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Entrevistas / HQ

Está no ar a terceira temporada do Novo Amanhecer: “Somos o que há de mais próximo de uma igreja evangélica no mundo dos quadrinhos”

Está no ar a terceira temporada do projeto Novo Amanhecer. Criado em 2016 por Gabriel Góes, Oriol Barberà e Pedro D’Apremont, a série de tiras e quadrinhos hospedada em novoamanhecertm.tumblr.com chega ao seu terceiro ano de publicações com atualizações diárias e a participação de Batista, Rafael Coutinho, Flavushh e Bárbara Malagoli. Além da continuação de títulos fixos do projeto – como a tira do Novo Amanhecer (que dá título ao projeto), Billy Soco e Jinx – foram incluídas na nova leva de publicações séries como Jesus Idoso, por Batista; Férias de Verão, por Flavushh; Tiger Fist, por Gabriel Góes e Oriol Barberà; e Pedro & Luiz, por Batista e Rafael Coutinho.

Bati um papo por Skype com Gabriel Góes, Oriol Barberà e Batista sobre os planos para o Novo Amanhecer nessa terceira temporada do projeto. Em meio a lamentos em relação à concorrência desleal dos memes, eles lembraram da origem do Novo Amanhecer, falaram sobre os planos para cada série e cogitaram a possibilidade de um final inesperado para um dos principais títulos do site. Saca só:

“Os memes já ganharam, nós tomamos uma surra deles”

Tiger Fist, por Gabriel Góes e Oriol Barberà.

“Não gostamos de falar de Guerra nas Estrelas, não gostamos de falar de super-heróis e nem de quadrinho falando sobre quadrinho”

O que é o Novo Amanhecer?

Oriol Barberà: O Novo Amanhecer… Vamos ser formais?

Gabriel Góes: Não, é só alegria. Vamos ser alegres.

Oriol: O Novo Amanhecer é uma família, quase como uma seita. A gente ainda não tem roupas que combinem, mas aos pouco estamos pensando em criar uma família ainda maior. Nós nos reunimos uma vez por ano, na Des.Gráfica, e tentamos renovar a nossa energia. É o mais perto que tem de uma Igreja Evangélica no mundo dos quadrinhos.

Gabriel: Mas com masturbação coletiva.

Oriol: Isso não é verdade, é só o Coutinho e o Gabriel que se tocam.

E como surgiu o Novo Amanhecer?

Oriol: O Novo Amanhecer nasceu uma vez que eu, o Gabriel Góes e o Pedro Dapremont sentamos…

Gabriel: O Pedro estava meio triste.

Oriol: É. Nós sentamos e tentamos animá-lo, como família, uma coisa que ele não tem. É um menino triste, um menino que foi abandonado muito cedo pelos pais e apanhou muito da vida. Aí criamos a ideia do Novo Amanhecer, às vezes nós até nos vestimos com umas capas muito legais. Não é mentira.

Gabriel: E também temos máscaras. E uma vez que estamos juntos, colocamos as nossas máscaras.

Oriol: Todo mundo que entra no Novo Amanhecer ganha capas e máscaras. Aí uma vez por ano a gente se junta e faz nossa pequena seita. Cada ano é um pouquinho diferente. Mas algo muito importante para o Novo Amanhecer é que as pessoas não podem ser chatas, não podem ficar enchendo o saco… O que mais Gabriel? Fala alguma coisa. Nas tiras do Novo Amanhecer não pode nenhuma piada posterior aos anos 70. A tira na qual nasceu o Novo Amanhecer não tem nada, nada, nada, nada de posterior aos anos 70. Não gostamos de falar de Guerra nas Estrelas, não gostamos de falar de super-heróis.

Gabriel: Não pode quadrinho sobre fazer quadrinhos.

Oriol: Não pode quadrinhos sobre fazer quadrinhos!

Jesus Idoso, por Batista.

A primeira temporada entrou no ar há dois anos, certo?

Oriol: Há dois anos!

Batista: Em 2016.

Oriol: Começamos com o Pedro Dapremont, o Gabriel Góes, eu… Éramos só três e o Batista entrou na segunda. Tínhamos a tira do Novo Amanhecer, de onde veio o nome da nossa pequena seita. Tinha o Billy Soco, do Gabriel, e também o Daví e Bróder, do Pedro Dapremont. Na segunda temporada entrou o Batista e a Bárbara Malagoli. Ela entrou com o Jinx e o Batista com o Dupont & Dupont, os cowboys gays, a coisa mais bonita que publicamos até agora. Também a Enterprise Empreendimentos S.A., a nossa tira mais fraquinha, sobre o Capitão Kirk viajando no tempo e tendo que trabalhar em uma empresa como corretor de seguros. E o JCVD.

Gabriel: Uma dupla de Brasília produz esse material misterioso pra caramba. Não conhecemos as pessoas ainda. Sabemos que é o JC e o VD, eles produzem juntos esses quadros, essas ilustrações magníficas, mas ninguém sabe quem eles são.

Férias de Verão, por Flavushh.

“A tira do Novo Amanhecer vai ser uma grande surpresa, vai mudar completamente a cena dos quadrinhos brasileiros”

Qual é a programação para essa próxima temporada? Vai ter gente nova? Séries novas? 

Batista: Eu vou começar uma série nova chamada Jesus Idoso, com a premissa que Jesus morreu, ressuscitou e por aqui ficou. Então ele ficou velho e a vida pra um idoso na Galileia não é fácil.

Oriol: Não é fácil mesmo, a aposentadoria não é fácil, principalmente quando você já morreu, né? Ninguém quer dar aposentadoria pra quem já morreu.

Batista: É, tem toda uma burocracia terrível, enfermeiras sem preparo… Essa é a minha, eu trabalhando com essa cabeça sempre muita excitada e ansiosa e, por isso, faço muito cartum. No Novo Amanhecer eu tenho esse tempo e essa frequência na qual posso fazer uma tira e uma sequência sem a ansiedade que o dia a dia me dá. Eu faço muito cartum por ansiedade. Então está sendo legal, tô fazendo a minha segunda tira, eu já tentei fazer outras tiras com ideias legais ao longo do meu dia a dia, mas a ansiedade toma conta. No Novo Amanhecer eu consigo desenvolver essa linguagem, algo que sempre quis fazer. Eu aprendi a ler lendo tiras. Eu até sei fazer mais do que eu achava, de tanto que já absorvi do formato. Pro Novo Amanhecer eu posso dizer que é a segunda tira que eu faço, tira longa, com uma ideia longa, é isso.

Oriol: Batista, você é muito bom. O Batista também vai fazer junto comigo e com o Gabriel Góes a tira do Novo Amanhecer. Como eu não sei desenhar, escrevo, e os dois desenham. A tira do Novo Amanhecer vai ser uma grande surpresa, vai mudar completamente a cena dos quadrinhos brasileiros… Na verdade eu posso dizer: nós vamos cancelar a tira do Novo Amanhecer na metade da temporada.

Batista: Um dos caras do Novo Amanhecer vai ser acusado de algum ato libidinoso equivocado e a gente vai ter que cancelar pra salvar o Novo Amanhecer.

Oriol: Na verdade a gente vai…

Gabriel: Não, não, não! O que vai acontecer é que a gente vai cancelar, vai acabar com a tira. Vai acabar. Como a gente tem preguiça de ficar postando o ano inteiro, funcionamos por temporadas de cinco meses e morremos de preguiça de fazer quadrinho. Ninguém lê e a gente vai cancelar. Essa é a surpresa desse ano. Spoiler. Spoiler alert! Pode avisar pro mundo que vai ser cancelado.

Oriol: E ninguém dá bola pra gente, ninguém dá bola pra nada que a gente faz. Mas retomando: além da tira do Batista, ele também vai assinar uma tira com o Rafa Coutinho, a Pedro & Luiz.

Batista: Isso, a Pedro & Luiz. O Rafa me pediu pra escrever uma história de amor entre dois homens, aí eu escrevi a Pedro & Luiz. Já escrevi 20 capítulos, vão sair mais 20 e começa a ser publicado no Novo Amanhecer. Mas nessa pegada meio de saco cheio de fazer, vão sair duas por mês.

Oriol: É sobre um casal gay. Eu não vi ainda a tira.

Batista: É, o Pedro tem 28 anos e o Luiz 56. O Pedro tá se firmando profissionalmente e o Luiz tá se aposentando. O Pedro tá conhecendo pessoas e o Luiz fechando ciclos. O Pedro tá ganhando dinheiro e o Luiz perdendo dinheiro. Eles se amam, são casados e acho que vai ser bom pra preencher uma cota. O Novo Amanhecer foi cobrado no Ministério Público de acusações infundadas e agora a gente tá pagando cotas pra sociedade.

Oriol: Tínhamos a Dupont & Dupont, mas não tínhamos sexo com idoso. E o Batista foi realizar essa demanda com o Coutinho sobre sexualidade com idoso.

Batista: Coloca aí que os desenhos do Coutinho… Aliás, pode dizer como se fosse você Ramon, vai ficar parecendo mais verdade, diz que o Rafa tá desenhando umas cenas de sexo tão brutais de boas que somente um homem que já esteve lá saberia desenhar. Ele é um talento, me surpreende mais a cada dia.

Pedro & Luiz, por Rafael Coutinho e Batista.

“A gente cansou de quadrinho, queremos fazer apenas propaganda”

Tem mais alguma série nova no projeto?

Oriol: Teremos a Tiger Fist. Tira nova, escrita por mim e desenhada pelo Gabriel, sobre um saxofonista de free jazz muito bom, vítima de um acidente de carro e que perde as mãos. Quando ele vai pro hospital, como as mãos são perdidas, ao invés de colocar novas mãos, os médicos colocam duas cabeças de tigre.

Gabriel: Para salvar a vida dele, os médicos colocam mãos de cabeças de tigre no lugar das mãos dele.

Oriol: Aí ele não pode mais tocar free jazz, ele fica muito mal com isso. Ao mesmo tempo ele ganha uma grande força por ter uma cabeça de tigre em cada mão. Aí ele treina com um ieti no Himaláia, aprende a lutar artes marciais e começa a lutar contra os illuminati, o Google e o Facebook.

Gabriel: Tem toda uma conspiração. É muito original. Ela foi recusada pela Vice nos Estados Unidos, disseram que era muito previsível, eles não quiseram usar.

Oriol: Acho que eles não entenderam que estávamos debochando deles, acharam que não era piada. O que mais temos?

Gabriel: Temos a Flavushh. É a estreia da Flavushh na nossa página. Chama Férias de Verão o trampo dela. É lindo. É meio frustante pra gente, ficamos nos esforçando pra caralho e dá pra ver que ela faz aquilo com uma facilidade incrível. É tocante o material dela. Ela lançou recentemente um fanzine que chama Ensimesmada, uma beleza. Tem um pira corpórea e um final completamente chocante, achei perturbador. Vale demais ler. Ela é muito nova e está sendo assimilada agora para a nossa seita pseudo-cristã.

Batista: Tem também a continuação de Jinx da Bárbara Malagoli. Ela dá continuação ao trabalho dela do ano passado. O JCVD continua e é isso. E não falamos do Billy Soco, ela também é continuação do ano passado.

Gabriel: Na verdade o Billy Soco é mais um grande jabá, com novos produtos do Billy Soco. A gente cansou de quadrinho e queremos fazer apenas propaganda.

Oriol: Queremos ficar ricos.

