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Entrevistas / HQ

Papo com Marcello Quintanilha, o autor de Luzes de Niterói: “Do meu ponto de vista, o horizonte apresenta nuvens de tempestade”

Luzes de Niterói é a primeira grande HQ brasileira a chegar às livrarias nacionais em 2019. Publicada na França e em Portugal no final de 2018, a obra de Marcello Quintanilha lançada pela editora Veneta tem 232 páginas coloridas e é livremente inspirada em um dia de caos vivido pelo pai do autor, o ex-futebolista Hélcio Quintanilha, nos anos 50. O álbum também é o primeiro projeto longo longo do quadrinista publicado em português desde Talco de Vidro (2015) e Tungstênio (2014) – nesse intervalo foram lançadas as coletâneas Hinário Nacional (2016) e Todos os Santos (2018).

Eu entrevistei o autor brasileiro residente em Barcelona e transformei essa conversa em matéria para o jornal Folha de São Paulo. Você lê o meu texto para a publicação clicando aqui. Depois, recomendo a leitura do álbum e da entrevista a seguir, a íntegra do meu bate-papo com o quadrinista. Nós conversamos sobre a relação dele com futebol, a produção de Luzes de Niterói, algumas de suas memórias de infância e as impressões dele sobre o governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro. Saca só:

“O aspecto da região foi se solidificando mais e mais para mim a medida em que seus componentes iam dando adeus cotidianamente, dizimados pela locomotiva do progresso”

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

Luzes de Niterói é o seu primeiro livro longo desde Talco de Vidro e marca um retorno ao mundo dos subúrbios fluminenses, cenário da maior parte das suas histórias curtas. O que essa ambientação representa para você?

Não se pode voltar ao que nunca se deixou para trás. O aspecto da região foi se solidificando mais e mais para mim a medida em que seus componentes iam dando adeus cotidianamente, dizimados pela locomotiva do progresso, a medida em que as fábricas iam fechando as portas, as vilas operárias sendo descaracterizadas, os campos de futebol, loteados. O que resta, vive comigo. Essa ambientação em relação a Luzes de Niterói representa a comunhão com um país que emergia economicamente no período do pós-guerra, com sua característica indústria cinematográfica, repositório de um conjunto de coisas e valores dos quais infelizmente nos afastamos gradativamente, mas que são o alicerce da atual cultura brasileira de massas. Representa também a recuperação do mito do futebol brasileiro oriundo das fábricas, berço do esporte no país.

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

Luzes de Niterói é a sua HQ mais pessoal?

Não, sob nenhuma hipótese. Todas as minhas histórias advém daquilo que me constituiu como ser humano e não estabeleço uma escala nesse campo — todas são o que eu sou.

Qual a memória mais antiga que você tem da presença de quadrinhos na sua vida?

Os quadrinhos publicados nos jornais nos anos 1970, Brucutu, Dick Tracy, etc.

Qual a memória mais antiga que você tem da presença de futebol na sua vida?

Uma transmissão de rádio. O timbre transistorizado da voz de Jorge Curi retinindo pela casa de luzes misteriosamente apagadas. Anos 1970.

“A coluna vertebral da HQ é integralmente baseada no que ouvi sobre o dia da temporal, assim como toda a atividade intramuros do cotidiano dos jogadores”

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

O quanto da experiência do seu pai como jogador de futebol você levou para o quadrinho? Há muito dos relatos que você ouviu dele nessa HQ?

Muito, muito, muito. A coluna vertebral da HQ é integralmente baseada no que ouvi sobre o dia da temporal, assim como toda a atividade intramuros do cotidiano dos jogadores.

A literatura brasileira sobre futebol é composta principalmente por crônicas e relatos históricos e jornalísticos. Me refiro a trabalhos assinados por autores como Mário Filho, Nelson Rodrigues e, mais recentemente, Tostão. Há alguns anos foi publicado o livro O Drible, do jornalista Sérgio Rodrigues, um raro caso de literatura brasileira de ficção sobre futebol. Também não são muito comuns filmes com conteúdo ficcional sobre futebol. Você vê alguma particularidade no futebol que dificulta de alguma forma sua representação como obra de ficção?

Não, não vejo. O futebol é apenas mais um item no imenso catálogo de temas que jamais encabeçaram gêneros na ficção brasileira, a ponto de serem exauridos, posteriormente redescobertos e reinventados segundo novos parâmetros, partindo de um arcabouço consistente de histórias serializadas formado ao longo do tempo, em grande medida pela incapacidade por parte de diversos setores da produção de assimilar e, sobretudo, de se apropriar de suas premissas para a conversão em narrativa ficcional ultrapassando noções pré-estabelecidas.

Há uma corrente crescente por parte de fãs de futebol que questionam os rumos do futebol mundial, inclusive aquela que prega o “ódio eterno ao futebol moderno”. O que você pensa a respeito desse tema?

Nada é eterno.

“Meu interesse era criar uma palheta extremamente limitada, objetiva, de saturação média, ao mesmo tempo que nostálgica”

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

Você mora em Barcelona, cidade sede de um dos times mais tradicionais e conhecidos do mundo, um time com identidade de jogo e ideologia muito característicos, mas também representante desse tão questionado futebol moderno. Pelas suas obras é possível notar uma proximidade grande sua em relação a um tipo de futebol hoje considerado romântico – na falta de uma palavra melhor. A partir dessa perspectiva, você poderia, por favor, falar algumas das suas impressões sobre o Barcelona?

Uma vez sonhei em ser torcedor do Real Madri só para ter a oportunidade de aplaudir o Barcelona de pé no 0-3 da temporada 2005-2006 no Santiago Bernabéu.

Luzes de Niterói é o seu primeiro álbum colorido após três trabalhos em preto e branco. O que motivou o seu retorno às cores?

Novamente, não há um retorno. Esta idéia só faria sentido se a ordem de publicação dos álbuns correspondesse à ordem de confecção efetiva de cada um, o que nem de longe é o caso no que refere a mim. Como já declarei em outras ocasiões, trabalho de modo absolutamente anárquico, posso estar ocupado em vários projetos ao mesmo tempo, com vários registros distintos, de modo que tudo é fruto de um fluxo constante de atividade e álbuns que tenham sido publicados antes, não necessariamente começaram a ser produzidos primeiro. Sei que parece confuso. E é.

Quanto às cores, meu interesse era criar uma palheta extremamente limitada, objetiva, de saturação média, ao mesmo tempo que nostálgica, mas não necessariamente vintage e uma boa parte da pré-produção do álbum foi consumida neste fim.

