Vitralizado

Posts por data julho 2018

Cinema

Little White Lies #76: The Miseducation of Cameron Post

Taí a capa da 76ª edição da minha revista preferida, a britânica especializada em cinema Little White Lies. A capa da vez dá destaque pra The Miseducation of Cameron Post, drama dirigido pela cineasta Desiree Akhavan e protagonizado pela atriz Chloë Grace Moretz. O filme vem sendo elogiado em suas exibições em vários festivais norte-americanos e entra em cartaz no circuito comercial dos Estados Unidos no dia 3 de agosto. A arte da capa é assinada pela ilustradora norueguesa Natalie Foss – dá uma sacada aqui no Instagram dela. Ó o trailer de The Miseducation of Cameron Post:

HQ

PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #1: origens, restrições e OuBaPo]

Começo a publicar aqui no blog a partir de hoje (30/7) uma série de depoimentos do quadrinista Jão sobre os bastidores da produção do álbum PARAFUSO ZERO – Expansão. A obra está atualmente em desenvolvimento e sua campanha de financiamento coletivo entra no ar no Catarse ainda nas próximas semanas. Eu estou trabalhando como editor do quadrinho e as minhas conversas com o autor têm rendido algumas reflexões muito interessantes.

Nesse primeiro post da série PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores, o Jão trata principalmente das origens do projeto e de suas principais inspirações. Ele conta como um bookplate produzido por ele para uma sessão de autógrafos de seu trabalho na PARAFUSO 0 o instigou a voltar a investir no universo de superseres da HQ lançada em 2016. O Jão também fala sobre como seu primeiro contato com o conceito de OuBaPo e como a produção do trabalho dele para a Série Postal pesaram na concepção dessa próxima HQ.

A ideia desse post inicial é ser apenas uma prévia dos papos que abordaremos nas próximas semanas. Aproveito para recomendar mais uma vez que você cadastre seu email na newsletter produzida pelo Jão para receber em primeira mão novidades da PARAFUSO ZERO – Expansão. Tá demais, viu? Enfim, a seguir, aspas do autor do quadrinho. Ó:

PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores [Parte #1: origens, restrições e OuBaPo]

O retorno dos superseres

“A PARAFUSO ZERO – Expansão surge a partir do momento em que conversamos sobre fazer o bookplate pro evento de lançamento da PARAFUSO 0 na loja da Ugra, em São Paulo, em março de 2018. Logo quando comecei a fazer pensei que seria legal voltar a trabalhar nesse universo. A partir daquele momento, a ideia já não era ser uma continuação do álbum anterior. A ideia era pegar aquele universo e seguir com ele, contando outras histórias. Isso tudo veio pra valer no momento em que eu estava desenhando o bookplate. A PARAFUSO 0 tinha saído em dezembro de 2016 e desde então eu não tinha feito nenhum desenho desse universo, tirando nos autógrafos que as pessoas pediam e tal. Então, nesse momento, deu essa luz: quero fazer uma expansão desse universo.

Voltar em um universo que eu já tinha criado era uma ideia que tava na minha cabeça, mas mais pra outros trabalhos. Era uma vontade antiga que eu tinha, mas nada parecido com isso que estou fazendo”.

Restrições e estética

“O meu pensamento em relação a quadrinhos teve uma evolução legal nos últimos tempos. Desde que fizemos aquele papo na Faísca sobre HQs e Restrições Criativas, no lançamento do meu trabalho na Série Postal, eu comecei a estudar mais esse tipo de construção relacionada ao OuBaPo. Apesar da PARAFUSO 0 ter isso na construção dela, eu não acho que foi muito pensada a partir de suas restrições, foi mais um feeling do que eu queria fazer no momento do que uma imposição consciente de determinadas restrições. Agora, essa nova edição vem com um pensamento em torno das restrições. Ela está sendo construída dentro da proposta estética criada na PARAFUSO 0 e da qual tenho uma compreensão melhor. Eu tô entendendo melhor não só essa proposta estética como também essa forma de contar história e o próprio universo da PARAFUSO 0″.

