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Entrevistas / HQ

Papo com Seth, o autor de A Vida é Boa, Se Você Não Fraquejar: “Não tenho interesse em tramas. Eu olho para tudo o que faço como um meio de expressar ideias e sentimentos”

Já comentei por aqui como considero A Vida é Boa, Se Você Não Fraquejar (Mino) um dos melhores títulos publicados no Brasil em 2018. O quadrinista canadense Seth é um dos meus autores preferidos e eu achava uma pena que somente um outro título dele havia saído por aqui até então – o excelente Wimbledon Green, pela Bolha. Entrei em contato com o artista para falar sobre o lançamento de A Vida é Boa em português e tratar de alguns temas recorrentes em outros de seus trabalhos. Esse papo virou matéria na Folha de São Paulo e você lê esse conteúdo por aqui. A seguir, reproduzo a íntegra da minha entrevista com o quadrinista:

Você se lembra do momento em que teve a ideia de criar A Vida É Boa, Se Você Não Fraquejar?

Na verdade eu não me lembro quando as primeiras ideias para o livro vieram à minha mente. Foi há muito tempo (em meados dos anos 90) e eu sinto como se fosse uma outra pessoa que fez esse livro. Eu me lembro de que era mais um processo mental pelo qual eu passava do que uma ideia repentina para uma história. Eu já estava fazendo alguns quadrinhos autobiográficos na época e não estava muito feliz com eles. Eles eram, de alguma forma, não-sequenciais. Mais piadas do que histórias. Foi nessa época que concluí que eu precisava contar histórias que eram menos sobre ‘coisas que aconteceram’ e mais sobre os aspectos mais sutis da vida. Memórias, pensamentos, sentimentos. Coisas intangíveis.

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“Da forma como eu vejo, eu não estou escrevendo um filme blockbuster, então não preciso me preocupar em fazer o meu trabalho comercialmente aceitável”

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Você poderia, por favor, falar um pouco mais sobre o processo de criação desse livro? Aliás, você poderia contar um pouco dos seus métodos de produção? Você tem um processo particular que funciona para todos os livros ou varia?

Eu levo muito tempo para finalizar um livro. Eu passei 20 anos fazendo a graphic novel Clyde Fans! A Vida É Boa levou apenas três ou quatro anos, acho. Seja como for, você passa muito tempo pensando sobre o próximo livro enquanto finaliza aquele em que está trabalhando. Quando digo ‘pensando’ me refiro principalmente a deixar as ideias virem de forma lenta e se combinarem com outros conceitos presentes no seu cérebro. Eu escrevo muitas notas. Uma narrativa vai se desenvolvendo pedacinho por pedacinho. Eu nunca me preocupo em relação a uma trama. Não tenho interesse em tramas. Eu apenas olhos para tudo o que faço (graphic novels, pinturas, fotografias, objetos, qualquer coisa) como um meio de expressar ideias e sentimentos. Eu não me preocupo muito se estou me conectando com um público. Da forma como eu vejo, eu não estou escrevendo um filme blockbuster, então não preciso me preocupar em fazer o meu trabalho comercialmente aceitável.

Eu escrevo uma espécie de roteiro, mas muito do planejamento pra valer de uma história é feito página a página. Eu planejava mais as coisas no início da minha carreira. Hoje em dia eu confio bastante na espontaneidade. Eu acho que ela mantém o trabalho fresco.

Eu sempre penso nos vários níveis de exposição em quadrinhos autobiográficos. O Chester Brown, por exemplo, é um caso extremo, ele é muito explícito em relação às experiência de vida dele. O Adrian Tomine e a Alison Bechdel tem propostas diferentes em relação à forma como retratam suas vidas pessoas. A Vida É Boa, Se Você Não Fraquejar é sobre uma jornada sua, mas não completamente factual. O quanto de você está realmente exposto no livro?

A maior parte dos elementos no livro sobre mim são verdade. Vários dos detalhes da história são inventados, mas os trechos pessoais, pelo menos a maior parte, são precisos. Eu me utilizei como personagem principal por saber que o leitor se relacionaria mais com a história se a aceitasse como uma verdade. Não é um truque ou uma farsa. Apenas um mecanismo para que o leitor se importe mais com o Kalo.

No momento eu estou trabalhando em uma espécie de memória em quadrinhos com o título Nothing Lasts [Nada é eterno, em tradução livre]. Ela é cheia de detalhes reveladores da minha vida… mas é apenas tão reveladora quanto eu quero que seja. Eu jamais vou me expor como o Chester Brown ou o Joe Matt. Eu sou uma pessoa muito mais discreta. Nós três valorizamos bastante a ideia de honestidade em quadrinhos autobiográficos… Mas obviamente, de nós três, eu sou aquele com a menor disposição de ‘contar tudo’. De vez em quando eu acredito que o trabalho de ficção que eu fiz é mais revelador que as coisas autobiográficas.

Esse não é o seu primeiro trabalho sobre um personagem colecionador ou obcecado com algua coisas. Colecionismo e obsessões são características muito relacionadas a leitores de quadrinhos. Você se considera um colecionador? Se sim, o que você coleciona? Você se considera obcecado por alguma coisa?

Eu com certeza sou um colecionador! Eu sempre fui um colecionador e sempre serei um colecionador. Eu gosto de colecionar. Há algo muito prazeroso para mim em encontrar coisas e colocá-las juntas. É um processo que, por si só, já prezo muito. É claro, eu gosto de possuir coisas, mas de vez em quando eu também acho que colecionar é mais interessante do que a própria coleção. Eu sou o que pode ser chamado de ‘colecionador em série’ – o que significa que eu coleciono alguma coisa por um tempo, me canso e passo a colecionar alguma outra coisa.

Muito do que eu coleciono molda o trabalho que eu faço. Visualmente e (obviamente) no tipo de história que eu escrevo. Eu acho colecionadores interessantes – também leio muitos livros sobre esse assunto. Quando eu crio um personagem, uma das primeiras coisas que eu me pergunto é, ‘O que ele coleciona?’

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“À medida que a cultura de fãs se tornou cada vez mais a forma predominante de cultura pop, eu acho que esse aspecto inerente da nostalgia passou a ser espertamente vendido para as pessoas”

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Eu vejo uma relação entre colecionismo e consumismo. Eu não sei se você concorda, mas nos dias de hoje, mais do que nunca, vejo a produção de obras de cultura pop e de arte cada vez mais ditadas por esse mesmo consumismo. O que você pensa dessa relação e dos rumos que ela tem dado às nossas culturas e formas de arte?

Sim, eu também vejo isso. É interessante por eu não acreditar que essa conexão era tão intensa há algumas décadas. Tem muito a ver com a cultura de fãs, eu acho. Nos anos 60 e 70 a cultura de fãs ainda não era mainstream e durante seu desenvolvimento era inicialmente uma cultura de nostalgia. Adultos dando continuidade a seus interesses de infância e tentando colecionar livros, quadrinhos e qualquer coisa que os mantivessem conectados aos seus interesses de infância. À medida que a cultura de fãs se tornou cada vez mais a forma predominante de cultura pop, eu acho que esse aspecto inerente da nostalgia passou a ser espertamente vendido para as pessoas. Elas estão dispostas a comprar ‘conforto’. A maioria das coleções de hoje não tem nada a ver com a busca por objetos de apelo estético difíceis de encontrar ou da busca e da pesquisa por informações culturais obscuras. A maioria das coleções de hoje (na cultura mainstream) é simplesmente a compra de um monte de itens de cultura pop de marca, da mesma forma que as pessoas comem um monte de porcaria.

E eu também vejo muita nostalgia nos seus livros. Como as suas memórias ditam o desenvolvimento dos seus trabalhos?

Todos os meus trabalhos tratam de ‘olhar para trás’. Eu tendo a resistir à palavra ‘nostalgia’ por ela ser carregada de muitos significados. Ela sempre implica em uma espécie de interpretação sentimentalista e otimista da vida. Eu sou uma pessoa sentimental… e eu sou uma pessoa nostálgica.. mas eu gosto de pensar que estou tentando apresentar um ‘olhar para trás’ mais complexo no meu trabalho. Eu quase sempre tento evitar essa perspectiva ingênua. Dito isto, eu não estou interessado na cultura atual e à medida que envelheço o meu trabalho se torna cada vez mais enraizado no passado. Não por eu acreditar que ‘eram tempos melhores’, mas pelo fato dos meus interesses serem do passado.

Eu vi uma definição sua de quadrinhos como ‘design + poesia’. Você pode falar um pouco mais sobre essa sua interpretação?

Essa é uma discussão muito longa! Recomendo esse link em que falo sobre isso com detalhes: https://bit.ly/2IQBTOQ

Vou dizer que ainda concordo com essas ideias. Mais e mais pelo fato do meu trabalho atual ainda ser regulado e ditado por ritmo. Eu uso muito mais painéis nas páginas do que estava acostumado e de vez em quando eu já não completo mais uma frase inteira em um único painel. O ritmo de como a página de um quadrinho é lida é muito importante para mim. O elemento mais importante na verdade. Todo o resto está subordinado a essa ritmo – desenhos, cores e até a estrutura das frases.

O que mais te interessa em quadrinhos hoje em dia? Há alguma coisa que você acredita que possa ser feito com essa linguagem que você ainda gostaria de ver?

O que mais me interessa – no meu próprio trabalho – é a atmosfera e a descrição. Eu quero gastar mais tempo escrevendo quadrinhos que sejam essencialmente sobre lugares. Eu gosto de descrever coisas e lugares mais do que contar histórias… E por isso acredito que os meus trabalhos que saírem em breve serão principalmente nessa direção. Eu suspeito que seja estranho um escritor não ser muito interessado em personagens, tramas ou conflitos. Esses são supostamente os elementos essenciais de uma história, mas eu acho que uma história pode ser interessante por razões menos óbvias. O meu próximo livro será praticamente composto integralmente de descrições de um lugar e de um período pelos olhos de um narrador. Eu estou muito ansioso por escrevê-lo.

O que você pensa quando um trabalho seu é publicado em um país como o Brasil? Somos todos americanos, mas são culturas muito diferentes. Você tem alguma curiosidade em relação à forma como um trabalho seu será lido e interpretado por pessoas de um ambiente tão diferente dos seu?

Essa é a uma pergunta interessante. Às vezes eu imagino se o que estou escrevendo aqui no Canadá faz sentido em outras culturas. Com certeza um país com o Brasil tem uma cultura muito diferente do Canadá… E mesmo assim, como você diz, nós somos todos americanos e temos muito em comum. Em relação a isso eu não faço ideia nem como o meu trabalho é visto por canadenses. Na maioria das vezes eu escrevo pensando em mim como a minha audiência primária. Eu sei que acho empolgante ver a obra rodar o mundo. Uma das coisas mais difíceis é que você nunca sabe se as traduções são boas ou não. E é claro, o mesmo também vale no inverso, quando você lê um livro traduzido para o inglês.

