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Entrevistas / HQ

Papo com Roger Cruz, autor de Os Fabulosos: “Queria exagerar mais ainda a anatomia, os gestos, as posturas e os discursos dos personagens dos gibis de super-heróis”

O quadrinista Roger Cruz não tem certeza, mas acredita que o último trabalho dele para uma editora norte-americana de quadrinhos de super-heróis foi publicado em 2009 ou 2010. Desde então, o foco do autor tem estado em ideias que ficaram de lado durante a época em que desenhava comics. Durante esse período ele lançou três álbuns da série Xampu, sobre a rotina de um grupo de amigos roqueiros na São Paulo do início dos anos 90; Quaisqualigundum, homenagem a Adoniran Barbosa em parceria com Davi Calil; e A Irmandade Bege, protagonizado por um grupo de idosos conspiracionistas.

No entanto, antes dessa investida em quadrinhos independentes e autorais, houve os X-Men. Os X-Men Alpha. Os X-Men Omega. A Geração X, a X-Factor e a X-Patrol. O Magneto, o Homem-Aranha, o Doutor Estranho, o Hulk e o Motoqueiro Fantasma. Alguns dos principais super-heróis da Marvel foram desenhados por Roger Cruz entre os anos 90 e a primeira década dos anos 2000. E são exatamente eles os alvos de Os Fabulosos.

Com um lançamento marcado para sábado (13/07), na Quanta Academia de Artes, em São Paulo, e outro no sábado seguinte (21/07), na Loja Monstra, também em São Paulo, Os Fabulosos é uma sátira do universo dos X-Men da Marvel e de todo o gênero de super-heróis. A HQ de 120 páginas narra três aventuras protagonizadas por personagens como Caolho, Careca, Nanico, Toró e Metalovski, versões bizarras de Ciclope, Professor Xavier, Wolverine, Tempestade e Colossus. Os inimigos do grupo são o vilão Magnetic e sua Irmandade, com a missão de destruir os “tão lindos e atraentes” Fabulosos por meio do Igualizador Total, máquina capaz de transformar toda e qualquer pessoa em “bestas disformes”.

“Foi a vontade de brincar com os X-Men como o Keith Giffen fazia com a Liga da Justiça ou o Peter David com o Hulk e Aquaman que me inspirou a escrever a luta contra a Irmandade”, conta Cruz sobre o ponto de partida de seu mais recente trabalho, citando algumas publicações mais bem-humoradas de heróis da Marvel e DC e seus respectivos autores.

Os Fabulosos marca o encontro da fase mais recente e autoral de Cruz com seus anos trabalhando para as grandes editoras norte-americanas de super-heróis. Na conversa a seguir ele fala sobre suas inspirações para seu mais recente trabalho, lembra sua experiência como autor da Marvel, revela seu distanciamento do universo dos comics e comenta a experiência com financiamento coletivo que permitiu a impressão de Os Fabulosos. Saca só:

“Não acompanho praticamente nada do que é produzido hoje nas grandes editoras de HQs de super-heróis”

Quadros de Os Fabulosos, trabalho do quadrinista Roger Cruz

Eu faço parte de uma geração que começou a acompanhar as suas produções exatamente com seus trabalhos para editoras norte-americanas de super-heróis. O que representa para você retornar a esse universo?

A ideia dos Fabulosos surgiu por volta de 2002, logo depois do filme dos X-Men de 2000 quando eu trabalhava exclusivamente para a Marvel. Não lembro o que eu estava desenhando na época, mas já tinha trabalhado em títulos como Uncanny X-Men, X-Men Alpha e Omega, Generation X, X-Factor, X-Man e X-Patrol.

Quero dizer, quando comecei a produzir o primeiro capítulo da HQ dos Fabulosos, eu ainda estava nesse universo e desenhava super-heróis diarimente. Foi a vontade de brincar com os X-Men como o Keith Giffen fazia com a Liga da Justiça ou o Peter David com o Hulk e Aquaman, que me inspirou a escrever o capítulo onde eles lutam contra a Irmandade.
Os capítulos seguintes da HQ foram escritos anos depois e desenhados recentemente, já pensando em uma mini-série ou edição única como acabou acontecendo.

Por que retornar a esse universo de super-heróis? O que você vê de mais interessante nesse gênero? Aliás, você ainda lê HQs de super-heróis?

Não acompanho praticamente nada do que é produzido hoje nas grandes editoras de HQs de super-heróis. Releio algumas coisas velhas relançadas mas até isso é raro.

Tenho acompanhado um pouco mais a produção independente no Brasil.
Como desenhista, me divirto com a estética das HQs de super-heróis, com o ritmo característico da narrativa e com as possibildades gráficas. Apesar disso, no momento prefiro eu mesmo explorar esse universo, escrevendo e desenhando histórias como essa dos Fabulosos.

“Os personagens que eu mais gostava quando moleque, foram os que fui desenhar durante minha carreira com HQs de super-heróis”

Quadros de Os Fabulosos, trabalho do quadrinista Roger Cruz

Há vários personagens de super-heróis, mas você opta por parodiar especificamente os X-Men. Por que eles?

Quando moleque, as histórias que eu mais curtia eram as dos X-Men da dupla [Chris] Claremont e [John] Byrne. Me empolgava ver como eles trabalhavam com aquele monte de personagens, as relações entre eles, os eventos grandiosos, recordatórios gigantes de narração e balões de pensamento.

Talvez por gostar de desenhar grupos de heróis e do tipo de composição de cena que eles permitem, acabei indo parar na linha de revistas dos mutantes quando entrei na Marvel. Por coincidência, os personagens que eu mais gostava quando moleque, foram os que fui desenhar e com os quais trabalhei por mais tempo durante minha carreira com quadrinhos de super-heróis.

Você pode contar um pouco sobre a produção das histórias do livro? Você faz críticas e brincadeiras com temas, tópicos e personagens muito específicos. Você construiu a trama a partir das ideias que queria abordar ou essas ideias surgiram a partir da trama?

Uma coisa puxa a outra. Geralmente, crio uma trama pra seguir, mas enquanto escrevo, as conversas entre os personagens podem apontar pra direções diferentes da trama principal. Se os desdobramentos em uma dessas direções for mais interessante, vou por ali.

Geralmente escrevo já rabiscando um esboço da página com personagens e balões já posicionados. Prefiro trabalhar com número não definido de páginas. Se planejo uma história para 22 páginas mas, enquanto escrevo, percebo que pode ser contada em 15 páginas, paro por ali. E o mesmo acontece quando percebo que preciso de mais páginas.

Quadros de Os Fabulosos, trabalho do quadrinista Roger Cruz

E como você chegou no estilo de desenho que acabou utilizando em Os Fabulosos? Ele tá muito mais estilizado e caricato do que seus trabalhos mais recentes no terceiro volume da série Xampu e na A Irmandade Bege, não é?

Em cada projeto escolho o que considero mais interessante em termos de estilo para cada história que quero contar. No Xampu, o preto e branco remete aos gibis undergrounds que eu lia nos anos 80 e 90.

Na Irmandade Bege, a paleta de cores remete à trama e ao título. Nos Fabulosos eu queria exagerar mais ainda a anatomia, gestos e posturas e discursos dos personagens dos gibis de super-heróis.

O inimigo dos Fabulosos tem sérios problemas com o fato dos heróis serem “tão lindos e atraentes”. Uma crítica muito comum aos quadrinhos de super-heróis é o padrão estético preconizado por eles. Isso também é um incômodo para você?

Esse padrão estético é uma característica que não é exclusiva do gênero de super-heróis e não me incomoda.

Mas serem tão “lindos e atraentes” e  dentro dos “padrõezinhos” nesse universo dos Fabulosos são vantagens que eles usam pra conseguir mais privilégios e patrocinadores, o que não é muito diferente do mundo real.
Por outro lado, os adversários, vistos aqui como vilões e fora dos padrões, são discriminados pela sociedade e é essa discriminação que move a Irmandade contra os Fabulosos.

“Eu não gosto dos traços hiper-realistas e uniformes funcionais e sem cor”

Quadros de Os Fabulosos, trabalho do quadrinista Roger Cruz

Você também faz referência à trama do primeiro filme dos X-Men, lançado no ano 2000 e um marco para essa leva recente de adaptações de HQs de super-heróis. O quanto você acha que essa onda de adaptações influenciou a forma como se pensa HQs de super-heróis e como o público interpreta esses trabalhos?

Sim, na primeira história, o plano do Mentor Magnetic (Magneto) é bem semelhante e faz referência ao plano do Magneto de construir um dispositivo para transformar os humanos em mutantes, mas nos Fabulosos o tal dispositivo tem outro objetivo. A relação entre Caolho (Ciclope) e Nanico (Wolverine) faz referência a relação deles no filme e também nos quadrinhos. Mas Fabulosos é uma paródia, então acho que é isso que o leitor espera encontrar na HQ.

Sobre os filmes, curto muito ver esses personagens na tela, mas penso que são produtos diferentes, cada um com suas qualidades e também limitações de linguagem. É inevitável a influência dos filmes nos quadrinhos mas, sei lá, são coisas muito diferentes. 

Como público, eu não gosto dos traços hiper-realistas e uniformes funcionais e sem cor nas HQs, mas é porque cresci lendo gibi nos anos 80 com desenhos bem estilizados com paleta de cor limitada e abstrata mas que achava ótima e ainda acho.

Quadros de Os Fabulosos, trabalho do quadrinista Roger Cruz

O que você acha que o gênero de super-heróis oferece de melhor e mais acrescenta à linguagem dos quadrinhos?

Tem uns 10 ou 15 anos que não acompanho a produção de quadrinhos de super-heróis, então eu não saberia dizer o que eles representam hoje.
Mas, para mim, na minha época, era como acompanhar aventuras de deuses e heróis, tais como os gregos e romanos, mas ambientadas no presente.

Comecei a desenhar copiando desenhistas da Marvel e DC e foi com gibis de super-heróis que desenvolvi a paixão por histórias em quadrinhos. 
O gênero de super-heróis foi para mim a porta de entrada para outros gêneros e produções de outros mercados.

Quadros de Os Fabulosos, trabalho do quadrinista Roger Cruz

Quais as melhores memórias que você têm do seu período trabalhando com quadrinhos de super-heróis? Quais são as piores?

Eu penso que aproveitei e celebrei pouco cada conquista daquela época.
O dia-a-dia para um desenhista lento e inexperiente como eu era no começo, era cansativo e estressante por causa dos prazos, e eu me cobrava demais em cada cena, em cada página. Mas era um trabalho muito bem pago e compensava financeiramente. E o mais importante, era um trabalho que eu gostava de fazer e sabia fazer. Conhecia bem aqueles personagens e era divertido poder dar vida e movimento pra eles com o meu traço.

Desde 2009 ou 2010 que não faço nenhum trabalho regular para editoras gringas. O último foi Uncanny X-Men: First Class. De lá pra cá, tenho me dedicado a ideias que ficaram de lado durante a época que desenhava comics. 

Sempre que tinha um tempo livre, entre uma página e outra de super-heróis, escrevia e esboçava essas ideias mas não conseguia trabalhar em dois projetos ao mesmo tempo. Ainda não consigo. Uma das coisas melhores coisas daquela época foi conhecer e poder trabalhar com tantos artistas que hoje são amigos e inspirações.

