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Entrevistas / HQ

Verônica Berta e o desafio de adaptar o texto de Júlia Lopes de Almeida (1862-1934) no álbum Ânsia Eterna

O álbum Ânsia Eterna é o primeiro trabalho publicado da quadrinista Verônica Berta. A obra lançada pela editora SESI – SP adapta para o formato de história em quadrinhos três contos da escritora e cronista carioca Júlia Lopes de Almeida (1862-1934). Segundo Berta, sua vontade de fazer quadrinhos surgiu enquanto fazia um curso de desenhos na França, durante seu período de graduação na faculdade. Empolgada com a possibilidade de produzir uma HQ e sem experiência com roteiros, ela passou a trabalhar com a ideia de fazer um projeto em parceria com alguma escritora. A ideia de uma adaptação surgiu após a descoberta de que os textos de Júlia Lopes de Almeida estavam em domínio público.

Com uma belíssima paleta de cores, Ânsia Eterna apresenta uma artista nova, com um traço original e perspicaz ao mostrar como questões do século 19 ainda se fazem extremamente presentes nos dias de hoje. No papo a seguir, a quadrinista fala sobre o trabalho de adaptação dos textos que deram origem ao seu álbum, os métodos utilizados por ela durante a produção do quadrinho e os dilemas decorrentes da fidelidade a uma obra concebida há mais de um século.

Você se lembra quando teve contato pela primeira vez com o trabalho da Júlia Lopes de Almeida? E quando surgiu a ideia de adaptar os textos dela?

Eu encontrei a Júlia fuçando no site do domínio público. Tinha ido lá fazer uma coisa que não tinha nada a ver com um projeto de quadrinhos mas acabou que ele foi acontecendo. Primeiro eu vi que não tinha quase nenhuma mulher na lista de obras literárias em português, isso me despertou a vontade de procurá-las. Tinham muitas na categoria errada (em vez de literatura era trabalho acadêmico) e muitos dos textos literários eram poemas. A Júlia estava entre as pouquíssimas romancistas. Aí quando comecei a ler a obra dela, fui ficando inspirada para fazer quadrinhos. É que lá no fundo eu já tinha um sonho de fazer um projeto em parceria com alguma escritora porque eu não tinha praticamente nenhuma experiência com escrita de roteiro. Então a ideia da adaptação seria algo mais próximo de uma parceria. Acabou que eu fui desenvolvendo o projeto até entender que ele poderia ser muito mais do que um jeito de camuflar minha insegurança, relembrando as pessoas da existência de uma das autoras que marcou a história da nossa literatura e buscando despertar a reflexão sobre as diferentes posições da mulher na sociedade, assim como a própria Júlia fazia.

Você poderia falar um pouco sobre os seus métodos e cada etapa desse processo de adaptação? Você trabalhou com um roteiro fechado? Como foi o processo transformar textos em imagens e determinar o que entraria ainda como texto no quadrinho?

Eu fui aprendendo enquanto fazia, porque minha experiência com quadrinhos até então tinha sido os trabalhos para entregar no curso de desenho. Na maior parte do trabalho eu quebrei a cabeça, porque o texto já está muito bem sozinho, ele é autossuficiente, né. E eu precisava ter um motivo para tirar essas narrativas de onde estavam e colocá-las num quadrinho. Por isso eu acabei viajando mais na narrativa visual, nas possibilidades plásticas, e até onde dava para ir com os textos sem modificar a essência do original. Tive ajuda de várias pessoas também. Algumas partes precisavam ser escritas e outras eu não conseguia pensar sem fazer esboços. Aí você saca o quanto texto e imagens, nos quadrinhos, são de fato interdependentes. A maioria dos trechos descritivos ou narrativos eu me aventurei em transpor diretamente para imagem. Mas às vezes usei narração como recurso, por exemplo, para encurtar uma parte que ficaria longa demais em quadrinhos sendo que no conto é apenas uma pequena passagem.

Eu queria saber um pouco mais sobre as suas cores. Quais são as suas técnicas? Como você definiu a paleta de cada conto?

Por eu gostar muito de pintura, acabo fazendo a pintura digital meio que do mesmo jeito que eu faria com tinta acrílica. Aí fica mais intuitivo.

No Ânsia Eterna eu usei três paletas diferentes: uma para o momento presente, uma para a história que é contada dentro da história, e outra para a imaginação do personagem principal e o que ele idealiza. A intenção é que tivessem três tipos de espacialidade diferentes e a cor foi fundamental para essa busca. Já Os Porcos e A Caolha são contos que potencialmente despertam emoções mais pesadas no leitor. Então usei as cores buscando representar os sentimentos dos protagonistas, já que não tinham as palavras da Júlia para descrevê-los.

Também me chamou muita atenção os designs das páginas do livro. Como você determinou a disposição dos quadros ao longo de cada página? Como foi pensar a estética de contos autônomos que compõem um mesmo livro?

Essa foi a parte mais sofrida. Faz uns anos que eu venho estudando composição e sinto que estou apenas começando a entender algumas coisas; para mim é um assunto muito cabuloso e fascinante ao mesmo tempo. É estimulante pensar em como você vai fazer para atingir determinado efeito e passar determinada mensagem a partir da composição, mas isso é um desafio. E para mim é fundamental pensar nas interações entre os elementos visuais. As relações entre pontos e linhas, os espaços negativos, os contrastes, esse tipo de coisa. Também penso nuns conceitos do Scott McCloud, às vezes.

Acho que entre Os Porcos, que foi a primeira que fiz, e A Caolha, que foi a última, já tem muita diferença na estética. Levei isso como mais um passo no processo de aprendizado.

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“Além de abordar questões que diziam respeito à mulher branca, a Júlia considerava relevante representar a situação de uma camponesa cabocla que sofria as consequências do patriarcado, ou desromantizar a maternidade com uma trabalhadora negra”

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No posfácio do livro você trata um pouco da história da Júlia Lopes de Almeida, fala como a obras dela tinham como proposta tratar do “universo feminino e tudo o que ela considerava politicamente relevante dentro desse universo”. Ainda assim, como você mesmo lembra no texto, se trata “de uma pessoa branca e feminista nascida em 1862”. Quais foram as principais reflexões e os maiores desafios surgidos durante esse processo de adaptação de Ânsia Eterna levando em conta todo esse contexto da autora?

O que mais me deixou surpresa, e consequentemente envolvida, foi o fato de eu ter me identificado com as histórias. Como que eu, uma pessoa da “geração y”, poderia me identificar com personagens e situações que foram narradas dentro de um contexto de mais de um século atrás? E depois eu acabei concluindo que mais de um século é pouco tempo. Porque hoje ainda vemos uma diferença muito grande entre uma história que foi contada sob um ponto de vista feminino e outra que foi contada sob o ponto de vista masculino. E ainda se fala sobre questões internas, ou seja, questões sobre ser mulher, muito parecidas. Naquela época falava-se muito sobre emancipação feminina e isso desencadeou as primeiras críticas à desigualdade salarial e outras injustiças que acontecem dentro do mercado de trabalho. Mas essa evolução do feminismo não significa que as pautas mais antigas, relativas à emancipação, foram resolvidas; essa questão permanece atual.

Além de abordar questões que diziam respeito à mulher branca, como a de ser idealizada pelos homens como a mãe perfeita dos seus filhos (Ânsia Eterna), a Júlia considerava relevante representar a situação de uma camponesa cabocla que sofria as consequências do patriarcado (Os Porcos), ou desromantizar a maternidade com uma trabalhadora negra (A Caolha). Mas sabemos que o feminismo negro só foi surgir um século depois do nascimento da Júlia, lá nos Estados Unidos, então a perspectiva dela não tinha como ser muito interseccional no sentido como entendemos hoje.

No posfácio acabei mencionando a posição social da Júlia para criar um link com o assunto da construção de personagens, mais especificamente da Caolha.

No posfácio você também fala sobre a sua decisão de “não limpar a barra” da autora em relação a algumas ideias racistas expressas por ela. Você poderia falar um pouco sobre os diálogos que teve e as reflexões que a levaram a seguir essa decisão?

Se as características físicas da caolha são descritas sob um ponto de vista racista e eu faço a personagem do mesmo jeito, eu simplesmente reproduzo essa ideia. Era essa a pulga que estava atrás da minha orelha, então abri uma discussão sobre isso no grupo de facebook do Minas Nerds. Nada melhor que minas nerds para falar sobre isso. Uma moça me disse que seria muito mais enriquecedor deixar a personagem como é descrita no conto original e adicionar um posfácio ou uma nota de rodapé que apontasse esse problema. Eu concordei e resolvi adotar essa abordagem.