Você pode me dizer por que Seth?

Na verdade é um pouco constrangedor. É um nome que eu escolhi para mim quando estava nos meus 20 e poucos anos. Eu era um jovem punk roqueiro na época e estava procurando por pseudônimo meio assustador e gótico e Seth foi o escolhido. Hoje eu não me importo muito mais com ele, já estou usando há mais de 30 anos e parece mais com o meu nome real do que o meu nome de batismo, Gregory. Já estou acostumado. A única coisa que sou grato é por ter escolhido um nome de verdade – eu poderia ter escolhido algo muito pior, como Monster Zero ou Marylin Manson ou algo igualmente horrível.

No que você está trabalhando atualmente? Você tem algum livro novo nos seus planos?

Como falei anteriormente, eu estou trabalhando em um livro de memórias chamado Nothing Lasts que vou serializar em Palookaville e em breve começarei um livro (esse que será muito descritivo) batizado de The Royal. Estou sempre trabalho em vários trabalhos visuais também. Desenhos, dobraduras e vários objetos que estou construindo. A vida no estúdio é o que mais valorizo – conectando várias ideias e vendo onde elas podem me levar.

Você pode recomendar algo que esteja lendo/assistindo/ouvindo no momento?

Nos últimos dois anos eu tenho reescutado obsessivamente um áudiolivro da Virginia Woolf, To The Lighthouse. Um trabalho maravilhoso de narração da Juliet Stevenson! Aqui está o link pra ele: https://adbl.co/2NpDVbX

Eu tenho me dedicado muito aos livros da saudosa Anita Brookner. Ela escreveu 24 livros e eu li 20 deles nos últimos dois anos. Eles são lentos e contemplativos e muito melancólicos, de forma muito austera. Ela é a minha escritora favorita hoje… Tendo tirado a Alice Munroe do topo do ranking!

Eu também tenho assistido a muito dos episódios clássico antigos do Perry Mason com o Raymond Burr. Esse pode ter sido o programa de TV mais formulaico da história. Todo episódio é praticamente o mesmo e mesmo assim eles são muito prazerosos de assistir. Quase hipnóticos.

Entrevistas

Papo com Tom Rachman, o autor de Os Imperfeccionistas e The Italian Teacher: “Se o mundo despreza a sua arte, esse pode ser um retorno devastador em relação a quem você é”

Eu conheci o trabalho do escritor e jornalista anglo-canadense Tom Rachman em 2011, logo que Os Imperfeccionistas foi lançado no Brasil. O romance narra a rotina de um grupo de jornalistas da redação de um diário internacional com sede em Roma. Em 2014, eu tive a oportunidade de entrevistar o autor pessoalmente em Londres, logo em seguida à publicação de seu segundo livro, The Rise & Fall of Great Powers e o papo acabou impresso no jornal O Globo. Voltei a entrevistá-lo agora, em seguida ao lançamento de The Italian Teacher, seu mais recente trabalho. Essa conversa nova também virou matéria pro Segundo Caderno do Globo. Pro jornal eu escrevi um pouco mais sobre a trama do livro e alguns dos temas dos quais ele trata – e você confere esse conteúdo por aqui. A seguir, reproduzo a íntegra dessa conversa:

(Crédito da foto em destaque: Rasmus Schou)

Eu fiquei com a impressão de estar lendo um livro no qual o personagem principal não é o personagem principal, o Pinch não parece ser o protagonista nem mesmo da vida dele. Como foi criar um personagem principal que parece evitar o tempo todo qualquer tipo de protagonismo?

O que você está descrevendo é, de certa forma, o quebra-cabeça principal desse personagem. Ele não é o protagonista nem mesmo da própria vida dele, como você disse, mas ele está enfrentando as consequências disso, de ser um personagem secundário para o pai dele de forma tão devastadora – sem entregar nenhuma surpresa do livro -, até ele acabar se libertando disso e encontrando uma forma de ter uma existência própria. Mesmo assim, durante grande parte de sua juventude, ele acabou sendo oprimido por esse personagem grandioso.

Essa é uma pergunta muito interessante por ser uma questão criativa e literária, mas por também ser a questão vivida pelo personagem. Como ele pode descobrir quem realmente é? Como ele pode se afirmar? Coisas que eventualmente ele acaba conseguindo fazer.

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“O quanto estamos dispostos a aceitar de artistas e o quanto faz sentido aceitar e ceder pelo bem das artes e em nome de bens culturais?”

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Por que as pessoas amam o Bear? Por que amamos artistas com posturas e posicionamentos tão questionáveis?

Bem, essa é uma boa pergunta. Para essa pergunta pode estar a resposta para vários dos grandes artistas da nossa época e alguns do nosso passado também. Mas não apenas artistas, também para pessoas extremamente carismáticas mas hostis àqueles ao seu redor. Há várias dessas pessoas por aí. Provavelmente todo mundo conhece alguém assim ou tem uma pessoa desse tipo na própria família. Ou talvez mais de uma. Alguém que é muito atraente de algumas formas, mas também muito prejudicial de outras e é incapaz de ajustar-se àqueles ao seu redor e assim, com o tempo, acaba fazendo com que todos se adaptem a ele a um grande custo.

Mas por que apreciamos, aceitamos, admiramos e nos afeiçoamos a esse tipo de pessoa? Não deixa de ser um fardo da natureza humana. Esse tipo de pessoa é incrivelmente atraente. É a mesma pergunta feita de maneira diferente: por que as pessoas continuam em relacionamentos abusivos? É fácil para alguém de fora dizer ‘bem, essa pessoa é abusiva e horrível e seu parceiro deveria dar o fora’, mas é muito mais difícil na vida real. Por causa das conexões que são feitas, da forma como uma personalidade pode ser moldada e até mesmo destruída em função de outra pessoa e de como é possível ceder mais e mais apenas por um pouco mais de contato e conexão com alguém. Esse é um componente psicológico muito, muito perigoso disso. Há um tipo de vulnerabilidade psicológica bem estudada para seres humanos conhecida como Condicionamento Operante: se alguém é legal com você o tempo todo, então essa pessoa é menos atraente, mas se ela é legal com você apenas de vez em quando e de forma aleatória, ela pode ser extremamente viciante. Se você sente um pouco de prazer por qualquer coisa, seja uma personalidade, uma droga ou qualquer coisa, mas de forma irregular, então você vai querer mais dessa fonte desesperadamente. É a mesma razão pela qual as pessoas estão constantemente checando seus emails. Você pensa: ‘talvez agora eu vá receber um que fará o meu dia’, mas 99% deles só farão você se sentir pior. É esse mesmo aspecto sedimentado da psicologia humana que nos faz tão vulneráveis para esse tipo de pessoas.

A segunda parte dessa resposta está relacionada a personalidades artísticas. Por que a sociedade é tão suscetível a aceitar artistas que agem de forma horrenda? Isso é obviamente algo que percorre todo o livro, o quanto estamos dispostos a aceitar de pessoas consideradas especiais na criação de algo particularmente valioso como arte? É algo que a sociedade e o mundo das artes têm se perguntado bastante ao longo dos últimos seis meses, desde o crescimento do movimento #MeToo e de tantas revelações de comportamentos abismais de homens pertencentes ao mundo das artes. As pessoas estão se perguntando algo que ignoraram por séculos: o quanto estamos dispostos a aceitar de artistas e o quanto faz sentido aceitar e ceder pelo bem das artes e em nome de bens culturais? É uma pergunta ainda sem resposta, que veio à tona na época do lançamento do livro, mas que venho pensando há muitos anos.

Nós tendemos a fazer vista grossa para artistas com comportamentos questionáveis para que possamos admirar seus trabalhos?

Com certeza. Muitas das revelações expostas por movimentos como o #MeToo não são completamente novas. O caso do Roman Polanski, como você sabe, ocorreu em 1974, há 44 anos. Todo mundo sabia que esse homem foi condenado por estuprar uma menor de idade e fugir da justiça. Nesse meio tempo ele recebeu um Oscar. Eu não vou fazer um julgamento simplório de que isso é certo ou errado, acho que é uma questão muito mais complexa e difícil do que isso. O meu ponto, o que acho extraordinário, é por quanto tempo temos ignorado essas questões e por quanto tempo temos estado dispostos a sacrificar pessoas em prol da cultura.

O Roman Polanski é um caso, mas veja o Pablo Picasso, o Gauguin, o Lucien Freud – e esses são só alguns nomes das artes visuais que vêm à minha mente – e tantos outros da televisão e do cinema que acabaram de ser expostos. Durante um longo período, nós apenas não queríamos saber e estávamos dispostos a acreditar que havia algo como uma ‘personalidade artística’ que fazia deles um pouco diferentes. O que queremos de artistas é que eles sejam pouco ortodoxos e que façam algo que ninguém mais irá fazer, que eles façam coisas corajosas e inesperadas, que eles quebrem com normas sociais e sejam corajosos o suficiente para conceber algo realmente original que mudará para sempre a nossa sociedade e nos enriqueça de alguma forma. Ao mesmo tempo, essa inconvencionalidade está muito próxima de coisas que ofendem a sociedade, seja um artista dos anos 20 tendo um relacionamento homossexual ou vivendo com amantes ou outro nos anos 60 usando muita droga.

Pelo menos nos últimos 100 anos há exemplos infinitos de artistas associados à quebra de normas sociais. O que chama atenção agora é que estamos em um momento de exceção a isso que sempre predominou. A pergunta então não é porque estávamos dispostos a aceitar, mas por que nós não estamos aceitando mais? E também: até onde estamos dispostos a ir? Eu acho que muitos dos casos que vimos são tão repulsivos que queremos simplesmente esquecer das artes dessas pessoas. Mas o que é interessante é que isso não tem se aplicado a obras do nosso passado. Hoje funciona assim: se você está vivo e fez algo ruim, ninguém quer ter nenhuma ligação com você e nem quer mais saber da sua arte. Mas se você está morto e fez algo ruim, descobriram que você é um pedófilo nazista e sei lá o que mais, então eles farão vista grossa.

Há muita inconsistência interessante no momento. Imagine que alguém te desse o seguinte cenário: a arte da nossa geração deve ser decidida em parte pela moralidade do artista. A maioria das pessoas ficaria muito perturbada por essa ideia. Hoje, as pessoas vivas pegas em atitudes horrendas são alvos fáceis, pois elas não morreram como heróis que viraram santos após à morte. Essas pessoas nos fazem nos sentirmos bem moralmente por não permitirmos que elas escapem e não consigam tirar mais proveito. Mas acho que também não estamos chegando no cerne da questão: o quanto a sociedade vai aceitar em prol de sua arte? E por quê? Por que ela deve aceitar qualquer coisa? Por que essas pessoas são consideradas especiais? Elas devem ser consideradas especiais? Durante séculos nós estivemos dispostos a sacrificar pessoas pela arte, mas agora talvez não estejamos mais. É um momento interessante.

