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Pequenos grandes assédios [#AgoraÉQueSãoElas]

por Paula Bianchi*

Aprendi com Peter Parker e a perda do seu tio que grandes poderes trazem grandes responsabilidades. Me peguei pensando com Rob Fleming, de Alta Fidelidade, se o que vinha antes era a música ou o sofrimento, e refleti horas a fio sobre a condição humana com o sonho, de Sandman. Sempre ignorando que também na ficção e na cultura pop o geral não tem vagina nem sangra, porque o genérico é sempre masculino e o masculino como representante do todo não é questionado.

Depois de receber o convite do Ramon para escrever nesse blog que eu leio sempre com tanto carinho, tentei rabiscar alguns textos seguindo na toada do pop, que me alimenta desde que conheço por gente, mas não tive como. Peço licença aos leitores do Vitralizado para dividir com vocês um pouquinho o peso de ser o Ela das histórias e falar dos

Pequenos grandes assédios

Lendo tantos relatos tristes de #primeirosassedios de amigas e desconhecidas que tomaram a internet nos últimos dias, me parece que tive sorte. Só consigo lembrar de um cara que passou a mão na minha bunda e saiu correndo quando eu tinha 12 ou 13 anos e que só não tomou uma pedrada no meio da cabeça por falha da minha jovem pontaria. Mas daí lembrei do cotidiano de pequenos grandes assédios que aprendemos a relativizar diariamente, como mais um dos fardos de ser mulher e estar no mundo.

Se essa perda de inocência forçada é horrível, tanto pior é não passar uma semana sem ser constrangida por uma gracinha de alguém que se acha no direito de te abordar tão somente por ter nascido com um pinto. E isso vai do gostosa na rua do completo estranho aos comentários em tese sem maldade dos amigos e conhecidos.

Apesar de já não ser mais adolescente, percebi que não enquadrei como deveria o professor de natação que comentou o estado do meu maiô, já pedindo água em termos de elástico, e disse que “o titio não ia conseguir se concentrar na aula, não que fosse uma visão ruim”, me fazendo perder a vontade de ir até a piscina todas as manhãs. Tampouco mandei catar coquinhos o conhecido que se achou no direito de me chamar para tomar um vinho depois de ver uma foto minha dançando num carnaval ou disse com todas as letras a um fotógrafo que insistia em me chamar de linda de meia em meia hora durante uma pauta enquanto eu estava mais preocupada em trabalhar que ele deveria calar a boca.

Porque é mais fácil fazer postura de alface, cortar o assunto e sorrir amarelo. O que o meu eu de 13 anos já sabia é aquilo que a gente não pode nunca esquecer. Que não, não é certo ter que atravessar a rua ou deixar de fazer qualquer coisa por conta de ninguém.

É tempo de reunir as pedras e ir para cima. Esse mundo melhor para todxs nós está logo ali, depois da curva.

Não passarão.

*Paula Bianchi é jornalista, fã de cultura pop e feminista desde que se conhece por gente. Pratica a guerrilha noticiosa e tenta, sempre que possível, colocar o tema em pauta entre uma e outra matéria sobre o cotidiano caótico do Rio de Janeiro. Escreve vez em quando no Palimpsesto e dá pitacos sobre deus, o universo e tudo o mais no @pbbianchi

>> O post faz parte da iniciativa #AgoraÉQueSãoElas, na qual mulheres ocupam os espaços masculinos de fala. Homens convidam mulheres para escrever no seu lugar e se colocam nesse lugar do ouvinte. Dando voz e vez a uma mulher. Reconhecendo a urgência da luta feminista por igualdade de gênero e o protagonismo feminino nesta luta. Lá no Trabalho Sujo a autora do projeto fala mais sobre a iniciativa. Outras amigas e conhecidas foram convidadas e deverão dar as caras por aqui nos próximos dias.

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Japão, bolo de Natal e colegiais [#AgoraÉQueSãoElas]

por Míriam Castro*

Quando fui convidada pelo Ramon para participar do #AgoraÉQueSãoElas, decidi fazer algo relacionado ao Japão, onde estou passando minhas férias. Sempre tive muito interesse na cultura japonesa, principalmente nas criações pop. Estar aqui é um sonho. Mas tudo que eu sabia sobre o machismo local foi amplificado durante a viagem.