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

Quais técnicas e materiais você utilizou para a produção de Luzes de Niterói?

Esboços e finalização em papel, a base de grafite, pastel oleoso e guache e cores digitais.

Eu gosto como você mantém grande parte dos quadros da HQ desalinhados, ele soam para mim como um ruído que intensifica a tensão da obra. Você pode, por favor, comentar esse recurso?

Na verdade, não mantenho grande parte dos quadros desalinhados, mas sim todos eles. Isto decorre do propósito de reforçar o quadro como unidade narrativa, em oposição à idéia de que esta unidade esteja sujeita à página, prescindindo dela como marco rítmico da leitura.

“Minha intenção, se podemos utilizar esta palavra, é a comunicação mais honesta em qualquer etapa da narrativa e todos os estágios da obra são tratados sob os mesmos fundamentos”

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

Eu gostei bastante de Luzes de Niterói, sendo a minha sequência preferida aquela na qual o Hélcio vê o ‘filme da vida dele’ enquanto tenta retornar à superfície. Enquanto lia, percebi que fui prendendo a respiração junto com o personagem. Foi essa a sua intenção? Houve alguma particularidade na construção dessa sequência enquanto você produzia o quadrinho?

Não, não houve nenhuma. Minha intenção, se podemos utilizar esta palavra, é a comunicação mais honesta em qualquer etapa da narrativa e todos os estágios da obra são tratados sob os mesmos fundamentos. Acredito muito na musicalidade do texto e no papel que esta musicalidade pode desempenhar uma vez codificada em quadrinhos, imbricando seu léxico de símbolos, criando um andamento peculiar, marcado por esse compasso, na minha forma de ver, oposto ao senso comum de ‘efeito cinematográfico’.

“As artes são sempre vítimas preferenciais dos sistemas de governo em contextos de crise, sejam econômicas ou institucionais”

Um quadro de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta

O que você tem lido, ouvido e assistido ultimamente? Há alguma obra em particular, seja filme, livro ou música que tenha chamado sua atenção recentemente?

Of Human Bondage, de John Cromwell; Cidades Mortas, de Monteiro Lobato; Pelote das la Fumée, de Miroslav Sekulic-Struja e Arraial da Curva Torta, com Capitão Furtado.

Desde 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita que acabou com o Ministério da Cultura e promete cortes em políticas públicas e sociais de fomento às artes. Como você acredita que a sociedade brasileira será afetada por essa realidade?

As artes são sempre vítimas preferenciais dos sistemas de governo em contextos de crise, sejam econômicas ou institucionais. Sintomaticamente, nos últimos tempos nos deparamos frequentemente com o diagnóstico de “crise de representatividade” como um dos alicerces da campanha do atual presidente, o que sempre considerei uma afirmação fascinante, porque ela define que a classe política deixou de representar os anseios da população, o que traz implícito a idéia de que em momento determinado ela se constituiu de fato em porta voz das aspirações dos cidadãos. Uma olhadela na história da república, no entanto, nos trará uma percepção ligeiramente diferente dessa.

Do meu ponto de vista, o horizonte apresenta nuvens de tempestade. 

A capa de Luzes de Niterói, HQ de Marcello Quintanilha publicada pela editora Veneta
Entrevistas / HQ

Papo com Emilly Bonna, a autora de Esgoto Carcerário: “É o resultado de um aglomerado de coisas que consumo desde a infância, de Castelo Rá-Tim-Bum a John Waters”

As 40 páginas em preto e branco de Esgoto Carcerário narram a saga de um penico cansado de sua vida como receptáculo de urina e fezes e em busca de seu sonho de virar um vaso de flores. Para alcançar seus objetivos, Nico Penico dá início a uma caça pela criminosa Alzira Morcegona, tendo em vista a recompensa para quem detê-la. Responsável pelo sequestro de três pessoas, Alzira mantém suas vítimas dentro do esconderijo no esgoto no qual vive na companhia de seu comparsa e amigo, o rato Mariano.

A quadrinista Emilly Bonna começou em 2017 a produção de Esgoto Carcerário e a HQ se tornou o primeiro lançamento de 2019 do selo Escória Comix. No projeto original, o título era o mesmo e também tinha Nico Penico como personagem principal, mas a história era outra. “O roteiro era completamente diferente, ficou bastante tempo parada, e quando quis retomar já tinha perdido o fio da meada. Então decidi refazê-la, reaproveitando o título, um penico e a ideia inicial de acontecer dentro de um esgoto”, explica.

Meu primeiro contato com o trabalho de Bonna foi em Portas do Inferno, coletânea publicada no final de 2018 em uma parceria da Escória com o selo Gordo Seboso. Em seu primeiro projeto solo, a autora usa designs de páginas convencionais e um traço singular – fofo e “empelotado de perebinhas gosmentas”, segundo o editor Lobo Ramirez – para narrar uma história com personagens originais e carismáticos como pouco se vê por aí. Bati um papo rápido com a quadrinista e ela me falou sobre a origem do quadrinho, suas inspirações e a produção da belíssima capa do gibi. Saca só:

Quadros de Esgoto Carcerário, HQ de Emilly Bonna publicada pelo selo Escória Comix

Você pode contar, por favor, um pouco sobre a origem desse quadrinho? Você lembra quando e como começou a elaborar a história que resultaria em Esgoto Carcerário?

No final de 2017 comecei uma outra história, anterior a essa, que também se chamava Esgoto Carcerário, acontecia em um esgoto e tinha o personagem Nico Penico. O roteiro era completamente diferente, ficou bastante tempo parada, e quando quis retomar já tinha perdido o fio da meada. Então decidi refazê-la, reaproveitando o título, um penico e a ideia inicial de acontecer dentro de um esgoto.

Quadros de Esgoto Carcerário, HQ de Emilly Bonna publicada pelo selo Escória Comix

Quais técnicas você utilizou para esse quadrinho? Você está acostumada a trabalhar com algum material específico?

Utilizei a técnica que costumo usar muito nos meus desenhos, que é a de pontilhismo, e os materiais básicos, papel e caneta nanquim.

Aliás, ainda sobre técnica: eu acho a capa do quadrinho incrível. Você usa nela a mesma técnica presente no miolo da obra?

Obrigada! Na verdade essa capa seria pintada a lápis de cor e colorida, mas o resultado acabou ficando desastroso hahaha. Uma solução foi deixar a pintura em PB, e adicionei alguns traços a caneta. O material do miolo é diferente, nele uso somente nanquim.