Ânsia Eterna é o seu primeiro quadrinho, certo? É o seu trabalho de estreia e ele já está saindo por uma das editoras que mais tem colocado novos títulos a cada mês. Tendo em mente novos autores que também gostaria de publicar por grandes editoras, você pode falar um pouco do seu caminho das pedras até chegar ao Sesi?

Uma coisa positiva que eu fiz foi escrever o projeto. Quando eu estava bem no comecinho da produção, me inscrevi no Proac. O projeto não passou, mas o fato de ter escrito e pensado muito sobre ele organizou bem as ideias na minha cabeça. Sem isso eu não saberia muito bem justificar minhas escolhas nem compreender a relevância da HQ. E depois eu queria investir em divulgação, então publiquei um dos capítulos para leitura online, gratuitamente. A partir daí eu tinha mais segurança para fazer uma apresentação do projeto. Mandei e-mail para três editoras e a SESI me respondeu 5 meses depois para fecharmos o contrato. Foi um dia de champanhe rs.

Em relação ao período em que você passou estudando e pesquisando quadrinhos na França, eu fico curioso sobre as expectativas que tinha de publicar seu primeiro trabalho e a repercussão dessa obra. Desde o seu retorno ao Brasil, qual leitura você tem feito da cena local de quadrinhos? Você vê muito diálogo entre o que viu e viveu na França e o que tem vivido por aqui hoje (em festivais, feiras e debates sobre quadrinhos)?

Para ser sincera o que aconteceu foi que eu saí do armário como quadrinista, porque antes do curso eu tinha certeza absoluta de que nunca faria quadrinhos. As aulas lá na França fizeram com que eu me apaixonasse por fazer quadrinhos, mas a ideia de fazer o Ânsia Eterna surgiu depois que já tinha voltado para o Brasil. E também foi quando voltei que comecei a conhecer a nossa cena, e eu leio devagar, ou seja, ainda tem muitas obras essenciais que eu não li. Mas a minha impressão geral é que nossa cena ainda é jovem e fresca, ainda mais podendo comparar com a França, que tem uma tradição pesada (no bom sentido) de quadrinhos. Lá o mercado é mais consolidado e os quadrinhos fazem parte da vida dos franceses, no geral. Sempre conto a história do dia em que eu peguei o jornalzinho do metrô e tinha uma notícia anunciando o lançamento de um gibi. Isso para a gente é meio fora da realidade. Estudando em uma escola de lá e lendo os quadrinhos de lá eu percebi por exemplo um academicismo no desenho que não temos por aqui, e justamente por causa disso, aqui existe uma liberdade criativa muito maior.

Entrevistas / HQ

Papo com Charles Burns, o autor de Black Hole e da trilogia Sem Volta

Até o final de 2019 estarão disponíveis no Brasil as principais obras do quadrinista Charles Burns. A Companhia das Letras acabou de publicar o trabalho mais recente do autor, a trilogia Sem Volta, reunida em um único volume. No ano passado, a editora DarkSide Books publicou a obra-prima do artista, o clássico Black Hole. Para o segundo semestre de 2018, a mesma DarkSide promete Big Baby – seguido por Skin Deep e El Borabah até o final do ano que vem.

O foco da minha matéria sobre o trabalho de Burns para a Folha de São Paulo foi em Sem Volta, quadrinho mais recente do autor e recém-chegado às livrarias e lojas especializadas brasileiras. Você lê a íntegra do meu texto, tratando dos temas das obras e falando desse momento especial para os leitores de Burns no país, por aqui. Mas o papo rendeu e ainda falamos de outros assuntos, principalmente sobre as transformações do estilo dos quadrinista e dos temas abordados por ele em suas HQs ao longo de sua carreira.

Ainda deu tempo de conversarmos sobre Tintim, Hergé, Raw, Frigidaire, Lorenzo Mattotti e as várias leituras que impactaram na formação do autor. A seguir, papo com Charles Burns:

Quadros de Sem Volta, HQ de Charles Burns publicada no Brasil pela editora Companhia das Letras

Black Hole foi publicado pela primeira vez no Brasil há 20 anos e foi republicado por aqui quase simultaneamente ao seu livro mais recente, Sem Volta. Também estão previstos para breve o lançamento de El Borbah, Big Baby e Skin Deep. Eu fico curioso em relação ao que você pensa sobre todo esse interesse no seu trabalho aqui no Brasil…

Para ser sincero, não sei muito a respeito disso. É óbvio, é algo que me deixa feliz. Mas acho que são apenas os resultados dos trabalhos dos meus agentes, pois os livros estão sendo publicados. Eu jamais imaginaria que algo assim poderia estar ocorrendo no Brasil (risos)

E você fica curioso em relação a como os seus livros são recebidos em outros países? Como eles podem ser lidos em uma cultura tão diferente da sua?

Eu não sei… Quero dizer, eu espero que culturalmente exista algo universal que será compreendido em culturas diferentes. Talvez a cultura americana, a cultura pop feita nos Estados Unidos, seja legível em vários lugares. Mas não sei mesmo.

Um dos primeiros países no qual os meus livros foram traduzidos foi a Espanha, há muito, muito tempo. Eu lembro de um sentimento, de como era incrível ver um trabalho encontrar o seu caminho para outra cultura, em outro país. É algo que me faz surtar um pouco, pensar que o meu trabalho está sendo lido no Brasil, está sendo lido, sei lá, na Finlândia ou na Rússia. Mas é impossível para mim cogitar como eles serão recebidos culturalmente.

Quadros de Sem Volta, HQ de Charles Burns publicada no Brasil pela editora Companhia das Letras

Há um intervalo de 20 anos entre Black Hole e a trilogia Sem Volta. O quanto os seus métodos e as suas técnicas mudaram ao longo desse período?

Muito gradualmente. Eu olho para trás… Eu não costumo rever meus trabalhos antigos, mas às vezes eu pego algum deles e tenho a sensação de estar olhando para outro autor. Eu reconheço algumas coisas sobre o trabalho e as histórias, temas presentes em todos os meus livros, mas às vezes me parecem… Não irreconhecíveis, mas sim, às vezes me parecem que são de outra pessoa, como se eu fosse um outro autor nessas épocas.

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“Na época do Black Hole eu havia chegado em um ponto da minha vida no qual eu queria arriscar, eu queria estar envolvido em histórias mais longas”

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Há algum desafio distinto entre criar uma história curta como a de Big Baby ou de Skin Depp e obras mais longas como Black Hole e Sem Volta?

Na época do Black Hole eu havia chegado em um ponto da minha vida no qual eu queria arriscar, eu queria estar envolvido em histórias mais longas. Acho que antes disso, eu não sei… Eu sentia que estava aprendendo lentamente a como escrever e desenhar (risos) Por muitos anos. Então naturalmente eu fazia coisas menores, me parecia mais natural fazer trabalhos menores. Mas houve um momento específico em que eu compreendi que tinha uma história mais longa para contar. Eu acho que existe uma frustração no fato de quadrinhos implicarem em tanto sofrimento e lentidão para serem criados, pelo menos para mim. É frustrante que eles demorem tanto para serem finalizados.

Ilustrações de Charles Burns para Black Hole, publicado no Brasil pela DarkSide Books

Você já morou em muitos lugares, em várias cidades dos Estados Unidos e também em outros países. Você vê muita influência dos lugares em que viveu nos seus trabalhos?

Sim, eu acho que sim. Durante a minha vida eu também vivi na Itália e passei por outros lugares da Europa. Eu acho que esse lugares diferentes… Estamos falando sobre culturas diferentes, mesmo em cidades da América do Norte eram partes muito diferentes do país e culturas diferentes, então sei lá. A Costa Leste, onde vivo atualmente é muito diferente da Costa Noroeste, de Seattle. Eu sei que todas essas coisas tiveram alguma influência em mim. Acho que também socialmente, eu me mudei bastante e precisei me reestabelecer em cada lugar, o ambiente teve algum impacto também.