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“Se o mundo não se importa ou despreza a sua arte, esse pode ser um retorno devastador em relação a quem você é”

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Mas como conhecemos a moral de cada artista? O Banksy, por exemplo, nos conhecemos sua ideologia, mas não sabemos quem ele é. Pode ser que o nosso interesse esteja maior no artista do que na própria arte?

Sim. Mas eu acredito que o Banksy não é anônimo, apesar da identidade real dele não ser conhecida. Se ele fosse anônimo seria muito difícil vendê-lo, seria muito difícil para ele conseguir a fama que tem. Outra coisa sobre a qual falo no livro é como há muito mais na grandiosidade do artista do que na própria arte e como temos uma noção falsamente idealista de como arte funciona, imaginamos que grandes obras de arte acabam legitimando grandes artistas, mas eu acho que isso é uma imensa besteira. É tudo muito muito mais complicado e corruptível do que isso, tudo isso não passa da consequência de seres humanos falhos e frágeis tomando decisões e esses artistas não pertencem a nenhuma classe de espíritos superiores a todos nós.

No caso do Banksy, se ele fosse anônimo, ele não teria sucesso, pois é preciso personalidade para vender arte. Isso é algo que penso bastante em termos de escrita: quando eu escrevo um livro novo e saio por aí para falar sobre ele, eu fico com a impressão que todo escritor sente que tudo o que eles querem expressar de mais importante está presente no livro. Mas é óbvio que isso não é o suficiente para convencer alguém a ler o livro. Para que a pessoa leia, você precisa apresentar uma história por trás da história e isso normalmente está relacionado à sua personalidade, à sua vida, aos seus pensamentos sobre coisas. Quanto mais maluco, inesperado e pouco convencional for isso tudo, mais você vai vender. Se você for uma pessoa maluca e esquisita, vão escrever mais sobre você, em detrimento da qualidade do seu trabalho, seja você um pintor, um escultor, um ceramista, um escritor ou um músico. Se você estiver usando drogas, namorando modelos, tiver tentado cometer suicídio e feito qualquer tipo de coisa maluca, então você é um artista melhor, você satisfaz melhor a fantasia das pessoas.

Nós não sabemos o nome do Banksy, mas ele tem uma personalidade muito explícita. Nós sabemos seus posicionamentos políticos, mesmo sem conhecê-lo. Há algo muito chic e descolado nesse cara, se escondendo dessa forma. Se ele fosse realmente anônimo, então como saberíamos que ele existe? Como teríamos alguma noção mínima de quem ele é? As coisas dele são vendidas, ele está em galerias, as pessoas sabem quem ele é e sabem como fazer publicidade com ele como se ele tivesse uma identidade e uma história. Ele não é anônimo.

Quando nós conversamos em 2014 você me disse algo sobre o que considera ser a força mais poderosa da humanidade: ‘a crença irracional de que você é a pessoa mais interessante viva’ e como a ideia de meritocracia constrói essa ideia de que qualquer um pode ser famoso e caso contrário você é um perdedor. Fiquei pensando como o Pinch, o protagonista, é incapaz de conectar com pessoas e falar com um público. Nesse aspecto, vender arte, pensar arte como produto e encontrar essa conexão pode ser algo muito doloroso e frustrante, certo?

Sim, esse é definitivamente um aspecto central da história. É verdade que obras de arte, geralmente, são frutos de uma combinação que envolve a paixão pela produção daquele tipo de arte, seja ela qual for. Mas também envolve a busca por reconhecimento, seja apenas por amigos, pela sua comunidade local de artistas ou pelo mundo inteiro. As pessoas estão fazendo arte porque querem comunicar seus sentimentos interiores de alguma forma, expressar suas essências, algo que seja intrínseco a você. Isso tudo em um mundo no qual é fácil passar décadas da uma vida com a sensação de que você é apenas mais uma unidade vivendo seu dia sendo que está na natureza de cada pessoa, desde o seu nascimento, sentir-se a coisa mais importante do mundo, mesmo que todas as experiências estejam explicitando exatamente o contrário. Eu acredito que há um desespero no impulso artístico profissionalizado por produzir algo que faça com que as pessoas vejam como você é ligeiramente diferente, que você tem algo em particular que talvez permita que você dure para sempre e continue a existir.

Mas o outra lado disso é que se você fizer esse esforço e o mundo for indiferente, como ele costuma ser, então essa resposta pode ser terrivelmente devastadora. Você pode trabalhar em um banco, vendendo sorvete ou fazendo qualquer coisa pela qual se importa, mas sendo apenas o seu trabalho e não a representação de quem você é, como a arte é. Ela vai sempre expor a sua vida pessoal e estará sendo sempre julgada por um público. Se esse julgamento for positivo, é algo extraordinariamente gratificante, faz um bem imenso ao ego, e é essa a razão pela qual as pessoas fazem arte. Por outro lado, se o mundo não se importa ou despreza essa arte, esse pode ser um retorno devastador em relação a quem você é.

Eu acredito que esses altos e baixo desse tipo de trabalho explicam, em parte, o motivo de tantos artistas serem maníaco-depressivos. Eles ficam entre esses extremos, entre aprovação e indiferença social, sendo sempre jogados de um lado para o outro. E talvez, como no caso do Pinch, nunca sendo descoberto e sendo ignorado e menosprezado durante grande parte de vida e lutando para compreender a razão de estar fazendo tudo aquilo. Você pode amar pintar, mas se está pintando e ninguém quer exibir as suas pinturas, ninguém se interessa por vê-las, quando são vistas ninguém quer comprar, elas não geram nenhuma comoção e o mundo das artes das artes dá a entender que elas podem ser ignoradas ou até mesmo queimadas, essa experiência pode ser devastadora. Assim como foi para o Pinch.

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“Eu ainda amo e admiro vários artistas, mas não tenho mais o desejo de conhecê-los, porque eu acredito que a melhor e maior expressão do que eles fazem é o que eles estão produzindo”

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E o quanto dessas ideias vieram das suas experiências como escritor? Você também está em busca de conexões com seus leitores por meio de seu trabalho, certo?

Sim. Muita coisa. Em parte, escrever sobre artes visuais foi uma forma para que eu refletisse sobre alguns aspectos das artes em geral. Não apenas no que diz respeito do meu envolvimento como consumidor de arte, música, pinturas, cinema e por aí vai, mas como alguém que também produz arte. Por um lado, eu estava curioso por olhar atentamente para esse mundo de pessoas criativas. Por outro, eu estava empolgado por tentar analisar algumas das coisas que eu havia vivenciado nos últimos anos trabalhando no mundo literário e visto como o que eu esperava de pessoas não era real, como a fantasia de uma grandeza artística era um mito. Então foi uma tentativa de escrever sobre algumas dessas reflexões, mas eu não queria que fosse apenas sob o meu ponto de vista. Eu queria expor algumas dessas experiências, mas apresentá-las sob outra perspectiva, levando em conta que artes visuais são diferentes de literatura, mas explorando algumas dessas ideias.

Imagino que como jornalista e escritor você tenha tido a oportunidade de conhecer alguns ídolos e pessoas que admirava. Esses encontros também afetaram a forma como você vê e lida com essas pessoas?

Sim, com certeza. Essa tem sido uma experiência interessante. Uma das melhores coisas de ser um jornalista é encontrar a desculpa para entrar em contato e conversar com pessoas que você considera muito interessantes artisticamente, é um grande privilégio. Outro dia eu estava pensando quem eram as pessoas com quem eu gostaria de conversar e eu realmente sofri para chegar em alguém. Eu ainda amo e admiro vários artistas, mas não tenho mais o desejo de conhecê-los, porque eu acredito que a melhor e maior expressão do que eles fazem é o que eles estão produzindo. Digo isto tendo conhecido um número vasto de pessoas famosas, incluindo alguns dos meus heróis literários, tanto como jornalista, mas também participando de festivais literários nos quais conheci e conversei com essas pessoas e, no meu caso, costuma ser uma decepção. É raro que uma pessoa incrivelmente talentosa faça jus a esse talento sendo incrivelmente agradável ou particularmente genial para se conversar. Pode ser que um aspecto fundamental para que essas pessoas consigam criar seus trabalhos é que elas sejam incrivelmente auto-centradas. Isso quer dizer que elas são realmente péssimas para se passar um tempo em termos humanos, mas esse mesmo egocentrismo é o que permite que elas foquem imensamente em seus próprios trabalhos. Então sim, eu acho que todo esse trabalho, entrevistando pessoas e estando com elas em outros contextos me deu uma perspectiva diferente e me fez questionar quais são os ingredientes e o que faz desses artistas tão grandiosos – e até mesmo se há algo assim.

O livro também trata muito sobre paternidade e legado. Você agora tem um filho. O quanto o nascimento do seu filho pesou durante a produção do livro?

Esse foi um aspecto central para mim. Eu comecei a escrever o livro também porque estava lidando com a perspectiva de ser um pai. Eu estava muito focado na minha escrita, isso estava me tomando muito tempo e cansando demais. Eu pensava na possibilidade de começar uma família, mas cogitava se ter um filho arruinaria a minha escrita ou se a minha escrita arruinaria o meu filho. Eu fiquei muito preocupado com esses cenários e congelei, eu não sabia o que fazer. Eu não queria arriscar perder a existência de alguém que eu pudesse amar um dia, mas também estava aterrorizado com a ideia de me tornar uma pessoa horrível em nome do meu trabalho. Foi um grande dilema para mim e comecei a escrever esse livro como um método de tentar descobrir o que eu queria fazer, compreender melhor a situação e imaginar um artista, o personagem do Bear Bavinsky, que é completamente auto-centrado e tão determinado a alcançar o que queria com sua arte que todos ao seu redor não passam de matéria. Eu não queria escrever sob a perspectiva dele, eu queria escrever sob a perspectiva da pessoa que poderia ser mais abalada por ele. Durante esse processo de escrita eu senti que a minha questão havia sido resolvida, eu decidi que queria ter um filho e queria ser um pai, o melhor pai que eu conseguisse ser com a esperança de continuar escrevendo. A minha vida mudou muito desde o nascimento do meu filho, eu passo muito tempo com ele, cuidando dele e sinto muito prazer nisso. Eu me preocupo muito com ele. Então o livro começou como um dilema e terminou com um filho de dois anos.

(Foto: Divulgação / Rasmus Schou)

Você falou sobre a forma como o Bear Bavinsky vê tudo ao redor dele como matéria e acho que isso diz muito sobre o estilo das pinturas dele. Você não é pintor, como você definiu qual seria o estilo e o padrão dos trabalhos dele?

