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Entrevistas / HQ

Papo com Ing Lee, a autora de Karaokê Box: “Gosto muito de ir a karaokês porque lá não preciso estar necessariamente falando dos meus sentimentos pra poder expressá-los”

Karaokê Box é o primeiro projeto solo da quadrinista Ing Lee. Uma das autoras da revista Sam Taegeuk (finalista do prêmio Dente de Ouro 2019 na categoria Quadrinhos) e uma das editoras da coletânea A Criatura, ela narra em seu mais recente trabalho uma noitada em um karaokê no bairro da Liberdade, em São Paulo.

Em conversa com o blog por email, a autora conta como a HQ começou a ganhar forma durante uma ida dela ao karaokê no qual a história é ambientada enquanto ela passava por um momento de introspecção. “Não sou uma pessoa muito boa pra lidar com sentimentos”, diz Lee. “Daí creio que tentar extravasar isso artisticamente seja uma forma mais ou menos saudável, um processo meio ressignificativo e de cura até”, afirma.

Há dois eventos de lançamento para Karaokê Box marcados para as próximas semanas: o primeiro deles na próxima sexta-feira, dia 17 de maio, a partir das 18h, na loja da Ugra, em São Paulo; e o segundo na cidade natal da autora, Belo Horizonte, no Calabouço Karaokê, dia 23 de maio, a partir das 19h30.

Na conversa a seguir, Ing Lee conta um pouco mais sobre as origens de Karaokê Box, comenta a decisão de imprimir as 24 páginas do quadrinho em risografia, fala sobre a paixão dela por karaokês e revela as músicas que ela mais gosta de cantar. Saca só:

“Ouvi muito Depeche Mode, New Order, Tears for Fears e Pet Shop Boys enquanto desenhava”

Ilustrações de Karaokê Box, trabalho da quadrinista Ing Lee

Eu queria saber um pouco mais sobre os seus gostos e as suas influências. O que você gosta de ler, ouvir e assistir? Tem algum artista com alguma influência maior no seu trabalho? Tem algum artista em particular que você admira e serve de inspiração para você?

Eu gosto muito de cinema leste-asiático, principalmente taiwaneses e sul-coreanos. Meus filmes preferidos são Yi Yi (2000); That Day, on The Beach (1983); e Terrorizers (1986), do Edward Yang; Rebels of Neon God (1992), do Tsai Ming-Liang; Chungking Express (1994), do Wong Kar-Wai, e mais outros nessa pegada de melancolia urbana, que me inspiram bastante nos meus trabalhos envolvendo HQs. De mangá, amo Akira (Katsuhiro Otomo), Oyasumi Punpun (Asano Inio) e Tekkonkinkreet (Taiyo Matsumoto), e tenho eles como referência para mim no que diz sobre quadrinhos. Agora, de música, posso dizer que minha playlist durante todo o processo dessa HQ consistiu em músicas dos anos 80, hehehe. Ouvi muito Depeche Mode, New Order, Tears for Fears e Pet Shop Boys enquanto desenhava!

Um quadro de Karaokê Box, trabalho da quadrinista Ing Lee

Você poderia me falar um pouco sobre a origem de Karaokê Box? Como e quando surgiu a ideia de fazer essa HQ?

Então… A ideia veio do nada. Assim, veio no meio de um rolê que eu tava dando com um querido amigo (oi Thiago Han!!) em que fomos só nós dois pra uma cabine de karaokê às 14-15h, em plena segunda-feira. Daí tive algumas ideias de falas que foram o ponto de partida de uma história em quadrinhos que se passasse num karaokê. Eu tava tendo um momento meio introspectivo… Digo, passando por umas questões íntimas difíceis de lidar e fiquei pensando que gosto muito de ir a karaokês com meus amigos, porque lá não preciso estar necessariamente falando diretamente dos meus sentimentos pra poder expressá-los – e, bem, isso inclusive virou uma fala na história. Não sou uma pessoa muito boa pra lidar com sentimentos, daí creio que tentar extravasar isso artisticamente seja uma forma mais ou menos saudável, um processo meio ressignificativo e de cura até.

Eu meio que tenho que fazer meu TCC neste semestre, mas precisava antes fazer essa HQ… A vontade surgiu como um puta impulso e eu senti que só ia conseguir tocar outros projetos se a fizesse. Então eu fui e fiz, em uma semana mais ou menos, basicamente num modo turbo de produção, eu peidei uma HQ completamente nova! Tcharam, assim nasceu a Karaokê Box!

“Eu já tenho toda uma playlist pré-definida de músicas que sempre canto, geralmente começo com Sweet Dreams, do Eurythmics, e sempre acabo pegando alguma do Depeche Mode, é o meu ritualzinho…”

O banner do evento de lançamento de Karaokê Box, trabalho de Ing Lee, em Belo Horizonte

Você me falou que gosta muito de karaokê, por que essa paixão? Como ela surgiu?

Volta e meia acabo indo pra São Paulo né, daí desde 2014 uma das coisas que mais gosto de fazer por lá, é ir aos karaokês de cabine. É algo sagrado pra mim, parada obrigatória! Daí aproveito e chamo várias pessoas que fazia tempo que não via, mato as saudades, de quebra canto as músicas que gosto até ficar rouca – e posso até chorar no fumódromo (ou no banheiro…). Eu já tenho toda uma playlist pré-definida de músicas que sempre canto – por exemplo, geralmente começo com Sweet Dreams, do Eurythmics, e sempre acabo pegando alguma do Depeche Mode (embora ache elas difíceis de cantar), é o meu ritualzinho…

Um dos karaokês que eu mais gosto de ir é o Okuyama, que fica na Rua da Glória, tanto por ele ser mais podreira (e consequentemente, mais barato, hehe), como também é um lugar que me agrada esteticamente. E foi justamente o Okuyama que usei como cenário para a Karaokê Box, numa tentativa de resgatar um pouco o carinho que tenho pelas noitadas passadas lá com meus amigos paulistas. Também curto karaokês de palquinho, mas é que onde eu moro (Belo Horizonte), não tem nenhum de cabine privada, que você aluga a sala por hora e tem o karaokê todo pra você, então acaba virando um momento mais próximo e aconchegante entre as pessoas que estão dividindo a mesma cabine com você.

Um quadro de Karaokê Box, trabalho da quadrinista Ing Lee

Você chegou a fechar um roteiro antes de começar a desenhar o quadrinho? Você me contou que desenha com o mouse do computador, certo? Você pode contar um pouco mais sobre as suas técnicas?

Sim! O ponto de partida foi aquilo que falei acima, pensei ‘putz, vou fazer um quadrinho que se passa num karaokê e a personagem TEM que falar isso’ (que gosta de ir à karaokês porque é um lugar onde você pode se expressar sem necessariamente *falar* diretamente sobre seus sentimentos). Aí fiz todo um estudo compilando referências de fotos do Okuyama de diversos ângulos, porque eu queria retratar o lugar da forma mais fiel possível… Pesquisei pela tag marcando o lugar no Instagram de contas de terceiros, cheguei a pedir no Stories pra me mandarem fotos do local caso alguém tivesse e no meio disso uma amiga minha chegou a IR pro Okuyama só pra tirar fotos do banheiro e do fumódromo, porque eu não encontrava de jeito nenhum fotos desses ambientes, e ela morava ali perto (Samantha Oda, anja d++). Então planejei a história de acordo com os ambientes, começando pela fachada do karaokê na rua, depois entrando, subindo as escadas, indo pra cabine, depois fumódromo, banheiro e assim vai…

E, é, eu vendi minha mesa digitalizadora tem um tempo porque eu acabei me adaptando melhor com o mouse pra desenhar digitalmente do que com a mesa. Geralmente já faço tudo no formato direitinho, porque uso a ferramenta lápis no Photoshop e não vetor, pra que o traçado saia fiel na impressão.

“Desde o começo já tinha escolhido a paleta de cores, que eu gosto bastante, que é o rosa flúor, amarelo e medium blue da riso”

Ilustrações de Karaokê Box, trabalho da quadrinista Ing Lee

E eu gosto muito das suas cores. Por que essas cores? Como você define a paleta do quadrinho?

Obrigada!! Eu sou meio metódica, gosto de já deixar tudo definido antes de começar de fato a executar o projeto, deixando o formato já planejado, assim como a paleta de cores, o número de páginas e etc. Sem isso não consigo começar a fazer, porque se não eu não visualizo como ficará o resultado aí eu travo. Então desde o começo já tinha escolhido a paleta de cores, que eu gosto bastante, que é o rosa flúor, amarelo e medium blue da riso.

Karaokê Box será impresso em risografia. Por que essa técnica? Como ela contribui para o projeto final?

