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Posts por data novembro 2017

HQ

Gidalti Jr. recebe o primeiro Prêmio Jabuti de HQs: “As editoras deveriam estar mais atentas ao cenário independente”

O quadrinista Gidalti Jr. receberá na noite de hoje, no Auditório do Parque do Ibirapuera, em São Paulo, o troféu de primeiro colocado no Prêmio Jabuti 2017 na categoria estreante de Histórias em Quadrinhos. O artista nascido em Belo Horizonte, criado em Belém e residente em São Paulo foi anunciado como o vencedor da premiação no início de novembro, por seu trabalho no álbum Castanha do Pará, publicação independente, bancada via financiamento coletivo no site Catarse e primeira HQ do autor. A segunda colocada no Jabuti 2017 foi a coletânea Hinário Nacional, de Marcello Quintanilha, publicada pela editora Veneta, e a terceira colocação ficou com Quadrinhos dos Anos 10, de André Dahmer, lançada pela Companhia das Letras.

Como informado pelo presidente da Câmara Brasileira do Livro, Luís Antônio Torelli, no dia 3 de maio, em evento realizado na sede da instituição para o anúncio da criação da categoria Histórias em Quadrinhos, a inclusão de HQs no Prêmio Jabuti é fruto direto da campanha iniciada pelo quadrinista Wagner Willian em dezembro de 2016 que resultou em um abaixo-assinado com mais de 2118 nomes.

“Me inscrevi no prêmio Jabuti por descargo de consciência e na, melhor das hipóteses, esperava ser finalista”, pondera Gidalti Jr. em entrevista ao blog. A conversa foi realizada pouco mais de dez meses após uma primeira entrevista, feita em fevereiro, na véspera do evento de lançamento de Castanha do Pará em São Paulo. “Meu método de trabalho é bem caótico e ainda está em processo de amadurecimento, uma vez que só produzi um álbum”, contou Gidalti no início do ano. Em meio a participações em programas de TV em decorrência da imensa repercussão da vitória no Jabuti e no intervalo de um passeio com a filha, o quadrinista respondeu a algumas perguntas por email sobre sua conquista, o impacto da vitória em sua vida profissional e seus planos futuros com quadrinhos. A seguir, Gidalti Jr.:

“O financiamento coletivo foi a opção que encontrei para convencer as pessoas de que o meu trabalho merecia uma chance”

Na nossa conversa de fevereiro você falou sobre os três anos de produção do livro. Você disse que hoje tem uma relação melhor com o tempo, que uma das lições da produção do Castanha foi aprender a respeitar a sua arte e manter uma disciplina tendo em mente que o tempo passa e a obra fica. Às vésperas de receber o troféu de primeiro lugar no Jabuti de estreia da categoria Histórias em Quadrinhos, qual balanço você faz de todo esse período de investimento no Castanha?

Fazer quadrinhos é um oficio árduo e exige disciplina. Alguns quadrinistas conseguem ter uma dinâmica rápida no fazer, especialmente os que atuam no mercado americano. Particularmente, preciso de muita reflexão na hora de compor os quadros, na escolha da melhor palavra ou a forma ideal para comunicar o que desejo como autor. Pensar figurino, locação, enquadramento, elenco, entre outros, é quase como o trabalho de um diretor de cinema, sendo que você dirige a si próprio. Logo, a tarefa de fazer quadrinhos sempre será monumental. Passei muitos anos na publicidade, onde tudo é muito rápido e envolve mais dinheiro e mais pessoas para a realização de um trabalho e isso me deixou um pouco ansioso quando iniciei minha empreitada como quadrinista. Estava muito focado em gerenciar o processo como faz um publicitário, cuidando dos aspectos macroscópicos ligados ao marketing e pouco em trabalhar como um artista. Também posso refletir sobre a influência que o mercado americano de super-heróis ainda exercia sobre mim, pois estava sempre me cobrando velocidade, aperfeiçoamento técnico ao extremo e mobilizando equipe de finalistas e coloristas. Estava me distanciando do capricho do artesão, que nunca delega processos e executa com paciência e precisão o ofício. Então, largar a publicidade e encarar um projeto de quadrinhos foi algo que mudou muito minha forma de encarar o trabalho. Acho que fazer quadrinhos está mais próximo de uma pesquisa acadêmica. Cada dia você coloca um tijolo, conecta uma informação, resolve um problema estético ou de narrativa, encontra a palavra perfeita. Minha relação com o ensino acadêmico foi importante nesse processo, pois pude manter um trabalho de jornada parcial para bancar minimamente as despesas. O contato com a literatura acadêmica em artes visuais e comunicação social, o convívio com professores, intelectuais e outros artistas do universo das artes também me ajudaram a direcionar o meu trabalho para uma abordagem mais pessoal.