OuBaPo e novos lugares

“O OuBaPo já tá sendo discutido há um bom tempo no nosso mercado de quadrinhos. Eu lembro que lá em 2010, quando eu fui na Rio Comic Con, a galera já estava falando muito sobre isso. A própria Samba que saiu no final de 2008, e eu conheci no final de 2009, no FIQ, explorava essa ideia. Então eu já tinha tido algum contato e feito algumas leituras, mas não era algo que achava apropriado para aquele momento do meu trabalho. Eu precisava primeiro encontrar o meu trabalho, encontrar o que eu queria contar, o que eu queria fazer com quadrinhos, para depois começar a estudar isso.

O meu trabalho sempre foi muito pensado em torno de uma espécie de linha: ‘agora eu tenho que fazer isso e vou focar nesse lugar aqui, aí quando atingir esse lugar vou pensar em outro’. Especificamente pra esse momento atual e pra essa ideia de investir mais no OuBaPo, eu procurei textos da pesquisadora Maria Clara Carneiro. Ela tem reflexões importantíssimas sobre o tema, talvez ela seja a pessoa que mais entende sobre isso aqui no Brasil. Procurei alguns textos de outros autores e pesquisei o que alguns artistas estavam fazendo. As nossas próprias trocas de ideia, sobre o postal e sobre quadrinhos,… Foram esses os pontos que me fizeram chegar nesse lugar atual e dar início à PARAFUSO ZERO – Expansão”.

CONTINUA…

Entrevistas / HQ

Papo com Sonny Liew, o autor de A Arte de Charlie Chan Hock Chye: “O livro virou referência no debate sobre censura em Singapura”

Eu entrevistei o artista malaio Sonny Liew sobre a A Arte de Charlie Chan Hock Chye, quadrinho lançado em português pela editora Pipoca & Nanquim dois anos após ser eleito o livro do ano pelas revistas The Economist e Publishers Weekly e a melhor graphic novel de 2016 pelo jornal Washington Post. Em 2017, a HQ venceu três troféus do Prêmio Eisner (melhor escritor/desenhista, melhor design de publicação e melhor publicação estrangeira). Sobre a história de Singapura e do quadrinista fictício Charlie Chan Hock Chye, o álbum ainda virou notícia por conta do empenho do governo singapuriano em sabotar seu lançamento contestando o suposto teor subversivo do livro.

Não é todo dia que você verá um quadrinho de um autor malaio publicado originalmente em Singapura causar tamanha comoção e ainda sair no Brasil. Eu escrevi sobre esse percurso tortuoso e triunfal da obra para a Folha de São Paulo. Recomendo a leitura do quadrinho, do meu texto para o jornal e, depois, da íntegra da minha entrevista com Liew. Você confere esse papo complexo a seguir. Ó:

Você se lembra do instante em que teve a ideia de criar A Arte de Charlie Chan Hock Chye? Se sim, você poderia falar um pouco sobre as origens desse projeto?

Bem… Não dá pra confiar o tempo todo em memórias, mas se me lembro bem, a ideia surgiu enquanto lia Comics, Comix & Graphic Novels, do Roger Sabin. Ali eu realizei que qualquer relato sobre a história de quadrinhos exige alguma contextualização histórica – os quadrinhos do Crumb e o movimento contra-cultural dos anos 60, por exemplo, ou o despertar e o desaparecimentos de vários gêneros nos Estados Unidos antes, durante e depois da Segunda Guerra Mundial. Então eu fiquei com essa ideia em mente, fazer um livro que tratasse da história de Singapura, mas que aparentasse ser uma obra sobre a história dos quadrinhos. O formato exato do livro acabou mudando à medida que fui trabalhando – por exemplo, inicialmente eu o concebi com a presença de vários ensaios em formato de texto ao invés de uma obra inteiramente em quadrinhos.

Eu gostaria de saber um pouco mais sobre a produção do livro. Você chegou a finalizar um roteiro antes de começar a desenhar? Como você concebeu essa mistura de estilos que define a estética do livro?

