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Posts por data maio 2018

HQ

Hibernáculo: confira uma prévia da nova HQ de Amanda Paschoal Miranda

Uma dica pra quem for ao Festival Internacional de Quadrinhos em Belo Horizonte: a quadrinista Amanda Pachoal Miranda estará por lá lançando o belo Hibernáculo. Li o pdf da HQ e gostei bastante da forma como a autora construiu uma história que mistura quadrinhos e música. A publicação é protagonizada por uma pianista às vésperas de uma apresentação e pelas vozes que parecem expressar as reflexões da artista instantes antes de seu espetáculo. Pedi pra quadrinista algumas páginas da obra e também comentários sobre as origens do projeto, os métodos e as técnicas de trabalho dela, as limitações criativas que ela se impôs e a relação entre quadrinhos e música. Saca só:

Você se lembra do instante em que teve a ideia de criar essa HQ?

Essa história surgiu depois de ver diversos vídeos de maquiagem enquanto scrolava o facebook. Me fez pensar no espetáculo e no que há de similar entre uma penteadeira e um piano. E essa imagem de uma mulher destacada entre holofotes se locomovendo para se apresentar me pareceu interessante. À princípio era um texto muito esparso que ia pra vários lados sem consolidar um ponto, a maior parte da edição foi nesse sentido. De encontrar um ponto e fechá-lo na história pra ela ser mais sucinta.

Você poderia falar um pouco de seus métodos de trabalhos, das técnicas que utilizou e como foi o desenvolvimento desse quadrinho?

Depois de ‘ver a imagem’ eu penso sobre como quero quadrinizá-la, meus trabalhos anteriores têm uma carga gráfica muito mais pesada e detalhada do que esse. Decidi me desafiar a trabalhar com uma fórmula clássica, um grid de 3×3 quadros por página, e explorar mais o ritmo em quadrinhos, uma qualidade que eu não dominava tanto assim. O desenho é mais manchado e fluído, rolando um interesse maior pelo formato e pelo movimento das coisas do que nos detalhes.

Eu gostaria de saber mais sobre as restrições que você se impôs nesse trabalho. O quanto essa imposição de trabalhar com um grid fixos determinou o desenvolvimento da HQ?

Acredito que a limitação te dá um gás criativo muito grande. Pensar na limitação que você poderá imprimir, no que teu orçamento permite bancar em questão de cor e acabamento. Todas essas coisas podem te fazer encontrar saídas criativas interessantes. É a primeira vez que faço um quadrinho que realmente precisava ser preto e branco e fiquei feliz com isso. A limitação técnica do grid permitiu me focar em chegar no ritmo que eu gostaria pra história, sem me perder em adornos ilustrativos.

Eu também gostaria de saber mais sobre a decisão de misturar quadrinhos e música. Como foi criar uma interação entre essas duas linguagens?

Sou muito próxima da música, apesar de não tocar nenhum instrumento. Meu pai e padrasto trabalharam com música, muitos amigos meus tocam, comecei a aprender inglês lendo encartes e hoje trabalho fazendo artes para bandas. Enquanto eu lia sobre ritmo em quadrinhos pensei sobre ritmo em música, na fórmula dura de uma partitura. Li mais sobre os primórdios da notação musical e cheguei na história de um padre, que foi quem formalizou a maneira de se pautar. E a partir disso criei esse comentário fictício que aparece na HQ, onde quem teria criado a notação seria Bach (um homem extremamente religioso também) e das possibilidades para tal inspiração.

Entrevistas / HQ

Cidade de Sangue: Márcio Jr. assina parceria com o lendário Julio Shimamoto em HQ policial

O músico e roteirista Márcio Jr. convidou o lendário quadrinista Julio Shimamoto para ilustrar o roteiro do álbum Cidade de Sangue. Escrito e ilustrado a partir de um argumento de Márcia Deretti, o álbum marca a estreia do braço editorial da produtora cultural MMarte Produções, capitaneada por Márcio Jr e Márcia Deretti, e narra uma história policial ambientada em Goiânia. O quadrinho mostra um romance conturbado entre um jornalista policial e uma fotógrafa do jornal no qual ele trabalha tendo como pano de um fundo um crime no qual o próprio repórter é suspeito.