Quando você é novato no mundo da produção de histórias em quadrinhos, a maioria dos colegas mais experientes te aconselha a produzir algo mais modesto em termos de quantidade de páginas e de labor técnico. A lógica é correta, mas eu já estava acostumado com rotinas de trabalho intensos e já havia desenvolvido uma boa abertura para a crítica e pude receber conselhos valiosos de muitos amigos e aperfeiçoar cada vez mais o trabalho. Procuro estar atento a todas as dicas e conselhos, mas é preciso ter consciência de que a responsabilidade e as consequências das escolhas são nossas, portanto, procuro fazer aquilo que verdadeiramente acredito.

Troquei toda uma estabilidade profissional e o conforto de estar perto da família em Belém para empreender na área artística em São Paulo, logo, sempre foquei em fazer algo consistente e de valor artístico. Os primeiros anos em São Paulo foram os mais difíceis. Frequentei feiras de quadrinhos pelo Brasil para entender mais sobre os bastidores. Tive muitas derrotas, como a não aceitação em vários editais, negativas de editoras e propostas desrespeitosas, mas isso só me fez ter mais vontade de trabalhar e abrir as portas mesmo que na marra.

Felizmente, hoje existem muitas possibilidades para concretizar um projeto empreendedor. O financiamento coletivo foi a opção que encontrei para convencer as pessoas de que o meu trabalho merecia uma chance. Creio que a paciência para escolher a hora certa de materializar o álbum foi determinante para o sucesso da obra. Talvez, se eu tivesse conseguido um edital ou fechado com alguma proposta de editoras, o álbum não seria premiado, pois os eventos aconteceram de maneira orquestrada para ele fosse o estreante da categoria no prêmio Jabuti. Penso que o reconhecimento da premiação ao meu trabalho comprova que nada pode parar uma pessoa determinada.

Poucos quadrinhos conseguem romper a cobertura especializada formada principalmente por sites, blogs e canais do YouTube. Eu imagino que essa vitória no Jabuti atraiu um outro olhar para o Castanha do Pará. O que você achou dessa atenção? Como foi a sua relação com a dita “grande imprensa” em seguida ao anúncio da sua vitória?

Não há dúvidas de que o espaço na mídia para minha obra se ampliou após o Jabuti, especialmente no contexto nacional, uma vez que em Belém a imprensa sempre foi muito generosa comigo. Mas há de se reconhecer que parte da grande imprensa tem o foco nos produtos mainstream, pois existem forças de mercado que regem essa dinâmica. O mundo é assim. Ponto! Vamos trabalhar para ser interessantes também. Novamente sobre meu trabalho, vejo que muitos canais tiveram uma abordagem rica e até mesmo orgulhosa em relação ao fato de ser um álbum independente e com pegada social forte, mas outros praticamente protocolaram a notícia ou mesmo ignoraram. Entendo as regras do jogo e estou trabalhando arduamente naquilo que acredito, para assim abrir mais espaço em todos segmentos da mídia, mas o que me move é a qualidade e a quantidade de leitores que alcanço. Penso que a inserção na dita “grande imprensa” já foi pior para os autores brasileiros, especialmente os independentes, mas as coisas estão melhorando significativamente nos últimos anos, pois essa produção tem se mostrando muito consistente e madura.

“Temos hoje vários projetos editoriais com o foco em autores brasileiros, mas gostaria de ver mais ousadia no mercado nacional para que os autores tenham melhores condições de trabalho”

Uma coisa que chama atenção na vitória do Castanha está no fato de ser uma obra independente vitoriosa em uma premiação voltada para editoras. Como você interpreta esse fato?