Pedro & Luiz, por Rafael Coutinho e Batista.

E qual vai ser a periodicidade de cada tira?

Oriol: O Novo Amanhecer, a tira, sairá a cada semana, sempre às segundas, por Gabriel Góes, Batista e Oriol. Toda terça terá a Jesus Idoso, do Batista. Quarta, Billy Soco, os comerciais, por Gabriel Góes. Quinta, Férias de Verão, da Flavushh. Sexta-feira é Jinx, pela Bárbara Malagoli. Sábado vai revezar o Pedro & Luiz, do Rafa Coutinho com o Batista, e o Tiger Fist, meu e do Gabriel. O JCVD também pode entrar aos sábados, pra preencher os buracos. É um esforço, fazer cinco meses, não dá pra fazer dinheiro, ninguém dá retorno, mas é assim…

Gabriel: Dane-se o público.

O quanto vocês já têm adiantado de cada série?

Gabriel: Na verdade já temos uns três anos adiantados, é bizarro. A tira do Novo Amanhecer, por exemplo, já planejamos até 2024, mas não vamos chegar lá, vamos cancelar no meio da temporada. Vai acabar.

Oriol: Pode ser que renasça algo diferente das cinzas…

Gabriel: Não. Eu acho que não.

Oriol: Faz tempo que eu estou querendo fazer quadrinhos pra crianças…

Batista: Criança não sabe ler.

Billy Soco ® , por Gabriel Góes.

Eu quero saber sobre a dinâmica do trabalho de vocês. Como vocês trabalham juntos? Um interfere muito no desenvolvimento do trabalho do outro?

Gabriel: Temos um ritual, é um encontro no qual acontece a masturbação coletiva.

Oriol: Esse encontro é na Des.Gráfica, sempre em novembro.

Gabriel: Lá eu fico implorando pras pessoas colaborarem e aí começa ficar chato, porque eu vou mandando emails todos os dias, eu ligo pras pessoas, depois eu começo a aparecer na casa da pessoa pessoalmente e tento derrubar a porta. Até que fica chato e aí a pessoa é obrigada a participar. É mais ou menos assim que funciona. Depois é isso, começamos a ameaçar a vida dos colaboradores e eles acabam mandando direitinho.

Oriol: Às vezes a gente pede por favor e eles colaboram também. Ligamos pra eles…

Novo Amanhecer, por Gabriel Góes e Oriol Barberà.

Mas eu quero saber sobre o desenvolvimento mesmo. A tira que o Batista tá fazendo, ele mostra pra vocês? Vocês dão opinião no trabalho dele e ele no de vocês?

Oriol: Sim. O que fazemos normalmente: a gente troca emails uns meses antes de começar, vemos quem quer fazer cada coisa. As pessoas podem fazer o que quiserem. Se fizer uma foto do cocô que fez cada dia a gente vai publicar. Não tem nenhum mínimo filtro para que as pessoas que fazem parte do Novo Amanhecer tenham passado a fazer parte da família.

Gabriel: Não tem filtro!

Oriol: Algumas pessoas que são um pouco mais inseguras mandam no nosso grupo de email o que fizeram e pedem um conselho. Normalmente o nosso conselho é: ‘É muito bom! Publica!’. Não temos nenhum direito de falar um pro outro o que faz. Nunca vi ninguém falando um pro outro o que fazer.

Gabriel: A gente publica, não tem crivo, não temos escrúpulos.

Oriol: Alguém pode perguntar o formato do arquivo em que pode mandar, mas mais nada. A última vez que o Pedro mando por carta não foi legal…

Gabriel: A exceção é a tira do Novo Amanhecer, com tiras muito rígidas, muito específicas.

Oriol: É a única com regras. Aquilo que te falei: não pode ter nada depois dos anos 70, não pode ter quadrinho falando sobre quadrinho, não pode quadrinista falando sobre quadrinista, não pode ser autobiográfico e nem inteligente, não pode ter super-heróis. E muito importante: não pode ser engraçado. Tem que ter uma tira de morte a cada duas normais, mas a gente meio que erra e acaba sendo uma tira normal a cada três de morte. A gente acaba só escrevendo sobre morte.

Gabriel: Eu falo pro Oriol fazer mais tira sobre boquete e menos sobre morte.

Oriol: Eu não fiz nenhuma sobre peru ainda.

Batista: E foi assim que começamos a ter que pagar as coisas pro Ministério Público.

Novo Amanhecer, por Batista e Oriol Barberà.

“Quem não lê a gente, tá lendo coisa errada”

Também não tem regra pra formato, certo?

Oriol: Isso é uma merda, eu vou começar a fazer o Instagram do Novo Amanhecer e tô fudido. Mas tudo bem. Não tem formato, se quer mandar 20 páginas pode mandar. A única coisa que tem regra é a tira do Novo Amanhecer, é só uma tira, com três quadros e não pode ter mais nem menos. Só peço pras pessoas não mandarem arquivos muito pesados, meu Gmail não aguenta.

Batista: Acho que vale a lógica do scrooling também, né? Todo mundo olhou mais ou menos o que dava pra colocar naquela barra e se virou desenhando pensando naquela barra.

Vocês reclamaram que ninguém lê e estão indo pra terceira temporada do projeto. Porque continuar fazendo?

Oriol: A resposta é não. Ninguém gosta da gente.

Mas qual a motivação de vocês? Não ter um público grande não quer dizer…

Oriol: Eu te sigo no YouTube, Ramon. Não vem com drama não, tem pelo menos uma pessoa te seguindo sim.

Eu não tenho YouTube.

Oriol: No Tumblr então. Pode conferir que eu te sigo no Tumblr.

Enfim, porque continuar fazendo?

Oriol: Vamos não falar disso? A gente não gosta de falar disso.

Gabriel: Batista, responde pra gente?

Batista: Eu prefiro falar mal das pessoas. Quem não lê a gente, tá lendo coisa errada. Eu fico meio puto, saca? Fico vendo as pessoas lendo umas paradas e fico assim, ‘velho, como?’. Tá, tudo bem, diversidade, mas isso não é diversidade. Deveria estar lendo a gente. Eu fico mais frustado das pessoas não lerem a gente do que continuar fazendo quadrinho pra Gabrielzinho não aparecer na minha casa. Fico meio de cara com a galera não conhecer.

Gabriel: Todo mundo conhece todos os memes, mas ninguém conhece o Novo Amanhecer e nem o Ramon Vitral. Ninguém quer saber. Você já tentou fazer meme, Ramon? Você deveria fazer notícias com meme. Todo mundo deveria fazer meme.

Tiger Fist, por Gabriel Góes e Oriol Barberà

 

“Piada em papel, que parada mais cavernas de Lascaux”

Memes são concorrentes diretos de vocês?

Gabriel: Os memes já ganharam, cara.

Oriol: A gente toma uma surra dos memes.

Batista: As editoras acabaram, as gráficas acabaram, as telefonias acabaram… Tudo acabou! As pessoas que desenham piada em papel não teriam acabado antes disso tudo? É muito anacrônico. ‘Nossa, achei uma coisa muito engraçada, peraí que eu vou desenhar aí eu te mostro’. Piada em papel, que parada mais cavernas de Lascaux, sabe?

Oriol: O Gabriel dá aula de quadrinhos e as pessoas não chamam de quadrinhos, chamam de memes. Não é mentira!

Batista: O Ricardo Coimbra e o Ricardo Maron já passaram por isso também? Foram chamados de memes? O que é interessante também, dá pra dar um golpe. ‘Você faz quadrinho?’. ‘Não! Meme!’. ‘Ah, mas parece quadrinho!’. ‘Mas não é, é um meme’. ‘Mas eu nunca vi esse meme…’. ‘Ué, tem alguma coisa errada com você’.

Oriol: Nós temos uma média de seis pessoas por semana vendo as nossas tiras e estamos felizes. Não tem nenhum problema. Aliás, não procuremos que as pessoas gostem do que estamos fazendo.

Gabriel: O nosso meme que bateu recorde teve seis visualizações.

Oriol: Uma tira do Batista. Foi um meme proibido no Instagram, foi banido. Era do Dupont & Dupont.

Gabriel: Esse até bombou na internet, por ter sido proibido, por ser polêmico. ‘Ah, o cara sentou numa bengala, vamos proibir no Instagram!’.

Batista: Foi foda. Então, voltando à pergunta, porque continuar fazendo? Eu acho que pra, sei lá, romper as regras da sociedade.

Oriol: Eu faço porque já tenho outro emprego.

Gabriel: Eu quero revoltar o estômago das pessoas.

Batista: Eu quero tentar ser famoso.

Gabriel: Batista, eu falei que as piadas não podem ser engraçadas.

Oriol: Eu tenho um jeito melhor de ser famoso e rápido. Você coloca uma roupa de Super-Homem, vem pra São Paulo e fica andando pelas ruas um dia inteiro. Você vira famoso em dez dias. Você vira meme.

Gabriel: Você ja pensou em virar meme?

Batista: Nunca pensei em virar meme, boa proposta.

Oriol: Essa é a melhor entrevista de todos os tempos.

Gabriel: Ramon, foi um prazer.

Tiger Fist, por Gabriel Góes e Oriol Barberà

Entrevistas / HQ

Papo com Aline Zouvi, a autora da 17ª edição da coleção Ugritos: “Se há alguma sensação que quero passar, talvez seja essa de que o estranho e o familiar andam juntos”

Um dos principais lançamentos da Bienal de Quadrinhos de Curitiba 2018 será o 17º número da coleção Ugritos. A publicação é assinada pela quadrinista Aline Zouvi e tem o título Óleo Sobre Tela. A HQ de 16 páginas é toda ambientada dentro de um museu, tem como pano de fundo uma exposição das obras do pintor surrealista belga René Magritte (1898-1967) e acho melhor parar por aqui e não adiantar muito mais em relação à sinopse.

Com o lançamento do excelente Síncope no final de 2017, Zouvi se tornou um dos principais nomes da nova safra de quadrinistas brasileiros. Óleo Sobre Tela reforça a autora como uma artista a não se perder de vista, por conta de seu traço singular e sua narrativa ímpar. Conversei com a quadrinista sobre as origens e inspirações de seu mais novo lançamento, publicado pela editora Ugra Press. Dá uma conferida:

É a explícita a proposta surrealista de Óleo Sobre Tela e o diálogo do quadrinho com os trabalhos do René Magritte. O que veio antes: a história que você queria contar ou essa abordagem tratando dos trabalhos do Magritte?

O que veio antes foi a história. Há bastante tempo eu queria fazer um quadrinho sobre observar pessoas em museus – eu gosto bastante da temática, genericamente falando, dos bastidores. Perceber o estranho presente nas pequenas coisas que a gente faz todo dia, reconhecer esse silêncio confortável daquilo que acontece por detrás dos panos para que outras coisas legais possam acontecer. Gosto muito de pensar nesses tipos de histórias – sobre cochias de teatro, funcionários de museus, pessoas geralmente escondidas. O trabalho do Magritte me veio depois, de forma natural, pois sou apaixonada (obviamente, haha!) pelo seu modo de olhar as coisas.

Acho que mais do que uma história, o seu Ugrito se propõe mais a brincar com sensações e sentimentos. Algo bem parecido com os trabalhos do Magritte. Você tinha algum/alguma sentimento/sensação específico/especifica que queria passar para o leitor enquanto produzia esse quadrinho?