Bati um papo por email com Márcio Jr sobre a as origens do projeto, o desenvolvimento da história e a experiência de trabalhar com Shimamoto. Aliás, chamo atenção para a explicação do roteirista sobre as técnicas utilizadas por seu parceiro para o desenvolvimento da arte da HQ. Papo bom, saca só:

O que você pode falar sobre a trama do quadrinho? Você pode, por favor, falar um pouco sobre a sinopse e como você chegou a esse enredo?

Cidade de Sangue é uma trama policial ambientada em Goiânia. Carlão, o personagem principal, é repórter do caderno de polícia de um grande jornal há anos e não suporta mais o contato cotidiano com a violência. Amargurado, atravessa uma séria crise em seu casamento. Surge então Paula, a nova fotógrafa do caderno, e os dois acabam dando início a uma tórrida e mórbida paixão, inflamada justamente pelas cenas de crime e violência que os cercam.
Por ironia do destino, Carlão torna-se o principal suspeito de um dos crimes que cobria para o jornal, naufragando em uma espiral de decadência. Cidade de Sangue nasceu como argumento para um longa-metragem, desenvolvido a partir de uma ideia central da minha esposa e sócia, Márcia Deretti. Agora, com o livro pronto, o projeto de transformá-lo em filme volta a nos assombrar. A princípio, uma animação. Com direção de arte do Shima, claro. Trabalho pra mais de década…

Por que chamar o Julio Shimamoto para ilustrar o quadrinho? Aliás, aproveitando, qual você considera os principais atributos da arte dele e as maiores contribuições dele para os quadrinhos nacionais?

Shimamoto faz parte daquilo que considero a santíssima trindade do quadrinho brasileiro, ao lado de Jayme Cortez e Flavio Colin. Gênios de uma outra época do mercado editorial brasileiro, quando HQ era algo popular, acessível, cultura de massa – e que, mesmo sob estes limites, conseguiram criar uma obra absolutamente autoral. Vejo dois aspectos ímpares nos quadrinhos de Shimamoto: dinâmica e experimentalismo. Seus personagens estão sempre em movimento, cheios de uma energia que transborda do papel. E suas experimentações gráficas não têm fim. Shima já trabalhou com cerâmica, balões de borracha, fuligem, sacos plásticos surrados, tinta de parede, água sanitária,… Sempre digo que se no cinema brasileiro temos aquilo que o saudoso (cineasta e crítico) Jairo Ferreira chamava de ‘cinema de invenção’, o que o Shimamoto faz é ‘quadrinho de invenção’. Em Cidade de Sangue ele leva isso a um outro patamar. Há ainda uma questão sobre a qual me debato continuamente: o cisma entre a atual geração de quadrinistas brasileiros e seus antecessores. Em todos os eventos de quadrinhos vemos centenas de talentos contemporâneos e uma quase completa ausência da velha guarda. Em outro paralelo com o cinema, seria como se os cineastas de hoje produzissem sem conhecer o trabalho de Glauber Rocha, José Mojica Marins e Nelson Pereira dos Santos. Por fim, tenho uma longa relação com o mestre Shima, que se iniciou com o curta-metragem em animação O Ogro, produzido e dirigido por mim e pela Márcia (e que pode ser visto aqui https://filmeoogro.blogspot.com.br/2011/03/apresentacao_09.html). Mas o mais importante em relação ao Cidade de Sangue é que o trabalho não se trata do resgate da obra de um mestre do passado. O que temos aqui é um Shimamoto contemporâneo, moderno, repleto de vigor e coragem, se arriscando como nunca. Estou ansioso pela recepção do público e do meio em relação ao seu mastodôntico trabalho em Cidade de Sangue.

Você pode falar um pouco sobre a técnica utilizada pelo Julio Shimamoto para a arte do quadrinho?

Quando chamo o trabalho de Shima de experimental, estou falando sério. Cidade de Sangue foi literalmente desenhada a ferro e fogo. Cada página começava com um rápido esboço em papel manteiga. Aí, sobre uma mesa de luz e com o uso de maçaricos, ferros de soldar e ferramentas artesanalmente criadas por ele, Shimamoto trabalhava sobre papel térmico (papel de fax). Os balões e recordatórios eram feitos a parte para depois serem colados diretamente sobre a página. Como o papel térmico possui baixíssima durabilidade, era feita uma fotocópia da página – que posteriormente seria tratada e receberia uma segunda cor, o vermelho, aplicada pelo quadrinista goiano Tiago Holsi. Há também um incrível uso de colagens fotográficas. Enfim, imagino que a abordagem gráfica desenvolvida por Shima em Cidade de Sangue seja um caso único no mundo.