Me inscrevi no prêmio Jabuti por descargo de consciência e na, melhor das hipóteses, esperava ser finalista por algumas razões: primeiro, por nunca ter publicado nem mesmo um fanzine antes do Castanha. Sempre fui consumidor e produzia só por diversão. Ainda bem que o prêmio é para a obra e não para o histórico do autor ou para editoras, como você sugeriu. Segundo, porque meu trabalho é independente e eu sabia que estaria competindo com grandes editoras e eventualmente, autores já consagrados. Quando foram anunciados os finalistas, fiquei realmente muito feliz, mas ao ver os gigantes que concorriam comigo, me dei por satisfeito onde tinha chegado. Ainda bem que me surpreendi e pude ganhar ainda mais confiança em relação à minha poética. Estou renovado e gratificado com esse reconhecimento. Creio que as editoras deveriam estar mais atentas ao cenário independente. Temos hoje vários projetos editoriais com o foco em autores brasileiros, mas gostaria de ver mais ousadia no mercado nacional para que os autores tenham melhores condições de trabalho, embora entenda que o mercado é difícil para todos, pois o que realmente precisamos é de mais leitores.

O Castanha é a sua primeira obra e você ganhou o primeiro lugar do Jabuti com ela. Acho que ainda tá cedo, mas que tipo de impacto você espera que essa vitória possa ter na sua carreira como quadrinista?

Acho que fará com que as pessoas se interessem mais pela obra e por meus futuros trabalhos, o que pode gera mais credibilidade para com o mercado. Continuo ciente de que a empreitada é sempre dura e exige muita paixão e disciplina. Não romantizo e sou cético em relação a tudo. Na minha opinião, o grande beneficiário deste prêmio é o gênero em si, afinal, teremos outros ganhadores no futuro e os que já foram premiados, devem continuar a produzir em alto nível ou cairão no esquecimento. Logo, creio que toda a classe deva estar feliz com o reconhecimento da CBL aos quadrinhos, o que deve estimular todos a produzir mais. Creio ainda que o mercado possa expandir mais a partir da maior circulação dos finalistas na mídia.

“Posso dizer que recebi muitas abordagens e estou apreciando tudo com calma, mas certamente as condições para meus próximos trabalhos devem ser melhores. Espero surpreender novamente”

Você já tem planos para um próximo trabalho? Chegou a ser procurado por alguma editora em seguida a essa vitória no Jabuti?

Trabalho com alta regularidade e intensidade moderada. Só assim consigo manter várias áreas da vida equilibrada e dar conta de tudo. Continuo com minha rotina de professor universitário e pesquisador e estou dedicando muito tempo para minha filha que nasceu há poucos meses. Estou sim, produzindo uma nova HQ. Está em uma fase de aprimoramento do roteiro e pesquisa iconográfica e não sei exatamente quando devo iniciar a exposição desse material. Posso adiantar que é novamente ambientada na região norte do Brasil, na Amazônia urbana. Vai tocar em assuntos como violência e difamação. Além de produzir histórias em quadrinhos em estrutura tradicional, estou envolvido em um projeto de pesquisa acadêmica em poéticas visuais, que investiga as possibilidades de hibridização entre a pintura, a narrativa e a palavra, também em fase inicial. Sobre propostas pós-prêmio, posso dizer que recebi muitas abordagens e estou apreciando tudo com calma, mas certamente as condições para meus próximos trabalhos devem ser melhores. Espero surpreender novamente.

Você encerrava aquela primeira entrevista que fizemos falando sobre a sua satisfação com o resultado do livro, que estava feliz com a cobertura da imprensa e o retorno do público até então. Ainda assim, você também dizia que era muito cedo para avaliar e que o livro não tinha alcançado todo o público esperado. E agora? Como você avalia a recepção do público e da cena brasileira de quadrinhos ao seu trabalho? Você já alcançou todo o público que esperava?

