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Entrevistas / HQ

Papo com Victor Bello, autor de O Alpinista e Úlcera Vórtex: “Quando começo a desenhar eu nunca sei no que vai dar”

É difícil lembrar um quadrinho de estreia tão impactante e visceral na história recente das HQs nacionais como Úlcera Vórtex. Lançada em duas partes pelo selo Escória Comix em 2017, a HQ não foi a primeira obra do quadrinista Victor Bello, mas foi seu primeiro trabalho longo. As pouco menos de 100 páginas da HQ narram os feitos de Loépio de Deus e Adriano Gás na companhia da lagartixa Valdir Vegeta destruindo tudo o que veem pela frente contra os habitantes do violento mundo de Gorgonotúbia – instalado em um buraco negro interdimensional no estômago de um clone de Loépio.

De 2017 pra cá, Bello publicou Incontinência Tripária, 15ª edição da coleção Ugrito, e O Cegueta de Cristo, HQ curta impressa na segunda edição da revista Pé-de-Cabra. Trabalhos excelentes, mas apenas amostras do que viria a ser o grande feito do quadrinista em seguida a Úlcera Vórtex: O Alpinista.

Quadro de O Alpinista, HQ de Victor Bello publicado pelo selo Escória Comix

Recém-publicado pela Escória Comix, o novo quadrinho de Victor Bello é um épico de 220 páginas em preto e branco narrando os dramas de Landoni, maior alpinista de todos os tempos, superado apenas em sua escalada derradeira, uma missão trágica que põe fim à sua carreira. Meses depois, o destino de Landoni vai ao encontro das investigações conduzidas pela detetive Norma Leprexau e seu parceiro Charles Bauduco em meio a uma conspiração envolvendo políticos e alienígenas que pode levar ao fim da vida na terra.

Espécie de repentista em quadrinhos, Victor Bello desfila personagens e tramas aparentemente improvisadas na construção de uma história grandiosa, com arte impactante e final catártico. Sempre exigindo fôlego do leitor. Dois anos após Úlcera Vórtex, o lançamento de O Alpinista sacramenta Bello como um dos grandes das HQs nacionais e a Escória Comix, do editor Lobo Ramirez, como uma das principais casas dos quadrinhos brasileiros.

Bati um papo com Victor Bello sobre O Alpinista. Na conversa a seguir ele fala sobre as inspirações e o desenvolvimento de seu novo trabalho, apresenta um pouco de sua formação como quadrinista e revela o início das atividades da Bufa Produções – parceria dele com a quadrinista Emilly Bonna que deve resultar em uma revista inédita no início de 2020. Saca só:

“Se tratando de esporte, não posso deixar de citar os filmes do Will Ferrel como uma influência, sabe aquele da patinação artística? E o da Nascar? E o de basquete? São tantos filmes bons!”

Página de O Alpinista, HQ de Victor Bello publicado pela Escória Comix

Você pode contar um pouco, por favor, sobre o ponto de partida de O Alpinista? Houve alguma inspiração em particular que te levou a começar a produzir esse trabalho?

Olá Ramon! Obrigado pelo espaço! Então, há muitos anos eu tinha na minha cabeça uma idéia boba de dois alpinistas que viviam disputando pra ver quem era o melhor. Até que um deles morre em um ato heróico e é considerado o melhor pra sempre, o que frusta totalmente o outro alpinista. Isso ficou guardado/esquecido e quando surgiu a vontade de fazer um novo quadrinho pra Escória Comix, vi que poderia usar isso para começar a minha nova história. Inspiração em particular eu não lembro, mas estava com muita vontade de fazer uma história sobre algum esporte. Peguei o alpinismo, que é um esporte praticado em todo o mundo, praticado até por bebês e velhinhos senis, e vi que poderia abordar muitas questões com isso. E, se tratando de esporte, não posso deixar de citar os filmes do Will Ferrel como uma influência, sabe aquele da patinação artística? E o da nascar? E de basquete? São tantos filmes bons!

Duas coisas que me impressionam muito nos seus trabalhos: a quantidade de personagens, sendo cada um deles muito desenvolvidos, e a as várias reviravoltas e tramas paralelas que você cria. O que vem primeiro na sua cabeça: os personagens ou as histórias que você quer contar? Ou eles vão se desenvolvendo ao mesmo tempo?

Obrigado! Acredito que primeiro vem a história. Conforme vou desenvolvendo a história, aí surgem os personagens.

“Todo mundo pode aparecer e todos os personagens têm história, assim como todas as pessoas no mundo tem sua história também! “

Quadros de O Alpinista, HQ de Victor Bello publicado pela Escória Comix

Enquanto o Úlcera Vórtex era protagonizado principalmente pelo Adriano Gás, o Alpinista tem vários coprotagonistas. Como você administra a presença, o desenvolvimento e a participação de cada um desses personagens no quadrinho?

Complicado, é algo mais instintivo. No Alpinista, depois da introdução, fiquei num pingue-pongue entre duas histórias separadas. Tento apresentar os personagens e a história individual de cada um deles aos pouquinhos, com mais sugestões do que revelações, pra atiçar a curiosidade e a imaginação da leitora e do leitor. Sem isso a história fica mortinha. Quanto à participação deles, como são muitos para administrar, prezo sempre pelo ritmo mais acelerado, cenas curtas, com rápida resolução ou um gancho. As vezes o personagem nem era pra ter importância, como o Guguto Milk. Neste caso, a história foi pra uma direção que acabou fazendo ele ser importante, aí vou vendo a necessidade de apresentar mais características dele, desenvolvê-lo, etc. No Úlcera Vortex, por exemplo, o dono da Agropecuária Iron Maide não ia aparecer, mas aí eu penso: por que não? Todo mundo pode aparecer e todos os personagens têm história, assim como todas as pessoas no mundo tem sua história também!

“O principal eu consegui fazer: colocar uma cena de onda gigante no gibi, coisa que não consegui em Úlcera Vortex. Se eu morrer hoje, morro feliz”

Um quadro de O Alpinista, HQ de Victor Bello publicado pela Escória Comix

Voltando à trama: O Alpinista tem muitos personagens e a história é repleta de reviravoltas. Eu precisei ir e voltar algumas vezes para não me perder no enredo. Como você construiu essa história? Você também teve alguma dificuldade para não se perder durante a trama?

Então, não há muito método em como construo a história, eu faço uma página e vou imaginando todos os possíveis desenrolos da trama, o que mais me agrada é colocado nela. A parte da investigação foi mais difícil, pois tive que voltar mais vezes na história para não deixar furos. Como os investigadores são meio burrinhos, é uma característica dessa trama uma certa dose de confusão, eles vão construindo o caso a partir de pistas que parecem não fazer sentido ou tirando conclusões precipitadas, indo por caminhos estranhos, etc. Acho que as pessoas podem se perder em algum momento… Ficaria feliz se todos tiverem essa paciência de voltar, ler de novo… Esse comprometimento com a história é legal e importante. Mas não sei como as pessoas vão receber, espero que se divirtam. De qualquer modo, o principal eu consegui fazer: colocar uma cena de onda gigante neste gibi, coisa que não consegui em Úlcera Vortex. Se eu morrer hoje, morro feliz.

Aliás, você chega a finalizar um roteiro antes de começar a desenhar? Como foi a dinâmica de produção de O Alpinista? Quanto tempo levou pro quadrinho ficar pronto?

É tudo bem amador hahaha Não consigo escrever roteiro. Anoto, claro, algumas idéias soltas e palavras chaves. Tem coisa que eu guardo na cabeça e depois esqueço, aí já era, mas se eu esqueci não era importante. Quando começo a desenhar eu nunca sei no que vai dar, então é mais fácil ir pra vários caminhos, criar histórias paralelas e vários personagens. O quadrinho demorou mais ou menos um ano. Comecei a produzir pra valer a partir de setembro de 2018. Mas em janeiro daquele ano eu já havia feito as primeiras cinco ou oito páginas. Terminei no final de julho de 2019.

“No começo ia ter 70 páginas, depois 100. De repente tinha 150, mas falei pro Lobo que não passsaria disso. Quando contei no final tinha 210, por aí” 

Página de O Alpinista, HQ de Victor Bello publicado pela Escória Comix

Você pode me falar, por favor, um pouco sobre as suas técnicas? Que materiais você usa? É tudo feito com papel e caneta? Tem algum elemento digital?

Trabalho com papel no formato A5, lápis e caneta nanquim. Em alguns momentos usei nanquim diluído em água. No computador eu pinto de preto as partes maiores dos desenhos. Também utilizo alguns tons de cinza e também aplico algumas retículas.

Como é a dinâmica do seu trabalho com o editor da Escória, Lobo Ramirez?

O cara é o chefe, né… A gente tem que respeitar. No caso do Alpinista, ele sabia pouco do que eu tava produzindo, mas é um carinha que confia em mim. Tinha mandado umas sete páginas pra ele, disse que seria uma história de um alpinista serial killer e eu até ia fazer isso, mas a história não rolou na minha cabeça, não ficava legal (inclusive acabo citando esse plot num diálogo entre Jimy Ioiô e Landoni). No começo ia ter 70 páginas, depois 100. De repente tinha 150, mas falei pro Lobo que não passsaria disso. Quando contei no final tinha 210 por aí, nem sei quantas páginas tem na verdade hahaha

“Hoje sonhei que dava uma bochada na cara daquele Weintraub, o incel, enquanto chutava os bago do Paulo Guedes, o babidi”

Página de O Alpinista, HQ de Victor Bello publicado pela Escória Comix

Em maio de 2019 Carlos Bolsonaro fez um post imbecil no Twitter atacando um leitor do Úlcera Vórtex que fez uma homenagem ao quadrinho nas redes sociais. O que você pensa dessa galera que tá no poder e das merdas que eles têm feito?