Como eu disse, o livro acabou mudando à medida em que eu trabalhava nele. Outro exemplo é o escopo do qual eu tratava – eu queria que fosse um panorama mais amplo da história dos quadrinhos em Singapura, então pensei em criar uma dúzia ou mais de quadrinistas ficcionais para protagonizá-lo… Mas foi ficando claro para mim que seria muito difícil para o leitor acompanhar isso tudo, então decidi focar em um único artista. E sim, eu fiz um roteiro completo – nesse caso em formato de thumbnails ao invés de um roteiros em texto. Eu não consigo pensar quadrinhos apenas como texto, então todos os meus roteiros são em formato de thumbnails.

O livro contém todo tipo de estilo artístico e os estilos do Charlie mudam ao longo do tempo. Eu queria que ele fosse meio camaleônico, mas que isso também criasse uma dúvida na cabeça do leitor, se ele estava apenas copiando o estilo de outras pessoas ou se ele era realmente um criador original. Uma questão era o quanto eu deveria desenhar do livro, para distinguir os meus desenhos dos desenhos do Charlie. Também por isso eu fiz uso das sequências de entrevistas, inspiradas no quadrinho Lao Fu Zhi (Old Master Q), de Hong Kong.

Eu também gostaria de saber mais sobre o desenvolvimento do projeto editorial do livro. O Chipp Kidd é listado como o diretor editorial da obra. O quanto você já havia desenvolvido o projeto quando o apresentou para os seus editores? Quais foram as principais contribuições deles pra obra final?

A edição de Singapura já havia sido publicada quando vendemos os direitos pro Chip e pra Pantheon. Eu fiquei muito empolgado que o Chip gostou do livro – ele é uma lenda no mundo do design. Claro que muito do visual do livro foi inspirado nos trabalhos dele em livros de arte – o uso de texturas de quadrinhos antigos, as marcas de copos – mas isso veio mais da minha leitura dos trabalhos dele do que de dicas que tenham partido do Chip. O principal trabalho de edição veio da minha editora, Joyce Sim, com alguma ajuda do Dan Koh. A Joyce me ajudou a fazer a checagem de todas as informações, tivemos longos debates sobre o uso de algumas palavras e frases para que tudo fluísse da melhor forma. Também contamos com um advogado e com um historiador para que tivéssemos certeza que as nossas interpretações eram apropriadas e que nada era descabido. Para a edição dos Estados Unidos fizemos algumas pequenas mudanças – acrescentamos uma nota de rodapé para explicar o que é “kachang puteh, por exemplo

Para a edição de Singapura, tudo o que falei para os meus editores é que queria fazer um livro sobre Singapura que também fosse uma versão ficcional da história dos quadrinhos de Singapura. Eu acho que não consegui me fazer entender na época – ninguém compreendia o que eu estava fazendo – acho que eles apenas acreditaram que aquilo tudo resultaria em alguma coisa interessante…

O quadrinho segue três linhas distintas: a vida desse artista esquecido, a história de Singapura e a história dos quadrinhos. Foi difícil para você administrar esses três focos diferentes em um único livro?

Por causa disso, quando finalizei o livro, eu precisei resolver problemas em várias passagens… O final, por exemplo, passou por diversas transformações. Mas em relação a essa sua referência à combinação desses vários temas: muito disso veio tão rápido nas primeiras 30 ou 60 páginas que logo ficou claro para mim que talvez pudesse funcionar. Havia algo em relação à fluidez e às conexões que parecia funcionar. Mas esses pontos de conexões também acabaram funcionando nas 300 páginas seguintes. Eu tive muita ajuda do pessoal para quem enviei os meus rascunho – o meu ex-professor no Rhode Island School of Design David Mazzucchelli me deu muito retorno e o meu ex-editor francês Jean Paul Moulina sugeriu criar títulos para os capítulos para deixar o livro mais organizado.

Eu li sobre os vários problemas que você teve com as autoridades de Singapura. Você imaginava que o livro poderia ter essa recepção enquanto trabalhava na produção da obra? Quais as principais lições que você tirou dessa resposta inicial?

Eu tinha alguma consciência que o livro poderia ter alguns problemas, por ser uma espécie de crítica e uma revisão da narrativa mainstream sobre a história da Singapura. Mas eu não achava que a verba do NAC seria retirada. A controvérsia em que isso resultou ajudou a chamar atenção para o livro em um nível que a editora nunca imaginou e acabamos esgotando rapidamente as primeiras tiragens. Talvez ainda mais importante tenha sido como isso tudo transformou o livro em um referência no debate sobre censura por aqui.