E como foi a dinâmica do trabalho de vocês? Você enviou o roteiro fechado para ele? Quanto tempo durou a produção da obra? Você pode falar um pouco de cada etapa dessa produção?

Fui entregando o roteiro para o Shima em capítulos, sempre esboçados. O Shimamoto é conhecido por subverter roteiros, normalmente tomando outros caminhos que aqueles indicados pelo roteirista. Dei a ele toda a liberdade para isso. Mas fiquei bastante surpreso (e também orgulhoso) ao perceber que ele seguiu com grande fidelidade as páginas plotadas que lhe entreguei. Todas as mudanças de enquadramento ou perspectiva feitas resultaram em ganhos dramáticos para a narrativa. Apesar de ter um escopo bem definido da história desde o começo, não consegui entregar para ele o roteiro fechado de uma só vez. A estratégia de ir enviando o material por partes foi um meio de manter o trabalho orgânico durante todo o tempo, uma vez que o Shima me devolvia os capítulos finalizados – e eu, por minha vez, dava continuidade à história, absolutamente influenciado por aquilo. Mudanças de percurso aconteceram neste processo, que durou uns bons cinco anos para se completar – com alguns intervalos na produção. Me senti terrivelmente pressionado em escrever algo para o Shimamoto – que durante todo o projeto me ofereceu a mais generosa confiança e apoio que consigo imaginar. Na verdade, me sinto absurdamente privilegiado por ter realizado o Cidade de Sangue.

Cidade de Sangue é a primeira publicação de sua nova editora, a MMarte. Quais os seus planos para a editora? Você já tem outros lançamentos em vista? Você já estabeleceu qual será a linha editorial de vocês?

A MMarte Produções, formada por mim e pela Márcia Deretti, existe há alguns anos e é mais conhecida por sua atuação no mercado audiovisual – seja em projetos de formação como a Escola Goiana de Desenho Animado; em festivais como a TRASH – Mostra Internacional de Cinema Fantástico e o Dia Internacional da Animação de Goiás; e como produtora de animações autorais como O Ogro, Faroeste: Um Autêntico Western e Rascunho da Bíblia. O sonho de termos um braço editorial é antigo e estamos entusiasmados com o início desta nova aventura. Até o momento produzimos outros dois livros além do Cidade de Sangue: a edição de luxo da HQ Entardecer dos Mortos, ao lado do grande Tiago Holsi; e a antologia de contos noir Cidade Sombria – também ilustrada pelo mestre Shima. De forma independente e sem nenhuma pretensão megalomaníaca, nosso interesse são livros e publicações que nos sensibilizem pessoalmente. Num panorama tomado pela virtualidade, me atrai muito a perspectiva do livro como objeto, como traço material e físico de uma obra. Livro é a coisa mais legal do mundo – além de ser o único motivo plausível pra se derrubar uma árvore. É ou não é?

Entrevistas / HQ

Me Leve Quando Sair: Jéssica Groke e os percalços do primeiro quadrinho

A quadrinista Jéssica Groke vai lançar sua primeira HQ impressa durante o Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, marcado para rolar entre os dias 30 de maio e 3 de junho na capital mineira. A estreia da autora ocorre no surpreendente Me Leve Quando Sair, sobre a dinâmica de relacionamento de Groke com seu irmão mais velho. O álbum mostra um breve período dos dois viajando por Paraty e lembrando de memórias de infância e refletindo sobre suas dinâmicas familiares. Com belíssimos designs de páginas e uma história muito bem contada, Me Leve Quando Sair marca uma bela estreia de Groke e apresenta uma artista promissora da cena brasileira de quadrinhos. Bati um papo por email com a quadrinista sobre esse primeiro trabalho dela. Saca só:

Quando e como surgiu a ideia de fazer essa HQ?