O Alessio Esteves postou uma foto com a coletânea Porta do Inferno e alguns apetrechos do Adriano Gás e uma jaqueta do Asteroides (do Lobo), disse que ia dar porrada em bolsominions e foi muito engraçado a repercussão. Bom, o Carlos Bolsonaro, que fez o post, é um dos brasileiros mais burros e filhos da puta do momento, junto com seu pai e aquela trupe bizarra de ministros (hoje sonhei que dava uma bochada na cara daquele Weintraub, o incel, enquanto chutava os bago do Paulo Guedes, o babidi). Depois do golpe que deram na Dilma e da tramóia que fizeram pra prender o Lula não tem como esperar coisa boa. O Bolsonaro é a encarnação de tudo que há de mais repulsivo na sociedade e política brasileira, representa um Brasil vira-lata, racista, que odeia pobres… Um cara envolvido até o pescoço com merda pesada, com milícia. Ele, e quem tá do lado dele, só vai fazer merda, quem espera o contrário merece uma enxadada nas costas também.

“Eu e Emilly Bonna, autora de Esgoto Carcerário, criamos a Bufa Produções e pretendemos lançar uma revista de quadrinhos já no início de 2020”

Um quadro de O Alpinista, HQ de Victor Bello publicado pela Escória Comix

Pergunta meio injusta porque você acabou de lançar um quadrinho de mais de 200 páginas e imagino que mereça um descanso, mas acho importante fazer: você já está trabalhando em algum projeto novo? Se sim, o que você pode adiantar?

Sim! Eu e Emilly Bonna, autora de Esgoto Carcerário, criamos a Bufa Produções e pretendemos lançar uma revista de quadrinhos já no início de 2020. Além disso, quero começar um novo gibi, de umas 40 páginas, mas ainda não confirmei com a editora que vai publicar, por isso não dá pra revelar muita coisa haha. Mas envolve sinuca!

Qual a memória mais antiga da presença de quadrinhos na sua vida?

Uma caixa cheio de gibi da Turma da Mônica, era a única coisa que eu lia quando criança. Gostava muito de uma história do Cascão no ferro-velho. E também meu irmão me dando um Teia do Aranha que ele tinha comprado num sebo.

Página de O Alpinista, HQ de Victor Bello publicado pela Escória Comix

O que mais te interessa em termos de HQs atualmente? Que tipo de quadrinho você gosta de ler? Tem algum autor ou alguma obra que te chama mais atenção?

No momento estou lendo pouco quadrinhos, infelizmente. Gosto dos desenhos do Derf Backderf, Johny Ryan, Lawrence Hubbard, Hideshi Hino… Muitas coisas que só vi pelo Google Imagens. Mas o que mais acompanho é essa cena independente de quadrinhos do Brasil, mais voltado pro humor e nojeira, o que vem sendo publicado pela Escória Comix, Pé-de-cabra, etc. Tem muita coisa aí que gostaria de ler, mas ainda não li. Fora isso estou com muita vontade de ler Carolina, da Sirlene Barbosa e do João Pinheiro.

Você pode recomendar algo que esteja lendo /assistindo /ouvindo /jogando no momento?

Recomendo muito o seriado Nathan for You, que só consegui legenda em português para as duas primeiras temporadas. Se tem alguma boa alma que sabe legendar e esteja lendo isso, por favor, legende as outras temporadas de Nathan For You.

Página de O Alpinista, HQ de Victor Bello publicado pela Escória Comix
A capa de O Alpinista, HQ de Victori Bello publicada pela Escória Comix
Entrevistas / HQ

Papo com Galvão Bertazzi, autor da série Vida Besta: “Minhas tiras são um catálogo dos demônios internos que perambulam ao meu lado e dentro de mim”

A coletânea de tiras da série Vida Besta chega às lojas especializadas em quadrinhos 20 anos após Galvão Bertazzi comprar o domínio www.vidabesta.com. Com exceção de alguns breves períodos de hiato, o site continua na ativa desde o final da década de 90, apresentando em tons de vermelho, amarelo e laranja um pouco dos demônios internos do autor.

A publicação lançada pelo selo Pé de Cabra tem 64 páginas, introdução do quadrinista, músico e pesquisador Marcio Paixão Jr. e reúne as tiras mais recentes de Bertazzi, produzidas entre 2018 e 2019, sendo parte delas inéditas.

“Deve ter sido o choque com essa realidade medonha em que nos metemos”, cogita o quadrinista em relação à inspiração que o levou a retomar o ritmo quase diário de produção da Vida Besta entre o final de 2018 e o início de 2019 e impulsionou a impressão da coletânea.

Apesar de apresentado pelo editor Panhoca como a reunião das tiras mais recentes de Bertazzi “focadas no ódio, na mediocridade humana e na desesperança crônica do amanhã”, o autor diz ver essa leva recente de tiras impressa no livro funcionando “numa esfera muito mais pessoal do que sócio-política”.

“Mas obviamente a coisa toma seus próprios rumos e eu não posso mais controlar a leitura que fazem do meu trabalho”, pondera Bertazzi. No papo a seguir o quadrinista fala sobre falta de esperança, hipocrisia, religião, técnicas e o uso de botas. Sim, botas. Conversa bem boa, saca só:

“O apocalipse está acontecendo bem diante dos meus olhos, mas eu fui surpreendido de chinelo. Estou estupefato e não tenho pra onde correr sem machucar os pés”

Uma das tiras de Vida Besta, coletânea da série homônima de Galvão Bertazzi publicada pelo selo Pé de Cabra

Uma pergunta constante nas entrevistas do Vitralizado diz respeito à nossa realidade. Desde o dia 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita, militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista que reflete muito do que é a nossa sociedade hoje. Levando tudo isso em conta, geralmente eu pergunto pros autores se eles são otimistas em relação ao nosso futuro, mas acho que a Vida Besta deixa explícito o seu pessimismo em relação ao Brasil e ao mundo. É isso mesmo? Você tem alguma esperança de mudança e/ou melhoria para a nossa realidade?

Vejo uma esperança, sim. Esperança que um meteoro caia mês que vem na Terra e destrua logo isso aqui, porque olha… Do jeito que a coisa anda, ter algum tipo de otimismo beira a loucura.

Pra começo de conversa, você precisa entender que eu sou um cara que até pouco tempo atrás ficava de botas dentro do apartamento, o dia inteiro. Eu ficava de botas porque acreditava que se algum tipo de catástrofe acontecesse, eu estaria preparado pra sair correndo ou caminhar por sobre os escombros em segurança. Pode parecer piada, mas isso é verdade! Foram anos de terapia pra dar uma aliviada nessa tensão constante de que algo muito ruim pudesse acontecer a qualquer momento. E vejam só, eu estava certo. O apocalipse está acontecendo bem diante dos meus olhos, mas eu fui surpreendido de chinelo. Estou estupefato e não tenho pra onde correr sem machucar os pés.

Resumindo. Não tem essa de “otimismo” não. Os canalhas venceram de vez! Fim.

P.S.: Mas não deixaremos eles em paz!

“Existe um quê de diversão masoquista no ato de se fazer as tiras

Uma das tiras de Vida Besta, coletânea da série homônima de Galvão Bertazzi publicada pelo selo Pé de Cabra

O editor da coletânea, Panhoca, me falou que esse livro é “só o ódio do Galvão”. Você acha essa uma boa síntese do que é essa obra?

Cara, não acredite nas coisas que o Panhoca fala. Ele mente pra vender livros, sabe? É praxe entre os grandes editores de livros esse tipo de coisa. Não é “só ódio” que me move. Tem o medo, o rancor, o desprezo, um sentimento de vingança latente. Mas a grande verdade é que existe um quê de diversão masoquista no ato de se fazer as tiras. É um exercício desafiador ( ou estúpido ) abrir os braços pro caos, ao invés de somente denunciar, alertar e fazer alarde. Tenho plena consciência que eu também sou , de certa forma, responsável por toda essa merda instaurada. É angustiante, mas ao mesmo tempo me faz desenhar com um pouco mais de liberdade pra criticar qualquer lado e dar risada de mim mesmo também. A chave de tudo é isso: rir de nós mesmos.

Consigo abordar esses desastres que se passam na minha cabeça e ao meu redor de forma pseudo natural, eu acho. O mais curioso é isso: não acho o Vida Besta engraçado, sabe? Eu queria fazer as pessoas chorarem. Mas sabe como é, os fracassos a gente não escolhe….

“Me divirto desenhando uma realidade onde os pensamentos mais obscuros pipocam pela boca de cada personagem sem nenhum pudor”

Uma das tiras de Vida Besta, coletânea da série homônima de Galvão Bertazzi publicada pelo selo Pé de Cabra

O Panhoca também me falou de três alvos principais desses quadrinhos da Vida Besta: religião, política e a mediocridade da classe média. Qual desses três temas te causa mais repulsa hoje? Qual desses três tópicos mais te incomoda e você sente mais necessidade de tratar?

Aqui eu preciso pontuar um aspecto importante do meu trabalho pra que ninguém nunca me acuse de hipocrisia quando eu ganhar meu primeiro prêmio Eisner, na categoria “Quadrinhos desnecessários para a humanidade”. O Vida Besta fala muito mais sobre mim, o Galvão Ser Humano Bípede e Cretino do que sobre as pessoas ao meu redor. Minhas tiras são um catálogo dos demônios internos que perambulam ao meu lado e dentro de mim.  

Eu tenho um apreço especial pelo tema religião. Só pra resumir: fui criado no berço de uma família católica que aos poucos foi, sorrateiramente, se debandando pra igreja evangélica. Os rituais da igreja católica eram demasiado apáticos naquela época, chatos e insuportáveis e o espetáculo circense e pirotécnico dos evangélicos levou todo mundo pra uma alegria demente e duma hora pra outra estavam todos falando na língua dos anjos e recebendo recados secretos do próprio Jesus.  Esse movimento foi muito esquisito e, graças a deus (ou ao capeta ), fui salvo pela maconha, o vinho barato e o rock vagabundo na hora certa, e aí consegui me abortar da família nesse aspecto.

Você precisa entender que brincar com Jesus, Deus e o Diabo é algo muito pessoal. Tem um peso muito forte pra mim, pois durante muito tempo foi desafiador fazer piada ou deboche com algo tão “sério”, sabe?  Hoje eu tenho a plena consciência que, tendo me libertado desses receios há muito tempo, eu acumulei muita munição pra usar nos dias atuais, quando parece que estamos caminhando de volta aos tempos sombrios da idade média inquisitória. Então ainda teremos muito capeta e piroca, sim senhor.

