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Posts por data Janeiro 2018

Entrevistas / HQ

Bryan Lee O’Malley, Los 3 Amigos completo e Charles Burns: confira lançamentos do selo de HQs da Companhia das Letras para 2018

Quem acompanha a conta do selo de HQs da Companhia das Letras no Instagram já percebeu os planos grandiosos para a Quadrinhos na Cia em 2018. Por lá constam prévias de algumas das publicações mais aguardadas dos próximos meses: a capa de Desenhados Um Para o Outro, parceria de Robert Crumb e Aline Kominsky; um trecho de um depoimento de Art Spielgeman para Metamaus; a adaptação das páginas de Minha Coisa Favorita é Monstro, de Emil Ferris, para o português; rascunhos de Odyr Bernardi para a adaptação de A Revolução dos Bichos; e uma foto de Guazzelli entregando os originais do álbum A Batalha na sede da editora.

De acordo com o editor da Quadrinhos na Cia, Emilio Fraia, a expectativa é o catálogo do selo ganhe cerca de dez títulos em 2018. Ele também promete o a trilogia Last Look, de Charles Burns – traduzida para o português por Diego Gerlach como Sem Volta; as adaptaçõess de O Idiota, de Dostoiévski, assinada por André Diniz, e A Obscena Senhora D, de Hilda Hilst, por Laura Lannes; a parceria entre a escritora Simone Campos com a quadrinista Amanda Paschoal em O Aleph de Boatafogo; o primeiro volume de Snotgirl, de Bryan Lee O’Malley (criador de Scott Pilgrim) e Leslie Hung, com o título em português de Garota Ranho; e A Origem do Mundo, publicação aclamada da quadrinista sueca Liv Stromquist.

Além da outras possíveis surpresas, Fraia ainda promete a edição completa de Los 3 Amigos, com a versão integral do trabalho conjunto assinado por Angeli, Laerte, Glauco e Adão Iturrusgarai. Conversei com o editor sobre os próximos lançamentos da editora, as revelações feitas por Robert Crumb e Aline Kominsky em Desenhados Um Pelo Outro e o trabalho de edição e adaptação do complexo Minha Coisa Favorita é Monstro. Confira:

My Favorite Thing is Monsters, de Emil Ferris


Na conta da Quadrinhos na Cia no Instagram há alguns teasers dos próximos lançamentos do selo. Há prévias de publicações como Minha Coisa Favorita é Monstro, Desenhados Um Para o Outro, Metamaus, o Revolução dos Bichos, do Odyr, e A Batalha do Guazzelli. Também já li a respeito do lançamento do Miseráveis, do Marcatti, e da trilogia Last Look, do Charles Burns. Você pode adiantar alguma agenda para esses lançamentos? Há alguma outra publicação do selo para 2018 que vocês ainda não anunciaram e poderiam adiantar?

A previsão é de cerca de dez lançamentos em 2018, um pouco mais do que nos últimos anos. Um dos mais aguardados é sem dúvida o Minha Coisa Favorita é Monstro, da Emil Ferris (com tradução do Érico Assis), que encabeçou todas as listas de melhor graphic novel de 2017 e ganhou o Ignatz Indie Comics Award. O livro é o diário desenhado (todo feito com esferográfica) de uma garota de dez anos obcecada por filmes B de terror. Além desse, vamos publicar a aguardada trilogia do Charles Burns, que aqui vai se chamar Sem Volta, com tradução do Diego Gerlach. Vamos fazer o A Batalha, do Guazzelli com roteiro da Fernanda Veríssimo, que se passa em 1641 e resgata um episódio pouco conhecido da história do Brasil, a batalha do Mbororé, que opõe os guaranis das recém-formadas missões jesuítas, no sul, a caçadores de índios vindos de São Paulo. O Metamaus e a adaptação do Os Miseráveis, do Marcatti, ficaram para 2019. De adaptações literárias, em 2018, vamos ter o A Revolução dos Bichos, do Orwell, adaptado pelo Odyr Bernardi; O Idiota, do Dostoiévski, numa versão em preto e branco e quase sem falas, feita pelo André Diniz; e o A Obscena Senhora D, da Hilda Hilst, que a Laura Lannes está fazendo, e esperamos lançar em julho, na Flip, que homenageia a Hilda. Estão previstos também O Aleph de Botafogo, parceria da escritora Simone Campos com a quadrinista Amanda Paschoal; o primeiro volume do Garota Ranho, que tem tudo para ser um sucesso, do Bryan Lee O’Malley (autor do Scott Pilgrim, que é um fenômeno); e o A Origem do Mundo, de uma quadrinista e ativista jovem sueca, Liv Stromquist, uma não-ficção super engraçada e provocativa, que traça uma história cultural/social da vagina, desde a antiguidade até os dias de hoje, em quadrinhos.