A ideia surgiu no início de 2017, mais ou menos. Já fazia um tempo que eu queria começar um quadrinho, mas nada era importante e/ou interessante o suficiente pra me fazer começar, mas então o meu irmão decidiu que sairia do país e isso foi bem importante pra mim, pois nós sempre fomos muito próximos. Daí pensei, “tá aí, preciso falar dele, preciso falar um pouco sobre nós”. Em dezembro de 2016 a gente tinha feito essa viagem incrível pra Paraty, então juntei o contexto e a situação de Paraty com os sentimentos e pensamentos que essa mudança tava me trazendo, foi assim que surgiu o quadrinho. Eu senti que precisava falar sobre alguns dos meus medos, sobre algumas preocupações que eu tinha com o meu irmão, coisas que apesar de tão recentes, eu já nem sinto e penso mais.

Me Leve Quando Sair é o seu trabalho de estreia e expõe muito de você, da sua vida pessoal e da dinâmica de seu relacionamento com o seu irmão. Como foi pra você administrar esse conteúdo e essa exposição?

Eu não me incomodei muito em me expor, o que me preocupava era expor minha mãe e meu irmão. Agora, enquanto escrevo essa resposta, nenhum dos dois leu o quadrinho ainda, então não sei o que eles vão achar do livro e como meu irmão irá reagir ao ver o que escrevi sobre ele. Mas eu os avisei que faria um quadrinho assim, que seria bastante pessoal e eles concordaram, gostaram da ideia e não se incomodaram. Então tendo o apoio dos dois me sinto tranquila. E o que está registrado não é 100% real, nem aconteceu exatamente daquela maneira, é apenas uma fração da nossa vida. Mas a melhor parte, com certeza, foi ficar caçando momentos na memória, perguntar coisas para os dois e encontrar esses pedacinhos de vida que ficam nas caixas de lembrancinhas e nos álbuns de fotos.

Você poderia falar um pouco sobre as suas técnicas e seus métodos? Você trabalhou com um roteiro fechado antes de começar a desenhar? Quais materiais você utilizou durante a produção do quadrinho?

Não trabalhei com um roteiro fechado. No início eu tinha apenas as cinco primeiras páginas na cabeça, eu sabia que tinha que começar ali, mas depois eu só fui deixando o quadrinho me levar. Eu não fazia ideia pra onde tava indo. Hoje, com o quadrinho pronto, sinto que foi um erro não ter me planejado melhor, pois rolaram alguns momentos onde eu fiquei completamente perdida e desesperada, tive intervalos de um ou dois meses que eu não desenhava nada, não via uma solução pra história. Quando eu já tinha umas 12 páginas prontas, comecei a fazer umas fichas pra tentar me organizar, cada ficha representava uma página, e em cada uma eu escrevia o que eu queria ter na página. Por exemplo, ‘cena na loja, diálogo sobre quarto, possíveis elementos: objeto artesanal de madeira, porta da loja’. Eu ia escrevendo coisas e cenas que eu sabia que precisava ter na história, aí depois passava um tempo reorganizando, descartando e adicionando fichas. Simultaneamente eu ia planejando as páginas e desenhando, não tive uma etapa de escrever e uma etapa de desenhar, fui fazendo tudo junto e quando todas páginas estavam prontas eu escrevi os diálogos.

Sobre os materiais, eu usei lápis grafite 6b e 8b e papel A3 120g, gosto de considerar como material também as fotos e documentos que usei de referência para os desenhos, em alguns momentos eles funcionam praticamente como colagens, então acho justo mencionar. Acredito que a finalização em grafite tem uma função narrativa e combina com a atmosfera da história, mas, num primeiro momento, eu decidi que seria assim, pois ainda não me sinto segura com outras técnicas, então eu trabalhei com essa limitação da melhor forma que pude.

Eu gosto muito da diversidade nos designs das páginas do quadrinho. Foi desafiador pra você criar uma unidade pra obra trabalhando com páginas tão distintas?

O mais desafiador foi criar os designs diferentes. Minha segunda limitação é não saber usar requadros, então eu precisei bolar um jeito de fazer sequências sem usá-los. Eu trabalhei de uma forma em que o corpo dos personagens e os elementos do cenário tivessem a mesma função que um requadro teria. É até engraçado eu chamar a obra de quadrinho quando na verdade não tem nenhum quadrinho hahaha Acho que o nome mais adequado seria narrativa gráfica, mas gosto de chamar quadrinho, acho provocativo. E sobre a unidade, uma vez li um texto do Paulo Cecconi no Balbúrdia sobre sincronicidade das páginas e eu simplesmente amei, pensei ‘preciso usar isso conscientemente’. Não acho que consegui ter ‘controle das coincidências’ no quadrinho todo, mas eu tentei. Achei que se eu fizesse uma página puxar a outra, no final, elas ficariam com o mesmo ‘ritmo’, mesmo que o design fosse tão diferente. Fora isso, eu apostei que a finalização e o estilo do desenho iriam trazer uma unidade por si só.