Acho perigoso fazer uma hq (ou qualquer outra obra) com um objetivo específico em mente, principalmente sabendo que não irei controlar a interpretação do outro sobre o que fiz. Se há alguma sensação que quero passar com este Ugrito, talvez seja essa de que o estranho e o familiar andam juntos. Essa leveza que vem dos quadros do Magritte eu considero interessante de trabalhar, como um exercício de reconfigurar minha visão de mundo e, quem sabe, transmitir isso pra mais alguém também. Mesmo enquanto não tão velhos, a gente já tem uma visão muito engessada da vida. Não tem muito espaço pra brincar, pra ser flexível, sabe?

O seu quadrinho me fez pensar muito na minha relação com museus, como esses espaços que lembram uma espécie de realidade paralela em que o tempo flui num ritmo diferente. Como é a sua relação com museus?

Minha relação com museus é familiar à posição daqueles que desenham: não visitamos museus 100% por trabalho, nem 100% por lazer. Há sempre um limbo a ser percorrido, e devo dizer que este limbo é muito agradável, apesar de às vezes poder ser sufocante. Me interessa muito esta ideia do museu como realidade paralela, pois o tempo realmente flui de outra forma quando nos deixamos absorver por uma exposição. De todo modo, ocupar e apoiar um museu não deixa de ser, também, um ato político. Escrevo isto um dia depois da tragédia do Museu Nacional (no Rio de Janeiro), e a perda histórica, material (e, por que não, sentimental) que sinto e que vejo meus amigos sentirem mostra bem essa nossa relação ambígua com museus: talvez não os visitamos tanto como devíamos, mas sua presença em nossas vidas, enquanto sociedade, é imprescindível.

Uma das graças dos Ugritos está na forma como cada autor faz uso desse formato fechado e pequeno, com um número limitado de páginas. Foi desafiador pra você trabalhar dentro dessas restrições?

Foi muito desafiador pensar em uma história de 16 páginas que tivesse um bom desenvolvimento e, principalmente, um desfecho interessante para o leitor. É como se não houvesse espaço pra respirar. Para mim, foi um desafio muito importante! Eu achava que pensar em narrativas longas era complicado mas, com esta experiência do Ugrito, vejo que o demônio mora, mesmo, nas 16 páginas. Haha!

No que você está trabalhando agora? Você tem mais alguma publicação à vista pra 2018?

Estou trabalhando na publicação que irei lançar na CCXP de 2018. Pretendo fazer uma coletânea de tiras de formato quadrado, pensadas especialmente para publicação via instagram. Estas tiras foram algumas das primeiras publicações que comecei a fazer, quando ainda estava experimentando linguagens e traços. Minha intenção é ordená-las (assim como produzir tiras novas) de modo que construam uma narrativa, quando postas em conjunto.

Entrevistas / HQ

Papo com Fabio Zimbres, coautor de Música para Antropomorfos: “Partimos do zero para criar uma coisa que não sabíamos o que era”

Rola hoje (23/8) aqui em São Paulo o primeiro evento de relançamento do álbum Música para Antropomorfos, HQ assinada pelo quadrinista Fabio Zimbres e pelo grupo Mechanics. O evento está marcado para começar às 18h, na loja da Ugra (Rua Augusta, 1371, loja 116), e contará com a presença de Márcio Jr., vocalista do Mechanics e um dos coautores do projeto. Eu estarei por lá pra mediar essa conversa com o quadrinista/músico, que depois participará de uma sessão de autógrafos. Você encontra outras informações sobre esse relançamento na página do evento no Facebook.

Eu escrevi sobre esse relançamento de Música para Antropomorfos pela Zarabatana Books para o caderno de cultura do jornal O Globo. Na matéria eu conto a trajetória do livro até aqui e falo sobre o desenvolvimento da obra, um clássico moderno das HQs brasileiras. Ontem eu publiquei por aqui a íntegra da conversa com Márcio Jr que deu origem ao meu texto e agora eu compartilho a minha entrevista com Zimbres. Então faz assim: leia o meu texto, leia a entrevista com o Márcio Jr., retorne para essa aqui com o Fabio Zimbres e apareça no evento de hoje à noite. Combinado?

“Era mais ou menos como se aquela música fosse trilha de algum filme, por exemplo. Eu ouvia a música e, com os olhos fechados, imaginava o que podia estar acontecendo”

Você lembra do convite do Mechanics para entrar no projeto que viria a ser o Música para Antropomorfos? Como você recebeu essa proposta?

Eu não tinha uma ideia definida de como seria o trabalho em si. Geralmente eu gosto desse tipo de proposta, você meio que sai do normal. Justamente por não saber exatamente que tipo de coisa seria, era mais atrativo ainda. Estávamos partindo do zero para criar uma coisa que não sabíamos o que era. E eu também gosto de me envolver com música, então existia esse outro atrativo.

A proposta do Márcio foi: ‘O Mechanics tem um disco novo e eu quero misturar com quadrinhos de alguma maneira, não sei como’. Ele deixou aberto para que eu imaginasse o que poderia ser isso. Eu perguntei se era um disco que vinha em um encarte. Aí ele disse: ‘Não. Pode ser isso, pode ser outra coisa, pode ser o que você imaginar. Pode ser o contrário, um livro que vem com um disco’. Então tava bem aberto no começo e eu achei isso legal. Na verdade, aos poucos a ideia foi se formando e virou um livro. Eu nunca tinha feito nada perto de uma graphic novel, com várias páginas. Uma vez que achamos um caminho as coisas foram se juntando aos poucos, a maneira de usar a música, como integrar o quadrinho com o disco, essa coisa de ouvir a faixa e ir imaginando alguma coisa e tal… Isso tudo foi sendo feito aos poucos, só a partir do momento em que eu pensei que poderia ser mesmo um livro autônomo, tipo uma graphic novel. A estrutura das faixas transformadas em capítulos foi mais ou menos o ponto de partida que orientou como fazer o resto.

“Os diálogos e os personagens foram surgindo em função da necessidade. Existia um certo improviso que é muito presente em tudo o que eu faço”

Você pode contar um pouco sobre a dinâmica de produção do quadrinho? Você já tinha em mente uma história que queria contar antes de dar início ao livro ou veio tudo enquanto você ouvia as músicas?

Eu acho que teve um pouco das duas coisas. O processo mesmo era ouvir faixa por faixa e imaginar uma relação entre imagens e músicas. Era mais ou menos como se cada música fosse trilha de algum filme, por exemplo. Eu ouvia a música e, com os olhos fechados, imaginava o que podia estar acontecendo ali. Muitas vezes eram paisagens, desertos ou qualquer outra coisa. Eu conseguia imaginar aquela música como trilha para algo que estava rolando, uma câmera se movendo em algum lugar. A partir da música eu imaginava um clima e dentro daquele clima uma história se desenrolando. Eu não tinha uma história ainda, eu tinha uma série de imagens abstratas ou soltas, que não significavam muita coisa, apenas o que a música me sugeria. Daí eu anotava essas ideias que vinham em cada faixa.

Ao mesmo tempo, eu tinha uma série de coisas anotadas ou na minha cabeça a respeito de ideias que poderiam virar histórias. Há um tempo que eu vinha lendo as histórias do Hércules na mitologia grega e pretendia aproveitar certas trechos como tema para uma história em quadrinhos. Também queria trabalhar com aparições inexplicáveis – ao longo do livro ocorrem várias aparições inexplicáveis que mudam o rumo da história. Eram coisas que estavam mais ou menos na minha cabeça, como essa ideia dos robôs, meio de ficção científica, mas que não tinha nada a ver com o trabalho em geral, a ideia de um monte de gente vivendo dentro desses robôs. Em geral eu faço coisas meio intimistas, personagens pensando consigo mesmo, e eu queria que essa história, tendo algo a ver com rock, fosse mais pop, mais próxima de uma aventura, mais próxima de algo de ação do que as histórias que eu costumo fazer. Então eu estava empurrando pra ficção científica. Essa ideia de que um robô poderia abrigar várias pessoas acabou caindo bem.

Eram coisas que eu ia pensando e juntando com histórias abandonadas e consegui achar um espaço pra elas dentro de cada capítulo. Eu tinha a ideia da estrutura, com capítulos mais ou menos independentes que construíam uma ideia única, como um romance formado por contos. Pra esses contos eu tinha uma ideia geral e ao longo do tempo fui criando uma espécie de plot. Eu sabia o que poderia acontecer naquele conto, mas eu realmente fazia no momento em que sentava e ‘bom, vamos fazer esse capítulo agora’. Os diálogos e os personagens foram surgindo em função da necessidade. Existia um certo improviso que é muito presente em tudo o que eu faço. Eu geralmente imagino uma coisa geral na minha cabeça, começo a desenhar e as coisas vão surgindo.

Então apesar de ter uma estrutura que eu fui criando e orientando pra fazer essa espécie de romance, na hora de sentar e produzir ainda tinha muito espaço pra improvisar. Surgiu das músicas, das ideias bastante abstratas que elas me sugeriram, e coisas um pouco mais concretas em termos de ação foram sendo estabelecidas aos poucos. O resultado final ainda teve um input de criar ali na hora, diálogos e mudanças de plot que acabavam surgindo no momento de desenhar.

“Eles me pressionaram, ‘Pô, tá demorando’. Acho que levei uns três anos pra fazer o livro, uma coisa mais ou menos do meu ritmo. Imaginando um livro tão grande, três anos tá bom até”

Em qual momento você apresentou para banda o que havia produzido? Você já estava com o quadrinho finalizado?

Desse detalhe eu não me lembro. No momento que surgiu a ideia de ser essa espécie de romance, eu falei: ‘Ó, quero fazer um livro, vão dar umas 10 páginas por capítulo, com umas cento e tantas páginas, é isso que tô imaginando’. O Márcio deu liberdade total, eu não tinha dado nenhuma ideia prévia e ele topou na hora. ‘Ah, beleza, se é isso que você quer fazer, vamos fazer, não se preocupa se dá pra fazer, se temos dinheiro ou não’. Ele tinha a estrutura das músicas e eu fiz a minha primeira ‘leitura’ delas, a partir da qual eu anotei algumas palavras-chave. Eu devolvi essas palavras-chaves pra eles terminarem as letras, que surgiram dessa minha viagem inicial nas músicas. As letras só foram completadas depois, a partir dessas ideias meio genéricas que eu tive.

Era uma coisa meio paralela, eles sabiam o que eu estava fazendo, mas não me lembro quando apresentei alguma coisa para eles. Acho que foi só quando eu terminei tudo. Não sei se eu gostaria de mandar em pedaços. Depois eles iam começar a criticar, então… Talvez eu tenha mandado o livro todo pronto, não tenho certeza se fui mandando aos poucos, acredito que não. Até por eu não ter começado pelo capítulo um, comecei pelo segundo e queria fazer o primeiro já imaginando um pouco o que ia acontecer nos outros, por ser uma história meio cíclica. Iam ter coisas do capítulo um que eu precisaria referenciar em trechos que eu não havia desenvolvido ainda. Com certeza não fui mandando capítulo por capítulo, mas eu não me lembro realmente do processo. Eu lembro que demorou muito. Eles reclamavam, o disco já estava pronto e eles se dedicaram bastante em termos de produção, fizeram a mixagem, já tava pronto e eu ainda tava no meio do livro. Eles me pressionaram, ‘Pô, tá demorando’.