Minha primeiríssima zine, A Boneca, de 2016, foi impressa em risografia, com rosa flúor e amarelo. Foi bem amador e tal, mas eu gostei bastante do resultado na época e me agrada bastante as paletas da risografia. Daí pude explorar isso no quadrinho Humanidade, publicado no Sam Taegeuk – publicação que fiz junto com Paty Baik e Monge Han e que foi impressa em riso nas cores amarelo, vermelho e azul. O resultado ficou incrível e eu queria poder fazer mais HQs com essa técnica, daí como caiu um dinheirinho aqui, não pensei duas vezes e defini desde o começo do projeto da Karaokê Box que ela seria impressa em riso. Eu também já tinha trocado ideia com o Portilho, da Entrecampo, antes e fiquei com vontade de ter um trampo com eles, daí negociamos e fechou!

Quadros de Karaokê Box, trabalho da quadrinista Ing Lee

Você já produziu HQs para coletâneas como a Parafuso #1 (ainda inédita) e a Sam Taeguk e foi uma das editora d’A Criatura, mas essa é a sua primeira publicação solo. Eu tenho curiosidade em relação às suas expectativas com essa primeira experiência solo. Quais sentimentos estão passando pela sua cabeça às vésperas do lançamento?

Eu confesso que tô um pouco ansiosa e acabei não conseguindo me conter, daí enviei pra vários amigos me darem feedback e tal, só pra eu ter certeza de que não era só uma pira aleatória minha e se ia valer à pena… E, bom, aparentemente ficou legal, então é isso! Acabou que, além do feedback, tive bastante ajuda durante o processo de feitura da minha amiga e nova produtora gráfica do Selo Pólvora, Larissa Kamei. Ela me deu vários toques muito preciosos. Acabo fazendo tudo meio na tora e no improviso, então ter esse lado mais pé no chão durante a produção foi muito positivo pra mim!

Eu pelo menos fiquei bastante satisfeita com o resultado, foi algo que fiz muito mais por mim antes de qualquer coisa, mas que também gostaria de compartilhar com o mundo e soltá-la por aí. Vamos ver, né? Espero que o pessoal goste!

Quais são seus próximos planos para quadrinhos? Você já tem algum próximo trabalho em vista?

Então… O meu TCC vai ser em quadrinhos. O nome dele é Bulgogi de Carne Moída (bulgogi é um churrasquinho bovino coreano, que eu faço uma versão meio farofa abrasileirada com carne moída). Daí eu tô até agora criando coragem pra tocar isso e parar de enrolar, mas creio que sai, na base de muita cafeína, surto e pressão! Daí tô pensando em fazer uma tiragem pequena dele e fazê-lo circular um pouco por aí. Vai ter uma temática mais autobiográfica, envolvendo questões de identidade, etnia e memória, trazendo tudo isso pros meus processos artísticos (eu faço Artes Visuais na UFMG), e na apresentação dele pra banca eu vou servir o próprio bulgogi de carne moída pro pessoal!

A capa de Karaokê Box, obra da quadrinista Ing Lee
Entrevistas / HQ

Papo com Panhoca, editor da revista Pé-de-Cabra: “É como se o país inteiro tivesse contraído um vírus da imbecilidade máxima”

Há dois eventos marcados para o lançamento do segundo número da revista Pé-de-Cabra. O primeiro deles rola no próximo sábado, dia 11 de maio, a partir das 16h, na loja da Ugra, em São Paulo – um bate-papo mediado pelo jornalista Carlos Neto com a presença do editor Panhoca e dos quadrinistas Kainã Lacerda e Lobo Ramirez. O segundo evento ocorre no sábado seguinte, dia 18 de maio, a partir das 16h, na Itiban Comic Shop, em Curitiba – uma conversa entre Panhoca e a quadrinista Cynthia B. com mediação de Alessandro Andreola. (Na imagem acima, quadros do editorial de Panhoca para a Pé-de-Cabra #2)

Tendo como tema ‘doença’, o segundo número da Pé-de-Cabra chega às lojas especializadas pouco mais de um ano após o lançamento da primeira edição. Dessa vez, as 100 páginas da publicação contaram com a participação de 42 artistas, sendo a quadrinista Emilly Bonna, autora de Esgoto Carcerário (Escória Comix), a responsável pela capa da edição.

Conversei com Panhoca sobre esse segundo número da Pé-de-Cabra, tão impactante quanto o primeiro e candidato potencial a uma das melhores coletâneas de humor gráfico publicadas no Brasil em 2019. Na entrevista abaixo ele explica a escolha do tema da revista, comenta alguns dos quadrinhos impressos na edição, fala sobre o trabalho dele como editor e adianta algumas novidades do selo Pé-de-Cabra – estão previstas para breve coletâneas e publicações de trabalhos inéditos de artistas como Pedro D’Apremont, Diego Gerlach e Galvão Bertazzi.

Recomendo a leitura das duas Pé-de-Cabra, da minha conversa com Panhoca na época do lançamento da primeira edição da revista e também do papo a seguir. Saca só:

“Do sistema político ao teu tio fazendo piada no zapzap, tá tudo completamente fodido”

Quadros da HQ de Bruno Guma para a segunda edição da Pé-de-Cabra

Por que ‘doença’ como o tema dessa segunda edição?

Bicho, eu acho que o país tá fodido. Tipo, fodido de verdade. Os acontecimentos do fim do ano passado fizeram eu me tocar que a gente não caminha seguro. Do sistema político ao teu tio fazendo piada no zapzap, tá tudo completamente fodido. É como se o país inteiro tivesse contraído um vírus da imbecilidade máxima e prosperassem sintomas de ódio raivoso na população inteira. Eu sou um cara que vê muita TV aberta – SBT, RedeTV, o lixo mesmo – e quanto mais eu assistia, mais eu lembrava de um documentário que vi uma vez sobre cães com raiva em Moscou. Aí uma coisa meio que puxou a outra, acho que era a hora e a vez de uma revista sobre doença. Ou talvez seja porque A Zica e a Prego já tinham usado todos os temas legais que eu pensei. Acho que um pouco dos dois.

Eu acho que Emilly Bonna conseguiu uma arte tão impactante quanto a produzida pelo Pochet para o primeiro número. Você sempre teve ela em mente para produzir essa capa? Você passou alguma encomenda específica para ela na produção dessa arte?

Sim, desde o começo eu já tinha a Emilly em mente por causa de uma pintura que vi no instagram quando me apresentaram o trampo dela (essa aqui). Não foi nenhum pedido específico, só chamei a Emilly e ela topou. Acho o trabalho dela de uma qualidade absurda e fico feliz de vê-la lançando o Esgoto Carcerário. Se tivesse que apostar em algum artista como próximo HIT nacional da HQ brasileira eu botaria ela fácil nessa lista.

“Algumas coisas fugiram do controle e eu acabei me metendo numa porradaria física por política no corredor do meu prédio”

A capa do segundo número da revista Pé-de-Cabra, com arte assinada pela quadrinista Emilly Bonna

A primeira Pé-de-Cabra foi o seu primeiro trabalho como editor. Na nossa conversa quando esse número de estreia saiu, você comentou como foi uma experiência muito mais complicada do que o esperado. Como foi a produção desse segundo número?

Nessa segunda eu tive um problema inesperado no meio do processo. Algumas coisas fugiram do controle e eu acabei me metendo numa porradaria física por política no corredor do meu prédio e isso complicou muito minha vida naquele apartamento. Então enquanto eu montava a segunda edição, eu também estava em processo de mudança. Além disso eu recebi bem mais trabalhos do que da outra vez e isso dificultou a seleção. Mais uma vez, se não fosse o meu comparsa Junior (que é quem faz a parte gráfica da porra toda), eu iria entregar algo altamente porco e frustante. No final tudo deu certo na hora que tinha que dar.

“Se eu fosse vocês eu começava a guardar moedas pra comprar a Pé-de-Cabra 18, a revista à prova de vacilos”

Trecho da HQ de Pedro D’Apremont para o segundo número da revista Pé-de-Cabra

Aliás, você pode falar um pouco sobre como foi a repercussão da convocatória dessa segunda edição? Quantos trabalhos foram enviados?

Bom, se não me engano foram 207 trabalhos recebidos. Uma boa parte estava completamente fora do padrão que daria pra adaptar pro que estava sendo pedido. Por um lado ficou mais fácil selecionar os trabalhos, porque todos tinham a mesma temática, o problema de contraste imenso que tive na primeira edição foi bem mais de boa. Por outro lado, tinha trampo que não acabava mais. Tive de cortar mais coisas do que eu gostaria e ver mais e mais gente puta comigo. É meio masoquista esse rolê. Você fica lá todo dia enchendo o saco de todo mundo pra mandar trabalho e depois corta um monte e geral fica bolada. A vantagem é que grande parte deles não se conhecem, caso contrário eu tava morto. Mexer com ânimos num país armamentista é sempre meio estranho. A gente acaba vendo que tem muita gente boa no nosso meio, mas ele não é imune a filho da puta. Isso tem em todo canto. Sempre tem alguém que leva pro lado pessoal e vem vomitar merda pro teu lado.