Quadros de Esgoto Carcerário, HQ de Emilly Bonna publicada pelo selo Escória Comix

Eu gosto principalmente dos personagens de Esgoto Carcerário. Quando você começou a desenvolver a HQ já sabia o destino e a história de cada um deles?

Cheguei a pensar no destino de alguns, mas os rumos da história mudaram bastante. O destino do Nico Penico foi o único que se manteve mais fiel no que eu tinha estipulado para ele inicialmente.

Quadros de Esgoto Carcerário, HQ de Emilly Bonna publicada pelo selo Escória Comix

Você teve alguma influência maior durante a produção desse quadrinho? Digo, houve alguma obra – seja quadrinho, música, filme, livro ou o que for – que te inspirou durante o desenvolvimento da HQ?

Não consigo citar uma influência específica durante a produção dessa HQ, ela é mais um resultado de um aglomerado de coisas que consumo desde a infância até os dias atuais, de Castelo Rá-Tim-Bum, que eu adorava ver quando criança, até os filmes do John Waters e coisas mais extremas.

Quadros de Esgoto Carcerário, HQ de Emilly Bonna publicada pelo selo Escória Comix

Aliás, o que você gosta de ver, ouvir e ler? Quais são as suas principais referências?

Gosto de ver conteúdos diversos, filmes de drama, terror, comédia, trash, desenhos do Cartoon Network de 2001/2008, gore dos anos 60/70, vídeos de brigas do programa A Fazenda entre o Theo Becker e o Dado Dolabella, bizarrices do site eFukt, como um homem enfiando um copo de vidro dentro do próprio ânus e quebrando, etc, etc. Sobre o que eu gosto de ouvir; meus hits do momento são as músicas da banda The Shaggs e as do Tiny Tim, inclusive coloquei no quadrinho uma música interpretada por ele, porque enquanto eu desenhava a cena ela ficava tocando na minha cabeça. A respeito do que leio, vou citar alguns que li recentemente; Confissões de um Crematório, da Caitlin Doughty; O Caso de Charles Dexter Ward, do H.P. Lovecraft, Asteroides: Estrelas em Fúria, do Lobo Ramirez; e Meu Amigo Dahmer, do Derf Backderf.

Eu conheci o seu trabalho por meio da coletânea Porta do Inferno. É muito diferente a experiência de desenvolver um projeto solo e outro com a presença de outros artistas?

Não é tão diferente, a experiência de fazer algo solo torna aquilo mais pessoal, principalmente porque eu posso explorar a temática que eu quiser. Em coletâneas geralmente o tema já está estabelecido, o que é legal também, pois a ideia sobre o que criar em cima dele flui mais rápido, na minha opinião.

A capa de Esgoto Carcerário, HQ de Emilly Bonna publicada pelo selo Escória Comix

Entrevistas / HQ

Está aberta a chamada para quadrinhos da 17ª Café Espacial: “Antes de qualquer coisa, publicar de forma independente é acreditar”

Está aberta até o dia 22 de abril a chamada para quadrinhos da 17ª edição da revista Café Espacial. Criada em 2007 pelo editor Sergio Chaves e pela jornalista Lídia Basoli, a revista é uma das publicações independentes de quadrinhos mais tradicionais do país. Você confere as informações para envio de HQs para publicação nesse próximo número clicando aqui, mas não tem mistério: a temática é livre, o quadrinho deve ser em preto e branco no formato 14 X 21 cm (ou proporcional) e ter até 13 páginas.

“O cenário independente no Brasil evoluiu bastante nos últimos anos, mas pensar qualquer produção artística e cultural hoje em dia se tornou um grande desafio”, diz Sergio Chaves em relação aos esforços para a continuidade da publicação em meio à crise que cerca o mercado editorial brasileiro e o reacionarismo crescente no país.

Bati um papo rápido por email com o editor da Café Espacial sobre as expectativas dele pra esse próximo número. Sergio Chaves falou sobre a decisão de retomar a revista após pouco mais de um ano de hiato, o desafio de escolher as obras que serão impressas na publicação e a linha editorial da Café Espacial. Papo massa, saca só:

A capa da 16ª edição da revista Café Espacial, assinada por Sergio Chaves

Por que começar agora a trabalhar na 17ª edição da Café Espacial? Como você define a data de lançamento de cada edição?

Queria ter feito isso muito tempo atrás, na verdade. Desde o lançamento da revista 16 (final de 2016, início de 2017) muitos fatores contribuíram para faltasse fôlego para pensar uma nova edição. Mas, diante de tantos retrocessos, a vontade de continuar produzindo falou mais alto. 

Todas as ações da Café Espacial são realizadas de forma independente, às vezes à margem e, muitas vezes, na contramão do mercado. Por isso mesmo, a revista é aperiódica, já que seu cronograma é definido conforme as vendas do nosso catálogo e, sempre que necessário, a possibilidade autoinvestimento. Apesar da incógnita que atravessamos neste ano, nosso plano é lançar a revista 17 e mais publicações sob o selo Café Espacial a partir do segundo semestre. 

A capa do 4º número da revista Café Espacial, assinada por Shiko

Como é o processo de seleção das obras que acabam impressas na revista?

É sempre desafiador. Como a proposta da revista é reunir trabalhos autorais de diversas áreas além dos quadrinhos, a seleção depende diretamente da sinergia entre os trabalhos disponíveis. E a decisão de não determinar um tema nos permite experimentar caminhos muito além do que tínhamos imaginado inicialmente.

Contamos com muitos colaboradores acessíveis para projetarmos um novo número, mas habitualmente abrimos espaço para novos autores para estimular novos olhares e abordagens na publicação. 

Muitas vezes, excelentes trabalhos ficam de fora justamente por não se encaixarem junto à seleção. Quando isso acontece, já começamos a desejar a edição seguinte. 

Você consegue sintetizar a linha editorial da revista após esses 16 números ou padrão temático nos quadrinhos publicados nela?

É algo que não procuro delimitar muito. A essência da Café Espacial sempre foi o autoral, e o fato das edições nunca serem tematizadas contribuiu muito para isso. 

Entendo quem tente ou que sinta a necessidade de apontar um padrão na revista, mas de minha parte, considero mais importante manter o olhar aberto para novas possibilidades dentro da publicação.

A capa da 15ª edição da revista Café Espacial, assinada por Samanta Flôor

Qual você acredita ser o papel potencial de uma revista independente de história em quadrinhos em meio à chegada ao poder de um governo de extrema-direita que acabou com o Ministério da Cultura e que promete cortes em políticas públicas e sociais de fomento às artes?