Acho que levei uns três anos pra fazer o livro, uma coisa mais ou menos do meu ritmo. Imaginando um livro tão grande, três anos tá bom até, e não era uma coisa que eu podia me dedicar o tempo todo. Eu fazia nos intervalos. A minha parte demorou bastante. Tô chutando três anos, mas talvez tenha sido mais. Realmente demorou e acho que só mandei o final. Eu prefiro assim. Se você mostra aos pedaços, as pessoas começam a imaginar coisas, a sugerir, e eu gosto de ter liberdade de fazer e mudar.

Eu queria saber mais sobre a sua relação com as músicas. Como foi criar a partir de trabalhos tão abstratos como essas músicas sem letras?

O ponto inicial foi imaginar como se fosse um filme. A música era a trilha de alguma coisa e essa coisa poderia ser qualquer coisa. Eu fechava o olho e via um deserto e uma câmera se movendo nele como se fosse um carro. Ou então um quarto ou uma pessoa morta. Cada faixa era como se fosse um mini-trilha pra um curta. Pelo menos nesse primeiro momento eu não estava muito preocupado com uma certa unidade. Eu pulava de curta pra curta e achava alguma coerência entre a música que eu ouvia e a imagem que eu estava vendo. Uma coisa sugeria a outra. Tinha uma certa unidade com as faixas, mas eu sabia que no final das contas queria ter peças de uma coisa maior. De certa forma, fui ouvindo e forçando a barra pra que certas faixas se comunicassem.

Eu inclusive mudei a ordem das músicas. Eles me mandaram numa certa ordem e não sei se era a ordem que eles já tinham previsto pro disco. Eu ouvi e anotei aquelas ideias e percebi que mudando um pouco a ordem poderia criar essas peças que via como um conjunto. A parte abstrata, a música, acabou entrando assim, imaginando como filme, como cinema. Depois da atmosfera e do clima, eu fui imaginando personagens e ações que poderiam estar ocorrendo dentro desse contexto. As ações foram sugeridas por esse ambiente, que foi sugerido pela música. Aí nessas ações entraram essas ideias prévias que eu tinha a respeito do Hércules e coisas que eu gostaria de desenhar, como um robô andando em um cenário destruído e coisas assim, bem abstratas, bem abertas e que eu tinha vontade de desenhar. Eu tinha que imaginar que tipo de história está ocorrendo por trás disso que justifique um robô passando por um robô destruído. São coisas que fui juntando na cabeça e dando forma aos poucos.

Qual a origem dessas referências que você fez à história do Hércules?

Eu procurei os textos clássicos sobre ele. Os textos clássicos que descreviam as aventuras e os trabalhos dele, sobre a relação dele com Hera – de onde veio o nome dele, Herácles vem de Hera, a mulher de Zeus. A Hera perseguiu o Hércules, o atormentou a vida inteira por ciúmes, por ele ser o filho de Zeus com uma mortal. Ele vive uma série de situações interessantes, até a morte dele, uma espécie de… Bem, não chega a ser um sacrifício. No Música o personagem cai do robô que tá voando, fica em chamas pelo atrito com o ar e cai num poço de petróleo. E o Hércules originalmente morreu com um unguento que queimou a pele dele. Ele foi pro Olimpo sem a pele, ardia tanto que ele mesmo arrancou.

Eu não fazia questão de fazer uma descrição tão literal das coisas. Eu gostava das histórias que aconteciam com ele. Tem um personagem no livro que é Hera, alguns dos trabalhos estão citados ali, esse final dele pegando fogo e tal. Isso tá no livro.

“São dois robôs, dentro de um robô eu usei um estilo de desenho, fora desse robô um segundo estilo, no segundo robô a mesma coisa, no interior um estilo e no exterior outro”

Você poderia me falar um pouco sobre as técnicas que utilizou no livro? Como você determinou a estética do livro e qual material utilizou?

Cada capítulo foi feito em um estilo. São seis distintos, mas existem quatro momentos que formam a estrutura. São dois robôs, dentro de um robô eu usei um estilo de desenho, fora desse robô um segundo estilo, no segundo robô a mesma coisa, no interior um estilo e no exterior outro. Tem um capítulo intermediário e um capítulo inicial que usam outros estilos também. Cada estilo eu fiz de uma maneira diferente. Em um eu desenhei a lápis e ampliei o desenho pra ficar bem estourado, em outros eu desenhei na mesma proporção que seria impresso, com caneta. Ah, tem aquele capítulo em homenagem ao Jack Kirby, que também não tá dentro dessa estrutura que falei, é um capítulo à parte, com outro estilo ainda, seria um sétimo. Nele eu usei um outro tipo de caneta.

De certa maneira eu usei vários estilos que já dominava, eu já tinha feito várias histórias usando aquele material – lápis ampliado com contraste aumentado, nanquim e pincel, nanquim e bico de pena, desenho com canetinha um pra um e caneta grossa pra fazer o Jack Kirby -, então tinha uma série de coisas que eu já tinha lidado antes, não inventei nada de novo. Na verdade, as histórias que têm o desenho muito miudinho, bem pequenininho, que se passam dentro de um segundo robô, eram uma coisa que eu não tinha feito antes. Quando eu cheguei nessa parte, como seria dentro do segundo robô, do SF, eu meio que empaquei, não sabia pra onde ir. Foi mais ou menos a primeira vez que fiz essa coisa de diálogo pesado e desenho muito pequenininho e miúdo. Mas a técnica de desenho era coisa com que eu já lidava há bastante tempo.

O quadrinho foi lançado há mais de dez anos e está ainda mais atual. São sociedades capitalistas e industriais em crise, com as populações locais sendo exploradas por um sistema e por governos ditatoriais. Você também fica com essa impressão que ele ficou ainda mais atual com o passar dos anos?

Sim. É difícil eu me classificar como um autor político. Eu nunca fiz charge política. Já me envolvi como eleitor ou como apoiador de uma política ou outra, mas não com o meu trabalho. Não como outros autores, como o Dahmer, por exemplo. O meu trabalho não se insere na política dessa maneira, não acontece. Mas eu tenho trabalhos que no final das contas acabam lidando com os temas que tenho na minha cabeça e muitos deles são políticos.

Tem a história do Apocalipse Segundo o Dr Zorg, o primeiro Minitonto, que foi republicado agora pela Fantagraphics [nota do editor: a HQ mencionada por Zimbres foi publicada no segundo número da revista NOW], com o pessoal dizendo que ainda é relevante, é coisa de 20 anos atrás. Em geral, cada quadrinho que eu faço é um projeto em que eu me envolvo, crio certas coisas novas e depois vou pra um próximo. Não fico muito tempo envolvido com nada depois de lançar. Sai e eu já tô mais ou menos indo pra uma outra coisa.

Quando eu li a introdução que o Gerlach escreveu, falando que no quadrinho tem um golpe, em que derrubam a rainha e matam ela… (risos) Ele ficou surpreso e eu fiquei ainda mais por essas coisas ainda reverberarem hoje em dia.

De certa forma, eu não sou uma pessoa pessimista, mas o meu trabalho, de certa maneira, é pessimista e o mundo realmente está piorando. É horrível ter razão nesse sentido. Você desenha uma distopia e essa distopia vai ser ultrapassada pela realidade que tá ainda pior, isso é horrível. Mas no final das contas, se você é pessimista e vê as coisas dessa maneira meio sombria, você não pode negar, tem que trabalhar aquilo, desenhar aquilo. O que não quer dizer que eu não tenha humor, que eu não brinque. Algumas pessoas até se referem ao meu trabalho como um trabalho de humor. De qualquer maneira, eu sou meio pessimista em relação às coisas e as coisas estão piorando mesmo…

Eu pensei exatamente nessas figuras ditatoriais do começo da história. Elas estão se proliferando na nossa realidade…

Sim, pois é. É um golpe mesmo, personagens matando pessoas que estavam anteriormente apoiando pra ocuparem o poder. Os objetivos deles são bem escusos e é isso que a gente vê hoje em dia. Quando o Gerlach comentou isso eu falei: ‘Na época eu achava que era só uma ficção científica’ (risos). Eu não tava fazendo um comentário de política na época.

E sobre esse interesse recente crescente no livro. Ele tem uma edição colombiana, certo?

Tá sendo organizada agora uma edição em Portugal, pela Chili com Carne. Já tem um tempão que eu tava falando de fazer na França, mas sempre acontece alguma coisa. A gente não consegue produzir, fica sendo adiado e ainda não chegou a rolar. Mas é legal que saiu em espanhol, uma língua que circula mais fácil que o português. Na Colômbia eles tinham interesse no meu trabalho e não sabiam muito bem o que fazer e eu tinha o livro já pronto. Eles acharam interessante começar uma relação fazendo uma coisa que já tava pronto, no caso o Música.

O livro já foi bastante comentado e falado, mas como não tem uma edição em inglês a disseminação é lenta. O desenho também é mais atraente pra quem curte essa coisa autoral, que gosta do Gary Panter e essas coisas do tipo. Mesmo as pessoas não sabendo do que se trata acham divertido, mas enquanto história precisa de uma tradução pra pessoa poder entrar nela. É um momento interessante, acho que tem uma certa confluência com o Música estar saindo agora e com essa história ter sido traduzida na Now #2. Saíram críticas comentando e o pessoal gostou, o editor ficou empolgado.

Na verdade, a carreira internacional do Música, se pode ser chamada de carreira, tá acontecendo agora. Na Colômbia foi publicado no ano passado, em Portugal deve sair no próximo ano. E acredito que ainda tenha alguma tradução pra rolar aí.

Mesmo aqui no Brasil, eu fico com a impressão que vai chegar em um público que sempre ouvir falar no livro, mas nunca leu.

É, a tiragem original foi pequena mesmo. O Márcio fez o que dava na época. Ele disse que ia sair e realmente saiu, mas não tinha tanta estrutura pra distribuir e aumentar a tiragem. Me lembro até que, como a encadernação era meio artesanal ele tinha um amigo dentro da gráfica, o amigo comprou a ideia e caprichou na produção. Eu tenho inclusive a impressão que ele tinha até mais páginas rodadas, mas não tiveram condição de montar e encadernar. Então foi uma coisa meio artesanal, feita na raça.

E o título? Quem definiu?

Fui eu que dei. Eu tava escrevendo e não tinha a mínima ideia. Demorei bastante pra achar um título que me agradasse. Daí ficou esse aí, mas foi uma das últimas coisas. Acho que a história já estava pronta. Demorou muito pra fecharmos.

Entrevistas / HQ

Papo com Márcio Jr., coautor de Música para Antropomorfos: “O que buscávamos era uma troca contínua no processo de criação”

Está marcado para amanhã (23/8), na loja da Ugra, aqui em São Paulo, a partir das 18h, o primeiro evento de relançamento de Música para Antropomorfos, álbum assinado pelo quadrinista Fabio Zimbres e pelos músicos da banda Mechanics publicado originalmente em 2007 e recém-retornado às livrarias pela editora Zarabatana Books. Eu estarei presente no evento para bater um papo com um dos coautores do projeto, o músico e também quadrinista Márcio Jr. Vamos?

Eu escrevi sobre o relançamento de Música para Antropomorfos para o jornal O Globo, contando a trajetória do livro, a dinâmica da relação entre Zimbres e o Mechanics durante o desenvolvimento do projeto e o produto final – um clássico moderno das HQs brasileiras. Eu recomendo a leitura do meu texto e, em seguida, a entrevista a seguir, uma conversa com Márcio Jr. sobre a jornada de Música para Antropomorfos até aqui. Prometo para amanhã a entrevista com Zimbres, contando a versão dele para essa mesma história.