Esse é o seu primeiro trabalho e eu fico curioso sobre as suas influências. Eu percebo um certo diálogo com o trabalho do Pedro Franz, faz sentido? O que mais você leu/viu/ouviu/assistiu que te influenciou enquanto fazia a HQ?

Faz total sentido, eu adoro o trabalho do Pedro Franz, foi uma grande influência. Incidente em Tunguska e Promessas de Amor a Desconhecidos Enquanto Espero o Fim do Mundo. Pra mim, eles apresentam uma honestidade gráfica e narrativa que eu tentei trazer pro meu trabalho e também têm esse desapego das formas tradicionais de se fazer quadrinho, que é uma coisa que eu acho incrível. Apesar de absorver todas essas coisas do trabalho do Pedro, eu acho que o quadrinho que mais me inspirou, definitivamente, foi Mensur do Rafael Coutinho. Esse quadrinho foi lançado e eu tava começando a fazer o Me Leve Quando Sair, e eu não conseguia parar de ler, não conseguia parar de pensar nele, eu via aquelas páginas sem requadros e pensava ‘É ISSO’. A obra do Rafael é muito importante pra mim, no geral. Eu também li repetidamente o Meu Pai é Um Homem da Montanha da Bianca Pinheiro e do Greg Stella, eu amo esse livro, ele é muito forte pra mim, eu me encanto com a simplicidade e sutileza da narrativa deles, acho muito acurado. Outro quadrinho que também me inspirou muito foi o O Ateneu da Mariana Paraizo. Gosto muito da forma como ela usa colagem e como ela parece misturar lembranças pessoais com ficção, usei muito disso no meu quadrinho.

Fora quadrinhos, eu também vejo muito filme quando tô buscando inspiração. The Darjeeling Limited foi muito importante pra mim, é meu filme favorito sobre comunicação e fraternidade. Gosto demais como os flashbacks funcionam no filme, como o Wes Anderson quebra a história em ‘começo, fim e meio’, tentei usar isso também. E tiveram dois filmes do Karim Aïnouz, que eu assisti umas quatro vezes cada um enquanto fazia o quadrinho haha O Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo e O Céu de Suely, meu deus, como eu acho esses filmes incríveis, a honestidade do texto, dos diálogos… O O Céu de Suely é quase um quadrinho do Quintanilha, saca? O Que Horas Ela Volta e Mãe Só Há Uma também são filmes que me destroem, a Anna Muylaert consegue passar a atmosfera do filme todo em uma cena de um minuto, ela tem um controle da narrativa dela que admiro muito, quero um dia poder fazer isso com meus quadrinhos. Enfim, teve muita coisa que vi, li e assisti enquanto fazia o livro. Fora isso, também ouvi muito dois álbuns: Paraíso da Miragem, do Russo Passapusso, e Super Sub América, da Trummer Super Sub América, esses dois discos têm uma mistura de nostalgia, alegria e tristeza, que eu queria trazer pra minha história.

Eu também tenho curiosidade em relação às suas expectativas com esse primeiro quadrinho. Quais sentimentos estão passando pela sua cabeça às vésperas do lançamento?

Eu espero que os leitores encontrem as mensagens que eu tentei passar no quadrinho, e os que não encontrarem, espero que encontrem outras coisas mais interessantes. Espero também que os leitores gostem, e os que não gostarem, eu espero que sejam sinceros e gentis comigo. Foi difícil fazer esse quadrinho, mas eu aprendi muito no processo. Agora quero usar esse aprendizado pra fazer mais quadrinhos. Acho que é isso.

HQ

Série Postal 2018: a HQ produzida por Cecília Silveira para a coleção

Aí está o trabalho da quadrinista Cecília Silveira para a terceira edição da Série Postal 2018. A HQ foi batizada pela autora de Ausência de Si e começará a ser distribuído a partir de sábado (26/5). Para quem estiver no Festival de Beja, em Portugal, a artista estará por lá entregando o postal em mãos para interessados no projeto. Já aqui no Brasil, a obra estará sendo distribuída de graça em São Paulo na Banca Tatuí, na Banca Curva e na loja da Ugra. Em Porto Alegre os postais podem ser encontrados na Galeria Hipotética, em Goiânia na Mandrake Comic Shop e em Curitiba na Itiban.