E o que você pode contar sobre o seu período na Itália? Eu vejo um diálogo muito grande entre a cena italiana de quadrinhos do começo dos anos 80, publicações como a Frigidaire, e o que vocês estavam fazendo na Raw…

Eu morei em Roma exatamente no começo dos anos 80, em 83 ou 84. Esse foi um período no qual havia muita coisa acontecendo na Itália. A revista Frigidaire estava sendo publicada, assim como outras que saiam na mesma época. Eu conheci outros cartunistas. Então sim, foi um período muito empolgante. Especialmente para mim, estando em outra cultura e envolvido em outra cena.

Quadros de Sem Volta, HQ de Charles Burns publicada no Brasil pela editora Companhia das Letras

Dessa geração de artistas italianos dos anos 80, algum deles teve um impacto maior no seu trabalho?

Eu trabalhei com um grupo de cartunistas do qual ainda tenho amigos, o Lorenzo Mattotti é um bom amigo, o Igor Tuvery, mais conhecido como Igort, também – ele está publicando os meus quadrinhos na Itália. Esses tipos de conexões foram importantes para mim. Eu me lembro de um amigo dizendo que eu morei na Itália, mas isso não teve nenhum impacto no meu estilo, na minha arte. Acho que as principais influências que eu tive quando era mais novo foram atitudes e ideias, me vejo influenciado hoje muito mais por isso do que por aspectos relacionados à narrativa ou ao desenho.

Sem Volta é colorido, mas o seu trabalho é muito caracterizado pelo preto e branco de alto contraste, pelo protagonismo de personagens novos e por um tom sobrenatural das histórias. Você vê esses elementos como parte do seu estilo? Aliás, você consegue definir um estilo específico seu?

Há alguma coisa… Eu acho que o meu trabalho é reconhecível, há uma certa estética específica, na linha, na luz e no contraste. Ele surgiu com um diálogo intenso com o quadrinho norte-americano clássico que eu cresci lendo. Ele começou com esse tipo de visual e depois não sei se consigo defini-lo mais. Não consigo pensar numa resposta. Eu acredito que ele foi sendo construído com o passar do tempo, havia um visual específico e um tipo de imagem que me atraiam e eu desenvolvi lentamente a partir daí. Ocasionalmente eu vejo o trabalho de alguma outra pessoa e tenho essa sensação de ver alguma influência minha, que talvez a pessoa tenha visto o meu trabalho ou tenha referências semelhantes às minhas. Mas sim, é difícil encontrar de onde tudo isso veio.

Um painel de Sem Volta, HQ de Charles Burns publicada no Brasil pela editora Companhia das Letras

O preto e branco é algo muito característico dessa sua geração, das publicações do Raw. Você tinha alguma motivação especial para o uso do preto e branco no início da sua carreira além do fato de ser mais barato de imprimir?

Sim, existiam restrições financeiras. A revista Raw era auto-publicada, pelo menos a primeira versão dela era bancada pelo Art Spiegelman e pela Françoise Mouly, então lembro de até terem algumas cores ocasionalmente, na capa ou em alguma história, mas existiam limitações financeiras. Eu acho que todas essas questões financeiras tiveram uma influência no meu trabalho. Eu via reimpressões de quadrinhos antigos baratos e em preto e branco e notava um certo estilo… Quando você está criando e sabe que será impresso em preto e branco e que talvez a qualidade do papel não seja tão boa, isso implica em um empenho maior para a arte. Talvez eu tenha sido muito influenciado por esses quadrinhos baratos e em preto e branco, eu gostava do visual deles e desde cedo tentei emular essa estética.

Quadros de Sem Volta, HQ de Charles Burns publicada no Brasil pela editora Companhia das Letras

Quando penso em autores contemporâneos a você, como o Chris Ware e o Daniel Clowes, vejo uma diversidade muito grande nos estilos e nas obras, mas é um grupo de pessoas geralmente lembrado como parte de uma mesma geração. Você vê algum padrão e diálogo específico esse o seu trabalho e os desses colegas?

Hummm… Eu posso ver isso mais no que diz respeito aos temas ou às influências. Mas você está certo, eu acho que há essa diversidade. Eu suspeito que talvez o único ponto em comum seja que todos nós estávamos obcecados com os nossos ídolos e as nossas ideias. E quando eu penso em artistas da revista Raw também há, por exemplo, o Gary Panter, que também é um pintor e um músico com obras muito diversas. A minha percepção da revista Raw é que ela foi uma das primeiras publicações nos Estados Unidos unicamente focada, por falta de uma palavra melhor, em quadrinhos de arte. Quadrinho de arte centrados principalmente no aspecto estético. Acho que eventualmente essa linha acabou indo mais para narrativa ou em um foco maior em histórias e enredos. Mas acho que no começo o principal interesse era no aspecto gráfico.

Você começou a publicar com 20 e poucos anos, a idade da maior parte dos seus personagens. Houve alguma mudança na sua experiência criando esses personagens e na abordagem dos dramas vivenciados por eles agora que até suas filhas estão mais velhas que seus protagonistas?

(risos) Essa é uma boa pergunta, eu me pergunto ela constantemente e não tenho uma boa resposta. Acho que parte da resposta é: eu tenho pouco interesse na minha vida adulta e de meia-idade, suspeito. Eu não tenho uma boa resposta.

Auto-retrato de Charles Burns presente na edição de Black Hole da DarkSide Books

Você se lembra do momento em que teve a ideia que deu origem à trilogia Sem Volta?

Provavelmente… Eu posso olhar em cadernos antigos e ver várias coisas que datam de muito tempo atrás. Existem vários fragmentos de ideias que foram se construindo aos poucos. Não houve um momento exato em que a ideia surgiu formada na minha cabeça. Posso encontrar anotações de algumas ideias que surgiram quando eu estava nos meus vinte, trinta ou quarenta anos. O que acho que acontece comigo é que eu tenho uma ideia inicial de como será a história e enquanto trabalho eu acabo encontrando qual será a história verdadeira. Com Sem Volta, por exemplo, eu inicialmente estava trabalhando em uma ideia que tinha sobre música punk e no final das contas a história não tem nada a ver com esse universo.

Sobre música punk?

Quando comecei a história, as minhas primeiras ideias eram tratar de um período específico da minha vida, no final dos anos 70, e do meu interesse em música punk, mas acabou se afastando disso.

Painel de Sem Volta, HQ de Charles Burns publicada no Brasil pela editora Companhia das Letras

E sobre o diálogo do livro com Tintim, como ele surgiu? Você se lembra dos seus primeiros contatos com os livros do Hergé?

Sim. É relativamente pouco usual para um americano da minha geração crescer tendo acesso ao Tintim e aos trabalhos do Hergé. Mas havia alguns livros dele publicados nos Estados Unidos – que me deram mesmo antes que eu soubesse ler, eu devia ter quatro ou cinco anos. Com certeza eles tiveram um impacto imenso na minha vida, talvez não um impacto no estilo, mas as histórias e a atmosfera com certeza impactaram a minha formação.

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“Acho que o meu trabalho mais atual seja mais focado em experiências em primeira pessoa. As minhas próprias experiências em primeira pessoa. Na verdade, experiências mais internas”

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Os seus livros me soam como crônicas de jovens em uma realidade muito americana. Você vê muito contraste entre a América de Trump e de Obama? Se sim, esse contraste tem alguma influência nas histórias que você conta?

Eu sempre me mantive distante da ideia de trabalhos distintamente políticos. Talvez o meu trabalho inicial fosse mais focado em temas mais específicos da cultura americana. Acho que o meu trabalho mais atual seja mais focado em experiências em primeira pessoa. As minhas próprias experiências em primeira pessoa. Na verdade, experiências mais internas. É claro que essas experiências internas precisam estar conscientes do mundo exterior, mas não estou interessado em escrever qualquer coisa sobre política americana ou cultura americana por si só.

E o que te interessa mais em quadrinhos hoje em dia? Há alguma coisa específica que você gostaria de ver sendo explorada?

Nada especificamente. Há alguns artistas que sempre estou interessado em saber o que estão fazendo, pessoas que estejam criando algo novo, mas não consigo pensar em nada que estou esperando ver existindo – acho que esse seria o trabalho que eu iria estar fazendo. Estou sempre interessado em trabalhos fortes, vigorosos e pessoais.

A capa de Big Baby, trabalho do quadrinista Charles Burns que será publicado no Brasil pela DarkSide Books

Quais as memórias mais antigas que você tem de quadrinhos na sua memória?