“O que mais nos atraia na ideia do financiamento coletivo era conhecermos a demanda exata do livro”

Quadros de Os Fabulosos, trabalho do quadrinista Roger Cruz

Você já teve trabalhos publicados por editoras nacionais e internacionais, publicou de forma independente e por meio de editais e com Os Fabulosos teve sua primeira experiência com financiamento coletivo. Como foi/tem sido essa experiência com o Catarse para você?

Eu já sabia muito do que pode dar errado em um financiamento coletivo pelas experiências dos amigos e pelas dicas da própria plataforma, então fui bastante cauteloso e eu e minha esposa nos programamos bem pra minimizar os possíveis problemas.

Resolvemos só lançar a campanha com o livro pronto pra ir pra gráfica, estabelecemos metas modestas e com recompensas que não fossem complicadas de organizar e enviar.

O que mais nos atraia na ideia do financiamento coletivo era conhecermos a demanda exata do livro, já que o espaço que temos para guardar livros em casa está diminuindo. Depois dos lançamentos, começamos a enviar para os apoiadores. 

Um quadro de Os Fabulosos, trabalho do quadrinista Roger Cruz

Você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Descobri por acaso na internet, os excelentes Wandering Island e Wandering Emanon, do Kenji Tsuruta. Curti Dark, do Netflix, e Cobra Kai, do YouTube, e no momento, estou ouvindo Synthwave em um canal chamado NewRetroWave, breguices antigas em playlists de Rock e Metal.

A capa de Os Fabulosos, HQ de Roger Cruz inspirada no universo dos X-Men

Entrevistas / HQ

Papo com Deborah Salles e Sofia Nestrovski, autoras de Viagem em Volta de uma Ervilha: “A gente queria fazer um livro sobre nada, mas que fosse bom de olhar. Que educasse nossa maneira de prestar atenção no mundo”

Publicado pela editora Veneta, Viagem em Volta de uma Ervilha é o primeiro quadrinho de Deborah Salles e Sofia Nestrovski lançado por uma editora. Anteriormente, em 2018, a dupla havia trabalhado junta em Minha Casa Está um Caos, um dos vencedores do edital da Coleção Des.Gráfica, organizado pelo Museu da Imagem e do Som. Responsável pela arte dos trabalhos da dupla, Salles também havia publicado a independente Quase Um Ano e quarta edição da Série Postal 2018.

Entrevistei as duas autoras para escrever sobre Viagem em Volta de uma Ervilha para o jornal O Globo. Você lê o meu texto sobre a HQ clicando aqui. Reproduzo a seguir a íntegra da minha conversa com as artistas, na qual elas falam sobre a dinâmica de trabalho que desenvolveram durante a produção do livro, comentam as influências do quadrinista Winsor McCay e do poeta britânico William Wordsworth e apresentam algumas cenas inéditas que acabaram fora versão final do quadrinho. Papo massa, saca só:

“Foram surgindo as afinidades e a vontade de criar algo no mundo enquanto a nossa amizade ia se criando”

Um quadro de Viagem em Volta de uma Ervilha, de Deborah Salles e Sofia Nestrovski

Por causa do Minha Casa Está um Caos e pelos posts de vocês no Instagram eu presumo que a amizade de vocês não é de hoje. Vocês podem me contar, por favor, como se conheceram? E quando vocês criaram alguma coisa juntas pela primeira vez?

Não é de hoje, mas também não é tão antiga assim. Ela tem exatamente a idade deste livro novo: quase dois anos. A gente se aproximou porque queria fazer algo juntas. Já tínhamos nos encontrado uma vez ou outra, por uma amiga em comum (beijo pra Milena), mas nunca tínhamos conversado de verdade. Partiu da Deborah o convite para pensarmos num projeto coletivo. Daí em diante foram surgindo as afinidades e a vontade de criar algo no mundo enquanto a nossa amizade ia se criando.

O livro foi se realizando por meio de muita troca e muita convivência. Começamos a nos ver quase diariamente durante esse período, porque foi um momento em que nós duas estávamos trabalhando em casa, passando os dias sozinhas… então fazia sentido que a gente se juntasse para trabalhar em companhia. A gente começou a passar o dia juntas, mas cada uma fazendo suas próprias coisas, parando de tempos em tempos para tomar um café ou comer um doce ruim de padaria. Nessa convivência, é claro, a gente conversava muito sobre o livro e ia experimentando modos diferentes de fazê-lo.

Como foi o início dessa experiência juntas?

Foi uma descoberta para nós duas: como trabalhar juntas, como ir se afinando uma à outra. Teve muita troca de referências durante todo o processo. Criamos uma pasta no dropbox onde fomos colocando todo tipo de coisa que queríamos compartilhar entre nós — músicas, poemas, uma caligrafia bonita num papel antigo… São referências que nos ajudaram a pensar no projeto, mas que também nos fizeram mais amigas, mais íntimas. Não é pouca coisa.

“Talvez tenha sido essa a ideia ou sentimento inicial do livro: uma vontade de se colocar no mundo”

Quadros de Viagem em Volta de uma Ervilha, de Deborah Salles e Sofia Nestrovski

Eu queria saber o mesmo sobre o Viagem em Volta de uma Ervilha: houve algum momento específico em que esse quadrinho começou a tomar forma? Houve alguma ideia ou sentimento inicial que vocês tinham em mente quando começaram a desenvolver esse projeto?

Talvez ele nunca tenha parado de tomar forma, e se a Veneta não tivesse aparecido, a gente estaria mexendo nele até hoje. Teve alguns momentos em que a gente achou que ele já estava pronto. E não estava. Em abril de 2018, a gente teve um desses momentos. Foi o nosso “primeiro-pronto”. Mandamos um PDF dele para alguns amigos e a maior parte deles nos respondeu com aquele emoji que é só dois olhinhos e nenhuma boca.

Mentira, nenhum deles fez isso, mas acho que foi essa a sensação que nos deu. As pessoas não estavam entendendo o que a gente estava tentando fazer. Então a gente decidiu repensar o projeto, porque aquilo tinha virado uma conversa fechada, que não comunicava com as pessoas além de nós duas. Comunicação é um negócio difícil, mas era o que a gente queria tentar.

Talvez tenha sido essa a ideia ou sentimento inicial do livro: uma vontade de se colocar no mundo. É um pouco vago. A gente queria abrir uma conversa. Talvez seja isso.

Acredito que esse livro foi tomando forma principalmente a partir das reflexões da Sofia pro mestrado e da Deborah sobre quadrinhos e design. Fico curioso pra saber o quanto a Deborah tava inserida nos estudos da Sofia e a Sofia nas reflexões da Deborah sobre HQs. Como foi pra vocês a experiência de uma ir se inteirando e dominando o universo habitado pela outra?

A gente se conheceu num momento muito parecido, em que as duas precisavam se concentrar muito em projetos das quais tinham que dar conta sozinhas. Eram trabalhos muito individuais e de muita pesquisa, então chega um momento que parece que você está flutuando no vazio e sua cabeça virou um balão de ar.

Foi muito bom descobrir que, de repente, a gente tinha com quem compartilhar nossas pesquisas. A natureza de trabalhar junto é meio essa: parar pra conversar, ficar um tempão em silêncio depois, ver o que a outra está fazendo… acho que a gente se apresentou uma para a outra também pelo nosso trabalho.

Além disso, teve muita ajuda num sentido mais prático, a Deborah leu e releu e diagramou o mestrado da Sofia, a Sofia fez várias poses estranhas para que a Deborah pudesse desenhar no TCC, que ela leu e releu também… E os trabalhos com certeza foram mudando por essas influências. Bônus: o mestrado da Sofia fala sobre poetas da virada do século 18 para o 19 que eram muito amigos, conviviam quase diariamente e escreveram um livro em conjunto.

Um dos rascunho iniciais do apartamento no qual é ambientado Viagem em Volta de uma Ervilha

Vocês podem me contar um pouco sobre a construção desse trabalho? Qual era a dinâmica de trabalho de vocês? Vocês trabalharam com um roteiro fechado?

Não tivemos um roteiro fechado. Foi muito na tentativa e erro. A gente tinha feito histórias inteiras que, de última hora, entendemos que não cabiam no quadrinho, estavam destoando. Então tiramos. Mas podemos mostrar uma palhinha (não comprometedora) delas:

Quadro de uma história que acabou ficando de fora de Viagem em Volta de uma Ervilha
Quadro de uma história que acabou ficando de fora de Viagem em Volta de uma Ervilha
Quadro de uma história que acabou ficando de fora de Viagem em Volta de uma Ervilha

Para cada história que fizemos, foi um processo diferente. Às vezes era como se a gente estivesse começando um livro novo, do zero, a cada história nova. Então deu um trabalhão. Se trabalho deixasse alguém rico, a gente agora seria milionárias.

Estudos de diagramação das páginas 32 e 33 de Viagem em Volta de uma Ervilha
Primeira versão de um desenho do epílogo de Viagem em Volta de uma Ervilha
Esboço final de um desenho do epílogo de Viagem em Volta de uma Ervilha

Sofia, eu gosto muito como o seu texto no quadrinho é disposto em parágrafos blocados com cara de quadros. Você pensou no seu texto a partir dessa disposição visual associada aos desenhos da Deborah? Você sentiu algum desafio particular em construir um texto para uma história em quadrinhos?

Alguns dos textos já estavam prontos antes de eu conhecer a Deborah, e a gente foi pensando em como dividi-los para encaixarem nas páginas. O texto de abertura, por exemplo, era todo escrito em parágrafos longos, e a gente sentou juntas para separá-lo em pedacinhos. Mas o mais legal, pelo menos pra mim, foi quando comecei a pensar a escrita junto com o desenho, pensar numa espécie de roteiro. Propus coisas de desenho para a Deborah e deu certo porque a Deborah é uma gênia. É muito bom trabalhar com gênios.

Foi uma grande descoberta e uma grande alegria e uma grande libertação fazer esse livro. Várias coisas grandes. O que permitiu que o livro fosse pequenininho, para ele ter só o que precisava ter, e todas as rebarbas de emoção puderam permanecer conosco. 

“Tinha alguma coisa na minha pesquisa que parecia conversar com o livro, e hoje eu acho que eram os espaços vazios e de silêncio”

Um quadro de Viagem em Volta de uma Ervilha, de Deborah Salles e Sofia Nestrovski

Aliás, Sofia, o que mais te interessa na linguagem dos quadrinhos? 

A primeira coisa que eu penso é que me interessa aprender uma língua nova. E o quadrinho é isso para mim: um jeito novo de falar. Vou contar uma história.

“Uma cesta de pesca é feita para capturar peixes. Mas depois que você tem o peixe, você não precisa mais pensar na cesta. Uma armadilha é feita para capturar lebres. Mas depois que você tem a lebre, não precisa mais pensar na armadilha. Palavras são feitas para capturar ideias. Mas quando você já capturou essas ideias, não precisa mais pensar nas palavras. Se eu pudesse apenas encontrar alguém para conversar comigo que tivesse parado de pensar nas palavras…”

Essa historinha é de Zhuang Zhou, um filósofo chinês que viveu mais de dois mil anos atrás. Me faz pensar nas possibilidades do quadrinho. E me faz pensar no que foi trabalhar com a Deborah.