A Série Postal 2018 teve sua primeira edição lançada no mês de março, com um trabalho do quadrinista Alexandre Lourenço. O segundo número foi publicado em abril, com uma HQ da artista Raquel Vitorelo. As 12 edições prévias do projeto foram assinadas por Mariana Paraizo, Jão, Felipe Nunes, Daniel Lopes, Paula Puiupo, Manzanna, Felipe Portugal, Bárbara Malagoli, Bianca Pinheiro, Taís Koshino, Pedro Cobiaco e Pedro Franz.

HQ

E esse teaser-pôster do Jão para PARAFUSO ZERO – Expansão?

Eita! Viram esse teaser-pôster aqui em cima divulgado pelo Jão pra revista PARAFUSO ZERO – Expansão? Pelo Facebook, o quadrinista contou que a obra estará em campanha de financiamento coletivo no Catarse a partir do mês de agosto e prometeu novidades sobre o projeto para breve – assim como uma versão colorida dessa arte recém-compartilhada.

A edição de estreia da revista PARAFUSO foi uma das minhas leituras preferidas de 2016, a HQ presente na obra é dos trabalhos mais divertidos e bem sacados com super-heróis que li em anos. Adianto já estar por dentro do que será a PARAFUSO ZERO – Expansão e divulgarei aqui no blog, nos próximos meses, algumas novidades interessantes sobre o título. Mas uma coisa de cada vez… Enquanto isso, dá um clique aqui pra ver a arte do pôster em alta resolução.

Entrevistas / HQ

Verônica Berta e o desafio de adaptar o texto de Júlia Lopes de Almeida (1862-1934) no álbum Ânsia Eterna

O álbum Ânsia Eterna é o primeiro trabalho publicado da quadrinista Verônica Berta. A obra lançada pela editora SESI – SP adapta para o formato de história em quadrinhos três contos da escritora e cronista carioca Júlia Lopes de Almeida (1862-1934). Segundo Berta, sua vontade de fazer quadrinhos surgiu enquanto fazia um curso de desenhos na França, durante seu período de graduação na faculdade. Empolgada com a possibilidade de produzir uma HQ e sem experiência com roteiros, ela passou a trabalhar com a ideia de fazer um projeto em parceria com alguma escritora. A ideia de uma adaptação surgiu após a descoberta de que os textos de Júlia Lopes de Almeida estavam em domínio público.

Com uma belíssima paleta de cores, Ânsia Eterna apresenta uma artista nova, com um traço original e perspicaz ao mostrar como questões do século 19 ainda se fazem extremamente presentes nos dias de hoje. No papo a seguir, a quadrinista fala sobre o trabalho de adaptação dos textos que deram origem ao seu álbum, os métodos utilizados por ela durante a produção do quadrinho e os dilemas decorrentes da fidelidade a uma obra concebida há mais de um século.

Você se lembra quando teve contato pela primeira vez com o trabalho da Júlia Lopes de Almeida? E quando surgiu a ideia de adaptar os textos dela?

Eu encontrei a Júlia fuçando no site do domínio público. Tinha ido lá fazer uma coisa que não tinha nada a ver com um projeto de quadrinhos mas acabou que ele foi acontecendo. Primeiro eu vi que não tinha quase nenhuma mulher na lista de obras literárias em português, isso me despertou a vontade de procurá-las. Tinham muitas na categoria errada (em vez de literatura era trabalho acadêmico) e muitos dos textos literários eram poemas. A Júlia estava entre as pouquíssimas romancistas. Aí quando comecei a ler a obra dela, fui ficando inspirada para fazer quadrinhos. É que lá no fundo eu já tinha um sonho de fazer um projeto em parceria com alguma escritora porque eu não tinha praticamente nenhuma experiência com escrita de roteiro. Então a ideia da adaptação seria algo mais próximo de uma parceria. Acabou que eu fui desenvolvendo o projeto até entender que ele poderia ser muito mais do que um jeito de camuflar minha insegurança, relembrando as pessoas da existência de uma das autoras que marcou a história da nossa literatura e buscando despertar a reflexão sobre as diferentes posições da mulher na sociedade, assim como a própria Júlia fazia.