Tudo o que o governo tem praticado tem sido coerente com o seu discurso de campanha. Vivemos um período em que a desonestidade e a desinformação predominam. As últimas eleições deixaram isso muito claro. O problema não está na divergência política ou religiosa, já que muitas atrocidades são justificadas em nome de Deus. O problema está na pessoa bradando contra algo por pura ignorância ou má fé mesmo. Muitos votaram por afinidade de ódio e de mediocridade, com seus preconceitos validados no discurso do candidato que elegeram. Agora, todos sofremos com as consequências drásticas em todos os âmbitos.

O cenário independente no Brasil evoluiu bastante nos últimos anos, mas pensar qualquer produção artística e cultural hoje em dia se tornou um grande desafio. Mas a luta é essa. Se deixarmos de enxergar sentido na produção artística e cultural, daí sim será a verdadeira derrota para esse governo absurdo. O que me move continuar produzindo é justamente fortalecer a oposição ao obscurantismo cada vez mais escancarado. 

Talvez o papel basilar de uma revista independente seja o de instigar seus leitores a fugir do comodismo e a refletir sobre o mundo a partir de diversos pontos de vista e linguagens. 

Antes de qualquer coisa, publicar de forma independente é acreditar. Acredito na transformação por meio da arte. E vejo na Café Espacial uma das melhores formas de expressar isso. Para mim, é uma forma de resistência.

Quais são as suas expectativas em relação a esse 17º número da Café Espacial?

A nova revista ainda está ganhando forma, mas já estamos trabalhando para que seja a retomada de algo maior e que alcance um público mais amplo. Em outras palavras, as expectativas são as melhores possíveis, como sempre.

A capa da 10ª edição da revista Café Espacial, assinada por Susa Monteiro


Entrevistas / HQ

Papo com Emil Ferris, a autora de Minha Coisa Favorita é Monstro: “Estamos aqui para contar histórias e para ouvir, de peito aberto, para que cresçam nossa sabedoria e nossa empatia”

Minha Coisa Favorita é Monstro será lançado no Brasil no início do mês de março. A obra ganha edição em português após ser reconhecida com três prêmios Eisner (melhor álbum, melhor escritora e artista e melhor colorista) e com o Fauve d’Or, prêmio máximo do Festival de Angoulême. As 416 páginas da HQ de Emil Ferris foram desenhadas com esferográficas e canetinhas e compõem o diário ilustrado de Karen Reyes, uma menina de dez anos que se retrata como uma ‘lobismoça’ enquanto investiga o assassinato de uma vizinha sobrevivente do Holocausto num subúrbio da Chicago dos anos 1960.

Eu fiz duas entrevistas com Emil Ferris ao longo de 2018, uma no começo do ano e outra no segundo semestre. Essas conversas viraram matéria para o jornal Folha de São Paulo, na qual eu conto um pouco da história singular da autora e a longa saga de Minha Coisa Favorita é Monstro até sua chegada às livrarias. Recomendo a leitura do meu texto e, posteriormente, da entrevista a seguir, com a íntegra das minhas trocas de emails com Ferris. Nesse papo, a autora fala sobre as suas origens, conta um pouco da formação dela como artista e aborda algumas das inspirações que resultaram em Minha Coisa Favorita. Saca só:

[[a entrevista a seguir foi traduzida por Érico Assis, também tradutor da edição brasileira de Minha Coisa Favorita é Monstro, pela Companhia das Letras]]

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“Assim como todo cientista louco, eu fui ladra de túmulos enquanto criava o livro. Alimentei minha fome visual com tudo que ela queria”
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Página de Minha Coisa Favorita é Monstro, HQ da quadrinista Emil Ferris, lançada no Brasil pela editora Companhia das Letras

Você se lembra do momento em que teve a ideia de criar Minha Coisa Favorita é Monstro? Você poderia contar um pouco sobre a origem desse projeto?

Me veio a imagem de uma garotinha lobisomem protegida pela capa de chuva de um garoto mais alto com cara de Frankenstein. Aí eu pensei: ‘Que coisa curiosa. Por que essa imagem?’ A história se aglutinou em torno desse momento.

Eu li uma entrevista em que você conta como foi difícil encontrar uma editora para o livro. Você pode contar um pouco sobre essa jornada? Quanto do livro já estava finalizado quando você começou a apresentá-lo para editoras?

Acho importante que todo artista que esteja atrás de publicar seu livro saiba que o sucesso de Monstro não aconteceu da noite pro dia. Fico contente que saibam que 48 editoras recusaram o livro porque consideraram que era diferente demais e grande demais. Espero que outros quadrinistas animem-se e sejam mais PERSISTENTES!

Você poderia falar um pouco sobre as suas técnicas e os materiais que utiliza?

A maior parte do livro foi desenhada com canetas Bic e Flair. No início eu tentei desenhar em papel de caderno pautado, mas logo me dei conta que a edição e a tradução iam ficar impossíveis. Agora são desenhos que viram uma camada sobre uma camada de folha de caderno.

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“Fiz esse livrão monstro no isolamento total. Ninguém leu antes de eu terminar, então não tive ideia do que eu ia criando”
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Página de Minha Coisa Favorita é Monstro, HQ da quadrinista Emil Ferris, lançada no Brasil pela editora Companhia das Letras


Como é o seu ambiente de trabalho? Você poderia descrever o local no qual você criou Minha Coisa Favorita é Monstro?

No início eu estava trabalhando em um estúdio que ficava do lado dos trilhos do elevado e adorava o barulho do trem. Da minha janela eu conseguia ver as pessoas entrando e saindo dos trens. Como eu trabalho à noite, o trem iluminado e o elenco mutante eram minhas únicas companhias. Eu adorava morar ali. Mas aí a primeira editora não conseguiu publicar o livro, eu fui à falência e me despejaram. Agora estou em um apartamento horrível cheio de infiltração. Espero que em breve eu tenha como pagar um estúdio!

Eu gosto muito da singularidade de cada página de Minha Coisa Favorita É Monstro e das relações que você estabelece entre imagens e palavras. Você chegou a trabalhar com um roteiro fechado? Você teve alguma dificuldade em dar unidade ao livro em decorrência de toda essa variedade de designs e ideias?

