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Entrevistas / HQ

Papo com Jeff Smith, o autor de Bone: “A filosofia de Peanuts, os estilos de Carl Barks e de Walt Kelly, a humanidade de Krazy Kat são o que me trouxe aos quadrinhos”

Entrevistei o quadrinista Jeff Smith, autor do clássico Bone, sobre o lançamento do primeiro volume da versão em cores da série no Brasil. A obra rendeu dez prêmios Eisner e 11 Harvey ao autor e fez dele um dos grandes nomes dos quadrinhos mundiais. A promessa da editora Todavia é que as duas coletâneas que fecham a coleção sejam lançadas no país até o final de 2019. Transformei a minha conversa com o artista em matéria para o jornal Folha de São Paulo e você confere o meu texto clicando aqui – recomendo a leitura da matéria para que você compreenda um pouco mais da jornada de Smith e Bone até o lançamento dessa edição brasileira.

Reproduzo a seguir a íntegra da minha entrevista com Jeff Smith. Na nossa conversa ele falou sobre as origens dos primos Bone ainda na sua infância, comentou as principais influências de sua formação como artista, abordou os desafios de manter uma série independente de 55 edições ao longo de 13 anos e adiantou um pouco sobre seu próximo projeto. A entrevista foi traduzida pelo jornalista, crítico, pesquisador e tradutor Érico Assis (valeu pela ajuda, Érico!). Papo massa, saca só:

“Era fim dos anos 1970. Tolkien, Moebius e, óbvio, Star Wars. Foi chute e gol. Logo eu me dei conta que preferia cultura pop a artes plásticas”

Qual a memória mais antiga que você tem da presença de quadrinhos na sua vida? Eu li que os seus pais eram leitores de quadrinhos, correto?

Meu pai gostava da Mad e lia ela pra mim quando eu era pequeno. Eu amava os desenhos, principalmente Spy v. Spy e os cartuns do Don Martin. Lembro de aprender a ler sozinho com um livrinho de tiras dos Peanuts. Ainda tenho esse livrinho!

Também li que você começou a criar os personagens e o universo de Bone quando era muito jovem. Qual foi o momento em que você decidiu transformar todos esses conceitos em uma série? Você lembra do instante em que decidiu explorar o mundo de Bone?

Lembro, sim. Depois do ensino médio, quando entrei na universidade, os Bones foram parar na mesma caixa das coisas de criança. Estudei artes plásticas, mas na época tinha uma onda de fantasia na cultura pop. Era fim dos anos 1970. Tolkien, Moebius e, óbvio, Star Wars. Foi chute e gol. Logo eu me dei conta que preferia cultura pop a artes plásticas. Em 1979, desenterrei os três primos Bone e comecei a trabalhar com essa ideia de como eles podiam se encaixar em um mundo vasto e de fantasia.

“Eu sabia que personagem de cartum tinha quatro dedos, nariz gigante e pé gigante, então desenhei assim”

Por que Bones? Em termos de fantasia estamos muito mais acostumados com criaturas como elfos, trolls e hobbits, conceitos de certa forma muito mais identificáveis e acessíveis para os leitores, você não acha?

Era o que eu tinha na mão. Eles eram meus! Como você mesmo lembrou, eu inventei os três quando tinha uns cinco anos. Eu sabia que personagem de cartum tinha quatro dedos, nariz gigante e pé gigante, então desenhei assim. E eles parecem ossinhos [bones]! O importante era eles terem personalidade. Já estavam lá, nos gibis toscos que eu fiz quando era criança, o carinha normal, o avarento e o pateta.

No final das contas, Bone é uma história com início, meio e fim em mais de 1400 páginas de quadrinhos, desenvolvidas por você ao longo de mais de 13 anos. O quanto da história você já tinha definida quando começou a publicar a série? O quanto você já sabia dos rumos e do fim da história quando ela teve início?

Minha primeira rodada com o Bone impresso foi uma tira diária no jornal da faculdade. Acho que eu recebia sete dólares por tira. Foi o que eu fiz, cinco dias por semana, durante quatro anos. Como eu tive esse tempo todo, consegui errar bastante e aprender o ofício, mas também brotaram umas coisas que eu ia usar depois. Fone Bone gamado na menina da fazenda, a Espinho. A misteriosa relação entre Vovó Ben e o Dragão Vermelho. A jornada de Fone Bone e Smiley Bone às montanhas para devolver o filhote perdido. O primeiro encontro com Queixo Duro, o leão gigante, e aquela figura meio Morte que mandava nas Ratazanas; tudo virou baliza no épico que depois eu tracei pra revista. O que aconteceu com a tira foi que, como toda tira, ela não tinha fim. Era uma série infinita de piadinhas e aventuras. Eu queria uma trama de verdade, e tramas têm fim. Quando eu inventei o final, consegui usar esses pontos de parada pra criar uma trama, no que eu esperava que virasse uma série em quadrinhos épica.

“Quando eu inventei o final, consegui usar esses pontos de parada pra criar uma trama, no que eu esperava que virasse uma série em quadrinhos épica.”

Ainda sobre Bone ser essa imensa saga de 1400 páginas: você tinha consciência da etapa da história em que você se encontrava enquanto desenvolvia o quadrinho?

Tinha, sim. Tinha que ter. Estava sempre ciente da narrativa, mas às vezes me perdia na selva. Eu tinha o hábito muito ruim de fugir no roteiro quando surgia uma coisa engraçada. Humor é um ímã, no meu caso. Talvez me dê mais trabalho pra voltar à trama, mas vale a pena expandir. Eu tinha uns arquivos e anotações para não sair muito da linha, em todo caso.

Você pensa sobre as experiências distintas entre ler Bone como foi lançado originalmente e nessas coletâneas imensas? O que você acha que alguém que nunca leu Bone pode ganhar tendo acesso à sua história pela primeira vez nessas edições gigantescas?

Se estes volumes mais recentes, e lindos, são seu primeiro contato com Bone, você vai sentir toda a textura e ritmo da trama, a jornada, como um romance ou um filme. Os leitores originais de Bone tiveram a experiência seriada, de uma série em quadrinhos que saía mais ou menos de dois em dois meses. Durante treze anos, cada edição tinha que se sustentar por si só e fazer o leitor voltar pedindo mais. Tenha em mente que, naquela época, a ideia de histórias mais compridas, ou graphic novels, ainda estava no início. Não sei se alguém notou que as aventuras dos Bone estavam se armando para uma conclusão até chegarmos bem pertinho do final! Claro que eu sabia, e por isso que, mais ou menos uma vez por ano, Vijaya e eu republicávamos os gibis em livro, para os novos leitores ficarem em dia. Eram os nove volumes que você precisava ler. Em preto e branco.

Edições em preto e branco são muito mais baratas do que coloridas, ainda mais no caso se publicações independentes, como era o seu caso quando começou com Bone. Quais são os benefícios para a história do preto e branco original do seu trabalho?

Eu gosto de gibi em preto e branco. Os gibis originais de Bone, a série, eram em preto e branco. Isso em parte porque eu não tinha dinheiro pra pagar por cores, mas também porque as tiras que eu adorava, como Peanuts e Dick Tracy, eram em preto e branco. Mas não há como discutir que as versões coloridas fazem mais sucesso.

Você poderia falar um pouco sobre a sua decisão de colorir Bone? Você sempre teve em mente a possibilidade de lançar uma versão colorida?

A decisão de colorir foi, em parte, pragmática e, em parte, inspiração. Pragmática porque a maior editora de livros infantis do mundo, a Scholastic, nos procurou e queria lançar um selo de graphic novels com Bone. Uma das maneiras de renovar a história era colorir. No início eu hesitei, mas fui buscar conselhos com um dos meus ídolos, Art Spiegelman, criador da biografia gráfica Maus. Foi o Art quem me incentivou a colorir. Quando eu perguntei por quê – já que Maus, uma das inspirações para eu investir nos quadrinhos como minha arte, é em preto e branco – ele respondeu o seguinte: ‘Maus trata da guerra e devia ser em preto & branco, mas Bone trata da vida e só vai estar acabada quando estiver colorida.’

“Não sei se alguém notou que as aventuras dos Bone estavam se armando para uma conclusão até chegarmos bem pertinho do final”

Eu li uma resenha famosa de Bone, publicada pela revista Time, que diz que a série é ‘a melhor graphic novel para todas as idades já publicada’. Você tinha um público específico em mente quando começou a produzir Bone? Quais foram as suas impressões quando Bone começou a ser lida tanto por adultos quanto por crianças?

Fiquei surpreso. Quando eu lancei Bone, havia pouquíssimas crianças comprando ou lendo revistas em quadrinhos nos EUA. Isso mudou aos poucos. As graphic novels e o mangá ajudaram. Talvez eu nem devesse me surpreender, já que me esforcei para criar o gibi que eu queria ler quando criança! Hoje em dia, quando eu faço sessões de autógrafos, a fila tem adultos e crianças misturados.

Eu li várias entrevistas nas quais você fala sobre a influência de tiras de jornais na sua formação. Você poderia falar um pouco como essa influência se fez presente em Bone?

No timing do humor, quem sabe? A filosofia de Peanuts, os estilos de Carl Barks e de Walt Kelly, a humanidade de Krazy Kat são o que me trouxe aos quadrinhos. Ao mesmo tempo, são o que me prendem na prancheta.

“Quando alguém pergunta no que você trabalha, você diz ‘Eu desenho quadrinhos’ e respondem: ‘Massa! Que interessante!’ Isso não acontecia, sabe?”

Bone foi publicado pela primeira vez nos anos 90 e quase 30 anos depois nós ainda estamos aqui falando sobre essa série. O quanto você acha que o mundo dos quadrinhos mudou desde o começo da sua carreira?

Ih, cara. Tanta coisa. Tem resenhas de quadrinhos em jornais e revistas. Os gibis voltaram às mãos de milhões de crianças, você compra gibis onde tiver livros, música ou filmes. Hoje todos os filmes são de super-heróis. Quando alguém pergunta no que você trabalha, você diz ‘Eu desenho quadrinhos’ e respondem: ‘Massa! Que interessante!’ Isso não acontecia, sabe?