Vamos começar com uma história. Apesar de a maioria dos japoneses não seguir o cristianismo, aqui é tradição comemorar o Natal. As ruas ficam iluminadas e a véspera é dos namorados, não da família. Em vez de comer peru, comem frango frito (!) e um bolo decorado, o Christmas Cake.

Assim como qualquer item sazonal, o preço de um bolo natalino no Japão despenca depois do 25 de dezembro. Daí surgiu a analogia com mulheres que passaram da idade “ideal” para casar. Ninguém quer casar com uma mulher com mais de 25, diz a brincadeira. então uma solteira a caminho dos trinta é chamada de Christmas Cake. Isso era mais comum algumas décadas atrás e tem mudado – 39% das mulheres japonesas entre 20 e 30 anos não estão interessadas em relacionamentos.

Por mais que esteja saindo de moda, a ideia do Christmas Cake é parte de algo muito maior: a valorização extrema da juventude nas mulheres. E isso, em alguns casos, leva à fetichização, à pedofilia. Não é fenômeno exclusivo do Japão. Basta lembrar que “novinha” é um dos termos mais buscados por brasileiros em sites pornô. Mas aqui a erotização é tão aberta, tão fácil de percebrer, que assusta.

Um dos meus bairros preferidos de Tóquio é Akihabara, onde ficam galerias e mais galerias com artigos de informática e games, além de todo tipo de produto de anime ou mangá. E figures, bonecos que retratam personagens dessas mídias. A quantidade de personagens femininas é perceptivelmente maior, e boa parte delas está em idade escolar. Isso não impede que existam bonecos com versões em roupas miúdas, com calcinhas detalhadas facilmente visíveis.

Se os bonecos fossem o maior problema… Mas as seções de mangás adultos são recheadas de pornografia de lolis, ou seja, novinhas (também existe o shota, que é de garotinhos, mas comparativamente menos popular). É fácil ter acesso a essas histórias, geralmente estreladas por garotas adolescentes ou pré-adolescentes. Não é raro que situações como estupro sejam mostradas. E a venda desse material está dentro da lei. No ano passado, o Japão tornou ilegal a posse de imagens de abuso infantil. Porém, isso só vale para imagens de crianças reais. Em uma página de quadrinho ou animação, é perfeitamente possível.

Uma das justificativas comuns para retratar garotas tão novas é que existe no Japão uma obsessão com o kawaii (“fofo”), então quando se retrata uma garota que aparenta 15 anos ela pode muito bem ter 20. Não é bem assim. É difícil acreditar que uma personagem de 20 anos ainda esteja no colégio nesses casos. Tomoe Mami, de Puella Magi Madoka Magica, é veterana do ginasial. Estima-se que tenha 15 anos. Isso não impede que exista uma versão dela de toalha de banho à venda.

O mais problemático é quando essa obsessão pela juventude passa para a vida real. Também em Akihabara, uma caminhada curta resulta em uma dezena de panfletos de maid cafés e outros serviços. Garotas vestidas de maid ou colegial distribuem os convites. Pode não ser nada além de um passatempo estranho, mas em alguns casos há um mundo de prostituição e abuso de menores envolvido.

Essa prostituição é disfarçada por serviços como “leitura de futuro” ou “caminhadas de conversa”, as joshi kousei osanpo (abreviado como JK osanpo, o nome significa “caminhada com colegial”). Em julho, a VICE lançou um documentário chamado Schoolgirls for Sale. Nele, discute o assunto e a dificuldade de investigá-lo no Japão. Veja o trailer abaixo – dá pra assistir à integra clicando aqui.

É incômodo falar sobre isso, ainda mais sendo fã de anime e mangá, mas a pedofilia tem sido usada como uma das bases da indústria pop japonesa. Não sei como isso pode mudar, nem se vai mudar tão cedo. Porém, as consequências culturais são terríveis. E as cicatrizes na vida das jovens vendidas pelas ruas de Akihabara são piores ainda.

*Míriam Castro é jornalista e tem um canal no YouTube sobre a vida, o universo nerd e tudo mais.

>> O post faz parte da iniciativa #AgoraÉQueSãoElas, na qual mulheres ocupam os espaços masculinos de fala. Homens convidam mulheres para escrever no seu lugar e se colocam nesse lugar do ouvinte. Dando voz e vez a uma mulher. Reconhecendo a urgência da luta feminista por igualdade de gênero e o protagonismo feminino nesta luta. Lá no Trabalho Sujo a autora do projeto fala mais sobre a iniciativa. Outras amigas e conhecidas foram convidadas e deverão dar as caras por aqui nos próximos dias.