Deborah, mesma pergunta procê: o que mais te interessa na linguagem dos quadrinhos?

Poderia dar a mesma resposta, porque para mim também é uma linguagem totalmente nova, um jeito de pensar o desenho que eu só comecei a experimentar há pouco tempo. Como alguém que desenha, gosto muito de poder trabalhar uma mesma ideia em quantas páginas for necessário, e com recursos que parecem infinitos. Felizmente, eu sou alguém que desenha trabalhando com alguém que escreve, então é como se todo aquele infinito se multiplicasse por mil.

Deborah, me fala sobre as suas técnicas? Como você faz os seus desenhos? Qual material você usa? 

Como estava fazendo meu TCC — também um quadrinho — quando começamos o nosso livro, parti dos mesmos materiais que já estava usando, caneta-pincel e nanquim. Tinha alguma coisa na minha pesquisa que parecia conversar com o livro, e hoje eu acho que eram os espaços vazios e de silêncio. Mas a primeira ponte que fiz entre os dois trabalhos foi repetir os materiais, e não deu certo. O nosso livro exigia um grau de precisão muito maior, e eu mudei para bico de pena, um pincel bem fino e duas cores de nanquim. 

Cenas de uma história que acabou ficando de fora de Viagem em Volta de uma Ervilha
Cenas de uma história que acabou ficando de fora de Viagem em Volta de uma Ervilha

Eu adoro a forma como vocês exploram o branco algumas páginas. Por que essa opção por tanto espaço “vazio”?

Para permitir que o leitor tenha um espacinho para ele também.

Também queria saber mais sobre a opção de cores utilizadas por vocês. Por que essas cores?

No começo, o livro era todo colorido.

Um primeiro rascunho de Viagem em Volta de uma Ervilha, ainda em cores

Depois, a gente percebeu que isso poderia ficar confuso, além de diminuir muito nossas possibilidades de publicação, porque deixa a impressão bem mais cara. Então o rosa partiu de uma observação da Deborah de que o apartamento da Sofia tinha muitas coisas vermelhas. E que o rosa é a versão encantada do vermelho.

Mas essa cor tem mais de um significado: em primeiro lugar, o rosa é o lugar onde a vida imaginária do livro acontece. Mas ele às vezes cumpre uma função instrumental mesmo, de criar contrastes nos desenhos e de chamar a atenção para algo específico num quadro.

Depois que a gente já tinha entendido que o nosso quadrinho teria essas duas cores, teve um livro que nos ajudou a entender como desenvolver nossas ideias: Eloise, parceria da Kay Thompson (texto), com Hilary Knight (desenhos). É um livro infantil maravilhoso, sobre uma criança mal-educada e inquieta, vivendo sozinha num quarto com seus animais de estimação. Um pouco como a gente:

Uma página de Eloise, parceria de Kay Thompson com Hilary Knight

Me falem, por favor, um pouco sobre a influência do Little Nemo in Slumberland e do Winsor McCay na construção desse livro?

Por um lado, existe algo do tom geral do Little Nemo que nos atrai — em primeiro lugar, isso de você não saber se é um quadrinho para crianças ou para adultos. E isso de ele viver histórias mágicas e cheias de aventuras nos sonhos, mas o que muitas vezes as motiva é um troço totalmente banal e estranho: aquilo que ele comeu no jantar. A indigestão cria histórias lindas. Tem algum senso de humor aí que a gente não sabe explicar, mas que nos deixa curiosas.

Por outro lado, tem o virtuosismo do desenho do Winsor McCay. Ele é inimitável, o que enche a gente de vontade de imitar. Por exemplo:

Quadros de The Airship Adventures of Little Nemo, de Winsor McCay
Estudos de Deborah Salles para Viagem em Volta de uma Ervilha

Gosto muito de histórias sobre rotinas e banalidades, são temas predominantes em trabalhos como Seinfeld e nas HQs do Adrian Tomine, por exemplo, e acho que o Viagem gira muito em torno disso. Esses temas também são caros para vocês? 

São muito, e chegaram em nós por muitas referências diferentes. Para dar uma resposta um pouco longa: a maior influência nesse sentido foi provavelmente o William Wordsworth (1770-1850), que é o poeta que a Sofia pesquisou no mestrado. Ele escrevia poemas sobre coisas muito miúdas do cotidiano, porque percebia que as pessoas estavam vivendo num estado de distração muito forte, ficando cegas e insensíveis ao que se passava com elas. Foi o período da Revolução Industrial e do crescimento das cidades na Inglaterra, e os modos de vida estavam mudando. Wordsworth intuiu que esses grandes acontecimentos — impulsionados também pela mídia, que começava a ganhar força — faziam as pessoas perderem contato com elas mesmas, e buscarem emoções cada vez mais fortes, quase como um vício. Os modos de vida estavam mudando e os modos de sofrimento também. A literatura da época era cheia de sangue e lágrimas e exageros; Wordsworth quis escrever num tom que devolvesse às pessoas o que elas tinham de mais humano e inalienável: a atenção. É algo muito simples, mas muito difícil de conseguir, sobretudo nesses momentos — um pouco como hoje — de grande instabilidade política. O que Wordsworth estava fazendo era nos mostrar de novo as coisas que a gente já se acostumou a ver — aquelas coisas do dia a dia que nem percebemos mais. Ele nos reapresenta ao mundo, e nos mostra que de perto ou de dentro tudo é interessante. Ele estava propondo uma educação da atenção.

Isto é um ponto. Mas teve também outras influências (gostamos de Seinfeld e de Adrian Tomine também!), como o filme A cidade onde envelheço (2016), de Marília Rocha. É um filme muito sutil, sobre a vida de duas amigas morando em Belo Horizonte. Não acontece praticamente nada nele, mas é tão bom de olhar. A gente queria fazer algo assim também: um livro sobre nada, mas que fosse bom de olhar. Que educasse nossa maneira de prestar atenção no mundo, e de dar atenção uma à outra. 

Pra gente, agora, resta saber qual vai ser o olhar dos leitores para o livro. Estamos curiosas. E queremos estar atentas.

A capa de Viagem em Volta de uma Ervilha, HQ de Deborah Salles e Sofia Nestrovski publicada pela editora Veneta
Entrevistas / HQ

Papo com Helô D’Angelo, autora de Dora e a gata: “Tenho curtido ‘alfabetizar’ uma galera que não está acostumada a ler quadrinhos”

Está no ar a campanha de financiamento coletivo do álbum Dora e a gata, primeiro trabalho longo de ficção da quadrinista e jornalista Helô D’Angelo. Para que as 116 páginas do quadrinho sejam impressas e lançadas em novembro de 2019, a autora pede no site Catarse o montante de R$ 28 mil. Até o momento, faltando 41 dias para o fim da campanha, já foi reunido mais de 56% desse valor. Você confere a página do projeto clicando aqui.

Produzida durante um período de oito meses e publicada originalmente no Instagram de D’Angelo, Dora e a Gata narra a entrada da personagem-título no mundo adulto em meio ao seu convívio com uma gata encontrada por ela na rua.

“Decidi que só começaria a postar os capítulos quando a HQ estivesse finalizada – se não fosse assim, eu sei que ia querer fazer a história ‘perfeita’, sem furos, o que no fim só ia me impedir de terminar”, conta a artista em conversa por email com o blog. Nesse papo, a quadrinista conta a origem de Dora e a gata, comenta o processo de produção da HQ, fala sobre a interação com seus mais de 66,4 mil seguidores no Instagram e mostra-se otimista apesar dos tempos de escrotidão generalizada sintetizados no governo de Jair Bolsonaro.

“É uma questão de parar de demonizar a ignorância, porque isso gera medo do conhecimento, e medo gera ódio, e ódio é o que vivemos”, diz D’Angelo. Papo massa, saca só:

“Do início ao fim, tudo é feito à mão”

Quadros de de Dora e a gata, HQ de Helô D’Angelo em campanha de financiamento coletivo no Catarse

Qual foi o ponto de partida para Dora e a Gata? Quando você começou a desenvolver esse projeto? Houve algum estalo particular que te levou a produzir essa história, com esses personagens?

Eu comecei a desenvolver Dora e a gata há dois anos, mais ou menos. Tudo começou pelo final: foi o desfecho que me veio primeiro à cabeça, durante um curso de histórias em quadrinhos no qual precisávamos entregar pelo menos o projeto de uma HQ como uma espécie de TCC. Lembro que me inspirei na minha gata, a Jerí, e pensei nessa história de coming of age, de amadurecimento, e autoconhecimento. Mas por meses eu guardei esse final na gaveta, achando que criar uma trama para chegar a ele seria impossível, até que comecei outro curso, dessa vez de ilustração, com a Psonha Camacho. Eu estava passando por um bloqueio criativo terrível depois de um ano penoso trabalhando no meu TCC, o Quatro Marias, e o curso estava me ajudando a sair dessa. As aulas eram tão inspiradoras que um dia, do nada, comecei a rabiscar e criar personagens: uma moça e uma gata, inspirada na Jerí. Fiz alguns estudos das duas, estudos de cenário e depois algumas tirinhas, sem pretensão nenhuma, e levei para a Psonha ver. Ela animou tanto, me incentivou tanto, que eu continuei desenhando tirinhas soltas, e daí um dia decidi que aquilo era sério e sentei para escrever o roteiro. Lembro que a primeira tira que eu desenhei foi durante a Bienal de Quadrinhos, em Curitiba, na qual eu fiquei extremamente inspirada – e, inclusive, não consegui mais desapegar de fazer tudo à mão, em cadernos. Do início ao fim, tudo é feito à mão.

“No jornalismo, você está contando histórias interessantes por serem verdade; na ficção, tudo depende da sua capacidade de criar e narrar a história”

Quadros de Dora e a gata, HQ de Helô D’Angelo em campanha de financiamento coletivo no Catarse

O meu primeiro contato com o seu trabalho foi com os cartuns e as tiras que você publica no Instagram. Dora e a Gata é o seu primeiro trabalho longo, certo? Como foi o processo de desenvolvimento da estrutura dessa história? O quanto você já tinha pronto desse quadrinho quando começou a publicá-lo?

Sou formada em jornalismo, e meu TCC foi uma reportagem longa em quadrinhos sobre as realidades do aborto no Brasil (coloquei o link na resposta anterior). Mas Dora e a gata é minha primeira HQ longa de ficção, o que faz muita diferença: no jornalismo, você está contando histórias interessantes por serem verdade; na ficção, tudo depende da sua capacidade de criar e narrar a história. É um desafio grande, e meu processo foi bastante desesperador (rs), porque ao mesmo tempo em que eu criava as tiras eu comecei a estudar mais a fundo roteiro, composição, cor e a buscar outras referências nos quadrinhos e no cinema. Então, imagina, eu me sentia uma despreparada, achava que ia desistir, que não ia funcionar, que eu não sabia o suficiente para fazer uma HQ longa – mas, quando eu abri mão de fazer algo perfeito e comecei a me divertir, deu certo. Tirando o desespero, o processo foi mais intuitivo do que qualquer coisa: não fiquei pensando em amarras técnicas e apenas deixei a história fluir, pedindo às vezes conselhos aos amigos mais próximos sobre a narrativa. Foi realmente algo muito sincero: comecei com as tiras soltas, depois montei um roteiro bem simples (ao qual também não me amarrei: era mais uma linha-guia para eu não me perder), e enquanto ia desenhando, ia tendo mais ideias e enriquecendo o roteiro. Não pensei nem em estrutura de página, algo que é minha maior dificuldade: quase todas as páginas têm 6 quadros quadrados, e isso tem a ver com a narrativa, já que no final essa estrutura é quebrada, e também veio como uma forma de facilitar a leitora de quem não está acostumado à linguagem dos quadrinhos, que é boa parte do meu público. Até pela minha insegurança de achar que eu não terminaria, eu decidi que só começaria a postar os capítulos quando a HQ estivesse finalizada – se não fosse assim, eu sei que ia querer fazer a história “perfeita”, sem furos, o que no fim só ia me impedir de terminar. Meu objetivo era finalizar, me sentir capaz de ter algo grande pronto no meu portfólio. E rolou!

