois não havíamos selecionado suplentes. Como Ing e Maria disserem, a seleção foi feita a partir da análise das trajetórias e pesquisas das inscritas, recebemos 95 inscrições no total. Levamos em consideração a relação entre o percurso de cada uma com o universo técnico e simbólico da colagem, e as conversas possíveis com questões que nos interessavam na leitura do Frankenstein. Como cada editora tem um perfil muito distinto, ponderamos juntas para chegarmos num grupo que contemplasse as diferenças que já identificávamos entre nós três.


“O resultado final da publicação é uma evidência da consistência que essa escolha editorial mais afetiva proporcionou para A Criatura”

Trabalho de artista Maira Públio presente na revista A Criatura

Vocês podem falar um pouco, por favor, sobre o processo de edição da revista? Como foi o trabalho de editar e reunir todas as publicações que vocês receberam?

Clarice G. Lacerda: Não recebemos publicações. As inscritas nos enviaram portfólios, sites pessoais, etc., para que pudéssemos conhecê-las um pouco. Cada editora teve a chance de se posicionar criticamente diante da trajetória das inscritas, e assim chegamos no grupo de 30, que depois passou a ser de 29. Confiamos nas mulheres que selecionamos, confiamos na abertura ao diálogo, confiamos em nós mesmas, e isso se refletiu na riqueza do processo editorial. Depois da seleção, fizemos uma reunião geral com todas as selecionadas, antes delas produzirem os trabalhos para A Criatura. Nesta ocasião, já havíamos definido o formato estrutural do projeto gráfico, que foi apresentado para o grupo: cada mulher criadora ocuparia o espaço de uma lâmina, frente e verso, e faria também uma parte do corpo, a ser escolhida livremente, para um pôster que a Ana Paula Garcia, nossa artista gráfica, iria compor. A publicação é na verdade um bloco, composto por este conjunto de lâminas, e um pôster que, dobrado, funciona como sobrecapa. É um corpo gráfico formado por partes distintas, que pode ser fragmentado de acordo com o desejo do leitor. Cada parte tem sua autonomia – tanto no bloco como no pôster –, e o conjunto conforma uma composição inusitada, tem um estranhamento ali que nos conecta muito com a ideia do monstro, da criatura da Mary Shelley. O bloco é formado por esses encontros, um tanto ocasionais, pois seguimos a ordem alfabética para ordenação das lâminas. Ao longo do processo criativo, dividimos o grupo das 29 selecionadas entre as três editoras, e assim pudemos dar assistência direta e ter uma interlocução mais próxima com as mulheres em seu processo criativo. Foi essencial esse tipo de metodologia pautada no acolhimento e no diálogo, sinto que o resultado final da publicação é uma evidência da consistência que essa escolha editorial mais afetiva proporcionou para A Criatura.

Maria Trika: Acredito que a Cla pode dizer melhor sobre isso, por ter mais experiência nessa questão. Talvez, eu consiga dizer mais sobre o processo afetivo, desde sua concepção, já estava estabelecido que A Criatura lidaria com muita pluralidade, por tratar-se de sensibilidades, subjetividades e, literalmente, corpos diferentes unidos para criar um só – que seria a publicação. Diante desse fato, nos, editoras, optamos por transformar essa união em potência de vida e não de morte. Transformar em vida, a junção de várias partes mortas (não necessariamente), como acontece com a criatura do livro. A partir daí, o processo foi de muita paciência, dedicação, respeito e aprendizado. Digo por mim, mas isso foi extremamente desafiador em certos momentos. Cada um habita o mundo de um jeito e fazer com que a diversidade mantenha-se enquanto potência, exige que a gente se flexibilize em alguns pontos, se desapegue de outros, resista em alguns momentos, fale e, principalmente, pare para ouvir e olhar o outro – de fato – (taí algo revolucionário, na atual conjuntura mundial e brasileira). E essa movimentação-dança entre sua existência e a do outro já é um aprendizado imenso, agora imagine isso enquanto ponto de partida para criar algo-outro corpo-mundo.