O que são quadrinhos para você, hoje?

Não sei uma definição específica, mas sei quando funciona. Quando uma série de imagens com palavras e figuras começa a se mexer, a transmitir tempo e espaço, aquilo ganha vida. Quando isso acontece, o leitor embarca na viagem.

Qual é o seu próximo trabalho? Você está desenvolvendo algum projeto novo no momento?

Estou trabalhando em um projeto chamado Tuki and the Dinga. É a reformulação de um projeto que eu larguei há uns anos e agora quero retomar. Ele se passa na aurora da nossa espécie, há dois milhões de anos.

A última! Você poderia recomendar algo que tenha lido, visto ou ouvido recentemente?

Recomendo tudo que foi escrito ou desenhado pelos fabulosos irmãos Bá e Moon. Atualmente estou lendo Macanudo, do argentino Liniers, e tenho uma compilação de discos ao vivo do Tom Petty em looping perpétuo. Agora eu vou fazer um sanduíche. Obrigado mais uma vez pela atenção! Tudo de bom!

Entrevistas / HQ

Papo com as editoras da revista A Criatura: “Tendo em vista a conjuntura política atual, surge a urgência de reafirmação da potência revolucionária das publicações independentes”

Está marcado para as 14h de domingo (16/12), em Belo Horizonte, o lançamento da revista A Criatura. A publicação é editada pelas artistas Clarice G. Lacerda, Ing Lee e Maria Trika e reúne o trabalho de 29 mulheres em homenagem ao aniversário de 200 anos do clássico Frankenstein ou O Prometeu Moderno, de Mary Shelley. Você confere outras informações sobre a festa de lançamento da revista na página do evento no Facebook. Além de um bate-papo com a presença das três editoras e de algumas das artistas presentes na publicação, o evento contará com uma exposição de trabalhos impressos na revista e show da banda Não Não-Eu.

As 76 páginas em preto e branco de A Criatura apresentam trabalhos de 29 artistas de estilos e origens distintos, além das três editoras e da responsável pelo projeto gráfico da publicação. A obra também marca a estreia do selo A Zica – capitaneado pelos editores da revista homônima que recentemente chegou ao seu quinto número.

Enviei algumas perguntas por email para Clarice G. Lacerda, Ing Lee e Maria Trika perguntado sobre o projeto. As três falaram sobre a origem d’A Criatura, justificaram a decisão de homenagear a obra-prima de Mary Shelley, trataram do processo de edição da revista e ressaltaram a importância de uma publicação independente composta apenas por trabalhos de artistas mulheres em um contexto de conservadorismo aflorado no país. Reproduzo a seguir a lista com os nomes das 33 artistas envolvidas na produção d’A Criatura e, em seguida, a íntegra da minha conversa com as três editoras da publicação. Ó:

(na imagem que abre o post, trabalho da artista Abajur presente na revista A Criatura)

Qual é a origem da Criatura? Como esse projeto teve início?

Maria Trika: A Criatura partiu de um convite dos meninos d’A Zica zine, que tinha acabado de lançar sua quinta edição através de um financiamento coletivo. O financiamento arrecadou mais do que o necessário e por isso eles decidiram investir no selo A Zica, com o objetivo de expandir e incentivar outras publicações independentes, com um recorte específico. Daí os meninos selecionaram eu, Ing e Cla para mergulharmos nessa e editar a publicação com total autonomia, sendo idealizada e realizada exclusivamente por mulheres, com o apoio financeiro d’A Zica.

Clarice G. Lacerda: Como a Maria colocou, A Criatura surgiu por um convite dos editores d’A Zica. Como felizmente a meta do financiamento coletivo foi inclusive ultrapassada, e tendo os editores recebido críticas sobre um desequilíbrio entre o número de artistas mulheres x artistas homens selecionadas para A Zica #5, optou-se que esta outra publicação, primeira a ser lançada pelo selo A Zica, fosse produzida apenas por mulheres. Em nosso primeiro encontro, os editores da Zica nos sugeriram um viés de trabalho que abordasse a colagem, ou o remix, como me lembro do João Perdigão dizer. E havia também a questão histórica: 2018 marcava o aniversário de 200 anos da criação do Frankenstein ou O Moderno Prometeu, da Mary Shelley. Colocado isso na reunião geral, eu, Ing e Maria seguimos com a conversa, pensando os possíveis de um modo feminino de trabalho, e nos perguntando o que poderia significar isso editorialmente. Conversamos um bocado sobre a obra literária e a autora que optamos por homenagear, era muito impactante pra nós imaginar uma jovem inglesa criando aquela narrativa duzentos anos atrás! Entendemos que esse monstro nunca teve nome próprio, e assim batizamos nosso projeto com o mesmo termo utilizado para nominar tal ser, assim surgiu A Criatura. Nos pareceu instigante pensar as relações entre o clássico, pioneiro da ficção científica, e as muitas formas como seguimos com o desafio de criar, de forma contínua, as mulheres que queremos ser. Decidimos que nossa metodologia de trabalho com A Criatura seria distinta daquela adotada pela A Zica, não nos interessava receber trabalhos prontos para selecionar. A chamada aberta que lançamos era sobretudo um convite ao encontro, ao diálogo, às trocas possíveis quando afirmamos o lugar de fala de cada uma. O desejo era de partilhar leituras e olhares sobre o Frankenstein, enxergar como o livro poderia reverberar hoje, como a obra, produzida num contexto tão distinto do nosso, poderia gerar ligações com o que está sendo produzido contemporaneamente por um grupo heterogêneo de mulheres.

“É uma afirmação da vida e de suas potencialidades tratar as dores que se carrega como combustível para criação de algo”

Trabalho de Paula Puiupo presente na revista A Criatura

Por que homenagear a Mary Shelley e os 200 anos da publicação de Frankstein?

Ing Lee: A obra dela foi inegavelmente um grande marco para a história da ficção científica. A narrativa de Frankenstein teve diversos desdobramentos ao longo de todos estes anos, possuindo relevância até os dias de hoje, por ser uma história que não apenas refletia os anseios de seu tempo, como também questões inerentes à existência humana, ou, ainda, como se lida com a diferença e o lugar do ‘outro’ na sociedade, cujas estruturas de poder marginalizam individualidades consideradas fora da norma vigente.

Maria Trika: Motivos não faltam, na minha opinião. Mary Shelley além de ser uma grande escritora, foi uma das poucas mulheres autoras (mas não foi a única, vale ressaltar outras precursoras como Ann Radcliffe e Jane Austen) da Literatura Gótica, durante o século 19, criando uma de suas maiores obras. Além disso, pessoalmente, tenho grande fascínio por Frankenstein, por suas peculiaridades perante aos demais clássicos sobre monstros, devido ao fato de sua monstruosidade estar relacionada diretamente a questões mais internas e abstratas como a memória, o olhar e a concepção de determinados conceitos como corpo, vida e morte.

Clarice G. Lacerda: Como a Ing colocou, a homenagem se justifica pela relevância que o livro tem ainda hoje, que o torna tão atual, pela muitas formas como ainda é possível acessá-lo e tecer caminhos de reflexão. Trata-se de uma narrativa densa, que coloca a relação morte-vida em primeiro plano, como colocado pela Maria, que não esconde o lado mais escuro, sombrio e monstruoso que todas nós temos. A narrativa trata do gesto da criação de uma forma não idealizada, mas sim problematizada eticamente, apontando as motivações e os perigos de uma ambição desmedida em desvendar os mistérios, quando há desejo excessivo de controle e poder. Mary Shelley me parece ter elaborado muitos aspectos de sua biografia, rica em doloridos desafios, na produção desta obra, e isso para mim é de relevância ímpar, de valor atemporal. É uma afirmação da vida e de suas potencialidades tratar as dores que se carrega como combustível para criação de algo, e não para a mortificação ou vitimização paralisante do sujeito. Nos debruçarmos sobre a trajetória da autora e mergulharmos em sua obra foi uma oportunidade de atualizarmos esse gesto afirmativo perante a realidade, especialmente quando vivenciávamos um período eleitoral bastante cruel. Foi uma chance de reformularmos perguntas juntamente com as artistas e a publicação é um conjunto de respostas possíveis, são trabalhos que nos colocam diante de mulheres que existem por que criam, resistem, insistem. Mulheres cheias de coragem, que estão abertas a enxergar e encaram de frente o monstro.

O evento de lançamento da revista A Criatura está marcado para o dia 16 de dezembro de 2018 em Belo Horizonte

Vocês podem falar um pouco, por favor, sobre o conteúdo d’A Criatura? Que tipo de trabalho está presentes na revista? Não é uma publicação exclusivamente de quadrinhos, correto?

Ing Lee: A publicação não se limita aos quadrinhos, abrangendo fazeres artísticos que vão desde as artes gráficas até a escrita. Tivemos inscrições de artistas de trajetórias bastante distintas e chegamos a selecionar algumas que trabalham com performance, que se interessaram pelo nosso projeto e se propuseram a experimentar outras linguagens.

Maria Trika: Correto. A publicação não é exclusivamente de quadrinhos. Na real, o conteúdo da revista é uma diversidade de trabalhos artísticos de mulheres que admiramos, que acreditamos na potência dos trabalhos e que teriam haver com a proposta d’A Criatura.

Clarice G. Lacerda: O conteúdo dA Criatura é muito heterogêneo, o que reflete também a equipe editorial formado por nós três. O grupo é formado por artistas de idades e localidades diferentes, que investigam linguagens e modos distintos de produção, o que colaborou para riqueza e potência da publicação, que contempla a diversidade, tramando relações entre singularidades. Em tempos de ‘outrofobia’ (citando um autor, Alex Castro) essa convivência editorial me parece ter grande relevância, para não dizer que se trata de uma proposição necessária.