Quadro de Dora e a gata, HQ de Helô D’Angelo em campanha de financiamento coletivo no Catarse

E qual foi o maior desafio pra você ao longo desses oito meses de desenvolvimento das 116 páginas da HQ?

Foram dois. O primeiro: lutar contra a minha baixa autoestima ao mesmo tempo em que eu evitava exagerar na dose das horas gastas trabalhando na HQ. O segundo: estruturar uma narrativa tão longa e criada exclusivamente por mim, e ter confiança de que aquilo estaria bom, que eu não precisaria florear mais do que o necessário. Resumindo, confiança em mim e no meu trabalho foi de longe a parte mais difícil (rs). Desenhar eu tirei de letra, rs.

Você trabalha em aquarela e nanquim em Dora e a Gata. Por que essa técnica? Você também faz tudo à mão nas suas tiras e nos seus cartuns? 

Eu sou absolutamente apaixonada por nanquim e aquarela, porque cada um deles representou minha entrada num novo “nível” do desenho: o nanquim eu conheci ainda adolescente, e senti um avanço imenso no meu traço depois que consegui começar a dominar a técnica. Já a aquarela veio já comigo adulta, num momento em que eu estava começando a experimentar cores – ganhei meu estojinho da Winsor e Newton do meu namorado, o Luis, e nunca mais larguei. Hoje, nanquim+aquarela são minha combinação favorita, e embora eu também trabalhe um pouco com guache, lápis de cor e grafite, são eles que predominam no meu trabalho, que é quase todo feito à mão. Acho que é o que me dá mais prazer mesmo, sou daquelas chatas que curtem o cheiro das coisas, o toque do papel, a ida à loja para escolher as cores, a incorporação do erro no trabalho, sem possibilidade de crtl+z. Dá mais emoção, mas também dá mais autenticidade. De qualquer modo, ultimamente tenho me dedicado a estudar pintura e desenho digitais, e até curto, mas não tenho a mesma facilidade (ainda?) e arrisco dizer que hoje consigo fazer muito mais rápido qualquer trabalho na mão do que no digital.

Quadro de Dora e a gata, HQ de Helô D’Angelo em campanha de financiamento coletivo no Catarse

Me fala, por favor, como você chegou nessa paleta de cores de Dora e a Gata? Esses tons de azul, roxo e vermelho se fazem muito presentes no seu trabalho. Por que essas cores?

Bom, para começo de conversa, são minhas favoritas. Mas em “Dora e a gata” eu quis resumir ao máximo muita coisa: além da estrutura da página, traços faciais, cenários, as cores das coisas. Optei pelo vermelho e pelo azul porque eles trabalham bem juntos, e o roxo apareceu como mistura dos dois. Depois desenvolvi conceitualmente um pouco mais esse uso das cores. Cada personagem tem uma cor específica, que tem a ver com sua personalidade: Dora e Gata são azuis, uma cor que, dependendo do tom, remete a medo, frio, noite; mas também a harmonia, paz – a ideia é que a Dora, no início, é puro medo e ao longo da narrativa vai se desenvolvendo até chegar à faceta mais harmoniosa de sua cor, com a ajuda da gata, que também é azul. Já Caio, o namorado abusivo de Dora, é o único ponto verde da história toda: é uma cor que eu detesto, e que me remete a doença, a aquilo que está estagnado, mofo, e é difícil de combinar – mas ironicamente não deixa de ser a cor da esperança, do crescimento e da vida, de modo que dá para a gente pensar que mesmo no pior cenário possível existe vida. Ceci, a amiga/interesse romântico de Dora que aparecerá mais para frente, é vermelho: força, energia, potência, atenção. 

Você tem muitos seguidores no Instagram e os seus posts recebem muitos comentários. Você já fechou as 116 páginas da HQ, mas essa interação do público com as atualizações da série te fizeram querer mudar ou mexer de alguma forma na história?

Não, nem um pouco! Sou dessas que têm inseguranças ao longo do processo, mas uma vez que a coisa está finalizada, acabou. Sou assim com quadrinhos e relacionamentos, rs. E eu realmente acho que fiz um bom trabalho nessa HQ, estou feliz com ela como um universozinho fechado, sinto que ela está bem coesa e coerente, e acho que mexer em qualquer coisa poderia estragar isso.

Quadros de Dora e a gata, HQ de Helô D’Angelo em campanha de financiamento coletivo no Catarse

Você costuma fazer séries temáticas de cartuns e tiras no Instagram, mas compartilhar uma obra em capítulos, periodicamente, é algo novo. É diferente a interação dos seus seguidores com esse trabalho quando comparada com a interação com seus outros posts?

Sim, é muito diferente! Minhas tiras seriadas, como “Se personagens de filmes fizessem terapia”, não têm periodicidade definida; eu posto quando dá na telha, e muita gente nem sabe que é parte de uma série. Já “Dora e a gata” eu fiz questão, desde o início, de deixar bem claro que seria uma obra em capítulos, que aqueles capítulos seriam finitos, e que a história não seria postada na íntegra no Instagram. Isso criou uma cultura de ansiedade positiva pelos posts, um tipo de ansiedade à qual as pessoas não estão mais acostumadas, já que tudo é muito rápido e instantâneo. No começo, recebi comentários um pouco raivosos das pessoas querendo que eu postasse tudo de uma vez, mas depois de algumas semanas percebi que mesmo os seguidores mais impacientes começaram a curtir essa espera pelo post seguinte – até porque eu tento fazer brincadeirinhas interativas entre posts, como perguntar teorias dos leitores e coisas assim. Eu tenho curtido “alfabetizar” uma galera que não está acostumada a ler quadrinhos: fico pegando no pé de quem chama de “charge” ou “tirinha” essa webcomic; corrijo, explico, lembro que é parte de uma história mais longa e coisa e tal. Acho que se nós quadrinistas não fizermos isso, nunca vamos conseguir conquistar novos públicos. E um novo público, desacostumado com a linguagem de HQs, é o que tem chegado em “Dora e a gata” (até por isso eu quis manter as páginas numa formatação simples).

Como autora independente eu imagino que você não tenha alguém à disposição para atuar como editor da HQ. Como tem sido o processo de edição de Dora e a Gata? 

Olha… é um desafio imenso. O que me salvou foram os amigos mais experientes. Como eu falei, o processo de criação da HQ foi meio o monstro de Frankenstein, uma coisa sincerassa e sem muito projeto, e ao longo do caminho pude contar com amigos e amigas que me ajudaram com dicas mais “editoriais” e com críticas à narrativa: a própria Psonha, Alexandre de Maio, Uva (da gráfica Ovu), Carol Ito, Veronica Berta, lovelove6, Luli Pena e toda a cena das mulheres quadrinistas e ilustradoras aqui de São Paulo. Lembro que eu terminei a HQ e mandei para essas e algumas outras pessoas e elas curtiram e me deram ótimos feedbacks – um deles foi a falta de momentos de respiro na história, uma coisa que eu realmente não fiz porque estava muito presa ao ritmo da webcomic, que precisa ser mais rápido e com mais ganchos. Aí, eu completei com umas 15 páginas de respiros: uns momentos contemplativos, tipo a gata sozinha na casa, Dora pensativa, momentos de passagem do tempo, coisas mais calmas, pra pisar no freio mesmo. E em termos de diagramação… foi um terror (rs). Minha ideia original era fazer os textos à mão, mas obviamente eu desisti, tive que diagramar tudo umas três vezes, depois fui descobrindo coisas sobre formatos digitais e montagem do livro que eu nem fazia ideia, fui atrás de ISBN, gráfica, enfim, fazendo enquanto aprendia, tentando não cair no desespero porque é muita coisa. Acho que, com o apoio desses amigos, dei conta (espero!).

“Minha protagonista é uma mulher bissexual em processo de autoconhecimento, que passa por um relacionamento abusivo, mas consegue se reerguer”

Uma página de Dora e a gata, HQ de Helô D’Angelo em campanha de financiamento coletivo no Catarse

O seu trabalho aborda muitos temas políticos e questões sociais, dialoga bastante com a nossa realidade. No projeto de Dora e a Gata você diz que a HQ vai tratar de política “de forma transversal”. Você pode contar um pouco mais sobre como vai ser essa abordagem?

Eu acredito que o fazer político vai muito além de falar explicitamente de política. Tudo é político, especialmente se você é parte de um grupo que chamamos de “minoria política” – mulheres, negros, LGBTs etc. Em “Dora e a gata”, meu foco principal não é a questão da mulher, nem a sexualidade, por exemplo, mas essas são questões que aparecem na obra e guiam seu desenvolvimento; que moldam as personagens e transformam a história, sem que eu precise me referir a elas explicitamente como bandeiras, como foco. A coisa está no discurso, nas entrelinhas, nas vivências, como é na vida real. Quem é esperto vai entender, e quem não é vai, pelo menos, conhecer mais personagens femininas e fortes. Além disso, tem a questão da representatividade. Veja, minha protagonista é uma mulher bissexual em processo de autoconhecimento, que passa por um relacionamento abusivo, mas consegue se reerguer; tirando Caio, todos os personagens são mulheres, todas com seus altos e baixos; uma delas é uma mulher negra e lésbica – e eu trabalhei muito para não objetificá-la para o olhar masculino/branco. Mas, embora eu tenha me esforçado para fazer uma história predominantemente feminina, eu não fico mencionando isso o tempo todo na HQ. Não é necessário: só de ver mulheres cuidando de mulheres, alertando mulheres sobre homens violentos, sendo amigas de mulheres e amando mulheres, isso já está dito. E para além de tudo isso, tem também o fato de eu, a autora, ser mulher em um meio que ainda é, ou que ainda parece, bastante dominado por homens. Com “Dora e a gata”, eu quero mostrar que é possível uma autora mulher produzir uma obra que seja bem recebida pelos leitores sem ter que me adequar a estereótipos sobre histórias “femininas”, e que seja ao mesmo a história que eu queria produzir. Dominar esse espaço e conquistá-lo para as próximas gerações de quadrinistas mulheres é político também. 

“Tenho recebido respostas muito interessante de pessoas que inclusive não estão acostumadas a consumir quadrinhos”

Quadros de Dora e a gata, HQ de Helô D’Angelo em campanha de financiamento coletivo no Catarse

Desde o dia 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita, militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista que reflete muito do que é a nossa sociedade hoje. Os seus quadrinhos são sempre críticos em relação a isso tudo e também costumeiramente didáticos e isso me soa como uma postura bastante positiva de enfrentamento e esperança. Enfim, o que eu queria saber: você é otimista em relação ao nosso futuro? 