Por outro lado, deve dar pra contar nos dedos o número de tiras pontuais sobre política. O lance é que eu não gosto de desenhar sobre política. A verdade é que eu não entendo NADA de política. Nunca entendi e meus esforços pra ter alguma clareza só me deixam mais confuso. Eu sou o sujeito na mesa de bar que fala bobagens sem sentido e é repreendido, tanto pelos amiguinhos da esquerda quanto pelos amiguinhos da direita ( é, eu tenho amiguinhos de direita ).  Se você acompanha meu trabalho, vai perceber que quando o assunto é política a análise é rasa e quase sempre termina em algo como “vai tomar no cu, ( coloque aqui o nome do seu político preferido )”, ou com algum personagem tacando fogo ou explodindo tudo. A fórmula que eu achei pra falar sobre política é focar no inconsciente coletivo, no que as pessoas comuns pensam, fingem não pensar e sintetizo isso tudo num desabafo quase sempre fatalista. Parece funcionar.  

O meu foco sempre esteve nas relações humanas e suas nuances. Me divirto desenhando uma realidade onde os pensamentos mais obscuros pipocam pela boca de cada personagem sem nenhum pudor, e todos eles se resolvem de forma natural e patética, porque sabem que são todos iguais em seus medos, preconceitos, ganâncias e etc. Meus personagens são seres perdidos e sem rumo, como eu e você.  

A gente sabe que depois de 2013 a caixa de pandora foi aberta. Desde então eu nem me esforço muito pra tentar desvendar o que se passa na cabeça de mais ninguém. Já ficou tudo escancarado e meu único trabalho vem se tornando quase que obsoleto. Tudo que preciso fazer é repetir o que dizem e desenhar na tira ou no cartum. Nunca foi tão fácil! E é por isso que a classe média é um prato cheio pra me lambuzar. O fomento pra bizarrice é infinito.

De vez em quando acontece de conhecer pessoalmente alguém que já segue meu trabalho há um tempo e ouvir um “ah, você é assim, mas eu achei que era mais…”. Acho que pelo teor das tiras, muita gente tem uma imagem fictícia de mim. Algo como um revolucionário anarquista com coquetel molotov na mão ou coisa parecida. Mas não… Eu sou esse cara sem graça das tiras. Só isso. Puf!

“Tem dia em que eu desenho uma única tira e tem dia em que produzo umas 10 ou 15 de uma só vez”

Uma das tiras de Vida Besta, coletânea da série homônima de Galvão Bertazzi publicada pelo selo Pé de Cabra

Te faz bem dar vazão ao pessimismo e à repulsa que você dá a entender que sente pelo mundo e pelo Brasil? É saudável pra você criar em torno desses temas?

Não é bem uma questão de fazer bem ou não. Eu simplesmente faço e é um pouco difícil discorrer sobre como funciona esse processo. Tem dias em que eu desenho uma única tira e tem outros em que produzo umas 10, 15 tiras de uma só vez. Isso me cansa, sim. A cabeça fica exaurida, a mão dói. Mas quando isso acontece é muito bom. Me sinto útil em minha inutilidade. Eu tenho esse compromisso com minha produção e isso me deixa em paz com o mundo em volta, porque no final do processo, parece que eu descobri algo novo! O que estou querendo dizer é que fazer as tiras ( desenhar de modo geral)  me ajuda a entender a mim mesmo e o mundo a minha volta. É um movimento constante de troca, que vai do micro pro macro e vice versa, tipo uma pulsação que funciona com mais intensidade quando estou desenhando (ficou bonito isso, hei? Vou usar na minha palestra de Coaching). E olha, eu desenho o tempo inteiro.

“Acho visualmente sedutor o vermelho do ladinho do alaranjado indo pro amarelinho e páááá, acontece a mágica”

Uma das tiras de Vida Besta, coletânea da série homônima de Galvão Bertazzi publicada pelo selo Pé de Cabra

Eu gosto muito das paletas de cores com as quais você trabalha. No caso da Vida Besta há esse predomínio de laranja e amarelo que dialoga com os ares infernais que você aborda. Como você pensa as suas cores? Como você define as paletas de cada trabalho?

Tenho essa tendência pros tons quentes. Acho visualmente sedutor o vermelho do ladinho do alaranjado indo pro amarelinho e páááá, acontece a mágica.  Essas cores foram escolhidas conscientemente em algum momento da minha pesquisa e fui lapidando e refinando a paleta.

Na minha cabeça parece mesmo que tudo está em chamas e essas cores me passam essa sensação no desenho. Parece que está tudo inserido num inferninho frenético, sabe?  Eu usei esse conceito descaradamente na capa desse novo livro. Gostei do resultado.

Mas tenho que admitir que morro de inveja de quem sabe usar o azul. Eu tenho uma dificuldade tremenda de usar cores frias. A VERDADE É QUE EU NÃO SEI USAR A PORRA DO AZUL!

“O capeta senta no meu colo e vai dando as ideias erradas”

Uma das tiras de Vida Besta, coletânea da série homônima de Galvão Bertazzi publicada pelo selo Pé de Cabra

Você pode me falar um pouco sobre as técnicas que utilizou nessas tiras da Vida Besta? Esses trabalhos foram feitos com tinta e papel ou é tudo digital? Você tem alguma preferência em relação às estruturas e materiais nos quais produz os seus trabalhos?

Faz uns anos que já aceitei que as tiras Vida Besta funcionam perfeitamente no formato digital. O Marcio Jr. captou muito bem no prefácio do livro essa minha urgência em desenhar e resolver a parada. Não tem muita firula, sabe? Eu desenho muito rápido no tablet e consigo manter um traço relativamente fiel ao traço no papel. Geralmente as tiras nascem no período da manhã, nas primeira horas de trabalho do dia. Acordo, passo um cafezão, ligo um som qualquer e sento na frente do computador e a coisa vai fluindo. É muito raro eu já ter uma ideia do que vou fazer antes de sentar. É praxe eu começar desenhando um bonequinho sem antes ter planejado o que ele vai dizer, com quem vai interagir e nem mesmo o cenário. E aí as ideias vão aparecendo.  O capeta senta no meu colo e vai dando as ideias erradas.

Um exercício que eu sempre faço é me imaginar entrando num ambiente novo, uma sala, num escritório, enfim…  E aí começo a ouvir as conversas aleatórias entre aqueles desconhecidos que estão ali. Do que estão falando, de quem estão reclamando e as ideias surgem. Eu digito tudo muito rápido, pra não perder a ideia. Acho que demoro mais tempo apagando e reescrevendo os balões do que no desenho em si. Eu sou meio afoito. Gosto de já terminar a tira e postar na web, e isso é um grande defeito. Se você reparar, as tiras da internet estão sempre cheias de erros de digitação, erros ortográficos horrorosos. Tudo isso por causa de uma dislexia bizarra e desse afobamento em terminar a parada e já mostrar pro mundo. Tive que pedir pro Panhoca, que é o editor do livro revisar UM MILHÃO DE VEZES cada tira antes de mandar o livro pra gráfica. E olha… até o último minuto ele ainda estava catando erro. 

É comum eu ficar MUITO tempo enfurnado na frente do computador e isso me deixa exausto também. Nos últimos anos consegui fugir um pouco do digital e voltar às raizes. Ando desenhando muito com caneta e aquarela, além de produzir uma penca de telas em formatos bem maiores que um papel. A tinta acrílica me responde à essa urgência de ter um trabalho pronto num curto espaço de tempo e me solta um pouco mais as mãos e as idéias. Tento fugir completamente dos “temas Vida Besta” quando pinto uma tela ou aquarela por exemplo. A coisa fica um tanto mais lúdica e é ótimo pra refrescar as idéias.

“Dei de presente pro mundo o meu bem mais precioso e o que eu ganhei em troca? Só desgosto”

Uma das tiras de Vida Besta, coletânea da série homônima de Galvão Bertazzi publicada pelo selo Pé de Cabra

Você publica seus quadrinhos na internet há um bom tempo, talvez esteja na leva inicial de quadrinistas e cartunistas brasileiros que investiu na internet para publicar seus trabalhos. Você consegue fazer um balanço de como era a internet no início dos anos 2000 para difusão de quadrinhos e tiras e como é hoje? Melhorou ou piorou? As redes sociais ajudaram ou atrapalharam?

Eu faço tiras de forma constante desde 1996. A internet tava tomando forma e eu achei nela uma forma de mostrar minha produção. Eu fritava nessa ideia, sabe? Ninguém me conhecia, eu não conhecia ninguém. E teve essa troca mágica e avassaladora. A internet era um mundo desconhecido e acho até que era mais legal antes, mesmo com suas limitações. Difícil não parecer nostálgico. Mas o que eu pensava era: “Estou aqui em Goiânia, ninguém me conhece, muito menos meu trabalho. Então vou comprar um domínio e divulgar meu trabalho”. E foi basicamente isso.

Fiquei pensando com meus botões, enquanto respondia essa entrevista e me liguei que eu despejei quase toda minha produção de tiras, desenhos e cartuns na internet esse tempo todo. Bicho, se a gente começar a contar desde 1999, que foi quando comprei o domínio www.vidabesta.com, vai fazer 20 anos, cara!  Eu não tinha feito essa conta ainda. Dei de presente pro mundo o meu bem mais precioso e o que eu ganhei em troca? Só desgosto.

Sabe que lá pelos idos de 2016, mais ou menos, eu havia decidido nunca mais desenhar tiras. Sei lá. Me deu uma daquelas broxadas homéricas e quase abri mão do domínio www.vidabesta.com. Mas aí, 2019 chegou e com ele veio essa vontade  enorme de fazer o Vida Besta de novo. Deve ter sido o choque com essa realidade medonha em que nos metemos. Pois bem, aqui estou.

“Faz um tempo que ando pesquisando um monte de coisas sobre ocultismo”

Uma das tiras de Vida Besta, coletânea da série homônima de Galvão Bertazzi publicada pelo selo Pé de Cabra

Você também tem um histórico de trabalhos editoriais para veículos impressos tradicionais, principalmente a Folha de São Paulo. Há uma crise crescente no mercado editorial. Essa crise impacta a sua vida profissional? 