“A atmosfera das músicas – sem letra – trabalhadas pelo Mechanics serviria de catalisador para a criação de uma HQ pelo Zimbres. O feedback do Zimbres, por sua vez, ajudaria a banda a definir o disco”

Qual a memória mais antiga que você tem dos conceitos que culminariam no Música para Antropomorfos/Music for Anthropomorphics? Você consegue lembrar da origem exata desse projeto?

É difícil precisar isso. Mas para entender o processo todo, tenho que ir ainda mais longe. Minha graduação é em Engenharia Civil. Entrei moleque na Universidade Federal de Goiás. 17 anos, cabaço de tudo. Era bom em matemática, passei de primeira no vestibular e tinha aquela mentalidade completamente infantil de fazer um curso que me garantisse financeiramente. Uma tolice de criança sem orientação. Meu lance sempre foi arte, música, quadrinhos, cinema. Terminei a faculdade em 1994 – ano em que montei o Mechanics. Em 1995, fui um dos criadores do Goiânia Noise Festival – atualmente em sua 24ª edição consecutiva. Tive uma loja de discos que reunia a nata da malandragem roqueira de Goiânia. Em 1998 fui um dos criadores da Monstro Discos – cujo primeiro título lançado é justamente um compacto do Mechanics chamado Sex, Rockets and Filthy Songs. Dava aulas de Matemática e Física em supletivos de 2º grau pra levantar uma grana e, no resto do tempo, me dedicava à Monstro e à banda. Quem conhece o rock alternativo brasileiro sabe o que a Monstro e o Goiânia Noise representam nacionalmente. Transformar Goiânia num pólo e referência para esta cena independente é algo de que me orgulho muito. Só que, passados cerca de dez anos, resolvi voltar a estudar – agora numa área mais próxima ao que eu já fazia. Queria pesquisar Rock e Quadrinhos, minhas maiores paixões. Parti então para um mestrado na Comunicação da UnB, já que em Goiânia, àquela altura, seria impossível lidar com esse tipo de objeto de pesquisa. O Mechanics, como banda, sempre teve a pretensão de lidar com hibridação de linguagens. O nosso primeiro álbum, Psycho Love (2001), já teve toda a concepção gráfica criada pelo Zimbres. Pensei então em radicalizar esse trânsito entre Rock e quadrinhos como a experiência empírica do mestrado. Foi aí que surgiu a ideia do Música para Antropomorfos. Na época, além da Monstro, eu tinha um outro projeto com dois amigos, os irmãos Thiago e Eliseu Xavier. Tratava-se de uma editora chamada Livros Voodoo. Lançamos, ali por 2005, a revista Voodoo!, que de certa forma antecipou essa coisa de publicação metida a besta, com impressão em pantone, páginas quádruplas, stêncil, etc. Zimbres também foi o astro da parada, com capa, entrevista e HQ inédita. Uma coisa que considero legal é que o Música foi o primeiro produto gerado no programa de pós-graduação em Comunicação da UnB.

O livro Música para Antropomorfos e o disco Music for Anthropomorphics saem em 2007. O seu mestrado de 2005 tem como título Histórias em Quadrinhos e Música Pop: Possibilidades de Interface. Qual a relação entre esse trabalho e o projeto que culminaria no quadrinho do Zimbres e no disco do Mechanics?

O lançamento oficial do Música foi em 2007 e ele foi justamente a experiência empírica do meu mestrado, que se dispôs a pesquisar as interfaces entre Rock e Quadrinhos. Me intrigava muito as razões pelas quais duas linguagens tão distintas (uma, gráfica e estática; a outra, sonora e efêmera) buscavam frequente diálogo. Uma coisa que a pesquisa revelou é que, além das capas de disco, o contato mais usual entre HQs e Rock se dá por dois caminhos próximos: a quadrinização de uma música; ou a transformação de uma HQ em canção. O que o projeto Música para Antropomorfos propôs foi algo de outra natureza. A atmosfera das músicas – sem letra – trabalhadas pelo Mechanics serviria de catalisador para a criação de uma HQ pelo Zimbres. O feedback do Zimbres, por sua vez, ajudaria a banda a definir o disco. Todo o processo criativo encontra-se registrado em um capítulo da dissertação que você mencionou. Em 2015, atualizei este capítulo – com todos os desdobramentos ocorridos no projeto desde então – e ele faz parte do livro que eu lancei, o COMICZZZT! Rock e Quadrinhos: Possibilidades de Interface.

“Existe uma autonomia possível na fruição do projeto: você pode ouvir o disco sem ler a HQ, e vice-versa. Mas seria impossível disco e HQ ser o que são sem a determinante interferência de suas contrapartes”

Eu tô aqui falando no “projeto Música para Antropomorfos/Music for Anthropomorphics” e “no quadrinho do Zimbres/no disco do Mechanics”, mas eu queria saber quais são as suas definições sobre isso tudo. Você chama de projeto? Que nome você dá pra essa empreitada conjunta? E o disco é do Zimbres tanto quanto o quadrinho é de vocês? Como partiu a decisão de como cada obra seria assinada? Aliás, você vê o disco e a HQ como obras autônomas ou é tudo uma mesma coisa?

Esta é uma questão interessante. A bem da verdade, nunca tentamos categorizar rigorosamente o projeto. Essa tentativa de encapsular a experiência proposta pelo Música para Antropomorfos/Music for Anthropomorphics é antagônica à sua própria natureza – híbrida, transmidiática e que lida com a dissolução de fronteiras entre linguagens. Havia, à época do lançamento, uma dificuldade em lidar com o material. Em uma loja (ou uma coleção), aquilo ficaria entre os livros ou entre os discos? Em uma revista, em que seção iriam resenhar o trabalho? De qualquer forma, era usual nos referirmos ao produto como disco/livro. Para mim, é um projeto que tem vários desdobramentos, como o COMICZZZT!, a exposição do Zimbres, os shows e agora o filme O Evangelho Segundo Tauba e Primal. Assinamos o livro como uma criação conjunta Zimbres/Mechanics – ainda que todos saibamos que ali o trabalho do Zimbres seja absolutamente preponderante. No disco ocorre o inverso, com uma predominância do trabalho da banda. Mas o álbum tem o Fabio creditado como co-autor de todas as letras. Como eu já disse, existe uma autonomia possível na fruição do projeto: você pode ouvir o disco sem ler a HQ, e vice-versa. Mas seria impossível disco e HQ ser o que são sem a determinante interferência de suas contrapartes. Esta foi a experiência proposta e levada a cabo. O nosso desinteresse em nomear e hierarquizar essa experiência diz muito de sua matéria-prima – móvel e, de certa forma, inclassificável.

Durante muito anos, antes que eu pudesse ler o Música Para Antropomorfos, sempre que ouvia o nome do quadrinho, pela sonoridade, eu pensava no Music for Airports do Brian Eno. Aí depois eu li o quadrinho e vi todo o peso da ambientação da HQ do Zimbres e no diálogo que vocês criaram entre as canções e o quadrinho… Enfim, essa ideia da Música Ambiente teve algum peso na origem do projeto?

O projeto Música para Antropomorfos jamais usou o conceito de música ambiente como referência. A ideia não era criar uma ambiência sonora para a leitura da HQ, tampouco criar uma narrativa em quadrinhos que materializasse imageticamente as músicas do Mechanics – que, por sua vez, nunca teve vocação para músicas incorporadas harmoniosamente a qualquer ambiente. O que buscávamos era uma troca contínua no processo de criação. As músicas – ainda sem letra, mas já com melodias vocais numa letra ininteligível – afetando a produção quadrinística do Zimbres; e seus desenhos, conceitos e páginas nos direcionando para uma formatação definitiva do disco. É possível ler o livro e escutar o álbum isoladamente – mas eles jamais seriam o que são sem processo de criação interdependente que existiu. Fruídos simultaneamente, o que se propõe são novas produções de sentido, nascidas dessa fricção.

De qualquer forma, ainda que o Music for Airports não fosse uma obra de cabeceira do Música para Antropomorfos/Music for Anthropomorphics, a abordagem do Brian Eno sempre foi um dos nortes da banda e, principalmente, do projeto. Aquela coisa da dissolução dos limites entre arte e ciência, ou ainda o processo criativo ao mesmo tempo cerebral e intuitivo sempre estiveram em perspectiva.

Você se lembra do seu primeiro contato com uma obra do Zimbres? Você pode falar um pouco sobre como foi o seu primeiro contato com ele? Como foi a recepção inicial dele para o projeto?

Acho que foi por intermédio da Animal, de longe a melhor revista que já existiu no Brasil – e não estou falando apenas de quadrinhos. O Fabio era uma das mentes por trás daquilo tudo, além de ser o principal artífice do MAU. Ali tinha aquele lance do Maudito Fanzine, que não só articulava os fanzineiros do Brasil, mas tratava os zines não como algo amador, mas como um veículo repleto de infinitas possibilidades. Tudo isso que vemos acontecendo hoje no Brasil, com publicações e feiras de zines sofisticados – e, em alguns casos, gourmetizados – nasce ali, com o Fabio. Sempre fui fã de sua estética e abordagem. Acho que é um artista sem igual no Brasil – e mesmo no mundo. Depois do final da Animal, acabei me aproximando dele. Distribuía a Coleção Minitonto aqui em Goiás e logo ele topou fazer a capa do Psycho Love. Quando pintou a ideia do Música, apresentei o projeto pra ele e, para minha sorte e felicidade, ele topou.

Que tipo de diálogo vocês mantiveram antes, durante e depois da produção do quadrinho e do disco? Você pode falar um pouco dessa dinâmica?

Trabalhar com o Fabio é um privilégio sem tamanho. Existe um diálogo aberto, tranquilo e fácil o tempo todo. Nada de atritos ou imposições. Em todos os projetos, o que acontece é buscarmos o melhor resultado para aquilo que estamos nos propondo. Já fizemos outras tantas coisas juntos. Convidei o Fabio para criar a arte de uma das edições do Goiânia Noise Festival. Ele participou da Voodoo!. Já compôs algumas exposições aqui. Já trouxe ele para oficinas e palestras. E temos este outro grande trabalho que é O Evangelho Segundo Tauba e Primal, onde foi responsável pela brilhante direção de arte – além de participar ativamente de diferentes aspectos do filme. O Evangelho e o Música foram trabalhos longos, complexos, difíceis de ser realizados. Mas a gente sempre chega ao fim. Acho que pela formação em Engenharia e pela experiência como produtor cultural, acabo por ter esse papel de catalisar e viabilizar o trabalho.

Como foram as suas primeiras impressões do que ele estava fazendo no quadrinho?

Eu fiquei absolutamente chocado! Era incrível ver o Fabio destrinchar as sonoridades que enviávamos e dar as mais improváveis respostas àquilo. Eu tinha algo em mente e ele surgia com perspectivas completamente diferentes. Desfrutei muito de todo esse processo.

Qual foi a recepção do público na época do lançamento? Foi difícil explicar pra imprensa e pros leitores a proposta do que vocês tinham feito? Quais a suas expectativas para esse relançamento?