Na nossa primeira entrevista você também comentou como a revista era totalmente diferente do projeto que você havia pensado inicialmente. Hoje, com o segundo número impresso, ele é muito diferente do que você achou que seria quando começou a desenvolvê-lo?

Acho que depois da primeira eu fui sacando melhor o que eu realmente queria. As coisas que não curti tanto na primeira não se repetiram na segunda e espero que na terceira a revista esteja melhor que a segunda. Quando eu pego as antologias brasileiras eu sempre fico comparando uma edição com a outra, olhando por cima eu arrisco dizer que todas elas só melhoram. Meu objetivo é esse, fazer sempre uma revista melhor que a outra e não morrer no processo. Se eu fosse vocês eu começava a guardar moedas pra comprar a Pé-de-Cabra 18, a revista à prova de vacilos.

“Na real eu posso ficar elogiando todo mundo que participou porque não me arrependo de nenhuma escolha dessa revista”

O cartaz do evento de lançamento da Pé-de-Cabra #2 em Curitiba, na Itiban Comic Shop

O que mais te surpreendeu nesse número? Há algum trabalho específico impresso na revista que te marcou de alguma forma?

Me surpreendeu a quantidade de artista que tá rolando por aí e eu nunca tinha ouvido falar. Marcio Bocchini e Gabriela Gulich eu conheci só quando recebi e fiquei bem impactado com a qualidade do trampo. O que mais tem no Brasil é doente, fico feliz de ter uma seleção boa disso. Além disso eu fico feliz quando recebo trabalho de gente que eu curto desde os meus primeiros passos na trajetória de leitor. A Cynthia e o Doug Firmino por exemplo eu acompanho o trabalho há uns bons anos e fico bem orgulhoso de ter publicado página deles. Na real eu posso ficar elogiando todo mundo que participou porque não me arrependo de nenhuma escolha dessa revista. Vocês tão todos de parabéns, rapeize. Se eu fosse o professor de artes de vocês, vocês nunca repetiriam de ano.

O banner do evento do evento de lançamento da Pé-de-Cabra #2, em São Paulo, na loja da Ugra

Você chegou a comentar como o primeiro número tinha uma linha editorial de certa forma centrada em oposição e niilismo. Ela se manteve nessa segunda edição?

A segunda é mais ácida que a primeira. Acho que tem uma veia cômica mais forte. Talvez por ter mais HQ que ilustração ou algo assim. De certa forma, todo mundo parece bem acostumado com a desgraça. Parece que o estrago é tão comum na nossa vida que não resta outra coisa senão rir e apertar umas espinhas. O clima de 2019 ainda é meio de abate. Todo mundo parece cabisbaixo e vidrado no celular esperando qual a desgraça cotidiana pra rir. ‘HAHA OLHA QUE IMBECIL, CORTOU VERBA DA UNB’, ‘HAHA SOBE NA GOIABEIRA’ e por aí vai. A gente tá se fodendo à rodo e ninguém sabe o que fazer nem como se organizar. Pelo menos pra tirar sarro tá um prato cheio.

“Eu nunca imaginei que essa merda toda estava do nosso lado. Pra mim era meia dúzia de gato pingado frustrado por ser calvo e não ter grana pra comprar uma moto”

Quadros do trabalho de Marcio Bocchini para a Pé-de-Cabra #2

Em março de 2018, quando a primeira Pé-de-Cabra saiu, as perspectivas eram as piores possíveis. Pouco mais de um ano depois, taí Bolsonaro eleito e nós a caminho do fundo do poço. Qual você acredita ser o papel potencial de uma revista independente de história em quadrinhos de tons subversivos em meio a essa realidade?

Em momento algum eu acreditei que ele venceria. Até o resultado do primeiro turno eu não havia percebido o poder de alienação que as redes sociais tinham em pessoas tão próximas. Tenho amigos que fecharam o pau com o próprio pai. Eu nunca imaginei que essa merda toda estava do nosso lado. Pra mim era meia dúzia de gato pingado frustrado por ser calvo e não ter grana pra comprar uma moto e entrar pra um moto clube do ABC. Aí, de repente, não são os nazistas de sempre. Você descobre que teu tio é um merda, teu cachorro é um merda, teu chefe você sempre soube porque não existe chefe que não seja um merda, né? Mas enfim, posso ficar o dia inteiro xingando. Você devia me ver bêbado. Sobre a revista eu não sei, eu meio que sempre erro meus chutes. Acho que ela pode entreter a galera que tá bitoladona com política e dar uma respirada a mais. Acho que ela pode meter todo mundo numa cela também. O negócio tá tão tenso que teve deputado federal chamando a ONU por causa de UM ÚNICO CARA COM UM NUNCHAKU falando em meter porrada em fascista e divulgando o ótimo gibi PORTA DO INFERNO (leiam, rapeize). Queria dar uma revista pra esse cara, ele merece. A gente ouve tanta história de gerações que enfrentaram a ditadura e a censura e fica nessa de surtar por causa de violência e perseguição. Espero que eu esteja fazendo a minha parte.

Quadros da HQ de Diego Gomes para a segunda edição da Pé-de-Cabra

Você já tem um terceiro número da Pé-de-Cabra em mente? No ano passado você publico pelo selo Pé-de-Cabra a HQ Realidade, do Cristiano Onofre, você planeja outras publicações do tipo? 

Sempre tenho. Por enquanto fico entre TV e Monstro como temas, mas tem muito chão até a próxima. Tudo pode mudar. Minha ideia sempre é ter a Pé-de-Cabra anual e ir lançando gibis com histórias de um único artista conforme a grana permitir. O próximo da lista é o Pedro D’Apremont com o Notas do Underground, uma compilação das HQs dele sobre rolê em shows e ambiente de música. Uns punk cheirando na calçada, metaleiros nazistas jogando RPG, hipsters sendo babaca, o pacote completo. Depois disso deve sair uma só de tiras do Galvão Bertazzi, uma compilação das histórias do Gerlach e mais uns outros projetos que ainda caminham pelas sombras. Ou seja, quando mais vocês comprarem mais eu lanço coisa nova.

Trecho do trabalho de Diego Gerlach para o segundo número da revista Pé-de-Cabra


Entrevistas / HQ

Papo com Aline Lemos, a autora de Artistas Brasileiras: “Conhecer e celebrar as artistas esquecidas pela história é um dos objetivos, pois ainda temos carência de materiais e discursos nesse sentido
”

As 80 páginas de Artistas Brasileiras reúnem histórias pessoais e profissionais de 30 mulheres nascidas até a década de 1930 cujas produções e biografias são ignoradas por grande parte da sociedade brasileira. Trabalho da quadrinista Aline Lemos publicado no fim de 2018 pela editora Miguilim, o livro será lançado em São Paulo em evento marcado para o próximo sábado (27/4), a partir das 16h, na loja da Ugra (Rua Augusta, 1371, loja 116). A sessão de autógrafos com a autora será precedida de um bate-papo entre ela e a jornalista Gabriela Borges, do selo Mina de HQ. Você confere outras informações sobre o lançamento na página do evento no Facebook.

“A história do feminismo e os estudos de gênero eram interesses que já me acompanhavam desde o mestrado em História e que levei pros quadrinhos desde o começo”, diz Aline Lemos em entrevista com o blog sobre o ponto de partida de Artistas Brasileiras. Autora de Lado Bê e Melindrosa, ela tem uma longa trajetória de projetos e estudos relacionados à sua formação como historiadora e aos seus estudos sobre a história do feminismo e os estudos de gênero, sendo esse álbum mais recente uma espécie de epítome de todos esses interesses e essas áreas de atuação.

A conversa a seguir é focada principalmente no desenvolvimento e na produção de Artistas Brasileiras. A quadrinista fala sobre o ponto de partida da HQ, as pesquisas feitas por ela para definir as personagens que protagonizam a obra e as fontes bibliográficas que utilizou. Ela também comenta a arte do quadrinho, ilustrado a tinta e colorido com computador – com paletas dialogando com a história de vida de cada artista retratada. A autora também trata do revisionismo histórico reacionário do governo de Jair Bolsonaro e adianta um pouco sobre seu novo trabalho – em breve em campanha de financiamento coletivo no Catarse. Papo massa, saca só:

“A questão da representatividade era um interesse de pesquisa e uma parte da minha própria trajetória”

Quadros de Artistas Brasileiras, álbum da autora Aline Lemos publicado pela editora Miguilim

Você abre o livro perguntando pro leitor quantas artistas brasileiras ele conhece. Esse questionamento também foi o ponto de partida do livro para você? Como esse projeto teve início?