“O conteúdo da revista é uma diversidade de trabalhos artísticos de mulheres que admiramos”

Trabalho da artista Si Ying Man presente na revista A Criatura

Vocês podem comentar, por favor, o processo de curadoria da revista? Como vocês chegaram nessas 33 artistas que tiveram trabalhos impressos nessa primeira edição?

Maria Trika: A ideia da curadoria das 29 artistas se deu da seguinte forma: após diversas conversas entre nós, as editoras, optamos por fazer abrir uma chamada para mulheres – cis e trans – artistas. No entanto, ao invés de analisarmos trabalhos já prontos, pedimos as candidatas que enviassem seus portfólios e uma ‘carta de intenção’ (só que sem tanta formalidade hahaha) dizendo porquê gostariam de participar d’A Criatura. Optamos por essa forma por acreditarmos em um processo mais harmonioso, cuidadoso, subjetivo e acolhedor, já que desde o início fez-se claro que A Criatura demandaria um trabalho em conjunto, diferente dos moldes normativos (estabelecidos, em boa parte – se não por inteiro – por homens brancos héteros, seguindo uma lógica quase que fálica de lidar com as coisas), que aparentemente, levam o título de alcançarem maior ‘produtividade’.

Ing Lee: Assim como a Maria disse acima, optamos por um processo diferente do que A Zica propõe: ao invés de selecionarmos pelos trabalhos já feitos, selecionaríamos primeiramente as artistas e só assim se iniciaria a feitura dos trabalhos para a publicação, que foi acompanhada de uma forma mais individualizada e levando em conta as particularidades de cada uma. Foi um processo que nós editoras pensamos ser mais acolhedor e visando estabelecer um vínculo mais próximo das artistas envolvidas.

Clarice G. Lacerda: 33 é o total de mulheres da equipe: três editoras, eu, Ing, Maria; Ana Paula Garcia, artista gráfica que integrou a equipe; e as 29 mulheres criadoras. Na real selecionamos 30 mulheres a partir da chamada aberta, mas uma delas optou por se dedicar integralmente à campanha do Haddad depois do resultado do segundo turno da eleição presidencial. Daí ficamos com esse número meio curioso, 29, pois não havíamos selecionado suplentes. Como Ing e Maria disserem, a seleção foi feita a partir da análise das trajetórias e pesquisas das inscritas, recebemos 95 inscrições no total. Levamos em consideração a relação entre o percurso de cada uma com o universo técnico e simbólico da colagem, e as conversas possíveis com questões que nos interessavam na leitura do Frankenstein. Como cada editora tem um perfil muito distinto, ponderamos juntas para chegarmos num grupo que contemplasse as diferenças que já identificávamos entre nós três.


“O resultado final da publicação é uma evidência da consistência que essa escolha editorial mais afetiva proporcionou para A Criatura”

Trabalho de artista Maira Públio presente na revista A Criatura

Vocês podem falar um pouco, por favor, sobre o processo de edição da revista? Como foi o trabalho de editar e reunir todas as publicações que vocês receberam?

Clarice G. Lacerda: Não recebemos publicações. As inscritas nos enviaram portfólios, sites pessoais, etc., para que pudéssemos conhecê-las um pouco. Cada editora teve a chance de se posicionar criticamente diante da trajetória das inscritas, e assim chegamos no grupo de 30, que depois passou a ser de 29. Confiamos nas mulheres que selecionamos, confiamos na abertura ao diálogo, confiamos em nós mesmas, e isso se refletiu na riqueza do processo editorial. Depois da seleção, fizemos uma reunião geral com todas as selecionadas, antes delas produzirem os trabalhos para A Criatura. Nesta ocasião, já havíamos definido o formato estrutural do projeto gráfico, que foi apresentado para o grupo: cada mulher criadora ocuparia o espaço de uma lâmina, frente e verso, e faria também uma parte do corpo, a ser escolhida livremente, para um pôster que a Ana Paula Garcia, nossa artista gráfica, iria compor. A publicação é na verdade um bloco, composto por este conjunto de lâminas, e um pôster que, dobrado, funciona como sobrecapa. É um corpo gráfico formado por partes distintas, que pode ser fragmentado de acordo com o desejo do leitor. Cada parte tem sua autonomia – tanto no bloco como no pôster –, e o conjunto conforma uma composição inusitada, tem um estranhamento ali que nos conecta muito com a ideia do monstro, da criatura da Mary Shelley. O bloco é formado por esses encontros, um tanto ocasionais, pois seguimos a ordem alfabética para ordenação das lâminas. Ao longo do processo criativo, dividimos o grupo das 29 selecionadas entre as três editoras, e assim pudemos dar assistência direta e ter uma interlocução mais próxima com as mulheres em seu processo criativo. Foi essencial esse tipo de metodologia pautada no acolhimento e no diálogo, sinto que o resultado final da publicação é uma evidência da consistência que essa escolha editorial mais afetiva proporcionou para A Criatura.

Maria Trika: Acredito que a Cla pode dizer melhor sobre isso, por ter mais experiência nessa questão. Talvez, eu consiga dizer mais sobre o processo afetivo, desde sua concepção, já estava estabelecido que A Criatura lidaria com muita pluralidade, por tratar-se de sensibilidades, subjetividades e, literalmente, corpos diferentes unidos para criar um só – que seria a publicação. Diante desse fato, nos, editoras, optamos por transformar essa união em potência de vida e não de morte. Transformar em vida, a junção de várias partes mortas (não necessariamente), como acontece com a criatura do livro. A partir daí, o processo foi de muita paciência, dedicação, respeito e aprendizado. Digo por mim, mas isso foi extremamente desafiador em certos momentos. Cada um habita o mundo de um jeito e fazer com que a diversidade mantenha-se enquanto potência, exige que a gente se flexibilize em alguns pontos, se desapegue de outros, resista em alguns momentos, fale e, principalmente, pare para ouvir e olhar o outro – de fato – (taí algo revolucionário, na atual conjuntura mundial e brasileira). E essa movimentação-dança entre sua existência e a do outro já é um aprendizado imenso, agora imagine isso enquanto ponto de partida para criar algo-outro corpo-mundo.

Quais as principais expectativas que vocês tinham em relação à revista e o que mais surpreendeu vocês em relação ao resultado final?

Clarice G. Lacerda: Eu tinha a expectativa de que uma metodologia editorial baseada em acolhimento, empatia, diálogo e reflexão conjunta gerasse uma publicação consistente, que desse um passo além, e mais aprofundado, em relação ao lugar comum, e um tanto simplista, que costumamos tratar a ideia de monstruosidade. O que me surpreendeu foi a maneira generosa e engajada como as mulheres realmente toparam encarar de frente a tarefa, enquanto atravessávamos um período de muita instabilidade no Brasil, a coragem do grupo em superar os efeitos deste terror e se afirmar criativamente no mundo chega a me dar arrepios. Os trabalhos d’A Criatura demonstram uma disposição, um fôlego para desmontar e reordenar formas de encarar ‘o lado mais negro’ que me chega como sopro de lucidez e saúde num contexto apinhado de perversidades. É muito bom se surpreender com a força feminina, dá uma esperança e um aconchego, estamos juntas e somos fortes.

Ing Lee: Nunca tive experiência como editora antes, então pra mim tudo foi muito novo e diferente, não tinha muito como prever o que sairia dali, mas desde o início fiquei bem animada com a proposta! O resultado final foi incrível, fico feliz por poder participar de uma iniciativa que abre espaço para várias mulheres criadoras de lugares e vivências tão distintas entre si. Tivemos a presença de artistas mais experientes e outras mais novas, combinação que deu super certo e que foi muito gratificante.

Maria Trika: A gente sempre se surpreende quando a ideia torna-se corpo, né?! E nesse caso a surpresa foi enorme, não por esperar menos das meninas ou algo assim, muito pelo contrário. A surpresa se deu porque ficou ‘lindimais’ e sentir esse encantamento, orgulho e admiração de uma só vez surpreende a capacidade de sentir da gente.


“Não estamos reafirmando um suposto feminino docilizado e bem comportado, estamos revelando o monstro, olhando ele nos olhos, arrancando suas vísceras e fazendo arte com elas, criando outra coisa, parindo o novo”

Trabalho da artista Elisa Carareto presente na revista A Criatura

A revista está saindo às vésperas da posse de Jair Bolsonaro na presidência e em um contexto de conservadorismo crescente no país. Qual vocês consideram o papel potencial de uma publicação independente como A Criatura, editada por mulheres e com obras apenas de mulheres, dentro desse cenário catastrófico?

Clarice G. Lacerda: Como disse antes, A Criatura, em seu próprio processo de criação, já refletiu muito uma das respostas que nos foi possível dar para esse tipo de cenário. Para mim, a catástrofe, como tudo, é transitória. Não creio ser produtivo exaltar uma narrativa dramática, de lamento e vitimização. Enxergo nesses momentos de crise uma oportunidade de desmoronamento e renascimento únicas, é um presente dependendo da forma como optamos encarar e nos posicionar diante da dor e do horror, que são essencialmente parte da vida desde que o mundo é mundo. Aqui reside a beleza da escolha e do livre arbítrio, do sujeito que é autor real de sua narrativa de vida singular. Sinto que a escolha do Frankenstein e a escuta da voz de Mary Shelley foram muito acertadas para esse momento. Não estamos reafirmando um suposto feminino docilizado e bem comportado, estamos revelando o monstro, olhando ele nos olhos, arrancando suas vísceras e fazendo arte com elas, criando outra coisa, parindo o novo. A potência do feminino, para mim, está muito nisso, no dom de gestar a vida no escuro das entranhas, de suportar a dor dilacerante para dar à luz ao outro. É a beleza da cadela lambendo a cria recém-nascida e comendo a própria placenta para ter energia e assim gerar o leite que amamentará a ninhada. O amor é também escatológico, tudo que vive gera resto. Falo da gestação, do parto e da criação como forças simbólicas, para além daquela fisiologia literal. É a força enlaçada da vida e da morte, pulsantes nisso que nada nem ninguém poderá calar, como dizem algumas mulheres que muito admiro, a força que faz o novo vir é inegociável. É isso, diante do horror, a nossa resposta foi criar A Criatura, e ela veio em bloco.