No material promocional que eu enviei, descrevi o livro como uma espécie de monstro. É uma grande verdade. Assim como todo cientista louco, eu fui ladra de túmulos enquanto criava o livro. Alimentei minha fome visual com tudo que ela queria e a sorte que eu venho tendo é que os leitores parecem ter a mesma liberdade na experiência do livro que eu tive na criação.

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“Durante todos esses anos trabalhando no livro, eu me dizia: ‘Emil, é só seguir em frente.’ E ainda me digo, pelo menos uma vez por dia…”
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Página de Minha Coisa Favorita é Monstro, HQ da quadrinista Emil Ferris, lançada no Brasil pela editora Companhia das Letras

O seu quadrinho me fez pensar bastante sobre a relação entre o escapismo intrínseco à leitura de quadrinhos (e obras de ficção em geral), mas também sobre o ato de desenhar como uma busca por escapismo. Eu vi isso na Karen assim como via em mim e nos meus amigos durante a infância, um hábito que fomos perdendo enquanto crescíamos. Você poderia me falar da sua relação com o ato de desenhar? Como você começou a desenhar? Desenhar sempre foi parte da sua vida?

Gostei muito que você comparou desenhar ao ‘escapismo’ sadio! Respondendo: Nasci com um tipo de escoliose que me incapacitou muito, deixou meus pés muito pequenos e, por conta disso, só consegui caminhar quando tinha mais de dois anos. Como eu não podia explorar o mundo com os pés, explorava desenhando. O desenho, como meu ‘prêmio de consolação’, foi meu primeiro escapismo na vida — bem literal, aliás. Fico contente pelo desenho sempre ter feito parte da minha vida e por ter me ajudado em épocas difíceis ou sinistras. Espero, com toda sinceridade, que quem ler isto aqui – alguém que já amou desenhar, quem sabe – volte a seu bloquinho. Desenhar é uma das grandes maneiras de cultivar amor próprio e honrar o que a existência tem de belo.

Ainda sobre escapismo: obras de horror e ficção sempre existiram como uma forma de retratar a nossa realidade. Seja falando sobre a Guerra Fria, o consumismo da nossa sociedade, a nossa relação com o meio ambiente… Enfim, esses são temas sempre presentes em trabalhos do gênero. O quanto você acha que esse aspecto de obras escapistas acabou se perdendo com o tempo? Você ainda vê essa mesma preocupação em tratar dos dilemas da nossa realidade na ficção feita nos dias de hoje?

Outra grande pergunta. Acho que Nietzsche foi muito visionário ao apresentar o conceito do ‘Último Homem’, o que se contenta em ter uma vida centrada na segurança, no conforto e no prazer. É um modelo de vida que exige que você fique plugado na cultura das celebridades, obcecada pelo entretenimento, comprometida com a distração. Acima de tudo, a meu ver, este modelo não valoriza o empenho artístico nem uma missão ou visão pessoal e idiossincrática.

É uma tendência que me preocupa. Recomendo a quem quiser nadar contra esta ‘onda anti-cultura’, que queira criar um obra que seja particular e complexa, que se livre da televisão e se desligue do noticiário, da mídia, o quanto for humanamente possível.

Eu nunca estive em Chicago, mas sei da relação da cidade com arquitetura, museus, autores de quadrinhos e arte em geral. Você se vê influenciada por esse ambiente tão criativo?

Com certeza. Chicago não só está entre as grandes cidades do mundo, Chicago também é osso duro. Em 1871 a cidade inteira pegou fogo, mas ergueu-se das cinzas para redefinir arquitetura, arte e cultura. Ela não desiste fácil!

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“Quadrinhos são sussurrar uma história do jeito mais íntimo que se imaginar, bem no ouvido do leitor. É uma coisa muito, muito íntima, porque esse cochicho entra lá naquela cabeça e fixa residência na arquitetura que o componente visual construiu dentro da mente”
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Página de Minha Coisa Favorita é Monstro, HQ da quadrinista Emil Ferris, lançada no Brasil pela editora Companhia das Letras

Eu também li uma entrevista na qual você fala sobre as várias origens da sua família e de seus antepassados. Você poderia falar como todas essas raízes influenciaram a sua formação e a forma como você vê e cria arte?

Sou muito grata por ser – assim como a maioria das pessoas – toda remendada. Um Frankenstein, por assim dizer, de imigrantes, colonizadores e nativos. Essas origens, todas elas, são intensas e são complexas. Cada experiência tem uma mensagem forte que ilumina a dor e a beleza da vida. Na melhor das hipóteses, eu acredito que a herança ancestral de cada um pode nos ajudar a decifrar os problemas e grandes questões da vida de um modo que é mais pessoal e que cria uma narrativa. Na pior, nossa herança pode dar uma sensação de orgulho que é falsa e perigosa. Já vimos aonde isso leva.

Portanto, a meu ver, tendo uma parte da família de imigrantes mais recentes e outra parte de colonizados e colonizadores, eu penso muito em história. Penso em como ela vive conosco, consigamos ver ou não, porque tem vários sentidos em que nossa HISTÓRIA é o VERDADEIRO ‘Homem Invisível’. (Aqui estou pensando em Anka.)

DIGO ISSO PORQUE ESPERO MUITO QUE OS ARTISTAS CONTEM SUAS HISTÓRIAS DE FAMÍLIA. Nas Comic Cons, já ouvi artistas me contarem histórias dos ancestrais que me levaram às lágrimas.

Ou seja, boa parte do que digo aqui é direcionado a futuros autores às portas do sucesso e a leitores criativos (leitores também são grandes magos!)

Embora nossas raízes possam nos dar força e sustento, não creio que devíamos ser obedientes às raízes – em termos tanto do que elas desejam quanto da aptidão para nos segurar em um lugar só (no sentido que se quiser de ‘lugar’), mas principalmente no sentido artístico e espiritual. Acho que devíamos nos permitir contar nossas histórias de família, mas também nos dispormos a sair, como nômades, desenraizados, até os confins do mundos, e tentar entender as experiências dos outros no que elas têm de diferente. Também acredito que é assim que nós – como autores – armamos uma oportunidade para nossos leitores desenvolverem a empatia. Temos que nos decidir pela fidelidade às imaginações perfeitas que temos e nos empenharmos em ser de confiança quando formos levar gente na jornada que criamos.

Eu não sei se foi a sua intenção, mas o seu livro, para mim, trata de indivíduos singulares e da dificuldade de ser original e ver e pensar o mundo de maneiras singulares. Há um conservadorismo crescente no planeta que vê toda essa diversidade e originalidade de pensamentos como um problema. Você é otimista em relação ao mundo em que vivemos?