Quais as principais expectativas que vocês tinham em relação à revista e o que mais surpreendeu vocês em relação ao resultado final?

Clarice G. Lacerda: Eu tinha a expectativa de que uma metodologia editorial baseada em acolhimento, empatia, diálogo e reflexão conjunta gerasse uma publicação consistente, que desse um passo além, e mais aprofundado, em relação ao lugar comum, e um tanto simplista, que costumamos tratar a ideia de monstruosidade. O que me surpreendeu foi a maneira generosa e engajada como as mulheres realmente toparam encarar de frente a tarefa, enquanto atravessávamos um período de muita instabilidade no Brasil, a coragem do grupo em superar os efeitos deste terror e se afirmar criativamente no mundo chega a me dar arrepios. Os trabalhos d’A Criatura demonstram uma disposição, um fôlego para desmontar e reordenar formas de encarar ‘o lado mais negro’ que me chega como sopro de lucidez e saúde num contexto apinhado de perversidades. É muito bom se surpreender com a força feminina, dá uma esperança e um aconchego, estamos juntas e somos fortes.

Ing Lee: Nunca tive experiência como editora antes, então pra mim tudo foi muito novo e diferente, não tinha muito como prever o que sairia dali, mas desde o início fiquei bem animada com a proposta! O resultado final foi incrível, fico feliz por poder participar de uma iniciativa que abre espaço para várias mulheres criadoras de lugares e vivências tão distintas entre si. Tivemos a presença de artistas mais experientes e outras mais novas, combinação que deu super certo e que foi muito gratificante.

Maria Trika: A gente sempre se surpreende quando a ideia torna-se corpo, né?! E nesse caso a surpresa foi enorme, não por esperar menos das meninas ou algo assim, muito pelo contrário. A surpresa se deu porque ficou ‘lindimais’ e sentir esse encantamento, orgulho e admiração de uma só vez surpreende a capacidade de sentir da gente.


“Não estamos reafirmando um suposto feminino docilizado e bem comportado, estamos revelando o monstro, olhando ele nos olhos, arrancando suas vísceras e fazendo arte com elas, criando outra coisa, parindo o novo”

Trabalho da artista Elisa Carareto presente na revista A Criatura

A revista está saindo às vésperas da posse de Jair Bolsonaro na presidência e em um contexto de conservadorismo crescente no país. Qual vocês consideram o papel potencial de uma publicação independente como A Criatura, editada por mulheres e com obras apenas de mulheres, dentro desse cenário catastrófico?

Clarice G. Lacerda: Como disse antes, A Criatura, em seu próprio processo de criação, já refletiu muito uma das respostas que nos foi possível dar para esse tipo de cenário. Para mim, a catástrofe, como tudo, é transitória. Não creio ser produtivo exaltar uma narrativa dramática, de lamento e vitimização. Enxergo nesses momentos de crise uma oportunidade de desmoronamento e renascimento únicas, é um presente dependendo da forma como optamos encarar e nos posicionar diante da dor e do horror, que são essencialmente parte da vida desde que o mundo é mundo. Aqui reside a beleza da escolha e do livre arbítrio, do sujeito que é autor real de sua narrativa de vida singular. Sinto que a escolha do Frankenstein e a escuta da voz de Mary Shelley foram muito acertadas para esse momento. Não estamos reafirmando um suposto feminino docilizado e bem comportado, estamos revelando o monstro, olhando ele nos olhos, arrancando suas vísceras e fazendo arte com elas, criando outra coisa, parindo o novo. A potência do feminino, para mim, está muito nisso, no dom de gestar a vida no escuro das entranhas, de suportar a dor dilacerante para dar à luz ao outro. É a beleza da cadela lambendo a cria recém-nascida e comendo a própria placenta para ter energia e assim gerar o leite que amamentará a ninhada. O amor é também escatológico, tudo que vive gera resto. Falo da gestação, do parto e da criação como forças simbólicas, para além daquela fisiologia literal. É a força enlaçada da vida e da morte, pulsantes nisso que nada nem ninguém poderá calar, como dizem algumas mulheres que muito admiro, a força que faz o novo vir é inegociável. É isso, diante do horror, a nossa resposta foi criar A Criatura, e ela veio em bloco.