Ing Lee: Não é de hoje que corpos racializados, LGBTQ+, periféricos, de mulheres e pessoas com deficiência sofrem com marginalizações… A luta segue como sempre seguiu, ela é contínua e forte. Mas é preciso repensar e redefinir estratégias de resistência. Tendo em vista a conjuntura política atual, surge a urgência de reafirmação da potência revolucionária das publicações independentes. Penso esta postura não somente em relação à nossa Criatura, mas para o cenário independente como um todo, que é justamente buscar meios de resistir por meio da união e acolhimento, priorizando a circulação dos trabalhos e ocupando espaços.

Maria Trika: A resposta é meio manjada já né. As mulheres, xs negrxs, LGBTQ+ e as pessoas periféricas, representam tudo que o governo que o dito novo presidente da república, ou pelo menos a imagem dele, é contra, que matar, aniquilar, violentar, oprimir e repreender. Por isso A Criatura já é parida no mundo calcada com o signo de resistência.


“É muito bom se surpreender com a força feminina, dá uma esperança e um aconchego, estamos juntas e somos fortes”

Há planos para que A Criatura seja uma publicação periódica? 

Clarice G. Lacerda: Estou completamente dedicada à parir, como o devido cuidado e rigor, essa Criatura que será lançada muito breve. Não gestamos gêmeos, vai vir um ser só por agora. O depois, é sempre um mistério.

Ing Lee: Por enquanto não temos nenhuma previsão disso. Não vejo sentido em uma continuidade d’A Criatura em si, mas espero que nossa publicação engatilhe novas articulações do gênero e estou sempre aberta à novas propostas!

Maria Trika: Isso ainda não foi conversado formalmente, mas nunca se sabe.

A capa e a 4ª capa da revista A Criatura

Entrevistas / HQ

Papo com os autores da coletânea Porta do Inferno: “A gente vê o diabo diariamente e faz de conta que não”

Os editores e quadrinistas Lobo Ramirez (Escória Comix) e Luiz Berger (Gordo Seboso) uniram forças para lançar a coletânea Porta do Inferno. O álbum de 76 páginas reúne histórias assinadas pelos dois editores e outros quatro artistas: Emily Bonna, Victor Bello, Diego Gerlach e o quadrinista mexicano Abraham Diaz. A obra tem início com um enredo assinado por Berger mostrando a abertura da porta do inferno na terra e as HQs seguintes apresentam algumas das consequências desse ocorrido, tendo o narrador Caio Tira-na-Cara como o responsável por conduzir o leitor ao longo do álbum.

Autor do épico ASTEROIDES – Estrelas em Fúria, lançado em março de 2018, em parceria da Escória Comix com a Ugra Press, Lobo Ramirez é das figuras mais ativas da cena brasileira de quadrinhos. Em 2017 ele publicou os celebrados NÓIA – Uma História de Vingança (Escória Comix/Vibe Troncha Comix), de Diego Gerlach, e os dois volumes do já clássico Úlcera Vórtex, de Victor Bello. Nove meses após ASTEROIDES, ele publica a parceria com Berger para encerrar o ano de seu selo pessoal com a coletânea de histórias de horror, morte e destruição protagonizadas pelos demônios de Porta do Inferno.

Após responder à breve entrevista a seguir e revelar o primeiro lançamento de sua editora para 2019 (O Alpinista, de Victor Bello), Lobo Ramirez entrevistou cada um dos cinco autores de Porta do Inferno para o Vitralizado. Nas conversas, os artistas falam sobre as inspirações para suas histórias na publicação e expõem suas suspeitas em relação à vinda do anticristo à terra. Saca só:

– LOBO RAMIREZ –

As portas do inferno estão abertas em território brasileiro?

Lobo Ramirez: Escancaradas.

Qual foi a inspiração de vocês para esse formato, com vários autores escrevendo histórias com a mesma temática?

Lobo Ramirez: A real é que esse era pra ser um quadrinho longo do Berger, mas ele desencanou de terminar e eu fiquei enchendo o saco pra lançar porque as páginas eram fodas. Então surgiu a ideia de chamar um pessoal e continuar a historia do ponto que ele parou. Eu não sei se tem alguma coisa nesse formato específico, já deve ter, mas de toda forma eu achei interessante o resultado e quero tentar outros títulos nesse mesmo estilo.

Quais será a próxima investida da Escória Comix?

Lobo Ramirez: Bom, oficialmente confirmado e em produção é um quadrinho do Victor Bello cujo título revelarei exclusivamente agora: O Alpinista, um gibi que ele vem produzindo desde o começo de 2018. Mas já tenho previstos outros 14 títulos novos para 2019, então vai ser um ano de varias investidas. Deus me acuda.

Um painel do quadrinista Luiz Berger presente em Porta do Inferno

– LUIZ BERGER –

LOBO RAMIREZ: Você já participou, como convidado e editor, de diversas antologias de quadrinhos, reunindo nomes nacionais e internacionais. Alguns nomes se repetem nessas publicações, por que Porta do Inferno é diferente das outras?

Luiz Berger: Sim, vários nomes se repetem e acho que vão continuar se repetindo nas próximas antologias. Eu gosto de seguir uma linha editorial com uma identidade, que é bem parecida, ou até igual, à do lobo ramirez. O que difere a Porta do Inferno das anteriores, é que nessa não são só histórias que seguem um tema, como a revista Goró, que reunia histórias sobre bebida, colocadas meio que em ordem aleatória. Nesse caso, as histórias começam do mesmo ponto, da porta do inferno que foi aberta no final da primeira história do gibi, e todas estão conectadas pelos comentários do personagem-narrador Caio Tiro-na-Cara, como em várias revistas de terror dos anos 50. Acho que essa revista está muito mais bem amarrada que as anteriores.

LOBO RAMIREZ: Quando você vai largar mão de ser trouxa e começar a produzir quadrinhos de merda com mais frequência?

Luiz Berger: Acho que esse ano eu volto a fazer com muito mais frequência. Editar essa revista me deu um belo ânimo pra voltar com o Gordo Seboso.

– ABRAHAM DIAZ –

LOBO RAMIREZ: Você já participou de várias antologias de quadrinhos, incluindo Goró (Gordo Seboso), que tem três dos quadrinistas presentes na Porta do Inferno. Há muitos outros quadrinistas nesse meio mais podre no México? Ou você acha que há uma cota de retardados dos quadrinhos por país?

ABRAHAM DIAZ: No México, o quadrinho marginal está apenas começando a se desenvolver. Sem dúvida, há muitos cartunistas começando a publicar quadrinhos podres e eu acho que nos próximos anos haverá um boom nos quadrinhos mexicanos e na arte em geral.

LOBO RAMIREZ: Você acha que Porta do Inferno é mais uma imagem de um bando de marginais falando sobre o diabo, cocô, violência e blasfêmias gratuitas?

ABRAHAM DIAZ: Sim, eu acho que Porta do Inferno é isso, mas eu também acho que não poderia ser outra coisa hahaha

– EMILLY BONNA –

LOBO RAMIREZ: Conte-nos um pouco sobre sua relação com quadrinhos. Você tem um trabalho com ilustração, mas já tinha feito quadrinhos antes? Qual a diferença entre produzir um quadrinho e uma ilustração?

Emilly Bonna: Na infância não cheguei a ler muitos quadrinhos, mas me chamava atenção a estrutura deles, que possibilitava contar histórias através de desenhos. Comecei a fazer breves historinhas pra mim mesma aos nove anos e, conforme foi passando os anos, continuei fazendo quadrinhos e zines bem amadores e com pouca circulação. Na ilustração eu posso passar uma ideia rápida do que quero expressar e nos quadrinhos as formas de explorar um tema são mais amplas.

LOBO RAMIREZ: Por que você aceitou fazer parte desta patotinha horrível de pessoas degeneradas? Não tem medo do que vão falar de você na igreja?

Emilly Bonna: Eu estava no culto da igreja Deus é Amor e no meio da oração, Jesus, na forma do piolho da irmã que estava na cadeira da frente, me disse: ‘Participe de uma HQ de alto grau satânico para enaltecer o Diabo, tô brigado com meu pai Deus, quero deixar o véio puto’. E então cumpri o pedido de Cristo, amém. Não tenho medo do que vão falar pois já envenenei todos os membros da igreja com cianeto misturado no suquinhos Tang de uva.

– VICTOR BELLO –

LOBO RAMIREZ: Na história Fuim, o Xupador de Ossos, mesmo em poucas páginas, você insere uma vasta gama de personagens e parece que a qualquer momento podemos acompanhar qualquer um deles com uma história diferente. Nessa história específica, quais foram suas inspirações para os personagens?

VICTOR BELLO: Nessa história eu quis fazer uma investigação estilo Arquivo X. O demônio não teve uma inspiração específica, mas os personagens da gangue que trafica cascos de tartaruga eu me inspirei em personagens aleatórios de filmes da produtora Troma, gente esquisita. Outros, como as vítimas, busquei as características em típicos personagens que morrem em filmes slashers, então uma das vítimas é um jovem pixador que usa drogas, o outro é um pescador que pesca tartaruga em extinção. São pessoas que num filme slasher são descartáveis. O jovem pixador é parecido também com personagens de propaganda cristã anti-drogas.

LOBO RAMIREZ: Não te incomoda os editores dessa revista claramente estarem ganhando milhões às custas de jovens talentos?

VICTOR BELLO: Incomoda. E me incomoda tanto que pretendo roubar toda a fortuna desses dois em um golpe que já está em curso e assim montar minha própria editora. Os contratarei com carteira assinada, pagarei um salário e os tratarei com toda decência.