A recepção, por parte da crítica, foi excelente. Por outro lado, os veículos mainstream – como a Rolling Stone e a Bravo! – não souberam como lidar com o material, por não ser possível classificá-lo de forma convencional. Em pouco tempo, a tiragem se esgotou e uma determinada parcela do público não conseguiu ter acesso a ele. As expectativas com o relançamento é que tanto o pessoal que não conseguiu o Música na época, quanto o novo público de quadrinhos surgido na última década possam ter o material em mãos. Acho que a obra continua tendo um caráter único, mesmo na diversidade do atual panorama de quadrinhos no país.

“O trabalho impresso do Fabio se aproxima muito do universo mais arrojado das artes plásticas. E o sujeito tem uma visão de mundo absolutamente idiossincrática. Suas narrativas são sempre inusitadas e improváveis, ainda que muito cerebrais”

Você atua em muitas frentes, sendo uma delas como roteirista quadrinhos. Como quadrinista, como você analisa o trabalho do Zimbres? O que você considera de mais singular nas obras dele?

Ele vai negar, mas a real é que o Zimbres é um gênio. Não tenho outro termo para me referir ao Fabio – e acho que muitos dos melhores quadrinistas do país vão concordar comigo. Para começar, tem a coisa da originalidade do desenho. Naquela suposta ‘feiúra’ existe muita sofisticação. De forma orgânica e nada pretensiosa, o trabalho impresso do Fabio se aproxima muito do universo mais arrojado das artes plásticas. E o sujeito tem uma visão de mundo absolutamente idiossincrática. Suas narrativas são sempre inusitadas e improváveis, ainda que muito cerebrais. Se engana quem acha que o que conduz o Zimbres é uma força intuitiva e puramente espontânea. Há muita pesquisa e racionalização naquilo que ele cria. Além disso, há sempre a experimentação com as linguagens às quais se dedica. Nos quadrinhos, por exemplo, o Fabio trabalha tempo e espaço de forma muito singular.

Hoje, mais de 10 anos depois do lançamento desse projeto, quais você considera os principais retornos e as maiores lições que tirou da experiência criando o Música para Antropomorfos?

Em cada projeto que realizo, meu foco é sempre o projeto em si. Não sou muito bom com esse lance de retorno. O que me move é realizar uma obra que tenha fim nela mesma. É claro que tento encontrar o público. Mas isso é outra coisa, depende de um conjunto de variáveis que fogem ao controle de quem cria. O Música para Antropomorfos foi um trabalho que consumiu anos de nossas vidas. Foi realmente difícil finalizarmos e concretizarmos o tal disco-livro. Mas sempre tive muito orgulho do que fizemos. O modo como o Música foi crescendo no imaginário das pessoas foi algo muito interessante de acompanhar. Também houve todos os desdobramentos do projeto, como o livro teórico COMICZZZT! e o filme O Evangelho Segundo Tauba e Primal. Esse, em particular, levou 12 anos para ser concluído desde que tive a ideia de fazer uma animação a partir do Música. E é outro trabalho do qual tenho o maior orgulho. Ou seja, acredito muito naquela máxima: ‘O que é feito respeitando o tempo, o tempo respeita’. Esta reedição da Zarabatana atesta isso, bem como a edição lançada em 2017 na Colômbia e as outras duas que estamos negociando com Portugal e França.

Nesses mais de 10 anos desde o lançamento do Música para Antropomorfos, quais você considera as principais mudanças pelas quais a cena brasileira de quadrinhos passou? Quais os principais avanços e retrocessos que você viu?

Esses dez anos testemunharam uma radicalíssima mudança na cena dos quadrinhos brasileiros. Acredito piamente estarmos vivendo o auge da nossa HQ, no que diz respeito à qualidade daquilo que é produzido. O quadrinho brasileiro contemporâneo está entre os melhores do mundo. Mesmo essa vertente mais ousada e experimental tem mostrado um vigor inaudito. Quando lançamos o Música ou mesmo a Voodoo!, publicações independentes com um design mais arrojado, experimental e artístico não eram nada comuns. De lá pra cá, as publicações têm ficado cada vez mais incríveis – e acho que temos nossa contribuição nisso aí. O que ainda falta é o acesso a um público mais amplo – o que tem a ver com questões estruturais da sociedade brasileira. É duro termos talentos tão geniais que não podem sobreviver exclusivamente de seu trabalho com quadrinhos.

Você vê algum diálogo entre a cena musical brasileira independente e a cena brasileira de quadrinhos?

Esse é um tema que me interessa demais – tanto que fiz um mestrado e publiquei um livro sobre ele. Resumindo, acho que um dos maiores problemas dos quadrinhos brasileiros foi sua dissociação de outras formas de linguagem, especialmente a música alternativa. Demorou a acontecer, por uma série de motivos, um do it yourself para nossos quadrinhos. Por décadas, tudo que os quadrinistas podiam almejar era alguma editora onde pudessem oferecer seus serviços. Esta coisa da auto-publicação, da distribuição independente e do associativismo é muito recente por aqui. Nestes dez últimos anos, o que vimos foi prioritariamente um boom deste fenômeno – que no Rock, mesmo o brasileiro, aconteceu bem antes. Uma experiência como a Ugra Press, por exemplo, não tem background nos quadrinhos, mas na cena punk. Agora, o curioso é o movimento inverso que tem ocorrido no Rock. O público não tem se renovado e o interesse pelo gênero é cada vez menor. Ou seja, quando nossos quadrinhos finalmente assumem uma atitude rock, o Rock perde interlocução com a juventude. São dinâmicas complexas.

O quanto você acha que o choque entre esses diferentes mundos em que você atua contribui para sua formação como artista?

Nunca gostei da ideia de uma formação unicamente especializante. Me interessa o trânsito constante entre diversos conhecimentos e linguagens. A lógica da ultra-especialização é uma lógica neoliberal, de mercado. Para arte e produção cultural, seus resultados são catastróficos. O que um quadrinista que só lê quadrinhos pode produzir senão uma HQ frágil e derivativa? O mesmo vale pra música, literatura, arte plásticas, etc. Por outro lado, tenho uma tendência a ficar entediado com facilidade. Fazer muitas coisas distintas (e não ter tempo pra mais nada) é uma forma de lidar com isso – ainda que não seja das mais inteligentes. Produzir continuamente é meu modo de dar sentido ao mundo e à vida. E é na diluição das fronteiras entre as linguagens que percebo a possibilidade de algo verdadeiramente instigante e, com um pouco de sorte, novo e diferente.

A nova edição de Música para Antropomorfos tem diferenças em relação à original?

A HQ não sofreu alterações, mas a edição traz sim algumas diferenças em relação àquela lançada em 2007. A primeira delas é o formato. O livro agora tem dimensões um pouco maiores, o que facilita seu posicionamento em livrarias. O original era do tamanho de um mangá – que foi uma proposta do Zimbres numa época em que os mangás ainda não haviam atingido a popularidade alcançada hoje. A capa também é diferente – e foi divertido acompanhar o processo de criação desta nova capa, com mais de uma dezena de versões. Por fim, o livro conta com um incrível texto introdutório do grande Diego Gerlach. Coisa fina!

Vocês também pretendem relançar o disco?

Uma das maiores mudanças ocorrida na última década foi a obsolescência, principalmente no Brasil, do CD como suporte físico para música. Quem ainda compra CDs? Parece que só eu mesmo. Então, decidimos não encartar o CD no livro – algo que também aconteceu com a edição colombiana. Quem quiser ter acesso ao álbum “Music for Anthropomorphics” basta dar uma conferida no site www.mechanicsband.com. Mas existe um projeto de relançar o disco em vinil, numa edição luxuosa, com um encarte maravilhoso feito pelo Zimbres. Estou trabalhando nisso e espero que até o final do ano tenhamos o material disponível. E também estamos pensando no Mechanics fazer shows executando o álbum na íntegra.

Quando foi feito a animação O Evangelho Segundo Tauba e Primal? Após a exibição em SP onde o filme estará disponível?

O filme foi produzido e dirigido por mim e pela Márcia Deretti (minha sócia na MMarte e na vida, já que somos casados), tem direção de arte do Zimbres e foi animado pelo monstruoso Wesley Rodrigues – o homenageado deste ano no Animamundi. Foram anos de trabalho – com alguns intervalos no meio, claro. O curta estreou recentemente, em junho, aqui em Goiás. Agora será exibido, ainda em agosto, nas mostras competitivas do 28º Cine Ceará e da 29ª Mostra Kinoforum – Festival Internacional de Curtas de São Paulo – dois festivais brasileiros muito tradicionais e importantes. A carreira do filme está apenas começando e espero que ele seja selecionado para diversos festivais mundo afora. Espero que rolem umas vendas para TVs também. No universo do cinema, a vida de um filme em festivais é de 2 anos. Depois disso, iremos disponibilizá-lo na internet. E o filme também fará parte do lançamento da nova edição do Música para Antropomorfos na Bienal Internacional de Quadrinhos de Curitiba.

Entrevistas / HQ

Papo com Sonny Liew, o autor de A Arte de Charlie Chan Hock Chye: “O livro virou referência no debate sobre censura em Singapura”

Eu entrevistei o artista malaio Sonny Liew sobre a A Arte de Charlie Chan Hock Chye, quadrinho lançado em português pela editora Pipoca & Nanquim dois anos após ser eleito o livro do ano pelas revistas The Economist e Publishers Weekly e a melhor graphic novel de 2016 pelo jornal Washington Post. Em 2017, a HQ venceu três troféus do Prêmio Eisner (melhor escritor/desenhista, melhor design de publicação e melhor publicação estrangeira). Sobre a história de Singapura e do quadrinista fictício Charlie Chan Hock Chye, o álbum ainda virou notícia por conta do empenho do governo singapuriano em sabotar seu lançamento contestando o suposto teor subversivo do livro.

Não é todo dia que você verá um quadrinho de um autor malaio publicado originalmente em Singapura causar tamanha comoção e ainda sair no Brasil. Eu escrevi sobre esse percurso tortuoso e triunfal da obra para a Folha de São Paulo. Recomendo a leitura do quadrinho, do meu texto para o jornal e, depois, da íntegra da minha entrevista com Liew. Você confere esse papo complexo a seguir. Ó:

Você se lembra do instante em que teve a ideia de criar A Arte de Charlie Chan Hock Chye? Se sim, você poderia falar um pouco sobre as origens desse projeto?

Bem… Não dá pra confiar o tempo todo em memórias, mas se me lembro bem, a ideia surgiu enquanto lia Comics, Comix & Graphic Novels, do Roger Sabin. Ali eu realizei que qualquer relato sobre a história de quadrinhos exige alguma contextualização histórica – os quadrinhos do Crumb e o movimento contra-cultural dos anos 60, por exemplo, ou o despertar e o desaparecimentos de vários gêneros nos Estados Unidos antes, durante e depois da Segunda Guerra Mundial. Então eu fiquei com essa ideia em mente, fazer um livro que tratasse da história de Singapura, mas que aparentasse ser uma obra sobre a história dos quadrinhos. O formato exato do livro acabou mudando à medida que fui trabalhando – por exemplo, inicialmente eu o concebi com a presença de vários ensaios em formato de texto ao invés de uma obra inteiramente em quadrinhos.

Eu gostaria de saber um pouco mais sobre a produção do livro. Você chegou a finalizar um roteiro antes de começar a desenhar? Como você concebeu essa mistura de estilos que define a estética do livro?