Ing Lee: Não é de hoje que corpos racializados, LGBTQ+, periféricos, de mulheres e pessoas com deficiência sofrem com marginalizações… A luta segue como sempre seguiu, ela é contínua e forte. Mas é preciso repensar e redefinir estratégias de resistência. Tendo em vista a conjuntura política atual, surge a urgência de reafirmação da potência revolucionária das publicações independentes. Penso esta postura não somente em relação à nossa Criatura, mas para o cenário independente como um todo, que é justamente buscar meios de resistir por meio da união e acolhimento, priorizando a circulação dos trabalhos e ocupando espaços.

Maria Trika: A resposta é meio manjada já né. As mulheres, xs negrxs, LGBTQ+ e as pessoas periféricas, representam tudo que o governo que o dito novo presidente da república, ou pelo menos a imagem dele, é contra, que matar, aniquilar, violentar, oprimir e repreender. Por isso A Criatura já é parida no mundo calcada com o signo de resistência.


“É muito bom se surpreender com a força feminina, dá uma esperança e um aconchego, estamos juntas e somos fortes”

Há planos para que A Criatura seja uma publicação periódica? 

Clarice G. Lacerda: Estou completamente dedicada à parir, como o devido cuidado e rigor, essa Criatura que será lançada muito breve. Não gestamos gêmeos, vai vir um ser só por agora. O depois, é sempre um mistério.

Ing Lee: Por enquanto não temos nenhuma previsão disso. Não vejo sentido em uma continuidade d’A Criatura em si, mas espero que nossa publicação engatilhe novas articulações do gênero e estou sempre aberta à novas propostas!

Maria Trika: Isso ainda não foi conversado formalmente, mas nunca se sabe.

A capa e a 4ª capa da revista A Criatura

Entrevistas / HQ

Papo com os autores da coletânea Porta do Inferno: “A gente vê o diabo diariamente e faz de conta que não”

Os editores e quadrinistas Lobo Ramirez (Escória Comix) e Luiz Berger (Gordo Seboso) uniram forças para lançar a coletânea Porta do Inferno. O álbum de 76 páginas reúne histórias assinadas pelos dois editores e outros quatro artistas: Emily Bonna, Victor Bello, Diego Gerlach e o quadrinista mexicano Abraham Diaz. A obra tem início com um enredo assinado por Berger mostrando a abertura da porta do inferno na terra e as HQs seguintes apresentam algumas das consequências desse ocorrido, tendo o narrador Caio Tira-na-Cara como o responsável por conduzir o leitor ao longo do álbum.

Autor do épico ASTEROIDES – Estrelas em Fúria, lançado em março de 2018, em parceria da Escória Comix com a Ugra Press, Lobo Ramirez é das figuras mais ativas da cena brasileira de quadrinhos. Em 2017 ele publicou os celebrados NÓIA – Uma História de Vingança (Escória Comix/Vibe Troncha Comix), de Diego Gerlach, e os dois volumes do já clássico Úlcera Vórtex, de Victor Bello. Nove meses após ASTEROIDES, ele publica a parceria com Berger para encerrar o ano de seu selo pessoal com a coletânea de histórias de horror, morte e destruição protagonizadas pelos demônios de Porta do Inferno.

Após responder à breve entrevista a seguir e revelar o primeiro lançamento de sua editora para 2019 (O Alpinista, de Victor Bello), Lobo Ramirez entrevistou cada um dos cinco autores de Porta do Inferno para o Vitralizado. Nas conversas, os artistas falam sobre as inspirações para suas histórias na publicação e expõem suas suspeitas em relação à vinda do anticristo à terra. Saca só:

– LOBO RAMIREZ –

As portas do inferno estão abertas em território brasileiro?