Você poderia falar um pouco sobre os seus métodos e cada etapa desse processo de adaptação? Você trabalhou com um roteiro fechado? Como foi o processo transformar textos em imagens e determinar o que entraria ainda como texto no quadrinho?

Eu fui aprendendo enquanto fazia, porque minha experiência com quadrinhos até então tinha sido os trabalhos para entregar no curso de desenho. Na maior parte do trabalho eu quebrei a cabeça, porque o texto já está muito bem sozinho, ele é autossuficiente, né. E eu precisava ter um motivo para tirar essas narrativas de onde estavam e colocá-las num quadrinho. Por isso eu acabei viajando mais na narrativa visual, nas possibilidades plásticas, e até onde dava para ir com os textos sem modificar a essência do original. Tive ajuda de várias pessoas também. Algumas partes precisavam ser escritas e outras eu não conseguia pensar sem fazer esboços. Aí você saca o quanto texto e imagens, nos quadrinhos, são de fato interdependentes. A maioria dos trechos descritivos ou narrativos eu me aventurei em transpor diretamente para imagem. Mas às vezes usei narração como recurso, por exemplo, para encurtar uma parte que ficaria longa demais em quadrinhos sendo que no conto é apenas uma pequena passagem.

Eu queria saber um pouco mais sobre as suas cores. Quais são as suas técnicas? Como você definiu a paleta de cada conto?

Por eu gostar muito de pintura, acabo fazendo a pintura digital meio que do mesmo jeito que eu faria com tinta acrílica. Aí fica mais intuitivo.

No Ânsia Eterna eu usei três paletas diferentes: uma para o momento presente, uma para a história que é contada dentro da história, e outra para a imaginação do personagem principal e o que ele idealiza. A intenção é que tivessem três tipos de espacialidade diferentes e a cor foi fundamental para essa busca. Já Os Porcos e A Caolha são contos que potencialmente despertam emoções mais pesadas no leitor. Então usei as cores buscando representar os sentimentos dos protagonistas, já que não tinham as palavras da Júlia para descrevê-los.

Também me chamou muita atenção os designs das páginas do livro. Como você determinou a disposição dos quadros ao longo de cada página? Como foi pensar a estética de contos autônomos que compõem um mesmo livro?

Essa foi a parte mais sofrida. Faz uns anos que eu venho estudando composição e sinto que estou apenas começando a entender algumas coisas; para mim é um assunto muito cabuloso e fascinante ao mesmo tempo. É estimulante pensar em como você vai fazer para atingir determinado efeito e passar determinada mensagem a partir da composição, mas isso é um desafio. E para mim é fundamental pensar nas interações entre os elementos visuais. As relações entre pontos e linhas, os espaços negativos, os contrastes, esse tipo de coisa. Também penso nuns conceitos do Scott McCloud, às vezes.

Acho que entre Os Porcos, que foi a primeira que fiz, e A Caolha, que foi a última, já tem muita diferença na estética. Levei isso como mais um passo no processo de aprendizado.

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“Além de abordar questões que diziam respeito à mulher branca, a Júlia considerava relevante representar a situação de uma camponesa cabocla que sofria as consequências do patriarcado, ou desromantizar a maternidade com uma trabalhadora negra”

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No posfácio do livro você trata um pouco da história da Júlia Lopes de Almeida, fala como a obras dela tinham como proposta tratar do “universo feminino e tudo o que ela considerava politicamente relevante dentro desse universo”. Ainda assim, como você mesmo lembra no texto, se trata “de uma pessoa branca e feminista nascida em 1862”. Quais foram as principais reflexões e os maiores desafios surgidos durante esse processo de adaptação de Ânsia Eterna levando em conta todo esse contexto da autora?

O que mais me deixou surpresa, e consequentemente envolvida, foi o fato de eu ter me identificado com as histórias. Como que eu, uma pessoa da “geração y”, poderia me identificar com personagens e situações que foram narradas dentro de um contexto de mais de um século atrás? E depois eu acabei concluindo que mais de um século é pouco tempo. Porque hoje ainda vemos uma diferença muito grande entre uma história que foi contada sob um ponto de vista feminino e outra que foi contada sob o ponto de vista masculino. E ainda se fala sobre questões internas, ou seja, questões sobre ser mulher, muito parecidas. Naquela época falava-se muito sobre emancipação feminina e isso desencadeou as primeiras críticas à desigualdade salarial e outras injustiças que acontecem dentro do mercado de trabalho. Mas essa evolução do feminismo não significa que as pautas mais antigas, relativas à emancipação, foram resolvidas; essa questão permanece atual.