Como eu disse, o livro acabou mudando à medida em que eu trabalhava nele. Outro exemplo é o escopo do qual eu tratava – eu queria que fosse um panorama mais amplo da história dos quadrinhos em Singapura, então pensei em criar uma dúzia ou mais de quadrinistas ficcionais para protagonizá-lo… Mas foi ficando claro para mim que seria muito difícil para o leitor acompanhar isso tudo, então decidi focar em um único artista. E sim, eu fiz um roteiro completo – nesse caso em formato de thumbnails ao invés de um roteiros em texto. Eu não consigo pensar quadrinhos apenas como texto, então todos os meus roteiros são em formato de thumbnails.

O livro contém todo tipo de estilo artístico e os estilos do Charlie mudam ao longo do tempo. Eu queria que ele fosse meio camaleônico, mas que isso também criasse uma dúvida na cabeça do leitor, se ele estava apenas copiando o estilo de outras pessoas ou se ele era realmente um criador original. Uma questão era o quanto eu deveria desenhar do livro, para distinguir os meus desenhos dos desenhos do Charlie. Também por isso eu fiz uso das sequências de entrevistas, inspiradas no quadrinho Lao Fu Zhi (Old Master Q), de Hong Kong.

Eu também gostaria de saber mais sobre o desenvolvimento do projeto editorial do livro. O Chipp Kidd é listado como o diretor editorial da obra. O quanto você já havia desenvolvido o projeto quando o apresentou para os seus editores? Quais foram as principais contribuições deles pra obra final?

A edição de Singapura já havia sido publicada quando vendemos os direitos pro Chip e pra Pantheon. Eu fiquei muito empolgado que o Chip gostou do livro – ele é uma lenda no mundo do design. Claro que muito do visual do livro foi inspirado nos trabalhos dele em livros de arte – o uso de texturas de quadrinhos antigos, as marcas de copos – mas isso veio mais da minha leitura dos trabalhos dele do que de dicas que tenham partido do Chip. O principal trabalho de edição veio da minha editora, Joyce Sim, com alguma ajuda do Dan Koh. A Joyce me ajudou a fazer a checagem de todas as informações, tivemos longos debates sobre o uso de algumas palavras e frases para que tudo fluísse da melhor forma. Também contamos com um advogado e com um historiador para que tivéssemos certeza que as nossas interpretações eram apropriadas e que nada era descabido. Para a edição dos Estados Unidos fizemos algumas pequenas mudanças – acrescentamos uma nota de rodapé para explicar o que é “kachang puteh, por exemplo

Para a edição de Singapura, tudo o que falei para os meus editores é que queria fazer um livro sobre Singapura que também fosse uma versão ficcional da história dos quadrinhos de Singapura. Eu acho que não consegui me fazer entender na época – ninguém compreendia o que eu estava fazendo – acho que eles apenas acreditaram que aquilo tudo resultaria em alguma coisa interessante…

O quadrinho segue três linhas distintas: a vida desse artista esquecido, a história de Singapura e a história dos quadrinhos. Foi difícil para você administrar esses três focos diferentes em um único livro?

Por causa disso, quando finalizei o livro, eu precisei resolver problemas em várias passagens… O final, por exemplo, passou por diversas transformações. Mas em relação a essa sua referência à combinação desses vários temas: muito disso veio tão rápido nas primeiras 30 ou 60 páginas que logo ficou claro para mim que talvez pudesse funcionar. Havia algo em relação à fluidez e às conexões que parecia funcionar. Mas esses pontos de conexões também acabaram funcionando nas 300 páginas seguintes. Eu tive muita ajuda do pessoal para quem enviei os meus rascunho – o meu ex-professor no Rhode Island School of Design David Mazzucchelli me deu muito retorno e o meu ex-editor francês Jean Paul Moulina sugeriu criar títulos para os capítulos para deixar o livro mais organizado.

Eu li sobre os vários problemas que você teve com as autoridades de Singapura. Você imaginava que o livro poderia ter essa recepção enquanto trabalhava na produção da obra? Quais as principais lições que você tirou dessa resposta inicial?

Eu tinha alguma consciência que o livro poderia ter alguns problemas, por ser uma espécie de crítica e uma revisão da narrativa mainstream sobre a história da Singapura. Mas eu não achava que a verba do NAC seria retirada. A controvérsia em que isso resultou ajudou a chamar atenção para o livro em um nível que a editora nunca imaginou e acabamos esgotando rapidamente as primeiras tiragens. Talvez ainda mais importante tenha sido como isso tudo transformou o livro em um referência no debate sobre censura por aqui.

Eu não tenho certeza quais são as lições mais importantes, com exceção da suspeita de que um criador não tem controle de nada além da própria obra. Você pode tentar aprender sobre a indústria de quadrinhos, sobre política, sobre as redes sociais… Mas no final do dia o que importa é apenas a criação do livro.

Quais as suas opiniões sobre o uso de quadrinhos para tratar de política? Quadrinhos podem ser para apresentar realidade político-sociais complexas e até mesmo fazer do mundo um lugar melhor?

Bem… Eu acredito que a linguagem dos quadrinhos tem potencial para ajudar a explicar vários assuntos complexos – não apenas pelo fato da mistura de imagens e palavras tornar qualquer coisa mais intuitiva, mas também pelo fato da maioria das pessoas associar quadrinhos como aquelas coisas que líamos quando crianças e por isso baixarem um pouco a guarda em relação a eles. Além disso, é um meio como qualquer outro, com seus méritos e suas fraquezas, então eu acredito que diz mais respeito à habilidade de apresentar as coisas em um formato diferente. Pode ser um quadrinho político da mesma forma como shows de TV analisam a nossa política e a nossa sociedade, como o David Simon fez em The Wire.

Fazer do mundo um lugar melhor? No que diz respeito a quadrinhos, eles com certeza melhoraram a minha vida, de Calvin & Haroldo à 2000 A.D., de Homem-Aranha ao Cul de Sac… Mas mudar o mundo é algo difícil e exige muitas forças agindo em conjunto. O mundo de hoje parece estar encaminhando para o autoritarismo em cada vez mais lugares e reagir a isso não é algo fácil – talvez a nossa obrigação seja não apenas mostrar que liberdade e aceitação levam a mais igualdade e crescimento, mas também desafiar a noção que crescimento perpétuo é o que mais importa para países e economias ao redor do mundo.

Você tem um vasto conhecimento sobre quadrinhos norte-americanos e trabalha para a indústria de super-heróis. A maior parte desse material é comprado e consumido principalmente por seu aspecto escapista e pelo distanciamento da realidade. A Arte de Charlie Chan Hock Chye é muito pessoal e uma obra também muito política. É muito diferente para você trabalhar nessas realidades tão extremas?

O trabalho autoral é mais envolvente em vários aspectos… Mas geralmente também resulta em adiantamentos menores! Então, como muita gente, eu preciso conciliar o trabalho comercial com o autoral. O bom disso é que todos eles sempre envolvem a ilustração de quadrinhos, então não gosto de reclamar. Com o trabalho comercial você aprende trabalhando com outros escritores diferentes formas de narrativa e os prazos fazem com que você aprenda novas técnicas para desenhar mais rápido e de forma mais eficiente. Os escritores também acabam sendo as pessoas lidando com os problemas narrativos, então sendo um artista contratado a sua responsabilidade principal é ajudá-los a esclarecerem suas ideias. Em linhas gerais, dá pra dizer que os projetos comerciais são menos trabalhosos, mas também menos divertidos, já os autorais são mais trabalhosos e mais divertidos – se pudermos definir “diversão” como os desafios envolvidos em muitas leituras e pesquisas e busca por dar uma forma a uma história.

Eu diria que muitos quadrinhos mainstream acabam sempre correndo o risco de serem insulares – se referindo mais às suas próprias mitologias do que a uma história propriamente dita. Mas isso não quer dizer que escapismo é uma coisa ruim – todos nós precisamos de um pouco de escapismo de vez em quando. É apenas que as minhas preferências pessoas acabam pendendo para um maior envolvimento com o dito mundo real. Eu lembro de assistir Logan e torcer para que eles tivessem focando mais da história nos caminhões sem motoristas e nos campos de milhos geneticamente modificados!

Outra questão sobre política: Singapura parece ser um país muito conservador e estamos vendo um crescimento desse mesmo conservadorismo na Europa e no continente americano. Por isso tudo, você é otimista em relação ao nosso futuro?

No momento… É difícil ser otimista. Eu acho que os dias do Fim da História, como o Francis Fukuyama previu, com certeza não estão vindo, mas também não estamos próximos do sonho de uma humanidade em paz como em Star Trek. Mas continuamos tentamos, certo? Sejamos intelectualmente pessimistas, mas otimistas nos nossos espíritos.

O que mais te interessa em relação a quadrinhos atualmente?

Principalmente o que é conhecido como quadrinho indie ou alternativo – trabalhos do Daniel Clowes, do Chris Ware e do Chester Brown. Histórias envolventes que também experimentam com a linguagem dos quadrinhos. Se eu tivesse mais tempo também gostaria de ler mais trabalhos do Inio Asano.

O que passa pela sua cabeça quando vê um trabalho seu sendo publicado no Brasil? Você fica curioso em relação à forma como esse livro será lido e interpretado em uma cultura tão diferente da sua?

Sim. O Brasil é um local fascinante e complexo sobre o qual não tenho tanto conhecimento. Não vejo a hora de ver como será essa recepção para o livro.

No que você está trabalhando atualmente?

No momento é a Eternity Girl para a DC Comics, mas eu também comecei uma pesquisa para um livro novo relacionado a questões sobre o capitalismo.

A última! Você pode recomendar algo que tenha lido, visto ou ouvido recentemente?

Rick & Morty é excelente. Em termos de filmes, todos do Hirokazu Kore-eda que assisti foram muito emocionantes e me fizeram pensar bastante.

Entrevistas / HQ

Papo com Seth, o autor de A Vida é Boa, Se Você Não Fraquejar: “Não tenho interesse em tramas. Eu olho para tudo o que faço como um meio de expressar ideias e sentimentos”

Já comentei por aqui como considero A Vida é Boa, Se Você Não Fraquejar (Mino) um dos melhores títulos publicados no Brasil em 2018. O quadrinista canadense Seth é um dos meus autores preferidos e eu achava uma pena que somente um outro título dele havia saído por aqui até então – o excelente Wimbledon Green, pela Bolha. Entrei em contato com o artista para falar sobre o lançamento de A Vida é Boa em português e tratar de alguns temas recorrentes em outros de seus trabalhos. Esse papo virou matéria na Folha de São Paulo e você lê esse conteúdo por aqui. A seguir, reproduzo a íntegra da minha entrevista com o quadrinista:

Você se lembra do momento em que teve a ideia de criar A Vida É Boa, Se Você Não Fraquejar?

Na verdade eu não me lembro quando as primeiras ideias para o livro vieram à minha mente. Foi há muito tempo (em meados dos anos 90) e eu sinto como se fosse uma outra pessoa que fez esse livro. Eu me lembro de que era mais um processo mental pelo qual eu passava do que uma ideia repentina para uma história. Eu já estava fazendo alguns quadrinhos autobiográficos na época e não estava muito feliz com eles. Eles eram, de alguma forma, não-sequenciais. Mais piadas do que histórias. Foi nessa época que concluí que eu precisava contar histórias que eram menos sobre ‘coisas que aconteceram’ e mais sobre os aspectos mais sutis da vida. Memórias, pensamentos, sentimentos. Coisas intangíveis.