Impacta sim. E eu não entendo muito bem, também. Sei que a maioria dos jornais impressos não publicam tiras em suas páginas, por exemplo. Eu tive a sorte de publicar tiras diárias por mais de uma década em dois veículos de circulação grande, em diferentes regiões do país. Era sempre legal. Eu ainda sonho em publicar tiras diárias num grande jornal, em especial na Folha. Quem sabe um dia.

Você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Olha… eu posso recomendar o que não ler: as notícias de jornais ou redes sociais, por exemplo! Hahahha

Na verdade, ando lendo coisas bem fora do mundo dos quadrinhos ou qualquer coisa que remeta ao “mundo real”. Faz um tempo que ando pesquisando um monte de coisas sobre ocultismo, por exemplo. Lendo textos antigos, procurando coisas sobre alquimia e rituais de magia. Acho que tem a ver com uma busca interna por algum tipo de resposta, que o mundo real e as cosias racionais não conseguem me dar mais pistas. Cara… Eu ando de saco cheio do mundo real e acho que já teve gente que endoidou bem mais pesado sobre esses temas “místicos”. 

Na verdade, eu não sou uma pessoa de gosto refinado pra literatura, cinema e música, sabe? E aí eu coloco a culpa nos filhos pequenos pelo cansaço e confesso que a noite, eu e minha companheira sentamos no sofá e dormimos vendo qualquer bobagem em algum serviço de streaming qualquer.

Música pra mim é basicamente Rock Alternativo e Barulhento. Minha playlist orbita em volta de Sepultura com o Max ( SEMPRE COM O MAX ) e Pixies, indo de vez em quando pra Cartola, pegando a curva pra The Clash e the Who e aceitando de bom coração as Descobertas da Semana do Spotify.

A capa de Vida Besta, coletânea da série homônima de Galvão Bertazzi publicada pelo selo Pé de Cabra
Entrevistas / HQ

Papo com Fabio Vermelho, autor da revista Weird Comix: “Quero que as pessoas sintam algo lendo, seja vergonha, diversão, nojo, raiva ou pena”

O meu primeiro contato com o trabalho do quadrinista Fabio Vermelho foi com uma HQ de duas páginas impressa no primeiro número da revista Pé de Cabra, editada pelo também quadrinista Panhoca e lançada em março de 2018. Fui atrás de outras publicações do autor e descobri a existência da revista Weird Comix, projeto solo e independente de Vermelho lançado desde 2014 e atualmente em sua nona edição.

As Weird Comix seguem alguns padrões: são impressas em preto e branco, suas tiragens não vão muito além de 100 exemplares e são escritas em inglês. As histórias giram em torno de crimes e depravações e contam com participações esporádicas de monstros saídos de filmes de terror B. Mesmo quando ambientadas no nosso presente, as tramas e os personagens são retratados como crias dos Estados Unidos da década de 50.

No momento Vermelho está trabalhando na décima edição da Weird Comix, com lançamento previsto para dezembro ou janeiro, e no álbum O Deplorável Caso do Dr. Milton, com a promessa de ser publicado pelo selo Escória Comix até o final de 2019. Um dos quadrinistas nacionais que mais tem chamado minha atenção, Vermelho topou um papo por email com o blog falando sobre sua influências, o início de sua carreira, o desenvolvimento de suas técnicas e o andamento de seus próximos projetos. Conversa bem boa, saca só:

“Lia coisas estilo One Piece, Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball Z, Samurai X, Fullmetal Alchemist, era meio fissurado em mangá”

Quadros de uma HQ de Fabio Vermelho publicada na revista Weird Comix

Você pode contar um pouco sobre os seus primeiros contatos com histórias em quadrinhos? Qual a memória mais antiga de quadrinhos na sua vida?

A memória mais antiga mesmo que eu tenho sobre quadrinhos era ficar lendo uns gibis estilo Zé Carioca, Tio Patinhas, Turma da Mônica e coisas assim na casa de um tio, irmão do meu pai, quando íamos visitá-lo. Isso quando eu era bem criança, então faz muito tempo e nem lembro das histórias que lia. Mas foi meu primeiro contato. Na minha casa mesmo, nem meu pai nem minha mamãe são ligados no assunto. 

Quando eu comecei a ler mesmo, acompanhar algo, foi quando passei a comprar mangás nas bancas, enquanto eu estava na escola. Meu irmão comprava também. Lia coisas estilo One Piece, Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball Z, Samurai X, Fullmetal Alchemist, era meio fissurado em mangá. Foi nessa época também que comecei a desenhar… Eu já era meio obsessivo na época, então ia fazendo vários e vários volumes. Eu comprava um desses caderninhos com pauta, pequenos, com umas 100 páginas, e ia preenchendo. Cada um era um volume e cheguei a fazer dois mangás diferentes, hahaha. Um deles com umas 10 edições e o outro com umas 20. Eu emprestava para o pessoal da minha sala de aula, cada um ficava por uma semana com o volume e depois emprestava para o próximo. Até hoje esses caderninhos estão na casa da minha mãe. 

Aí teve um hiato, entre os anos finais da escola até entrar na faculdade, onde parei de desenhar e também fui perdendo o interesse em mangás. Depois disso conheci coisas como [Robert] Crumb, [Gilbert] Shelton, [Milo] Manara, [Guido] Crepax, e fui começando a desenhar novamente, isso já bem mais recente… De 2010 pra cá. Foi quando comecei a desenhar algo mais parecido com o que faço hoje em dia.

Uma página do quadrinista Fabio Vermelho

Quando você começou a fazer quadrinhos? Qual foi a primeira HQ que você publicou?

Como disse antes, comecei a desenhar quadrinhos com esses mangás na escola, mas não acho que conta… O primeiro publicado foi lá por 2013, na época eu usava bastante o DeviantArt. Apareceu um cara com quem eu conversava às vezes, disse que tinha um roteiro e que precisava de alguém para desenhar e depois mandarmos para uma coletânea que rolava, não sei se sai até hoje, chamada Seqapunch Quaterly. O quadrinho era curto, tinha 16 páginas e se chamava Ennui Dreams. Era uma história muda de uns animais que se portavam como humanos, bem interessante. Meu traço era muito cru naquela epoca, mas até que gosto do quadrinho. Até saiu uma entrevista comigo no livro…

Depois disso, em 2014 comecei a desenhar as Weird Comix e, ao mesmo tempo, comecei a mandar trampos para revistas. Foi em 2014 também que desenhei uma história curta chamada O Contrato, que saiu na Prego #7, se não me engano, um tempo depois…

“Vendo as Weird Comix para leitores da Inglaterra, Espanha, França, Itália, Canadá, Austrália, e a maior parte para os Estados Unidos”

A capa da mais recente edição da revista Weird Comix, do quadrinista Fabio Vermelho

Me fala, por favor, sobre a origem da Weird Comix?

É bem simples, na real… Eu venho fazendo ilustrações pra mim mesmo, sem ser encomenda, desde 2012, mais ou menos. A maioria inspirada em coisas que eu gostava de ler e ouvir: ficção científica, pulp, terror, punk, rockabilly, psychobilly. Eu já tinha desenhado uns poucos quadrinhos curtos, até então, até que para o meu TCC em Design de Produtos, em 2013, resolvi desenhar uma história em quadrinhos um pouco maior. Ela se chamava What’s Inside a Girl? e era vagamente inspirada em uma música dos Cramps. Só desenhei a parte 1, era o que dava tempo, e pouquíssima gente viu. Fiz umas cinco cópias para a apresentação do trabalho, acho que duas ficaram comigo e as outras três estão por aí, não lembro se vendi, dei ou troquei. Nunca rolou a parte 2, mas pretendo aproveitar esse roteiro (que foi o único que escrevi inteiro na vida) e redesenhá-lo um dia. Esse quadrinho foi basicamente um protótipo de como seriam os quadrinhos que eu lançaria na Weird Comix daí pra frente… A diferença é que What’s Inside a Girl? continha apenas o quadrinho, e a Weird Comix é estilo revista, tem ilustrações, tiras, seções com histórias de leitores, e os quadrinhos, claro.

O primeiro quadrinho que fiz para a Weird Comix foi o Wet Nightmare, em 2014, levemente inspirado também em uma música dos Cramps. Desenhei com a vaga ideia de já lançar algo por mim mesmo… Tinha bastante coisa fermentando na minha cabeça. Observei como outros quadrinhistas lançavam suas revistas e zines, e em 2015 resolvi juntar a Wet Nightmare com outra HQ curta que eu tinha, Resuscitate The Haze, mais tiras e ilustrações e fiz a primeira edição, com 32 páginas. Antes de vender a primeira eu já tava desenhando a segunda, com outra história curta, Drown at the Lake. A segunda Weird Comix saiu no mesmo ano, no segundo semestre. A partir da edição três comecei a desenhar I Was a Teenage Gorilla-Boy, que é uma história longa e se desenrola até a presente edição. A essa altura eu já tava aumentado cada vez mais o número de páginas do zine, porque eu tava desenhando muita coisa e já não tinha espaço. Hoje em dia o zine tem 48 páginas e tento manter a periodicidade de duas edições por ano, e além das sempre presentes HQs curtas, serializo I Was a Teenage Gorilla-Boy e The Rise and Fall of George Pills no momento. 

Eu assisti uma entrevista na qual você diz ter decidido escrever a Weird Comix em inglês para ampliar o alcance potencial do seu público. Você conseguiu chegar em um público além do Brasil escrevendo em inglês?

Sim! Vendo as Weird Comix para leitores da Inglaterra, Espanha, França, Itália, Canadá, Austrália, e a maior parte para os Estados Unidos, para vários estados, mas principalmente para a Califórnia e Nova York.

“Muita gente tem uma visão meio que inocente dos anos 50, acho legal subverter esse negócio todo”

Página de The Rise and Fall of George Pills, trabalho de Fabio Vermelho publicado na revista Weird Comix

Aliás, quem são os seus leitores? As tiragens da Weird Comix são pequenas, então imagino que você tenha um contato próximo com o seu público. É isso mesmo?

Meus leitores são bem diversos, na verdade. Eu imaginava, quando comecei, que seria um tipo específico de leitor, mas na real tem todo o tipo de pessoa, e uma quantidade quase igual de homens e mulheres. 