Provavelmente apenas quadrinhos infantis americanos típicos. Provavelmente Walt Disney e coisas do tipo. Mas como disse, o impacto mais forte foi a descoberta do Tintim e dos livros do Hergé. Eles me pareciam muito mais maduros e tiveram um impacto imenso em mim. O meu pai era muito interessado em quadrinhos e eu lia muito das coisas dele, mas na verdade isso foi antes que eu soubesse ler de verdade.

É engraçado você mencionar o Tintim, principalmente por causa da linha clara…

Sim, a linha clara. Acho que quando era mais novo eu até tentei trabalhar nesse estilo, mas por algum motivo não funcionou. A atmosfera que eu tento criar é um pouco mais sombria.

Sobre essa atmosfera. O que você pensa quando classificam seus trabalhos como quadrinhos de terror ou horror?

Eu não fico surpreso. Eu não tenho nenhuma intenção específica de aterrorizar ninguém ou fazer qualquer coisa que seja horrorizante. Há alguns elementos que podem ser classificados dessa forma, mas eu sempre brinco e digo que os meus quadrinhos são histórias de amor (risos).

A capa de Big Baby, trabalho do quadrinista Charles Burns que será publicado no Brasil pela DarkSide Books

No que você está trabalhando no momento? Você já tem algum livro novo em mente?

Nada em particular. Para mim, um livro ou uma história não existem enquanto não estejam publicados. Eu estou trabalhando em uns dois livros e espero que eles vejam a luz do dia. Eu nunca pressuponho que tudo em que eu estou trabalhando vá funcionar, é sempre parte de um processo em andamento de ver o que vai sobreviver e acabará sendo publicando. É um processo em andamento até virar um livro físico.

Há alguma coisa que você tenha lido, ouvido ou assistido recentemente que te impressionou e você possa recomendar?

Acho que o livro mais incrível que li recentemente foi Monograph, um trabalho espantoso. Eu sou amigo do Chris [Ware] e ele não é sigiloso, mas nunca fala do trabalho que está fazendo. Ver o produto final é algo sensacional. Eu tive planos de fazer um livro não igual ao dele (risos), mas de ilustrações e quadrinhos, um livro de arte reunindo vários trabalhos. Eu fico muito feliz do meu não ter sido publicado no mesmo ano que o dele. Tenho muita sorte.

A capa de Sem Volta, trabalho do quadrinista Charles Burns publicado pela editora Companhia das Letras

Entrevistas / HQ

Papo com Ramón K. Perez, o autor de Conto de Areia: “A história é uma espécie de Teste de Rorschach”

Conto de Areia é provavelmente o título que mais gosto do catálogo da editora Pipoca & Nanquim. Não só por ser uma grande HQ, com experimentos narrativos muito interessantes, mas também por ser divertida demais. Fiquei indo e voltando em várias páginas enquanto tentava compreender a jornada do personagem principal e também para admirar a beleza da arte de Ramón K. Perez para a oba, adaptação do roteiro de um longa nunca filmado escritor por Jim Henson (1936-1990) e Jerry Juhl (1938-2005). Eu entrevistei o autor da adaptação e esse papo virou matéria para o jornal O Globo, disponível para leitura aqui.

Reproduzo mais abaixo a íntegra da minha entrevista com Perez, mas recomendo antes a leitura de Conto de Areia, em seguida a leitura do meu texto pro Globo e só depois o papo a seguir. Na nossa conversa, o quadrinista fala sobre como ocorreu seu envolvimento na adaptação, conta como foi seu trabalho com a Henson Company e dá a sua interpretação sobre a trama do quadrinho. Papo massa. Ó:

Como você acabou se envolvendo no projeto que resultou em Conto de Areia? 

Eu fiquei muito surpreso em receber o convite para trabalhar em Conto de Areia. Eu fui procurado pelo editor da Archaia, Chris Robinson. A empresa, Archaia, estava entrando em contato com vários artista sobre a possibilidade de adaptar o roteiro e pedindo que que eles fizessem uma ou duas páginas-teste baseadas em trechos do roteiro, para ver como cada um poderia interpretá-lo. Eu fiz uma espécie de ilustração no estilo de pinup (que acabou sendo modificada e utilizada na capa) e também uma arte sequencial (mais especificamente, eu adaptei a sequência mostrando a revelação inicial do Patch após ele emergir da cratera causada pela bomba que foi jogada no Mac).

Os testes pedidos aos vários artistas foram então submetidos à Henson Company, que tomou a decisão final de qual seria o artista escolhido. Felizmente, tanto a Lisa Henson quanto as boas pessoas da Archaia concordaram que seria eu.

Você poderia falar um pouco sobre as suas técnicas e os seus métodos para adaptar o roteiro? Como ilustrador, eu imagino que você esteja acostumado a dialogar com os roteiristas dos seus trabalhos, mas dessa vez você não tinha acesso ao Jim Henson e ao Jerry Juhl…

Conto de Areia foi mais fácil de adaptar do que trabalhar com um roteiro de história em quadrinhos, apesar de provavelmente também ter levado mais tempo. Quando trabalhando com um roteiro específico de quadrinho eu preciso seguir, na maior parte, àquilo que o escritor escreveu. Por sorte eu tenho trabalhado com alguns bons escritores de quadrinhos, então raramente precisei fazer mudanças drásticas no enredo – e quando mudanças são necessárias eu sempre posso conversar com ele ou com o editor.

No entanto, com Conto de Areia, não tive nenhuma amarra. Nada estava determinado, em termos narrativos. No que diz respeito ao layout dos meus painéis, ao número de painéis, às viradas de páginas, ao ritmo e todo o resto, estava tudo por minha conta. A liberdade criativa que isso me permitiu foi imensurável.

Tendo o roteiro inteiro à disposição, eu sentei com ele e com um scketchbook customizado que eu fiz para o projeto e comecei a adaptar visualmente o roteiro. Fui essencialmente transformando em um storyboard, ao invés de adaptar cada trecho do roteiro. Foi um processo muito interessante – que eu adoraria repetir.

Para imaginar o visual e compreender como eu adaptaria o roteiro eu mergulhei nos primeiros trabalhos do Henson, como Cube e Time Piece, assim como vários curtas animados. Ganhei conhecimento sobre o tempo dele, o estilo de edição, o ritmo e a música, eu filtrei isso tudo a partir das minhas sensibilidades narrativas e assim levei Conto de Areia adiante.

E como foi a sua dinâmica com os editores da Archaia e com a Jim Henson Company durante esse processo de adaptação?

Felizmente a Jim Henson Company estava muito aberta e me deu bastante liberdade para lidar com o roteiro como eu achasse melhor. Eu encontrei com a Lisa Henson umas duas vezes também e ela me deu algumas boas dicas relacionadas ao pai dela. Durante o desenvolvimento do processo eu também trabalhei muito próximo com os meus editores Stephen Christy e Chris Robinson fazendo ajustes ao roteiro, informando-os sobre cortes na história original por questão de espaço e por necessidades de adaptação, reajustando coisas que podem funcionar em um filme, mas não em um quadrinho.

O roteiro do Jim e do Jerry já estava finalizado, mas ele precisava ser interpretado, trabalhado e ajustado para fazer sentido dentro da linguagem de uma graphic novel. Eu realmente acredito que a história de Conto de Areia é uma espécie de Teste de Rorschach, você pode chamar uma dúzia de narradores para interpretar e conseguir uma dúzia diferente de histórias. Por isso, essencialmente, essa é a minha interpretação de Conto de Areia, o que a história era para mim. Então sim, eu fiz ajustes e mudanças no roteiro em alguns aspectos para que fizessem sentido na minha interpretação e adaptação.

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“O Jim era bastante peculiar em relação à forma como a música servia aos seus filmes e animações. Sendo as histórias em quadrinhos uma linguagem silenciosa, eu fiz uso das cores para adaptar essa característica dos filmes dele. Sem alguém colocar as páginas de Conto de Areia lado a lado, veria um concerto de cores”

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Eu gostaria de saber mais sobre as cores do livro. Como você encontrou a paleta que considerava ideal para a história que estava contando?

Como disse anteriormente, eu mergulhei em muito dos trabalhos iniciais do Jim e do Jerry, o que deu uma noção da paleta que eles gostavam de usar, que misturada com os meus gostos pessoais me levaram à paleta do livro. Depois eu peguei essa paleta e usei como a minha trilha sonora para o livro, criando o que chamo de sinfonia de cores. O Jim era bastante peculiar em relação à forma como a música servia aos seus filmes e animações. Curtas iniciais dele, sem diálogo, dependiam do som para expressar emoções e ressaltar algumas passagens. Sendo as histórias em quadrinhos uma linguagem silenciosa, eu fiz uso das cores para adaptar essa característica dos filmes do Jim. Sem alguém colocar as páginas de Conto de Areia lado a lado, veria um concerto de cores.