Sim, esse foi o ponto de partida de uma pesquisa que era para mim mesma. Como minha formação inicial foi em História, eu demorei a me perceber como quadrinista e artista. A história do feminismo e os estudos de gênero eram interesses que já me acompanhavam desde o mestrado em História e que levei pros quadrinhos desde o começo. Sempre comento que os coletivos de autoras foram fundamentais pra que eu tivesse coragem de iniciar nessa carreira, com as ZiNas e o Lady’s Comics em Belo Horizonte, o Zine XXX e a Revista Inverna. Então, a questão da representatividade era um interesse de pesquisa e uma parte da minha própria trajetória. No começo de 2016, eu estava em Angoulême estudando quadrinhos e pude participar do FIBD, onde estava rolando uma movimentação interessante das autoras discutindo justamente essa questão. Fiz uma reportagem junto a Gabriela de Aquino para o Lady’s Comics sobre o assunto. As francesas se organizaram desde 2015 no Coletivo de Autoras Contra o Sexismo pra chamar atenção pro lugar das mulheres na indústria dos quadrinhos, discutir os problemas da forma de representação, a criação de guetos femininos e a ausência delas nos prêmios e diversos espaços. No festival, realizaram uma campanha pra denunciar o fato de que pouquíssimas mulheres haviam sido indicadas e nenhuma havia vencido o maior prêmio do festival, apesar da existência de inúmeras artistas com carreiras respeitáveis. Essa movimentação me interessou muito porque apesar do mercado de quadrinhos francês ser muito mais sólido e organizado, a situação das autoras se assemelhava a nossa no Brasil. E lá, como aqui, parte do trabalho girava em torno de desmistificar a ideia de que as mulheres não estariam presentes nesses espaços porque não existiriam em número considerável. A minha vontade de falar sobre artistas mulheres partiu dessa reflexão, que me provocava a vontade de fortalecer uma memória em torno das mulheres e suas contribuições no mundo das artes. Creio que temos uma onda de publicações com a mesma intenção que refletem esse momento em que o tema está em evidência, mas esse está longe de ser um assunto pacificado ou que alcançou lugares privilegiados de saber e conhecimento. Quando comecei o projeto, tinha o objetivo de dar uma contribuição nesse sentido, mas também era uma pesquisa pessoal, pra me instruir e responder a inquietações minhas.  Era um projeto de estudo, mesmo. Eu queria amadurecer o meu trabalho e me desafiei a fazer um projeto mais longo, mas como ainda não me sentia segura pra construir uma narrativa longa escolhi o formato seriado. A pesquisa histórica estava mais dentro da minha zona de conforto e eu já estava envolvida com o tema de uma forma pessoal. Quando voltei de Angoulême, estava deprimida e insegura com relação ao meu trabalho, que eu mal tinha acabado de começar (publico quadrinhos desde 2014). Pesquisar essas mulheres e suas trajetórias nos contextos mais adversos ajudou a me dar forças.

“No fim, eu precisei entender que não se tratava de dizer tudo, mas de ressaltar pontos que fossem interessantes como ponto de partida pra entender nossa história e a atuação das mulheres nela”

Quadros de Artistas Brasileiras, álbum da autora Aline Lemos publicado pela editora Miguilim

Também na introdução livro você explica um pouco do processo de produção dele. Eu queria saber um pouco mais sobre cada uma dessas etapas, começando pela pesquisa. Você tinha um filtro definido? Como foi a seleção dos nomes sobre os quais você queria falar?

O primeiro filtro que apliquei foi o recorte temporal, uma decisão mais ou menos arbitrária pra facilitar meu trabalho. Decidi me focar nas artistas nascidas até 1930, porque são menos conhecidas e me permitiam falar do contexto de consolidação das artes no Brasil. Outra decisão que guiou o processo foi a diversidade, eu queria falar sobre artistas de todas as regiões do país, de contextos e filiações artísticas variadas. É como eu disse na introdução, não tinha a intenção de falar de todas ou das melhores artistas brasileiras, mas de fornecer um panorama que desse conta da diversidade da nossa realidade e que pudesse inspirar outras investigações. Me guiando por esses princípios eu fui fazendo os quadrinhos aos poucos, a partir de 2016. Eu tinha uma lista inicial, mas só fechei em trinta nomes em 2017, quando a proposta do livro se tornou concreta. Pra fazer cada quadrinho, eu ficava alguns dias lendo e reunindo material sobre a artista e só depois resumia as informações que achava mais relevantes em um roteiro. Eu tentei trazer dados da biografia que permitissem ao leitor entender como a artista se localizava no seu contexto, como foi a sua formação, produção e circulação artística. Também procurei trazer as características estéticas da sua obra pra narrativa, a relação com movimentos artísticos e outros eventos importantes de seu tempo. Foi um desafio grande resumir as informações. No fim, eu precisei entender que não se tratava de dizer tudo, mas de ressaltar pontos que fossem interessantes como ponto de partida pra entender nossa história e a atuação das mulheres nela.

“Eu queria que ficassem explícitos os meus limites e as possibilidades que ainda precisamos investigar”

Quadros de Artistas Brasileiras, álbum da autora Aline Lemos publicado pela editora Miguilim

Ainda sobre a pesquisa: você fala sobre personagens muitas vezes marginalizadas pela história. Como foi a busca por fontes e bibliografia sobre essas personagens?

A minha experiência como historiadora ajudou muito nessa hora, mas talvez seja melhor dizer que foi um trabalho de divulgação científica, mais do que historiográfico. Depois de ter ficado dois anos no mestrado pesquisando o mesmo assunto, eu me sentia meio herética dedicando só uma semana a cada pesquisada. Mas como a proposta era apenas uma página sobre cada autora e não era um trabalho remunerado, o que consegui viabilizar foi o suficiente pra comparar fontes diferentes e selecionar informações. Acho que a principal diferença entre esse trabalho e o historiográfico foi que na maioria dos casos não acessei fontes primárias, quer dizer, documentos da própria época das artistas, pra gerar novas interpretações. Eu acessei principalmente artigos online e alguns portais confiáveis com pesquisas realizadas por outros historiadores. Algumas artistas mais famosas tinham mais bibliografia disponível, com livros, sites oficiais e de museus com mais material. O maior desafio foi concretizar o princípio da diversidade e encontrar informações sobre artistas fora do eixo centro-sul, negras e sem formação acadêmica. Os sites do Museu de Arte Negra e do projeto Polo Jequitinhonha da UFMG foram dois locais que me ajudaram nesse sentido. Com certeza um projeto mais aprofundado permitiria revelar mais artistas com perfis diversos. Foi esse também o motivo porque fiz a história da “Anônima”, eu queria que ficassem explícitos os meus limites e as possibilidades que ainda precisamos investigar.

“Sendo um livro com tantas personagens e abordagens, acho que a unidade ficou por conta das decisões estéticas”

Quadros de Artistas Brasileiras, álbum da autora Aline Lemos publicado pela editora Miguilim

Agora eu queria saber sobre a construção do roteiro do livro. É um álbum composto por várias histórias que se fazem muito coesas como conjunto. Como você finalizou esse roteiro? Essa unidade que eu menciono foi uma preocupação para você?

Como eu disse, no início não havia uma lista ou número definido das artistas, mas eu já pensava na possibilidade de um livro. Eu sabia que ele teria uma cara plural e isso estava de acordo com a ideia da diversidade que ele pretendia representar, mas também queria que ficasse evidente se tratar de um mesmo projeto. Todas as histórias foram construídas baseadas em pesquisas que tinham o mesmo procedimento que mencionei. Além disso, tentei fazer com que as artistas aparecessem mais ou menos o mesmo número de vezes nas tirinhas de humor que intercalam as biografias. Essas tirinhas e as ilustrações foram uma forma de tornar a leitura mais dinâmica, já que as biografias são carregadas de texto e informação e podem se tornar cansativas depois de um tempo. Também tem uma função diferente que é a de aproximar as personagens do imaginário contemporâneo, trazer uma visão mais lúdica e crítica sobre alguns aspectos das biografias. Mas sendo um livro com tantas personagens e abordagens, acho que a unidade ficou por conta das decisões estéticas.

“Uma das coisas mais importantes pra mim era não só narrar sobre cada artista, mas trazer elementos visuais do seu trabalho para o quadrinho”

Quadros de Artistas Brasileiras, álbum da autora Aline Lemos publicado pela editora Miguilim

Na introdução você também comenta como fez o desenho a tinta e coloriu no computador. Eu gosto muito das cores, das escolhas que você fez para cada história e da paleta do conjunto da obra. Como você chegou nessas cores específicas? Você tem alguma abordagem específica em relação a cores?