Sou muito, muito otimista. Tem uma mudança singular, grande e linda que eu acredito que vai acontecer em breve. Estamos aqui para um alçar o outro. Estamos aqui para contar histórias e para ouvir, de peito aberto, para que cresçam nossa sabedoria e nossa empatia. Eu acredito que somos conectados por uma energia. Quando uma pessoa fica mais sábia, mais bondosa, mais nobre no sentido humano, todos ficamos melhores. A maioria de nós anseia por amor. O amor sem disfarces e seus rebentos: aceitação, carinho e pertença. Quase todo mundo gosta de festejar quando supera os conflitos pessoais. Nos unimos através de toda Magia que nos torna humanos e creio que isso é uma coisa que, em breve, todo mundo vai descobrir.

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“Recomendo a quem quiser nadar contra esta ‘onda anti-cultura’, que queira criar um obra que seja particular e complexa, que se livre da televisão e se desligue do noticiário, da mídia, o quanto for humanamente possível”
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Página de Minha Coisa Favorita é Monstro, HQ da quadrinista Emil Ferris, lançada no Brasil pela editora Companhia das Letras

Eu li alguns artigos sobre os efeitos da Febre do Nilo Ocidental na sua vida. Quais foram as principais lições que você tirou dessa experiência?

A Febre do Nilo Ocidental em ensinou que, quando temos grandes dificuldades, pode ser que eles nos preparem para ter mais força e mais dedicação. Perder a capacidade de desenhar fez eu valorizar muito esses dons, de um jeito que não tem precedentes. Também fez eu me sentir vinculada ao empenho de outros. Às vezes, quando as coisas ficam bem difíceis, a simples capacidade de seguir em frente já é uma vitória. Durante todos esses anos trabalhando no livro, eu me dizia: ‘Emil, é só seguir em frente.’ E ainda me digo, pelo menos uma vez por dia… e o importante é que eu me obedeço. Eu sigo em frente.

Quando conversamos pela primeira vez, o livro já havia sido muito elogiado pela crítica especializada, mas agora você tem três prêmios Eisner por causa dele. O que esse reconhecimento significa para você?

Acordei na manhã seguinte à premiação e foi bem difícil acreditar que tinha acontecido. A homenagem é especial sobretudo por causa do imenso talento do senhor Eisner e porque muitos dos meus colegas, autores de dons extraordinários, e muitos amantes dos quadrinhos votaram em mim. Saber disso me deixa profundamente comovida!

Eu gostaria de saber sobre a sua relação com a crítica e com esse interesse crescente pelo seu livro por parte da imprensa. O que você sente ao ver o seu trabalho tão analisado e interpretado e tantas pessoas interessadas no seu quadrinho?

Fico lisonjeada e um pouco ‘perplexa’ por essa coisa toda. Fiz esse livrão monstro no isolamento total. Ninguém leu antes de eu terminar, então não tive ideia do que eu ia criando. Tal como o Dr. Frankenstein, eu não tinha ideia de que ele ia ‘viver’ até que a ‘eletricidade’ das imaginações dos leitores começasse a fluir pelos seus ‘ossos’.

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“Fico contente pelo desenho sempre ter feito parte da minha vida e por ter me ajudado em épocas difíceis ou sinistras”
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Página de Minha Coisa Favorita é Monstro, HQ da quadrinista Emil Ferris, lançada no Brasil pela editora Companhia das Letras

O que você pode contar sobre os próximos livros da série?

Karen vai crescer bastante. Em parte, isso foi difícil pra mim. Não quis que ela passasse pelo que ela tem que passar. Estou dando duro!

Qual a memória mais antiga da presença de quadrinhos na sua vida?

Quando eu tinha acho que um e meio ou dois anos, minha mãe me deu as Funny Pages (a página dominical de quadrinhos no jornal) para recortar e transformar em colagem. Eu gostava muito de recortar, colar e desenhar quando era pequena. Era assim porque eu não podia caminhar, devido à curvatura da minha espinha, então eu explorei o mundo no desenho. Eu gostava principalmente de recortar Ferdinando. Eu adorava as cores esmaecidas, o pontilhado. Adorava que a cor raramente fechava com os contornos. Eu transformava aquelas imagens nos meus gibizinhos de bebê, alegres e toscos.

O que são histórias em quadrinhos para você?

Quadrinhos são sussurrar uma história do jeito mais íntimo que se imaginar, bem no ouvido do leitor. É uma coisa muito, muito íntima, porque esse cochicho entra lá naquela cabeça e fixa residência na arquitetura que o componente visual construiu dentro da mente. Para mim, isso é uma mistura de teatro de bonecos, generosidade mágica e uma transfusão de sangue espiritual, tudo junto na mesma coisa.

(Ramon, dito isso tudo, há outras mentes dos quadrinhos melhores que a minha que podem dar mais complexidade a minhas ideias – sou relativamente nova nas HQs e tem muitos que sabem bem mais que eu!)

Você poderia recomendar algo que esteja lendo, ouvindo ou assistindo no momento? [pergunta feira em fevereiro de 2018]

Enquanto eu desenho, não consigo ler como gostaria, mas enquanto escrevo esta resposta eu ouço Pelléas e Mélisande, de Debussy. Ouço muito The Hanged Man, de Ted Leo, assim como o blues de Chicago e música dos anos 60.

Algumas coisas de quadrinhos que eu recomendo: How to Read Nancy: The Elements of Comics in Three Easy Panels, de Mark Newgarden e Paul Karasik; Fetch, de Nicole J. Georges; The Customer is Always Wrong, de Mimi Pond; Krazy: George Herriman, A life in Black and White, de Michael Tisserand; Legend, de Sam Sattin e Chris Koehler; King Kong, Skull Island, de Joe DeVito.

E livros textuais: The Girl With All The Gifts, de MR Carey.

Praticamente só vou no cinema, não assisto tevê. Achei A Forma da Água maravilhoso, assim como Vazante, Pantera Negra, Corra! e Uma Mulher Fantástica.

A capa da edição brasileira de Minha Coisa Favorita é Monstro
Entrevistas / HQ

Rodrigo Rosa e os planos da editora Figura para 2019: “É nessas crises que se renova a força de fazer coisas novas, mais desafiadoras”

Está no ar a campanha de financiamento coletivo do álbum A Máscara da Morte Rubra e Outros Contos de Poe, do quadrinista italiano Dino Battaglia (1923-1983). A publicação será o quinto título da editora Figura caso a vaquinha virtual alcance 100% da pedida de R$ 26 mil. O projeto propõe a publicação de um álbum em capa dura, de 96 páginas, reunindo oito adaptações feitas por Battaglia para contos assinados por Edgar Allan Poe.