Eu gosto do formato do livro. Você sempre soube como ele seria publicado? Como você acha que esse formato de Moleskine contribui para a história do quadrinho?

Foi minha sugestão ter o tamanho do livro igual ao do meu Moleskine de rascunhos e o Stephen Christy levou isso ainda mais adiante fazendo questão de que o elástico fizesse parte da versão final do livro. A razão por trás disso é que o Jim mantinha cadernos de rascunho e diários nos quais anotava suas ideias e pensamentos durante toda a vida. Conto de Areia é basicamente um diário da aventura do Mac – então, no final das contas, pensamos que esse seria o formato perfeito para contar a história e prestar uma homenagem ao Jim ao mesmo tempo.

Como era a sua relação com os trabalho do Jim Henson antes de ser convidado para a adaptação?

Eu era um GRANDE fã do Henson enquanto crescia, principalmente dos Muppets e da Vila Sésamo. Então quando houve a oportunidade de trabalhar em Conto e Areia foi uma imensa honra. A parte mais bonita de participar desse projeto foi entrar em contato com a Karen Falk, a arquivista da Henson Company que me forneceu cópias dos primeiros filmes e de projetos pessoais do Jim com os quais eu não tinha nenhuma familiaridade. Isso realmente abriu a minha visão em relação a outras facetas do trabalho dele.

Você também trabalha para a Marvel e outras editoras mais comerciais. Eu não sei se você considera Conto de Areia um trabalho mais pessoal, mas me parece um projeto mais singular do que uma revista mensal de super-heróis. É muito diferente para você trabalhar em universos tão distintos?

Eu com certeza digo que Conto de Areia é um trabalho muito mais pessoal. Sou eu do início ao fim. De adaptar até criar o visual da história e colorir as páginas trabalhando com a minha equipe de coloristas, principalmente o Ian Herring, mas também Jordie Belair e Kalman Andrasofszky, assim como o letrista, DJ e o designer do livro, Erick Skillman.

Trabalhar em publicações mensais, mesmo que envolvido, é um processo mais rápido e você constantemente se vê incapaz de ver o projeto com a unidade que gostaria. É geralmente a empresa que determina o visual e o estilo do livro. Apesar de ainda haver oportunidade de ser criativo e ousar em publicações mensais, é constantemente uma equipe de pessoas sendo coordenadas por um editor dentro de um ritmo muito rápido.

É engraçado que Conto de Areia seja um roteiro de filme adaptado para quadrinhos em uma época na qual predominam quadrinhos sendo adaptados para o cinema. Você vê muito diálogo entre essas duas mídia? O que você acha desse interesse crescente de Hollywood em quadrinhos ao longo da última década?

Eu acho maravilhoso que tantos quadrinhos estejam sendo adaptados para o cinema e oferecendo um outro formato para essas histórias. Dito isto, apesar de haver semelhanças entre as linguagens principalmente por serem formatadas a partir de histórias e imagens, há coisas que você pode fazer com quadrinhos que não pode fazer em filmes e vice-versa. Filmes são história ativas, a sua experiência é controlada pela visão dos diretores, enquanto os quadrinhos são passivos. Nos quadrinhos, os criadores apresentam a experiência, mas você pode ir para frente ou para trás no tempo com o passar das páginas, assim como a forma como você absorve os diálogos e gasta o seu tempo na arte.

Do que se trata Conto de Areia para você?

Para mim, Conto de Areia é sobre um homem preso nos confinamentos de sua própria vida. É você que faz a sua vida, mas às vezes os maiores empecilhos são aquele que você se impõe. Você é o seu próprio pior inimigo em busca de amor, trabalho, expressão e felicidade. O Mac continua preso dentro da história dele, mas talvez um dia ele veja os escritos nas paredes, como nas páginas iniciais do livro, e consiga se libertar.

Você pode recomendar algo que tenha lido, ouvido ou assistido recentemente?

Uma graphic novel favorita que sempre recorro para buscar inspiração é Asterios Polyp, do David Mazzucchelli. Estou lendo vários livros diferentes no momento, mas sou um grande fã dos livros do Malcom Gladwell. É difícil falar de flmes, nada tem me chamado atenção, apesar de eu ser um grande fã de O Despertar da Força e estar empolgado com Solo. Mas essa é a minha criança interior fã de Star Wars com grandes expectativas por mais histórias desse universo no qual eu cresci. Televisão é algo que tem atraído mais a minha atenção ultimamente. West World é um favorito e estou aguardando ansiosamente pela segunda temporada.

Entrevistas / HQ

Papo com Nate Powell, co-autor e ilustrador da trilogia A Marcha: “Muitas pessoas pagaram um preço para que seus esforços beneficiassem milhões”

Eu entrevistei o deputado norte-americano John Lewis, seu assessor Andrew Aydin e o ilustrador e quadrinista Nate Powell sobre o lançamento da edição brasileira do primeiro volume da trilogia A Marcha, A Marcha – Livro 1: John Lewis e Martin Luther King em Uma História de Luta Pela Liberdade (Nemo, com tradução de Érico Assis). As conversas com os três artistas resultaram em uma matéria para o jornal O Globo sobre as origens dos projeto, as expectativas do trio em relação à série, a produção das HQs e a repercussão das obras. Recomendo a leitura do texto para que você entender todo o contexto no qual A Marcha foi criada. Ontem eu compartilhei por aqui a íntegra das falas de John Lewis e Andrew Aydin. Hoje eu publico a íntegra da entrevista com Nate Powell. Segue o papo:

Eu queria saber mais sobre como você se envolveu nesse projeto. Você tem trabalhos muito autorais e pessoais e essa foi uma empreitada a seis mãos. Como você acabou ilustrando esses livros e como recebeu o convite para fazer parte desse projeto?

O Andrew e o representante Lewis trabalharam juntos entre 2009 e 2010 no que acabou se tornando o roteiro da trilogia inteira, mas na época como um único livro. Nesse período eu estava desenhando Any Empire e The Silence of Our Friends, foi quando eu li o release da Top Shelf sobre A Marcha. Eu fiquei impressionado, eu fiquei muito ansioso para ler o livro, mas não fazia ideia que ainda não havia nenhuma artista envolvido com o projeto. Algumas semanas depois, o meu editor, Chris Staros, me ligou e foi enfático ao sugerir que eu me candidatasse para o trabalho, mencionando as minhas sensibilidades narrativas e a minha familiaridades com o Sul dos Estados Unidos, minha terra natal, e suas histórias e cultura. Em seguida a essa sugestão, foi um processo muito direto com o parlamentar Lewis e o Andrew – eles me enviavam algumas páginas do roteiro, eu transformava em páginas-teste e depois as refazia a partir do retorno deles. Depois de umas duas semanas, nós sentimos uma conexão pessoal e criativa muito intensa e logo partimos para o desenvolvimento dos livros.

Qual era a sua experiência com não-ficção antes de A Marcha? Como foi pra você a experiência de ilustrar personagens e cenários reais?

Antes de A Marcha eu só havia feito uns cinco trabalhos de não-ficção e de quadrinhos inspirados na realidade (hoje eles estão reunidos na coletânea You Don’t Say). É importante dizer que alguns desses trabalhos apresentam os meus primeiros esforços para confrontar e tratar de dimensões de racismo e poder escondidas e implícitas em diferentes áreas dos Estados Unidos. Essa obra resultou no meu trabalho como ilustrador de The Silence Of Our Friends, basicamente um relato autobiográfico das experiências do escritor Mark Long como criança no Texas do final dos anos 60, tendo como pano de fundo um capítulo esquecido da história pela luta dos direitos civis.

Esse trabalho serviu de muitas formas como uma espécie de treinamento do que me aguardava em A Marcha. Mais importante ainda no aspecto criativo, reconhecer as minhas limitações e responsabilidades como o ilustrador de um relato em primeiro pessoa fizeram com que eu ficasse mais atento para encontrar o que não estava definido pelo roteiro – o que era preciso ser encontrado entre as linhas do roteiro sempre que possível. Às vezes isso revelava quando era necessário que eu fizesse mais pesquisas e encontrasse referências para completar o cenário histórico que estava sendo retratado, mas constantemente isso também revelava quando eu teria espaço para me divertir como artista e quando eu estaria livre para fazer uso das minhas memórias, experiências e familiaridades com a cultura, o ambiente e os elementos da história.