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Aborto em quadrinhos (ou: desenhando pra quem ainda não entendeu) [#AgoraÉQueSãoElas]

por Carolina de Assis*

Nunca fiz um aborto. Sou mulher (cisgênero, ou não trans, portanto tenho útero) e costumo me relacionar com homens (todos, até hoje, cisgênero, ou não trans, e que portanto têm testículos) e, por sorte, nunca fiquei grávida. Sorte, mesmo: já fiz sexo sem proteção (como a enorme maioria das pessoas que conheço) e já fiz sexo usando camisinha e/ou tomando pílula e, por força de Pachamama, não engravidei em nenhuma ocasião. Porque, mesmo com camisinha e mesmo com pílula (anticoncepcional ou do dia seguinte), poderia ter acontecido. Me espanta como tanta gente parece não saber, mas não existe nenhum método contraceptivo 100% seguro. É sério, não existe mesmo. Sexo vaginal, com penetração e gozo dentro, carrega sempre o risco de gravidez (e de DSTs também, é bom não esquecer).

Comecei falando de aborto porque é o que eu teria feito caso tivesse ficado grávida em algum momento, e é o que acontece quando mulheres ficam grávidas e não querem permanecer grávidas: elas abortam. No Brasil, nos Estados Unidos, no Uruguai, na França, na Argentina, na África do Sul, na Polônia, no raio que nos parta, em qualquer momento da história da humanidade: mulheres abortam. Em alguns lugares – como Uruguai, França, África do Sul – o direito delas à interrupção da gravidez está assegurado pela legislação nacional e elas podem fazê-lo livremente, com acesso ao aborto seguro garantido pelo Estado. Em outros – como Brasil, Argentina, Polônia – a interrupção voluntária da gravidez (não quero estar grávida, logo aborto) é crime. As mulheres que abortam e as pessoas que as auxiliam (equipe médica, amiga que dá a dica da clínica que realiza o procedimento de maneira segura, etc) podem ir pra cadeia caso sejam denunciadas à polícia.

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Nos Estados Unidos – assim como Uruguai, França, África do Sul – as mulheres também têm o direito à interrupção voluntária da gravidez assegurado em âmbito federal. No entanto, cada estado da federação tem liberdade para legislar sobre a prática em seu território. O que tem acontecido nos últimos anos nos EUA é que os opositores do aborto estão se aproveitando dessa liberdade para atuar em âmbito estadual para restringir o acesso das mulheres ao procedimento e até a contraceptivos. É o que chamam, por lá, de War on Women: a guerra contra as mulheres, que acabam pagando nos próprios corpos a conta de uma sociedade machista, moralista e hipócrita, e de políticos idem.

Daí que, nos EUA (como no Brasil e em quase todo lugar desse mundão, valha-nos deusa), mulheres têm batalhado não só por mais direitos, mas também pra manter o que elas conquistaram à custa de tanta luta. A defesa do direito ao aborto tem vindo de diferentes frentes e uma delas são os quadrinhos. Em agosto desse ano a Fantagraphics lançou por lá o quadrinho Not Funny Ha-Ha: A Handbook for Something Hard (“É engraçado, mas não é pra rir: um manual pra algo difícil”, na minha tradução freestyle), da artista novaiorquina Leah Hayes, que conta as histórias de duas mulheres que se descobrem grávidas e decidem abortar.

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Hayes explora o processo norte-americano do aborto legal e esclarece várias questões sobre o procedimento no país (eis porque o livro se autoproclama “manual”). Ela explica, por exemplo, a diferença entre aborto cirúrgico e aborto médico (ou farmacológico): o primeiro é realizado em clínicas de saúde ou no consultório médico e envolve anestesia local e uma intervenção cirúrgica vaginal. Já o segundo se dá pela ingestão de pílulas abortivas, em geral uma combinação de mifepristona e misoprostol, e pode ser feito pela própria mulher, em casa, sem necessidade de supervisão médica.