Eu não tenho certeza quais são as lições mais importantes, com exceção da suspeita de que um criador não tem controle de nada além da própria obra. Você pode tentar aprender sobre a indústria de quadrinhos, sobre política, sobre as redes sociais… Mas no final do dia o que importa é apenas a criação do livro.

Quais as suas opiniões sobre o uso de quadrinhos para tratar de política? Quadrinhos podem ser para apresentar realidade político-sociais complexas e até mesmo fazer do mundo um lugar melhor?

Bem… Eu acredito que a linguagem dos quadrinhos tem potencial para ajudar a explicar vários assuntos complexos – não apenas pelo fato da mistura de imagens e palavras tornar qualquer coisa mais intuitiva, mas também pelo fato da maioria das pessoas associar quadrinhos como aquelas coisas que líamos quando crianças e por isso baixarem um pouco a guarda em relação a eles. Além disso, é um meio como qualquer outro, com seus méritos e suas fraquezas, então eu acredito que diz mais respeito à habilidade de apresentar as coisas em um formato diferente. Pode ser um quadrinho político da mesma forma como shows de TV analisam a nossa política e a nossa sociedade, como o David Simon fez em The Wire.

Fazer do mundo um lugar melhor? No que diz respeito a quadrinhos, eles com certeza melhoraram a minha vida, de Calvin & Haroldo à 2000 A.D., de Homem-Aranha ao Cul de Sac… Mas mudar o mundo é algo difícil e exige muitas forças agindo em conjunto. O mundo de hoje parece estar encaminhando para o autoritarismo em cada vez mais lugares e reagir a isso não é algo fácil – talvez a nossa obrigação seja não apenas mostrar que liberdade e aceitação levam a mais igualdade e crescimento, mas também desafiar a noção que crescimento perpétuo é o que mais importa para países e economias ao redor do mundo.

Você tem um vasto conhecimento sobre quadrinhos norte-americanos e trabalha para a indústria de super-heróis. A maior parte desse material é comprado e consumido principalmente por seu aspecto escapista e pelo distanciamento da realidade. A Arte de Charlie Chan Hock Chye é muito pessoal e uma obra também muito política. É muito diferente para você trabalhar nessas realidades tão extremas?

O trabalho autoral é mais envolvente em vários aspectos… Mas geralmente também resulta em adiantamentos menores! Então, como muita gente, eu preciso conciliar o trabalho comercial com o autoral. O bom disso é que todos eles sempre envolvem a ilustração de quadrinhos, então não gosto de reclamar. Com o trabalho comercial você aprende trabalhando com outros escritores diferentes formas de narrativa e os prazos fazem com que você aprenda novas técnicas para desenhar mais rápido e de forma mais eficiente. Os escritores também acabam sendo as pessoas lidando com os problemas narrativos, então sendo um artista contratado a sua responsabilidade principal é ajudá-los a esclarecerem suas ideias. Em linhas gerais, dá pra dizer que os projetos comerciais são menos trabalhosos, mas também menos divertidos, já os autorais são mais trabalhosos e mais divertidos – se pudermos definir “diversão” como os desafios envolvidos em muitas leituras e pesquisas e busca por dar uma forma a uma história.

Eu diria que muitos quadrinhos mainstream acabam sempre correndo o risco de serem insulares – se referindo mais às suas próprias mitologias do que a uma história propriamente dita. Mas isso não quer dizer que escapismo é uma coisa ruim – todos nós precisamos de um pouco de escapismo de vez em quando. É apenas que as minhas preferências pessoas acabam pendendo para um maior envolvimento com o dito mundo real. Eu lembro de assistir Logan e torcer para que eles tivessem focando mais da história nos caminhões sem motoristas e nos campos de milhos geneticamente modificados!

Outra questão sobre política: Singapura parece ser um país muito conservador e estamos vendo um crescimento desse mesmo conservadorismo na Europa e no continente americano. Por isso tudo, você é otimista em relação ao nosso futuro?