Eu tento ter uma abordagem intencional das cores e apliquei isso ao máximo nesse livro. As cores serviram principalmente pra dar a unidade que ele precisava. É uma paleta relativamente reduzida que fui construindo aos poucos e usei com extrema moderação. Uma das coisas mais importantes pra mim era não só narrar sobre cada artista, mas trazer elementos visuais do seu trabalho para o quadrinho. Fiz isso através de algumas variações no layout e principalmente com colagens dos seus trabalhos. Por causa disso, as biografias já traziam cores muito específicas para cada autora. Decidi acompanhar essas colagens com uma paleta reduzida de tons atenuados, pra não ofuscar a identidade de cada artista ao mesmo tempo em que dava alguma unidade com o todo do projeto. Cada artista usa uma combinação exclusiva de duas cores da paleta geral do livro. As tirinhas de humor não usam colagens, ficando diferenciadas das biografias baseadas em pesquisas, e quando reúnem mais de uma artista também combinam suas paletas. Só as ilustrações em aquarela ficaram com paletas livres.

“Os revisionismos reacionários tentam minar os conhecimentos construídos e propor visões únicas para o passado que apagam os conflitos e suas consequências”

Quadros de Artistas Brasileiras, álbum da autora Aline Lemos publicado pela editora Miguilim

No Melindrosa você construiu as páginas em diálogo com a estética art déco do período no qual a história está ambientada. Os quadros estão muito mais soltos, por exemplo, quando comparado com o seu trabalho no Artistas Brasileiras. Por que essa opção por uma narrativa mais linear nesse livro novo?

Também foi uma escolha pela unidade do projeto. Usei um layout padrão de três linhas (bandas) para todas as biografias, porque achei que viabilizava o uso abundante do texto que seria necessário e daria um mesmo ritmo para as páginas bastante diversas. Por outro lado, procurei romper pontualmente com esse padrão pra evitar a monotonia. Da mesma forma que com as colagens, procurei explorar a visualidade de cada artista de forma diferente em cada quadrinho. Acabou sendo um estudo interessante pra mim. Também fui mais livre nas tirinhas de humor pra diferenciar das biografias.

Eu gosto muito que você abre o livro com a história da Abigail de Andrade e da Angelina Agostini. Eu não sabia dessa história e acredito que muitos estudiosos e leitores de quadrinhos brasileiros também desconhecem essa passagem da vida do Ângelo Agostini, tido como o precursor dos quadrinhos brasileiros. Por que abrir com essa história?

Pra ser sincera, as histórias estão organizadas por ordem cronológica de nascimento das artistas. Eu não pretendia que ela fosse a primeira e não foi a primeira página que fiz, mas foi uma sorte oportuna. O caso delas é emblemático do que fica e do que é apagado na história, e permite que a gente reflita sobre o diferente peso que recai sobre homens e mulheres na sociedade. Abigail viveu as consequências do seu delito, o de ter uma filha em um relacionamento extra-conjugal, até sua morte prematura em exílio, enquanto Ângelo Agostini pôde decidir não criar a criança e retomar sua carreira de sucesso no Brasil. Enquanto as responsabilidades domésticas e a liberdade dos corpos não forem repartidas de modo igualitário na sociedade, essa continuará sendo uma questão do presente. Eu queria que o livro pudesse abrir discussões como essa, um objetivo que vai além da representatividade. Conhecer e celebrar as artistas esquecidas pela história é sim um dos objetivos, pois ainda temos carência de materiais e discursos nesse sentido. Mas também há outro, que é questionar os motivos pelos quais esse esquecimento foi e é produzido. Caso contrário, corremos o risco de eleger artistas mulheres proeminentes para celebrar e manter a mesma estrutura de exclusão que há séculos empobrece nossa história. Nesse sentido, a crítica feminista tem uma contribuição muito grande a dar em diversos campos do conhecimento. Um artigo que já gerou muitos debates e que creio que vale muito a pena ler é o da Linda Nochlin, “Por que não houve grandes mulheres artistas?”.

Você é historiadora e nós vivemos tempos estranhíssimos de revisionismos históricos. Qual a importância de conhecermos o nosso passado e de projetos como o Artistas Brasileiras? Como o conhecimento do nosso passado pode contribuir para o nosso presente e o nosso futuro?

É importante que o conhecimento histórico se torne mais acessível ao público fora da academia. Esse não é um problema só da História, é um problema da pouca democratização do conhecimento e da educação como um todo. Uma situação que não é fruto do acaso, mas de interesses políticos em ação há séculos. Conhecer nosso passado permite identificar essas forças, entender como elas atuam no presente e desenhar alternativas. A História mostra que não há um só caminho definido para os acontecimentos, mas que nosso futuro depende de disputas que estão em aberto no presente. História não é uma narrativa única, é debate, crítica e reflexão. Os revisionismos reacionários tentam minar os conhecimentos construídos e propor visões únicas para o passado que apagam os conflitos e suas consequências. Apesar de falar sobre o passado, eles são projetos para o presente: não querem crítica sobre o passado e não querem crítica para o agora. A única forma que vejo de combatê-los é encampar o espaço público de debate onde quer que ele esteja, levar o conhecimento histórico para a cultura pop, para as escolas, para a mídia. Foi por essa vontade que decidi fazer quadrinhos e eu gostaria que o Artistas Brasileiras contribuísse para isso de alguma forma. Busquei as histórias de mulheres que vieram antes de mim pra entender como as formas de exclusão funcionaram no passado e se desdobraram em consequências no presente, e constatei que houve criatividade e reação em contextos muito mais desfavoráveis que os nossos. O conhecimento do passado também dá força para os desafios do presente.

“A política do presidente se propõe como nova, mas na verdade se trata do que há de mais antigo na política, que beneficia o status quo e que foi eleito porque reverbera no senso comum”

Quadros de Artistas Brasileiras, álbum da autora Aline Lemos publicado pela editora Miguilim

Desde 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita que acabou com o Ministério da Cultura e promete cortes em políticas públicas e sociais de fomento às artes. Como você acredita que essa realidade pode afetar/está afetando a nossa sociedade?  

Acredito que os impactos negativos dessa gestão ainda serão sentidos por muito tempo. É uma política de retrocessos, que está minando direitos que considerávamos adquiridos, que certamente precisaremos de um bom tempo para recuperar. No discurso do governo a cultura é considerada não apenas supérflua, como não é raro em contextos de crise, mas também perigosa, o que é ainda mais grave. Em um certo sentido ela é mesmo, porque é na cultura que se desenvolvem o pensamento crítico e os projetos alternativos de sociedade. São coisas que ameaçam um governo autoritário e com um projeto pífio para o país. Um projeto de crescimento real não se sentiria ameaçado pela crítica e pluralidade de visões, se fortaleceria com elas. Entenderia que fomentar a cultura é gerar conhecimento e movimentar a economia de um país. Esse governo sente a necessidade de suprimi-la, assim como a liberdade de expressão, como forma de controlar as narrativas quando seu projeto falhar em entregar uma sociedade mais próspera. Mas não pretende falhar em seu objetivo de lucrar com a crise e manter as estruturas de poder em benefício de poucos. O outro lado que vejo é que, enquanto a extrema-direita aproveita a crise dessa forma, outras movimentações também acontecem em defesa da cultura e dos direitos sociais. Nós também podemos aproveitar a crise como um momento de mudança. Espero que essas derrotas possam unir forças e resultar em soluções novas para a sociedade, coisas que são há muito necessárias. Por mais trágico que seja o momento, com a violência e desigualdades acirradas e a hostilidade e incompetência do poder público, esses são problemas que sempre estiveram presentes. A política do presidente se propõe como nova, mas na verdade se trata do que há de mais antigo na política, que beneficia o status quo e que foi eleito porque reverbera no senso comum. Já era hora de encarar essa política de frente.

Quadros de Artistas Brasileiras, álbum da autora Aline Lemos publicado pela editora Miguilim

Você poderia recomendar algo que esteja lendo, ouvindo ou assistindo no momento?

Estou lendo Mulheres, Raça e Classe, da Angela Davis e ouvindo “Ladrão”, o álbum novo do Djonga.

Você está trabalhando em algum projeto novo no momento? 

Sim, finalmente criei coragem pra desenhar minha primeira história mais longa! Vai se chamar Fogo Fato e terá por volta de 70 páginas. É uma mistura de ficção científica e fantasia urbana e fala sobre exclusão, identidade e mobilidade na cidade. Já postei alguns estudos das personagens no instagram, mas ainda estou na metade da história e produzindo devagar. Pretendo lançar uma campanha de financiamento coletivo no começo do segundo semestre.