O objetivo de Not Funny Ha-Ha, porém, não é tanto informar sobre o procedimento, mas sim registrar em quadrinhos as maneiras diversas em que as mulheres podem viver essa experiência e fazer com que elas saibam que não estão sozinhas, nem nos questionamentos nem nas certezas de cada uma sobre o aborto. “Abortar pode ser um processo confuso, assustador e às vezes solitário. Não tinha a intenção, ao escrever este livro, de suavizar o assunto, definir o ‘certo ou errado’ sobre o tema ou torná-lo trivial. Espero oferecer algo que possa fazer com que alguém que passou por um aborto se sinta menos sozinha”, disse Hayes ao HuffPost.

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“Sentia que eu tinha algo a dizer sobre como é fazer um aborto, e desenhar é a minha maneira de contar essa história”, disse ela ao BuzzFeed. “Espero que muitas mulheres e muitos homens leiam o quadrinho: eu fiz querendo que ele fosse para todas as pessoas. Gostaria que as pessoas o vissem como a interpretação de uma ilustradora sobre algo muito complicado e muito importante.”

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A luta das mulheres nos EUA tem muito a ver com a nossa aqui no Brasil. Como eu escrevi lá em cima, aqui a interrupção voluntária da gravidez segue criminalizada, o que não significa, de maneira alguma, que mulheres não abortem quando assim desejam. Elas abortam, sim – cerca de um milhão delas, a cada ano. Porém o fazem clandestinamente e, no caso das mulheres pobres, se sujeitando a condições insalubres e arriscando a própria vida. A criminalização do aborto no Brasil, talvez você não saiba, pune especialmente mulheres pobres (e consequentemente negras): estima-se que uma mulher morra a cada dois dias no país em consequência de aborto realizado em condições precárias. Mulheres ricas (e consequentemente brancas) que têm condições de pagar cerca de cinco mil reais por um aborto realizado no ambiente seguro de uma clínica reputada seguem carregando o fardo da clandestinidade, que olha, não é pouco.

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A essa situação calamitosa somou-se recentemente o ataque de deputados conservadores ao nosso suado direito ao livre uso da pílula do dia seguinte, medicamento indicado como contracepção de emergência após a prática de sexo sem proteção e que não é abortivo. E piora, visto que eles querem negar esse direito às mulheres que mais precisam dele: as vítimas de violência sexual. O projeto de lei 5069/2013, de autoria do deputado federal, presidente da Câmara e titular de contas milionárias na Suíça e de infindáveis acusações de corrupção e apropriação de dinheiro público, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), pretende não só dificultar o acesso ao aborto legal às mulheres vítimas de estupro (a lei brasileira hoje lhes garante esse direito) como também tornar crime o mero ato de informar as vítimas de violência sexual sobre seus direitos ao aborto legal e à pílula do dia seguinte.

Amiga, amigo: se você não está sentindo um misto de desespero e revolta é porque você não entendeu.

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A cartunista Fabiane Langone, mais conhecida como Chiquinha, entendeu e desenhou. No dia 22 de outubro, após a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara aprovar o projeto de lei 5069/2013, ela publicou em sua página do Facebook o que se tornou o primeiro de uma série de cartuns com um novo e gracioso personagem, o Abortinho.

Desde então foram seis charges criticando a misoginia e a hipocrisia de deputados e ativistas antiaborto, que consideram que um feto vale mais do que a vida de uma mulher – e que depois passa a valer pouco ou nada caso venha a se tornar uma criança parida por uma mulher pobre e/ou negra.

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O que artistas como Leah Hayes e Chiquinha fazem é trazer para os quadrinhos um tema que afeta diretamente metade da população mundial, as mulheres, e indiretamente a outra metade, os homens. Porque, diferentemente do que diz a Bíblia, não existe gravidez sem sexo, sem penetração, sem gozo dentro (a historinha sobre Maria mãe de Jesus grávida do Espírito Santo é só uma metáfora, cêis sabem, né?). É a pergunta que não quer calar e que nós cantamos durante a marcha que ocupou a Av. Paulista no dia 30 de outubro em protesto a esse projeto de lei abominável: “Cadê o homem que engravidou? Por que a culpa é da mulher que abortou?” Por que ela é culpabilizada e criminalizada pela violência sexual cometida contra ela por um homem? Por que ela é criminalizada por se recusar a ter o filho do homem que a estuprou? Por que a ela é imposta a maternidade, seja a gravidez decorrente de um estupro, de uma falha no contraceptivo ou de uma trepada sem camisinha, e ao homem que a engravidou – a nenhum homem em nenhuma situação – não é imposta a corresponsabilidade pela gravidez e a paternidade do filho que ele ajudou a gerar?