“Acreditamos que, depois de trazer de volta a obra de Toppi e publicar um super clássico como Mort Cinder, chegar ao Battaglia era mesmo um caminho natural”, diz o quadrinista e editor da Figura, Rodrigo Rosa, citando dois dos trabalhos prévios publicados pelo selo – os dois volumes de Sharaz-de – Contos de As Mil e Uma Noites, de Sérgio Toppi, e Mort Cinder, de Héctor Germán Oesterheld e Alberto Breccia. Ainda compõe o catálogo da editora o álbum Crimes e Castigos, de Carlos Nine.

Ainda para 2019, Rosa adianta conversas com os editores de uma obra que ele diz ser um sonho de publicação por parte da Figura. “É algo de muita importância, e que, caso consigamos fechar um acordo, será nosso maior desafio editorial. Vamos torcer…”, pede. Na conversa a seguir, o editor faz um balanço sobre os lançamentos de seu selo no ano passado, fala um pouco sobre as perspectivas da Figura para 2019 e as estratégias pensadas por ele para administrar seus lançamentos em um mercado editorial em crise. Ó:

Quadros de Mort Cinder, trabalho de Héctor Germán Oesterheld e Alberto Breccia publicado pela editora Figura em 2018

Você pode, por favor, adiantar e comentar alguns dos lançamentos da editora em 2019?

Nosso primeiro lançamento é A Máscara da Morte Rubra e Outros Contos de Poe, obra que trará de volta ao Brasil o genial Dino Battaglia, depois de quarenta anos sem nada dele publicado aqui. Acreditamos que, depois de trazer de volta a obra de Toppi e publicar um super clássico como Mort Cinder, chegar ao Battaglia era mesmo um caminho natural. Esse livro reúne todos os contos do Edgar Allan Poe que o Battaglia adaptou ao longo de sua carreira, e inclui desde clássicos como A Queda da Casa de Usher ou o conto que dá título à edição, mas também obras que mostram um lado mais humorístico do Poe, como é o caso de A Peste. O livro está em campanha de financiamento no Catarse neste momento e começou muito bem. Ah, vai ter um texto do Marcello Quintanilha analisando a obra do Battaglia, o que nos deixa muito entusiasmados com essa edição.

Depois do Battaglia, estamos conversando com os editores de uma obra que realmente é um sonho nosso publicá-la. É algo de muita importância, e que, caso consigamos fechar um acordo, será nosso maior desafio editorial. Vamos torcer…

Em 2018 a Figura publicou os clássicos Mort Cinder e Crimes e Castigos. Como foi o retorno de vocês em relação a esses títulos?

O retorno com Mort Cinder tem sido sensacional. O livro tem tido uma acolhida entusiasmada do público e está em 90% das listas de melhores do ano. Mort é um dos meus quadrinhos fundamentais e eu brinco que a Figura já poderia fechar as portas depois de editá-lo, pois já teria cumprido seu dever. Com Crimes e Castigos a acolhida também é boa, mas é um livro mais difícil e de um autor que exige um pouco mais do público. Mas estamos muito orgulhosos de trazer a primeira novela gráfica do Carlos Nine ao Brasil, pois nos parece também um autor essencial.

Quadros de Crimes e Castigos, álbum de Carlos Nine publicado pela editora Figura em 2018

Quais as principais lições que a Figura tirou da crise das grandes livrarias que aflorou em 2018? Como a editora pretende lidar com essa crise em 2019?

Nós tivemos alguma sorte quanto à crise, pois quando ela estourou, nós estávamos apenas com o segundo volume de Sharaz-De distribuído, e boa parte dele já havia sido vendido. Então quando a crise bateu de vez, nós começamos a apostar cada vez mais na venda direta, e é esse o modelo que queremos seguir aperfeiçoando. Também estamos mais próximos as comicshops, negociando direto com eles. Mas o negócio do livro, como tem sido feito ao longo das últimas décadas, acreditamos que é mesmo insustentável. Simplesmente não vale à pena para uma editora como a nossa.

Como a editora está lidando com a chegada ao poder de um governo de extrema-direita que acabou com o Ministério da Cultura e que promete cortes em políticas públicas e sociais de fomento às artes?

A gente sente que, para a cultura como um todo, o cenário deve ser trágico. Mas também creio que é nessas crises que se renova a força de fazer coisas novas, mais desafiadoras. É como comprar uma briga mesmo, no melhor dos sentidos. De nossa parte, pretendemos publicar livros que sejam provocadores dessa onda moralizadora que, não nos enganemos, ataca tanto da direita quanto da esquerda. Achamos, por exemplo, que o Crimes e Castigos já é uma resposta a isso. É um livro de um humor muito ácido, onde o autor não poupa ninguém, simplesmente nenhum personagem ali vale nada (risos). Mort Cinder, por ser um livro de Oesterheld, com a história dele e pela própria mensagem que está por trás de muitas das histórias, também tem um recado a dar. Não vi ninguém se dar conta ou falar disso até agora, mas a última HQ do livro, A Guerra das Termópilas, de 1968, talvez seja das primeiras histórias com um fundo homoerótico dos quadrinhos.

Uma página de A Máscara da Morte Rubra e Outros Contos de Poe, trabalho do italiano Dino Battaglia que está em campanha de financiamento coletivo no Catarse para publicação pela editora Figura
Entrevistas / HQ

Companhia das Letras abre 2019 com Minha Coisa Favorita é Monstro e promete André Dahmer e Caco Galhardo

A editora Companhia das Letras promete para março de 2019 o lançamento da edição brasileira de Minha Coisa Favorita é Monstro, álbum da quadrinista americana Emil Ferris vencedor de três prêmios Eisner em 2018 e do Fauve D’Or  do Festival de Angoulême em 2019. Logo em seguida, para o mês de abril, está previsto o lançamento de uma coletânea de tiras de Caco Galhardo e depois deverá ser publicada uma coletânea dedicada à série Os Malvados, de André Dahmer.