Acho que o alcance da minha obra está melhorando muito, mas ainda é muito pequeno. Publicar de forma independente, em regra, te coloca em um patamar de tiragem baixo. Distribuir e comercializar são tarefas complicadas para quem tem uma rotina de produção como a minha. Trabalhei de forma independente porque no momento foi a melhor opção, mas estou ciente de que esse formato pode me limitar em alguns aspectos. Estou muito satisfeito com tudo, mas acho que preciso agregar outras forças para que o meu trabalho ganhe mais espaço no mercado, na mídia e alcance mais leitores, que é o grande propósito de se produzir literatura. Sei que minha obra é direcionada para um público mais adulto. Isso é evidente nos eventos em que o público mais maduro costuma apreciar mais a proposta de brasilidade e foco ao contexto amazônico que apresento em meu trabalho. Portanto, penso que meus leitores sejam mais restritos ainda e de maior dificuldade de serem alcançados. A predominância da associação entre quadrinhos e literatura infanto-juvenil ainda é muito forte no Brasil. Em relação à cena brasileira de quadrinhos, acho que fui muito bem recebido. A grande questão se resume a publicar, de preferência algo sólido. Enquanto você só fala de projetos e de coisas que fará, das dificuldades do mercado e da vida, a comunidade não vai te respeitar. Agora, no momento em que você mostra algo palpável, realizado, todos os players te olham como alguém que faz parte da cena. Isso é justo e natural. Portanto, é sempre bom falar menos e fazer mais. Tenho consciência que sou um autor novo e a questão do alcance vá melhorar com trabalho e tempo. Num mundo conectado e cada vez mais tecnológico, é sempre possível ampliar ainda mais o seu público e vou sempre almejar isso.

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Confira a capa da 2ª edição da revista Plaf, com arte de Christiano Mascaro

Taí a belíssima capa da segunda edição da revista Plaf, assinada pelo artista pernambucano Christiano Mascaro, um dos editores/fundadores da revista Ragu. A publicação entra em pré-venda na semana que vem no site da Plaf e reúne HQs inéditas assinadas por Brendda Costa Lima, Roberta Cirne, Felipe Portugal e Jão.

Nesse segundo número eu assino um texto sobre alguns hábitos de consumo de leitores de quadrinhos no país e o reflexo desses costumos na forma como se edita/vende/pensa HQ no Brasil. Segundo os editores Paulo Floro, Dandara Palankof e Carol Almeida, um dos pontos altos da revista é a uma longa entrevista com o quadrinista Marcelo D’Salete sobre Angola Janga e a representação dos negros nos quadrinhos nacionais. Quero muito, viu?

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Sábado (2/12) é dia de festa de três anos da Banca Tatuí, com rinha de desenhistas e lançamento de Já Era, de Felipe Parucci

Ó, programão pra sábado (2/12): a Banca Tatuí vai celebrar seus três anos de vida, junto com o aniversário de oito anos da editora Lote 42. A festa rola a partir das 16h20, ali mesmo no número 275 da Rua Barão de Tatuí, em Santa Cecília, aqui em São Paulo, em frente à própria Banca. Uma das atrações do evento é o lançamento do excelente Já Era, nova HQ do quadrinista Felipe Parucci – pretendo escrever mais sobre o gibi por aqui, mas recomendo com força, tremendo trabalho. O outro destaque será uma rinha de desenhistas, com confrontos de alguns minutos entre ilustradadores competindo pela melhor solução para temas propostos pelo quadrinista/músico Marcos Batista.

Dei uma ajuda pro pessoal da Banca no convite aos quadrinistas que participarão da rinha e a promessa é de uma comepetição beeem divertida. E fica o aviso: a brincadeira é aberta pra todos presentes na festa, então é só chegar afim de fazer um rabisco e participar. Mais informações lá na página do evento no Facebook.

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Sábado (2/12) é dia de lançamento de Labirinto, Porco Pirata e Market Garden em São Paulo

Os três mais recentes quadrinhos publicados pela editora Mino serão lançados no próximo sábado (2/12), na loja da Ugra, em São Paulo. São eles: Labirinto, de Thiago Souto; Porco Pirata, de João Azeitona; e Market Garden, de Bruno Seelig. Tenho bastante curiosidade em relação a esses dois últimos, que com certeza farão parte da minha pilha de leitura de final de ano. Em relação a Labirinto, posso adiantar que o Thiago Souto fez um trabalho belíssimo. Escrevi o texto da 4ª capa da obra, chamo atenção para o traço e as cores do álbum e também para a forma como o quadrinista administra a jornada de seus dois protagonistas. Deixa passar não, viu?

A Ugra fica no número 1371 da Rua Augusta e o lançamento tá marcado pra começar às 15h. Mais instruções, lá na página do evento no Facebook.