Olha, Ramon, eu sou otimista. Eu tenho que ser. Se não fosse, não teria energia para fazer o tipo de trabalho que eu faço, que é essa coisa provocativa, mas também didática, de pegar a pessoa pela mão e falar: “olha, é isso aqui que você não sabe, vamos tentar aprender juntos?”. E eu tenho recebido respostas muito interessante de pessoas que inclusive não estão acostumadas a consumir quadrinhos: a galera lê minhas tiras com trechos de livros e fala “uau, não sabia disso” ou “isso me fez pensar por um outro lado”. Tem muitos adolescentes nesse bolo, o que me deixa muito feliz. Durante as eleições, eu fiz um resumo em HQ das propostas do Haddad, e muitos eleitores de Bolsonaro fizeram comentários interessantes, não concordando comigo, mas pelo menos assumindo que as propostas pareciam legais, que eles não sabiam, coisas assim. Eu acho que despertar essa curiosidade, esse lado crítico, nas pessoas é o que me mantém trabalhando. É tão gostoso ler, aprender, conhecer, mas num país em que 1,3 milhões de pessoas são analfabetas e em que a educação pública não dá conta de gerar um pensamento crítico, esperar que as pessoas simplesmente tomem gosto por estudar (quando sequer têm tempo de lazer e de cuidar da própria saúde, aliás) é bem ingênuo, então acho que dar uma mãozinha nesse sentido é o mínimo que eu, enquanto pessoa branca, de classe média-alta e privilegiada em quase todos os sentidos, posso fazer.  É uma questão de parar de demonizar a ignorância, porque isso gera medo do conhecimento, e medo gera ódio, e ódio é o que vivemos. 

Última! Você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?
Estou em uma pegada bem política, então tenho lido muitos livros teóricos sobre o tema. O último que li foi “O ponto zero da revolução, de Silvia Federici, que é absolutamente incrível. Indico também, pra quem for bom de inglês, o podcast Welcome to Night Vale, que é ficcional e é uma das coisas mais geniais e inspiradoras que eu já ouvi – especificamente o episódio A story about you. Por último, indico meu livro favorito, que me ensinou praticamente tudo o que eu sei sobre narrativa: The house of leaves, de Mark Z. Danielewski. É um livro metalinguístico, em que a diagramação conta a história junto com o texto, e pirou minha cabeça num nível que nem sei descrever. 

Helô e a gata, trabalho de Helô D’Angelo em campanha de financiamento coletivo no Catarse
Entrevistas / HQ

Papo com Box Brown, autor de Cannabis: “Fui preso por posse de maconha quando tinha 16 anos. Pude ver um pouco do sistema de Justiça criminal e como tratava meus pares”

Cannabis: A Ilegalização da Maconha nos Estados Unidos é o primeiro álbum do quadrinista Box Brown publicado no Brasil. O quadrinho lançado pela editora Mino é o quarto projeto de não-ficção do autor – do mesmo gênero ele já publicou Andre, The Giant, sobre a vida do lutador de luta livre André René Roussimoff; Is This Guy for Real, biografia do ator Andy Kaufman; e Tetris, narrando a história do joguinho precursor da hoje bilionária indústria de games.

Eu já havia entrevistado Brown em 2014, na época do lançamento de Andre, The Giant, e voltei a falar com ele agora para escrever sobre a publicação de Cannabis no Brasil. Esse papo virou matéria no jornal O Globo.

Na entrevista que reproduzo na íntegra a seguir, Brown fala sobre as origens de Cannabis e expõe suas impressões e críticas aos sistema Judicial norte-americano. Ele também conta sobre sua rotina como editor do selo independente Retrofit Comics e fala sobre Tetris – próximo trabalho dele a ser publicado por aqui, também pela Mino, ainda sem data de lançamento revelada. Papo massa, saca só:

“Não queria pegar leve ou soar hesitante em meu apoio e queria martelar esse posicionamento com fatos”

Quadros de Cannabis, obra do quadrinista Box Brown publicada no Brasil pela editora Mino

Mais do que um livro sobre o processo de ilegalização da maconha ao longo da história, Cannabis soou para mim como um livro sobre mentiras e racismo. Quando você começou o livro tinha consciência dessa relação tão próxima entre racismo e mentiras com o processo de ilegalização?

Eu tinha plena consciência de que nosso sistema atual é racista. Um sistema no qual pessoas não-brancas são presas em uma taxa muito mais alta do que suas contrapartes brancas por causa de maconha. Mas, não estava realmente consciente de que sempre foi assim e que, de fato, esse foi o ponto de partida para proibição, em primeiro lugar. A lei está funcionando da forma como foi criada para funcionar.

Aliás, você pode me contar um pouco sobre o momento no qual começou a pensar e desenvolver esse livro? A história da maconha sempre foi um tema de interesse para você?

Fui preso por posse de cannabis quando tinha 16 anos. Eu era muito jovem e ingênuo sobre tudo. Era apenas uma criança e provavelmente só tinha fumado um punhado de vezes em toda a minha vida. Pude ver um pouco do sistema de Justiça criminal e como eles tratavam meus pares, que não eram brancos e vinham de uma cidade menos rica. Desde então, acho que estava me coçando para contar essa história, mas foi só recentemente que minha editora conseguiu fazer isso acontecer. Acho que isso mostra o quanto a opinião pública mudou nos EUA, mesmo nos últimos anos.

“Sou muito passional em relação a todos os temas pelos quais tenho mais interesse, mas realmente sinto que esse é extremamente importante”

Quadros de Cannabis, obra do quadrinista Box Brown publicado no Brasil pela editora Mino

Eu gosto muito dos seus livros com temas históricos e biográficos, mas acredito que Cannabis tenha sido de alguma forma mais desafiador, por causa do volume de preconceito em torno desse tema. Por esse aspecto, foi mais difícil criar esse livro? Você se sentiu de alguma forma mais preocupado em ser mais factual e didático em relação a esse tema?

Sim, acho que posso tê-lo levado mais a sério de alguma forma. Havia partes em que eu realmente queria ser mais claro e usar uma linguagem muito forte sobre a maconha. Não queria pegar leve ou soar hesitante em meu apoio e queria martelar esse posicionamento com fatos. Sou muito passional em relação a todos os temas pelos quais tenho mais interesse, mas realmente sinto que esse é extremamente importante, muito mais do que wrestling e videogames (mas esses são muito importantes também!).

Ainda sobre a criação desse livro, você poderia me falar um pouco sobre a sua dinâmica de trabalho? O livro tem quatro páginas de bibliografia. Quanto tempo você passou pesquisando? Quanto tempo você passou escrevendo o roteiro? Quanto tempo você passou desenhando o livro?

Bem, passo muito tempo pesquisando sobre o meu próximo projeto antes de terminar de trabalhar no livro anterior e essa pesquisa segue mesmo quando já comecei a desenhar esse seguinte. Desenhar histórias em quadrinhos leva uma quantidade enorme de tempo, então quando estou desenhando a primeira página estou pesquisando a página 20 ou 30. E, em seguida, muitas vezes, tenho que voltar e mudar as coisas até o dia da impressão. A bibliografia no final era apenas uma bibliografia selecionada, a versão integral é muito maior e não cabia no livro.

“Leis são escritas para excluir qualquer um que tenha sido preso por cannabis de participar de um mercado legal”

Uma página de Cannabis, obra do quadrinista Box Brown publicado no Brasil pela editora Mino

Você pode falar um pouco sobre as suas técnicas, por favor? O que é digital e o que é tinta? 

Eu desenho com nanquim no papel e depois finalizo no Photoshop. Desenho tudo bem pequeno, o que me ajuda a manter as coisas simples.

Quais são as suas opiniões sobre as atuais políticas americanas em relação ao consumo de maconha? Você é otimista em relação a uma possível mudança nesses preconceitos predominantes em relação ao consumo, a venda e o cultivo de maconha?

Eu realmente não sei o que pensar. Estamos vendo uma forma de legalização acontecendo nos EUA onde o dinheiro que está sendo feito no negócio não está indo para as pessoas que sofreram sob a proibição. Leis são escritas para excluir qualquer um que tenha sido preso por cannabis de participar de um mercado legal. Estamos vendo policiais realmente não obedecendo a novas leis e ainda assediando e prendendo pessoas com base na ignorância das leis. Mas, ao mesmo tempo, a opinião pública nos EUA mudou completamente e continua a mudar para ser simpática à maconha. Não há muito o que os legisladores possam fazer para impedir que isso aconteça. A coisa que me deixa com raiva é que, agora eles não podem impedir que se torne legal, todos estão tentando fazer o máximo de dinheiro possível por meio do processo de legalização.

“Todo mundo fica falando sobre justiça social, mas todos aqueles com algum registro policial são mantidos fora da indústria”

Autorretrato do quadrinista Box Brown

Qual você acredita que deveria ser a principal mudança política relacionada a esse tema? Você crê em alguma mudança legislativa específica que possa beneficiar os consumidores?

Eles estão tentando mudar as leis para permitir que os bancos se envolvam no negócio. Agora diz respeito estritamente a dinheiro, em todo o país. Mas não acho que devam mudar as leis apenas para permitir que os bancos tenham acesso ao dinheiro. Se os bancos querem acesso ao dinheiro, então deveriam estar fazendo lobby junto ao governo para legalizar e libertar quem está preso.

E o que te preocupa mais no momento em relação à legislação americana em relação a esse tema?

DINHEIRO, DINHEIRO e DINHEIRO. A maconha é barata e fácil de cultivar e processar e muitas empresas estão tomando grandes providências para garantir que sejam as únicas que podem produzi-las em determinadas áreas, para que possam aumentar os preços. Este é um recurso natural abundante e há muito lucro a ser feito sem que as corporações tentem abrir caminho para o setor e eliminem todos os outros produtores. Enquanto isso, todo mundo fica falando sobre justiça social, mas todos aqueles com algum registro policial são mantidos fora da indústria, assim como não há espaço para nenhuma empresa pequena.

“Passei a assistir um pregador no YouTube que defende que Donald Trump é o anticristo. Não sei se acredito na narrativa dele, mas está começando a fazer cada vez mais sentido”

Quadros de Cannabis, obra do quadrinista Box Brown publicado no Brasil pela editora Mino

Tenho curiosidade em relação à sua visão do mundo no momento. Vivemos numa realidade na qual Donald Trump é o presidente dos EUA e Jair Bolsonaro é o presidente do Brasil. O que você acha que está acontecendo com o mundo? Você é otimista em relação ao nosso futuro?

É difícil ler as notícias e ser otimista. Passei até a assistir a um pregador no YouTube que defende que Donald Trump é o anticristo. Não sei se acredito na narrativa dele, mas está começando a fazer cada vez mais sentido essa perspectiva. Quando estou com muito medo, penso na minha heroína Greta Thunberg e em como ela é tão durona diante de todos esses cuzões. Acho que muitos dos jovens que crescem testemunhando isso estão prestando muita atenção e veremos a formação de uma geração durona em resposta. Toda ação tem uma reação, não é?