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Este espaço que estamos ocupando nesta semana de #AgoraÉQueSãoElas é, na verdade, um convite à reflexão para vocês, caros homens. Leiam, ouçam, pensem e considerem o que significa ser mulher hoje no Brasil. Tentem se colocar no lugar de uma mulher, qualquer mulher. Tentem, pra ficar somente no tema deste post, imaginar o desespero de descobrir-se grávida quando se tem absoluta certeza de não querer estar grávida, de não querer este filho, de não querer filhos jamais, de não querer ser mãe, e viver sob um Estado que prefere te ver morta a reconhecer e respeitar tua autonomia e tua capacidade de decidir sobre tua vida e teu corpo.

Mulheres não são incubadoras. E, independentemente de leis restritivas e criminalizantes, mulheres continuarão abortando. Nossa luta é pra que elas passem por essa experiência da melhor maneira possível e sobrevivam a ela. A colaboração de vocês, homens, é muito bem-vinda. Mas não é imprescindível: continuaremos falando, gritando, fazendo um escândalo, ocupando as ruas, as redes sociais e até teu blog preferido pra deixar claro que em nossos corpos e em nossos direitos ninguém toca sem nosso consentimento.

*Carolina de Assis é feminista desde bem antes de saber que existia um nome pra isso. É mestre em estudos de gênero e da mulher pelas universidades de Bolonha (Itália) e Utrecht (Holanda) e escreve (sobre direito ao aborto, inclusive) no blog Transtudo.

>> O post faz parte da iniciativa #AgoraÉQueSãoElas, na qual mulheres ocupam os espaços masculinos de fala. Homens convidam mulheres para escrever no seu lugar e se colocam nesse lugar do ouvinte. Dando voz e vez a uma mulher. Reconhecendo a urgência da luta feminista por igualdade de gênero e o protagonismo feminino nesta luta. Lá no Trabalho Sujo a autora do projeto fala mais sobre a iniciativa. Outras amigas e conhecidas foram convidadas e deverão dar as caras por aqui nos próximos dias.

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Um corpo lapidado [#AgoraÉQueSãoElas]

por Vanessa C. Rodrigues*

1.

Ontem aprendi um novo sentido para a palavra lapidar. A notícia dizia assim: “Rebeldes taliban e senhores da guerra de uma zona montanhosa do Afeganistão lapidaram até à morte uma jovem afegã acusada de adultério.” Eles enterraram a mulher, Rokhsahana, “que teria entre 19 e 21 anos” deixando só a cabeça dela para fora. E começaram a apedrejá-la. Até a morte. Alguém achou uma boa filmar o ato. O vídeo tem corrido pela internet. Não vi, obviamente. Ela, Rokhsahana, “que teria entre 19 e 21 anos”, se casou contra sua vontade e quis fugir com outro homem, talvez aquele que ela amava e com quem gostaria de ter se casado. Ele não foi condenado à mesma pena.

2.

Minha vó casou aos 14 anos contra sua vontade. Ela nunca tinha namorado. Talvez já tivesse se apaixonado por algum rapaz do sítio onde morava, mas é provável que não, já que era dela a responsabilidade de cuidar da casa. Todas minhas tias casaram com os primeiros namorados. Uma delas, apanhava do marido porque não engravidava. Outra passou a vida toda sofrendo pela violência com um homem com quem fugiu aos 15 anos porque tiraram dela na época o direito de reclamar de qualquer coisa. Minha mãe casou aos 17. Acho que para sair da casa onde trabalhou como doméstica desde os seis anos. Minha vó morreu aos 60 anos. Ela tomava muitos remédios e bebia escondido.

3.

O primeiro filme que assisti na Mostra deste ano foi o grego Matriarcado (Nikos Kornilios, 2014). O filme todo se passa num espaço, que corre o risco de ser destruído, em que 60 mulheres discutem seu lugar no mundo de hoje, considerando todas as formas de violência e de imposição cultural que sofrem (sofremos) nesta velha sociedade patriarcal. Patrão, padrão, pátria. Pai. Saí do cinema repensando meus gestos, minha postura, todas as vezes que abaixei a cabeça, que evitei uma briga, que evitei a violência. As tardes em que eu não podia, como meu irmão, ficar na sala vendo tevê, pelo menos não até que a louça não estivesse mais na pia, as vezes em que eu fui repreendida pela boca suja, por ter bebido, por ter fumado. Da culpa de ter sentido desejo ou de ter esquecido de pendurar a roupa da máquina. Me lembrei da minha sobrinha, que chorou um dia de medo porque derrubou um pouco de água no sofá da sala. E de quando explicaram que ela já era uma mocinha e não podia sentar de perna aberta. Nem levantar o vestido enquanto dançasse. Ela tem três anos. Seu corpo, pequenino, de outra forma sendo lapidado.