No momento… É difícil ser otimista. Eu acho que os dias do Fim da História, como o Francis Fukuyama previu, com certeza não estão vindo, mas também não estamos próximos do sonho de uma humanidade em paz como em Star Trek. Mas continuamos tentamos, certo? Sejamos intelectualmente pessimistas, mas otimistas nos nossos espíritos.

O que mais te interessa em relação a quadrinhos atualmente?

Principalmente o que é conhecido como quadrinho indie ou alternativo – trabalhos do Daniel Clowes, do Chris Ware e do Chester Brown. Histórias envolventes que também experimentam com a linguagem dos quadrinhos. Se eu tivesse mais tempo também gostaria de ler mais trabalhos do Inio Asano.

O que passa pela sua cabeça quando vê um trabalho seu sendo publicado no Brasil? Você fica curioso em relação à forma como esse livro será lido e interpretado em uma cultura tão diferente da sua?

Sim. O Brasil é um local fascinante e complexo sobre o qual não tenho tanto conhecimento. Não vejo a hora de ver como será essa recepção para o livro.

No que você está trabalhando atualmente?

No momento é a Eternity Girl para a DC Comics, mas eu também comecei uma pesquisa para um livro novo relacionado a questões sobre o capitalismo.

A última! Você pode recomendar algo que tenha lido, visto ou ouvido recentemente?

Rick & Morty é excelente. Em termos de filmes, todos do Hirokazu Kore-eda que assisti foram muito emocionantes e me fizeram pensar bastante.

HQ

Série Postal 2018: a HQ produzida por Diego Gerlach para a coleção

Aqui está a arte de Diego Gerlach para o quinto e último número da Série Postal 2018. A HQ foi batizada pelo quadrinista com o título Eu Espio Você, Você Me Espia e está ambientada dentro do Gilsoverso, universo povoado pelos personagens do autor com os protagonistas do selo Vibe Tronxa Comix e da série Know-Haole. O quadrinho começará a ser distribuído de graça nos próximos dias em lojas especializadas de São Paulo, Curitiba, Porto Alegre e Goiânia – você confere os pontos de distribuição no tumblr da Série Postal e na fanpage do projeto. O lançamento da HQ ocorrerá em evento em São Paulo, com a presença do autor, mas ainda sem data confirmada.

A Série Postal 2018 teve sua primeira edição lançada no mês de março, com um trabalho do quadrinista Alexandre Lourenço. O segundo número foi publicado em abril, com uma HQ da artista Raquel Vitorelo. A terceira edição, batizado de Ausência de Si, é da autora Cecília Silveira. O quarto número foi lançado no mês de junho, com arte da quadrinista Deborah Salles. As 12 edições prévias do projeto foram assinadas por Mariana Paraizo, Jão, Felipe Nunes, Daniel Lopes, Paula Puiupo, Manzanna, Felipe Portugal, Bárbara Malagoli, Bianca Pinheiro, Taís Koshino, Pedro Cobiaco e Pedro Franz.

HQ

Confira as prévias de Shirô, de Danilo Beyruth, e Imaginário Coletivo, de Wesley Rodrigues, as primeiras HQs nacionais da DarkSide Books

A editora DarkSide Books anunciou os títulos e os autores de suas primeiras HQs nacionais, uma assinada pelo quadrinista Danilo Beyruth e outra pelo animador e quadrinista Wesley Rodrigues. Com lançamento marcado para o dia 27 de julho, às 19h30, na Casa França Brasil, no Rio de Janeiro, Imaginário Coletivo é o primeiro quadrinho autoral de Rodrigues. Grande homenageado na atual edição do festival Anima Mundi, ele possui em seu currículo prêmios conquistados nos festivais de Gramado, Animage (PE), FICA/GO e no próprio Anima Mundi. Em 2012 ele ilustrou a HQ Luiz Gonzaga: Asa Branca – O Menino Cantador, roteirizada pelo escritor e historiador Maurício Barros de Castro.