Definir esse estilo particular foi pensar nele vendo as pessoas ao redor dele como matéria, mas também como algo que o fizesse sofrer em frente ao quadro em branco. A ironia disso é que ele não está pintando autoretratos, mas retratos de outras pessoas que ele gostaria que fossem sobre ele. Da mesma forma, se você pensar nos retratos do Picasso, eles sempre foram sobre o Picasso, nenhum deles é sobre a pessoa que ele estava retratando. Nós não olhamos para um dos quadros e dizemos ‘Oh, é a Marie-Thérèse Walter’, nós dizemos: ‘É um Picasso retratando uma pessoa qualquer’. Até mesmo o Lucien Freud, outro desses pintores de retratos talentosos e famosos por seus comportamentos questionáveis, os títulos dos trabalhos dele são muito reveladores, são títulos como ‘Menina’ ou ‘Homem com o Cachecol Azul’, ninguém nunca é identificado. A menina pode ser, por exemplo, a esposa ou a filha dele. O homem pode ser um amigo ou uma pessoa famosa, mas são todos apenas objetos físicos para ele. Estão todos lá apenas para o engrandecimento do trabalho dele, das intenções dele e mesmo assim eles precisaram passar horas sentados, enlouquecendo enquanto ele não acabava. O que eles ganharam com essa experiência? Nada, na verdade. No final das contas é apenas um quadro do Lucien Freud ou do Bear Bavinsky, não da pessoa retratada. Isso é ainda mais verdade nos trabalhos do Bavinsky porque as pessoas não são nem ao menos identificadas. Ele nunca pinta os rostos, ele pinta apenas versões engrandecidas de pequenas detalhes, ele está representando apenas a percepção dele, a leitura dele, a forma como ele vê. Em determinado trecho ele diz que séculos e gerações passarão e as pessoas continuarão vendo a partir dos olhos dele. É uma forma de ir além da própria mortalidade, a ideia de que se alguém vê o que ele vê, quando alguém estiver vendo por essa perspectiva dele é o ponto de vista dele que estará sendo incorporado.

Eu gostaria de saber mais sobre o crítico e jornalista especializado em arte. Ele me soou como uma crítica da sua parte em relação à crítica e aos críticos de arte.

Sim, definitivamente. É sempre divertido escrever personagens jornalistas por eu ter familiaridade com eles. No caso desse personagem, eu também vi uma oportunidade de expressar um pouco da minha irritação com a forma como matérias sobre arte são escritas, principalmente artes visuais, sempre repletas de absurdos, pretensão e arrogância. É enlouquecedor quando você gosta desses assuntos e vê a quantidade de besteira que é escrita. Basta você tentar ler algumas coisas escritas sobre artes em revistas muito proeminentes. Dá vontade de gritar. Não vou nem entrar no mérito daqueles textos impressos em paredes que você encontra em galerias. Eu me diverti ridicularizando um pouco isso tudo e mostrando como todo esse processo é muito corrupto. Todas essas revistas são voltadas para pessoas que querem comprar arte, que tem muito dinheiro e têm seus focos em galerias que querem vender arte. Esses artigos estão sempre servindo a esses dois propósitos e não à clareza, ao esclarecimento, à compreensão ou a qualquer outra coisa além da pretensão social desse joguinho.

Além de críticos aparentemente interessados em falar mais deles do que de seu próprio objeto de análise…

Sim, com certeza. Alguns casos são piores do que outros. Acho que uma das piores formas de crítica são aquelas feitas por pessoas de dentro da indústria sobre a qual estão escrevendo. Por exemplo, crítica literária feita por escritores. É algo extremamente perigoso, porque há muito em jogo ao se promover ao invés do foco em se escrever sobre alguma coisa. Haverá constantemente alguma espécie de perspectiva estética que eles vão querer impor, impedindo o despertar de qualquer outro estilo, a menos que seja de um amigo. É por isso que geralmente prefiro críticos profissionais ao invés daqueles de meio expediente, os críticos profissionais também tem seus vícios e seus preconceitos mas com o tempo você acabará tendo a oportunidade de descobrir quais são eles.

Entrevistas / HQ

Papo com Dave McKean, o capista de Sandman e autor de Black Dog: “A arte é uma máquina de empatia, ela permite que enxerguemos pelos olhos de outras pessoas – algo importante como nunca”

O quadrinista britânico Dave McKean veio ao Brasil para o lançamento da edição nacional de Black Dog: Os Sonhos de Paul Nash. O livro foi publicado pela editora DarkSide Books e terá uma sessão de autógrafos com a presença do autor na próxima quinta-feira, dia 7 de junho, no Rio de Janeiro (você confere outras informações sobre o evento por aqui). Dias antes da chegada de McKean ao país e de sua passagem pelo Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ) em Belo Horizonte, fiz uma longa entrevista por email com o autor. O papo virou matéria para o UOL, que você lê aqui.

Reproduzo a seguir a íntegra da nossa conversa. Um papo sobre Paul Nash, Black Dog, extremismos, tecnologias, super-heróis, música e arte. Saca só:

Você se lembra da primeira vez que ouviu falar do Paul Nash? Você se lembra das suas primeiras impressões sobre o trabalho dele?

Eu cresci próximo de Cookham, local no qual o Stanley Spencer viveu e pintou durante toda a vida. O Spencer estava no Slade com o Nash e um grupo importante de jovens artistas que se tornaram os primeiros modernistas britânicos. Inspirados por influências vanguardistas da Europa, eles abordavam temas referentes aos século 20 e brincavam com Expressionismo, Vorticismo, Surrealismo e todas as outras escolas que estivessem por perto, tentando dar sentido a um mundo moderno mecanizado. Então eu soube sobre o Nash quando ainda era muito jovem, e ele também nasceu perto do local onde eu cresci, por isso eu conhecia muito bem as paisagens e as árvores que ele pintava. Eu acredito que provavelmente preferia outros artistas quando era mais jovem – com trabalhos mais estilizados e obviamente com imagens mais surrealistas. Foi apenas muito tempo depois que eu comecei a apreciar o poder simbólico e a objetividade de suas pinturas da Primeira Guerra Mundial.

Como veio o convite para você criar esse livro? Você teve alguma reserva em criar um livro sobre um artista sendo você também um artista?

Eu fui procurado pela 14-18 Now Foundation de Londres para propor uma graphic novel e um projeto de performance com algum foco na Primeira Guerra Mundial. Eles encomendaram cerca de 20 obras de arte de diferentes mídias a cada ano entre 2014 e 2018 para marcar o centenário da Grande Guerra. Eu imediatamente pensei que gostaria de concentrar na experiência de um homem, nada na escala da guerra ou relacionado a aspectos geo-políticos, tecnológicos ou de batalhas, mas apenas pensar em em alguém indo àquele contexto, a primeira guerra mundial e industrial moderna. Eu achei que seria interessante ver isso tudo sob a perspectiva de uma pessoa criativa, fosse um escritor, um poeta ou um artista. O Nash me pareceu o mais poderoso desses artistas da Primeira Guerra Mundial. Não o melhor tecnicamente, também não era o mais extrovertido e nem um homem que viveu uma guerra dura, mas por algum motivo ele foi aquele que conseguiu encontrar uma linguagem para expressar a brutalidade e o niilismo não apenas da Primeira Guerra Mundial, mas de qualquer guerra – as imagens dele ainda são relevantes nos dias de hoje. E ele encontrou a própria voz nas trincheiras. Ele foi a Ypres como um simbolista romântico em crise e retornou para a Inglaterra transformando, raivoso, socialista e motivado por mostrar seus conterrâneos o que era passar por aquele inferno. Então foi uma escolha inteiramente minha e não tive qualquer preocupação em relação a representar a vida de outro artista. Foi quase o contrário, eu senti uma conexão intensa com o Nash por causa do passado da família dele e por ele ter vivido e trabalhado em lugares que eu conheço muito bem, além do desejo dele de expressar a própria consciência em seu trabalho. Nenhuma das paisagens dele eram realmente realistas, elas são sonhos ou interpretações psicológicas do mundo real mescladas com os sentimentos dele.

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“Eu sempre vou ao roteiro e pergunto o que ele deseja. Eu não tenho um estilo, eu apenos uso qualquer coisa que a história pedir”

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E foi difícil criar um diálogo entre a sua arte e a do Paul Nash? Aliás, foi desafiador criar esse diálogo e não se limitar a ser uma homenagem ao trabalho dele?

É realmente um diálogo. Eu li tudo o que poderia encontrar do Nash e fui ver vários dos trabalhos dele nas salas do acervo do Imperial War Museum. Então eu tive uma impressão bem completa do homem, como ele pensava e como escrevia para outras pessoas – ele era um pródigo escritor de cartas. Quais eram os demônios internos dele, suas ansiedades e como eles expressava todas essas coisas em seu trabalho. Já que já existia muito material biográfico e autobiográfico sobre o Nash, eu decidi estruturar o livro como uma série de sonhos. As pinturas do Nash são cenários de sonhos – são espaços construídos a partir de de diferentes observações e depois misturados com as ansiedades problemáticas dele. Pensei que cada capítulo poderia ser uma sonho sobre um momento crucial da vida dele durante esses anos de formações, desde pouco antes da guerra até alguns anos depois. Eles podiam ser uma terra de ninguém na qual eu poderia falar com ele e fazer perguntas e tentar compreendê-las às minha maneira – por exemplo, por que ele nunca mais desenhou ou pintou pessoas após encerrar as encomendas que recebeu focadas na guerra?

Você tem um estilo muito característico, mas as suas técnicas e a sua arte variam bastante de livro para livro. Como você definiu as técnicas e os estilos que utilizaria em Black Dog? Você poderia falar um pouco sobre como define suas técnicas e estilos de trabalho pra trabalho?

Eu sempre tento encontrar um tom de voz favorável à atmosfera, ao clima e ao panorama emocional de cada livro. Cada capítulo e cada sonho de Black Dog são muito diferentes. Alguns tratam das brincadeiras de infância dele com o irmão John, imaginando árvores como gigantes e guardiões. Outros capítulos envolviam a passagem enevoada das docas de Southampton para a França, a vida nas trincheiras, o cumprimento de ordens e a busca por alívio nos detalhes da natureza em meio a um campo de batalho desolado. Cada um desses cenários é um espaço físico e emocional específico, então eu realmente precisava encontrar a forma certa de apresentar visualmente cada capítulo, capturar o clima e expressar as emoções. Um porto sujo e com neblina parece como acrílico e grafite em papel de aquarela amassado. o barulho de um grupo de estudantes em Londres em um pub parece mais detalhado, com linhas de caneta e traços mais bem definidos nos copos e nas decorações do lugar. Então eu sempre vou ao roteiro e pergunto o que ele deseja. Eu não tenho um estilo, eu apenos uso qualquer coisa que a história pedir.

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“Não podemos esquecer que liberdades que tomamos como garantidas na verdade vieram sob um custo imenso. A arte é uma máquina de empatia, ela permite que enxerguemos pelos olhos de outras pessoas – algo importante hoje como nunca”

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Você pode descrever cada etapa da criação de Black Dog?