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5ª (30/11) é dia de inauguração da Fanzinoteca Faísca em Belo Horizonte

Ei, tá em Belo Horizonte? Tem programa pra amanhã (30/11), a partir das 18h? Recomendo um pulo na inauguração da Fanzinoteca Faísca na capital mineira. O evento rola na Usina de Cultura – Centro Cultura Nordeste (R. Dom Cabral, 765, Bairro Ipiranga). Já com mais de 200 títulos, a Fanzinoteca é um desdobramento da Faísca – Mercado Gráfico, organizada nos últimos três anos pela jornalista Helen Murta e o quadrinista Jão da Pulo Comunicação. Os trabalhos presentes no acervo foram doados pelos expositores e artistas participantes da Faísca ao longo dos últimos anos.

No mesmo evento, também estará sendo lançado o álbum Nave, da quadrinista Júlia Helena, rolará um sarau da Cia. Siderlírica e estarão sendo distribuídas edições da Série Postal. Quem vai? Mais informações na página do evento no Facebook.

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5ª (30/11) é dia de lançamento de Frio Dedentadura Muda em São Paulo

Sempre recomendo por aqui os trabalhos assinado pelo Rodrigo Qohen e pelo Beeau Goméz publicados pela Baboon Comix. Os dois lançam amanhã (30/11) um projeto novo, dessa vez em parceria com o fotógrafo Vitor B. Cohen. Segundo os autores, Frio Dedentadura Muda mescla os desenhos de Goméz, o poema de Qohen e as imagens de Cohen para “investigar a origem dos ruídos, enquanto entrelaçam a narrativa com fragmentos de pânico”. O lançamento rola a partir das 18h, na Loplop Livros, no número 1119 da Avenida Professor Alfonso Bovero, aqui em São Paulo. Mais informações lá na página do evento no Facebook.

Entrevistas / HQ

Papo com Marcelo D’Salete, o autor Angola Janga: “Temos uma subcidadania praticada e reafirmada cotidianamente. O poder permanece na mão de poucos”

Já comentei algumas vezes como considero Angola Janga – Uma História de Palmares o quadrinho brasileiro mais importante publicado em 2017. É um álbum histórico pelos 11 anos que Marcelo D’Salete passou produzindo, por causa dos temas que ele trata e pela qualidade da obra. Para escrever a minha matéria pro UOL sobre a HQ eu fiz duas entrevistas com o autor. Uma delas foi realizada antes que eu tivesse lido o livro, quando ele ainda estava sendo fechado. Nela eu pedi informações sobre o conteúdo do álbum, as pesquisas feitas pelo autor e as técnicas de produção do quadrinho.

A entrevista seguinte foi feita após a leitura do PDF da HQ, com o livro na gráfica, dias antes de sua chegada às livrarias e a publicação da minha matéria. Reúno a seguir as minhas duas conversas com D’Salete. Antes, no entanto, recomendo: leia Angola Janga, depois o meu texto no UOL e então volte pra cá e confira o nosso papo. Combinado?

– Parte 1 –

Eu queria começar sabendo sobre a origem do quadrinho. Você lembra do instante em que teve a ideia de criar Angola Janga?

Angola Janga foi um processo longo. É difícil pensar num começo. Em todo caso, um momento importante foi um curso sobre história do Brasil, focando a população negra, com o professor Petrônio Domingues. Isso cerca de 13 anos atrás. Conheci a história de Palmares com mais detalhes ali.

Você é pesquisador e sei que investiu muito tempo do desenvolvimento estudando o contexto sobre o qual iria tratar. Como foi esse trabalho de pesquisa pra produção do livro?

O trabalho de pesquisa foi muito longo. Engraçado, pois antes não tinha ideia de como isso seria extenso. É como se cada livro e tema levasse a novas pesquisas. Usei muito a biblioteca do Museu Afro Brasil no início. Foi importante para conhecer textos e imagens do período. Sobre Palmares, algumas das referências foram obras do Flávio Gomes, Décio Freitas, Clóvis Moura, Nei Lopes, Edison Carneiro, João Felício, etc. Mas fora isso, foi necessário muito mais para formar um quebra cabeça mais rico sobre o contexto e o tema.

Como disse, eu ainda não li a HQ. Você pode me falar um pouco sobre as tramas do álbum? Ele é semelhante ao Cumbe, misturando histórias fictícias, apesar de inspiradas em relatos reais?