E sim, tenho uma relação relativamente próxima com eles, especialmente aqueles que compram desde a primeira ou segunda edição e estão até hoje comprando. Conheci a maior parte pelo Instagram e outros pelo Facebook, e alguns se tornaram até colegas virtuais, de conversar sobre coisas sem ser o meu zine e etc, ainda mais porque as pessoas que lêem Weird Comix tendem a ter um gosto parecido com o meu em relação a música e filmes, por exemplo. 

Tem algum ponto de partida o seu interesse na estética dos Estados Unidos dos anos 50? O que te interessa mais no imaginário visual dessa época?

Começou pela música, na verdade. Ouvindo bandas de rockabilly revival dos anos 80, como Stray Cats e Polecats, por exemplo. Daí comecei a ouvir o rock ‘n’ roll dos anos 50 e o rockabilly, comecei a me interessar pelo assunto, por essa década, fui pesquisando… Assistindo filmes e ouvindo música, aquilo foi crescendo em mim. Os filmes dessa época, por exemplo, tem muita coisa de monstros e ficção científica… Aquilo me atraiu bastante, as histórias dos filmes geralmente são bem simples, sem muita explicação, os monstros são criativos… Coisas como Teenage Werewolf, Teenage Frankenstein, Wasp Woman, Creature from the Black Lagoon, isso me atraiu bastante, gosto de pensar que alguns dos quadrinhos que faço são meio nonsense nesse sentido, tento passar essa atmosfera de filme antigo. Mas no meu caso eu gosto de dar um twist em tudo isso e fazer as coisas mais extremas, mais rebeldes… Como eu acho que deviam ser. Você não vai ver nesses filmes o monstro desmembrar a pessoa, fazer sexo com ela, porque nessa época os filmes não era tão gráficos, vamos dizer assim, haha. Mas eu posso fazer isso com os quadrinhos! Nos filmes de gangue e delinquência juvenil, como, sei lá, Blackboard Jungle, Rebel Without a Cause, você não vê os adolescentes usando drogas, roubando, espancando os outros, fazendo sexo, mas eles faziam isso, essas coisas existem desde o início dos tempos e eu desenho nos meus quadrinhos. Foi a época em que os jovens começaram a ter mais autonomia, gosto de explorar isso. Muita gente tem uma visão meio que inocente dos anos 50, acho legal subverter esse negócio todo.

“Quase tudo nas Weird Comix é relacionado à música, acredito que essa seja minha maior fonte de inspiração”

Ilustração do quadrinista Fabio Vermelho

O que você mais gosta de ler, ouvir e assistir? Quais são as suas principais referências? Quais os quadrinhos que mais te influenciam?

A lista do que eu mais gosto de escutar é bem longa, inclui desde o rockabilly, country, blues, psychobilly até o garage, punk, post-punk, new wave, e por aí vai… Mas do que escuto e mais me influencia na hora de desenhar seria o rockabilly, o country e o blues. Para quem acompanha as Weird Comix já deve ter percebido quantas músicas eu já transformei em quadrinhos curtos, como Riot in Cellblock #9, He’s in the Jailhouse Now e Undertaker’s Blues, fora os que já imaginei mas ainda não tive tempo de desenhar. Todas essas histórias vem na minha mente enquanto estou escutando as músicas, muitas delas têm letras muito boas e me inspiram bastante. Quando não viram quadrinhos viram ilustração… Quase tudo nas Weird Comix é relacionado à música, acredito que essa seja minha maior fonte de inspiração. 

Quanto a leitura, o que mais gosto de ler é ficção científica e terror. Meus escritores preferidos são Isaac Asimov, Philip K. Dick e Edgar Allan Poe. Esse tipo de leitura me influencia bastante na hora de criar minhas histórias também, ainda mais misturando com as músicas… É daí que sai um monte de quadrinhos de alien com rockers dos anos 60, caras que se transformam em gorila e saem matando gente nos anos 50, cientistas que arruinam suas vidas, essa mistureba toda. Gosto muito de ler alguns autores da Beat Generation também, como o Jack Kerouac e o William Burroughs… Talvez daí venha a influência de mostrar o lado mais sujo dos anos 50, as drogas, a rebeldia, o vandalismo e a vagabundagem. Fora o modo como eles trabalhavam, escreviam… Acho que isso influenciou meu modo desorganizado de trabalhar com quadrinhos também, hahaha. Os últimos livros que andei lendo antes de começar a me atarefar com tanto desenho eram justamente Cidade Pequena, Cidade Grande e Queer.

O que mais gosto de assistir, sem dúvida, são filmes de terror. Tanto os antigos como os novos, sou viciado. Gosto também de suspense, comédia, podreiras e coisas assim… 

Quantos aos quadrinhos, a verdade é que não sou um ávido leitor. Já li várias coisas, mas não é meu passatempo preferido. Não tenho muitas graphic novels preferidas… Na verdade o que eu mais gosto de ler e que me influencia são revistas como a Eightball, do Daniel Clowes; a Weirdo, do Crumb; a Peepshow, do Joe Matt; Rip Off Comix, do Gilbert Shelton; Naughty Bits, da Roberta Gregory; Chiclete com Banana, do Angeli; e Tales from the Crypt. Gosto de ler várias seções diferentes, as cartas, os quadrinhos serializados, coisas assim. Mas até que tem quadrinhos longos que gosto, nada muito fora da curva ou diferente… Adoro Black Hole, acho o Charles Burns incrível. Adoro Watchmen também. Nova York, do Eisner. Hoje é o Último Dia do Resto da sua Vida da Uli Lust. Qualquer coisa do Crepax, como Valentina, Dracula, Vênus das Peles, A História de O… Todos os do Crumb que li até hoje… Sin City, Ranxerox, Tom of Finland, Moebius, Matthias Schultheiss, Junji Ito, Eric Stanton… Diomedes, do Mutarelli, acho muito foda também. Meu gosto por quadrinhos não tem nada a ver com nada, hahahaha.

“Posso ter a situação que quiser, o cenário que quiser, os personagens que quiser, as coisas mais absurdas! É só eu desenhar. As possibilidades são infinitas”

A capa da sétima edição da revista Weird Comix, do quadrinista Fabio Vermelho

O que mais te interessa em quadrinhos hoje? Por que usar essa linguagem para contar as histórias que você conta?

Hoje em dia não compro mais tanto quadrinho como antigamente… faz uns cinco anos que me mudei da casa dos meus pais e desde então a grana ficou curta. O que faço com mais frequência é trocar zines e gibis com outros artistas, sejam brasileiros ou gringos. Tenho vários zines desconhecidos, de artistas que conheço há bastante tempo pelo Instagram. Estou sempre acompanhando o trabalho deles. Acompanho e tenho também trabalhos do D’apremont, do Victor Bello, do Gerlach, entre outros…

Eu uso essa linguagem para contar minhas histórias por dois motivos: primeiro, porque é bem prática, digamos assim… Você só precisa de papel, caneta, e um pouco de habilidade. Não precisa de altas granas, como fazer um filme. É incrível! Posso ter a situação que quiser, o cenário que quiser, os personagens que quiser, as coisas mais absurdas! É só eu desenhar. As possibilidades são infinitas. E o segundo motivo é que adoro desenhar quadrinhos. Tem uma hora ou outra que o trabalho fica meio massante, mas 99% do tempo eu amo fazer isso. Desenhar, no geral. Quadrinhos, cartazes, capas de álbuns, seja o que for. Eu passo a maior parte do meu dia desenhando, é tipo um vício. Eu faço vários quadrinhos ao mesmo tempo, se eu não estiver desenhando um, estou desenhando outro, ou alguma encomenda. 

“Não curto muito a ideia de escrever a história inteira antes de desenhar”

A capa da quinta edição da revista Weird Comix, do quadrinista Fabio Vermelho

Eu queria saber um pouco mais sobre as suas técnicas. Você chega a trabalhar com um roteiro fechado antes de começar a desenhar? Você desenha tudo à mão? Qual material você usa?

Quanto ao roteiro, acho que tenho um problema com isso, porque não curto muito a ideia de escrever a história inteira antes de desenhar. Eu geralmente penso no início, no meio e no fim da história, sem pensar detalhe por detalhe em exatamente tudo que vai acontecer, mas tendo uma linha de raciocínio. Aí vou seguindo minha intuição. E sempre com o quadrinho em mente, vão sempre surgindo novas ideias. Ele vai ser formando de acordo com o andamento da coisa. Provavelmente esse processo soe extremamente desorganizado e caótico para alguns, mas tem funcionando pra mim, gosto dessa espontaneidade. 

Eu desenho tudo à mão mesmo, gosto de sentir a caneta no papel, aquele barulhinho dela arranhando a folha. Uso photoshop no processo, mas é mais para mexer nos níveis, deixando mais escuro, ou quando preciso colorir. Algumas vezes preciso fazer uma ou outra intervenção, mas é bem pouco. Geralmente colocar uma fonte, não sei. É raro. 

Uso canetas recarregáveis desegraph, papel canson e uma prancheta que vai fazer uns 10 anos de idade, por isso posso carregar meu material numa mochila para tudo que é lugar, é bem prático. 

Você está trabalhando em algum número novo da Weird Comix?

No meio do ano, após lançar a Weird Comix #9, eu estava. Comecei desenhando a nova série Unsung Rockabilly Heroes, que seria tipo uma segunda parte de A Brief Story About 1950s Teenagers and Rock ‘n’ Roll Music, que saiu na Weird Comix 2. Desenhei também umas ilustrações, mas aí meu prazo com os trabalhos que preciso terminar começaram a apertar e passei a me dedicar 100% à eles. Pretendo voltar à Weird Comix 10 em outubro e, se tudo der certo, terminá-la e lançá-la até dezembro. Caso não dê tempo, fica pra janeiro.

“Tem sangue, gente morrendo, suspense, depravação, assassinato… Só não tem monstros e não se passa nos anos 50”

Página de O Deplorável Caso do Dr. Milton, trabalho de Fabio Vermelho que será publicado pelo selo Escória Comix

Como está o andamento de O Deplorável Caso do Dr. Milton? O que você pode contar sobre esse trabalho?