Eu fiz muita pesquisa e várias anotações e depois reuni todas essas anotações em pequenos arcos narrativos que iriam compor cada capítulo. Cada parte precisava apresentar um ponto importante da vida do Nash durante esses anos de guerra. Eu comecei escrevendo a narração e os diálogos sempre que parecia apropriado, tirando frases das cartas dele e imaginando uma conversa em fluxo dentro dessas circunstâncias. Parte da narração eu pensei que poderia refletir os hábitos inicias dele de escrever versos poéticos em seus desenhos. Esse texto virou letra das músicas para a parte de performance desse projeto. Quando tinha um capítulo já mais bem desenvolvido, eu rascunhava como as páginas ficariam e depois as desenhava ou pintava. Algumas dessas páginas eu precisava refazer enquanto buscava o estilo certo que o roteiro pedia. Mas uma vez que já tivesse um ou dois painéis bem resolvidos, o resto fluia muito bem. Eu mantive o processo muito aberto e improvisei até o final. Eu ainda estava reescrevendo e reformatando o final do livro até os últimos dias. Isso me permitiu fazer todo tipo de conexão que eu tenho certeza que teria deixado passar se tivesse tudo fechado logo no início do processo.

De quais aspectos de Black Dog você tem mais orgulho?

De vários na verdade. Eu acho que pode ser o livro do qual tenho mais orgulho. Eu acho que o tema dele valeu o meu investimento e o Nash é um artista que merece ser mais conhecido – ele é completamente desconhecido fora da Inglaterra. Eu gosto de várias das artes e acho que o padrão das ilustrações e da narrativa são bons. Eu amei ter escrito e me senti estimulado a continuar escrevendo os meus próprios livros e também fiquei muito feliz por ser parte de um projeto tão forte envolvendo outros artistas. A apresentação ao vivo ocorreu no Tate, no memorial Somme em Amiens e também repetimos em vários festivais desde então. Esse lado do projeto tem sido maravilhoso e, outra vez, muito estimulante a continuar compondo e escrevendo músicas.

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“A terra é uma bagunça cada vez maior, precisando de soluções globais. Nacionalistas não acreditam em soluções globais, então não acreditam em problemas globais, por isso eles ignoram as evidências e contorcem a verdade para que ela fique coerente com a perspectiva insular de mundo que possuem”

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O Paul Nash parecia muito atormentado pelos tempos de guerra nos quais ele viveu, principalmente pelo que testemunhou no exército. Estamos vivendo um período muito belicoso da humanidade. Quais lições você acredita que podemos tirar das artes e das vivências do Paul Nash?

Que guerras precisam ser evitadas. Há falcões no poder no momento que nunca viveram em períodos de guerra e estão começando a sentir que esse possa ser uma forma legítima de lidar com desentendimentos. Após à Segunda Guerra Mundial, tivemos um senso social crescente de que deveríamos nos ajudar e oferecer apoio uns aos outros – o nascimento do NHS e outros programas sociais no Reino Unido e o empenho para unificação da Europa. Estamos começando a esquecer essas coisas e as pessoas estão novamente se escondendo sob argumentos nacionalistas e egoístas. É por isso que memoriais, comemorações e o hábito de contar essas histórias desses períodos são tão importantes, não podemos esquecer que essas liberdade que tomamos como garantidas na verdade vieram sob um custo imenso. A arte é uma máquina de empatia, ela permite que enxerguemos pelos olhos de outras pessoas – algo importante hoje como nunca.

Sobre esse mesmo período atual de extremismos: os cidadãos do Reino Unido estão testemunhando um crescimento de ideias conservadoras e xenófobas – aliás, algo que parece estar ocorrendo no mundo inteiro. Você é otimista em relação ao nosso futuro?

Não muito. Isso é algo em certo nível geracional. Eu fico emocionado que a geração dos meus filhos esteja muito mais tranquila em relação a questões de identidade cultural, identidade sexual e mudanças tecnológicas. A maior parte deles votou (se tiver votado) para que continuássemos na Europa e continua a votar por iniciativas e partidos mais responsáveis socialmente. Então os reacionários egoístas e cegos vão desaparecer e espero que uma geração mais esclarecida fique com o poder. No entanto, pode ser que não estejamos vivos para testemunhar isso. A terra é uma bagunça cada vez maior, precisando de soluções globais. Nacionalistas não acreditam em soluções globais, então não acreditam em problemas globais, por isso eles ignoram as evidências e contorcem a verdade para que ela fique coerente com a perspectiva insular de mundo que possuem. Eu acredito que as distorções decorrentes da internet em tudo são as questões mais alarmantes do momento. Sem dúvida tivemos muitos benefícios com a conectividade, mas estamos recusando a lidar com o impacto negativo da perda de confiança e compreensão do mundo real. Trump, Putin e outros são as criaturas de um mundo incapaz de separar realidade de ficção. Isso me fez mais determinado do que nunca para ficar do lado que acredito ser o certo. Eu costumava achar que a fantasia e ficção eram benignas, agora eu acho que são mais insidiosas do que isso.

Você tem muitos trabalhos em parceria com escritores, pensadores e artistas incríveis. Black Dog é um trabalho solo. É muito diferente para você criar algo individualmente e em parceria com outra pessoa?

É maravilhoso passar alguns períodos no universo de outra pessoa, mas é muito mais recompensador ilustrar meus próprios roteiros. Eu tenho a liberdade de ir aonde o roteiro me levar.

Sobre essas parcerias: imagino que sejam experiências muito interessantes, poder criar e dialogar com autores como Neil Gaiman, Richard Dawkins, Tori Amos, Alice Cooper, Alan Moore, Iain Sinclair… Como você define essas experiências? Alguma específica dessas teve algum impacto maior em particular em você?

Elas são todas muito diferentes. Foi maravilhoso trabalhar durante um ano com o Richard Dawkins e ele teve um impacto enorme no direcionamento do meu trabalho em relação à ciência e à realidade. No ano seguinte eu passei com a Wildworks e o Michael Sheen dirigindo The Gospel of Us e participando do projeto Passion of Port Talbot, uma reconstrução secular da história da Páscoa. Trabalhar com o Bill Mitchel na Wildworks mudou completamente a minha forma de trabalhar, longe da busca obsessiva por controle total e em busca de uma abordagem mais divertida e improvisada no desenvolvimento de um projeto.

Você fez capas para CDs e também é músico. Como é para você o trabalho de criar esse tipo de capa? Que tipo de diálogo você tem com as bandas e os artistas antes começar a criar?

Também são todos muito diferentes. Alguns gostam de me deixar trabalhar sozinho e aí eu crio o que considero o que melhor captura o clima da música. Alguns gostam de ser mais participativos, oferecendo ideias que eu possa desenvolver. Eu não me incomodo com nenhuma das duas formas. São geralmente projetos curtos, então fico feliz em explorar uma atmosfera durante um ou dois dias antes de retornar ao meu próprio mundo.

Alguns de seus trabalhos mais famosos foram as capas de Sandman. O quanto esses trabalhos foram importantes para a sua carreira? Você pode falar um pouco da dinâmica da sua parceria com o Neil Gaiman?

Elas acabaram se tornando um diário de sete anos, enquanto eu explorava ilustração, fotografia, colagens, designs, desenhos e ferramentas digitals. Era ótimo ter uma janela inteira todo mês para experimentar algo novo, ilustrando um arco longo de histórias aberto à minha interpretação. Quando começamos eu tinha acesso às páginas internas, mas no final eu só tinha uma ou duas linhas de descrição do que aconteceria nos meses seguintes. É surpreendente como as capas acabaram casando tão bem com as páginas internas, principalmente por eu ter poucas referências com as quais trabalhar.

E qual você considera a principal diferença de criar a capa de um livro, de um disco e de um quadrinho?

Elas são semelhantes por serem todas janelas para o conteúdo da obra, o primeiro ponto de conexão entre um consumidor potencial e o conteúdo. Elas servem como filtros pelos quais ouvimos as músicas ou começamos a ler um livro. Eu acho que elas funcionam melhor quando são abertas e simbólicas, ao invés de pedantemente descritivas.

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“Eu ainda faço trabalhos para um mundo físico e não estou interessado em adaptar o que eu faço para o que me parece ser uma experiência virtual muito limitada”

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Estamos vivendo em tempos muito digitais. Ebooks, webcomics e arquivos de músicas ainda têm capas, mas é uma relação distinta entre esses produtos e seus consumidores. Essa diferença é muito grande pra você, não apenas como um criador, mas também como leitor, ouvinte e consumidor?

Eu ainda sou um grande consumidor dos objetos físicos. Eu compro CDs, blu-rays e livros. Eu não leio em tablets e não faço download de música. Eu prefiro música que tenha contexto, que seja parte de um corpo de trabalho de uma pessoa ou de um grupo de pessoas, de uma localização geográfica específica, de um período histórico específico e que seja conectado a outros criadores em uma rede de conexões e forças sociais – música é uma forma de aprender sobre o mundo, não apenas uma amontoado aleatório de sons. Eu prefiro livros que venham com espíritos, cheiros e artisticamente trabalhados. Eles crescem e envelhecem comigo. Eu tenho consciência que gerações mais novas que não tenham crescido tão apegadas em um mundo de objetos físicos não tenham essas mesmas conexões emocionais, mas temo que é assim que me sinto sobre isso. Então eu ainda faço trabalhos para um mundo físico e não estou interessado em adaptar o que eu faço para o que me parece ser uma experiência virtual muito limitada. Eu acredito que a realidade virtual é um meio imensamente promissor, mas precisa ser explorado como uma linguagem independente, não como a adaptação de um filme ou livro. São linguagens completamente diferentes – um livro ou um filme são formas narrativas, realidade virtual não, ela tem uma natureza exploratória.

Você pode falar um pouco sobre as principais diferenças e semelhanças entre criar uma ilustração, fazer um quadrinho, escrever uma música e gravar um filme?

Apenas observe as qualidade intrínsecas de cada um desses formatos. Ilustrações são expressões curtas de ideias estáticas, um quadrinho expande isso para sequências narrativas, para que você possa explorar emoções e ideias de forma muito mais extensas. Música é abstração, é provavelmente a forma de arte mais poderosa por ultrapassar todas as lógicas e despertar conexões emocionais instantâneas. Filmes são massivamente complexos e estão constantemente comprometidos, mas quando funcionam podem recriar versões do mundo em formar extraordinariamente vívidas – talvez o mais próximo que existe de um sonho.

Você tem todas essas áreas de interesse e atuação. Você consegue definir o que você faz em uma única palavra? Qual você considera ser a sua profissão?

Eu tento não fazer isso. Os italianos têm uma palavra, ‘creativo’. Fico feliz com ela.