A capa de Artistas Brasileiras, álbum da autora Aline Lemos publicado pela editora Miguilim
Entrevistas / HQ

Aline Zouvi faz retrospectiva da carreira na exposição Solstício, em São Paulo

As ilustrações e os quadrinhos de Aline Zouvi são os protagonistas da exposição Solstício. A mostra ficará hospedada na 9ª Arte Galeria, em São Paulo, entre os dias 23 e 27 de abril, reunindo 40 trabalhos da artista. Entre as obras que estarão à venda constam páginas, estudos e rascunhos das HQs Síncope e Óleo Sobre Tela (17ª edição da coleção Ugritos), cartuns produzidos para o jornal Folha de São Paulo e ilustrações da série Condição e de sessões de modelo vivo. Você confere outras informações sobre a exposição na página do evento no Facebook.

Coincidentemente, a abertura de Solstício ocorre dois anos após à inauguração da primeira mostra solo de Zouvi. Em abril de 2017, ela expôs em Campinas as 32 artes produzidas por ela para a série Condição. Por isso, a exposição na 9ª Arte Galeria acaba funcionando como uma retrospectiva desse intervalo 2017/2019 na carreira da autora.

Conversei por email com a quadrinista e ela fez um balanço sobre esses dois anos mais recentes de sua vida profissional. Ela também me contou sobre a curadoria de Solstício, comentou suas técnicas preferidas e deu pistas sobre seus próximos trabalhos. Antes da leitura do papo a seguir, recomendo outras três conversas publicadas com Zouvi aqui no blog: uma entrevista sobre Óleo Sobre Tela, uma segunda sobre Síncope e a terceira e mais antiga delas, sobre a exposição dedicada a Condição. Depois volta pra cá e invista nessa conversa sobre a exposição na 9ª Arte Galeria. Ó:

Um dos cartuns de Aline Zouvi que estará em exposição na 9ª Arte Galeria

A minha primeira entrevista com você aqui no blog é datada de abril de 2017, também sobre uma exposição sua, uma mostra reunindo seus trabalhos pro zine Condição. Pensando nesse intervalo entre 2017 e 2019, qual balanço você faz sua história como quadrinista, autora e ilustradora até aqui?

Nossa, verdade! É muito bom poder voltar aqui pra falar sobre uma nova exposição 🙂 Esta minha exposição de agora é, em si, um movimento de balanço, também: pensei em chamá-la de Solstício por haver um movimento de transição e de avaliação do que foi feito até agora – junto à ideia de transição presente no próprio funcionamento da 9ª Arte Galeria, que dispôs este tempo (e continua com o plano de fazê-lo com outros artistas) de uma semana em que a galeria tem o seu andar de cima disponível, enquanto a exposição anterior está sendo desmontada e a seguinte, em fase de montagem (no meu caso, irei expor meus trabalhos entre as mostras de André Dahmer e Marcatti).

Até aqui, acredito que me desenvolvi profissionalmente não apenas em relação a questões de produção e técnica, percurso esperado pra artistas que… bom, que não desistem de desenhar, rs, mas também evoluí junto com os outros artistas (iniciantes ou não) e com o movimento dos quadrinhos na cidade de São Paulo. O que quero dizer é que me vejo mais segura em relação ao meu traço e a meus projetos enquanto quadrinista e cartunista, mas isso sem dúvida também se construiu graças a vivências (conversas, palestras, mesas-redondas…) em espaços como a Ugra, a Loja Monstra, em eventos sobre quadrinhos no Sesc, no CCSP, em livrarias, e, agora, na 9ª Arte Galeria. Isto, claro, sem contar os festivais de quadrinhos, nos quais também pude presenciar discussões que contribuíram, mesmo que de forma indireta, para o desenvolvimento do meu trabalho.

“Tento pensar, sempre ao começar um projeto novo, em como fazer um quadrinho cuja qualidade se concentre no desenvolvimento de sua narrativa”

Um dos cartuns de Aline Zouvi que estará em exposição na 9ª Arte Galeria

Ainda sobre esse intervalo de dois anos: você vê muitas mudanças no seu estilo de fazer e pensar quadrinhos? Suas técnicas mudaram muito de 2017 até hoje?

Creio que mudei mais na maneira de fazer e pensar quadrinhos que na técnica em si. Ao longo deste intervalo de dois anos e ainda agora, tento pensar, sempre ao começar um projeto novo, em como fazer um quadrinho cuja qualidade se concentre no desenvolvimento de sua narrativa. Nesse sentido, todas as intenções que eu tinha enquanto autora quando comecei, tento agora remoldá-las em função da construção da narrativa, deixando-a sempre em primeiro lugar. Por exemplo, sempre pensei o fazer quadrinhos como um espaço de resistência e de visibilidade para minorias sociais – e ainda o penso – e procuro me desenvolver como autora para que esta preocupação se faça evidente na mina construção de enredos e personagens. Em relação às técnicas, procuro experimentar quando possível (como foi no caso da produção de Síncope), mas me interessa, também, focar em algo que já me é familiar (no caso, o preto e branco) e tentar melhorá-lo a cada produção.

O que mais me chama atenção na curadoria da sua exposição da 9ª Arte Galeria é a diversidade de suas áreas de atuação. Nessa mostra estão presentes trabalhos seus para HQs, jornais e zines. Existe alguma chave específica na sua cabeça na hora de trabalhar para cada um desses meios? É muito diferente pra você produzir um cartum pra Folha de São Paulo e uma HQ autoral?

Como alguém que se interessa em trabalhar com autoria no desenho, creio que me é tranquila a transição entre a auto-expressão em uma hq autoral e publicações que ofereçam algum tipo de limitação criativa, como um cartum ou qualquer outro tipo de desenho feito sob encomenda. Por mais que o cartum tenha a limitação de uma pauta a ser seguida, o seu formato reduzido, etc, creio que a ‘mudança de chave’ é menos  brusca, pois ainda posso desenvolver, no cartum, o meu traço – e, quanto ao conteúdo, aproveito este contexto de produção dirigida para exercitar outras formas de expressar uma mesma ideia. É muito importante, na minha opinião, poder exercitar o máximo possível destes ‘tipos de produção’ – isso me ajudou bastante no meu crescer enquanto profissional.

Parte de uma das páginas de Aline Zouvi que estará em exposição na 9ª Arte Galeria

Aliás, você pode falar um pouco sobre a curadoria dessa exposição na 9ª Arte Galeria? Como foi o processo de escolha de quais trabalhos entrariam na exposição?

Alexandre e Mona Lisa Martins, os curadores da galeria, me deram total liberdade para escolher quais trabalhos seriam expostos, deixando, desde o início, esta intenção de tentar fazer um apanhado de minha produção até o momento, mesmo que isto significasse reunir desenhos de diferentes formatos e abordagens. Ambos, desde o início, foram bastante atenciosos e mostram uma preocupação importante em oferecer o espaço da galeria a artistas que têm pouca visibilidade e/ou ainda estão no processo de construir seu público.

“O que quero ler e tentar, também, fazer, são quadrinhos que reconheçam, de forma honesta, as suas limitações”

Um registro de uma página de Síncope ainda em produção, a versão finalizada da arte estará em exposição na 9ª Arte Galeria

O que mais te interessa em termos de quadrinhos hoje, Aline? O que você mais tem interesse em ler e tentar fazer e experimentar com a linguagem das HQs?

Ao ler a sua pergunta, tudo em que pude pensar foi: Emil Ferris. Emil Ferris. Emil Ferris! Haha. Zueiras à parte, o que quero ler e tentar, também, fazer, são quadrinhos que reconheçam, de forma honesta, as suas limitações – e que isto não os impeça de serem subversivos, inovadores (e por que não, revolucionários?). Que isso seja, na verdade, a força deles. Eu tô um pouco cansada de quadrinhos que se autoprometem fodas, sabe?

Pra encerrar, no que você está trabalhando agora? Você já tem alguma próxima publicação em vista? Se sim, o que pode falar sobre ela?

Eu estou há bastante tempo elaborando uma narrativa mais longa, que agora está em fase da escrita do roteiro, depois de muitas idas e vindas em relação à elaboração do argumento. Infelizmente não posso falar mais do que isso, mas tô me esforçando pra que seja uma boa história 🙂 no meio do caminho irei elaborar uma hq mais curta, para ser lançada na CCXP.

Um dos cartuns de Aline Zouvi que estará em exposição na 9ª Arte Galeria

Entrevistas / HQ

Papo com Rodrigo Okuyama, o autor de Brasil.exe, a 18ª edição da coleção Ugrito: “Não me sinto confortável na criação dos meus trabalhos, é sempre um processo penoso de escolhas e abandonos”

O quadrinista Rodrigo Okuyama é o autor da 18ª edição da coleção Ugrito, publicada pelo selo Ugra Press. Batizada de Brasil.exe, a HQ será lançada no sábado (6 de abril), na loja da Ugra, em São Paulo, a partir das 16h – você confere outras informações sobre o lançamento na página do evento no Facebook.

A sinopse oficial de Brasil.exe fala em como Okuyama explora na HQ “as intersecções entre os quadrinhos e as redes sociais e retrata uma sociedade permanentemente conectada mas incapaz de se comunicar”. Sem entregar muito sobre a trama, vou um pouco além e digo se tratar de uma crônica familiar com ares tragicômicos representativa da Era Bolsonaro.