O que você pensa quando um trabalho seu é publicado em um país como o Brasil? Somos todos americanos, mas são culturas muito diferentes. Você tem alguma curiosidade em relação à forma como um trabalho seu será lido e interpretado por pessoas de um ambiente tão diferente dos seu?

Sim! Fico muito empolgado com isso. Eu realmente não sabia, mas tenho um monte de leitores no Brasil. Tenho uma amiga, Laura Lannes, que é uma incrível quadrinista brasileira e estou começando a sentir que há uma grande paixão por quadrinhos por aí. Esse é o tipo de coisa que você pensa quando é criança e faz arte, que um dia pessoas de todo o mundo estarão olhando para seus desenhos. Muitas vezes me pego questionando o meu trabalho e me pergunto se ele fará algum sentido para alguém. 

Quadros de Cannabis, obra do quadrinista Box Brown publicado no Brasil pela editora Mino

Fico curioso em relação às suas experiências e opiniões sobre o mercado editorial sendo o responsável por uma editora independente como a Retrofit Comics e o autor de uma editora gigante como a First Second. São operações em escalas muito diferentes, não são?

São muito diferentes. A Retrofit Comics foi iniciada no meu apartamento minúsculo e foi uma luta imensa para conseguir fazê-la chegar nas pessoas. Já a First Second fica em um arranha-céu imenso de Nova York. Comecei a Retrofit como uma forma de colaborar com artistas que eu gostava sem estarmos trabalhando propriamente em uma obra. Gosto de trabalhar sozinho quando faço quadrinhos, mas também sou uma criatura social e acho realmente instrutivo estar perto de outros artistas, seja de qual forma for. Quando lanço meu próprio quadrinho pela Retrofit e um gibi com a First Second, não há competição. A First Second tem uma presença de mercado e uma infraestrutura imensas, assim como pode se dar ao luxo de se arriscar mais e ter mais pessoas trabalhando em cada livro. Eles têm uma enorme rede de pessoas de imprensa e pessoas de relações públicas que têm um milhão de contatos e conhecem o mercado de livros e todos os meandros. A Retrofit sou só eu e o meu amigo Jared, nós dois tentando fazer tudo isso.

E em relação ao público? Há alguma diferença particular entre aqueles que leem seus quadrinhos para a Retrofit e aqueles que leem seus livros para a First Second? Aliás, você pensa nesses públicos enquanto está criando seus quadrinhos?

Muitas vezes as pessoas conhecem meus livros da First Second e nunca ouviram falar da Retrofit. Então acho que meus leitores ficam animados quando descobrem a Retrofit e encontram meus outros livros – e as vendas de muitos livros de outros artistas acabam sendo alavancados também! Eu realmente não penso neles como públicos diferentes ou mesmo pessoas diferentes.

Quadros de Cannabis, obra do quadrinista Box Brown publicado no Brasil pela editora Mino

Sobre o Tetris: você pode me contar um pouco sobre como e quando você começou a desenvolver esse livro?

Me deparei com um documentário sobre Tetris chamado From Russia With Love e era uma história incrível! Eu pensava tanto sobre esse livro que nem precisei elaborar muita coisa, a história do Tetris já era muito surpreendente. Apenas tentei colocar as coisas em contexto. Tetris causou um grande impacto em mim quando criança. Foi um dos primeiros jogos que toda a minha família jogou, até os adultos. Acho que para a minha geração foi uma marco para pais e filhos. Foi a primeira vez que os pais entenderam o que eram os videogames.

O mercado de games é provavelmente o mais rentável da indústria do entretenimento hoje, mas também é cercado de muitos preconceitos. Gosto como o cenário político do Tetris pode ajudar a esclarecer pessoas não iniciadas no assunto em relação ao começo desse mercado e suas possibilidades. Você tinha alguma intenção de combater esse preconceito quando começou esse livro?

Sim, acho que sim. Acho que é importante lembrar as pessoas que os videogames são uma forma de arte. As coisas que dizem sobre videogames agora são as mesmas coisas que disseram sobre romances na virada do século. Cem anos depois, não há dúvida de que o romance de ficção é um dos meios artísticos mais reverenciados em nossas culturas. Talvez daqui a 100 anos o videogame seja visto da mesma forma.

A capa de Cannabis: A Ilegalização da Maconha nos Estados Unidos, trabalho do quadrinista Box Brown publicado no Brasil pela editora Mino

E apesar de todo esse preconceito em relação a jogos, eles são cada vez mais aceitos como uma forma de arte, como você mostra no final do seu livro. Você vê alguma mudança de pensamento da sociedade em relação a como ela vê video-games?

As coisas estão evoluindo já há algum tempo. Até mesmo a primeira febre da Nintendo foi vista como uma “lavagem cerebral” nas nossas crianças. Não acho que as pessoas ainda vejam dessa mesma forma. Ainda assim, entre o público em geral, há muitos estereótipos sobre quem joga. É o mesmo com os quadrinhos. As pessoas ouvem “quadrinhos” e acham que você deve ser alguém que mora no porão dos pais (aliás, um ótimo lugar para se viver!) e é um fardo para a sociedade. Como artistas, acho que estamos sempre lutando contra isso e, ao mesmo tempo, também abraçando essas ideias. 

O que você gosta de jogar? Você tem algum jogo preferido? O que você está jogando no momento?

Recentemente me tornei viciado em Stardew Valley. Perdi um total de seis meses com esse jogo. Mas o meu favorito de todos os tempos é Zelda. Joguei todos eles muitas vezes (exceto Skyward Sword!). Gosto de revisitar Zelda o tempo todo e explorar os jogos, mesmo que eu os conheça de cor. Eu realmente gosto do Switch. É bom para mim porque a minha esposa não aguenta mais me ver jogando videogames. 

Você pode recomendar algo que esteja lendo/assistindo/ouvindo no momento?

Gostei muito de I Think You Should Leave with Tim Robinson no Netflix.  Também tenho revisitado muitas franquias de brinquedos / desenhos animados dos anos 80 (para pesquisa!!!) e gostei do desenho de Caverna do Dragão. É muito bem feito. Sinto que eles fizeram um bom trabalho de recriar como é a experiência do jogo.

Quadros de Tetris, trabalho do quadrinista Box Brown com promessa de lançamento pela editora Mino

Você está trabalhando em algum projeto novo atualmente?

Sim, estou trabalhando em alguns livros novos. Uma ficção e uma não-ficção. Ambos são sobre a TV e a mídia da década de 1980. Às vezes acho que estou preso nessa época.

Você pode me falar como é seu ambiente de trabalho?

Odeio essa porra no momento! Estou trabalhando em um escritório muito pequeno na minha casa e não consigo decidir se devo sair e arrumar um estúdio ou arrumar nesse em que estou. Tenho uma mesa com uma prancheta na qual desenho e tenho uma mesa dobrável bem porcaria ao lado dela com meu computador e meu tablet. E é claro que tenho minha minúscula geladeira para manter meu hash fresco. Também tenho uma mesa atrás de mim. É como um embrulho em volta da mesa. Eu tenho uma janela com vista para uma parede de tijolos a cerca de 10 metros de distância. Se eu virar a cabeça ligeiramente, às vezes, posso ver o céu. Eu quero um dia ter um escritório com uma janela grande o suficiente para poder ver alguma coisa.

A capa da edição norte-americana de Tetris, trabalho do quadrinista Box Brown com a promessa de publicação no Brasil pela editora Mino
Entrevistas / HQ

Papo com Pedro D’Apremont, autor de Notas do Underground: “A graça da série era justamente me soltar e fazer as coisas sem muito filtro”

Há dois eventos marcados para o lançamento do álbum Notas do Underground, do quadrinista Pedro D’Apremont: o primeiro no próximo sábado, dia 15 de junho, na Loja Monstra, em São Paulo, e o segundo no sábado seguinte, dia 22 de junho, na Itiban Comic Shop, em Curitiba. Na capital paulista, D’Apremont estará na companhia do editor da obra e do selo Pé-de-Cabra, Carlos Panhoca, da artista Arame Surtado e do editor Lobo Ramirez – que estarão lançando a revista Ketacop pelo selo Escória Comix. Já no evento no Paraná, também estará sendo lançada a nona edição da revista Weird Comix, do quadrinista Fábio Vermelho.

As 44 páginas coloridas de Notas do Underground reúnem pela primeira vez em português as sete histórias em quadrinhos publicadas por D’Apremont no site americano da revista Vice protagonizadas por músicos, fãs de música e figuras pouco usuais do punk e do metal.

“Desde a adolescência que sou apaixonado por metal e punk, toquei em bandas, contribuí pra blogs de resenha de discos, fui em centenas de shows, etc”, conta o quadrinista em conversa com o blog. “Me amarro em explorar microgêneros estranhos, discos raros e subculturas associadas a todo tipo de música e lugar, então esse tema de música underground sempre me foi muito querido”, explica o autor em relação ao tema da coletânea publicada pelo selo Pé-de-Cabra.

Reproduzo a seguir a íntegra da entrevista com D’Apremont, na qual ele fala mais sobre o desenvolvimento das histórias que estão impressas em Notas do Underground, expõe algumas de suas técnicas e influências e comenta a sua paixão pelos trabalhos do quadrinista Peter Bagge. Papo bem massa, saca só:

“Resolvi que ia voltar a fazer histórias curtas sobre coisas que eu gosto, não importa o quão de nicho elas são”

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

Eu queria saber como o Notas do Undergound teve início. A revista é uma coletânea das histórias que você publicou na Vice, certo? Mas como começou esse projeto com a Vice? Eles te passaram um tema ou você que sugeriu? Quanto tempo durou a parceria com eles? Que tipo de retorno você teve dos editores e dos leitores?

Eu e o Gabriel Góes já fazíamos a série Vania pra Vice desde 2016 (que também foi compilada e saiu como um gibi pela Ugra Press em 2017, Anexia é um Paraíso). Eu sempre gostei de fazer HQs pro portal deles porque o editor da seção de quadrinhos, o Nick Gazin, tinha uma preferência por histórias curtas e experimentais, o que criava uma espécie de laboratório onde nós podíamos testar diferentes formatos, estilos, narrativas e ver o que funcionava bem ou não. O problema é que como o Vania era um projeto a quatro mãos, as historias demoravam a sair e dependiam muito da disponibilidade não só minha como a do Góes também. Entre uma HQ do Vania e outra, a ideia de começar uma série paralela só minha, com historias mais soltas e sem necessariamente personagens recorrentes, foi fermentando na minha cabeça.

Acho que fazer quadrinhos sobre música foi uma sugestão da Cynthia Bonacossa na época em que a gente dividia um estúdio.  Por volta de 2016 e começo de 2017 eu andava super frustrado com meu trabalho. Me dediquei a vários projetos que já não me davam prazer em produzir e ao que tudo indicava, não iam muito a lugar nenhum. O mercado pra ilustração estava (e continua) péssimo e os poucos trampos freelancer que eu pegava eram bem merda. Desenhar, de repente, não era mais divertido e não me dava nenhum tesão. Pra tentar reverter essa situação resolvi que ia voltar a fazer histórias curtas sobre coisas que eu gosto, não importa o quão de nicho elas são. Desde a adolescência que sou apaixonado por metal e punk, toquei em bandas, contribuí pra blogs de resenha de discos, fui em centenas de shows, etc. Mas também sempre ouvi mil coisas diferentes e me amarro em explorar microgêneros estranhos, discos raros e subculturas associadas a todo tipo de música e lugar, então esse tema de música underground sempre me foi muito querido.