– DIEGO GERLACH –

LOBO RAMIREZ: Fazer parte do gibi Porta do Inferno é mais uma de suas participações numa antologia de quadrinhos. Qual o lugar você enxerga que essa história tem dentro do seu trabalho? Ela dialoga de alguma forma com a sua produção atual ou cada título,  cada quadrinho, se adequa a necessidades específicas?

DIEGO GERLACH: Acho que tem as duas coisas, sempre dialoga com as outras HQs que tenho feito e por outro lado também sempre supre uma necessidade específica. Essa HQ pra Porta do Inferno tem umas coisas que vinha fazendo em outros trabalhos (grids fixos, desenho digital fotoreferenciado), mas ao mesmo tempo a demanda era específica (e inédita pra mim): uma HQ de terror com uma pegada clássica. Levou um bom tempo pra ser concluída, ela meio que mudou de rumo e acabei incorporando alguns elementos de uma lenda urbana que me foi contada algumas vezes na época em que fazia catequese. O terço final foi criado no intervalo do primeiro pro segundo turno das eleições de 2018.

LOBO RAMIREZ: Você acha que o verdadeiro anticristo vira à terra como um homem de deus?

DIEGO GERLACH: Como ateu criado no catolicismo, o diabo pra mim é o conceito alegórico definitivo… Mesmo que não exista um ‘verdadeiro’. Tem vários ‘homens de deus’ que são o diabo em pessoa (preciso dar exemplos…?), vão na direção diametralmente oposta dos ensinamentos do mito crístico. É isso: a gente vê o diabo diariamente e faz de conta que não. (Como curiosidade, meu avô queria que eu me tornasse padre.)

Entrevistas / HQ

Papo com Felipe Portugal, o autor de Granizo: “Uma piada consegue ridicularizar a agonia humana e colocar a nossa crise de ansiedade de lado”

As 16 páginas em preto e branco de Granizo narram a jornada dos soldados Pipo, Zeca e Raimundo tentando sobreviver à chegada de um inverno cruel nos últimos instantes de uma guerra que eles não têm consciência que chegou ao fim. A publicação é assinada pelo quadrinista Felipe Portugal, em seu primeiro trabalho impresso em seguida à coletânea de tiras Narigudo. Também autor de Espiga e da HQ da sexta edição da Série Postal 2017, Portugal teve como principal inspiração para seu trabalho mais recente as histórias do escritor norte-americano Kurt Vonegut. Também é explícita sua influência pelas narrativa e pelos designs de página do quadrinista Chris Ware.

Publicado pela editora Ugra Press em formato tabloide e impresso em papel jornal, Granizo tem como temas principais a efemeridade da vida e a fragilidade dos seres humanos. Sem dúvida, uma das HQs mais singulares e interessantes lançadas no Brasil em 2018. Bati um papo rápido por email sobre o quadrinho com Portugal. Ó:

“Eu trabalho misturando elementos que considero complementares. Política e emoção, autobiografia e poesia. Agora comédia e guerra”

Você lembra do instante em que teve a ideia de criar Granizo? Você pode falar um pouco sobre a origem desse projeto?

Pra mim não existem histórias criadas num instante. Elas geralmente são uma amálgama de vários elementos que o autor observa e, depois de dias de reflexão, ele consegue chegar a uma síntese daquilo tudo. Nossa mente não trabalha muito bem com graduações. Pra você eu simplesmente criei Granizo, mas ao dar um zoom no processo artístico de qualquer pessoa você percebe que suas experiências diárias vão ajudando a juntar as peças que fazem o quebra-cabeça da obra final.

Eu trabalho misturando elementos que considero complementares. Política e emoção, autobiografia e poesia. Agora comédia e guerra. Não fui o primeiro a fazer isso, definitivamente. Meu autor de referência foi Kurt Vonnegut, um satirista norte-americano. Descobri seus livros em 2011 e desde então sou um grande fã da forma como o autor contava suas histórias.

Quando assisti o Dr. Strangelove, em 2016, fui criando na minha cabeça essa pequena ‘janela estética’ pra um universo parecido como o da história. Fiz uma curta série pro Instagram chamada Dr. Arrependimento, uma alusão direta ao filme. Vonnegut e Strangelove são as maiores referências pro que eu pretendia fazer.

Como eu te falei, histórias são criadas ao longo de um processo que envolve muitas coisas, não tem exatamente um estalo. Partindo dessa ideia, eu pretendo continuar trabalhando nesse universo do Granizo. Quem sabe um dia refazer a história, como o Chris Ware vive refazendo suas histórias, também. Só me sinto satisfeito quando sinto que consegui contar o que queria.

“O tema central do Granizo acaba sendo a banalidade da vida humana e, convenhamos, é um tema muito mais comum em nossas cabeças do que homens que vestem a cueca por cima da calça”

Por que uma história sobre a guerra? Quero dizer, esse não é um tema muito próximo da nossa realidade. Ou melhor, há várias cidades, bairros e contextos da realidade brasileira que encontram-se em guerra. Mas a nossa ficção não está habituada a retratar confrontos bélicos nos moldes como você retratou, concorda?

Achei curiosa a pergunta. Existem um milhão de quadrinhos por aí que abordam temas distantes da nossa realidade, ainda assim eles não geram espanto. Me perguntaram mais de uma vez o motivo de fazer uma história sobre ‘guerra’ – se é que dá pra resumir assim.

A guerra suscita dois debates que acho fundamentais para entendermos o homem moderno: a banalidade da vida contra a ideia do indivíduo portador de direitos inalienáveis. Você já reparou que existe uma disparidade entre o ideal e o real? É comum defendermos máximas como direito à vida, propriedade e liberdade, porém somos esmagados por instituições que violam esses princípios constantemente e temos em nossos genes um comportamento animal, que prima pela sobrevivência e o egoísmo – e aqui eu não estou fazendo um juízo de valor de nada disso.

Ou seja: racionalmente nós nos sentimos indivíduos, cidadãos, mas na realidade você estouraria os miolos de qualquer um que colocasse a sua vida em risco. Isso não é contraditório. É legítimo que você se defenda e preserve sua vida, mas ao mesmo tempo parece assustador enxergar os seres humanos na forma crua que eles são.

Este não é um tema restrito. Ele é universal. Eu só o ‘vesti’ de fuzis e capacetes. Então, como tratar de temas tão pesados de uma forma sutil? Comédia. Uma piada consegue ridicularizar a agonia humana e colocar a nossa crise de ansiedade de lado. Então o tema central do Granizo acaba sendo a banalidade da vida humana e, convenhamos, é um tema muito mais comum em nossas cabeças do que homens que vestem a cueca por cima da calça.

O quadrinho é curto e você acaba conseguindo desenvolver um pouco de cada um dos seus três personagens. Foi desafiador administrar a história que você queria contar e desenvolver os seus três protagonistas dentro de um espaço tão restrito?

O ‘desenvolvimento de personagens’ é um clichê narrativo, daqueles de livros sobre ‘como escrever roteiros em 10 lições’. Nós temos esses bordões e muitas vezes nem paramos pra pensar no que significa ‘desenvolver um personagem’. Pra mim, narrativas são vidas possíveis e desenvolver o personagem é tornar aquela história cada vez mais multilateral, aproximando a história da realidade. Nesse quesito, foi realmente algo novo pra mim.

Se foi desafiador? Não. Eu considero que uma tarefa é desafiadora se, ao terminar de fazê-la, você aprimora suas habilidades e ‘sobe um nível’. Francamente, eu não vejo muita diferença do Felipe do dia 1 de Granizo pro Felipe que terminou a última página. Infelizmente.

Um artista deve se desafiar para aprimorar sua técnica, estilo e até seu espírito. Porém o mais importante é saber como aprimorar. Não adianta, Ramon, desenhar mil páginas do mesmo jeito. Você não vai melhorar quase nada. Vale mais escolher os desafios certos do que se desafiar toda hora.

Acho explícita a influência do Chris Ware nesse trabalho, principalmente nas soluções visuais com ares de infografia e na disposição de alguns quadros. Eu quero saber como você construiu essa estrutura visual. Você chegou a finalizar um roteiro e só depois desenhou? Enfim, como foi o desenvolvimento dessa HQ?

A primeira etapa de produção é o texto corrido. Minha percepção sobre ideias é linguagem é a seguinte: temos sentimentos e palavras tentam traduzi-los. Você pode traduzir bem ou traduzir mal. Quando você traduz mal não consegue expressar seus sentimentos corretamente e isso gera angústia. Partindo desse princípio eu sempre escrevo a história num texto corrido antes de fazer um roteirinho desses que a gente aprende formalmente. Isso ajuda a entrar no clima da história e enxergar possíveis aberturas que você não achou que a história geraria.

A segunda é a produção do roteiro. Entendo a página como unidade mínima narrativa do quadrinho. Logo, cada página tem uma ‘mensagem singular’ que faz sentido no todo. Escrevo mais ou menos por páginas e vou marcando apenas as falas dos personagens. É a coisa mais simples do mundo.

No terceiro momento é a hora de fazer os rascunhos. É a parte mais chata, insuportável, laboriosa e desanimadora. Uma coisa é traduzir sentimentos com palavras, outra é traduzir com imagens. Não é à toa que bons pintores são coisa rara. É um baita problemão. Um artista narrativo resolve problemas. Ele é um idiota: inventa uma história da sua imaginação, como por exemplo: ‘mulher é encontrada morta num hotel’, e a partir daí tem que resolver esse problema que ele mesmo criou. Não é um trabalho de maluco?

Pensar sobre ângulos, disposição de quadros, formas de contar a mesma cena… tudo isso dá uma baita dor de cabeça. Já passei horas pra terminar uma maldita página rascunhada com bonecos palito. Ao final é só desenhar. Pra mim é uma etapa relaxante. Geralmente eu finalizo as páginas ouvindo música ou podcasts.