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“Da forma como eu vejo, eu não estou escrevendo um filme blockbuster, então não preciso me preocupar em fazer o meu trabalho comercialmente aceitável”

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Você poderia, por favor, falar um pouco mais sobre o processo de criação desse livro? Aliás, você poderia contar um pouco dos seus métodos de produção? Você tem um processo particular que funciona para todos os livros ou varia?

Eu levo muito tempo para finalizar um livro. Eu passei 20 anos fazendo a graphic novel Clyde Fans! A Vida É Boa levou apenas três ou quatro anos, acho. Seja como for, você passa muito tempo pensando sobre o próximo livro enquanto finaliza aquele em que está trabalhando. Quando digo ‘pensando’ me refiro principalmente a deixar as ideias virem de forma lenta e se combinarem com outros conceitos presentes no seu cérebro. Eu escrevo muitas notas. Uma narrativa vai se desenvolvendo pedacinho por pedacinho. Eu nunca me preocupo em relação a uma trama. Não tenho interesse em tramas. Eu apenas olhos para tudo o que faço (graphic novels, pinturas, fotografias, objetos, qualquer coisa) como um meio de expressar ideias e sentimentos. Eu não me preocupo muito se estou me conectando com um público. Da forma como eu vejo, eu não estou escrevendo um filme blockbuster, então não preciso me preocupar em fazer o meu trabalho comercialmente aceitável.

Eu escrevo uma espécie de roteiro, mas muito do planejamento pra valer de uma história é feito página a página. Eu planejava mais as coisas no início da minha carreira. Hoje em dia eu confio bastante na espontaneidade. Eu acho que ela mantém o trabalho fresco.

Eu sempre penso nos vários níveis de exposição em quadrinhos autobiográficos. O Chester Brown, por exemplo, é um caso extremo, ele é muito explícito em relação às experiência de vida dele. O Adrian Tomine e a Alison Bechdel tem propostas diferentes em relação à forma como retratam suas vidas pessoas. A Vida É Boa, Se Você Não Fraquejar é sobre uma jornada sua, mas não completamente factual. O quanto de você está realmente exposto no livro?

A maior parte dos elementos no livro sobre mim são verdade. Vários dos detalhes da história são inventados, mas os trechos pessoais, pelo menos a maior parte, são precisos. Eu me utilizei como personagem principal por saber que o leitor se relacionaria mais com a história se a aceitasse como uma verdade. Não é um truque ou uma farsa. Apenas um mecanismo para que o leitor se importe mais com o Kalo.

No momento eu estou trabalhando em uma espécie de memória em quadrinhos com o título Nothing Lasts [Nada é eterno, em tradução livre]. Ela é cheia de detalhes reveladores da minha vida… mas é apenas tão reveladora quanto eu quero que seja. Eu jamais vou me expor como o Chester Brown ou o Joe Matt. Eu sou uma pessoa muito mais discreta. Nós três valorizamos bastante a ideia de honestidade em quadrinhos autobiográficos… Mas obviamente, de nós três, eu sou aquele com a menor disposição de ‘contar tudo’. De vez em quando eu acredito que o trabalho de ficção que eu fiz é mais revelador que as coisas autobiográficas.

Esse não é o seu primeiro trabalho sobre um personagem colecionador ou obcecado com algua coisas. Colecionismo e obsessões são características muito relacionadas a leitores de quadrinhos. Você se considera um colecionador? Se sim, o que você coleciona? Você se considera obcecado por alguma coisa?

Eu com certeza sou um colecionador! Eu sempre fui um colecionador e sempre serei um colecionador. Eu gosto de colecionar. Há algo muito prazeroso para mim em encontrar coisas e colocá-las juntas. É um processo que, por si só, já prezo muito. É claro, eu gosto de possuir coisas, mas de vez em quando eu também acho que colecionar é mais interessante do que a própria coleção. Eu sou o que pode ser chamado de ‘colecionador em série’ – o que significa que eu coleciono alguma coisa por um tempo, me canso e passo a colecionar alguma outra coisa.

Muito do que eu coleciono molda o trabalho que eu faço. Visualmente e (obviamente) no tipo de história que eu escrevo. Eu acho colecionadores interessantes – também leio muitos livros sobre esse assunto. Quando eu crio um personagem, uma das primeiras coisas que eu me pergunto é, ‘O que ele coleciona?’

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“À medida que a cultura de fãs se tornou cada vez mais a forma predominante de cultura pop, eu acho que esse aspecto inerente da nostalgia passou a ser espertamente vendido para as pessoas”

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Eu vejo uma relação entre colecionismo e consumismo. Eu não sei se você concorda, mas nos dias de hoje, mais do que nunca, vejo a produção de obras de cultura pop e de arte cada vez mais ditadas por esse mesmo consumismo. O que você pensa dessa relação e dos rumos que ela tem dado às nossas culturas e formas de arte?

Sim, eu também vejo isso. É interessante por eu não acreditar que essa conexão era tão intensa há algumas décadas. Tem muito a ver com a cultura de fãs, eu acho. Nos anos 60 e 70 a cultura de fãs ainda não era mainstream e durante seu desenvolvimento era inicialmente uma cultura de nostalgia. Adultos dando continuidade a seus interesses de infância e tentando colecionar livros, quadrinhos e qualquer coisa que os mantivessem conectados aos seus interesses de infância. À medida que a cultura de fãs se tornou cada vez mais a forma predominante de cultura pop, eu acho que esse aspecto inerente da nostalgia passou a ser espertamente vendido para as pessoas. Elas estão dispostas a comprar ‘conforto’. A maioria das coleções de hoje não tem nada a ver com a busca por objetos de apelo estético difíceis de encontrar ou da busca e da pesquisa por informações culturais obscuras. A maioria das coleções de hoje (na cultura mainstream) é simplesmente a compra de um monte de itens de cultura pop de marca, da mesma forma que as pessoas comem um monte de porcaria.

E eu também vejo muita nostalgia nos seus livros. Como as suas memórias ditam o desenvolvimento dos seus trabalhos?

Todos os meus trabalhos tratam de ‘olhar para trás’. Eu tendo a resistir à palavra ‘nostalgia’ por ela ser carregada de muitos significados. Ela sempre implica em uma espécie de interpretação sentimentalista e otimista da vida. Eu sou uma pessoa sentimental… e eu sou uma pessoa nostálgica.. mas eu gosto de pensar que estou tentando apresentar um ‘olhar para trás’ mais complexo no meu trabalho. Eu quase sempre tento evitar essa perspectiva ingênua. Dito isto, eu não estou interessado na cultura atual e à medida que envelheço o meu trabalho se torna cada vez mais enraizado no passado. Não por eu acreditar que ‘eram tempos melhores’, mas pelo fato dos meus interesses serem do passado.

Eu vi uma definição sua de quadrinhos como ‘design + poesia’. Você pode falar um pouco mais sobre essa sua interpretação?

Essa é uma discussão muito longa! Recomendo esse link em que falo sobre isso com detalhes: https://bit.ly/2IQBTOQ

Vou dizer que ainda concordo com essas ideias. Mais e mais pelo fato do meu trabalho atual ainda ser regulado e ditado por ritmo. Eu uso muito mais painéis nas páginas do que estava acostumado e de vez em quando eu já não completo mais uma frase inteira em um único painel. O ritmo de como a página de um quadrinho é lida é muito importante para mim. O elemento mais importante na verdade. Todo o resto está subordinado a essa ritmo – desenhos, cores e até a estrutura das frases.

O que mais te interessa em quadrinhos hoje em dia? Há alguma coisa que você acredita que possa ser feito com essa linguagem que você ainda gostaria de ver?

O que mais me interessa – no meu próprio trabalho – é a atmosfera e a descrição. Eu quero gastar mais tempo escrevendo quadrinhos que sejam essencialmente sobre lugares. Eu gosto de descrever coisas e lugares mais do que contar histórias… E por isso acredito que os meus trabalhos que saírem em breve serão principalmente nessa direção. Eu suspeito que seja estranho um escritor não ser muito interessado em personagens, tramas ou conflitos. Esses são supostamente os elementos essenciais de uma história, mas eu acho que uma história pode ser interessante por razões menos óbvias. O meu próximo livro será praticamente composto integralmente de descrições de um lugar e de um período pelos olhos de um narrador. Eu estou muito ansioso por escrevê-lo.

O que você pensa quando um trabalho seu é publicado em um país como o Brasil? Somos todos americanos, mas são culturas muito diferentes. Você tem alguma curiosidade em relação à forma como um trabalho seu será lido e interpretado por pessoas de um ambiente tão diferente dos seu?

Essa é a uma pergunta interessante. Às vezes eu imagino se o que estou escrevendo aqui no Canadá faz sentido em outras culturas. Com certeza um país com o Brasil tem uma cultura muito diferente do Canadá… E mesmo assim, como você diz, nós somos todos americanos e temos muito em comum. Em relação a isso eu não faço ideia nem como o meu trabalho é visto por canadenses. Na maioria das vezes eu escrevo pensando em mim como a minha audiência primária. Eu sei que acho empolgante ver a obra rodar o mundo. Uma das coisas mais difíceis é que você nunca sabe se as traduções são boas ou não. E é claro, o mesmo também vale no inverso, quando você lê um livro traduzido para o inglês.

Você pode me dizer por que Seth?

Na verdade é um pouco constrangedor. É um nome que eu escolhi para mim quando estava nos meus 20 e poucos anos. Eu era um jovem punk roqueiro na época e estava procurando por pseudônimo meio assustador e gótico e Seth foi o escolhido. Hoje eu não me importo muito mais com ele, já estou usando há mais de 30 anos e parece mais com o meu nome real do que o meu nome de batismo, Gregory. Já estou acostumado. A única coisa que sou grato é por ter escolhido um nome de verdade – eu poderia ter escolhido algo muito pior, como Monster Zero ou Marylin Manson ou algo igualmente horrível.

No que você está trabalhando atualmente? Você tem algum livro novo nos seus planos?

Como falei anteriormente, eu estou trabalhando em um livro de memórias chamado Nothing Lasts que vou serializar em Palookaville e em breve começarei um livro (esse que será muito descritivo) batizado de The Royal. Estou sempre trabalho em vários trabalhos visuais também. Desenhos, dobraduras e vários objetos que estou construindo. A vida no estúdio é o que mais valorizo – conectando várias ideias e vendo onde elas podem me levar.

Você pode recomendar algo que esteja lendo/assistindo/ouvindo no momento?

Nos últimos dois anos eu tenho reescutado obsessivamente um áudiolivro da Virginia Woolf, To The Lighthouse. Um trabalho maravilhoso de narração da Juliet Stevenson! Aqui está o link pra ele: https://adbl.co/2NpDVbX

Eu tenho me dedicado muito aos livros da saudosa Anita Brookner. Ela escreveu 24 livros e eu li 20 deles nos últimos dois anos. Eles são lentos e contemplativos e muito melancólicos, de forma muito austera. Ela é a minha escritora favorita hoje… Tendo tirado a Alice Munroe do topo do ranking!

Eu também tenho assistido a muito dos episódios clássico antigos do Perry Mason com o Raymond Burr. Esse pode ter sido o programa de TV mais formulaico da história. Todo episódio é praticamente o mesmo e mesmo assim eles são muito prazerosos de assistir. Quase hipnóticos.