O seu trabalho ficou famoso nos Estados Unidos principalmente por conta de suas parcerias com o Neil Gaiman em Sandman e Orquídea Negra e com o Grant Morrison em Asilo Arkham. Como foi para você essas primeiras experiências no mercado editorial norte-americano? Foi um período muito produtivo para você e seus colegas britânico, correto?

Foi um grande momento para entrar nessa área, os editores estavam em busca de novas vozes e nós trouxemos um frescor europeu e uma arrogância juvenil para o mercado. A maioria dos meios têm esses momentos de ouro, quando estão afundando e precisam de rejuvenescimento, e se você tiver sorte pode encontrar um lugar para brincar, se divertir e começar uma carreira. Mas esses momentos nunca duram. Eventualmente, as companhias acabam definindo seus trabalhos por termos financeiros e esse momento de liberdade e anarquia criativa chega ao fim. Eu gostei de fazer esse trabalho e de conhecer essas pessoas, mas eu precisei seguir com a minha vida depois de alguns anos – fazer esses trabalhos deixou de ser um interesse real para mim.

Você não fez muitos quadrinhos de super-heróis, mas ilustrou muitos livros publicados por essa indústria. O que você acha da indústria norte-americana de quadrinhos e seus super-heróis nos dias de hoje?

Eu acho que são uma imensa porcaria – um veneno que destruiu o meio dos quadrinhos nos Estados Unidos e agora arruinou a indústria de cinema. São fantasias de poder de crianças para uma cultura infantilizada e amedrontada. Muito deprimente.

O que mais te interessa em artes gráficas e no mundo dos quadrinhos hoje? Há algum tipo particular de trabalho ou algum artista que te interessa mais atualmente?

Com exceção dos quadrinhos mainstream da Marvel e da DC Comics, os quadrinhos estão passando por uma era de ouro de criatividade. Todas as novas vozes estão sendo ouvidas ao redor do mundo e sendo expressas em estilos sem qualquer peso nostálgico de quadrinhos antigos. Eu continuo encontrando novos artistas para exaltar, de Mattotti a Jorge Gonzales, do Pedrosa ao Auladell.

O que você pensa quando um trabalho seu é publicado em um país como o Brasil? Somos todos ocidentais, mas vivemos culturas muito diferentes. Você tem alguma curiosidade em relação à forma como um trabalho seu será lido e interpretado por pessoas de um ambiente tão diferente dos seu?

Óbvio, é maravilhoso ver como os livros serão recebidos. E também incrível ver como livros estão sendo criados em outros trabalhos. Eu sempre tento encontrar uma loja local de CDs em qualquer lugar que eu vá e pergunto por recomendações de lançamentos musicais locais.

No que você está trabalhando atualmente? Você tem algum livro novo nos seus planos?

Eu estou finalizando um livro de pinturas e ilustrações inspiradas em filmes mudos, eu acabei de terminar um livro com o escritor americano Jack Gantos, eu estou para começar uma graphic novel que escrevi sobre natureza, luto e monstros (da espécie política). Eu ainda estou trabalhando em Caligaro, minha graphic novel inspirada em O Cabinete do Dr. Caligari. E também tenho algumas outras coisas em andamento, incluindo um novo filme chamado Wolf’s Child.

A última! Você pode recomendar algo que esteja lendo/assistindo/ouvindo no momento?

Eu tenho lido muitos textos sobre viagens e natureza, principalmente do Patrick Leigh Fermor e Robert Macfarlane. Eu costumo assistir a documentários ao invés de assistir a dramas na TV, então deixei passar várias das séries mais populares. Eu tenho gostado de séries escandinávas noir como The Bridge. O meu gosto por filmes mudou muito, estou cada vez mais impaciente com coisas mainstream pré-digeridas e formatadas. Todos esses filmes me parecem a mesma coisa para mim. Então eu tendo a buscar vozes singulares como Herzog, Enyedi e Svankmajer, e é ótimo encontrar vozes originais em filmes como Três Anúncios Para Um Crime e um favorito recente, The Mountain. Música? Praticamente qualquer coisa, me principalmente música ambiente e orquestras. Jazz europeu e escandinavo, a música folk contemporânea está passando por um renascimento no Reino Unido no momento.

Entrevistas / HQ

Cidade de Sangue: Márcio Jr. assina parceria com o lendário Julio Shimamoto em HQ policial

O músico e roteirista Márcio Jr. convidou o lendário quadrinista Julio Shimamoto para ilustrar o roteiro do álbum Cidade de Sangue. Escrito e ilustrado a partir de um argumento de Márcia Deretti, o álbum marca a estreia do braço editorial da produtora cultural MMarte Produções, capitaneada por Márcio Jr e Márcia Deretti, e narra uma história policial ambientada em Goiânia. O quadrinho mostra um romance conturbado entre um jornalista policial e uma fotógrafa do jornal no qual ele trabalha tendo como pano de um fundo um crime no qual o próprio repórter é suspeito.

Bati um papo por email com Márcio Jr sobre a as origens do projeto, o desenvolvimento da história e a experiência de trabalhar com Shimamoto. Aliás, chamo atenção para a explicação do roteirista sobre as técnicas utilizadas por seu parceiro para o desenvolvimento da arte da HQ. Papo bom, saca só:

O que você pode falar sobre a trama do quadrinho? Você pode, por favor, falar um pouco sobre a sinopse e como você chegou a esse enredo?

Cidade de Sangue é uma trama policial ambientada em Goiânia. Carlão, o personagem principal, é repórter do caderno de polícia de um grande jornal há anos e não suporta mais o contato cotidiano com a violência. Amargurado, atravessa uma séria crise em seu casamento. Surge então Paula, a nova fotógrafa do caderno, e os dois acabam dando início a uma tórrida e mórbida paixão, inflamada justamente pelas cenas de crime e violência que os cercam.
Por ironia do destino, Carlão torna-se o principal suspeito de um dos crimes que cobria para o jornal, naufragando em uma espiral de decadência. Cidade de Sangue nasceu como argumento para um longa-metragem, desenvolvido a partir de uma ideia central da minha esposa e sócia, Márcia Deretti. Agora, com o livro pronto, o projeto de transformá-lo em filme volta a nos assombrar. A princípio, uma animação. Com direção de arte do Shima, claro. Trabalho pra mais de década…

Por que chamar o Julio Shimamoto para ilustrar o quadrinho? Aliás, aproveitando, qual você considera os principais atributos da arte dele e as maiores contribuições dele para os quadrinhos nacionais?

Shimamoto faz parte daquilo que considero a santíssima trindade do quadrinho brasileiro, ao lado de Jayme Cortez e Flavio Colin. Gênios de uma outra época do mercado editorial brasileiro, quando HQ era algo popular, acessível, cultura de massa – e que, mesmo sob estes limites, conseguiram criar uma obra absolutamente autoral. Vejo dois aspectos ímpares nos quadrinhos de Shimamoto: dinâmica e experimentalismo. Seus personagens estão sempre em movimento, cheios de uma energia que transborda do papel. E suas experimentações gráficas não têm fim. Shima já trabalhou com cerâmica, balões de borracha, fuligem, sacos plásticos surrados, tinta de parede, água sanitária,… Sempre digo que se no cinema brasileiro temos aquilo que o saudoso (cineasta e crítico) Jairo Ferreira chamava de ‘cinema de invenção’, o que o Shimamoto faz é ‘quadrinho de invenção’. Em Cidade de Sangue ele leva isso a um outro patamar. Há ainda uma questão sobre a qual me debato continuamente: o cisma entre a atual geração de quadrinistas brasileiros e seus antecessores. Em todos os eventos de quadrinhos vemos centenas de talentos contemporâneos e uma quase completa ausência da velha guarda. Em outro paralelo com o cinema, seria como se os cineastas de hoje produzissem sem conhecer o trabalho de Glauber Rocha, José Mojica Marins e Nelson Pereira dos Santos. Por fim, tenho uma longa relação com o mestre Shima, que se iniciou com o curta-metragem em animação O Ogro, produzido e dirigido por mim e pela Márcia (e que pode ser visto aqui https://filmeoogro.blogspot.com.br/2011/03/apresentacao_09.html). Mas o mais importante em relação ao Cidade de Sangue é que o trabalho não se trata do resgate da obra de um mestre do passado. O que temos aqui é um Shimamoto contemporâneo, moderno, repleto de vigor e coragem, se arriscando como nunca. Estou ansioso pela recepção do público e do meio em relação ao seu mastodôntico trabalho em Cidade de Sangue.

Você pode falar um pouco sobre a técnica utilizada pelo Julio Shimamoto para a arte do quadrinho?

Quando chamo o trabalho de Shima de experimental, estou falando sério. Cidade de Sangue foi literalmente desenhada a ferro e fogo. Cada página começava com um rápido esboço em papel manteiga. Aí, sobre uma mesa de luz e com o uso de maçaricos, ferros de soldar e ferramentas artesanalmente criadas por ele, Shimamoto trabalhava sobre papel térmico (papel de fax). Os balões e recordatórios eram feitos a parte para depois serem colados diretamente sobre a página. Como o papel térmico possui baixíssima durabilidade, era feita uma fotocópia da página – que posteriormente seria tratada e receberia uma segunda cor, o vermelho, aplicada pelo quadrinista goiano Tiago Holsi. Há também um incrível uso de colagens fotográficas. Enfim, imagino que a abordagem gráfica desenvolvida por Shima em Cidade de Sangue seja um caso único no mundo.

E como foi a dinâmica do trabalho de vocês? Você enviou o roteiro fechado para ele? Quanto tempo durou a produção da obra? Você pode falar um pouco de cada etapa dessa produção?

Fui entregando o roteiro para o Shima em capítulos, sempre esboçados. O Shimamoto é conhecido por subverter roteiros, normalmente tomando outros caminhos que aqueles indicados pelo roteirista. Dei a ele toda a liberdade para isso. Mas fiquei bastante surpreso (e também orgulhoso) ao perceber que ele seguiu com grande fidelidade as páginas plotadas que lhe entreguei. Todas as mudanças de enquadramento ou perspectiva feitas resultaram em ganhos dramáticos para a narrativa. Apesar de ter um escopo bem definido da história desde o começo, não consegui entregar para ele o roteiro fechado de uma só vez. A estratégia de ir enviando o material por partes foi um meio de manter o trabalho orgânico durante todo o tempo, uma vez que o Shima me devolvia os capítulos finalizados – e eu, por minha vez, dava continuidade à história, absolutamente influenciado por aquilo. Mudanças de percurso aconteceram neste processo, que durou uns bons cinco anos para se completar – com alguns intervalos na produção. Me senti terrivelmente pressionado em escrever algo para o Shimamoto – que durante todo o projeto me ofereceu a mais generosa confiança e apoio que consigo imaginar. Na verdade, me sinto absurdamente privilegiado por ter realizado o Cidade de Sangue.