“Nossos alicerces são muito frágeis e nada como a guerra para nos lembrar que a morte está batendo na porta constantemente, esperando qualquer frestinha pra entrar”

Me fala também, por favor, sobre o narrador? Eu gosto como ele tem uma voz muito própria, como se tivesse contando a história pra alguém que não seria apenas nós, leitores. Quem é esse narrador pra você?

O narrador é quem faz a comédia. Me parece que, pra inserir algumas ‘metalinguagens’, seria necessário um narrador onipresente e onisciente. Um ‘Deus’ da história. Ele que faz os julgamentos morais, ele que comenta tudo que acontece. Então ele não só conta história, mas também oferece uma ‘moral’ pra tudo aquilo. Daí que vem essa sensação estranha de que ele não estaria só narrando.

Eu fiquei pensando no título da história, como Granizo dialoga com a banalidade e fragilidade da vida em vários aspectos. Esse quadrinho também é sobre isso? Sobre como as coisas podem ser fugazes, banais e passageiras?

Definitivamente. Como afirmei, a sociedade urbanizada que tem facilitações tecnológicas pra todas as atividades, talvez esqueça a banalidade da vida. Conceitos como liberdade, felicidade, realização pessoal, são o topo da pirâmide, não a base. Isso é importante pra quem já tem conforto, comida. Pra quem trabalha com arte, jornalismo, ciência. Qualquer mendigo trocaria a sua liberdade de expressão por uma casa quentinha.

Imaginemos a seguinte situação: todos os policiais desaparecem. Pronto, você acabou de nos transportar de volta para a pré-história. Nossos alicerces são muito frágeis e nada como a guerra para nos lembrar que a morte está batendo na porta constantemente, esperando qualquer frestinha pra entrar.

“O formato dos quadrinhos me parece a única coisa que tem blindado as HQs de terem o mesmo destino dos livros: a digitalização”

O formato do quadrinho é demais. Eu adoro a possibilidade de ler algo legal e barato. Me fale como você chegou nesse formato? Como você acha que o quadrinho e a leitura dele ganham por ter sido impresso em papel jornal, nesse formato tabloide?

Não foi uma ideia minha, foi do editor, Douglas Utescher. De repente ele me mandou uma mensagem falando dessa ideia de imprimir num formato de ‘jornal’ e a princípio eu estranhei. Posteriormente vi que a ideia se encaixava perfeitamente. O formato dos quadrinhos me parece a única coisa que tem blindado as HQs de terem o mesmo destino dos livros: a digitalização. Portanto talvez seja interessante apostar em formatos não convencionais para explorar essas possibilidades. Ainda assim, sou daquela ideia que muitos discordam que ‘divulgação’ pode sim ajudar a pagar as contas. Quadrinistas iniciantes deveriam cobrar o mais barato possível pelos seus quadrinhos. Isso é competição. Se eu for gastar mais de 40 reais num quadrinho, por que raios eu compraria o gibi de um autor desconhecido e não do Grant Morrison?

Quais são os seus próximos projetos? Quando veremos um novo quadrinho seu?

Que perguntinha difícil, viu? Uma HQ pela Balão Editorial está por vir e bem… De resto eu preciso primeiro entender o que eu quero fazer da minha vida em relação a arte e depois te dou uma resposta. Estou cheio de dúvidas e nessas condições não é prudente prometer nada.

Entrevistas / HQ

Papo com Wagner Willian, o autor de O Martírio de Joana Dark Side: “Me pareceu o momento ideal para contar essa história de resistência”

O quadrinista Wagner Willian lança na Comic Con Experience 2018 a HQ O Martírio de Joana Dark Side. A obra do autor dos álbuns Bulldogma e O Maestro, O Cuco e a Lenda tem como foco os instantes finais de vida da mártir e heroína francesa Joana d’Arc, executada na fogueira aos 19 anos, em 1431. Ao narrar o julgamento e a condenação da personagem em 76 páginas de histórias em quadrinhos, Willian adaptou livremente o filme mudo A Paixão de Joana d´Arc (1928), dirigido pelo cineasta dinamarquês Carl Th. Dreyer e protagonizado pela atriz Maria Falconetti. “O filme foi considerado ousado na época por algumas ângulos inéditos e ser quase todo feito em closes dos atores”, conta o autor ao blog.

“Investigando a obra, acabei descobrindo que essa escolha pelos closes não foi rigorosamente por uma questão estética e genial do diretor, mas um jeito de driblar os abusos que cometera com a atriz”, explica Willian. “Dreyer a confinou pelos cinco meses de gravação para que ela não tivesse influência dos outros atores em suas encenações. E ainda a obrigava a se ajoelhar em pedregulhos para ele poder captar o rosto da dor, por isso o close. Renée virou Joana para mim. A simbologia de tudo isso confluiu para que não houvesse dúvidas sobre o que eu estava fazendo. Por tudo o que Renée passou, cabia uma metalinguagem ali”, diz.

Publicado pela editora Texugo (pertencente a Willian), O Martírio de Joana Dark Side é um dos principais lançamentos da imensa leva de HQs que deve chegar às lojas especializadas até o fim do ano, em seguida à Comic Con. Vencedor do Prêmio Grampo 2017 por seu trabalho em Bulldogma e finalista do Prêmio Jabuti por dois anos consecutivos por seus dois títulos mais recentes, o autor dá uma nova roupagem e rumos inesperados a uma das histórias mais conhecidas da história da humanidade. Além da arte e dos designs de páginas belíssimos que já lhe são característicos, o quadrinista ainda cria laços e conexões entre uma trama ambientada no século XV e o conservadorismo da sociedade brasileira contemporânea.

Na entrevista a seguir, Wagner Willian fala sobre as origens de O Martírio de Joana Dark Side, comenta o desenvolvimento do projeto, apresenta as técnicas utilizadas por ele e trata das conexões de seu trabalho com a realidade nacional. Ele ainda adianta alguns de seus próximos planos para a Texugo e deixa no ar a possibilidade desse seu novo álbum ser apenas o primeiro de uma coleção. A seguir, Wagner Willian:

“Estou insistindo nessa coisa de ‘terror’ mas nem sei se posso classificar O Martírio da Joana Dark Side assim. Um drama com final aterrorizante talvez?”

Qual a memória mais antiga que você tem do nome Joana D’Arc? Você lembra da primeira vez em que ouviu falar ou leu sobre ela?

Não lembro exatamente de quantos anos eu tinha na primeira vez em que ouvi a história de Joana d’Arc. Não sei se foi através de um filme, livro, conversa ou daquela série Acredite Se Quiser, mas consigo lembrar do quanto me envolvi por ela, pela trajetória de quem se entrega obsessivamente a uma causa, em que todo gesto dizia ter prerrogativas sublimes. Claro que na época não foi nenhum desses motivos que me prendeu a atenção, mas a lenda de que no final, quando as últimas brasas estalavam a madeira, e o seu corpo já havia desintegrado, seu coração continuava intacto.

Por que Joana D’Arc? Qual a origem desse projeto?

Joana Dark Side. Tinha esse trocadilho na manga há muito tempo, como também a vontade de adaptar algum filme que já houvesse caído em domínio público para a linguagem dos quadrinhos, subvertendo a história ou mesmo criando outra em cima. Lembra da Feira da Fruta e MTV Classics? Mas sem necessariamente fazer algo cômico. As imagens já estavam ali, prontas, então a coisa prometia ser mamão com açúcar. E a Joana, bem, ela foi uma das primeiras feministas (começo do século XV), além de peitar a igreja e seus inimigos.

“A versão que escolhi tem esse viés mais realista (jamais fotorrealista), para causar um impacto mais ‘convincente’ (será?) na parte que toca ao terror”

Você poderia falar, por favor, sobre as técnicas que utilizou no quadrinho? Como você definiu o estilo que queria desenvolver nessa obra?

No começo, eu cogitava fazê-la em nanquim. Algumas páginas depois, percebi o que eu já sabia, ia demorar mais do que gostaria pra terminar isso. Resolvi partir para o digital. Fiquei em dúvida quanto ao estilo, até lancei uma enquete com quatro variações de uma mesma página na rede social. No final, acabei desenvolvendo uma versão diferente daquelas. É óbvio que isso, de fazer enquetes e deixar o leitor escolher as cores de uma capa, tem uma função marqueteira. O leitor não tem apenas conhecimento de seu novo trabalho, como também se sente fazendo parte do seu projeto. A versão que escolhi tem esse viés mais realista (jamais fotorrealista), para causar um impacto mais “convincente” (será?) na parte que toca ao terror. Em todo caso, o terror diz muito mais respeito a narrativa do que a estética. Estou insistindo nessa coisa de “terror” mas nem sei se posso classificar O Martírio da Joana Dark Side assim. Um drama com final aterrorizante talvez? Ainda no estilo, mesmo sendo digital, quis passar a impressão de algo “artesanal”, com as manchas que o Juscelino Neco tanto gosta, um gestual mais solto como se eu fosse daqueles desenhistas tribunais que capturam as cenas de um julgamento.

“Resolvi trazer as visões de Joana para dentro do tribunal, sem deixar claro o limite que separa realidade e delírio”

Esse livro é a sua versão da história da Joana D’Arc, correto? Ainda assim, ele foi construído a partir de várias pesquisas e estudos seus tendo como referência outras obras protagonizadas pela personagem. Como você estabeleceu qual seria a trama que queria contar e como aplicaria as suas referências no quadrinho?

Não é a versão da história dela mas de seu julgamento e condenação. Parti do filme mudo A Paixão de Joana d´Arc de Carl H. Dreyer que é de 1928, protagonizado por Renée Falconetti. O filme foi considerado ousado na época por algumas ângulos inéditos e ser quase todo feito em closes dos atores. Com muito pouco texto, as expressões ditam as cenas. Investigando a obra, acabei descobrindo que essa escolha pelos closes não foi rigorosamente por uma questão estética e genial do diretor, mas um jeito de driblar os abusos que cometera com a atriz. Renée foi uma Joana d´Arc para esse filme, seu primeiro e último. Dreyer a confinou pelos cinco meses de gravação para que ela não tivesse influência dos outros atores em suas encenações. E ainda a obrigava a se ajoelhar em pedregulhos para ele poder captar o rosto da dor, por isso o close. Renée virou Joana para mim. Ela até mesmo morou no Brasil e Argentina. Como Joana, foi cremada. A simbologia de tudo isso confluiu para que não houvesse dúvidas sobre o que eu estava fazendo. Por tudo o que Renée passou, cabia uma metalinguagem ali.