Começou mais devagar, lá pelo final de janeiro até final de abril eu tava desenhando meia página por dia… Do final de abril ao final de julho já tava fazendo uma página por dia. Agora que estou na reta final e o desespero bate na porta, nem sei mais quantas páginas tô fazendo por semana, só tô desenhando o dia inteiro. 

A história de O Deplorável Caso do Dr. Milton é relativamente diferente das que serializo nas Weird Comix, mas tem todos os elementos que sempre tem nos meus quadrinhos. Tem sangue, gente morrendo, suspense, depravação, assassinato… Só não tem monstros e não se passa nos anos 50. São temas que passam bastante pela minha cabeça, acho difícil eu bolar um enredo que não tenha nada disso.

Não sei se consigo dizer muito sobre o quadrinho sem contar nenhuma supresa… Porque tem muita coisa nele que eu acho que o leitor não deveria saber antes de ler. Então eu espero que ninguém dê uma longa folheada por toooodo o quadrinho antes de começar, porque vai saber de antemão ou ver cenas que só deveria ler na hora. Digo isso porque eu sou esse tipo de leitor que pega o livro, abre na última página e sai folheando de trás pra frente, vendo tudo hahahahaha. Mas espero que não façam isso.

Quanto ao Milton, ele é um personagem esquisito, não tenho certeza do que as pessoas vão achar dele… o quadrinho é basicamente sobre ele, que é um cientista numa cidade pacata, e como as suas decisões afetaram a vida dele próprio e de muitos à sua volta, de maneira irremediável. Por causa de coisas que ele vai fazendo para consertar o problema, sua vida vai virando uma merda maior, cada vez mais. Eu queria que as pessoas se engajassem na história, que se colocassem no lugar dos personagens. E queria que lessem o gibi de uma vez só, outra coisa que não faço hahaha. Acho que fica melhor se a pessoa ler direto… Apesar de ter mais de 100 páginas, não acredito que seja uma leitura massante. Dei para uma amiga ler e pareceu que o texto flui bem. 

Quero que as pessoas sintam algo lendo, seja vergonha, diversão, nojo, raiva ou pena. Ou que pelo menos pensem que foi uma doidera ler esse gibi, hahaha. Espero que curtam!

Teaser de O Deplorável Caso do Dr. Milton, trabalho de Fabio Vermelho que será publicado pelo selo Escória Comix
Entrevistas / HQ

Papo com Jillian Tamaki, coautora de Aquele Verão: “A história de amadurecimento é perene em todo tipo de escrita”

Aquele Verão é dos quadrinhos mais premiados e aclamados dos últimos anos e deverá constar em várias listas de melhores HQs publicadas em português em 2019 quando o ano chegar ao fim. Parceria das primas Jillian e Mariko Tamaki, o álbum levou os prêmios Eisner e Ignatz de melhor graphic novel de 2014 e tornou suas autoras duas das artistas mais celebradas e concorridas da indústria norte-americana de HQs.

Eu já havia entrevistado Mariko Tamaki aqui pro blog em 2015, logo após Aquele Verão ser premiado com o Eisner. Agora, aproveitei a chegada da edição nacional da Mino às livrarias nacionais, em tradução de Dandara Palankof, para entrevistar Jillian Tamaki e perguntar um pouco mais sobre a origem, o desenvolvimento e a repercussão da HQ. Transformei esse papo em matéria para o jornal O Globo, disponível para leitura clicando aqui.

Reproduzo a seguir a íntegra da minha entrevista com Jillian, em tradução do tradutor/ pesquisador/ editor/ crítico Érico Assis (valeu, Érico!). Saca só:

“Não teve nenhum acesso de inspiração, a gente só tava se divertindo fazendo gibi e a receptividade foi boa”

Quadros de Aquele Verão, HQ de Jillian e Mariko Tamaki publicada no Brasil pela editora Mino

Você poderia contar um pouco sobre o início dos seus trabalhos com a sua prima em Aquele Verão? Como esse projeto teve início?

Nós já tínhamos trabalhado em outra graphic novel, chamada Skim, que saiu de um jeito um pouquinho mais orgânico. Skim era uma história de 24 páginas, a primeira HQ que a Mariko tinha escrito e a primeira HQ narrativa comprida e “básica” que eu já tinha feito. Não sei como aconteceu, mas alguém deu a ideia de ampliar e transformar em graphic novel. A graphic teve uma recepção muito boa, então a gente pensou, tipo, “vamos tentar mais uma”. Montamos uma proposta e acabamos vendendo. Desculpe, a história não tem nada de romântico! Não teve nenhum acesso de inspiração, a gente só tava se divertindo fazendo gibi e a receptividade foi boa.

Eu também gostaria de saber mais sobre a dinâmica do seu trabalho com a Mariko. Como era a interação entre vocês? Vocês trabalharam juntas em todas as etapas da produção da HQ?

Geralmente deixo que ela crie o argumento e escreva. Gosto do desafio de interpretar o roteiro e ela não precisa da minha ajuda na concepção. Na fase de esboço, eu tiro umas coisas, acrescento outras e tento moldar de um jeito que fique fiel à intenção dela, mas que também seja significativo pra mim. Editamos juntas num processo bem rigoroso. É óbvio que precisa de muita confiança dos dois lados.

“Acho que hoje em dia nos interessamos muito por histórias pessoais e por ‘identidade’, principalmente quando vêm de grupos marginalizados”

Quadros de Aquele Verão, HQ de Jillian e Mariko Tamaki publicada no Brasil pela editora Mino

Sobre a sua arte: quais técnicas você utiliza? Você tem alguma preferência por tinta ou digital?

Em Aquele Verão foi nanquim tradicional. Óbvio que é escaneado e montado no computador. Eu faço os esboços no digital, geralmente para facilitar, depois eu faço lápis, nanquim e separo numa mesa de luz. Outros álbuns, tipo SuperMutant Magic Academy e Boundless, foram 100% digital. Gosto de algumas coisas de cada método. Eu odeio escanear, odeio muito, então tem essa vantagem quando faço tudo digital.

Aquele Verão não é um trabalho autobiográfico, mas é inspirado em algumas memórias de infância da sua prima. Hoje em dia há muitos quadrinhos autobiográficos e HQs com histórias de amadurecimento. Você vê alguma razão em particular para isso?

Bom, eu nunca escrevi memórias, então talvez não seja a melhor pessoa para se perguntar. Acredito que nenhum livro surge do zero. Ele sempre vai ser moldado pela experiência de vida da pessoa. Quanto à popularidade desse tipo de trabalho… A primeira pessoa, o “eu”, é muito envolvente e direta. Acho que hoje em dia nos interessamos muito por histórias pessoais e por “identidade”, principalmente quando vêm de grupos marginalizados. É uma coisa boa. A história de amadurecimento é perene em todo tipo de escrita. Aliás, acho que nos próximos anos vamos ver cada vez menos histórias assim nos quadrinhos. As editoras estão apostando sério na graphic novel e, embora a predominância seja do young adult, nem tudo vai ser explicitamente história de formação. Se é que isso faz sentido. Pode ser que elas pilotem uma nave, que tenha aventuras no espaço etc.

“Eu entendo que minha função é botar as personagens a ‘atuar’ da melhor maneira possível”

Quadros de Aquele Verão, HQ de Jillian e Mariko Tamaki publicada no Brasil pela editora Mino

Você tem em mente alguma obra em particular que tenha influenciado seu trabalho em Aquele Verão?

Quando eu penso nas coisas que foram influência na HQ, eu penso em filmes. Especificamente Conta Comigo. Ou naqueles filmes de terror que a Windy e a Rose assistem no laptop: A Hora do Pesadelo, Sexta-Feira 13 e outros do tipo.

Uma das coisas que mais gosto em Aquele Verão está no realismo das posturas e do diálogos das personagens. Todo mundo foi criança uma vez na vida, mas nem todo mundo consegue lembrar da forma como agia, pensava e falava quando era criança. Você ainda tem muitas memórias de infância frescas na sua cabeça? Se sim, como elas influenciaram o seu trabalho em Aquele Verão?

Acho que há pouco tempo eu cruzei aquele limiar em que as memórias de infância perdem a importância que tinham. Eu tenho uma memória sensorial bem forte, então é fácil pra mim aproveitar muito dessa memória. Mas meus trabalhos mais recentes tratam de uma transição mais explícita pra maturidade – o fim da adolescência, a fase dos vinte anos, até do trinta. Quanto a ter autenticidade na voz, isso é especialidade da Mariko. Eu entendo que minha função é botar as personagens a “atuar” da melhor maneira possível.

“A influência vem de mangás antigos, que às vezes se imprimiam em tinta azul escura ou roxa”

Quadros de Aquele Verão, HQ de Jillian e Mariko Tamaki publicada no Brasil pela editora Mino

Eu também gosto muito dos tons azuis do livro. Você pode me contar um pouco sobre a sua escolha por essa paleta? Por que ela?

Eu escolhi em um catálogo Pantone na sede da First Second. A influência vem de mangás antigos, que às vezes se imprimiam em tinta azul escura ou roxa. Tem um pouco de mangá em Aquele Verão, mas, pra ser sincera, foi uma escolha barata, de estilo. Tem um pouquinho de melancolia nessa cor. E me pareceu que ia ser uma coisa singular da HQ – pelo menos na época.

O livro foi um grande sucesso de crítica. Há alguma leitura ou interpretação em particular da obra que tenha chamado sua atenção?

Eu me interessei muito em ouvir interpretações de leitores de várias idades. O público se identifica com personagens que tenham idade parecida. Acho que só adultos conseguem entender todo o escopo da HQ. Putz, hoje eu entendo muito mais sobre coisas tipo aborto do que quando eu trabalhei na HQ.

“Vejo que tem gente reagindo, que é corajosa, que sabe unir as lutas e que consegue vislumbrar outros modos de existir”

Quadros de Aquele Verão, HQ de Jillian e Mariko Tamaki publicada no Brasil pela editora Mino

Eu fico curioso para saber sobre a sua leitura do mundo hoje. Vivemos em uma realidade no qual Donald Trump é presidente dos Estados Unidos e o presidente do Brasil é Jair Bolsonaro – uma versão provavelmente mais estúpida, xenófoba, reacionária e pior do que Trump em todos os sentidos. O que você acha que está acontecendo com o mundo? Você é otimista em relação ao nosso futuro?