A impressão que eu tenho é que o editor começou a gostar mais dos meus quadrinhos com o tempo haha. No começo ele criticava muito meus roteiros, mas à medida que o tempo foi passando meus enredos foram ficando mais sólidos, mais parecidos com uma história com início, meio e fim e não só uma piada, e senti que ele as aprovava com mais entusiasmo. Eu não faço a menor ideia se os leitores gostaram desde que a Vice acabou com a sessão de comentários. Mas mais gente começou a me seguir e acompanhar meu trabalho desde que eu comecei essas hqs, o que é um bom sinal.

A série se encerrou no começo desse ano, quando a sessão de quarinhos do portal da Vice foi abandonada. Uma pena, tinha muita gente boa publicando lá. RIP.

O cartaz dos eventos de lançamento de Notas de Underground, nova HQ de Pedro D’Apremont, na Loja Monstra, em São Paulo, e na Itiban Comic Shop, em Curitiba

Você tinha um ponto de partida em comum para cada uma das HQs? Digo, algumas me soam como ficção, outras parecem ter elementos autobiográficos e outras são autobiográficas ao pé da letra. Você mantém algum caderno de ideias para essas histórias? Você conversava com amigos sobre histórias ambientadas no universo que é retratado na série?

Na verdade o único ponto de partida era que as historias tinham que se relacionar de algum jeito com o tema central da série. Fora isso era meio vale-tudo mesmo, o que foi bom, pois me fez experimentar com vários tipos de narrativa. Às vezes me dava na telha contar de um bar horrível que eu frequentava e fechou por causa de uma briga de faca, às vezes eu imaginava uma HQ em que uma banda de Black Metal se perdia na floresta enquanto gravava um clipe… A princípio eu usava tudo que dava espaço pra contar uma historia com começo, meio e fim em poucas páginas. A graça da série nesse primeiro momento era justamente me soltar e fazer as coisas sem muito filtro.

Depois de um certo tempo percebi que as HQs estritamente autobiográficas eram as que eu menos gostava de produzir. Sempre fica um pouco aquela dúvida no final de “será que eu só acho essa historia interessante por que ela aconteceu comigo?” ou: “será que essa é uma historia engraçada de se ouvir num bar mas não funciona como quadrinho?”. As minhas histórias fictícias quase sempre têm uma situação que aconteceu comigo ou com amigos e conhecidos misturada no meio, então acabei aposentando as auto-biográficas stricto sensu mais pra frente. Até porque parece que todo mundo produz quadrinhos autobiográficos hoje em dia. Eu mesmo já estou bem enjoado do gênero.

Em geral quando tenho uma ideia pra um roteiro novo eu a anoto num caderno. As primeiras anotações são sempre ideias super soltas, mas a partir delas eu vou dando carne à historia até ela parecer bem firme. Eu costumava evitar falar sobre minhas ideias antes de ter terminado meus quadrinhos, muito por medo de zicar mesmo, mas alguns dos roteiros dessa série eu discuti com o Nick Gazin antes. Primeiro porque se ele não gostasse do meu quadrinho ele não era publicado e eu não era pago haha. Mas depois vi que as críticas que ele fazia aos meus roteiros estavam me ajudando a fazer quadrinhos cada vez melhores e passei a curtir muito essa fase do processo.

“Tenho gostado cada vez mais de escrever tudo antes de fazer o planejamento visual, mas ainda sou muito inquieto, fico querendo desenhar logo”

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

Você pode contar um pouco sobre os seus métodos de produção dessas HQs? Você chegava a finalizar um roteiro antes de começar a desenhar? A coisa saia toda ao mesmo tempo? Você seguia algum padrão específico na produção desses quadrinhos?

As primeiras historias eu fiz sem um roteiro escrito, só storyboard. Eu sempre faço storyboards porque eles me ajudam a planejar tudo bem mais rápido e ter uma ideia do tamanho da HQ no final, mas eu tenho pouquíssima paciência pra sentar em frente ao computador e ficar escrevendo no Word. Um pouco mais pra frente eu passei a escrever roteiros “de verdade” porque as HQs foram ficando mais compridas e verborrágicas, e organizá-las direto no storyboard ficou muito difícil. Tenho gostado cada vez mais de escrever tudo antes de fazer o planejamento visual, mas ainda sou muito inquieto, fico querendo desenhar logo.

Eu também queria saber sobre os materiais que você usa. Você usa tinta e papel ou trabalha com o digital? 

Tirando as cores (que são feitas no Photoshop) faço tudo do jeito mais tradicional possível. Uso pincel, bico de pena, nanquim e canetinhas.

Na hora de finalizar meus desenhos eu sigo o mesmo método do Peter Bagge: pincel nos personagens e objetos moles ou fofos e bico de pena/caneta nos objetos mais retos ou sólidos. É meio estranho mas funciona bem.

Ultimamente eu tenho substituido as canetinhas por bico de pena, porque elas ficaram muito vagabundas e caras. A tinta dessas UniPin apaga muito quando você usa a borracha, e isso é um inferno quando você vai escanear a página.

“Aposto que se algum outro cartunista visse meu processo do começo ao fim ia ficar chocado com o quão tosco ele é”

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

Você pode falar sobre a paleta de cores? Acredito que exista uma paleta predominante nas histórias, certo?

Sim, todas as historias seguem mais ou menos a mesma paleta. Como o tema que conecta todas as historias é muito solto, achei que eu precisava compensar isso fazendo elas com visual bem coerente entre si.

Eu sou um péssimo colorista e não me lembro exatamente como cheguei nessa paleta. Mas tenho quase certeza que comecei copiando as cores de algum quadrinho ou ilustração que eu gosto e fui ajustando os tons e valores de cada cor individual até chegar em algo que me agradava e diferia o suficiente do material original no qual eu me inspirei. Eu não tenho uma educação formal em artes plásticas ou design, então muitas vezes faço as coisas na base da tentativa e erro. Aposto que se algum outro cartunista visse meu processo do começo ao fim ia ficar chocado com o quão tosco ele é. Também apago tudo mil vezes e encho a página de corretivo.

Aos poucos fui fazendo pequenas mudanças na paleta, mas ela permaneceu praticamente a mesma desde o começo da série. Fui acrescentando sombra e focos de luz nas últimas histórias e diferentes tonalidades de acordo com a hora do dia, mas sempre fico cabreiro de tentar complicar demais as coisas e estragar tudo. Em geral trabalho melhor com paletas bem reduzidas.

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

A capa dessa edição é sensacional. Como você chegou nela? Foi difícil definir essa capa?

Pô, valeu! Haha

Eu fiz várias capas antes de chegar nessa. Uma delas acabei usando de 4ª capa. O desenho ficou legal e tudo mais, mas achei que tinha alguma coisa faltando. Mandei pro Nick Gazin e pedi a opinião dele. Ele disse que o que faltava algum elemento mais humano. Não tem nenhuma pessoa no desenho, só uns amplificadores quebrados, com várias garrafas, latas de cerveja e bitucas de cigarro em cima.  Ninguém ia se identificar com essa imagem.

Na versão final eu quis dar uma ideia de movimento, de quebradeira, bem forte. Uma das primeiras coisas que me vieram à cabeça foi um mosh gigante e alguém pulando do palco. Aí foi questão de olhar um monte de referências (umas fotos do Fugazi tocando ao vivo, principalmente) e tentar descobrir o jeito mais dinâmico de desenhar a capa. Depois disso foi tranquilo.

O título originalmente ia ser no estilo de um logo de banda metal extremo, completamente ilegível, mas me convenceram de que era uma péssima ideia.

“Talvez a minha coisa favorita das HQs nacionais são aquelas histórias longas dos Pirata do Tietê, tanto pelo desenho insano quanto pelos enredos”

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

Eu vejo no seu traço e nas histórias que você conta uma relação com autores americanos que se propõe a narrar eventos banais e corriqueiros – e torná-los de alguma forma interessantes e/ou engraçados. Tô pensando nuns quadrinistas-cronistas como o Daniel Clowes e o Charles Burns, por exemplo. Essa galera é influência pra você? 

Sim, sou fã dos dois! Vivo relendo os livros do Clowes que eu tenho aqui em casa e nunca me canso deles. Sou muito influenciado pelas coisas da Laerte e do Angeli da época da Circo e Chiclete com Banana também, que tinham essa coisa de misturar o dia a dia na cidade de São Paulo com situações bem absurdas e escrotas. Talvez a minha coisa favorita das HQs nacionais são aquelas histórias longas dos Pirata do Tietê, tanto pelo desenho insano quanto pelos enredos.

Mas meu favorito de todos os americanos em relação a roteiro é o Peter Bagge. Quase todo ano eu releio Hate de cabo a rabo, e cada vez mais me impressiona como cada personagem ali dentro parece real. Quanto mais tempo passa mais me identifico com o Buddy Bradley e é meio assustador o quanto que eu passei por situações parecidas com a de alguns personagens depois de ter lido Hate.

É dose, sou muito paga-pau da “geração Fantagraphics” mesmo.

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

E eu fiquei pensando também na relação do livro com os primeiros quadrinhos do Joe Sacco. Acho que você não se propõe a fazer jornalismo, mas tá ali registrando e narrando o que viu – e também tem o termo “notas” no título, presente constantemente nos quadrinhos do Joe Sacco. Ele também foi/é uma influência pra você?

Na verdade não. Eu li O Derrotista quando estava na faculdade e gostei bastante, mas os quadrinhos dele nunca mexeram muito comigo.
O título do meu gibi é uma brincadeira com o Notas do Subterrâneo do Dostoiévski. Nas traduções em português às vezes ele aparece como “Diário do Subterrâneo” também, mas preferi usar a palavra ‘notas’ porque tem uma conotação mais informal que se relaciona bem com as historias curtas. Além do mais, ‘diário’ ia fazer parecer que o gibi inteiro é composto por historias autobiográficas.

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

No que você está trabalhando atualmente? Você tem algum livro novo nos seus planos?

Estou terminando uma HQ do Harry e do André, aqueles dois personagens adolescentes que aparecem algumas vezes no Notas. Não sei ainda o que vou fazer com ela, nem aonde essa história vai ser publicada, já que eu não estou mais na Vice e fechei meu Tumblr. Veremos qual espaço virtual passarei a habitar!

Espero nos próximos meses terminar um projeto grande que eu negligenciei completamente no último ano, mas não vou falar muito aqui pra não zicar. E também quando você fala que vai fazer uma coisa as pessoas vão cobrar depois, é mó chato.

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

A última! Você pode recomendar algo que esteja lendo /assistindo/ ouvindo no momento?

Esses dias quase que só tenho assistido/lido mangás e animes dos anos 80. Finalmente peguei Berserk pra ler uns meses atrás e já virou uma das minhas HQs favoritas.  O negócio é desgraceira atrás de desgraceira e tem um ritmo absurdo. Cada volume é um disco de Death Metal em forma de gibi, dá vontade de fumar um cigarro depois de terminar de ler. Fora isso tenho acompanhado JoJo’s Bizarre Adventure religiosamente, mas tudo que o mundo menos precisa agora é de mais alguém falando de JoJo.