Criei também diálogos para entender melhor o que estava sendo julgado no processo e preencher a lacuna das cenas mudas. O filme se baseou nos registros oficiais de seu julgamento. Fui atrás e achei alguns trechos aqui e outros ali, até cair em outra película, focada também sobre a condenação, e este mais completo que o do Dreyer no que tangem as questões processuais: Le Process de Jeanne d’Arc, de Robert Bresson, de 1965. A essa altura já tinha ido atrás de outros filmes sobre ela. O de 1945, de Victor Fleming, mostrava uma estética incrível também e alguns rostos caricatos. Roubei-os para mim. E aqui entra a questão do sobrenome Dark Side. Como mencionei acima, não me interessava fazer a simples adaptação de um filme e subverti seu final. Vale dizer que tinha enviado o pdf da primeira versão ao diletante Zé Oliboni. Ele sugeriu me aproximar dos delírios que o Luc Besson realizou em seu filme, aquele da Milla Jovovich, dando corpo às vozes que Joana ouvia. Era uma coisa delicada essa porque não só dar corpo mas também tecer as palavras de uma voz ‘divina’ poderia mundanizá-la, e é o que acontece no filme do Besson. O do Fleming mostra a Ingrid Bergman conversando com essas vozes, mas sem mostrar o interlocutor e sem mesmo se fazer ouvir, há apenas uma conversa em forma de monólogo. Estava muito mais inclinado a isso, essa coisa do subentendido, do subliminar (pra variar..). Então resolvi trazer as visões de Joana para dentro do tribunal, sem deixar claro o limite que separa realidade e delírio.

“O Brasil caminha para um lugar nebuloso, e quem escolheu esse caminho parece também não entendê-lo”

Eu não quero entrar muitos nos detalhes da trama, mas vejo um diálogo imenso desse trabalho com a nossa realidade, principalmente no questionamento de figuras de autoridade e no protagonismo feminino. Esses são temas caros para você?

Sem dúvida. O Brasil caminha para um lugar nebuloso, e quem escolheu esse caminho parece também não entendê-lo, mas torna-se claro ali o exercício da Igreja e do exército. Me pareceu o momento ideal para contar essa história de resistência, tendo uma mulher à frente, uma mulher enfrentou a Inquisição, o Estado, questionou a teologia e a moral. Uma mulher dessas não merecia morrer na fogueira. Esse foi o estalo! E a Gabriela Franco ter aceito meu convite para escrever o prefácio foi algo que me deixou extremamente feliz. Ela é a criadora do MinasNerds, site sobre cultura Geek/Nerd e cultura Pop, e uma resistência dentro desses cenários.

Ainda sobre esse diálogo da obra com a nossa realidade: qual você acredita ser o papel potencial de histórias em quadrinhos para inspirar questionamentos em tempos tão conservadores como os que estamos vivendo?

Diferente de um filme, um quadrinho não precisa se preocupar com vetos da produtora por conta de saldo orçamentário para se narrar uma história, e, principalmente, está cagando para a opinião dos acionistas e empresas de merchandising. Acho que essa é a potência da linguagem, ela é absurdamente livre. E espero que continue sendo.

Os seus três quadrinhos mais conhecidos são trabalhos muito distintos. As tramas e os temas de Bulldogma, de O Maestro e agora de Joana Dark Side são completamente diferentes. Você se propõe a investir nessas abordagens e temas distintos ou isso é algo natural pra você?

Que bom ouvir isso, meu velho. Não gostaria de me ver preso a uma única forma e tema, se bem que costumo achar quase toda obsessão linda. Sobre a questão, acho que nenhum nem outro. O que tenho são histórias. Não sou eu quem decide se elas serão parecidas ou não. Deixo elas seguirem o caminho que quiserem. E por isso mesmo não vou dizer que é algo natural porque é o diabo até resolver como será a forma final da próxima história que irei contar.

Você revelou que o livro faz parte de uma coleção chamada Cine Qua Non. Do que se trata essa coleção?

Tirei o nome da coleção do termo usado em ambiente jurídico: Sine Qua Non. Significa imprescindível. Tenho uma lista extensa de filmes que para mim foram e continuam sendo imprescindíveis. Como essa adaptação/subversão do filme A Paixão de Joana d´Arc, pretendo fazer outras. Filmes como o primeiro Nosferatu; Ivan, o Terrível; O Vampiro de Dusseldorf, cara, são tantos, estão na minha linha de tiro. Nosferatu, por exemplo, existe toda uma esfera estranha sobre o primeiro ator do filme. Há até um filme com o Willem Dafoe, retratando isso. Daria para adaptar o Nosferatu, mesclando com a história do ator e subverter tudo para mostrar um vampiro político e brasileiro da atualidade.

Posso estar completamente equivocado aqui mas até onde eu sei, depois de setenta anos, uma obra cai em domínio público. Confere produção? Então é isso. A mão chega a coçar. Ainda mais percebendo que eu consigo fazer essas subversões a toque de caixa, rs.

“Tirando o percentual da agente literária, os direitos autorais pela cessão às editoras de fora são todos meus”

Joana Dark Side é apenas seu segundo lançamento pela Texugo, mas o livro anterior, O Maestro, já foi indicado ao Jabuti e ganhou edições estrangeiras. Como tem sido a sua experiência com a editora até aqui?

Tem sido ótima. Em menos de um ano estou perto de esgotar a tiragem inteira. O pessoal fala que o que ferra é a distribuição. A Texugo está sendo distribuída pelas principais comic shops do país e por duas grandes livrarias, porque as demais estão dando calote, e pelo famigerado site de venda online. Ou seja, o livro chega em qualquer lugar do país. Outro ponto vantajoso: tirando o percentual da agente literária, os direitos autorais pela cessão às editoras de fora são todos meus. Algumas editoras nacionais cobram além do agente, uma parte em cima (ui!). A parte vantajosa de se publicar por uma grande editora quando você não é conhecido é a divulgação, uma vez que é tiro certo, já existe um catálogo definido, esquemas com mídia e booktubers. Mas a parte que realmente me pega, sendo editora de um só funcionário, é a logística das feiras de quadrinhos. O Maestro, o Cuco e a Lenda é um livro de capa dura, 208 páginas, pesado pacas. Uma caixa com 22 livros pesa 15kg. É tenso levar mochila, pegar metrô, saca? O transporte às feiras gera um custo a mais e um custo e esforço que fazem diferença. Diferente de quando a equipe de uma editora assume o controle e ao autor só lhe basta chegar à mesinha, cambaleante, para soltar autógrafos e sorrisos amarelos. Lição aprendida. O Martírio de Joana Dark Side será um livro de brochura com 76 páginas. Nem sei quantos conseguirei levar nas costas dando risada. Que frase!

Quais são seus próximos planos para a Texugo? Você já tem algum novo quadrinho em vista?

Irei voltar ao lugar onde a humanidade é o melhor disfarce, a HQ Silvestre. Que, talvez, saia pela Texugo. Estamos analisando todas as possibilidades. Mas nem só de autopublicações viverá a editora. Estou negociando os direitos de um quadrinho belga da pesada (o que já era para ter acontecido e, ao que parece, vai miar – deusqueiraquenão), de olho em outros deste mundão sem porteiras.

Entrevistas / HQ

A Plaf #2 está nas lojas: “Os quadrinhos não podem se alienar de seu papel político, democrático”

O segundo número da revista Plaf já está disponível nas principais lojas especializadas em quadrinhos do país. Editada por Paulo Floro, Carol Almeida e Dandara Palankof, a publicação tem capa assinada pelo quadrinista Mascaro, uma entrevista com o artista Marcelo D’Salete e quadrinhos de autoria de Jô Oliveira, Brendda Costa Lima, Felipe Portugal e Mascaro. Eu escrevi uma das matérias da edição, tratando dos hábitos de consumo de leitores brasileiros e sobre questões relacionadas ao comércio de HQs no país. A revista tem 60 páginas, formato 21x28cm e preço de R$ 15.

Conversei por email com um dos editores da Plaf, o jornalista Paulo Floro. Ele falou sobre os principais desafios na edição desse segundo número da publicação, as principais lições da edição de estreia, as matérias e os quadrinhos presentes na Plaf #2 e a missão de uma revista sobre quadrinhos em um contexto político conturbado, de conservadorismo aflorado e princípios democráticos em risco. Papo massa, saca só:

“Acreditamos na democracia e vamos defendê-la acima de tudo”

Duas páginas da Plaf #2 com entrevista com Marcelo D’Salete

A primeira edição da Plaf foi lançada em agosto de 2017, com a promessa de periodicidade bimestral, mas o segundo número saiu apenas em outubro de 2018. O que aconteceu? Por que esse atraso?

O que aconteceu foi uma série de problemas referentes a um edital de cultura que tínhamos vencido. A produção do número 2 se iniciou quase que ao mesmo tempo do lançamento da edição 1, mas nos vimos imersos em uma discussão em relação às regras do edital, sobretudo quanto aos prazos. Se tivéssemos sabido que existia essa possibilidade de atraso nunca teríamos divulgado a periodicidade. Tentamos de todas as maneiras explicar a importância do projeto, dos benefícios que isso trazia às publicações independentes. Esses atrasos no repasse da verba nos fizeram atrasar o lançamento da edição 2, que estava pronta. Queríamos primeiro resolver qualquer pendência primeiro.

Esse atraso afetou de alguma forma a produção da revista e o conteúdo presente nesse segundo número?