Outro livro aguardado é a edição completa do Los 3 Amigos, do Angeli, Laerte e Glauco. E agora em fevereiro sai o livro do Robert e da Aline Crumb, Desenhados Um Para o Outro. Uma coisa ou outra deve acabar mudando, mas é mais ou menos isso que está nos planos (mais algumas surpresas).

A capa de Desenhados Um Para o Outro, de Aline e Robert Crumb

Tem uma frase da Aline Kominsky no Desenhados Um Para o Outro que acho que sintetiza o que é esse livro. Não sei como será a tradução de vocês, mas é algo como “quanto mais pessoal e revelador, mais interessante”. Hoje o Crumb tá com 74 anos e acho que poucos artistas se expuseram tanto em suas obras como ele, o que você acha que o Desenhando Um Para o Outro oferece de novo em relação a ele?

O Desenhados Um Para o Outro é uma HQ em que praticamente todos os quadros são desenhados a quatro mãos, um negócio maluco se a gente para pra pensar. Durante cerca de 40 anos esse casal, Aline e Robert, sentou e desenhou HQs juntos – o livro reúne tudo o que eles publicaram em colaboração de 1974 até 2011 mais ou menos. E o tema das histórias é justamente esse: relacionamentos, a relação a dois, sexo, brigas etc etc. Essa ideia a que você se refere, do “pessoal e revelador”, é levada às últimas consequências. E ao acompanhar as histórias, brigas, as neuroses etc. dos dois, vamos também entrando em contato com um certo panorama da contracultura americana, passando pelos hippies dos anos 70, os yuppies dos 80, a mudança dos Crumb para a França, o nascimento da filha deles. Pra quem gosta de quadrinhos, é um acontecimento.

Guazzelli entregando os originais de A Batalha na Cia das Letras

Eu fico curioso em relação ao trabalho de edição do Minha Coisa Favorita é Monstro. É um livro muito elogiado, presente em várias listas de melhores nos últimos anos no exterior e muito marcado por seu projeto gráfico quase rústico. Como é o trabalho para manter essa identidade visual por aqui?

Esse é um daqueles livros que a gente fica feliz ao contratar mas que no momento seguinte já estamos pensando: tá, mas e agora? A sorte é que a equipe que cuida da produção dos quadrinhos na editora é muito boa. Chefiadas pela Helen Nakao, a Alissa Queiroz, a Luiza Acosta, a Camila Nishiyama e a Luísa Kon, com o apoio do Américo Freiria, estão quebrando a cabeça para, por exemplo, dar conta de reproduzir em português os letreiros das capas das revistas de terror pelas quais a protagonista do livro é fascinada. E tem uma porção de outros desafios gráficos, invisíveis para quem lê, mas que são um verdadeiro pesadelo para quem está do outro lado.

Um rascunho de Odyr Bernardi para a adaptação do clássico A Revolução dos Bichos

As primeiras publicações nacionais da Quadrinhos na Cia ficaram muito marcadas pelo envolvimento de uma geração, na época, em ascensão na cena nacional de HQs. Eram vários jovens artistas, você inclusive, com o DW Ribatski em Campo em Branco. Dentre esses próximos lançamentos nacionais constam pelo menos três nomes mais veteranos – Guazzelli, Odyr e Marcatti. Há algum foco seu e da editora por autores de uma ou outra geração mais específica?

Não, foi casual. Em breve, vamos ter livros da Laura Lannes e da Amanda Paschoal, talentos da nova geração. A Janaína Tokitaka também está preparando uma HQ. A ideia é ser a editora do Angeli, do Maus, do Tintim, do Aqui e publicar novos autores nacionais, o Minha Coisa Favorita é Monstro e o jovem autor nórdico de trinta anos que fez o livro bombar a partir de um projeto no Kickstarter (aguardem).