4.

Esse espaço precioso que Matriarcado apresentou era bastante politizado, um lugar de debate, que acolhia mulheres que sofreram violências excruciantes, que não tinham para onde ir. Mas de alguma maneira me fez lembrar as reuniões que a Marjane Satrapi nos apresentou em Bordados. Um espaço de liberdade, seguro. E essa sobreposição de imagens me fez pensar que esses lugares, em geral envolvidos por paredes seguras, são imprescindíveis principalmente porque a rua ainda não é nossa. Uma mulher não tem o mesmo direito de ocupar uma calçada. Porque tem que passar pelo constrangimento do assédio, todos os dias, desde os dez, doze anos. Uma vez ouvi de um policial militar que fazia a ronda na porta da escola “Que belo projeto de mulher”. Eu tinha uns treze anos. A gente precisa, como disse um dia Virginia Woolf, de um quarto todo nosso. Primeiro, antes de tudo, de um espaço todo nosso, um recorte retangular e fechado desse mundo, que é dos homens. Esse é o primeiro passo, sem dúvida. A independência, a segurança. A liberdade para falar o que quisermos. Mas queremos a rua. Por isso que na sexta, quando nos reunimos na Avenida Paulista para protestar contra o absurdo que é esse projeto de lei retrógrado e perverso, aquilo teve um poder indescritível para mim. A subversão completa do que esperam que sejamos. Padrão. Patrão. Pátria. A próxima será maior.

5.

Confesso que tive um sentimento ambíguo em relação a essa campanha. Me pareceu por uns momentos um desses “admiráveis” gestos cavalheirescos, como abrir a porta do carro, como segurar a porta do elevador. Como olhar para qualquer mulher numa roda de amigos com uns olhos galantes, como amenizar os assuntos porque tem mulheres na mesa, como fazer questão de dizer que aquele vestido, que aquele batom, que aquelas pernas, que aquelas unhas, estão ou não aprovados.

Mas reconsiderei. É importante. Nesses nossos dias em que, ao contrário do que parece, tagarelamos em uma comunidade praticamente de iguais, é uma oportunidade de nos infiltrarmos em outros espaços, ainda que não seja de todo nossos. E se esse texto servir para que você, querido leitor, passe a olhar para qualquer mulher como olha para os demais seres humanos com quem convive, já será um grande avanço. Às vezes tenho vontade de dizer para uns amigos: apesar de todas as inseguranças e das doenças que precisarei curar simplesmente porque nasci mulher, apesar da dificuldade em me sentir completamente independente e de ser tão difícil caminhar, escolher, decidir, amar, amigo, apesar desse corpo lapidado aqui na tua frente, isso, olhe para os meus olhos e me ouça, me ouça como você ouve esse cara aqui do meu lado.

*Vanessa C. Rodrigues é escritora. Anunciação, seu primeiro romance, sairá ainda este mês pela editora Oito e Meio. vanrodrigues.wordpress.com | @van_rodrigues

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O cartaz de Jillian Tamaki para o ELCAF 2015

Responsável pelos desenhos de um dos meus quadrinhos preferidos de 2014 (This One Summer), a artista Jillian Tamaki assina o cartaz da edição de 2015 do ELCAF (Festival de Quadrinho e Arte do Leste de Londres). Jillian também será a a principal estrela do evento, que também contará com a presença de artistas como Brecht Vandenbroucke, Michael DeForge, Daniela Olejnikova, Arnal Ballester, Henning Wagonbreth e Ricardo Cavolo. Estive em duas das três edições já realizadas do ELCAF e é um dos encontros de quadrinhos indies e publicações independentes mais legais que já vi. Organizado anualmente pela editora Nobrow, o ELCAF 2015 será realizado nos dias 20 e 21 de junho e os ingressos já estão a venda aqui. OBS: caso não lembre, o autor do cartaz da edição de 2014 foi o Chris Ware. Ó que beleza.