Lobo Ramirez: Escancaradas.

Qual foi a inspiração de vocês para esse formato, com vários autores escrevendo histórias com a mesma temática?

Lobo Ramirez: A real é que esse era pra ser um quadrinho longo do Berger, mas ele desencanou de terminar e eu fiquei enchendo o saco pra lançar porque as páginas eram fodas. Então surgiu a ideia de chamar um pessoal e continuar a historia do ponto que ele parou. Eu não sei se tem alguma coisa nesse formato específico, já deve ter, mas de toda forma eu achei interessante o resultado e quero tentar outros títulos nesse mesmo estilo.

Quais será a próxima investida da Escória Comix?

Lobo Ramirez: Bom, oficialmente confirmado e em produção é um quadrinho do Victor Bello cujo título revelarei exclusivamente agora: O Alpinista, um gibi que ele vem produzindo desde o começo de 2018. Mas já tenho previstos outros 14 títulos novos para 2019, então vai ser um ano de varias investidas. Deus me acuda.

Um painel do quadrinista Luiz Berger presente em Porta do Inferno

– LUIZ BERGER –

LOBO RAMIREZ: Você já participou, como convidado e editor, de diversas antologias de quadrinhos, reunindo nomes nacionais e internacionais. Alguns nomes se repetem nessas publicações, por que Porta do Inferno é diferente das outras?

Luiz Berger: Sim, vários nomes se repetem e acho que vão continuar se repetindo nas próximas antologias. Eu gosto de seguir uma linha editorial com uma identidade, que é bem parecida, ou até igual, à do lobo ramirez. O que difere a Porta do Inferno das anteriores, é que nessa não são só histórias que seguem um tema, como a revista Goró, que reunia histórias sobre bebida, colocadas meio que em ordem aleatória. Nesse caso, as histórias começam do mesmo ponto, da porta do inferno que foi aberta no final da primeira história do gibi, e todas estão conectadas pelos comentários do personagem-narrador Caio Tiro-na-Cara, como em várias revistas de terror dos anos 50. Acho que essa revista está muito mais bem amarrada que as anteriores.

LOBO RAMIREZ: Quando você vai largar mão de ser trouxa e começar a produzir quadrinhos de merda com mais frequência?

Luiz Berger: Acho que esse ano eu volto a fazer com muito mais frequência. Editar essa revista me deu um belo ânimo pra voltar com o Gordo Seboso.

– ABRAHAM DIAZ –

LOBO RAMIREZ: Você já participou de várias antologias de quadrinhos, incluindo Goró (Gordo Seboso), que tem três dos quadrinistas presentes na Porta do Inferno. Há muitos outros quadrinistas nesse meio mais podre no México? Ou você acha que há uma cota de retardados dos quadrinhos por país?

ABRAHAM DIAZ: No México, o quadrinho marginal está apenas começando a se desenvolver. Sem dúvida, há muitos cartunistas começando a publicar quadrinhos podres e eu acho que nos próximos anos haverá um boom nos quadrinhos mexicanos e na arte em geral.

LOBO RAMIREZ: Você acha que Porta do Inferno é mais uma imagem de um bando de marginais falando sobre o diabo, cocô, violência e blasfêmias gratuitas?

ABRAHAM DIAZ: Sim, eu acho que Porta do Inferno é isso, mas eu também acho que não poderia ser outra coisa hahaha

– EMILLY BONNA –

LOBO RAMIREZ: Conte-nos um pouco sobre sua relação com quadrinhos. Você tem um trabalho com ilustração, mas já tinha feito quadrinhos antes? Qual a diferença entre produzir um quadrinho e uma ilustração?