Além de abordar questões que diziam respeito à mulher branca, como a de ser idealizada pelos homens como a mãe perfeita dos seus filhos (Ânsia Eterna), a Júlia considerava relevante representar a situação de uma camponesa cabocla que sofria as consequências do patriarcado (Os Porcos), ou desromantizar a maternidade com uma trabalhadora negra (A Caolha). Mas sabemos que o feminismo negro só foi surgir um século depois do nascimento da Júlia, lá nos Estados Unidos, então a perspectiva dela não tinha como ser muito interseccional no sentido como entendemos hoje.

No posfácio acabei mencionando a posição social da Júlia para criar um link com o assunto da construção de personagens, mais especificamente da Caolha.

No posfácio você também fala sobre a sua decisão de “não limpar a barra” da autora em relação a algumas ideias racistas expressas por ela. Você poderia falar um pouco sobre os diálogos que teve e as reflexões que a levaram a seguir essa decisão?

Se as características físicas da caolha são descritas sob um ponto de vista racista e eu faço a personagem do mesmo jeito, eu simplesmente reproduzo essa ideia. Era essa a pulga que estava atrás da minha orelha, então abri uma discussão sobre isso no grupo de facebook do Minas Nerds. Nada melhor que minas nerds para falar sobre isso. Uma moça me disse que seria muito mais enriquecedor deixar a personagem como é descrita no conto original e adicionar um posfácio ou uma nota de rodapé que apontasse esse problema. Eu concordei e resolvi adotar essa abordagem.

Ânsia Eterna é o seu primeiro quadrinho, certo? É o seu trabalho de estreia e ele já está saindo por uma das editoras que mais tem colocado novos títulos a cada mês. Tendo em mente novos autores que também gostaria de publicar por grandes editoras, você pode falar um pouco do seu caminho das pedras até chegar ao Sesi?

Uma coisa positiva que eu fiz foi escrever o projeto. Quando eu estava bem no comecinho da produção, me inscrevi no Proac. O projeto não passou, mas o fato de ter escrito e pensado muito sobre ele organizou bem as ideias na minha cabeça. Sem isso eu não saberia muito bem justificar minhas escolhas nem compreender a relevância da HQ. E depois eu queria investir em divulgação, então publiquei um dos capítulos para leitura online, gratuitamente. A partir daí eu tinha mais segurança para fazer uma apresentação do projeto. Mandei e-mail para três editoras e a SESI me respondeu 5 meses depois para fecharmos o contrato. Foi um dia de champanhe rs.

Em relação ao período em que você passou estudando e pesquisando quadrinhos na França, eu fico curioso sobre as expectativas que tinha de publicar seu primeiro trabalho e a repercussão dessa obra. Desde o seu retorno ao Brasil, qual leitura você tem feito da cena local de quadrinhos? Você vê muito diálogo entre o que viu e viveu na França e o que tem vivido por aqui hoje (em festivais, feiras e debates sobre quadrinhos)?

Para ser sincera o que aconteceu foi que eu saí do armário como quadrinista, porque antes do curso eu tinha certeza absoluta de que nunca faria quadrinhos. As aulas lá na França fizeram com que eu me apaixonasse por fazer quadrinhos, mas a ideia de fazer o Ânsia Eterna surgiu depois que já tinha voltado para o Brasil. E também foi quando voltei que comecei a conhecer a nossa cena, e eu leio devagar, ou seja, ainda tem muitas obras essenciais que eu não li. Mas a minha impressão geral é que nossa cena ainda é jovem e fresca, ainda mais podendo comparar com a França, que tem uma tradição pesada (no bom sentido) de quadrinhos. Lá o mercado é mais consolidado e os quadrinhos fazem parte da vida dos franceses, no geral. Sempre conto a história do dia em que eu peguei o jornalzinho do metrô e tinha uma notícia anunciando o lançamento de um gibi. Isso para a gente é meio fora da realidade. Estudando em uma escola de lá e lendo os quadrinhos de lá eu percebi por exemplo um academicismo no desenho que não temos por aqui, e justamente por causa disso, aqui existe uma liberdade criativa muito maior.