Segundo os editores da DarkSide Books, as 492 páginas do primeiro quadrinho solo de Rodrigues são uma fábula sobre liberdade e força de vontade. “O leitor acompanha as aventuras de uma vaca que queria ser pássaro. Ou seria um pássaro que nasceu vaca? Durante essa viagem fantástica, é impossível não se perguntar: será que sou tudo aquilo que eu poderia ser?”, diz a sinopse da HQ.

Já o álbum de Danielo Beyruth é um trhiller ambientado no bairro paulistano da Liberdade, envolvendo samurais modernos, a máfia japonesa e o empenho de uma estudante para enfrentar fantasmas de seu passado para sobreviver à Yakuza. O livro tem lançamento previsto para a Bienal de Quadrinhos de Curitiba, em setembro. O álbum marca o retorno do autor às HQs autorais após um período trabalhando para o mercado norte-americano de HQs, assinando a arte de publicações da editora Marvel Comics.

Em sua primeira experiência com autores brasileiros, a DarkSide faz duas investidas interessantes e coerentes com a diversidade de cena nacional de HQs. Beyruth é um autor consagrado e maduro, com três álbuns publicados pelo selo Graphic MSP e domínio narrativo da linguagem dos quadrinhos. Enquanto isso, Wesley Rodrigues fez sua carreira em outro campo de atuação e pode trazer frescor e perspectivas novas sempre bem-vindas para um meio já caracterizado por sua agitação criativa. Aguardo os dois títulos com ansiedade. A seguir, páginas e capas de Imaginário Coletivo e Shirô:

HQ

Será apenas justo que Marcelo D’Salete chegue ao final de 2018 com troféus dos prêmios Eisner, HQMix, Jabuti e Grampo

“Cumbe foi uma primeira forma de abordar a história dos povos africanos e negros escravizados no Brasil. Ainda tenho o projeto de elaborar uma narrativa sobre a história do Quilombo dos Palmares. Esse é com certeza o meu projeto mais ambicioso por enquanto. Pretendo ter tudo pronto nos próximos anos. Quando o projeto estiver mais próximo do fim devo começar a me preocupar com a forma de publicação. Além desse, ainda tenho muitas histórias sobre a nossa sociedade atual para contar. Ideias não faltam.”

As aspas aqui em cima foram tiradas da entrevista dada pelo quadrinista Marcelo D’Salete ao blog em setembro de 2014, logo em seguida ao lançamento de Cumbe. A versão norte-americana do álbum foi lançada nos Estados Unidos pela editora Fantagraphics no final de 2017 com o título Run For It: Stories of Slaves Who Fought for Their Freedom. Na noite de sexta-feira passada, dia 20 de julho de 2018, o livro ganhou o Prêmio Eisner de melhor edição americana de material estrangeiro. O Eisner é o maior prêmio da indústria norte-americana de quadrinhos.

Os irmãos e quadrinistas brasileiros Fábio Moon e Gabriel Bá já haviam vencido o Prêmio Eisner em 2008, pela antologia 5 (junto com Rafael Grampá), em 2011, por Daytripper (melhor série limitada), e em 2016, (melhor adaptação), por Dois Irmãos, inspirado no livro homônimo de Milton Hatoum. Individualmente, Moon ganhou pela HQ online Sugarshock! (escrita por Joss Whedon, para a revista Dark Horse Presents) e Bá, também sozinho, levou pela minissérie The Umbrella Academy (escrita por Gerard Way). A comoção em torno do reconhecimento de Cumbe é maior do que a ocorrida em seguida às vitórias dos gêmeos paulistanos – por parte de quadrinistas, da mídia especializada e de leitores não habituais de quadrinhos. Mesmo ambientado no Brasil colonial, Cumbe trata do Brasil de hoje. O quadrinho de D’Salete dialoga com uma sociedade em crise e expõe a origem de vários de seus principais problemas.

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“Esse lançamento foi um momento de inflexão total na minha trajetória. Na época, pensava seriamente se continuava a produzir e publicar do mesmo modo. Apesar das críticas positivas, meus livros anteriores não tinham chegado a um público muito amplo. Cumbe rompeu todas as expectativas. Não apenas pela premiação atual, mas por ter tido uma ótima recepção pelo público em diversos locais.”