Ainda pelo selo Quadrinhos na Cia, no segundo semestre de 2019 deverá sair a HQ autobiográfica Heimat, da alemã Nora Krug. E entre as publicações ainda sem data de publicação constam uma parceria entre Lilia Schwarcz e do Spacca com um álbum sobre Lima Barreto; um livro de Rafael Sica com roteiro de Paulo Scott; a coletânea Todo Wood & Stock, com a íntegra do trabalho de Angeli com os personagens; a também coletânea Manual do Minotauro, da Laerte; a adaptação de Os Miseráveis assinada por Marcatti; a adaptação de Laura Lannes para A Obscena Senhora D, de Hilda Hilst; e O Aleph de Botafogo, parceria da escritora Simone Campos com a quadrinista Amanda Paschoal Miranda.

No post de hoje da série de entrevistas do Vitralizado com editores de quadrinhos, compartilho um papo rápido por email com o escritor Emilio Fraia, editor do selo de HQs da Companhia das Letras. Na conversa, ele fala sobre os principais lançamentos da Quadrinhos na Cia para 2019, comenta a crise das grandes livrarias e conta um pouco da repercussão de títulos lançados em 2018 – como Sem Volta, O Idiota, A Revolução dos Bichos e A Origem do Mundo. Papo massa. Ó:


Tira da personagem Lili a ex, do quadrinista Caco Galhardo

Você pode, por favor, adiantar e comentar alguns dos lançamentos da Quadrinhos na Companhia em 2019?

O mais esperado é o Minha Coisa Favorita é Monstro, da Emil Ferris (com tradução do Érico Assis), que deve ser publicado logo mais, em março. O livro foi o grande vencedor do Eisner (além da categoria principal, de Melhor Álbum, Ferris ganhou como Melhor Colorista e Melhor Roteirista/Desenhista), venceu também o prêmio principal em Angoulême, além de ter levado o Ignatz Indie Comics Award e encabeçado todas as listas de melhor graphic novel do ano. É absolutamente genial e vem se juntar a clássicos da Quadrinhos na Cia., como Maus e Persepolis.

Em abril, vamos publicar uma reunião de tiras, cartuns e histórias mais extensas do Caco Galhardo. Vai ser uma edição bem bonita, uma espécie de best of, com todos os personagens mais famosos dele, Chico Bacon, Pequeno Pônei, Lili a ex etc., apresentação do Reinaldo Moraes, sobrecapa que vira pôster. Devemos colocar nas livrarias também o aguardado Os malvados, do André Dahmer, que é hoje um dos principais cronistas em atividade do país.

No segundo semestre, o grande lançamento será o Heimat, da alemã Nora Krug (tradução do André Czarnobai). A autora, que tem 40 anos, viveu boa parte da vida fora da Alemanha e quando regressa ao país vai em busca da história dos avós, tentar descobrir como foi a vida deles durante a guerra. Heimat é uma palavra que significa ‘pertencer’, ‘pertencimento’. Krug conta que muitos alemães da geração dela sabem pouco do que aconteceu com suas famílias nesse período. É uma história autobiográfica, um olhar novo sobre as atrocidades do nazismo, e as técnicas de desenho e colagem que a autora usa são incríveis.

Temos no horizonte ainda uma nova parceria da Lilia Schwarcz e do Spacca com um álbum sobre o Lima Barreto; o novo livro do Rafael Sica com roteiro do Paulo Scott; o Todo Wood & Stock, do Angeli; o A Batalha, do Guazzelli com roteiro da Fernanda Veríssimo; o Manual do Minotauro, da Laerte; a adaptação do Os Miseráveis, do Marcatti; A Obscena Senhora D, da Hilda Hilst, que a Laura Lannes está fazendo; O Aleph de Botafogo, parceria da escritora Simone Campos com a quadrinista Amanda Paschoal. E mais algumas surpresas.

Tira da série Malvados, trabalho de André Dahmer que será publicado em coletânea pela Companhia das Letras

Eu queria saber mais sobre a dinâmica do seu trabalho com os autores nacionais do selo. Você é escritor e já foi roteirista de uma HQ (Campo em Branco, com DW Ribatski), como tem sido o seu diálogo com os quadrinistas brasileiros com trabalhos a serem publicados pela Quadrinhos na Companhia?

Em livros como o do Caco Galhardo, por exemplo, é mais um trabalho de selecionar e ordenar o material. Mas varia muito. No momento, há um projeto (sobre o qual não posso falar ainda) que está sendo feito a partir de um diálogo muito produtivo, desde a ideia inicial, tudo. Ou seja, não tem uma regra. Cada trabalho pede um tipo de intervenção, organização e acompanhamento.

Entre as minhas publicações preferidas da Quadrinhos na Companhia em 2018 estão Sem Volta, O Idiota, A Revolução dos Bichos e A Origem do Mundo. Qual foi o retorno do público em relação a esses títulos?

Foi muito bom. A revolução dos bichos e A origem do mundo estão indo para a primeira reimpressão. A repercussão desses dois livros, praticamente sem investimento de marketing, nos deixou bastante felizes. O Sem volta foi muito comentado (foi eleito o melhor álbum do ano pelo Globo), teve uma resposta incrível nas redes. O idiota, que é uma adaptação ousada, sem falas, um trabalho sofisticado do André Diniz, tem nos surpreendido positivamente também. Agora, claro, acredito que o mercado para este tipo de HQ, de alta qualidade narrativa e que ao mesmo tempo deseja falar com um público amplo, pode crescer muito.

E em relação a jovens autores brasileiros, o selo tem em vista projetos de autoria de novos nomes da cena nacional de HQs?

Sim, temos álbuns sendo produzidos, mas tudo ainda bastante no início.

Tira com os personagens Wood & Stock, criações de Angeli que serão reunidos em uma coletânea pela Companhia das Letras em 2019

Quais as principais lições que você, como editor da Quadrinhos na Companhia, tirou da crise das grandes livrarias em 2018? Como o selo pretende lidar com essa crise em 2019?

Quadrinhos são caros para ser impressos. Então, num momento de crise, esse tipo de livro é especialmente impactado. Acho que precisamos cada vez mais encontrar a nossa comunidade, os leitores desse tipo de trabalhos. Seja através da internet, seja em eventos ou em lojas voltadas para este público  – o trabalho que figuras como o Douglas e a Dani Utescher fazem na Ugra ou o Gui Lorandi na Monstra, por exemplo, é incrível.

Como a Companhia das Letras está lidando com a chegada ao poder de um governo de extrema-direita que acabou com o Ministério da Cultura e que promete cortes em políticas públicas e sociais de fomento às artes?

Com a consciência de que o momento pede a publicação de livros inteligentes e de qualidade.

Páginas de Minha Coisa Favorito é Monstro em processo de edição nos computadores da Companhia das Letras