Conhecido na cena brasileira de quadrinhos por suas experimentações com mídias e linguagens, Okuyama ousa narrativamente dentro do formato fixo de apenas 20 páginas dos Ugritos. O meu estranhamento inicial à primeira leitura da HQ foi muito bem recompensando à medida que compreendi a proposta da obra. Um tremendo gibi.

Bati um papo por email com Okuyama no qual ele listou algumas das inspirações por trás de Brasil.exe, falou das técnicas utilizadas por ele e comentou algumas de suas impressões sobre quadrinhos e a realidade política brasileira. Papo massa, saca só:

Dois dos protagonistas de Brasil.exe, trabalho de Rodrigo Okuyama para 18ª edição da coleção Ugrito

É um desafio falar sobre esse seu Ugrito sem afetar de alguma forma a experiência do leitor. Você acha possível fazer isso? Se sim, como essa história surgiu na sua cabeça? Sempre esteve claro pra você a forma como essa HQ seria contada?

Ramon, obrigado por considerar isso, acho massa se o leitor fizer a leitura sem ser mediado por mim.

A história não estava na minha cabeça. A ideia inicial que tive foi da estrutura do quadrinho, de como as páginas se relacionariam. Na verdade essa ideia foi pensada depois de ter abandonado uma outra história em quadrinhos (seria uma história circular e já havia esboçado seu personagem).

Você sempre trabalha com formatos e estilos pouco usuais, costumando variar suas técnicas de uma obra pra outra. Sendo o formato do Ugrito pré-estabelecido (20 páginas e 10,5 X 15 cm), como você chegou no estilo e no traço que queria trabalhar em Brasil.exe?

Bem, esse traço é algo que vinha tentado trabalhar em um quadrinho que não terminei, com desenhos com vetores, usando o Adobe InDesign. Contudo, essa não era a minha primeira escolha. Sugeri ao Douglas [Utescher, editor dos Ugritos] de usar um outro traço e um desenho a lápis. Em outro momento, quando já estava usando vetores, pensei em colocar texturas com o Adobe Photoshop.

No final ficou uma ilustração vetorial sem textura, pois essa alteração com tons de cinza seria bem demorada (e já atrasei bastante a entrega desse Ugrito).

Uma página de Brasil.exe, trabalho de Rodrigo Okuyama para 18ª edição da coleção Ugrito

Aliás, uma das graças dos Ugritos está na forma como cada autor faz uso desse formato fechado e pequeno, com um número limitado de páginas. Foi desafiador pra você trabalhar dentro dessas restrições?

Foi bem difícil… Geralmente tenho dois processos diferentes, um para criação de zines ilustrados e outro para quadrinhos. Minha intenção na criação da maioria de meus zines ilustrados é tentar explorar formatos e materiais diversos e como eles se relacionam com a narrativa. No zine Boom eu queria trabalhar com o furo como um elemento da história e o formato de sanfona funcionou bem, pois quando fechado fazia com que o buraco coincidisse; no zine mais recente, Frutixo, as páginas possuem diferentes tamanhos e permitem visualizar parte da página seguinte, me permitindo um jogo de dividir o nome de frutas para formar outras palavras.

Nos quadrinhos tenho uma forma de criação meio idiota: penso em alguns quadros/cenas interessantes e desenho página por página, sem pensar no final. O Massa Véio foi feito assim e estava fazendo outro quadrinho do mesmo jeito. Penso que ficam vários furos e a narrativa perde muito criando um quadrinho desta forma…

Voltando ao formato do Ugrito, ele não me instigou em explorar algo diferente (respondendo agora, penso que poderia até ter sido possível fazer algo diferente…). O tamanho pequeno pode forçar a trabalhar com menos quadros ou imagens por páginas, mas isso não é uma regra, pois um desenho mais limpo e simples quebra essa ideia. Bem, estou me contradizendo sobre ser desafiador, mas talvez tenha sido difícil pra mim porque não me sinto confortável na criação e produção dos meus trabalhos, é sempre um processo penoso de escolhas e abandonos.

Uma página de Brasil.exe, trabalho de Rodrigo Okuyama para 18ª edição da coleção Ugrito

Eu queria saber sobre os seus métodos na produção dessa HQ. Você começou a trabalhar já com a história fechada? Você fechou o roteiro e só então começou a desenhar? Qual material você utilizou na produção desse quadrinho?

No Brasil.exe eu trabalhei primeiro com a estrutura das páginas e funcionamento da narrativa. Em seguida juntei os assuntos que queria trabalhar na história: redes sociais, violência, família, alienação, etc; e fui esboçando algumas páginas e personagens, para começar a pensar na história. Estava meio perdido nessa etapa… Uma das primeiras propostas era falar sobre o país desde 2013 até agora, tentar falar sobre política e a ascensão dessa extrema direita. As conversas com o Douglas me ajudaram muito, pois me fizeram dar um rumo pra história.

Ouço bastante podcast, e aqueles que abordam política (os de viés de esquerda, Marx me livre dos de direita), como o Lado B do Rio, Anticast, Chutando a Escada e Viracasacas, me pilharam bastante nessa obra.

O rascunho de duas páginas de Brasil.exe, trabalho de Rodrigo Okuyama para 18ª edição da coleção Ugrito

O que são quadrinhos pra você? Quais são as suas leituras preferidas? Alguma obra em particular te influenciou durante a produção de Brasil.exe?

Putz, nunca parei para pensar sobre o que é quadrinhos a ponto de dar uma responta decente…

Quanto às leituras preferidas, vamos lá. Obras ou artistas de fora: The Mysterious Underground Men, de Osama Tesuka (Picturebox); Steve Canyon, de Milton Caniff (IDW Publishing); Mort Cinder, de Alberto Breccia e Héctor German Oesterheld (Figura Editora); The Collector, de Sergio Toppi (Archaia); Birchfild Close, de Jon McNaugt (Nobrow); Andre the Giant, de Box Brown (First Second); Goliath, de Tom Gauld (Drawn and Quarterly); This One Summer, de Jillian Tamaki e Mariko Tamaki (First Second); Instrusos, de Adrian Tomine (Nemo); Alien, de Aisha Franz (Musaraña); e Bruma, de Amanda Baesa (Chili com Carne). As obras nacionais Futuro, de Denny Chang (independente); Úlcera Vórtex, de Victor Bello (Escória Comix); Cadeado, de Juscelino Neco (Ugra Press); Know Haole, de Diego Gerlach (independente); a coletânea Porta do Inferno (Escória Comix); Asteróides – Estrelas em Fúria, de Lobo Ramirez (Ugra Press); Encruzilhada, de Marcelo D’Salete (Barba Negra); Terreno e Firehose!, de Paulo Crumbim (independente); Panda, de Rart Rixers (independente); e a coletânea Cavalo de Teta (independente).

Uma obra que influenciou esteticamente foi Souvenirs de L’Empire de l’Atome, de Thierry Smolderen e Alexandre Clérisse. Tem duas obras que me instigaram a trabalhar com essa narrativa do Brasil.exe: Futuro e o Know Haole # 8.

O rascunho de duas páginas de Brasil.exe, trabalho de Rodrigo Okuyama para 18ª edição da coleção Ugrito

Brasil.exe narra uma história trágica e é explícito o diálogo da HQ com a nossa realidade. Como você analisa essa nossa realidade? Como você vê o nosso futuro?

Meus trabalhos não possuem um caráter crítico e nem têm a intenção de fazer uma análise do momento que vivemos, mas estou bem angustiado desde a última eleição e isso me levou a essa obra. Acho que esses próximos anos serão bem difíceis, com um presidente eleito a partir de mentiras e sem nenhuma proposta. Isso não me deixa muito esperançoso para os próximos anos… Um chefe de estado disseminando discurso de ódio ecoa na classe política e na população e libera a barbárie.

A capa de Brasil.exe, trabalho de Rodrigo Okuyama para 18ª edição da coleção Ugrito
Entrevistas / HQ

Papo com Marcello Quintanilha, o autor de Luzes de Niterói: “Do meu ponto de vista, o horizonte apresenta nuvens de tempestade”

Luzes de Niterói é a primeira grande HQ brasileira a chegar às livrarias nacionais em 2019. Publicada na França e em Portugal no final de 2018, a obra de Marcello Quintanilha lançada pela editora Veneta tem 232 páginas coloridas e é livremente inspirada em um dia de caos vivido pelo pai do autor, o ex-futebolista Hélcio Quintanilha, nos anos 50. O álbum também é o primeiro projeto longo longo do quadrinista publicado em português desde Talco de Vidro (2015) e Tungstênio (2014) – nesse intervalo foram lançadas as coletâneas Hinário Nacional (2016) e Todos os Santos (2018).