Cidade de Sangue é a primeira publicação de sua nova editora, a MMarte. Quais os seus planos para a editora? Você já tem outros lançamentos em vista? Você já estabeleceu qual será a linha editorial de vocês?

A MMarte Produções, formada por mim e pela Márcia Deretti, existe há alguns anos e é mais conhecida por sua atuação no mercado audiovisual – seja em projetos de formação como a Escola Goiana de Desenho Animado; em festivais como a TRASH – Mostra Internacional de Cinema Fantástico e o Dia Internacional da Animação de Goiás; e como produtora de animações autorais como O Ogro, Faroeste: Um Autêntico Western e Rascunho da Bíblia. O sonho de termos um braço editorial é antigo e estamos entusiasmados com o início desta nova aventura. Até o momento produzimos outros dois livros além do Cidade de Sangue: a edição de luxo da HQ Entardecer dos Mortos, ao lado do grande Tiago Holsi; e a antologia de contos noir Cidade Sombria – também ilustrada pelo mestre Shima. De forma independente e sem nenhuma pretensão megalomaníaca, nosso interesse são livros e publicações que nos sensibilizem pessoalmente. Num panorama tomado pela virtualidade, me atrai muito a perspectiva do livro como objeto, como traço material e físico de uma obra. Livro é a coisa mais legal do mundo – além de ser o único motivo plausível pra se derrubar uma árvore. É ou não é?

Entrevistas / HQ

Me Leve Quando Sair: Jéssica Groke e os percalços do primeiro quadrinho

A quadrinista Jéssica Groke vai lançar sua primeira HQ impressa durante o Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, marcado para rolar entre os dias 30 de maio e 3 de junho na capital mineira. A estreia da autora ocorre no surpreendente Me Leve Quando Sair, sobre a dinâmica de relacionamento de Groke com seu irmão mais velho. O álbum mostra um breve período dos dois viajando por Paraty e lembrando de memórias de infância e refletindo sobre suas dinâmicas familiares. Com belíssimos designs de páginas e uma história muito bem contada, Me Leve Quando Sair marca uma bela estreia de Groke e apresenta uma artista promissora da cena brasileira de quadrinhos. Bati um papo por email com a quadrinista sobre esse primeiro trabalho dela. Saca só:

Quando e como surgiu a ideia de fazer essa HQ?

A ideia surgiu no início de 2017, mais ou menos. Já fazia um tempo que eu queria começar um quadrinho, mas nada era importante e/ou interessante o suficiente pra me fazer começar, mas então o meu irmão decidiu que sairia do país e isso foi bem importante pra mim, pois nós sempre fomos muito próximos. Daí pensei, “tá aí, preciso falar dele, preciso falar um pouco sobre nós”. Em dezembro de 2016 a gente tinha feito essa viagem incrível pra Paraty, então juntei o contexto e a situação de Paraty com os sentimentos e pensamentos que essa mudança tava me trazendo, foi assim que surgiu o quadrinho. Eu senti que precisava falar sobre alguns dos meus medos, sobre algumas preocupações que eu tinha com o meu irmão, coisas que apesar de tão recentes, eu já nem sinto e penso mais.

Me Leve Quando Sair é o seu trabalho de estreia e expõe muito de você, da sua vida pessoal e da dinâmica de seu relacionamento com o seu irmão. Como foi pra você administrar esse conteúdo e essa exposição?

Eu não me incomodei muito em me expor, o que me preocupava era expor minha mãe e meu irmão. Agora, enquanto escrevo essa resposta, nenhum dos dois leu o quadrinho ainda, então não sei o que eles vão achar do livro e como meu irmão irá reagir ao ver o que escrevi sobre ele. Mas eu os avisei que faria um quadrinho assim, que seria bastante pessoal e eles concordaram, gostaram da ideia e não se incomodaram. Então tendo o apoio dos dois me sinto tranquila. E o que está registrado não é 100% real, nem aconteceu exatamente daquela maneira, é apenas uma fração da nossa vida. Mas a melhor parte, com certeza, foi ficar caçando momentos na memória, perguntar coisas para os dois e encontrar esses pedacinhos de vida que ficam nas caixas de lembrancinhas e nos álbuns de fotos.

Você poderia falar um pouco sobre as suas técnicas e seus métodos? Você trabalhou com um roteiro fechado antes de começar a desenhar? Quais materiais você utilizou durante a produção do quadrinho?

Não trabalhei com um roteiro fechado. No início eu tinha apenas as cinco primeiras páginas na cabeça, eu sabia que tinha que começar ali, mas depois eu só fui deixando o quadrinho me levar. Eu não fazia ideia pra onde tava indo. Hoje, com o quadrinho pronto, sinto que foi um erro não ter me planejado melhor, pois rolaram alguns momentos onde eu fiquei completamente perdida e desesperada, tive intervalos de um ou dois meses que eu não desenhava nada, não via uma solução pra história. Quando eu já tinha umas 12 páginas prontas, comecei a fazer umas fichas pra tentar me organizar, cada ficha representava uma página, e em cada uma eu escrevia o que eu queria ter na página. Por exemplo, ‘cena na loja, diálogo sobre quarto, possíveis elementos: objeto artesanal de madeira, porta da loja’. Eu ia escrevendo coisas e cenas que eu sabia que precisava ter na história, aí depois passava um tempo reorganizando, descartando e adicionando fichas. Simultaneamente eu ia planejando as páginas e desenhando, não tive uma etapa de escrever e uma etapa de desenhar, fui fazendo tudo junto e quando todas páginas estavam prontas eu escrevi os diálogos.

Sobre os materiais, eu usei lápis grafite 6b e 8b e papel A3 120g, gosto de considerar como material também as fotos e documentos que usei de referência para os desenhos, em alguns momentos eles funcionam praticamente como colagens, então acho justo mencionar. Acredito que a finalização em grafite tem uma função narrativa e combina com a atmosfera da história, mas, num primeiro momento, eu decidi que seria assim, pois ainda não me sinto segura com outras técnicas, então eu trabalhei com essa limitação da melhor forma que pude.

Eu gosto muito da diversidade nos designs das páginas do quadrinho. Foi desafiador pra você criar uma unidade pra obra trabalhando com páginas tão distintas?

O mais desafiador foi criar os designs diferentes. Minha segunda limitação é não saber usar requadros, então eu precisei bolar um jeito de fazer sequências sem usá-los. Eu trabalhei de uma forma em que o corpo dos personagens e os elementos do cenário tivessem a mesma função que um requadro teria. É até engraçado eu chamar a obra de quadrinho quando na verdade não tem nenhum quadrinho hahaha Acho que o nome mais adequado seria narrativa gráfica, mas gosto de chamar quadrinho, acho provocativo. E sobre a unidade, uma vez li um texto do Paulo Cecconi no Balbúrdia sobre sincronicidade das páginas e eu simplesmente amei, pensei ‘preciso usar isso conscientemente’. Não acho que consegui ter ‘controle das coincidências’ no quadrinho todo, mas eu tentei. Achei que se eu fizesse uma página puxar a outra, no final, elas ficariam com o mesmo ‘ritmo’, mesmo que o design fosse tão diferente. Fora isso, eu apostei que a finalização e o estilo do desenho iriam trazer uma unidade por si só.

Esse é o seu primeiro trabalho e eu fico curioso sobre as suas influências. Eu percebo um certo diálogo com o trabalho do Pedro Franz, faz sentido? O que mais você leu/viu/ouviu/assistiu que te influenciou enquanto fazia a HQ?

Faz total sentido, eu adoro o trabalho do Pedro Franz, foi uma grande influência. Incidente em Tunguska e Promessas de Amor a Desconhecidos Enquanto Espero o Fim do Mundo. Pra mim, eles apresentam uma honestidade gráfica e narrativa que eu tentei trazer pro meu trabalho e também têm esse desapego das formas tradicionais de se fazer quadrinho, que é uma coisa que eu acho incrível. Apesar de absorver todas essas coisas do trabalho do Pedro, eu acho que o quadrinho que mais me inspirou, definitivamente, foi Mensur do Rafael Coutinho. Esse quadrinho foi lançado e eu tava começando a fazer o Me Leve Quando Sair, e eu não conseguia parar de ler, não conseguia parar de pensar nele, eu via aquelas páginas sem requadros e pensava ‘É ISSO’. A obra do Rafael é muito importante pra mim, no geral. Eu também li repetidamente o Meu Pai é Um Homem da Montanha da Bianca Pinheiro e do Greg Stella, eu amo esse livro, ele é muito forte pra mim, eu me encanto com a simplicidade e sutileza da narrativa deles, acho muito acurado. Outro quadrinho que também me inspirou muito foi o O Ateneu da Mariana Paraizo. Gosto muito da forma como ela usa colagem e como ela parece misturar lembranças pessoais com ficção, usei muito disso no meu quadrinho.

Fora quadrinhos, eu também vejo muito filme quando tô buscando inspiração. The Darjeeling Limited foi muito importante pra mim, é meu filme favorito sobre comunicação e fraternidade. Gosto demais como os flashbacks funcionam no filme, como o Wes Anderson quebra a história em ‘começo, fim e meio’, tentei usar isso também. E tiveram dois filmes do Karim Aïnouz, que eu assisti umas quatro vezes cada um enquanto fazia o quadrinho haha O Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo e O Céu de Suely, meu deus, como eu acho esses filmes incríveis, a honestidade do texto, dos diálogos… O O Céu de Suely é quase um quadrinho do Quintanilha, saca? O Que Horas Ela Volta e Mãe Só Há Uma também são filmes que me destroem, a Anna Muylaert consegue passar a atmosfera do filme todo em uma cena de um minuto, ela tem um controle da narrativa dela que admiro muito, quero um dia poder fazer isso com meus quadrinhos. Enfim, teve muita coisa que vi, li e assisti enquanto fazia o livro. Fora isso, também ouvi muito dois álbuns: Paraíso da Miragem, do Russo Passapusso, e Super Sub América, da Trummer Super Sub América, esses dois discos têm uma mistura de nostalgia, alegria e tristeza, que eu queria trazer pra minha história.

Eu também tenho curiosidade em relação às suas expectativas com esse primeiro quadrinho. Quais sentimentos estão passando pela sua cabeça às vésperas do lançamento?

Eu espero que os leitores encontrem as mensagens que eu tentei passar no quadrinho, e os que não encontrarem, espero que encontrem outras coisas mais interessantes. Espero também que os leitores gostem, e os que não gostarem, eu espero que sejam sinceros e gentis comigo. Foi difícil fazer esse quadrinho, mas eu aprendi muito no processo. Agora quero usar esse aprendizado pra fazer mais quadrinhos. Acho que é isso.