Não. A revista ficou praticamente pronta ao final do lançamento da #1. Mudamos algumas matérias, mas por uma questão editorial mesmo, não por conta do atraso. Ficamos felizes com o resultado, com as colaborações e com o incrível trabalho de diagramação de Erika Simona, que também criou nosso logo.

“Queremos discutir a forma, falar de mercado e celebrar esse divertido entretenimento que é ler um gibi, mas não podemos deixar de dar nossa contribuição sobre o que está acontecendo no Brasil”

Matéria da Plaf #2 sobre consumo de quadrinho no Brasil

Quais as principais lições que vocês tiraram do primeiro número da revista? Como vocês tentaram aplicar esse aprendizado na segunda edição?

O principal aprendizado é em relação à gestão mesmo. Acredito que agora temos mais experiência em trabalhar com editais e captação de recursos. É algo que demanda muita organização, conhecimento jurídico e paciência. Aqui em Pernambuco os artistas sempre foram bastante engajados no papel do poder público na promoção da arte e da cultura, mas os quadrinhos sempre tiveram pouca presença. Agora vejo que já existe uma organização nesse sentido, com editores e artistas mais próximos, dialogando sobre possibilidades. Espero que um dia a cena de quadrinhos possa ser articulada como a do cinema e música, que por batalharam por tantos anos hoje já possuem uma abertura bem maior junto aos espaços de discussões de políticas culturais, bem como nas empresas e editais governamentais. Mas, ao mesmo tempo, vejo que os tempos estão mais difíceis para todos. Além da cena de quadrinhos, esse movimento de união deve ser de toda a cadeia produtiva de arte e cultura.

Você pode falar um pouco mais sobre a capa desse segundo número? Por que o Cristiano Mascaro? Vocês passaram alguma pauta pra ele em relação à arte que estamparia a capa dessa edição?

Para a capa do segundo número queríamos um artista pernambucano, este foi nosso primeiro pensamento quando começamos a desenhar o número 2. E Mascaro sempre foi alguém que admiramos. Ele foi um dos criadores da Ragu, revista pioneira em Pernambuco e no Brasil. Até hoje acho impactante uma HQ que ele fez para a Ragu que trazia os meninos de rua gigantes. Lembro de ter ficado emocionado de verdade lendo aquela história e ainda hoje sinto o impacto quando releio. Mascaro sempre uniu a busca por uma inovação na forma e na narrativa com questões sociais no roteiro. Pra gente que tem a Ragu como uma das maiores inspirações, ter Mascaro nesta edição é uma honra. A gente pediu uma HQ a ele, mas não pautamos nenhum tema. Como já sabíamos do seu estilo a confiança de que sairia algo incrível era total. Ele fez uma história incrível, que lembra um lambe-lambe, ao mesmo tempo em que se assemelha a um ensaio visual, bem inovador mesmo. E bastante atual para representar essa crise moral e política em que vivemos. Em relação à capa dissemos apenas o tom do editorial, que conclama os leitores a irem pra rua comprar gibi, de fortalecer a circulação autoral de quadrinhos, de celebrar leitores e lojistas.

Página da HQ de Jô Oliveira presente no segundo número da revista Plaf

O que vocês destacam nesse segundo número da revista? 

Para esse segundo número a gente quis debater um pouco o mercado editorial brasileiro, dar nossa contribuição em um debate que é bastante complexo e que possui diversas abordagens. Então em um primeiro momento a proposta foi falar da lógica de consumo, o modo como consumimos quadrinhos. Tem ainda uma entrevista com Marcelo D’Salete sobre Angola Janga e a representação da negritude nos quadrinhos. Quando ele venceu o prêmio Eisner, a revista estava pronta, mas não tinha ido à gráfica ainda e por isso conseguimos incluir essa informação, que é um registro poderoso. D’Salete é uma voz importante não só nos quadrinhos brasileiros, mas da cultura como um todo. O trabalho que ele vem fazendo de pautar uma nova perspectiva de nossa história é algo importante, urgente, muda paradigmas da história dos negros e negras no país. Destaco também o perfil de Jô Oliveira, que é um quadrinista pernambucano que tem um trabalho muito importante, mas pouco reconhecido. Ele é mais publicado no exterior do que aqui. E tem a cobertura que fiz do Festival de Angoulême, que neste ano teve uma boa presença de brasileiros. E tem ainda um perfil da Marca de Fantasia, editoria da Paraíba feita por um homem só, o Henrique Magalhães.

De quadrinhos temos a HQ de Mascaro, que já citei, que é bem legal. Chamamos Roberta Cirne por ter um estilo muito particular, um traço barroco, denso, que curtimos muito. Ela se dedica a pesquisar histórias de terror no Recife e faz parte de uma cena de horror que vem crescendo em Pernambuco nas HQs, no cinema, teatro. Já Brendda Lima é um nome importante dessa nova geração de quadrinistas que se dedicam a trabalhos mais autobiográficos, já acompanhávamos há um tempo as HQs dela na web. E teve Felipe Portugal, que trouxe um ensaio em primeira pessoa, inclusive citando a revista. Já a HQ de Jô Oliveira era um trabalho que ele tinha guardado e nos cedeu depois do perfil que fizemos com ele. Imagina a nossa alegria quando ele nos mandou? Não chegou a ser intencional, mas ficamos felizes em saber que todos os quadrinhos desta edição são de autores nordestinos.

Uma página do quadrinho de Brendda Costa Lima para a Plaf #2

Eu fico curioso em relação a essa missão dupla da Plaf, como uma revista de quadrinhos e sobre quadrinhos. É muito distinta a experiência de editar uma matéria ou uma crítica e editar uma HQ? Aliás, como é a dinâmica de vocês com os quadrinistas? Vocês pautam os temas sobre os quais eles devem tratar?

Essa missão dupla realmente é um desafio massa de se ter, nos dá uma instiga de pensar o cenário de quadrinhos de maneira crítica com matérias e textos ao mesmo tempo em que buscamos dar espaço para artistas que admiramos. Em geral damos liberdade para os quadrinistas, no sentido de estilo, roteiro, narrativa. O que acontece é que muitas vezes pautamos o quadrinista em relação a algum tema ou ideia. Por exemplo: sempre admiramos os quadrinhos que Felipe Portugal postava em que ele aparecia como um alter-ego refletindo sobre diversos temas e tentando explicar algum conceito. Então pedimos algo parecido a ele, mas sem dizer um tema. E o resultado superou nossas expectativas. Na edição 1 queríamos uma HQ que falasse sobre o Recife e se passasse no Recife e convidamos Raoni Assis pela ligação afetiva que ele tem com a cidade enquanto artista, o que deu origem à HQ sobre o OcupeEstelita. Acreditamos que podemos comunicar através das HQs que trazemos na Plaf e por isso sempre estamos em diálogo aberto com os autores.

O Brasil está passando por uma imensa crise editorial e corre o risco de eleger para a presidência um indivíduo militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista (nota do editor: a entrevista foi feita antes do resultado do segundo turno da eleição presidencial). Qual vocês acreditam ser o papel da Plaf dentro desse contexto nefasto? Como a revista se posiciona em relação a esse cenário?

Acreditamos na democracia e vamos defendê-la acima de tudo. Desde o número 1 estamos falando editorialmente sobre o que pensamos, colocando a arte como um espaço de diálogo e reflexão. Os quadrinhos não podem se alienar de seu papel político, democrático. Queremos discutir a forma, falar de mercado e celebrar esse divertido entretenimento que é ler um gibi, mas não podemos deixar de dar nossa contribuição sobre o que está acontecendo no Brasil. Com muita humildade espero que a Plaf possa proporcionar informação para resistir nesses tempos duros. Fiquei feliz de ver uma movimentação nas redes em torno da hashtag #desenhospelademocracia com vários artistas trazendo conteúdo antifascista, debatendo as eleições deste ano. Ninguém mais hoje pode ficar neutro, sobretudo no que diz respeito à perda de direitos e retrocessos na democracia.

Página do quadrinho de Mascaro para a segunda edição da Plaf

Quais as principais lições que vocês tiraram desse segundo número? Como vocês pretendem aplicar esse aprendizado nas próximas edições?

O maior aprendizado diz respeito à gestão de um projeto como a Plaf, que envolve custos relativamente altos de produção e impressão. Queremos aplicar essa experiência para as próximas edições, sobretudo quanto aos prazos. Quando terminamos de editar a revista, a colocamos em pré-venda por acreditar que tudo sairia dentro do nosso cronograma. O resultado é que atrasamos, o que frustrou a expectativa de muita gente. Quando a revista finalmente saiu mandamos uma cartinha pedindo desculpas. Isso é algo que dificilmente faríamos. Também ficamos mais experientes com relação à distribuição, que era algo bastante novo para todo mundo na equipe. É bem mais complexo do que despachar pelos Correios. Envolve gestão de estoque, prestação de conta, loja online, etc, o que melhorou bastante. Aproveito para agradecer a todo mundo que apoia a revista e dizer que somos gratos por todo o carinho que recebemos até agora. O retorno foi bem positivo da número 1 e espero que essa edição 2 tenha o mesmo sucesso.

O que vocês podem adiantar sobre os próximos números da revista? Qual é o futuro da Plaf?

Queremos muito retomar nossos planos de ter quatro edições por ano, mas agora preferimos não mais falar de uma data exata de lançamento da número 3. Esperamos bastante conseguir capitalizar a revista para que ela tenha sustentabilidade a longo prazo. Esperamos sensibilizar marcas e empresas do enorme potencial que a publicação possui, do diálogo que mantém com diversos públicos, pensar parcerias. Para esse número 2, que acabou de sair, ainda queremos fazer mais lançamentos. O mercado vive um momento muito complicado e nem arrisco a fazer uma previsão, mas com certeza vamos manter o nosso projeto editorial de falar de quadrinhos de uma maneira plural, inclusiva, dando destaque para a produção brasileira. Quem quiser embarcar nesse projeto conosco, será super bem-vindx. 🙂

A capa da Plaf #2