Eu acredito que seja possível dizer que você era o mais experiente dos três autores do livro no que diz respeito a quadrinhos. Você poderia falar um pouco da dinâmica do seu trabalho com os seus dois parceiros?

Eu assumo ter feito um trabalho pesado de adaptação do primeiro livro entre o roteiro e a página final. Inicialmente isso ocorreu porque o Andrew tinha como inspiração o quadrinho Dr. Martin Luther King, Jr. And The Montgomery Story e a ideia dele era fazer um homenagem a esse estilo narrativo típico da Era de Prata; eu tinha uma visão distinta da narrativa, muito mais ligada às realidades pessoais e emocionais do jovem John Lewis. Precisamos trabalhar ao longo de todo o primeiro livro para encontrarmos um meio termo onde essas duas abordagens fossem contempladas.

Também é importante mencionar que no início eu estava reescrevendo algumas das falas em primeira pessoa, em off, do John Lewis para que funcionassem melhor como prosa, mas o Andrew fez muito bem de me lembrar que o John Lewis sempre foi um grande orador e contador de histórias. Algumas dessas histórias vêm sendo repetidas palavra por palavra há décadas e há quase uma inviolabilidade para esses relatos. Por isso foi necessário que eu recuasse e reconsiderasse completamente a minha abordagem, mantivesse as falas do John Lewis praticamente na íntegra e fizesse com que o visual do livro passasse a servir às falas. De muitas formas, o Livro Um captura todo esse processo em que aprendemos a trabalhar juntos. O Livro Dois é muito diferente do primeiro por já termos começado a escrever e desenhar já levando em conta as forças e interesses específicos de cada um.

Eu aprendi muito com os livros, mas acima de tudo eles são um grande drama inspiracional, não uma aula de história. Vocês estavam preocupados em relação a qual seria a abordagem da história quando começaram a trabalhar nela?

Definitivamente – nós estávamos muito alertas que o livro poderia cair facilmente em um relato frio não-ficcional. A cada passagem de capítulo nós tentávamos focar nas realidades emocionais subjetivas dos personagens envolvidos e em como dar destaque à pureza de suas juventudes e humanidades. Os meus projetos pessoais, Swallow Me Whole e Any Empire, também já focavam nessa perspectivas, então eu só precisei confiar que havia sido escolhido para exatamente para amplificar esse aspecto dos ativistas ao longo de A Marcha.

Eu fico curioso sobre as expectativas de vocês em relação à recepção do livro. Vocês tinham algum leitor específico em mente quando começaram a criar a série?

Não, eu não tinha nenhum leitor específico em mente no início – e esse aspecto é revelador em relação a uma mudança criativa importante ao longo dos livros e também na minha jornada como criador.

Antes do Livro Um eu acreditava fortemente que eu jamais deveria antecipar ou me preocupar com os leitores potenciais de qualquer um dos meus trabalhos, mas por esse aspecto eu não colocava muita coisa em risco. Assim que o primeiro livro foi lançado, comecei a interagir com pais e seus filhos, com professores e seus alunos, com bibliotecários e donos de livrarias sobre o conteúdo da obra. Só então eu compreendi que, tendo sido criado e educado no Sul por pessoas que viveram essa história, as minhas experiência pessoais faziam com que eu já tivesse uma proximidade natural do movimento pelos direitos civis – e essa familiaridade jamais deve ser tida como universal. Há uma clara diversidade de gerações e uma vastidão de leitores para A Marcha e passou a ser minha missão considerar todos eles – particularmente, levar em conta leitores nascidos em gerações mais recentes e de fora do Sul, como as minhas próprias filhas.

Fiquei pensando no desafio que foi para vocês retratar todas as emoções implícitas nas marchas. Não se trata apenas de um grupo de pessoas se movendo em conjunto em uma única direção, foram atos muito desafiadores e corajosos para a época e imagino a responsabilidade de expressar toda a carga simbólica e emocional dessas marchas. Como foi essa experiência para você?

Essa é uma boa questão. É fácil olhar para uma filmagem de um protesto organizado e não violento e vê-lo como algo passivo e até mesmo casual – então era nossa responsabilidade explicitar as dificuldades, o terror, as ansiedades e as dúvidas sobre a filosofia e a disciplina da não-violência. Há com certeza uma ilusão de tranquilidade nessa postura aparentemente calma. Na realidade, essa postura é qualquer coisa, menos calma – na realidade é um grupo disciplinado de lutadores pela liberdade em meio a uma guerra muito real – que segue nos dias de hoje.

Assim como os Estados Unidos estão vivendo uma realidade de extremismos aflorados, preconceitos crescentes e falta de diálogo, nós estamos vivendo um cenário muito parecido no Brasil. Como você acha que as experiências e lições do John Lewis nos livros podem nos ajudar e nos servir de inspiração? Tanto para o nosso presente quanto para gerações futuras?

É crucial para todos nós entender a vigilância constante intrínseca a movimentos populares. Não estamos falando de problemas estabelecidos – como o John Lewis diz, “Nossa luta não é de dias, semanas, meses, nem mesmo anos. Nossa luta é de uma vida inteira.” Muitas pessoas pagaram um preço para que seus esforços beneficiassem milhões de americanos que eles jamais conheceram. Esse tipo de empenho e sacrifício requer fé na humanidade e reconhecer a urgência de jamais sermos displicentes em relação às lutas por liberdade, igualdade e justiça.

Você se lembra de quando ouviu falar pela primeira vez no John Lewis e nas marchas das quais ele participou?

A minha educação pessoal ocorreu ao longo da minha vida jovem e a partir de diferentes fontes. Como um garoto sulista nos anos 80, aprendi parte dessa história a partir dos conhecimentos e das experiências dos meus pais no Mississippi nos anos 50 e 60 e de viver em Montgomery, no Alabama, na mesma cidade em que aconteceu muito dessa história. É importante dizer que eu nunca aprendi nada sobre a história dos direitos civis na escola. Nos anos 90 eu me envolvi profundamente com música punk underground e com todas as suas causas políticas. O meu foco em anti-racismo e direitos de trabalhadores por meio do punk me permitiu aprender muito mais sobre pessoas a partir dos movimentos de direitos civis. Ainda assim, eu tinha muitos desses conhecimentos como aprendidos e desenhar A Marcha aos trinta e poucos foi um imenso reaprendizado.

Eu vejo muitas semelhanças entre os Estados Unidos do livro e o mundo em que estamos vivendo hoje. O que você espera que as pessoas tirem de lição desses três volumes de A Marcha que possa ser aplicado no nosso presente?

Nós precisávamos explicitar: “Olha. Aqui está o que um grupo de jovens empenhados e comprometidos conseguiu realizar – exatamente por eles terem 20 anos. O que você fez quando tinha 20 anos? Mais importante ainda, o que você fará quando tiver 20 anos?” A boa notícia é que todo mundo pode tomar essa decisão por conta própria. Nós precisamos levar os jovens a sério. Nós podemos mudar as tramas das nossas sociedades para melhor. Nós devemos. Não há outra opção.

Entrevistas / HQ

Papo com Andrew Aydin e o deputado John Lewis, os roteiristas da trilogia A Marcha: “Sempre acreditei que A Marcha tinha potencial para ser uma obra transformadora”

Eu entrevistei o deputado norte-americano John Lewis, seu assessor Andrew Aydin e o ilustrador e quadrinista Nate Powell sobre o lançamento da edição brasileira do primeiro volume da trilogia A Marcha, A Marcha – Livro 1: John Lewis e Martin Luther King em Uma História de Luta Pela Liberdade (Nemo, com tradução de Érico Assis). As conversas com os três artistas resultaram em uma matéria para o jornal O Globo sobre as origens dos projeto, as expectativas do trio em relação à série, a produção das HQs e a repercussão das obras. Recomendo a leitura do texto para que você entender todo o contexto no qual A Marcha foi criada. A seguir, publico o depoimento enviado por John Lewis em resposta a uma das perguntas enviada a ele e aos seus dois colegas e também a íntegra da entrevista com Andrew Aydin. Amanhã, reproduzo por aqui a conversa com Nate Powell.

John Lewis

O que o senhor espera que as pessoas tirem de lição de A Marcha que possa ser aplicado no nosso presente?

É minha esperança que A Marcha inspire mais gente a falar alto, a se manifestar, a entrar de frente. Todos podemos fazer algo, todos temos papel a cumprir, e é minha esperança que A Marcha mostre a outra geração como se movimentar, como se organizar, como defender o que é certo, o que é honesto, o que é justo.

Andrew Aydin

Eu li uma entrevista sua sobre a origem do projeto, na qual você conta como o deputado Lewis te apresentou ao quadrinho Martin Luther King Jr. and The Montgomery Story. Você sugeriu a ideia do quadrinho e então decidiram fazer a HQ juntos, certo? O resultado final dos três livros é muito diferente do que vocês tinham em mente no início do projeto?

Exatamente. Originalmente nós pensávamos em um único livro ou em uma série de quadrinhos curtos… Eu nem sabia na época que era possível fazer uma trilogia de graphic novels de não-ficção. Eu jamais havia feito ou visto antes. Mas na época nós sentamos, revimos o primeiro rascunho do roteiro e então fez sentido. O representante Lewis tem uma fala para momentos como esse. Ele diz, “É o espírito da história nos guiando”.

Você pode me falar um pouco dos seus métodos de pesquisa e sobre a criação do roteiro do quadrinho? Como foi a dinâmica do seu trabalho com o deputado e com o Nate Powell durante a produção do livro?

Os roteiros tiveram início com uma série de entrevistas com o representante Lewis e uma pesquisa de toda a literatura e cobertura da mídia da época e dos eventos com os quais estávamos trabalhando. As entrevistas ajudaram a criar uma linha do tempo narrativa e depois cavamos documentos, falas e detalhes que aprofundassem o conteúdo. O Student Nonviolent Coordinating Committee guardou muito bem os seus registros, mas nem todos eles estavam online ou guardados nos mesmos arquivos, passou a ser uma espécie de caça ao tesouro. Então eu precisei retornar ao deputado Lewis e fazer novas perguntas sobre questões em aberto. Eu recomendo com todo o meu coração que todos estudanto o movimento que visitem crmvet.org e leiam essa incrível variedade de documentos. Foram documentos cruciais para tornar várias das cenas de A Marcha eficientes em termos narrativos e de storytelling, como um trabalho de não-ficção.

E como foi a dinâmica de seu trabalho com o deputado Lewis durante a produção do livro? Quanto tempo vocês gastaram em entrevistas e estudos até chegarem em um roteiro final?

Eu e o congressista conversávamos por telefone a noite ou nos finais de semana, sempre que podíamos, para termos todos os detalhes possíveis. Eu fazia perguntas ou pedia que ele me contasse novamente alguma história em particular, para que as palavras dele estivessem presentes com fidelidade máxima. Foi muito divertido mostrar pra ele documentos que ele nunca tinha visto ou fazer perguntas que ele nunca havia respondido. Às vezes eu me vi fazendo perguntas muito estranhas, em busca de detalhes e informações que ajudassem ao Nate a representar essas memórias. Várias vezes eu mostrei ao deputado documentos antigos e fotos que encontrei e vi seus olhos brilharem com aquelas memórias. Nós acabamos gastando alguns anos trabalhando entre os primeiros rascunho e o roteiro final. Acho que foram cinco anos entre termos a ideia do projeto e o primeiro livro ser publicado. Depois, quando decidimos fazer uma trilogia, precisamos rever todos os planos, trabalhar novamente em cada roteiro e repassar todo o processo para que cada livro tivesse uma unidade.

Eu aprendi muito com os livros, mas acima de tudo eles são um grande drama inspiracional, não uma aula de história. Vocês estavam preocupados em relação a qual seria a abordagem da história quando começaram a trabalhar nela?

Uma das razões que me fazia acreditar que essa história funcionaria como quadrinho era por ela ser dramática. Quando eu escutava o deputado Lewis contar essas histórias para jovens eu ficava com a impressão delas parecerem muito mais vivas do que as versões que me contaram quando eu era criança, e era isso que queríamos apresentar desde o início.

Eu fico curioso sobre as expectativas de vocês em relação à recepção do livro. Vocês tinham algum leitor específico em mente quando começaram a criar a série?

A minha mãe foi uma imensa influência nesse projeto desde o começo, a cada nova passo que dávamos, e quando eu desanimava ou me sentia frustrado, ela me dizia: “você está escrevendo isso para o Andrew de nove anos que buscava uma pessoa boa e honesta como inspiração”. Mas eu sempre acreditei que A Marcha tinha potencial para ser uma obra transformadora. Se não fosse assim eu não tenho certeza se teria depositado tanto da minha vida nesse projeto. Eu tenho trabalhado nesse projeto há dez anos. Eu lembro de pessoas pensando que eu estava meio maluco por ter essa ideia, por estar insistindo tanto nela. Mas tudo bem, você provavelmente precisa estar meio maluco para fazer esse tipo de coisa.

Eu fiquei pensando no desafio que foi para que vocês retratar todas as emoções implícitas nas marchas. Não se trata apenas de um grupo de pessoas se movendo em conjunto em uma única direção, foram atos muito desafiadores e corajosos para a época e imagino a responsabilidade de expressar toda a carga simbólica e emocional dessas marchas. Como foi essa experiência para você?

Foi uma boa experiência. Eu me senti afortunado por ter essa responsabilidade. Eu a levei muito a sério. Essa história precisava ser contada, e precisava ser bem contada. Quando você conta essas histórias, você tem uma responsabilidade sagrada e me sinto grato pelos leitores acharem que estivemos à altura dessa responsabilidade.

Assim como os Estados Unidos estão vivendo uma realidade de extremismos aflorados, preconceitos crescentes e falta de diálogo, nós estamos vivendo um cenário muito parecido no Brasil. Como você acha que as experiências e lições do John Lewis nos livros podem nos ajudar e nos servir de inspiração? Tanto para o nosso presente quanto para gerações futuras?

O legado de A Marcha é ser um passo adiante. Na América e em todo o mundo, estamos enfrentando forças malígnas como ódio, intolerância e discórdia – mas resistimos. Nós continuamos a seguir rumos a uma sociedade mais justa e igualitária. Há avanços e retrocessos, mas compreender como não ser violento e como exercer seus direitos e suas responsabilidades como cidadãos é o que nos estimula a seguir adiante. A Marcha nos mostra como uma outra geração fez uso dos princípios inabaláveis do amor e da paz e da não-violência para que gerações seguintes pudessem carregar essa mesma tocha.

Você se lembra de quando ouviu falar pela primeira vez no John Lewis e nas marchas das quais ele participou?

Eu cresci no distrito do deputado Lewis. Ele tem sido o meu congressista desde quando eu tinha três anos. Tendo crescido em Atlanta, eu ouvi as histórias do Dr. Martin Luther King Jr e de Rosa Parks, mas eu nunca havia ouvido as histórias do SNCC ou do John Lewis. Foi apenas quando passei a fazer parte de sua equipe e passei a ouvi-lo contando essas histórias para jovens que percebi que havia começado a ouvir toda a história, a história real.

Você mora em Washington, certo? A cidade está muito diferente hoje, com o Trump, do que era na época do Obama como presidente?

Eu passo a maior parte do meu tempo em Washington. A cidade está diferente, mas ao mesmo tempo não está. Você lê histórias de pessoas tendo dificuldades em encontros ou para conhecer alguém por causa de suas opiniões políticas. DC ainda é uma cidade muito progressista. Talvez a mudança mais perceptível para mim tenham sido todas as placas de jardim que apareceram desde a posse no ano passado com falas do Dr. King pregando amor e união. E talvez valha a pena dizer que que DC ainda é a cidade que o Presidente Obama mora. Ele ainda mora aqui, como um cidadão comum.

Todas as divergências têm me feito ainda mais otimista em relação à América. As pessoas estão respondendo a toda essa negatividade com união. Movimentos políticos populares estão ganhando força a cada dia, e talvez o que possamos concluir é que esse período feio está nos fazendo cada vez mais fortes, nos despertando para as nossas responsabilidades civis e nos aproximando para a construção de uma comunidade mais construtiva.

Entrevistas / HQ

Papo com Lobo Ramirez, o autor de ASTEROIDES – Estrelas em Fúria: “O mais importante foi ligar os pontos no emaranhado de cenas sem noção”

ASTEROIDES – Estrelas em Fúria é o primeiro quadrinho solo longo do quadrinista e editor Lobo Ramirez. O álbum é ambientado em um futuro distópico no qual o esporte mais popular e letal do planeta é o salto ornamental. O roteiro da HQ é focado em uma série de ataques contra as atletas da equipe feminina de salto Centaurium, começando pelo assassinato da treinadora do time e dando início a uma investigação que coloca em risco a vida das demais saltadoras. As 120 páginas de violência extrema do quadrinho de Ramirez apresentam uma das tramas mais divertidas e absurdas que você lerá em 2018.

Se em 2017 Ramirez editou e publicou pela sua Escória Comix as excelentes Úlcera Vórtex, de Victor Bello, e Nóia, de Diego Gerlach, ele dá início às atividades do selo em 2018 com um épico tão bizarro e espetacular quanto os dois títulos de maior sucesso de sua editora. “Apliquei o que vinha funcionando: capa coloridona, quadrinho num formato de 15×21 cm, mas dessa vez com maior número de páginas”, conta o artista em entrevista ao blog. O lançamento da publicação está marcado para a Feira Plana 2018 – entre os dias 23 e 25 de março de 2018 na Cinemateca Brasileira em São Paulo.

Na entrevista a seguir, Ramirez fala sobre suas inspirações para ASTEROIDES, seus métodos de produção do quadrinho, os personagens da obra e o estilo de sua arte na HQ. Ele ainda produziu uma playlist com o que chama de “a trilha sonora não oficial do quadrinho”. Saca só:

Como surge a ideia do ASTEROIDES – Estrelas em Fúria? Houve algum ponto de partida específico que te impulsionou a contar essa história?

Foi surgindo aos poucos. Depois que li NÓIA, do Diego Gerlach, e Úlcera Vortex, do Victor Bello, fiquei empolgado e com vontade de fazer alguma coisa também. Eu estava sentindo falta da diversão horrivelmente trabalhosa que é fazer quadrinhos então aproveitei a disposição e o tempo e decidi que ia fazer um quadrinho, só que faltava a história. Revisei um monte de anotações procurando alguma ideia boa, mas a maioria era um monte de trocadilhos e cenas retardadas sem contexto nenhum. Deixei amadurecer um pouco essas ideias e foi quando, num sábado tranquilo assistindo TV, coloquei no canal de esportes e estava passando a final de salto ornamental feminino, de repente tudo fez sentido, todas as ideias começaram a se encaixar, pronto, estava feito, eu tinha uma história.

Eu queria saber sobre os seus métodos de criação do quadrinho. É o seu projeto pessoal mais longo, certo? Você chegou a criar um roteiro fechado e depois desenhou?

Isso mesmo, o objetivo era fazer umas 100 páginas, não dava pra meter o loco e sair desenhando. Nunca fiz roteiro, mas dessa vez senti que, se não tivesse o mínimo de organização, ia acabar me cansando no meio da coisa toda. Fiz vários rascunhos dos personagens e anotações da ordem dos acontecimentos, depois meio que dividi o número de páginas por parte e comecei a desenhar, no início eu desenhei na sequência das páginas depois percebi que não precisava seguir a ordem comecei a fazer as páginas aleatórias que eu estava mais afim de desenhar e ai fui preenchendo o meio. Deixei rolar, muita coisa foi mudando na hora, mas mantive mais ou menos a estrutura inicial. Demorei uns 6 meses pra terminar, sem pressa, às vezes desenhava muito, às vezes deixava de lado, também fui mostrando pruns amigos que deram uns toques.

Eu gosto muito dos personagens do quadrinho, acho que alguns até mereciam uns spin-offs. Como você administra a presença desses vários ‘heróis’ na HQ? Beirando aos spoilers, eu fico quase puto como eu tô curtindo pra caramba um personagem e aí você tira o foco dele e passa a centrar a história em outro.

Não acho que sou bom para criar personagens. Por isso não foquei em nenhum especificamente, na minha cabeça tudo ia acontecendo ao mesmo tempo, quando focava em um personagem eu ficava pensando o que estava acontecendo com o outro, senti necessidade de mudar o foco várias vezes, mas sempre mantendo ali uns três personagens principais, sem saber muito bem se existia um protagonista. O mais importante pra mim foi ligar os pontos no emaranhado de cenas sem noção.

Rascunhos de Lobo Ramirez com estudos das personagens de ASTEROIDES – Estrelas em Fúria

Eu vi o Diego Gerlach fazendo uma referência ao Rob Liefeld em um texto sobre o Asteroides no Facebook e quando acabei de ler também pensei nesse diálogo dos seus quadrinhos com essas HQs da Marvel e do início da Image do começo dos anos 90, tudo meio bizarro, com muito músculo, à base de porradaria, morte e explosão. Esse universo dialoga com a sua formação como leitor de quadrinho?

O incrível universo dos músculos extremos com ASTEROIDES. Mais ou menos, faz parte da minha formação como leitor de quadrinhos, mas sempre comprei muita coisa em sebo e na época, apesar de ter muitos desses quadrinhos do inicio dos anos 90, nunca li muitos não, eu não sou um leitor do Rob Liefeld. Lembro de comprar umas minisséries tipo Robocop vs Exterminador do Futuro, Slash – O Guerreiro do Apocalipse e ALIENS. Eu gosto mais das coisas da revista HEAVY METAL, prum moleque metaleiro aquilo era muito mais legal que histórias de super-heróis ultra-musculosos, e tinha vários artistas e vários estilos de desenhos, sempre me interessei mais por isso. Também comprei muita coisa do Lobo, do Simon Bisley e Alan Grant, que é uma zuera com essa coisa toda de músculo, porradaria, morte e explosão. É retardado, idiota, bobo, imbecil, mas é divertido. Acho que é mais por esse lado.

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“Pô, Picasso é deformado, não é? Acho que Rob Liefeld é o Picasso dos quadrinhos então”

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Aliás, pensando aqui no Rob Liefeld, eu cresci lendo meio mundo execrando o trabalho dele, mas de uns tempos pra cá vi várias pessoas que admiro ressaltando a qualidade do trabalho do cara. Você curte a arte dele?

Nem conheço muito os quadrinhos do Rob Liefeld, mas no geral prefiro traço ‘deformado’. Eu vejo mérito no trabalho que tem um estilo próprio, uma coerência sabe? Pô, Picasso é deformado, não é? Acho que Rob Liefeld é o Picasso dos quadrinhos então.

Além de quadrinista e editor, você também tem uma banda. Você gosta de ouvir música enquanto trabalha? Se sim, isso contribui e influencia de alguma forma o desenvolvimento da história? O que você escutava enquanto criava o ASTEROIDES? Aliás, você consegue imaginar uma trilha sonora pro ASTEROIDES?

Sim, mas não influêcia muito o desenvolvimento da história, só faz o tempo passar mais rápido. No caso do ASTEROIDES, como na minha cabeça esse quadrinho é um filme, eu fiquei curtindo ouvir músicas que encaixavam melhor nas sequências que eu estava desenhando. Escutei bastante trilhas sonoras de filmes/desenhos, como Fuga de Nova Iorque, Hokuto No Ken, Maniac, O Quinto Elemento, Mad Max 2 e também uma porrada de New Retro Wave aleatório no YouTube. Consigo e fiz uma playlist bootleg com a trilha sonora não oficial do ASTEROIDES.

ASTEROIDES é o primeiro lançamento da Escória Comix em 2018, depois de um ano em que você investiu pesado no selo, com lançamentos elogiados pelo público e por críticos. Dessas suas experiências do ano passado, trabalhando com vários artistas, com diversos lançamentos e em formatos diferentes, quais as principais lições que você tirou e aplicou nesse gibi novo?

Eu acho que dei sorte com esses lançamentos do ano passado e não quero contar com a sorte, por isso tentei criar um método que funcionasse pra Escória Comix. A partir das experiências do ano passado decidi usar o ASTEROIDES de teste, apliquei o que vinha funcionando: capa coloridona, quadrinho num formato de 15×21 cm com mais ou menos 45 páginas, mas dessa vez já testei esse formato novo, com maior número de páginas – o maior da Escória, até agora -, testei também uma divulgação mais planejada, produzi um vídeo picareta, mandei release pra blogs e fiz parceria com a Ugra Press.

Rascunhos de Lobo Ramirez para nove das páginas de ASTEROIDES – Estrelas em Fúria

Rascunhos de Lobo Ramirez com estudos das personagens de ASTEROIDES – Estrelas em Fúria