Entrevistas / HQ

Verônica Berta e o desafio de adaptar o texto de Júlia Lopes de Almeida (1862-1934) no álbum Ânsia Eterna

O álbum Ânsia Eterna é o primeiro trabalho publicado da quadrinista Verônica Berta. A obra lançada pela editora SESI – SP adapta para o formato de história em quadrinhos três contos da escritora e cronista carioca Júlia Lopes de Almeida (1862-1934). Segundo Berta, sua vontade de fazer quadrinhos surgiu enquanto fazia um curso de desenhos na França, durante seu período de graduação na faculdade. Empolgada com a possibilidade de produzir uma HQ e sem experiência com roteiros, ela passou a trabalhar com a ideia de fazer um projeto em parceria com alguma escritora. A ideia de uma adaptação surgiu após a descoberta de que os textos de Júlia Lopes de Almeida estavam em domínio público.

Com uma belíssima paleta de cores, Ânsia Eterna apresenta uma artista nova, com um traço original e perspicaz ao mostrar como questões do século 19 ainda se fazem extremamente presentes nos dias de hoje. No papo a seguir, a quadrinista fala sobre o trabalho de adaptação dos textos que deram origem ao seu álbum, os métodos utilizados por ela durante a produção do quadrinho e os dilemas decorrentes da fidelidade a uma obra concebida há mais de um século.

Você se lembra quando teve contato pela primeira vez com o trabalho da Júlia Lopes de Almeida? E quando surgiu a ideia de adaptar os textos dela?

Eu encontrei a Júlia fuçando no site do domínio público. Tinha ido lá fazer uma coisa que não tinha nada a ver com um projeto de quadrinhos mas acabou que ele foi acontecendo. Primeiro eu vi que não tinha quase nenhuma mulher na lista de obras literárias em português, isso me despertou a vontade de procurá-las. Tinham muitas na categoria errada (em vez de literatura era trabalho acadêmico) e muitos dos textos literários eram poemas. A Júlia estava entre as pouquíssimas romancistas. Aí quando comecei a ler a obra dela, fui ficando inspirada para fazer quadrinhos. É que lá no fundo eu já tinha um sonho de fazer um projeto em parceria com alguma escritora porque eu não tinha praticamente nenhuma experiência com escrita de roteiro. Então a ideia da adaptação seria algo mais próximo de uma parceria. Acabou que eu fui desenvolvendo o projeto até entender que ele poderia ser muito mais do que um jeito de camuflar minha insegurança, relembrando as pessoas da existência de uma das autoras que marcou a história da nossa literatura e buscando despertar a reflexão sobre as diferentes posições da mulher na sociedade, assim como a própria Júlia fazia.

Você poderia falar um pouco sobre os seus métodos e cada etapa desse processo de adaptação? Você trabalhou com um roteiro fechado? Como foi o processo transformar textos em imagens e determinar o que entraria ainda como texto no quadrinho?

Eu fui aprendendo enquanto fazia, porque minha experiência com quadrinhos até então tinha sido os trabalhos para entregar no curso de desenho. Na maior parte do trabalho eu quebrei a cabeça, porque o texto já está muito bem sozinho, ele é autossuficiente, né. E eu precisava ter um motivo para tirar essas narrativas de onde estavam e colocá-las num quadrinho. Por isso eu acabei viajando mais na narrativa visual, nas possibilidades plásticas, e até onde dava para ir com os textos sem modificar a essência do original. Tive ajuda de várias pessoas também. Algumas partes precisavam ser escritas e outras eu não conseguia pensar sem fazer esboços. Aí você saca o quanto texto e imagens, nos quadrinhos, são de fato interdependentes. A maioria dos trechos descritivos ou narrativos eu me aventurei em transpor diretamente para imagem. Mas às vezes usei narração como recurso, por exemplo, para encurtar uma parte que ficaria longa demais em quadrinhos sendo que no conto é apenas uma pequena passagem.

Eu queria saber um pouco mais sobre as suas cores. Quais são as suas técnicas? Como você definiu a paleta de cada conto?

Por eu gostar muito de pintura, acabo fazendo a pintura digital meio que do mesmo jeito que eu faria com tinta acrílica. Aí fica mais intuitivo.

No Ânsia Eterna eu usei três paletas diferentes: uma para o momento presente, uma para a história que é contada dentro da história, e outra para a imaginação do personagem principal e o que ele idealiza. A intenção é que tivessem três tipos de espacialidade diferentes e a cor foi fundamental para essa busca. Já Os Porcos e A Caolha são contos que potencialmente despertam emoções mais pesadas no leitor. Então usei as cores buscando representar os sentimentos dos protagonistas, já que não tinham as palavras da Júlia para descrevê-los.

Também me chamou muita atenção os designs das páginas do livro. Como você determinou a disposição dos quadros ao longo de cada página? Como foi pensar a estética de contos autônomos que compõem um mesmo livro?

Essa foi a parte mais sofrida. Faz uns anos que eu venho estudando composição e sinto que estou apenas começando a entender algumas coisas; para mim é um assunto muito cabuloso e fascinante ao mesmo tempo. É estimulante pensar em como você vai fazer para atingir determinado efeito e passar determinada mensagem a partir da composição, mas isso é um desafio. E para mim é fundamental pensar nas interações entre os elementos visuais. As relações entre pontos e linhas, os espaços negativos, os contrastes, esse tipo de coisa. Também penso nuns conceitos do Scott McCloud, às vezes.

Acho que entre Os Porcos, que foi a primeira que fiz, e A Caolha, que foi a última, já tem muita diferença na estética. Levei isso como mais um passo no processo de aprendizado.

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“Além de abordar questões que diziam respeito à mulher branca, a Júlia considerava relevante representar a situação de uma camponesa cabocla que sofria as consequências do patriarcado, ou desromantizar a maternidade com uma trabalhadora negra”

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No posfácio do livro você trata um pouco da história da Júlia Lopes de Almeida, fala como a obras dela tinham como proposta tratar do “universo feminino e tudo o que ela considerava politicamente relevante dentro desse universo”. Ainda assim, como você mesmo lembra no texto, se trata “de uma pessoa branca e feminista nascida em 1862”. Quais foram as principais reflexões e os maiores desafios surgidos durante esse processo de adaptação de Ânsia Eterna levando em conta todo esse contexto da autora?

O que mais me deixou surpresa, e consequentemente envolvida, foi o fato de eu ter me identificado com as histórias. Como que eu, uma pessoa da “geração y”, poderia me identificar com personagens e situações que foram narradas dentro de um contexto de mais de um século atrás? E depois eu acabei concluindo que mais de um século é pouco tempo. Porque hoje ainda vemos uma diferença muito grande entre uma história que foi contada sob um ponto de vista feminino e outra que foi contada sob o ponto de vista masculino. E ainda se fala sobre questões internas, ou seja, questões sobre ser mulher, muito parecidas. Naquela época falava-se muito sobre emancipação feminina e isso desencadeou as primeiras críticas à desigualdade salarial e outras injustiças que acontecem dentro do mercado de trabalho. Mas essa evolução do feminismo não significa que as pautas mais antigas, relativas à emancipação, foram resolvidas; essa questão permanece atual.

Além de abordar questões que diziam respeito à mulher branca, como a de ser idealizada pelos homens como a mãe perfeita dos seus filhos (Ânsia Eterna), a Júlia considerava relevante representar a situação de uma camponesa cabocla que sofria as consequências do patriarcado (Os Porcos), ou desromantizar a maternidade com uma trabalhadora negra (A Caolha). Mas sabemos que o feminismo negro só foi surgir um século depois do nascimento da Júlia, lá nos Estados Unidos, então a perspectiva dela não tinha como ser muito interseccional no sentido como entendemos hoje.

No posfácio acabei mencionando a posição social da Júlia para criar um link com o assunto da construção de personagens, mais especificamente da Caolha.

No posfácio você também fala sobre a sua decisão de “não limpar a barra” da autora em relação a algumas ideias racistas expressas por ela. Você poderia falar um pouco sobre os diálogos que teve e as reflexões que a levaram a seguir essa decisão?

Se as características físicas da caolha são descritas sob um ponto de vista racista e eu faço a personagem do mesmo jeito, eu simplesmente reproduzo essa ideia. Era essa a pulga que estava atrás da minha orelha, então abri uma discussão sobre isso no grupo de facebook do Minas Nerds. Nada melhor que minas nerds para falar sobre isso. Uma moça me disse que seria muito mais enriquecedor deixar a personagem como é descrita no conto original e adicionar um posfácio ou uma nota de rodapé que apontasse esse problema. Eu concordei e resolvi adotar essa abordagem.

Ânsia Eterna é o seu primeiro quadrinho, certo? É o seu trabalho de estreia e ele já está saindo por uma das editoras que mais tem colocado novos títulos a cada mês. Tendo em mente novos autores que também gostaria de publicar por grandes editoras, você pode falar um pouco do seu caminho das pedras até chegar ao Sesi?

Uma coisa positiva que eu fiz foi escrever o projeto. Quando eu estava bem no comecinho da produção, me inscrevi no Proac. O projeto não passou, mas o fato de ter escrito e pensado muito sobre ele organizou bem as ideias na minha cabeça. Sem isso eu não saberia muito bem justificar minhas escolhas nem compreender a relevância da HQ. E depois eu queria investir em divulgação, então publiquei um dos capítulos para leitura online, gratuitamente. A partir daí eu tinha mais segurança para fazer uma apresentação do projeto. Mandei e-mail para três editoras e a SESI me respondeu 5 meses depois para fecharmos o contrato. Foi um dia de champanhe rs.

Em relação ao período em que você passou estudando e pesquisando quadrinhos na França, eu fico curioso sobre as expectativas que tinha de publicar seu primeiro trabalho e a repercussão dessa obra. Desde o seu retorno ao Brasil, qual leitura você tem feito da cena local de quadrinhos? Você vê muito diálogo entre o que viu e viveu na França e o que tem vivido por aqui hoje (em festivais, feiras e debates sobre quadrinhos)?

Para ser sincera o que aconteceu foi que eu saí do armário como quadrinista, porque antes do curso eu tinha certeza absoluta de que nunca faria quadrinhos. As aulas lá na França fizeram com que eu me apaixonasse por fazer quadrinhos, mas a ideia de fazer o Ânsia Eterna surgiu depois que já tinha voltado para o Brasil. E também foi quando voltei que comecei a conhecer a nossa cena, e eu leio devagar, ou seja, ainda tem muitas obras essenciais que eu não li. Mas a minha impressão geral é que nossa cena ainda é jovem e fresca, ainda mais podendo comparar com a França, que tem uma tradição pesada (no bom sentido) de quadrinhos. Lá o mercado é mais consolidado e os quadrinhos fazem parte da vida dos franceses, no geral. Sempre conto a história do dia em que eu peguei o jornalzinho do metrô e tinha uma notícia anunciando o lançamento de um gibi. Isso para a gente é meio fora da realidade. Estudando em uma escola de lá e lendo os quadrinhos de lá eu percebi por exemplo um academicismo no desenho que não temos por aqui, e justamente por causa disso, aqui existe uma liberdade criativa muito maior.