Angola Janga é uma ficção. Me inspirei em fatos e personagens históricos, mas a narrativa é ficcional. E a ficção, em toda sua potência, pode fornecer instrumentos únicos para ver e imaginar nossa história. Um dos personagens principais é o mulato Antônio Soares. Ele é próximo de Zumbi. Há também o Ganga-Zumba, líder mais antigo de Palmares, Ganga-Zona, irmão de Zumba, Acotirene, Andala, os paulistas Domingos Jorge Velho, André Furtado. A história aborda o contexto de escravidão, as entradas contra os vários mocambos de Palmares, a tentativa de acordo de paz com Ganga-Zumba e o poder colonial, e a guerra final contra Palmares.

Este trabalho tem alguma similaridade com Cumbe. São 11 capítulos ao todo mais o posfácio. Gosto de imaginar que cada parte funciona bem isoladamente, mas eles formam uma grande narrativa no conjunto. Por outro lado, há personagens importantes que atravessam quase todos os capítulos e a narrativa tem mais a forma de um romance do que Cumbe.

Quais técnicas de ilustração você utilizou? Houve algum tipo de material específico que predominou enquanto você produzia o quadrinho?

Usei caneta nanquim e pincel com nanquim. Não usei tinta acrílica para as manchas, que era algo comum nos trabalhos anteriores. Nesses anos todos de processo, precisei rever muitas vezes o desenho, pois ele acabou mudando um bocado.

Você trabalhou com um roteiro? Houve alguma dinâmica específica de criação dos textos e da arte?

Em geral, elaboro um roteiro para começar a desenvolver a HQ. Contudo, a narrativa vai se desenvolvendo e procuro aproveitar as ideias que surgem no caminho. Muita coisa nova surge nesse processo. Em Angola Janga, aliás, muitos dos personagens foram surgindo de modo muito orgânico.

O seu trabalho é muito conhecido pela ambientação urbana e dessa vez, assim como em Cumbe, você sai desse contexto. É mais desafiador pra você trabalhar em uma HQ de época, fora dessa ambientação urbana?

Foi muito difícil, para mim, fazer essa transição. Em Cumbe, algumas páginas cheguei a fazer mais de 5 tratamentos até chegar em algo aceitável. Em Angola Janga, foram menos tratamentos, pois já havia desenvolvido mais familiaridade com o contexto. Por outro lado, foi um aprendizado imenso.

Vi definições do Cumbe como uma coletânea de histórias de resistência no Brasil colonial. O Angola Janga vai por esse mesmo caminho?

Palmares foi um evento incrível para o Brasil e para a América como um todo. Era um local onde milhares de negros e negras buscavam autonomia sobre suas vidas, fora do sistema colonial. Um conjunto de diversos mocambos, na Serra da Barriga, extremamente articulados e implicados entre si. Lá eles cultivavam seus alimentos, criavam aves e porcos, chegaram a ter até locais de forja de metais. Isso, por si só, já é uma forma de resistência enorme quanto ao poder colonial, escravocrata e genocida. Eu penso Angola Janga, do quimbundo “pequena Angola”, como uma extensão de Cumbe. Aliás, de certo modo, o contrário é o correto. Embora tenha sido publicado antes, Cumbe surgiu das pesquisas sobre Angola Janga. Os dois livros têm muito em comum.

Qual você considera ser a importância de tratar de resistência e luta em tempos tão nefastos de conservadorismo aflorado e repressão a minorias como estamos vivendo no Brasil – e no mundo?

Essa onda conservadora (e perda de direitos de muitos grupos) é contra o diálogo e qualquer interpretação diferente dos fatos e do modo de ver as coisas. Precisamos criar pontes e favorecer o diálogo. Há várias formas de tentar resistir a isso, mas não podemos esquecer de dialogar quando possível. E a resistência é imprescindível hoje.

– Parte 2 –

Você conta no fim do livro que um dos objetivos do quadrinho é “conduzir a narrativa a partir do olhar dos palmaristas”. Estamos muito viciados em ouvir e ler a nossa história sempre a partir da perspectiva dos dominantes. Qual você acredita ser a importância de ouvir e ler esse outro lado da história?

Nossa história conta com a presença e luta de grupos negros, populares e indígenas. De formas diferentes, eles se opuseram ou negociaram, quando possível, com um modelo colonial baseado em forte hierarquia social. Conhecemos a perspectiva das elites sobre isso, mas a história pela ótica dos oprimidos ainda é pouco evidente. Explorar esse universo pode ser significativo para a realidade atual. Não apenas para conhecer esses fatos, mas também para gerar novas formas de compreender a sociedade hoje. No Brasil, temos uma subcidadania praticada e reafirmada cotidianamente. O poder permanece na mão de poucos. Isso só é possível a partir de estruturas de poder e discriminação eficientes que permanecem desde o período colonial.