Eu entrevistei o autor brasileiro residente em Barcelona e transformei essa conversa em matéria para o jornal Folha de São Paulo. Você lê o meu texto para a publicação clicando aqui. Depois, recomendo a leitura do álbum e da entrevista a seguir, a íntegra do meu bate-papo com o quadrinista. Nós conversamos sobre a relação dele com futebol, a produção de Luzes de Niterói, algumas de suas memórias de infância e as impressões dele sobre o governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro. Saca só:

“O aspecto da região foi se solidificando mais e mais para mim a medida em que seus componentes iam dando adeus cotidianamente, dizimados pela locomotiva do progresso”

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

Luzes de Niterói é o seu primeiro livro longo desde Talco de Vidro e marca um retorno ao mundo dos subúrbios fluminenses, cenário da maior parte das suas histórias curtas. O que essa ambientação representa para você?

Não se pode voltar ao que nunca se deixou para trás. O aspecto da região foi se solidificando mais e mais para mim a medida em que seus componentes iam dando adeus cotidianamente, dizimados pela locomotiva do progresso, a medida em que as fábricas iam fechando as portas, as vilas operárias sendo descaracterizadas, os campos de futebol, loteados. O que resta, vive comigo. Essa ambientação em relação a Luzes de Niterói representa a comunhão com um país que emergia economicamente no período do pós-guerra, com sua característica indústria cinematográfica, repositório de um conjunto de coisas e valores dos quais infelizmente nos afastamos gradativamente, mas que são o alicerce da atual cultura brasileira de massas. Representa também a recuperação do mito do futebol brasileiro oriundo das fábricas, berço do esporte no país.

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

Luzes de Niterói é a sua HQ mais pessoal?

Não, sob nenhuma hipótese. Todas as minhas histórias advém daquilo que me constituiu como ser humano e não estabeleço uma escala nesse campo — todas são o que eu sou.

Qual a memória mais antiga que você tem da presença de quadrinhos na sua vida?

Os quadrinhos publicados nos jornais nos anos 1970, Brucutu, Dick Tracy, etc.

Qual a memória mais antiga que você tem da presença de futebol na sua vida?

Uma transmissão de rádio. O timbre transistorizado da voz de Jorge Curi retinindo pela casa de luzes misteriosamente apagadas. Anos 1970.

“A coluna vertebral da HQ é integralmente baseada no que ouvi sobre o dia da temporal, assim como toda a atividade intramuros do cotidiano dos jogadores”

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

O quanto da experiência do seu pai como jogador de futebol você levou para o quadrinho? Há muito dos relatos que você ouviu dele nessa HQ?

Muito, muito, muito. A coluna vertebral da HQ é integralmente baseada no que ouvi sobre o dia da temporal, assim como toda a atividade intramuros do cotidiano dos jogadores.

A literatura brasileira sobre futebol é composta principalmente por crônicas e relatos históricos e jornalísticos. Me refiro a trabalhos assinados por autores como Mário Filho, Nelson Rodrigues e, mais recentemente, Tostão. Há alguns anos foi publicado o livro O Drible, do jornalista Sérgio Rodrigues, um raro caso de literatura brasileira de ficção sobre futebol. Também não são muito comuns filmes com conteúdo ficcional sobre futebol. Você vê alguma particularidade no futebol que dificulta de alguma forma sua representação como obra de ficção?

Não, não vejo. O futebol é apenas mais um item no imenso catálogo de temas que jamais encabeçaram gêneros na ficção brasileira, a ponto de serem exauridos, posteriormente redescobertos e reinventados segundo novos parâmetros, partindo de um arcabouço consistente de histórias serializadas formado ao longo do tempo, em grande medida pela incapacidade por parte de diversos setores da produção de assimilar e, sobretudo, de se apropriar de suas premissas para a conversão em narrativa ficcional ultrapassando noções pré-estabelecidas.

Há uma corrente crescente por parte de fãs de futebol que questionam os rumos do futebol mundial, inclusive aquela que prega o “ódio eterno ao futebol moderno”. O que você pensa a respeito desse tema?

Nada é eterno.

“Meu interesse era criar uma palheta extremamente limitada, objetiva, de saturação média, ao mesmo tempo que nostálgica”

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

Você mora em Barcelona, cidade sede de um dos times mais tradicionais e conhecidos do mundo, um time com identidade de jogo e ideologia muito característicos, mas também representante desse tão questionado futebol moderno. Pelas suas obras é possível notar uma proximidade grande sua em relação a um tipo de futebol hoje considerado romântico – na falta de uma palavra melhor. A partir dessa perspectiva, você poderia, por favor, falar algumas das suas impressões sobre o Barcelona?

Uma vez sonhei em ser torcedor do Real Madri só para ter a oportunidade de aplaudir o Barcelona de pé no 0-3 da temporada 2005-2006 no Santiago Bernabéu.

Luzes de Niterói é o seu primeiro álbum colorido após três trabalhos em preto e branco. O que motivou o seu retorno às cores?

Novamente, não há um retorno. Esta idéia só faria sentido se a ordem de publicação dos álbuns correspondesse à ordem de confecção efetiva de cada um, o que nem de longe é o caso no que refere a mim. Como já declarei em outras ocasiões, trabalho de modo absolutamente anárquico, posso estar ocupado em vários projetos ao mesmo tempo, com vários registros distintos, de modo que tudo é fruto de um fluxo constante de atividade e álbuns que tenham sido publicados antes, não necessariamente começaram a ser produzidos primeiro. Sei que parece confuso. E é.

Quanto às cores, meu interesse era criar uma palheta extremamente limitada, objetiva, de saturação média, ao mesmo tempo que nostálgica, mas não necessariamente vintage e uma boa parte da pré-produção do álbum foi consumida neste fim.

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

Quais técnicas e materiais você utilizou para a produção de Luzes de Niterói?

Esboços e finalização em papel, a base de grafite, pastel oleoso e guache e cores digitais.

Eu gosto como você mantém grande parte dos quadros da HQ desalinhados, ele soam para mim como um ruído que intensifica a tensão da obra. Você pode, por favor, comentar esse recurso?

Na verdade, não mantenho grande parte dos quadros desalinhados, mas sim todos eles. Isto decorre do propósito de reforçar o quadro como unidade narrativa, em oposição à idéia de que esta unidade esteja sujeita à página, prescindindo dela como marco rítmico da leitura.

“Minha intenção, se podemos utilizar esta palavra, é a comunicação mais honesta em qualquer etapa da narrativa e todos os estágios da obra são tratados sob os mesmos fundamentos”

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

Eu gostei bastante de Luzes de Niterói, sendo a minha sequência preferida aquela na qual o Hélcio vê o ‘filme da vida dele’ enquanto tenta retornar à superfície. Enquanto lia, percebi que fui prendendo a respiração junto com o personagem. Foi essa a sua intenção? Houve alguma particularidade na construção dessa sequência enquanto você produzia o quadrinho?

Não, não houve nenhuma. Minha intenção, se podemos utilizar esta palavra, é a comunicação mais honesta em qualquer etapa da narrativa e todos os estágios da obra são tratados sob os mesmos fundamentos. Acredito muito na musicalidade do texto e no papel que esta musicalidade pode desempenhar uma vez codificada em quadrinhos, imbricando seu léxico de símbolos, criando um andamento peculiar, marcado por esse compasso, na minha forma de ver, oposto ao senso comum de ‘efeito cinematográfico’.

“As artes são sempre vítimas preferenciais dos sistemas de governo em contextos de crise, sejam econômicas ou institucionais”

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

O que você tem lido, ouvido e assistido ultimamente? Há alguma obra em particular, seja filme, livro ou música que tenha chamado sua atenção recentemente?

Of Human Bondage, de John Cromwell; Cidades Mortas, de Monteiro Lobato; Pelote das la Fumée, de Miroslav Sekulic-Struja e Arraial da Curva Torta, com Capitão Furtado.

Desde 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita que acabou com o Ministério da Cultura e promete cortes em políticas públicas e sociais de fomento às artes. Como você acredita que a sociedade brasileira será afetada por essa realidade?

As artes são sempre vítimas preferenciais dos sistemas de governo em contextos de crise, sejam econômicas ou institucionais. Sintomaticamente, nos últimos tempos nos deparamos frequentemente com o diagnóstico de “crise de representatividade” como um dos alicerces da campanha do atual presidente, o que sempre considerei uma afirmação fascinante, porque ela define que a classe política deixou de representar os anseios da população, o que traz implícito a idéia de que em momento determinado ela se constituiu de fato em porta voz das aspirações dos cidadãos. Uma olhadela na história da república, no entanto, nos trará uma percepção ligeiramente diferente dessa.

Do meu ponto de vista, o horizonte apresenta nuvens de tempestade. 

A capa de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta