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Entrevistas / HQ

A Plaf #2 está nas lojas: “Os quadrinhos não podem se alienar de seu papel político, democrático”

O segundo número da revista Plaf já está disponível nas principais lojas especializadas em quadrinhos do país. Editada por Paulo Floro, Carol Almeida e Dandara Palankof, a publicação tem capa assinada pelo quadrinista Mascaro, uma entrevista com o artista Marcelo D’Salete e quadrinhos de autoria de Jô Oliveira, Brendda Costa Lima, Felipe Portugal e Mascaro. Eu escrevi uma das matérias da edição, tratando dos hábitos de consumo de leitores brasileiros e sobre questões relacionadas ao comércio de HQs no país. A revista tem 60 páginas, formato 21x28cm e preço de R$ 15.

Conversei por email com um dos editores da Plaf, o jornalista Paulo Floro. Ele falou sobre os principais desafios na edição desse segundo número da publicação, as principais lições da edição de estreia, as matérias e os quadrinhos presentes na Plaf #2 e a missão de uma revista sobre quadrinhos em um contexto político conturbado, de conservadorismo aflorado e princípios democráticos em risco. Papo massa, saca só:

“Acreditamos na democracia e vamos defendê-la acima de tudo”

Duas páginas da Plaf #2 com entrevista com Marcelo D’Salete

A primeira edição da Plaf foi lançada em agosto de 2017, com a promessa de periodicidade bimestral, mas o segundo número saiu apenas em outubro de 2018. O que aconteceu? Por que esse atraso?

O que aconteceu foi uma série de problemas referentes a um edital de cultura que tínhamos vencido. A produção do número 2 se iniciou quase que ao mesmo tempo do lançamento da edição 1, mas nos vimos imersos em uma discussão em relação às regras do edital, sobretudo quanto aos prazos. Se tivéssemos sabido que existia essa possibilidade de atraso nunca teríamos divulgado a periodicidade. Tentamos de todas as maneiras explicar a importância do projeto, dos benefícios que isso trazia às publicações independentes. Esses atrasos no repasse da verba nos fizeram atrasar o lançamento da edição 2, que estava pronta. Queríamos primeiro resolver qualquer pendência primeiro.

Esse atraso afetou de alguma forma a produção da revista e o conteúdo presente nesse segundo número?

Não. A revista ficou praticamente pronta ao final do lançamento da #1. Mudamos algumas matérias, mas por uma questão editorial mesmo, não por conta do atraso. Ficamos felizes com o resultado, com as colaborações e com o incrível trabalho de diagramação de Erika Simona, que também criou nosso logo.

“Queremos discutir a forma, falar de mercado e celebrar esse divertido entretenimento que é ler um gibi, mas não podemos deixar de dar nossa contribuição sobre o que está acontecendo no Brasil”

Matéria da Plaf #2 sobre consumo de quadrinho no Brasil

Quais as principais lições que vocês tiraram do primeiro número da revista? Como vocês tentaram aplicar esse aprendizado na segunda edição?

O principal aprendizado é em relação à gestão mesmo. Acredito que agora temos mais experiência em trabalhar com editais e captação de recursos. É algo que demanda muita organização, conhecimento jurídico e paciência. Aqui em Pernambuco os artistas sempre foram bastante engajados no papel do poder público na promoção da arte e da cultura, mas os quadrinhos sempre tiveram pouca presença. Agora vejo que já existe uma organização nesse sentido, com editores e artistas mais próximos, dialogando sobre possibilidades. Espero que um dia a cena de quadrinhos possa ser articulada como a do cinema e música, que por batalharam por tantos anos hoje já possuem uma abertura bem maior junto aos espaços de discussões de políticas culturais, bem como nas empresas e editais governamentais. Mas, ao mesmo tempo, vejo que os tempos estão mais difíceis para todos. Além da cena de quadrinhos, esse movimento de união deve ser de toda a cadeia produtiva de arte e cultura.

Você pode falar um pouco mais sobre a capa desse segundo número? Por que o Cristiano Mascaro? Vocês passaram alguma pauta pra ele em relação à arte que estamparia a capa dessa edição?

Para a capa do segundo número queríamos um artista pernambucano, este foi nosso primeiro pensamento quando começamos a desenhar o número 2. E Mascaro sempre foi alguém que admiramos. Ele foi um dos criadores da Ragu, revista pioneira em Pernambuco e no Brasil. Até hoje acho impactante uma HQ que ele fez para a Ragu que trazia os meninos de rua gigantes. Lembro de ter ficado emocionado de verdade lendo aquela história e ainda hoje sinto o impacto quando releio. Mascaro sempre uniu a busca por uma inovação na forma e na narrativa com questões sociais no roteiro. Pra gente que tem a Ragu como uma das maiores inspirações, ter Mascaro nesta edição é uma honra. A gente pediu uma HQ a ele, mas não pautamos nenhum tema. Como já sabíamos do seu estilo a confiança de que sairia algo incrível era total. Ele fez uma história incrível, que lembra um lambe-lambe, ao mesmo tempo em que se assemelha a um ensaio visual, bem inovador mesmo. E bastante atual para representar essa crise moral e política em que vivemos. Em relação à capa dissemos apenas o tom do editorial, que conclama os leitores a irem pra rua comprar gibi, de fortalecer a circulação autoral de quadrinhos, de celebrar leitores e lojistas.

Página da HQ de Jô Oliveira presente no segundo número da revista Plaf

O que vocês destacam nesse segundo número da revista? 

Para esse segundo número a gente quis debater um pouco o mercado editorial brasileiro, dar nossa contribuição em um debate que é bastante complexo e que possui diversas abordagens. Então em um primeiro momento a proposta foi falar da lógica de consumo, o modo como consumimos quadrinhos. Tem ainda uma entrevista com Marcelo D’Salete sobre Angola Janga e a representação da negritude nos quadrinhos. Quando ele venceu o prêmio Eisner, a revista estava pronta, mas não tinha ido à gráfica ainda e por isso conseguimos incluir essa informação, que é um registro poderoso. D’Salete é uma voz importante não só nos quadrinhos brasileiros, mas da cultura como um todo. O trabalho que ele vem fazendo de pautar uma nova perspectiva de nossa história é algo importante, urgente, muda paradigmas da história dos negros e negras no país. Destaco também o perfil de Jô Oliveira, que é um quadrinista pernambucano que tem um trabalho muito importante, mas pouco reconhecido. Ele é mais publicado no exterior do que aqui. E tem a cobertura que fiz do Festival de Angoulême, que neste ano teve uma boa presença de brasileiros. E tem ainda um perfil da Marca de Fantasia, editoria da Paraíba feita por um homem só, o Henrique Magalhães.

De quadrinhos temos a HQ de Mascaro, que já citei, que é bem legal. Chamamos Roberta Cirne por ter um estilo muito particular, um traço barroco, denso, que curtimos muito. Ela se dedica a pesquisar histórias de terror no Recife e faz parte de uma cena de horror que vem crescendo em Pernambuco nas HQs, no cinema, teatro. Já Brendda Lima é um nome importante dessa nova geração de quadrinistas que se dedicam a trabalhos mais autobiográficos, já acompanhávamos há um tempo as HQs dela na web. E teve Felipe Portugal, que trouxe um ensaio em primeira pessoa, inclusive citando a revista. Já a HQ de Jô Oliveira era um trabalho que ele tinha guardado e nos cedeu depois do perfil que fizemos com ele. Imagina a nossa alegria quando ele nos mandou? Não chegou a ser intencional, mas ficamos felizes em saber que todos os quadrinhos desta edição são de autores nordestinos.

Uma página do quadrinho de Brendda Costa Lima para a Plaf #2

Eu fico curioso em relação a essa missão dupla da Plaf, como uma revista de quadrinhos e sobre quadrinhos. É muito distinta a experiência de editar uma matéria ou uma crítica e editar uma HQ? Aliás, como é a dinâmica de vocês com os quadrinistas? Vocês pautam os temas sobre os quais eles devem tratar?

Essa missão dupla realmente é um desafio massa de se ter, nos dá uma instiga de pensar o cenário de quadrinhos de maneira crítica com matérias e textos ao mesmo tempo em que buscamos dar espaço para artistas que admiramos. Em geral damos liberdade para os quadrinistas, no sentido de estilo, roteiro, narrativa. O que acontece é que muitas vezes pautamos o quadrinista em relação a algum tema ou ideia. Por exemplo: sempre admiramos os quadrinhos que Felipe Portugal postava em que ele aparecia como um alter-ego refletindo sobre diversos temas e tentando explicar algum conceito. Então pedimos algo parecido a ele, mas sem dizer um tema. E o resultado superou nossas expectativas. Na edição 1 queríamos uma HQ que falasse sobre o Recife e se passasse no Recife e convidamos Raoni Assis pela ligação afetiva que ele tem com a cidade enquanto artista, o que deu origem à HQ sobre o OcupeEstelita. Acreditamos que podemos comunicar através das HQs que trazemos na Plaf e por isso sempre estamos em diálogo aberto com os autores.

O Brasil está passando por uma imensa crise editorial e corre o risco de eleger para a presidência um indivíduo militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista (nota do editor: a entrevista foi feita antes do resultado do segundo turno da eleição presidencial). Qual vocês acreditam ser o papel da Plaf dentro desse contexto nefasto? Como a revista se posiciona em relação a esse cenário?

Acreditamos na democracia e vamos defendê-la acima de tudo. Desde o número 1 estamos falando editorialmente sobre o que pensamos, colocando a arte como um espaço de diálogo e reflexão. Os quadrinhos não podem se alienar de seu papel político, democrático. Queremos discutir a forma, falar de mercado e celebrar esse divertido entretenimento que é ler um gibi, mas não podemos deixar de dar nossa contribuição sobre o que está acontecendo no Brasil. Com muita humildade espero que a Plaf possa proporcionar informação para resistir nesses tempos duros. Fiquei feliz de ver uma movimentação nas redes em torno da hashtag #desenhospelademocracia com vários artistas trazendo conteúdo antifascista, debatendo as eleições deste ano. Ninguém mais hoje pode ficar neutro, sobretudo no que diz respeito à perda de direitos e retrocessos na democracia.

Página do quadrinho de Mascaro para a segunda edição da Plaf

Quais as principais lições que vocês tiraram desse segundo número? Como vocês pretendem aplicar esse aprendizado nas próximas edições?

O maior aprendizado diz respeito à gestão de um projeto como a Plaf, que envolve custos relativamente altos de produção e impressão. Queremos aplicar essa experiência para as próximas edições, sobretudo quanto aos prazos. Quando terminamos de editar a revista, a colocamos em pré-venda por acreditar que tudo sairia dentro do nosso cronograma. O resultado é que atrasamos, o que frustrou a expectativa de muita gente. Quando a revista finalmente saiu mandamos uma cartinha pedindo desculpas. Isso é algo que dificilmente faríamos. Também ficamos mais experientes com relação à distribuição, que era algo bastante novo para todo mundo na equipe. É bem mais complexo do que despachar pelos Correios. Envolve gestão de estoque, prestação de conta, loja online, etc, o que melhorou bastante. Aproveito para agradecer a todo mundo que apoia a revista e dizer que somos gratos por todo o carinho que recebemos até agora. O retorno foi bem positivo da número 1 e espero que essa edição 2 tenha o mesmo sucesso.

O que vocês podem adiantar sobre os próximos números da revista? Qual é o futuro da Plaf?

Queremos muito retomar nossos planos de ter quatro edições por ano, mas agora preferimos não mais falar de uma data exata de lançamento da número 3. Esperamos bastante conseguir capitalizar a revista para que ela tenha sustentabilidade a longo prazo. Esperamos sensibilizar marcas e empresas do enorme potencial que a publicação possui, do diálogo que mantém com diversos públicos, pensar parcerias. Para esse número 2, que acabou de sair, ainda queremos fazer mais lançamentos. O mercado vive um momento muito complicado e nem arrisco a fazer uma previsão, mas com certeza vamos manter o nosso projeto editorial de falar de quadrinhos de uma maneira plural, inclusiva, dando destaque para a produção brasileira. Quem quiser embarcar nesse projeto conosco, será super bem-vindx. 🙂

A capa da Plaf #2

Entrevistas / HQ

Papo com Kate Evans, a autora de Refugiados – A Última Fronteira: “Quando as pessoas se desesperam, o extremismo floresce”

Segundo um censo da organização não governamental britânica Help Refugee, o campo de refugiados e migrantes da cidade francesa de Calais chegou a abrigar 8,143 pessoas com o objetivo de chegar ao Reino Unido via o porto do município francês ou pelo trajeto do túnel que percorre o Canal da Mancha. Desmantelado em outubro de 2016 e também conhecido como Selva de Calais, o campo é até hoje um dos principais símbolos da crise migratória mundial e foi classificado pela ONG internacional Human Rights Watch como “o inferno na terra”, por conta das condições precárias oferecidas aos seus moradores e dos abusos constantes por parte das autoridades francesas contra a população vivendo no local.

A quadrinista britânica Kate Evans narra em Refugiados – A Última Fronteira suas experiências como voluntária em Calais ao longo de três visitas feitas por ela ao campo entre outubro de 2015 e fevereiro de 2016. “Eu precisava mostrar às pessoas o que eu tinha visto”, conta a artista em entrevista ao blog sobre seu trabalho mais recente publicado em português – em 2017, a WMF Martins Fontes publicou Rosa Vermelha, projeto prévio da autora. A HQ recém-lançada no Brasil pela Darkside Books apresenta relatos colhidos por Evans durante suas idas ao campo e apresenta testemunhos de habitantes do local sobre seus dramas. As fontes da artista relatam as vidas que deixaram para trás e seus sonhos com uma possível nova vida em território britânico.

“O projeto neoliberal falhou e quando as pessoas se desesperam, o extremismo floresce”, diz Evans sobre suas interpretações em relação ao que teria dado errado na humanidade a ponto do surgimento de um ambiente como a Selva de Calais. Uma das vilãs do livro é inclusive a líder da extrema-direita francesa Marine Le Pen – aquela mesmo que criticou o candidato fascista à presidência brasileira Jair Bolsonaro, por dizer coisas “extremamente desagradáveis”. Refugiados é um livro necessário e didático. Um alerta em tempos de conservadorismo aflorado, de pouca empatia e de humanismo limitado. A seguir, papo com Kate Evans:

“Eu precisava mostrar às pessoas o que eu tinha visto”

A quadrinista Kate Evans conversando com alguns dos refugiados do campo em Calais

Você lembra do momento em que teve a ideia de criar Refugiados?

Eu visitei Calais em outubro de 2015. Soube que iria fazer o quadrinho no minuto que eu visitei. Quando voltei para casa, tive que fazer. Eu precisava mostrar às pessoas o que eu tinha visto. Isso se tornou um post no meu blog, que depois se tornou o primeiro capítulo de Refugiados. Voltei ao acampamento mais duas vezes e percebi que tinha o suficiente para um livro.

Seu livro está sendo publicado no Brasil em um contexto de preconceitos aflorados contra minorias. Qual mensagem você espera que seus leitores tirem desse trabalho?

Que somos todos pessoas, que somos todos habitantes do mesmo planeta. Que não temos nada a temer, e temos tudo a ganhar com compaixão e cooperação. Que a construção de muros aprisiona todos nós.

A líder da extrema-direita francesa Marine Le Pen em quadro de Refugiados – A Última Fronteira

Sobre esses mesmos preconceitos e essa crescente falta de empatia, o que você acha que está acontecendo com a humanidade? E por que agora?

O projeto neoliberal falhou. As mudanças climáticas estão começando a tornar partes do planeta inabitáveis. A riqueza está subindo em espiral para os bolsos do 1%. Quando as pessoas se desesperam, o extremismo floresce. Nas palavras de Rosa Luxemburgo, nos deparamos com uma escolha simples: ‘socialismo ou barbárie’.

Uma sequência de Refugiados – A Última Fronteira

Você é otimista em relação ao nosso futuro?

Eu estou sempre otimista. Tudo é político. Cada pequeno ato de bondade e união. Tudo conta.

Você considera seu trabalho em Refugiados como jornalismo de quadrinhos?

É reportagem em quadrinhos, que é um formato já consagrado. Eu não me considero jornalista, no entanto. Eu me considero um ativista, e minha primeira responsabilidade em uma situação de crise é tentar aliviá-la, participar dela, não ficar parado tentando ‘encontrar a história’. Jornalistas aspiram à objetividade, enquanto eu uso uma abordagem novelística para colocar em camadas eventos reais com representações emotivas, a fim de evocar sentimentos específicos no leitor. Eu também moldo o ritmo da narrativa ao longo do livro em um arco emocional mais amplo – conduzo o leitor em uma jornada. Então, nesses dois aspectos, meu trabalho está mais próximo de ser uma graphic novel do que um relato jornalístico. No entanto, é tudo verdade! Eu não inventei nada!

Uma página de Refugiados – A Última Fronteira falando sobre as bordadeiras da cidade de Calais

Você poderia me contar um pouco sobre como você definiu seu estilo em Refugiados? Seu outro livro publicado aqui no Brasil, Rosa Vermelha, apresenta uma arte muito diferente desse álbum mais recente, certo?

Eu acho que ele se definiu sozinho. Uma vez que descobri que Calais era uma cidade de rendeiras, eu tinha o ‘gancho’ visual para enquadrar o trabalho. Bordas de renda branca significavam que eu precisava de páginas coloridas e um efeito de colagem. Eu provavelmente sou mais inspirada pelo trabalho da Lynda Barry em One! Hundred! Demons!, bem como pelo trabalho de lápis colorido de Raymond Brigg.

Você poderia me contar um pouco sobre suas técnicas? Que tipo de material você usa?

Lápis de cor no papel. Todos os bordados eu incluí no Photoshop. Foi bom poder usar todos os meus enfeites de renda e pedaços de coisas de artesanato e em um trabalho pra valer, ao invés de coisinhas que faço para bebês com pedaços desses materiais.

“A hostilidade, o racismo e as visões reacionárias estão em ascensão, e em resposta, as pessoas sempre se levantam onde podem protestar, proteger e ajudar”

A quadrinista Kate Evans conversando com alguns dos refugiados instalados no campo de Calais

Você tem alguma curiosidade em relação à forma como o seu trabalho será lido e interpretado em um país tão diferente do seu, como o Brasil?

Eu fico interessada em saber o que as pessoas pensarão de mim, a narradora – na verdade, uma dona de casa inglesa de meia-idade com uma vida confortável que caiu no meio de uma catástrofe. Há uma distância crítica no livro em que me apresento como uma personagem um pouco ingênua. Você pode rir de mim por ser uma pessoa branca tola e privilegiada. Eu escrevi assim de propósito.

Há um elemento de Refugiados que é universal, em que todos nós estamos vendo migração, despossessão, desespero – em toda parte a hostilidade, o racismo e as visões reacionárias estão em ascensão, e em resposta, as pessoas sempre se levantam onde podem protestar, proteger e ajudar. E há uma mensagem forte em Refugiados com a qual todos podem se identificar, o poder do amor de uma mãe por seus filhos.

A capa de Refugiados – A Última Fonteira, álbum da quadrinista Kate Evans

Entrevistas / HQ

Papo com Guy Delisle, o autor de Fugir – O Relato de Um Refém: “Você não sabe o que faria em uma situação tensa que nem aquela”

Fugir – O Relato de Um Refém é o mais recente trabalho do quadrinista canadense Guy Delisle publicado em português. Eu escrevi sobre a obra lançada por aqui pela Zarabatana Books para o portal UOL. No texto eu apresento algumas aspas da minha entrevista com o autor, tratando principalmente do processo de adaptação para quadrinhos do relato do trabalhador humanitário francês Christophe André sobre seus 111 dias como refém de uma milícia no Cáucaso no ano de 1997. Com 432 páginas, o livro oferece uma experiência de leitura angustiante, sempre propondo ao leitor possíveis questionamentos em relação a quais escolhas ele faria no lugar do protagonista da HQ.

Quinto livro de Delisle publicado no Brasil, Fugir é o primeiro não protagonizado pelo autor. Ao contrário dos diários de viagem Shenzhen – Uma Viagem à China, Pyongyang – Uma Viagem à Coreia do Norte, Crônicas Birmanesas, Crônicas de Jerusalém e do bem-humorado Guia de Um Pai Sem Noção, Delisle se faz presente apenas na primeira página de Fugir, entrevistando Christophe André. Ainda assim, após ambientar seus trabalhos mais conhecidos em locais com governos ditatoriais ou conhecidos pelas restrições impostas aos seus cidadãos, Fugir soa como o mais recente capítulo de uma série sobre pessoas em contextos de falta de liberdade – tópico obrigatório para um Brasil em meio a uma disputa presidencial protagonizada por um candidato militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista.

Recomendo demais a leitura de Fugir – O Relato de Um Refém e da minha matéria sobre o quadrinho para o UOL. Depois volte aqui e leia a íntegra da minha entrevista com Delisle, conversa muito interessante sobre a construção de sua HQ mais recente, a dinâmica de seu trabalho com Christophe André e as reflexões que vieram à mente dele enquanto desenvolvia o álbum. Com vocês, papo com Guy Delisle:

[A entrevista a seguir foi traduzida pelo jornalista, crítico, pesquisador e tradutor Érico Assis. Valeu pela ajuda, Érico!]

“Tínhamos que transformar isso em história em quadrinhos. E ele falou: ‘Claro, por que não?'”

Você lembra do momento em que teve a ideia de contar a história do Christophe André em HQ? Aliás, você lembra como a mídia francesa noticiou essa história?

Eu tinha lido o diário de Christophe no jornal e depois tive oportunidade de encontrá-lo num dia que ele estava com amigos da Médicos Sem Fronteiras, que me avisaram: ‘Ele vem almoçar conosco.’ Como eu já conhecia a história, comecei a fazer perguntas, mas pensei que uma pessoa que tivesse passado por uma experiência daquelas não ia gostar de contar. Fui pensando: que trauma, ele não vai falar muita coisa. Só que, na verdade, ele foi muito aberto. Contou a história inteira a todos nós, com detalhes, e aquilo foi tão fascinante que eu pensei: Uau, tínhamos que transformar isso em história em quadrinhos. E ele falou: ‘Claro, por que não?’ Levei bastante tempo, mas desde ali, desde o princípio, eu percebi que embora a maioria das pessoas que é sequestrada não goste de contar a experiência, esse cara era diferente porque ele tinha fugido. Como ele mesmo disse: ‘Fugir é a melhor terapia’. Por isso ele não se sentia vítima nem nada do tipo. Se sentia inclusive mais forte que antes do sequestro. Por isso que não tinha problema em contar.

Você poderia falar um pouco da dinâmica do seu trabalho com o Christophe André? Como ele recebeu a sua proposta de transformar a história dele em quadrinho?

Passamos só um dia juntos, mas ficamos em contato durante os 15 anos que eu levei para fazer o álbum. Ficamos muito amigos porque temos muito em comum. Acho que é por isso que o quadrinho está aí, pois de outro modo acho que teríamos perdido o contato. A partir da gravação eu fiz várias anotações, coloquei em ordem e comecei a trabalhar. Eu enviava as páginas pra ele, pois foi a primeira vez que coloquei palavras na boca de alguém e no começo achei muito difícil. Ficava pensando: o Christophe vai ter que ler isso aqui. Se não eu vou ficar num bloqueio constante. Então eu fazia 10 ou 15 páginas, enviava pra ele, ele me dava um retorno e eu seguia adiante. Eu não queria que ele tivesse surpresas negativas no final, quando recebesse o livro. Queria que ele soubesse o que estava no livro e concordasse com tudo.

“Um amigo tirou fotos minhas seminu na cama e no chão, que na época deu uma sensação muito esquisita, mas ajudou bastante porque optei por um desenho mais realista que o meu normal”

Uma grande diferença entre o Hostage e os seus livros de viagens é que você não teve a experiência de estar presente no local em que a sua história é ambientada. O processo de criação desse livro foi muito diferente desses outros? Você usou muitas referências fotográficas? Como decidiu o que desenhar?

Bom, a maior parte do livro se passa em uma sala onde não tem nada, e isso é bem fácil de desenhar. No resto, tirei fotos de mim mesmo amarrado a um radiador no meu estúdio. Tenho algemas que comprei porque sabia que era uma coisa que ia desenhar por 400 páginas. Um amigo tirou fotos minhas seminu na cama e no chão, que na época deu uma sensação muito esquisita, mas ajudou bastante porque optei por um desenho mais realista que o meu normal. Foram boas referências. Depois disso, quando ele foge e estamos na Chechênia, procurei imagens vilarejos na Inguchétia e na Geórgia porque na internet, quando se procura Chechênia, só se encontra lugares fechados, nada externo.

Você poderia falar um pouco das suas técnicas?

Desenho tudo no papel e depois escaneio. Eu desenhava em folhas avulsas em vez de ter uma prancha final, porque queria chegar no aspecto de rabisco. Não apagava nada. Saía desenhando e ficava com o que me deixasse satisfeito, e no fim do dia escaneava tudo e deixava a montagem da página para depois, no computador. Sombreamento e tons de cinza também foram no computador. Ou seja, metade do dia era desenhar e escrever, isso pela manhã. Aí no fim do dia eu escaneava e montava. Em um dia normal de trabalho, costumo fazer uma página.

“Christophe dizia: ‘Com uma pressão dessas, você vira uma pessoa bem diferente.'”

Mesmo não tendo tantas variações de cores, Hostage é o seu livro mais colorido, certo? Como você chegou nessa paleta específica de tons azulados e cinzas?

O desenho é simples, as cores são simples. Ele me dizia que ficou numa penumbra cinzenta. Não havia luz total no quarto. Era sempre meia luz, o tempo todo. Então resolvi mostrar isso com variações de cinza e um tom de azul. Foi isso.

Eu acho que o maior mérito do livro está em colocar na cabeça do leitor a dúvida do que ele faria no lugar do seu personagem. Você costuma especular sobre o que teria feito no lugar do seu protagonista?

Não sei. Christophe dizia: ‘Com uma pressão dessas, você vira uma pessoa bem diferente.’ Ele é um cara bem tranquilo e, quando pensa no que fez, é uma coisa que vai quase além da imaginação. Mas ele fez. E, como ele diz, você não é mais o mesmo. Você vira outra pessoa. Ou seja, você não sabe o que faria em uma situação tensa que nem aquela.

O quadrinho saiu em inglês como Hostage e em francês como S’Enfuir. Você que decidiu as duas versões do título? Aliás, foi difícil determinar qual seria o título?

Só escolhi o título em francês e deixei os outros a cargo de cada tradutor.

Os seus livros tratam principalmente de liberdade e de locais nos quais ela tem alguma restrição. O mundo está cada mais conservador e hostil em relação a liberdades individuais. O que você pensa sobre isso? Você é pessimista ou otimista em relação ao nosso futuro?

Depende do dia.

Entrevistas / HQ

Papo com Odyr, autor de A Revolução dos Bichos em quadrinhos: “O mundo está num momento particularmente tenso para a democracia, para a igualdade e para o livre pensamento”

Três noites antes de sua morte, o velho Major, porco premiado da Granja Solar, pertencente ao Sr. Jones, convocou uma reunião no galinheiro. Consciente de seus instantes finais de vida, ele tinha como missão transmitir o que aprendeu sobre o mundo. Seu discurso expôs a vida miserável, trabalhosa e curta dele e de seus companheiros e a identidade do inimigo verdadeiro e único de todos eles: o Homem. A proposta de Major era de rebelião, eliminar o Homem para que os frutos dos trabalhos dos animais fossem apenas deles. No entanto, o porco ponderou: “Lembrai-vos de que na luta contra o Homem não devemos ser como ele”.

Quando o escritor inglês George Orwell publicou o clássico A Revolução dos Bichos em 1945, seus alvos eram claros. A obra era uma sátira à União Soviética comunista recém-saída da Segunda Guerra Mundial e a utopia comunista proposta por Josef Stalin. A primeira adaptação da obra para o formato de histórias em quadrinhos, assinada pelo brasileiro Odyr, chega às livrarias 73 anos após o lançamento do livro de Orwell. A tinta acrílica do artista gaúcho acentua ainda mais a força das metáforas do autor britânico, mais atuais e necessárias do que nunca em anos de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos, do fortalecimento de lideranças conservadoras e xenófobas ao redor do mundo e de um Brasil correndo o risco de eleger um presidente militarista pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista.

Em seguida à morte de Major, sua proposta de revolução é colocada em prática pelos porcos Napoleão e Bola-de-Neve, protagonistas da história de corrupção e traição adaptada por Odyr. “O livro vai ser atual sempre, porque os piores instintos do ser humano vão continuar sempre existindo – o desejo por poder, a covardia da cumplicidade com esse poder e a trágica aceitação desses abusos”, afirma o quadrinista em conversa por email com o blog. Ainda assim, ele pondera que talvez seja um momento particularmente conveniente para adaptar o texto de Orwell.

“O mundo parece estar num momento particularmente tenso para a democracia, para a igualdade e para o livre pensamento. Estamos aqui obviamente sofrendo com esse vírus também, com nostalgias militaristas e fantasias ditatoriais que usam paranoia e desinformação como ferramentas, exatamente como os porcos fazem no livro”, diz Odyr. No ápice das injustiças e abusos decorrentes do sistema ditatorial imposto pelos porcos, um cavalo da Granja Solar faz um lamento que soa quase como um alerta para a nossa realidade: “Não entendo. Nunca pensei que coisas assim pudessem acontecer em nossa granja”.

-X-

O quadrinho de Odyr chega às livrarias brasileiras após oito meses de produção do autor e depois de alguns anos de negociação entre a Companhia das Letras, editora de A Revolução dos Bichos no Brasil, e os detentores dos direitos da obra de Orwell. O trabalho do quadrinista brasileiro sai em português com seus direitos já vendidos para Espanha, Itália, Estados Unidos e Inglaterra. Na entrevista a seguir, o autor fala sobre as técnicas utilizadas por ele e suas escolhas ao adaptar A Revolução dos Bichos. Ele comenta a longevidade e o apelo universal da trama do escritor inglês e a experiência de narrar um dos maiores clássicos na literatura mundial em formato de HQ. A seguir, papo com Odyr:

Autoretrato do quadrinista Odyr.

Você pode contar, por favor, como essa adaptação teve início?

Foi um convite da Companhia, que retém os direitos da obra do Orwell no Brasil.

Você lembra do seu primeiro contato com A Revolução dos Bichos?

Quando o convite surgiu, eu tive sinceras dúvidas se tinha lido o livro – é um desses livros tão onipresentes que você tem quase certeza que já leu. Mas não tinha lido quando jovem, só a adaptação do Chico Buarque, Fazenda Modelo e não lembro o quanto é fiel ou não ao original. Mas essa sensação de conhecer a história me fez tomar a decisão temerária porém acertada de aceitar sem ter lido.

Por que adaptar A Revolução dos Bichos para quadrinhos?

Eu sempre me pergunto sobre a necessidade de adaptar uma obra que funciona perfeitamente em si para outra linguagem. Mas acho que você pode criar novos leitores para o original. E oferecer uma outra experiência – no caso dos quadrinhos, tão apropriados para esse tipo de realismo mágico, você pode realmente colocar as pessoas dentro daquela experiência, mostrar a cor e a textura desse mundo onde a história acontece.

“Eu sempre me pergunto sobre a necessidade de adaptar uma obra que funciona perfeitamente em si para outra linguagem”

O livro original do George Orwell foi publicado em 1945 e esse seu trabalho é a primeira adaptação da obra para quadrinhos. Há todo um gênero de adaptações de obras literárias para a linguagem dos quadrinhos. Você vê alguma razão para Revolução dos Bichos só estar sendo transformada agora em HQ?

Não sei, aí são especulações mercadológicas – uma combinação de fatores, imagino: o prestígio crescente dos quadrinhos, os direitos da obra estarem nas mãos de um editor que visualiza essa possibilidade, encontrar o artista certo, ter o projeto aprovado pelos herdeiros… as condições certas podem não ter se materializado antes.

Você fez uso de tinta acrílica pra produzir esse trabalho, certo? Você pode explicar essa escolha, por favor?

É o material que venho usando predominantemente nos últimos anos, em minha pesquisa pessoal. Meus primeiros dois livros são feitos a nanquim, mas eu vinha sentindo uma insatisfação com a natureza tão exata do material. Pintar mudou tudo -meu desenho, minha visão da arte e do mundo. E depois de alguns anos pintando, finalmente surgiu a oportunidade perfeita para colocar a técnica em uso, num livro muito rico em oportunidades – muita natureza, todos esses fantásticos animais. E acho que serve bem ao livro, a criar uma realidade, um mundo com cor, luz, sombra, peso, textura.

“Ainda que obviamente usando uma porcentagem muito pequena do texto, não tem uma palavra ali que não seja do Orwell”

Chama atenção no livro a sua fidelidade ao texto original. Você sempre esteve decidido a reproduzir ao máximo o texto do Orwell? Por que a sua escolha por essa manutenção do texto original?

Sim, ainda que obviamente usando uma porcentagem muito pequena do texto, não tem uma palavra ali que não seja do Orwell. Também não tem grande edição da minha parte em alterar a ordem dos acontecimentos ou propor um tom diferente ao livro. Minha idéia era realmente fazer uma adaptação fiel em espírito, já que o livro me parece funcionar perfeitamente no que se propõe – as escolhas estão em cenas ou personagens cortados ou, ao contrário, em cenas expandidas. Aí entra a personalidade de quem adapta – estar mais interessado em algumas coisas, menos em outras.

Você poderia falar um pouco, por favor, sobre esse processo de adaptação e transformação de texto no combo texto+desenhos? Como foi o desenvolvimento desse projeto?

Meu processo é bastante direto, tem o mínimo de etapas possível. Me interessa demais a primeira leitura, as imagens que se formam imediatamente em sua mente ao ler, o leitor em ação. Tanto que, como tinha uma idéia geral do livro, fiz algo francamente irresponsável: fui lendo e adaptando. Minhas emoções e surpresas com o livro entrando diretamente no trabalho. Tive que fazer um tanto de pesquisa visual de referências, mas também tento gastar o mínimo de tempo nessa etapa, onde o sujeito pode se perder pra sempre na internet – tento simplesmente encontrar a referência mais próxima do que está na minha cabeça, conforme vou precisando.

Aliás, quanto tempo levou a produção da obra até o seu lançamento?

Entre as primeiras páginas produzidas como teste para serem aprovadas pelos herdeiros e o sinal verde para começar o livro se passou algum tempo, não lembro quanto, mas a realização em si foi rápida – oito meses. Tendo a ser rápido – mesmo com a pintura, faço entre uma página a duas por dia, em média.

“Tive que fazer um tanto de pesquisa visual de referências, mas também tento gastar o mínimo de tempo nessa etapa, onde o sujeito pode se perder pra sempre na internet”

Tendo passado todo esse tempo produzindo o quadrinho, qual o sentimento de vê-lo saindo agora? Eu vi um post seu no Twitter sobre o cheiro do livro. Quais são as suas sensações após todo esse período de investimento em um projeto e finalmente tê-lo em mãos?

A alegria verdadeira e duradoura pra mim está no trabalho, em estar dentro de um projeto, acordar todo dia sabendo o que você tem pra fazer, vendo aquelas páginas prontas todo dia. A alegria com o livro pronto dura dez minutos. Não vejo a hora de começar outro.

O livro do George Orwell foi escrito durante a Segunda Guerra Mundial, em um contexto de conflitos bélicos e ideológicos aflorados. Como A Revolução dos Bichos ainda se faz relevante nos dias de hoje?Você vê alguma relação do quadrinho a realidade brasileira atual?

O livro vai ser atual sempre, porque os piores instintos do ser humano vão continuar sempre existindo – o desejo por poder, a covardia da cumplicidade com esse poder e a trágica aceitação desses abusos. Mas sim, o mundo parece estar num momento particularmente tenso para a democracia, para a igualdade e para o livre pensamento. Estamos aqui obviamente sofrendo com esse vírus também, com nostalgias militaristas e fantasias ditatoriais que usam paranoia e desinformação como ferramentas, exatamente como os porcos fazem no livro.

“O livro vai ser atual sempre, porque os piores instintos do ser humano vão continuar sempre existindo – o desejo por poder, a covardia da cumplicidade com esse poder e a trágica aceitação desses abusos”

Desse período seu de envolvimento com o livro do Orwell, quais as principais conclusões e lições que você tirou da obra? Quais você considera as principais possíveis contribuições do livro dele pra nossa sociedade?

A defesa apaixonada da liberdade de pensamento e ação, do pensamento crítico como uma última linha de defesa.

Eu vi um tuíte recente seu sobre como quadrinhos são “um vírus que, se você contrai quando jovem, nunca se recupera”. Qual a memória mais antiga que você tem de quadrinhos na sua vida?

Lembro que meus avós tinham exemplares do O Gibi, que eram, além de objetos maravilhosos em seu vasto formato, uma amostragem sensacional de cartuns, tiras e quadrinhos clássicos, tanto de humor quanto de aventura. E um tio tinha um baú cheio de Asterix e Lucky Luke. Juntando isso tudo, vi grandes coisas no começo de minha formação, tive sorte.

Também sobre a sua relação com quadrinhos: o que são quadrinhos, hoje, para você?

Não sei até que ponto é uma experiência comum, mas fazer quadrinhos me tirou a vontade de ler quadrinhos. Não leio quase nada – ou não gosto da arte e não consigo ler ou gosto DEMAIS da arte e me aflige, me obceca e fico olhando tracinho por tracinho de um quadrinho até abandonar por receio de querer fazer exatamente aquilo. Então de vez em quando passo os olhos por algo, pra ver o que um colega está fazendo. Mas minha obsessão está em fazer – ali é que está a felicidade pra mim hoje.

A Revolução dos Bichos acabou de chegar às lojas e talvez essa seja uma pergunta um pouco injusta, mas você já tem algum próximo trabalho em vista?

Estou sempre fazendo cartuns e pintando quando não estou em um projeto longo – não entendo férias, não sei viver sem trabalhar – um dia sem produzir me parece perdido. Tem um livro de cartuns já na Companhia – se chama No Fundo do Poço Tem Uma Piada. Tem um outro livro de cartuns em processo. Mas a Revolução dos Bichos me lembrou da completa felicidade que é estar dentro de um projeto longo, ter uma missão, um motivo para acordar todos os dias. Quero fazer outra adaptação, ainda não me decidi por qual, mas não vejo a hora de começar.

Entrevistas / HQ

A Zica está de volta: “Não estamos aqui para publicar historinhas sobre crises existenciais românticas, estamos aqui pra zoar o plantão”

A revista A Zica está de volta. O quinto número da publicação editada por Luiz Navarro, Marcos Batista e João Perdigão será lançado no sábado (22/9), na galeria de arte Mama/Cadela, em Belo Horizonte – você confere outras informações sobre a festa na página do evento no Facebook. Com capa assinada pelo quadrinista Diego Gerlach, o mais novo número da publicação iniciada em 2010 teve como tema ‘vermes, astronautas e América Latina’ e contou com a participação de 64 artistas.

“‘América Latina’ foi uma escolha política mesmo, para trazermos o olhar para a nossa própria identidade cultural”, conta Luiz Navarro. Em entrevista ao blog, Batista, Navarro e Perdigão falam sobre o processo de edição desse quinto número, tratam dos desafios de dar vida a uma obra independente de mais de 132 páginas via financiamento coletivo, cogitam o futuro da publicação e contam como o caos político brasileiro e dos demais países latino-americanos pesou no desenvolvimento da obra.

Reproduzo a seguir os nomes de todos os envolvidos no projeto e logo depois a íntegra da minha conversa com os editores. Ó: Adão Iturrasgarai, Vinicius Capo (AKOP), Allan Sieber, Annima de Mattos Aruan Emiele, Bernardo Pádua, Breno Ferreira, Carolina Deptulski, Onofre, Warley Desali, Diego Gerlach, Emilly Bonna, Emmanuel Alcala, Estan de Lau, Fabio Cobiaco, Fernando Torelly, Flávio Duarte, Froiid, Gabriel Cerqueira, Gabriel Nascimento, Guilherme Boschi, Guto Respi, Henrique Mourão, Henrique Oliveira, Ian Indiano, Joao Henrique Belo, José Lucas Queiroz, Rafael la Cruz, Larissa Reis, Ana Luiza Lacerda, LOR, Lucas Borges, Luciano Irrthum, Luiz Navarro, Luiza Maximo, Luiza Nasser, Marco Vieira, Marcos Batista, Maria Trika, Mariana Moyses, Matheus Lopes, Maurício Falleiro, Morgana Azul, Narowe, Nava (Latino Toons), Nicole Wafer, Osvaldo Reis, Carlos Panhoca, Paola Rodrigues, Pedro Vó, Matheus Frasan Praia Podre, Ricardo Coimbra, Rodrigo Terra Vargas, Rogério Rodrigues, Rosana Oliveira, Luís Teixeira, Estêvão Vieira, Tenesmo, Thiago Souza, Toni Cesar Graton, Victor Stephan, Xablutz, Yalaki De Sucre, Benson Chin, Estevam Gomes, Hugo de Paula, Batista, Warley Desali, Aline Lemos, Dayane Lima, Binho Barreto e Diego Sanchez.

“A Zica um trampo gigante, um rabo de foguete que a gente topa pegar porque não é só de nós três, é literalmente coletivo”

Trabalho de Adão Iturrusgarai para A Zica #5

Vocês lembram do momento em que decidiram produzir esse número novo da Zica? Antes de vocês darem início à campanha de financiamento coletivo houve algum instante específico em que você decidiram que ela iria acontecer?

Batista: Em 2016, na primeira edição da feira Des.gráfica, o Gerlach veio conversar comigo sobre a Zica, falando como era massa e perguntando quando sairia a próxima. Eu fiquei sem graça de falar para ele que a revista tinha acabado, que fazer a número quatro esmigalhou nossos nervos e que a gente não pensava em fazer mais revista, hehe. E então, além dele mais algumas pessoas vieram me perguntar sobre a revista e a contar casos de carinho com ela, aí percebi que a Zica não era nossa, era de muito mais gente, e de volta a Belo Horizonte, se não me engano reavivei o grupo de chat da Zica, ‘Ei galera, acho que temos que fazer mais algumas Zica…’.

João: Corroborando com o que o Batista falou, realmente, depois da #4, parecia que acabou mesmo, foi bem desgastante – mas olha, isto acontecia desde a #2 (2012). Início de 2017, propus aos caras de voltar, mas como nosso $ havia esgotado, o financiamento era a única forma de reavivar. Topamos, numa ideia que foi praticamente a refundação d’A Zica, pois conseguimos colocar na revista tudo que sempre sonhamos, mas tínhamos limitação financeira – agora não mais.

Luiz: A Zica é assim, é um trampo gigante, um rabo de foguete que a gente topa pegar porque não é só de nós três, é literalmente coletivo, como o Batista falou. Depois da última edição, talvez eu fosse o mais relutante dos três em publicar uma nova edição. Daí Batista e João chamaram pra conversar, sentamos numa mesa e eles colocaram a ideia em pauta, já tava rolando essa possibilidade de um financiamento coletivo. Combinamos uma nova configuração de trabalho pra não ficarmos batendo cabeça em cada detalhe, o que definitivamente é inviável. Isso foi muito importante. Daí pra frente assumimos o risco mais uma vez e mergulhamos nessa loucura de produção que é fazer a Zica. E a campanha, logo que começou, nos trouxe de novo o prazer todo de envolver um monte de gente além de nós mesmos pra fazer a revista acontecer. Isso é muito bom e muito gratificante.

“‘América Latina’ foi uma escolha política mesmo, para trazermos o olhar para a nossa própria identidade cultural”

Trabalho de Aruan Emile para A Zica #5

Porque Vermes, Atronautas e América Latina? Aliás, como vocês determinam os temas de cada edição?

Batista: Não sei responder porque, mas de uma lista de temas que cada uma monta formamos uma maior, e vamos debatendo. Vermes creio que foi o único consenso que saiu dessa lista, e meu voto nele foi pela molecagem que ele carrega em si, o terror, o nojo, a surpresa, o gore que ele podia representar. Astronauta fica na conta do Luiz – nessa edição decidimos nomeá-lo editor chefe, e com isso ele ganhou direito a escolher um tema, e foi esse. E América Latina surgiu após termos definido por Michael Jackson, mas deu uma semana e os outros editores não sentiam firmeza nele. A troca foi bem-vinda pois a Zica sempre tem um tema que é a tônica do seu ano de edição (bullying em 2012, vandalismo em 2013, Rússia em 2015,…), e América Latina está em mais uma de suas notórias ebulições políticas.

João: Quanto aos temas, tem que ter uma liga ilustrativa pra que vire desenho, e que seja inspiradora criticamente ou zoeira, além do fator nonsense. Todo ano tem algum tema mais universal que os outros. Desde a #0: morte, putaria, apocalipse, trevas, Rússia e agora acho que seja América Latina. Só pra completar aqui: bullying foi o tema que achei mais mal-escolhido até hoje, já que a tônica para escolher trabalhos é originalidade e ironia, com bullying acho bem difícil fazer piada sem soar babaca – poderia ter sido meme ou coisa assim, seria mais inspirador. Além do tema universal, sempre tem um tema que não tem nada a ver com os outros, algo pra desconstruir – na #0 classe média, na #1 propaganda, na #2 a tentativa com ‘bullying’, só na #3 que foi tudo darkzera (gosto desse número por ele ser uma ‘cartilha educativa’ de 2013), na #4, dinossauro, e agora astronautas.

Luiz: O momento de escolher os temas é um dos mais divertidos da Zica. Depois da listinha que cada um faz, a gente senta só os três, um olha pra cara do outro, dá um trago numa cerveja ou num cigarro e fala: ‘e aí, qual vai ser?’. A gente se diverte, zoa pra caramba nessa tal reunião. Fala um monte de merda. Sai um monte de coisa que a princípio parece genial, daí passa um tempo alguém fala: ‘peraí galera, cês já pensaram que é bem possível que com esse tema vai ter maluco que vai desenhar um monte de besteira assim ou assado?’. Daí tem que pensar em outro. Foi assim com o Michael Jackson, que era pra ser um dos temas dessa última edição. É um tema incrível, mas corria grande risco de cair num lugar comum de caricaturas clichê. Claro que a maioria dos artistas que manda trampo pra Zica é bem criativo e vai além do óbvio. Mas a gente pensa nessas possibilidades e tenta evitar essas armadilhas. Sobre os temas que definimos, na minha opinião a escolha foi pelo seguinte: ‘vermes’ tem esse tom meio zuero e nojentinho; ‘astronautas’ por todo o potencial narrativo e mitológico que ele traz, além de um potencial iconográfico e ilustrativo muito bom também. E ‘América Latina’ foi uma escolha política mesmo, para trazermos o olhar para a nossa própria identidade cultural. Na real, é uma loucura pensar que essas três palavrinhas que saem dessa reunião vão nortear o nosso trabalho e nossa vida nos próximos muitos meses. E mais loucura ainda pensar em três temas e não ter a menor ideia do que vai sair disso, o que os artistas vão conseguir transformar e produzir com eles.

“Saímos do formatinho e do material convencional de gráfica e arriscamos num projeto editorial vistoso, com mais espaço para os trabalhos”

Trabalho de Narowe para A Zica #5

Eu imagino que cada número da Zica tenha suas peculiaridades em relação a edição e produção. O que houve de mais singular durante o desenvolvimento desse quinto número?

Batista: Para mim, a mudança de formato tanto da revista quanto do modo de trabalho quebrou alguns paradigmas e redefiniu uma nova forma de existirmos. Saímos do formatinho e do material convencional de gráfica e arriscamos num projeto editorial vistoso, com mais espaço para os trabalhos. Por mim, depois dessa mudança, nem sei se a próxima edição terá o mesmo tamanho, por exemplo, não sei mais se A Zica deve seguir um tamanho standard ou cada número é um número. E a forma de trabalhar, com designers responsáveis pelo projeto, e com um de nós destacado como editor-chefe, ajudou muito a ordenar o fluxo de trabalho e a agilidade nas decisões.

João: Além da ousadia do projeto, que foi o mais experimental até hoje, teve o rodízio do editor principal, que nesta edição é o Luiz. O que houve de mais singular, pra mim, além de aumentar o formato, de fazermos stickers, patch fotozine e dois posters em serigrafia foi a concepção de A Criatura, que é um projeto bem ousado que convidamos três editoras para selecionar trampos de minas que ainda tá em andamento. Já fizemos uma coisa ou outra extra A Zica antes, mas só coisa de tiragem pequena. Finalmente uma produção no nosso selo com uma tiragem de circulação razoável e com outra editoria que a gente provocou, que são a Ing Lee (uma quadrinista fodona), a Maria Trilka (que produz colagens inventivas e estuda cinema), e a Clarice G. Lacerda, que é uma editora experiente com larga experiência no mundo das artes.

Luiz: Como João e Batista disseram, essa foi a edição mais ousada da revista até agora. Sem dúvida nenhuma, a gente deu um passo além. Pegamos várias ideias e desejos que já tínhamos e falamos: ‘é agora!’. Talvez o principal, na minha opinião, tenha sido o fato de decidirmos investir num projeto gráfico bem elaborado. Pra isso, precisamos sair do ‘do-it-yourself’ que manteve a Zica lindamente em edições anteriores e contratamos dois designers, Matheus Ferreira e Bruno Rios, pra nos ajudar nessa empreitada. A gente deu uma certa autonomia para eles sugerirem e criarem de acordo com aquilo que eles achavam que podia ficar legal. E essa colaboração deles fez toda a diferença.

Trabalho de Praia Podre para A Zica #5

Quais eram as principais expectativas que vocês tinham em relação a esse número e o que mais surpreendeu vocês nessa edição?

Batista: Minha principal expectativa era em relação a atender o Catarse. Não é fácil fazer pré-campanha, campanha e pós-campanha. Estamos no pós-campanha e ainda temos muito trabalho pela frente, e isso ainda me causa borboletas no estômago. E o que mais me surpreendeu é o apoio recebido por quem contribuiu no Catarse ou de outras formas, como enviando trabalhos para vendermos e usarmos o dinheiro na campanha. De fato, a Zica é do povo!

João: Conseguir captar um trabalho com um valor acima da média no Catarse foi uma façanha. A nossa expectativa de apoios iniciais foi abaixo do esperado. A partir desta constatação levantamos de outra forma, vindo pra realidade e o que mais me surpreendeu nesta campanha foi a mobilização que fizemos off-line, com eventos de arte no mundo real, que deu super certo e ajudou a alavancar o financiamento coletivo de uma forma que não imaginávamos.Torço para que a publicação ainda me surpreenda positivamente a partir de quando estiver circulando entre seus leitores.

Luiz: O financiamento coletivo foi muito emocionante e, apesar da tensão que é normal que rolasse, eu pessoalmente achei bem divertido (vão me cobrar vacilo por dizer isso! hahaha!). Mas além do financiamento, a gente tinha a expectativa de que essa fosse a edição mais especial já produzida. E sem dúvida alcançamos esse objetivo, a revista tá incrível de bonita. Essa dinâmica de abrir chamada e receber trabalho é muito divertida por isso também: sempre nos surpreendemos quando recebemos trabalhos fodas de vários artistas fodas, alguns menos e outros mais conhecidos. Mas, pra mim, a ilustra do Gerlach (que foi convidado) na capa, foi a mais impactante. É impressionante a capacidade que ele tem de construir uma narrativa num único quadro, cheio de detalhes e referências.

Trabalho de Benson Chin para A Zica #5

Uma das propostas da Zica é também servir de vitrine para novos talentos. Nesse novo número, quais novos talentos chamaram mais atenção de vocês?

Batista: Vou falar da Luiza Maximo, que não sei se é bem um novo talento, mas é a primeira vez que ela pinta na revista e tive oportunidade de ver suas aquarelas e sai com lágrimas nos olhos. Tem o Maurício Falleiros, que para mim é a maior aquisição do humor gráfico nacional dos últimos dois anos, e o Allan Sieber, que não é um talento novo mas tem mostrado uma nova face de sua produção como pintor, e nos mandou uma pintura que me deixou arrepiado, e que eu acho a mais bonita das que tive oportunidade de ver.

João: Quanto ao quesito revelação, também gostei muito do quadrinho da Luiza Reis e do Aruan Mattos (apesar de não ser uma revelação pra mim, já admirava o trabalho dele enquanto artista plástico, não sabia que ele fazia quadrinhos) e da ilustra do Toni Cesar Graton. Ah, os posters do Hugo e do Estevam também ficaram sensacionais – já que fora de BH eles são revelação também, pode falar.

Luiz: Essa pergunta é muito boa e tem muito a ver com a anterior, porque uma das melhores coisas da Zica, para nós e acredito que também para quem a lê, é descobrir novos artistas muito fodas. Nessa edição, talvez eu posso citar o Toni Cesar Graton ou a Paola Rodrigues.

“No número zero colocamos o preço na capa, era R$5, coisa que posteriormente nos arrependemos, coisa horrível colocar preço, a gente faz é arte e não $, porra”

Trabalho de Toni Cesar Graton para A Zica #5

De 2010 pra cá, do lançamento do número zero da revista até hoje, quais vocês consideram as principais transformações desse cenário de quadrinhos/publicações independentes no qual A Zica está inserido? Como essas mudanças se fazem presentes na revista?

Batista: Bem, acho que a Zica é a única revista que continua sendo publicada desde aquele tempo. Hoje em dia os autores e editores têm investido em trabalhos maiores (hqs e novelas gráficas), coletâneas de trabalho de um autor só ou publicações de coletivos, mas que dificilmente passa de 8 autores. Isso muito graças ao incentivo dos financiamentos coletivos ou pequenas editoras que se formaram. E no momento esse formato ‘revista grande com um tanto de trabalhos’ está sumido. Tínhamos a Quase, Tarja Preta, SAMBA, Grafitti 76%, Prego e algumas outras, que hoje ou estão extintas ou estão adormecidas por seus editores estarem tratando de outros trampos (mas uma hora voltam a publicar, dedos cruzados). Então acho legal numa feira ver que vários autores têm seus próprios livros, mas poucos têm uma publicação colaborativa com mais de 50 autores com uma grande mostra de estilos e linguagens. E que estamos ai fazendo esse tipo de publicação.

João: A transformação veio de centenas ou milhares de talentos revelados no cenário independente desde então e obviamente do mercado que amadureceu e ficou mais plural, aberto a novas experiências. A análise do Batista sobre publicações alternativas tá ótima, a única publicação mais substancial que apareceu na nossa pegada nesses últimos anos foi a Pé de Cabra, cujo editor, Panhoca foi nosso colaborador e apoiador – dos mais empolgados inclusive. Voltando no tempo, pra ilustrar como o mercado era tacanho em 2010, não havia o costume de vender zine (a maioria era distribuição 0800), no número zero colocamos o preço na capa, era $5 – coisa que posteriormente nos arrependemos, coisa horrível colocar preço, a gente faz é arte e não $ porra. As mudanças presentes na revista são através do sangue novo dos artistas que conhecemos através dela e de novos produtos que produzimos, como o patch desenhado pelo Paulo Marcelo Oz, mas se for olhar, sticker, por exemplo, é algo que eu e o Luiz fazíamos/conhecíamos desde 2005 e a gente gosta muito desta cultura de rua, de onde viemos, nunca nos desligamos dela – inclusive o Luiz fez um livro contando o histórico disto aqui em BH, o Pele de Propaganda: Lambes e Stickers em Belo Horizonte [2000-2010], que inclusive voltará a ser vendido no lançamento d’A Zica #5 – momento jabá.

Luiz: Obrigado, João, pelo jabá! Hahahah. E concordo com o que disseram. Quando começamos, o cenário era bem diferente. As revistas primas da Zica que o Batista citou ainda eram bem vivas e nossas maiores referências. Rolava ainda, naquela época, um tesão em se fazer revistas colaborativas de quadrinhos de humor hardcore. Depois a galera deu vazão a outros projetos, o que é normal. A cena de feiras de publicações também mudou muito! Antes havia uma ou outra feira ou festival. Agora rola um calendário com dezenas ao longo do ano no país inteiro. Mas publicações com a proposta como a da Zica já não são tão comuns.

“Não estamos aqui para publicar historinhas sobre crises existenciais românticas, estamos aqui pra zoar o plantão”

Trabalho de Victor Stephan para A Zica #5

Esse quinto número d’A Zica tá saindo às vésperas das eleições de 2018, em meio a um contexto de conservadorismo crescente e crise aflorada. Qual vocês consideram ser o papel de uma publicação independente, com ares subversivos, como A Zica, dentro desse cenário?

Batista: Nosso papel é continuar publicando a revista, ato que por si só é uma resposta a esses tempos. Desde o codex até a impressão digital, quem escreve, desenha, imprime e publica sempre é alvo de crises políticas. Não passamos por nada de novo. Imprimir e editar o que se vive em seu tempo é o grande barato. Deixar o registro das crises, e documentar os erros e acertos de nossos tempos, creio ser a parte mais importante do nosso papel. A gente não responde ao presente, a gente é uma caixa de areia para artistas e leitores pensarem o futuro.

João: Olha, a gente mudou o tema de Michael Jackson para América Latina durante este contexto, para dar vazão a trabalhos politizados, mas não apenas. Isto não quer dizer levantar bandeira e pronto, já que material panfletário/partidário não é nossa onda. Mas ser politizado chega a ser necessário neste momento em que afirmar que a terra não é plana é política, que tristeza né? Tem até um trabalho que publicamos do Maurício Falleiros com a frase ‘Onda conservadora invade América Latina’ que ilustra bem a pergunta, ou seja: ‘This is America…Latina também’. Nosso papel é editar, fazer a revista e pronto, mas não uma coisa que você lê agora e só entende agora, não é nosso interesse, a gente pensa em publicar algo que se for lido daqui 10, 20, 50 anos, a pessoa vai entender. Inclusive, tem uma coisa sobre a criação d’A Zica que nunca falamos em entrevista, nem é nada definitivo, mas A Zica foi criada depois de já termos passado por algumas decepções institucionais e a ideia era que a publicação sempre fosse feita autonomamente. Nunca nos inscrevemos em Lei de Incentivo (até porque, não queremos camisa de força, mas isto também pode mudar, não somos quadrados, mas nunca foi a tônica, quando alguém propuser isto, vou ser advogado do diabo). Engraçado, agora com a chegada galopante do liberalismo sem freio e a eminente ameaça de extinção deste tipo de patrocínio com o abandono de políticas culturais, dá até vontade de ser subversivo de verdade.

Luiz: Concordo com praticamente tudo o que João e Batista disseram, mas acho importante sermos mais explícitos nesse ponto. A Zica é uma publicação que tem uma intenção e uma força política, sim. Isso é muito importante e temos que saber reconhecer. Dada a situação crítica da política institucional e do clima do país, com revisionismos de fatos históricos e de uma força cada vez maior que o reacionarismo e o fascismo ganham no Brasil, publicar uma revista com ‘ares subversivos’, como você disse, é uma necessidade. É claro que fugimos de panfletagem ideológica, mas um trabalho artístico não precisa ser panfletário para ser político. A Zica nasceu para ser provocativa mesmo. Para ser um contraponto a caretice, a pensamentos conservadores, inclusive no mundinho das artes gráficas. Não estamos aqui para publicar historinhas sobre crises existenciais românticas, estamos aqui pra zoar o plantão. E também pra provocar a reflexão nos artistas, para tirá-los de uma zona de conforto e de repente se colocarem pra pensar no lugar onde vivem e o que vivem, sobre a sua própria realidade no mundo, e não apenas no seu umbigo.

Qual o futuro da Zica? Vocês já estão cogitando um sexto número?

Batista: O futuro da Zica é uma briga eterna entre seus editores sendo mediada por um carinho enorme do público. Essa relação é boa, tem funcionado até aqui e seguirá pelas edições 6, 7, 8 e tantas outras que virão, no formato que vierem.

João: Só espero que tenhamos bala na agulha pra continuar. Assim como desejo que o Batista seja o próximo editor, espero que eu também tenha espaço pra ser, completando o rodízio dos editores em novos formatos.

Luiz É isso aí! E que sejamos cada vez mais ousados nas nossas propostas, com cada vez mais fôlego e paz de espírito para encarar a produção e que pelo menos ganhemos algum troquinho!

A capa de Diego Gerlach para A Zica #5

Entrevistas / HQ

Papo com Manuele Fior, o autor de A Entrevista e Cinco Mil Quilômetros Por Segundo: “Tento investigar todas as possíveis ramificações do conceito que quero trabalhar”

O quadrinista italiano Manuele Fior teve duas obras lançadas quase simultaneamente no Brasil, os álbuns A Entrevista (Mino) e Cinco Mil Quilômetros Por Segundo (Devir). As publicações são distintas em diversos aspectos, relacionados principalmente às diferenças de técnicas e estilos dos quadrinhos, mas também aos momentos destoantes da carreira do autor quando foram produzidos. Ainda desconhecido e em início de carreira na época do lançamento de Cinco Mil, Fior ganhou fama após o livro vencer o prêmio de melhor álbum do Festival de Angoulême de 2011. A Entrevista foi lançado em 2014, com o autor já reconhecido internacionalmente e com a proposta de produzir uma história de ficção científica, em nada relacionada às tramas quase autobiográficas de seus trabalhos prévios.

Eu escrevi para o jornal O Globo sobre o lançamento das duas HQs no país. Entrevistei o autor das duas obras e conversei com ele sobre a origem de cada trabalho, as técnicas utilizadas em cada HQ, suas inspirações e seus próximos projetos. Recomendo a leitura dos dois quadrinhos, uma conferida no meu texto e depois o papo a seguir, a íntegra da minha troca de emails com Fior. Saca só:

“Eu acho que tentei com esse livro colocar um pouco de ordem nos meus pensamentos, eu tinha uma vida muito nômade na época e as coisas acabaram um pouco bagunçadas”

Cinco Mil Quilômetros Por Segundo e A Entrevista foram lançados aqui no Brasil quase simultaneamente, por duas editoras diferentes. Você fica curioso em relação a esse interesse repentino no seu trabalho aqui no Brasil e na recepção das duas obras?

É claro que fico curioso. Em Portugal eu conheci alguns leitores que já conheciam o meu trabalho antes do lançamento de Cinco Mil Quilômetros Por Segundo por lá. Eu honestamente não faço ideia do que possa ter motivado que os livros tenham sido lançados em um intervalo tão curto de tempo, a única coisa que sei é que a Devir queria que o livro já estivesse publicado para o festival de Beja.

Os dois livros são muito diferentes, tantos as histórias quanto os estilos que você desenvolve em cada um. Você poderia falar um pouco da origem de cada trabalho?

Cinco Mil Quilômetros Por Segundo teve uma gestação muito problemática, eu estava morando na Noruega na época e fazendo vários trabalhos ao mesmo tempo. Eu acho que tentei com esse livro colocar um pouco de ordem nos meus pensamentos, eu tinha uma vida muito nômade na época e as coisas acabaram um pouco bagunçadas, me refiro a relacionamentos, ambições profissionais e por aí vai.

Já A Entrevista foi bem diferente, eu o fiz logo após vencer o prêmio em Angoulême, então eu estava me sentindo um pouco mais confiante com o meu trabalho. Ele foi a minha primeira tentativa de abandonar temas autobiográficos e mergulhar na ficção, na verdade ficção científica, da minha forma é claro, de maneira muito íntima.

“Não há nenhuma razão racional para o uso de cada técnica, normalmente quando a ideia de um livro vem à mente também tenho um vislumbre de como ele será”

Você utiliza técnicas muito distintas nos dois livros. Como você decide a técnica e o material que utiliza em cada obra?

A Entrevista foi feito com carvão e nanquim, já o Cinco Mil Quilômetros por Segundo em tinta acrílica. Não há nenhuma razão racional para o uso de cada técnica, normalmente quando a ideia de um livro vem à mente também tenho um vislumbre de como ele será. Depois eu busco alguma técnica que me permita chegar o mais próximo possível a essa imagem mental, é um processo que vai se definindo à medida que vou criando o quadrinho.

Da mesma forma, os dois livros são visualmente muito diferentes. Como você define a estética de cada trabalho?

Essa é uma pergunta muito complexa e abrangente, eu honestamente não tenho nenhuma resposta para ela. Eu nunca tenho um conceito estético definido, eu apenas preciso de algum esforço pessoal e a forma final acaba sendo resultado desse empenho. Eu não acho a palavra ‘estilo’ seja aplicada nesse caso.

“Eu não sou um grande admirador de histórias como apenas uma única interpretação, com apenas uma única solução no fim”

Eu fiquei fascinado com a ambientação de A Entrevista e queria saber mais sobre a sociedade futurística que você concebeu pra esse livro. Você chegou a desenvolver mais sobre esse universo que acabou ficando de fora da HQ?

Normalmente eu escrevo muito durante a criação do quadrinho, tento investigar todas as possíveis ramificações do conceito que quero trabalhar. Mas no final das contas o que você lê é o que realmente existe, não há ideias ou sequências que eu tenha desenvolvido e não estão presentes no livro.

A minha sensação lendo A Entrevista foi semelhante a de assistir a um filme dos irmãos Coen. Tudo soa como uma enorme conspiração, há muitas ideias não desenvolvidas e implícitas, mas a trama principal é focada nesse sujeito ordinário lidando com pequenos ocorridos extraordinários. Isso faz sentido para você?

Na verdade, a minha referência cinematográfica foi a Trilogia da Incomunicabilidade – A Aventura, A Noite, O Eclipse -, do Michelangelo Antonioni. Se você é familiarizado com esses filmes, encontrará o mesmo fascínio pelo desconhecido, pela psicologia distorcida de personagens agindo enquanto refletem sobre suas existências e suas motivações. Eu não sou um grande admirador de histórias como apenas uma única interpretação, com apenas uma única solução no fim.

Sobre Cinco Mil Quilômetros por Segundo: quais eram os principais sentimentos que você tinha intenção de transmitir enquanto criava a HQ?

Os meus próprios sentimentos na verdade, os meus medos e o meu deboche pelo período que estava vivendo. Foi uma forma de exorcizar alguns dos medos e dos arrependimentos que eu tinha, e impus toda essa carga para os meus pobres três personagens, que vivem, sofrem e perdem exatamente como aconteceu comigo.

No que você está trabalhando atualmente? Tem mais diálogo com o Cinco Mil Quilômetros por Segundo ou com A Entrevista?

Estou no meio de uma graphic novel longa chamada Celestia, uma história de ficção científica ambientada em Veneza. É uma trama totalmente nova na qual eu decidi usar a personagem Dora, que já apareceu em A Entrevista.

Você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo atualmente?

Definitivamente The World of Edena, a edição completa. Eu já havia lido alguns capítulos dessa obra prima do Moebius, mas reler na íntegra está explodindo a minha cabeça, é uma inspiração eterna.