Você ressalta o papel significativo da ficção nesse empenho de narrar a perspectiva dos palmaristas. Ainda assim, mesmo sendo uma ficção, você vê potencial didático no trabalho que produziu?

Em Angola Janga a ficção tem um papel fundamental. Considero que ela é essencial para contar, com a força que espero, uma narrativa como a de Palmares. Os fatos históricos ainda são pouco acessíveis a grande parte da população. Neste sentido, a ficção e os quadrinhos podem tecer pontes interessantes para quem deseja conhecer mais. Se isso pode ser usado para fins didáticos, outras pessoas poderão dizer. Cumbe obteve uma boa aceitação nesse universo. Ele foi indicado para leitura em escolas de Portugal e distribuído em bibliotecas de São Paulo. Angola Janga pode ter uma trajetória semelhante.

No seu texto no final do livro você também fala da necessidade de administrar ficção e realidade e de suas decisões voltadas para tornar a narrativa mais concisa e interessante. Você poderia, por favor, falar mais sobre essa dinâmica de administrar essa relação entre fatos e ficção?

Angola Janga é uma ficção que dialoga com fatos históricos. Procurei usar a ficção e os quadrinhos da maneira mais eficaz para esse fim. A história dos mocambos de Palmares é enorme e eu precisava ser conciso ao contá-la. Tentei evitar dados desnecessários, repetitivos etc. Se pudesse e tivesse mais tempo, ainda acrescentaria mais capítulos, mas penso que o livro já tem uma boa extensão como está. O personagem Antônio Soares, por exemplo, surge na história conhecida de Palmares apenas como um dos últimos malungos ao lado de Zumbi na Serra dois Irmãos, em Viçosa, Alagoas. Ao fazer a trama, ele me pareceu o personagem ideal para acompanhar a maior parte da história.

Um tema que considerei muito constante no quadrinho tá sintetizado em uma fala que diz “o futuro é mais do que disputa entre nós”. Você considera uma constante história essa estratégia dos opressores de colocar os oprimidos uns contra os outros?

Não saberia dizer se é uma constante. Mas, certamente, isso ocorreu em nossa história. A estratégia portuguesa utilizou esse dispositivo contra indígenas e africanos. Não apenas os portugueses fizeram isso, mas holandeses, espanhóis, franceses etc. Principalmente no período colonial, além das divisões provocadas pelos colonizadores entre diferentes etnias e povos, os grupos negros armados contra outros exércitos foram os primeiros também a serem traídos. Como exemplo, basta lembrar dos lanceiros negros no sul.

Me chamou muita atenção no livro como você trabalha com elementos icônicos e simbolismos no livro. O capítulo 4, Cicatrizes, é repleto desses símbolos e no glossário do livro você explica o significado de alguns deles. Como foi o trabalho de chegar nesses ícones e incluí-los na trama?

Este foi um processo longo e demorado. Meu jeito de contar é com pouco texto. Não queria fazer Palmares de uma maneira muito diferente disso. A narrativa precisava ser contada de modo significativo em termos de imagem. Desconhecemos absurdamente as culturas de origem banto que formaram nosso país, seus conceitos, modo de ver as coisas e símbolos. Por esse motivo, além de autores nacionais, precisei recorrer a estudiosos africanos. Isso me ajudou a conhecer e compreender alguns símbolos. O povo tchokwe, do nordeste de Angola, por exemplo, tem um rico universo de desenhos chamados sona. São antigos desenhos feitos na areia, cheios de mensagens e significados. Além deles, tem os adinkra, de origem ashanti, do centro-oeste africano. Bem, tentei inseri-los na trama de maneira apropriada, condensando ideias, momentos e sentimentos.

Nesse quarto capítulo eu também acho muito interessante um trabalho de você faz que parece o zoom de uma câmera. Você foca em elementos muito específicos, depois vai abrindo o plano e em seguida dá o zoom outra vez. Você pode comentar, por favor, o uso dessa técnica?

Esse é um recurso usado por diversos autores. Talvez seja uma influência do cinema também. Tenho dificuldade em pensar a construção da página de quadrinhos de outro modo. Considero monótono trabalhar com o personagem em plano inteiro. Muitas vezes, num quadro, ideias podem ser sintetizadas a partir do foco em objetos ou pequenas ações. Por outro lado, é preciso abrir o plano para situar melhor a ação e fornecer mais elementos ao leitor. Gosto de usar esses recursos ao construir as páginas.