Crueldade, cobiça e sofrimento sem limites. Dito isso, eu vejo que tem gente reagindo, que é corajosa, que sabe unir as lutas e que consegue vislumbrar outros modos de existir. Me parece uma coisa que não tem antecedentes desde que eu existo, mas admito que às vezes parece que não basta.

“O futuro” significa um monte de coisas. Não existe um ponto final em que toda a injustiça vai ser erradicada pra todo sempre. Acho que é um envolvimento para toda a vida, intenso, que leva em conta as pessoas que não são só você e a sua vida. E sempre foi assim.

O que você pensa ao ver o seu trabalho sendo publicado em um país como o Brasil? Você fica curiosa em relação à forma como seu quadrinho será lido e interpretado em uma realidade tão diferente daquela em que você vive?

Sempre fico surpresa quando traduzem meus quadrinhos. O jeito como eu escrevo é descaradamente da perspectiva de uma mulher canadense suburbana e ex-alternativinha. As ambientações costumam ser bem específicas. Ainda assim uma pessoa de outra cultura consegue se ver na história e nos personagens. Uma pessoa do Brasil, da Polônia, da Coreia, consegue se ver nesse verão estranho como se fosse essas duas meninas? Gibi é uma coisa sensacional. Haha.

Quadros de Aquele Verão, HQ de Jillian e Mariko Tamaki publicada no Brasil pela editora Mino

Você pode recomendar algo que esteja lendo/assistindo/ouvindo no momento?

Pen15. Quero que elas façam seriado ou filme de SuperMutant Magic Academy. Ia ser perfeito.

Você está trabalhando em algum projeto novo atualmente?

Tenho um livro infantil que sai no segundo semestre.

Quadros de Aquele Verão, HQ de Jillian e Mariko Tamaki publicada no Brasil pela editora Mino

Você pode me falar como é seu ambiente de trabalho?

Trabalho no meu apartamento. Tenho uma sala separada, o que é essencial. Não é um estúdio legal de se ver, pra ser sincera. Tem só as coisas do computador, uma mesa com mesa de luz e outra mesa com um scanner. E a caixinha da minha gata.

A última. Qual a memória mais antiga da presença de quadrinhos na sua vida?

Minha irmã organizava a coleção dela de Archie pela cor da lombada. Muitos anos antes de isso virar moda. E as coletâneas de Herbie que meus pais tinham e que eu não entendia nada… Ainda não entendo, pra ser sincera…

A capa de Aquele Verão, HQ de Jillian e Mariko Tamaki publicada no Brasil pela editora Mino

Entrevistas / HQ

Papo com Chabouté, autor de Solitário, Um Pedaço de Madeira e Aço e Moby Dick: “Meu trabalho é solitário e me alimento de imaginação ao longo de cada dia”

Das 380 páginas em preto e branco do álbum Solitário, apenas 80 apresentam alguma representação textual, seja em forma de balões de fala ou de leituras feitas por seus protagonistas. Segundo o autor da obra, o quadrinista francês Chabouté, sua intenção ao minimizar ao máximo a presença de texto tem como objetivo permitir que o leitor se aproprie da história. 

“A imagem fala por si só e possibilita que o leitor imagine o que vê”, diz o artista em conversa com o blog. “Eu deixo muitas portas abertas para que o leitor faça seus próprios diálogos, sua própria história, seu próprio passado e próprio futuro dos personagens. Não imponho nada; proponho”, afirma.

Solitário é o terceiro álbum de Chabouté publicado no Brasil e, assim como os dois anteriores, Moby Dick e Um Pedaço de Madeira e Aço, ganha edição em português pela editora Pipoca & Nanquim com tradução de Pedro Bouça. O livro é protagonizado por um eremita já com seus 50 anos que nasceu e cresceu no farol instalado em uma ilhota afastado do mundo.

O foco do quadrinho está nas breves interações desse protagonista solitário com o mundo além de sua ilha e em sua imaginação abastecida pela leitura de um dicionário.

Na minha conversa com Chabouté, o autor falou sobre o ponto de partida de Solitário, comentou sobre suas técnicas e sua rotina de trabalho, expôs algumas de suas influências e ressaltou a importância do silêncio em seus trabalhos. Papo massa traduzido pelo tradutor/ pesquisador/ editor/ crítico Érico Assis (valeu, Érico!). Saca só:

“Não sou uma pessoa solitária nem me sinto solitário, mas trabalho sozinho e me isolo bastante por conta das folhas em branco”

Um quadro de Solitário, álbum do quadrinista francês Chabouté publicado no Brasil pela editora Pipoca & Nanquim

Eu vejo vários padrões nos seus três livros publicados no Brasil até o momento, mas pouca coisa se faz mais presente para mim em Moby Dick, Um pedaço de Madeira e Aço e Solitário como a melancolia. Enquanto lia as três obras eu senti o tempo todo essa mescla de sensação de não pertencimento com deslocamento e introspecção. Você costuma pensar muito sobre solidão e melancolia? Você se considera solitário e melancólico?

Não sou uma pessoa solitária nem me sinto solitário, mas trabalho sozinho e me isolo bastante por conta das folhas em branco. Quanto à melancolia, não sei dizer. Mas, sim, não sou muito de conversa e sou ainda menos nos meus livros.

Solitário é seu trabalho mais recente publicado no Brasil. Você pode me falar um pouco sobre o ponto de partida dessa obra? Como ela teve início?

Dez anos atrás me perguntaram: que livro você levaria para uma ilha deserta? A pessoa que fez a pergunta, um professor, disse que levaria só um dicionário, porque com um pouquinho de imaginação cada verbete daria um conto…

Achei a resposta incrível, e a ideia foi se desenvolvendo até eu chegar em um livro de 376 páginas. Um autor como eu, que desenha solitário, que escreve solitário e que passa o dia trabalhando solitário… eu fico sozinho diante de folhas em branco e com folhas em branco. Meu trabalho é solitário e me alimento de imaginação ao longo de cada dia.

“Eu me via muito, por exemplo, no personagem de Ahab, com essa vontade de ir até o fundo em tudo, mas parando quando estou perto da loucura”

Um quadro de Solitário, álbum do quadrinista francês Chabouté publicado no Brasil pela editora Pipoca & Nanquim

Aliás, você pode me falar se há algum ponto de partida em comum para o início do desenvolvimento dos seus trabalhos?

Uma ideia simples, que toma forma ou não… Uma sementinha que eu deixo germinar, os ingredientes que me agradam e que encontram seu lugar na história. Como a gente faz na cozinha quando quer preparar um bom prato.

Os seus trabalhos tratam de sensações e ideias que vão ao encontro do que é ser humano. Penso na obsessão retratada em Moby Dick, no encontro de várias emoções e sentimentos em Um Pedaço de Madeira e Aço e nas reflexões que você propõe sobre a imaginação em Solitário. Esses temas são caros a você? Você costuma pensar no que faz de nós humanos?

Só tento trabalhar com sinceridade, falar do que me toca, do que há ao meu redor, do que eu sei… O que me emociona é o que eu tento transmitir no texto e nas imagens.

Eu me via muito, por exemplo, no personagem de Ahab, com essa vontade de ir até o fundo em tudo (que é uma coisa que se precisa na minha área, pois ela é bem difícil), mas parando quando estou perto da loucura.

“Eu deixo muitas portas abertas para que o leitor faça seus próprios diálogos, sua própria história, seu próprio passado e próprio futuro dos personagens”

Um quadro de Solitário, álbum do quadrinista francês Chabouté publicado no Brasil pela editora Pipoca & Nanquim

Aliás, a imaginação é um aspecto muito importante de Solitário. Qual você considera a importância do estímulo à imaginação na vida de uma pessoa?

Permitir-se os silêncios, deixar espaço, encontrar a melodia gráfica que sirva melhor ao texto… Com os desenhos, trazer uma outra dimensão ao texto, encontrar a harmonia entre texto e imagens, um equilíbrio narrativo para que o leitor possa apropriar-se da história, que seja um escape, que lhe deixe uma porta aberta ou caminhos a cruzar…

É o ponto de vista de qualquer pessoa que faz uma história. Eu não exagero no texto para não dar muita importância aos personagens. A imagem fala por si só e possibilita que o leitor imagine o que vê. Eu deixo muitas portas abertas para que o leitor faça seus próprios diálogos, sua própria história, seu próprio passado e próprio futuro dos personagens. Trabalho sobre um eixo central onde cada leitor pode tomar um rumo e se apropriar da história. Não imponho nada; proponho. Na literatura, o leitor “imagina” a imagem. Aqui, as imagens estão dadas e o leitor imagina o texto que elas podem ter.

Se eu cumpri minha função, o leitor vai construir seus diálogos onde não há nenhum. Creio que a melhor maneira de transmitir uma emoção não é escrevendo. Não é, mas sugerindo. Cada leitor tem que captar a emoção a seu modo, de um jeito que torne ela sua e dê suas próprias tonalidades à história.

“O que mais me inspira e influencia meu trabalho é o que se passa ao meu redor, meu cotidiano”

Um quadro de Solitário, álbum do quadrinista francês Chabouté publicado no Brasil pela editora Pipoca & Nanquim

Outro padrão nos seus trabalhos é o preto e branco. Por que a opção pelo preto e branco? Há algum artista que tenha influenciado essa sua opção?

Nenhum artista por si só me influenciou nessa opção, mas a lista de artistas que influencia meu trabalho é comprida… Didier Comès, Hugo Pratt, Alberto Breccia, Dino Battaglia etc…

Mas o que mais me inspira e influencia meu trabalho é o que se passa ao meu redor, meu cotidiano.

Eu associo minhas cores, ou a falta de cores, à história que quero escrever. Em todos meus livros fiquei no preto e branco porque a cor não traria nada. Foi só em Purgatoire que vi necessidade de cores.

“Tenho várias pistas e rotas, espero que as ideias amadureçam e dou tempo para amadurecem, depois volto para ver o que consigo fazer”

Quadros de Moby Dick, álbum do quadrinista francês Chabouté publicado no Brasil pela editora Pipoca & Nanquim

Você poderia me falar um pouco sobre a sua dinâmica de trabalho? Você costuma finalizar um roteiro antes de começar a desenhar?