Emilly Bonna: Na infância não cheguei a ler muitos quadrinhos, mas me chamava atenção a estrutura deles, que possibilitava contar histórias através de desenhos. Comecei a fazer breves historinhas pra mim mesma aos nove anos e, conforme foi passando os anos, continuei fazendo quadrinhos e zines bem amadores e com pouca circulação. Na ilustração eu posso passar uma ideia rápida do que quero expressar e nos quadrinhos as formas de explorar um tema são mais amplas.

LOBO RAMIREZ: Por que você aceitou fazer parte desta patotinha horrível de pessoas degeneradas? Não tem medo do que vão falar de você na igreja?

Emilly Bonna: Eu estava no culto da igreja Deus é Amor e no meio da oração, Jesus, na forma do piolho da irmã que estava na cadeira da frente, me disse: ‘Participe de uma HQ de alto grau satânico para enaltecer o Diabo, tô brigado com meu pai Deus, quero deixar o véio puto’. E então cumpri o pedido de Cristo, amém. Não tenho medo do que vão falar pois já envenenei todos os membros da igreja com cianeto misturado no suquinhos Tang de uva.

– VICTOR BELLO –

LOBO RAMIREZ: Na história Fuim, o Xupador de Ossos, mesmo em poucas páginas, você insere uma vasta gama de personagens e parece que a qualquer momento podemos acompanhar qualquer um deles com uma história diferente. Nessa história específica, quais foram suas inspirações para os personagens?

VICTOR BELLO: Nessa história eu quis fazer uma investigação estilo Arquivo X. O demônio não teve uma inspiração específica, mas os personagens da gangue que trafica cascos de tartaruga eu me inspirei em personagens aleatórios de filmes da produtora Troma, gente esquisita. Outros, como as vítimas, busquei as características em típicos personagens que morrem em filmes slashers, então uma das vítimas é um jovem pixador que usa drogas, o outro é um pescador que pesca tartaruga em extinção. São pessoas que num filme slasher são descartáveis. O jovem pixador é parecido também com personagens de propaganda cristã anti-drogas.

LOBO RAMIREZ: Não te incomoda os editores dessa revista claramente estarem ganhando milhões às custas de jovens talentos?

VICTOR BELLO: Incomoda. E me incomoda tanto que pretendo roubar toda a fortuna desses dois em um golpe que já está em curso e assim montar minha própria editora. Os contratarei com carteira assinada, pagarei um salário e os tratarei com toda decência.

– DIEGO GERLACH –

LOBO RAMIREZ: Fazer parte do gibi Porta do Inferno é mais uma de suas participações numa antologia de quadrinhos. Qual o lugar você enxerga que essa história tem dentro do seu trabalho? Ela dialoga de alguma forma com a sua produção atual ou cada título,  cada quadrinho, se adequa a necessidades específicas?

DIEGO GERLACH: Acho que tem as duas coisas, sempre dialoga com as outras HQs que tenho feito e por outro lado também sempre supre uma necessidade específica. Essa HQ pra Porta do Inferno tem umas coisas que vinha fazendo em outros trabalhos (grids fixos, desenho digital fotoreferenciado), mas ao mesmo tempo a demanda era específica (e inédita pra mim): uma HQ de terror com uma pegada clássica. Levou um bom tempo pra ser concluída, ela meio que mudou de rumo e acabei incorporando alguns elementos de uma lenda urbana que me foi contada algumas vezes na época em que fazia catequese. O terço final foi criado no intervalo do primeiro pro segundo turno das eleições de 2018.

LOBO RAMIREZ: Você acha que o verdadeiro anticristo vira à terra como um homem de deus?

DIEGO GERLACH: Como ateu criado no catolicismo, o diabo pra mim é o conceito alegórico definitivo… Mesmo que não exista um ‘verdadeiro’. Tem vários ‘homens de deus’ que são o diabo em pessoa (preciso dar exemplos…?), vão na direção diametralmente oposta dos ensinamentos do mito crístico. É isso: a gente vê o diabo diariamente e faz de conta que não. (Como curiosidade, meu avô queria que eu me tornasse padre.)