Essa segunda fala foi tirada do Facebook de D’Salete, em mensagem compartilhada por ele algumas horas após o anúncio de sua vitória no Eisner. Entre os trabalhos prévios mencionados por ele constam Noite Luz (2008), publicado pela Via Lettera; Encruzilhada, lançado originalmente em 2011 pela Leya e depois republicado pela Veneta em 2017; e Risco, também de 2014, como parte da coleção Franca da Editora Cachalote.

Ainda há muito a ser redescoberto do trabalho de D’Salete. Obras com forte ambientação urbana mostrando um país moderno com preconceitos e desigualdades em vigor desde o Brasil colonial.

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“Muita coisa mudou nesses últimos 11 anos, desde quando fiz o primeiro roteiro para Angola Janga. Alterou o meu modo de compreender o passado e também o presente, em especial sobre os antigos e novos mocambos. Os remanescentes de quilombos atuais, com suas diferentes origens, ainda resistem e atestam a violência de nossa história. Ainda hoje, essas pessoas estão sistematicamente ameaçadas por fazendeiros, empreendimentos milionários etc. De certo modo, isso remete a ausência de reforma agrária desde o pós-abolição. Um elemento a mais que agrava brutalmente o desnível social em que vivemos.”

A comoção nacional e internacional em torno de Cumbe é merecida. Mas é Angola Janga a verdadeira obra-prima de D’Salete. Lançada no final de 2017, vencedora do Prêmio Grampo 2018, já publicada na França, a obra até o momento teve seus direitos de publicação vendidos para Alemanha, Itália, Portugal e Estados Unidos – também pela Fantagraphics.

As 432 páginas de Angola Janga tornam o premiado Cumbe uma espécie de prévia desse trabalho maior. Trata-se de uma obra definitiva. Mesmo apenas um ano após sua publicação, já é visto como um dos melhores e mais importantes quadrinhos brasileiros de todos os tempos. Ao contar a história do Quilombo dos Palmares pela perspectiva daqueles que o fundaram e construíram, D’Salete propõe uma releitura sobre a luta de grupos negros, populares e indígenas contra um modelo de sociedade construído a partir de violência, racismo, discriminação, desigualdade e tudo o que há de mais errado na sociedade brasileira.

Caso o livro não ganhe todos os troféus em que foi inscrito no Prêmio HQMix 2018 e também não leve o Prêmio Jabuti na categoria Histórias em Quadrinhos, nada mais fará sentido. Será apenas justo que D’Salete chegue ao final de 2018 com troféus do Eisner, HQMix, Jabuti e Grampo. Um feito que dificilmente voltará a ser alcançado.

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PS: A vitória de D’Salete no Eisner ocorre pouco mais de dois anos após Marcello Quintanilha levar o prêmio de melhor HQ policial no Festival de Angoulême de 2016, por Tungstênio. Ambas as obras foram publicadas no Brasil pela Editora Veneta, casa dos dois autores no país. O selo editado por Rogério de Campos abriga a vanguarda das HQs nacionais, traduz para o português alguns dos títulos mais importantes da história da linguagem e tem alcance fora do nicho de leitores de quadrinhos como nenhuma outra editora especializada. É essencial estar atento ao filtro, à linha editorial, aos autores e às publicações da editora.

*Entrevistas com Marcelo D’Salete publicadas no Vitralizado:
>> Papo com Marcelo D’Salete, o autor Angola Janga: “Temos uma subcidadania praticada e reafirmada cotidianamente. O poder permanece na mão de poucos”;
>> Marcelo D’Salete e as origens de Angola Janga – Uma História de Palmares;
>> Papo com Marcelo D’Salete – Volume 2;
>> Papo com Marcelo D’Salete;
>> Marcelo D’Salete e as origens de Angola Janga – Uma História de Palmares;

*Leia também:
>> Marcelo D’Salete fala sobre HQs, personagens da periferia e sua relação com a cidade de São Paulo;
>> Rogério de Campos, editor da Veneta: “Precisamos defender como pudermos as livrarias especializadas”;
>> Papo com Rogério de Campos: “O que está aquém no momento é a reflexão sobre quadrinhos no Brasil”;