O que me atrai de início é uma atmosfera ou um clima. Fico pensando, deixo aquilo rodar na minha cabeça, mas não crio nenhum entrave, deixo que venha. Chega um momento em que se acumulam as vontades e as ideias, que as coisas ficam um pouco mais precisas. Tenho caderninhos que levo por tudo, onde anoto ideias soltas e em algum momento as coisas tomam forma, se assentam. Tenho várias pistas e rotas, espero que as ideias amadureçam e dou tempo para amadurecem, depois volto para ver o que consigo fazer.

Você pode falar um pouco sobre as suas técnicas, por favor? Você faz tudo a mão, com tinta? Há algum elemento digital?

Costumo fazer o lápis inteiro do livro, montar as páginas e aí deixo quinze dias parado antes de passar ao nanquim. Estes quinze dias me dão um pouco de perspectiva em relação à história e talvez me façam refazer ou corrigir algumas coisas. Quase nunca me jogo numa história se não estiver bem fundamentada. Utilizo muito documentos, fotos. A internet é uma mina de informações. Não utilizo o computador na criação. Muito pelo contrário, trabalho de maneira bem tradicional: nanquim, caneta, pincel e papel.

Um quadro de Moby Dick, álbum do quadrinista francês Chabouté publicado no Brasil pela editora Pipoca & Nanquim

Tenho curiosidade em relação à sua visão do mundo no momento. Vivemos numa realidade na qual Donald Trump é o presidente dos EUA, Jair Bolsonaro é o presidente do Brasil e a França vê o fortalecimento da extrema-direita. O que você acha que está acontecendo com o mundo? Você é otimista em relação ao nosso futuro?

Absolutamente sem otimismo! Mas uma música, uma melodia ou uma boa história nos entusiasma. Isto é comprovado e nos dá alguma esperança…

O que você pensa quando um trabalho seu é publicado em um país como o Brasil? Somos todos ocidentais, mas são culturas muito diferentes. Você tem alguma curiosidade em relação à forma como um trabalho é lido e interpretado por pessoas de um ambiente tão diferente dos seu?

Hoje a internet deixa que vejamos o trajeto que um livro faz até o outro lado do planeta e eu confiro as percepções, as imagens e as avaliações dos leitores de Um pedaço de madeira e aço ou de Solitário que chegam do Brasil ou de outros países. E gosto muito.

Um quadro de Um Pedaço de Madeira e Aço, álbum do quadrinista francês Chabouté publicado no Brasil pela editora Pipoca & Nanquim

Você pode recomendar algo que esteja lendo/assistindo/ouvindo no momento?

Leio poucos quadrinhos, ainda menos livros. Li recentemente um livrinho chamado Yellow Cab, do senhor Benoit Cohen…

Ouço bastante música, jazz e blues (acústico). Do jazz, um disco sensacional: Jasmine, de Keith Jarrett e Charlie Haden… Do blues, todos os álbuns de Kelly Joe Phelps

Você está trabalhando em algum projeto novo atualmente?

Sim, estou trabalhado em um projeto novo e escrevo várias histórias ao mesmo tempo. Mas não falo dos meus projetos, pois sou da opinião de que dissipa a energia que posso investir em um livro futuro.

“Faço quadrinhos porque quero contar histórias e transmitir emoção…”

Um quadro de Um Pedaço de Madeira e Aço, álbum do quadrinista francês Chabouté publicado no Brasil pela editora Pipoca & Nanquim

Você pode me falar como é seu ambiente de trabalho?

Trabalho em casa, preciso de calma e tranquilidade para trabalhar. Trabalho bastante ouvido música… Mas preciso da solidão para entrar no jogo.

O que mais te interessa na linguagem dos quadrinhos?

Os quadrinhos são uma ‘ferramenta’ formidável para contar histórias, de poder desenhar o que não se quer escrever e poder escrever o que não se deseja desenhar, tudo com o simples fim de servir à melhor história.

Brincar com o leitor, propor o caminho narrativo, convidá-lo, acompanhá-lo, mas sempre de um jeito que ele possa entender…

Faço quadrinhos porque quero contar histórias e transmitir emoção…

Qual a memória mais antiga da presença de quadrinhos na sua vida?

Eu fui (e sou) grande leitor de Asterix e Lucky Luke, antes de me jogar nos quadrinhos dos anos 70 e mais tarde passar a revistas como Métal Hurlant ou À Suivre, na França.

A capa de Solitário, álbum do quadrinista francês Chabouté publicado no Brasil pela editora Pipoca & Nanquim
Entrevistas / HQ

Paula Puiupo expõe originais na mostra Casca de Ferida, em São Paulo

A quadrinista Paula Puiupo selecionou 36 obras originais para expor na mostra solo Casca de Ferida. A exposição fica em cartaz na 9ª Arte Galeria (R. Augusta 1371, loja 113), em São Paulo, entre os dias 27 e 31 de agosto. Você confere outras informações sobre a abertura da mostra na página do evento no Facebook, clicando aqui.

Entre ilustrações, páginas da HQ Gume e pinturas, as obras escolhidas por Puiupo para a exposição foram todas produzidas entre 2018 e 2019, sendo a maior parte delas produzida com o uso de carvão e tendo como principal foco temas relacionados a memória e infância.

“Sempre que preciso fazer um apanhado de trabalhos antigos paro um tempo pra pensar sobre o que mudou de lá pra cá”, conta a autora ao blog sobre o balanço feito por ela enquanto elaborava a curadoria dos trabalhos que serão expostos. No papo a seguir, Puiupo fala sobre os bastidores de Casca de Ferida. Papo bão, saca só:

“Mesmo uma pintura sozinha tem narrativa, pode não ser sequencial, mas tem coisas pra contar, tem um processo gradual ali”

Um dos trabalhos de Paula Puiupo que estará em exposição na 9ª Arte Galeria

Você pode falar um pouco sobre a curadoria dessa exposição na 9ª Arte Galeria? Ela é feita a partir de algum recorte específico dos seus trabalhos?

Visto que boa parte do meu trabalho é digital, já tive a limitação de selecionar trabalhos dentro da minha produção em mídia tradicional. Por terem esse ponto comum, as obras acabam conversando entre si na plasticidade. Também são todos dos anos de 2018 / 19, que foi quando comecei a experimentar mais com carvão, temas rondando memória e infância… Constantes.

Um dos trabalhos de Paula Puiupo que estará em exposição na 9ª Arte Galeria

No catálogo da exposição consta que as obras que estarão expostas são produzidas a partir de três materiais: grafite, giz pastel oleoso e lápis de cor. O que mais te interessa em cada um desses materiais? Você tem alguma técnica e material de trabalho preferidos?

No carvão e no lápis de cor me atrai a precisão que o suporte de madeira em torno do pigmento me dá, os acidentes são mais controlados e posso ser mais minuciosa do que se usasse um pincel ou algo assim. Já no pastel oleoso, os acidentes são mais audazes, o material tem uma tridimensionalidade maior, trabalhar cor com eles é um processo mais dinâmico. Adoro o aveludado que ele deixa no papel, e poder usar os dedos para espalhar a tinta me faz sentir realmente em contato com o material. São processos bem diferentes e cada um requer um tipo de paciência diferente, gosto de exercitar essas paciências.

Essa exposição reúne ilustrações, pinturas e páginas de quadrinhos. Existe alguma distinção na sua cabeça em relação a como encarar cada um desses trabalhos? É muito diferente para você o ato de pensar e trabalhar em uma tela do processo de produzir uma HQ ou fazer uma ilustração?

É engraçado, não vejo como coisas tão diferentes. Talvez pelo meu trabalho de quadrinhos não ter os pés fincados no linear. Mesmo uma pintura sozinha tem narrativa, pode não ser sequencial, mas tem coisas pra contar, tem um processo gradual ali. O processo de fazer a série de pinturas expostas foi muito semelhante com o pensar em forma de quadrinhos, e vice-versa.

“Acho que no momento estou num processo contínuo de sintetizar o meu traço máximo possível”

Uma página da HQ Gume, de Paula Puiupo, que estará em exposição na 9ª Arte Galeria

Eu imagino que uma exposição como essa acaba também sendo uma oportunidade para você refletir e pensar sobre a sua produção. Isso aconteceu com você? Você nota muitas mudanças e transformações na forma como você pensa e faz quadrinhos ao longo dos anos?

Nossa sim, sempre que preciso fazer um apanhado de trabalhos antigos paro um tempo pra pensar sobre o que mudou de lá pra cá… Acho que no momento estou num processo contínuo de sintetizar o meu traço máximo possível. E também num processo de me distanciar do que por muito tempo eu tive como uma forma “correta” de fazer quadrinhos. Quero cada vez mais me desprender do tradicional e só me divertir desenhando.

O que mais te interessa em termos de quadrinhos hoje, Paula? O que você mais tem interesse em ler e tentar fazer e experimentar com a linguagem das HQs?

Hoje vejo quadrinhos como uma arte que pode se apropriar de linguagens qualquer estímulo visual. Por mais que não transpareça tanto, o que mais me interessa em quadrinhos são os diálogos e a relação entre personagens, coisas que não exploro tanto no meu próprio trabalho, mas ultimamente tenho assistido filmes e prestado muita atenção na naturalidade da fala, pra mim um quadrinho que captura essa naturalidade é um quadrinho bem feito. Se ele tem algo sincero e maduro pra dizer, o resto é o de menos.

Um dos trabalhos de Paula Puiupo que estará em exposição na 9ª Arte Galeria

Pra encerrar, no que você está trabalhando agora? Você já tem alguma próxima publicação em vista? Se sim, o que pode falar sobre ela?

Tô trabalhando em algumas coisas… Os quadrinhos como sempre andam em passos calmos, tenho uma pequena série que faço todo mês para o Patreon e pretendo publicar um compilado deles este ano ainda, quem sabe em outubro… Também tenho trabalhado bastante com ilustração e narrativas menos sequenciais, quem sabe um quadrinho mais experimental não sai daí.

Uma página da HQ Gume, de Paula Puiupo, que estará em exposição na 9ª Arte Galeria