Eu considero Aqui o melhor e mais importante quadrinho publicado no Brasil em 2017, mas sei que é uma publicação que foge ao convencional em termos narrativos. Eu fico curioso em relação à resposta do público em relação à obra. Imagino que vocês não podem passar número de vendas, mas que tipo de retorno vocês tiveram dessa publicação? A imprensa cobriu de forma intensa esse lançamento, mas que tipo de resposta vocês tiveram por parte do público?

A melhor possível. A primeira edição inteira esgotou há alguns dias, estamos programando a reimpressão para fevereiro. É um livro emocionante. Merecido.

Duas páginas de My Favorite Thing is Monsters, de Emil Ferris

HQ / Matérias

Roger Cruz e o fim da trilogia Xampu

Eu escrevi para a edição de janeiro da revista Rolling Stone uma resenha sobre o terceiro volume da série Xampu, trilogia do quadrinista Roger Cruz sobre um grupo de amigos músicos e fãs de rock na São Paulo do final dos anos 80. A edição final reúne as mesmas doses equilibradas de humor, nostalgia e melancolia que ditaram o desenrolar das duas HQs prévias. Gosto de cada uma das edições que compõem a coleção por motivos distintos, mas recomendo com força a leitura integral dos três volumes.

HQ

Trump, por Liniers

Certeza que alguém já fez alguma tira/charge/ilustração do tipo, com o Trump cagando pela boca, mas o conceito fica ainda melhor no traço do Liniers. Fica o registro, pelo prazer de sempre ter um Liniers por aqui e também pela sempre oportuna chance de avacalhar o cuzão do Trump.

Cinema

Little White Lies #73: The Shape of Water

Matadora a capa dessa primeira edição da Little White Lies em 2018, hein? O destaque desse 73º número da minha revista preferida ficou por conta de The Shape of Water, filme novo do Guillermo del Toro que estreia no Brasil dia 1º de fevereiro com o título em português de A Forma da Água. Já estava ansioso pra assistir e agora empolguei ainda mais. Lá no site da revista tem algumas prévias de páginas internas da publicação e um texto adiantando outros conteúdos presentes nesse próximo número.

HQ

Bastidores PARAFUSO #1 – Parte II: Temas e Restrições

Começa amanhã (10/1) o Laboratório de Quadrinhos Potenciais organizado e coordenado pelo quadrinista Jão em Belo Horizonte. As HQs produzidas ao longo dos três encontros da oficina serão editadas e publicadas na revista PARAFUSO #1, com foco integral em narrativas gráficas experimentais. A lista com os nomes dos artistas selecionados para a oficina foi divulgada ontem: Aline Lemos, Bruno Pirata, Daniel Pizani, Estevam, Faw Carvalho, FRM, Gabriel Nascimento, Ing Lee, João Belo, Julhelena, Marcos Batista e Priscapaes.

As atividades do Laboratório são abertas ao público, que poderá acompanhar o desenvolvimento das HQs ao vivo, na Livraria da Rua (R. Antônio de Albuquerque, 913, Savassi, BH), nos dias 10, 11 e 12 de janeiro, das 14h às 21h.

Na semana passada foi publicada aqui no Vitralizado a primeira parte da série Bastidores PARAFUSO #1 (leia aqui), com um texto no qual Jão falou sobre suas inspirações e objetivos com o projeto. Agora, na segunda parte, o quadrinista escreve sobre os temas que serão abordados nos quadrinhos da revista e as restrições impostas por ele aos participantes do Laboratório. Saca só:

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Bastidores PARAFUSO #1 – Parte II: Temas e Restrições

por Jão

Editar trabalhos coletivos, muitas vezes, é um desafio. Para não ficar parecendo uma colcha de retalhos, é necessário criar alguma forma de unidade e conversa entre as artes. Seja pela abordagem, seja pelo estilo, seja pela técnica de impressão. Não pensar nisso antes pode gerar diversos problemas futuros. Assim, para a PARAFUSO #1, como organizador da antologia, após alguns dias de brainstorming e alguns tiros no escuro, planejei – com a colaboração da minha sócia Helen Murta – uma espécie de tema que permeia toda a edição. Caso fosse um dos meus trabalhos individuais, dificilmente esta seria a proposta, mas achei que seria interessante observar como outros artistas elaboram suas obras a partir de um conceito muito utilizado por mim em outros momentos. O tema em questão é “a cidade”. Achei que poderia gerar uma discussão interessante, pois existem muitas abordagens possíveis do espectro urbano. O próprio fato de ter uma quantidade relativamente grande de criadores e criadoras participando do processo junto comigo também influenciou a escolha.