De música não tenho descoberto nada muito novo… Tem um DJ de House que eu tenho ouvido sem parar quando estou desenhando, chamado Bill Jobs. Se alguém quiser uma recomendação de um som bem obscuro, ouça Circle Of Ouroborus. Principalmente um split deles com o Drowning The Light que chama Moonflares. Essa banda é criminalmente desconhecida, e eu acho ela muito única. Escute sem saber o que esperar.

Pode uma recomendação de videogame também? Joguem Nidhogg.

A capa de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont
Entrevistas / HQ

Papo com Tom Gauld, autor de Golias: “Pode ser que os quadrinhos venham da parte de mim que está feliz por estar só e mais aberta à tristeza”

O álbum Golias é o primeiro quadrinho do artista escocês Tom Gauld publicado no Brasil. Lançada por aqui pela editora Todavia, a HQ narra a história do confronto bíblico entre Davi e Golias, mas sob o ponto de vista do gigante filisteu. Eu entrevistei o quadrinista britânico sobre a criação de Golias e essa conversa virou matéria para o Segundo Caderno do jornal O Globo – que você lê clicando aqui.

Eu compartilho a seguir a íntegra desse papo com Gauld. Ele comentou o ponto de partida de Golias, o desenvolvimento de seu estilo e as inspirações por trás de Mooncop – próximo trabalho do autor a ser publicado no Brasil, também pela Todavia. Saca só:

“Eu realmente não me importo se algo é uma história em quadrinhos, um livro ilustrado, um romance ilustrado ou romance gráfico, contanto que seja interessante”

Um quadro de Golias, primeiro álbum do quadrinista Tom Gauld publicado no Brasil

Qual a memória mais antiga que você tem da presença de quadrinhos na sua vida?

Eu cresci no interior e toda semana meus pais levavam eu e o meu irmão à livraria e nos deixavam escolher qualquer livro que quiséssemos. Os únicos quadrinhos eram os livros de Asterix e Tintin, então eles se tornaram minha introdução aos quadrinhos.

Eu gostaria de saber o que são quadrinhos para você. Você tem alguma definição pessoal?

Eu costumo pensar em quadrinhos como palavras e imagens trabalhando juntas na página para construir uma narrativa. A parte “trabalhando juntas” é provavelmente o mais importante. Por exemplo, um livro que tenha apenas uma foto e algum texto em cada página, provavelmente não é uma história em quadrinhos: os dois precisam interagir. Para mim, o que faz uma boa história em quadrinhos não são desenhos bonitos ou frases elegantes, mas sim como imagens e texto trabalham juntos na página para criar uma coisa nova que é muito maior do que suas partes.

É claro que essa definição não leva em conta histórias em quadrinhos sem palavras. O que serve para mostrar que não sou capaz de definir exatamente histórias quadrinhos de maneira satisfatória. No final das contas, eu realmente não me importo se algo é uma história em quadrinhos, um livro ilustrado, um romance ilustrado ou romance gráfico, contanto que seja interessante.

Um quadro de Golias, primeiro álbum do quadrinista Tom Gauld publicado no Brasil

Como você se define profissionalmente? Você trabalha como ilustrador, cartunista e quadrinista. Vocês tem alguma palavra preferida para definir a sua atuação?

Eu fico feliz em ser chamado por qualquer um desses nomes. Eu geralmente digo que sou cartunista e ilustrador.

É muito fácil reconhecer um quadrinho feito pelo Tom Gauld. Você diria que tem um estilo pessoal? Se sim, como você poderia falar um pouco como chegou a ele?

Sim, eu reconheço que tenho um estilo de desenho identificável. Quando eu estava na escola e depois na faculdade de arte, trabalhei de muitas formas distintas, copiando artistas diferentes, tentando encontrar meu próprio estilo e me sentindo frustrado por não conseguir. Eu acho que quase todos os artistas passam por isso quando começam. Mas as coisas mudaram quando comecei a desenhar quadrinhos, no final do meu período na faculdade. Eu estava tão ocupado tentando aprender todas as novas habilidades que eu precisava para contar uma história (escrita, layouts de página, passagem de tempo, etc) que eu apenas desenhei no estilo simples que eu usava quando não estava tentando impressionar ninguém. Esse estilo simples funcionou bem para meus primeiros quadrinhos e, com algumas mudanças e evoluções, ainda é o estilo que uso agora. Então eu encontrei meu estilo quando parei de tentar encontrar um estilo.

“Eu geralmente vejo toda a idéia em pequenas versões no meu caderno de desenho antes de passar para desenhos a lápis no papel”

Quadros de Golias, primeiro álbum do quadrinista Tom Gauld publicado no Brasil

Além do estilo do seu traço também vejo alguns temas e sentimentos muito presentes no seu trabalho. Penso principalmente em solidão e melancolia. Você costuma pensar muito sobre solidão e melancolia? Você se considera solitário e melancólico?

Eu não me descreveria como um solitário, parece extremo demais, mas estou feliz em minha própria companhia, provavelmente por mais tempo que muitas outras pessoas. Da mesma forma, sinto melancolia às vezes, mas não de forma esmagadora. Eu acho que você está correto ao notar que esses temas estão presentes nos quadrinhos, mas eles estão mais presentes nos quadrinhos do que na minha vida. Eu acho que pode ser que os quadrinhos venham da parte de mim que está feliz por estar só e mais aberta à tristeza.

Você pode falar um pouco sobre os seus métodos de trabalhos e suas técnicas? Que tipo de material você geralmente utiliza? Você tem alguma rotina de trabalho?

Todos os meus trabalhos, desde ilustrações até curtas-metragens e graphic novels, começam nos meus cadernos de esboços. Eu estou sempre fazendo pequenas anotações e rabiscos e alguns deles ficam sentados por anos antes de se transformarem em uma obra de arte acabada. Eu geralmente vejo toda a idéia em pequenas versões no meu caderno de desenho antes de passar para desenhos a lápis no papel. Eu faço muitos desenhos e quando eu tenho um que funciona, eu uso uma mesa de luz para traçar os contornos básicos em um papel melhor com uma caneta Uni-Ball. Em seguida, adiciono todos os detalhes, textura e hachura na caneta e, quando termino, digitalizo no computador e adiciono a cor no photoshop.

Eu trabalho melhor no começo do dia. Algumas das minhas melhores ideias surgem na viagem de ônibus até o trabalho pela manhã e faço rabiscos em um pequeno caderno de bolso para não deixá-las escapar. Eu tento ir ao meu estúdio às 8h30 e fazer o máximo de desenho possível antes do almoço. Em um mundo perfeito, eu nem ligaria o computador até a tarde, porque é uma distração terrível. Eu normalmente fico sem energia criativa por volta das 16h, então eu resolvo alguma papelada ou emails por um tempo e volto para casa às 17:30. Às vezes, faço algumas anotações e rabiscos em meus cadernos de esboços à noite.

“Quanto mais eu pensava sobre a história, mais eu percebia que Golias é o verdadeiro azarão”

O que você pensa ao ver o seu trabalho sendo publicado em um país como o Brasil? Você fica curioso em relação à forma como seu quadrinho será lido e interpretado em uma realidade tão diferente daquela em que você vive?

Além de algumas poucas palavras de francês, eu só falo inglês, então tenho que confiar nos editores e tradutores para fazer os quadrinhos funcionarem em um novo idioma. Mas como você está sugerindo, é mais do que apenas a linguagem que muda. Estou realmente feliz por meu trabalho e o humor em particular terem encontrado uma audiência no exterior. Ambos Golias e Mooncop são inspirados por obras de arte existentes (os filmes bíblicos e de ficção científica) que são bastante universais.

Por que contar a história de Davi e Golias sob a perspectiva do Golias?

Eu gostava da ideia de pegar uma história bem conhecida e contar de outro ponto de vista. O mito de Davi e Golias me atraiu porque é dito completamente do ponto de vista de Davi. O Golias é apenas um personagem, ele é apenas um dispositivo de enredo ou uma representação do mal, de modo que deixou muitas perguntas para eu responder na minha história: Por que ele está ameaçando os israelitas? O que ele fez antes? Como ele se sente sobre isso?

Eu também achei que quanto mais eu pensava sobre a história, mais eu percebia que Golias é o verdadeiro azarão. A história não é gigante versus garoto, é gigante versus garoto e O-Todo-Poderoso-Criador-do-Universo.O Golias está condenado desde o começo, então eu não pude deixar de sentir simpatia por ele.

“Algumas coisas são ruins e outras são boas, mas são tantas, que me sinto mais confuso do que otimista ou pessimista”

Quadros de Golias, primeiro álbum do quadrinista Tom Gauld publicado no Brasil


E você poderia me falar um pouco sobre a origem de Moocop?

A idéia de um policial na lua veio de um brinquedo dos anos 1960 que encontrei, que era um carro com ‘Space Patrol’ escrito de um lado e um motorista em uma cúpula de vidro empunhando um canhão de laser. A embalagem mostrava o carro em uma lua deserta, com a terra no céu negro acima. O brinquedo sugeriu um futuro em que não apenas havíamos colonizado a lua, mas o empreendimento foi bem sucedido o suficiente para exigir uma força policial fortemente armada. A distância entre essa idéia otimista e datada do futuro e o fato de que ninguém pôs os pés na lua desde 1972 pareceu engraçada e meio trágica. Comecei a imaginar a vida de um policial solitário patrulhando a lua e a história cresceu a partir daí.

Mooncop me fez pensar bastante sobre a nossa realidade hoje e as nossas perspectivas. Você é otimista em relação ao nosso futuro?

Eu tento me manter positivo. Mas sinto que hoje as coisas estão acontecendo e mudando mais rápido do que nunca. Algumas coisas são ruins e outras são boas, mas são tantas, que me sinto mais confuso do que otimista ou pessimista.

Artes, literatura e ciência são temas muito presentes no seu trabalho. Estamos testemunhando um número cada vez maior de governos de extrema-direita nos quais artes e ciência acabam são costumeiramente atacados. Você vê algum motivo em particular para essas áreas serem vítimas habituais desses governos?

Parece que geralmente a direita política quer manter as coisas como estão ou voltar aos ‘bons e velhos tempos’. Enquanto a arte e a ciência estão frequentemente tentando coisas novas ou olhando para as coisas de uma nova maneira.

Eu acho que alguns políticos só estão interessados em coisas para as quais um valor monetário pode ser facilmente agregado, e ciência e arte são menos fáceis de serem valorizadas assim.

Um quadro de Golias, primeiro álbum do quadrinista Tom Gauld publicado no Brasil

Você está produzido algum projeto novo no momento?

Eu estou trabalho em dois livros no momento. Um é uma coletânea de cartuns sobre ciência e o outro é um livro ilustrado para crianças.

A última! Você poderia recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Gostei muito da nova graphic novel do Jon McNaught, Kingdom, que fala sobre a vida comum e mundana de uma forma muito bonita e interessante.

Eu ouço muito rádio e podcasts enquanto desenho e particularmente gosto de In Our Time da BBC que analisa um tópico diferente da história, da ciência e das artes a cada semana. Três especialistas falam sobre o assunto, mas o anfitrião é brilhante em fazê-los explicar as coisas em termos que alguém como eu possa entender.

A capa de Golias, primeiro álbum do quadrinista Tom Gauld publicado no Brasil