A partir do tema base, pensei que queria contar uma história por meio da edição. Criar uma espécie de narrativa em segundo plano, mas que seria importante para a experiência de leitura da obra como um todo. Assim, enviei para cada artista um subtema que pode ser, por exemplo, “estradas”, “casa” ou “mesa de jantar”; e as restrições que guiariam a produção das páginas, como, por exemplo, “sem protagonista”, “sem texto”, “todos os quadros com closes em rostos” e, em muitos casos, foram mais de duas restrições para cada. Esta etapa foi elaborada para que os artistas produzissem fora do Laboratório de Quadrinhos Potenciais, em seus estúdios e locais de trabalho cotidianos. Cada um pode fazer duas, quatro ou seis páginas.

Gosto de ver o OuBaPo como uma forma lúdica de criação e, para os encontros presenciais, programei a confecção de três zines, que serão feitos um em cada dia. Cada um deles tem restrições criativas para o coletivo de participantes, que desenvolvem ensaios em quadrinhos baseados em temas preestabelecidos. São eles: Carteira de Trabalho, uma série de ilustrações sobre profissões inexistentes, em que cada autor terá, como restrição, uma única cena para desenvolver um personagem; Arqueologia Urbana, que abordará objetos incomuns encontrados na cidade, tendo como limitações a repetição de cenários e um grid de quatro quadros por página; e Comércio Informal, que será composto por ilustrações sobrepostas dentro de quadrinhos, como uma forma de trabalhar layouts e design das páginas, e os artistas não poderão utilizar textos em línguas existentes, passando todos os seus conceitos por meio dos desenhos.

A proposta com os exercícios realizados dentro do Laboratório de Quadrinhos Potenciais é que, para além dos zines produzidos, seja feita uma seleção de ensaios que entrarão na PARAFUSO #1, que ajudarão a contar a narrativa editorial necessária para a antologia.

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HQ

Vitralizado Recomenda #0021: Os Flintstones – Volume 1 (Panini), por Mark Russell e Steve Pugh

Eu estava curioso em relação a essa coleção recente de quadrinhos publicados pela DC Comics com os personagens da Hanna-Barbera. Aliás, o meu interesse era principalmente em Os Flintstones (Panini), com roteiro do Mark Russell e desenhos do Steve Pugh. Sites estrangeiros que respeito vinham elogiando a HQ, especialmente pelas reflexões que ela propõe, com diversas críticas relacionadas a questões como machismo, especismo, racismo e consumismo.

Gosto cada vez menos da estética convencional, pouco inventiva e conservadora dos quadrinhos da Marvel e da DC e o trabalho de Russell e Pugh não difere em termos visuais do que é apresentado nos gibis mais banais de super-heróis, mas gosto como uma HQ mainstream, distribuído em bancas e com personagens beirando aos 60 anos de existência subverte as possíveis expectativas criada em torno de seu título. A quarta das seis edições presentes nessa coletânea, sobre a origem do conceito de casamento e a relação dos personagens principais com seus bens, é especialmente brilhante.

Cinema / HQ

Frankenstein, por Francesco Francavilla

Lindão o cartaz aqui em cima, né? Arte do sempre excelente Francesco Francavilla pra uma exposição na galeria da Mondo em Austin dedicada aos monstros clássicos da Universal. Além do trabalho do Francavilla, também estarão expostas obras assinadas por artistas como Eric Powell, Ken Taylor, o pessoal da Phantom City Creative e outros. Recomendo um pulo lá no Flavorwire pra conferir alguns dos outros trabalhos da mostra. A exposição abre no próximo dia 19 e fica em cartaz até o dia 27 de janeiro. Você confere outras informações sobre o evento lá no site da Mondo.