O sétimo capítulo, Selvagens, é focado principalmente nos bandeirantes. Há uma citação no livro que define os bandeirantes como “uma tropa de choque a serviço do colonialismo português” e essa interpretação tem se fortalecido ao longo dos últimos anos – os protestos constantes feitos no Monumento às Bandeiras em frente ao Parque do Ibirapuera são um bom exemplo disso. Qual você acredita ser a importância de revisitar, questionar e reinterpretar a história como é contada nas escolas?

Monumentos são utilizados para marcar o tempo, o espaço e configurar um modo de ver a história de um grupo. Hoje, os bandeirantes não sintetizam mais uma narrativa nacional significativa para grande parte da população. Eles foram parte responsável pela matança e extermínio de muitos povos indígenas. Precisamos construir uma leitura mais complexa desses monumentos hoje. Um monumento não precisa ser permanente. Ele pode ser retirado, alterado, como já aconteceu em muitos locais. Em todo caso, algo que precisamos muito, imagino, é ter espaço para outros monumentos, evidenciando outros lados da história. Em São Paulo, por exemplo, os monumentos que mostram a história da população negra são pouquíssimos. Com certeza, grande parte das pessoas não consegue nem ao menos citar um deles.

Qual a maior lição que você teve enquanto produzia esse livro? Houve alguma interpretação ou perspectiva sua em particular que mudou profundamente enquanto pesquisava e criava a HQ?

Muita coisa mudou nesses últimos 11 anos, desde quando fiz o primeiro roteiro para Angola Janga. Alterou o meu modo de compreender o passado e também o presente, em especial sobre os antigos e novos mocambos. Os remanescentes de quilombos atuais, com suas diferentes origens, ainda resistem e atestam a violência de nossa história. Ainda hoje, essas pessoas estão sistematicamente ameaçadas por fazendeiros, empreendimentos milionários etc. De certo modo, isso remete a ausência de reforma agrária desde o pós-abolição. Um elemento a mais que agrava brutalmente o desnível social em que vivemos. Neste ano, os conflitos envolvendo terras aumentaram e tendem a aumentar ainda mais devido aos interesses dos grupos mais poderosos e a falta de uma legislação contra essas ameaças.

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Where Millennials Come From, por Adrian Tomine

O Adrian Tomine publicou uma ilustração na mais recente edição da revista New Yorker. Na versão impressa da publicação o texto assinado por Jia Tolentino saiu com o título Killing It e na internet foi batizado de Where Millennials Come From. Você lê a íntegra por aqui. Aliás, lá no Instagram do Tomine você confere duas etapas prévias da ilustração. Aproveitando a deixa, viram que saiu uma edição mais simples, sem ser em capa dura de Killing and Dying? Torço muito para que inspire alguma editora brasileira a investir numa versão em português.

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Superpunk: confira a capa e uma prévia da nova HQ de Guilherme Petreca

O quadrinista Guilherme Petreca revelou a capa e a algumas páginas de Superpunk, seu primeiro quadrinho em seguida ao álbum Ye. O gibi terá 48 páginas em preto e branco, será lançado na CCXP e estará limitado a 300 exemplares. O preço ainda não foi definido. Segundo o autor, o livro é uma espécie de prólogo pra uma HQ maior que ele está desenvolvendo, prevista pra 2018 ou 2019. Ele não adiantou muito sobre a trama: “É sobre uma adolescente, super-heroína e punk”. Saca a prévia do gibi:

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Vitralizado Recomenda #0020: Ghost World (Nemo), por Daniel Clowes

Eu assino o prefácio da edição de 20 anos do clássico Ghost World, do Daniel Clowes, recém-lançada no Brasil pela editora Nemo. O título é um dos meus quadrinhos preferidos e poucos autores moldaram a minha vivência como leitor de HQs como Clowes – aliás, tanto ele quanto o quadrinista Charles Burns, com Black Hole, de volta às livrarias pela DarkSide Books (e considero maravilhoso que as obras-primas de ambos estejam sendo relançadas em português em um intervalo tão curto de tempo). Reproduzo a seguir dois parágrafos do texto que assino na publicação da Nemo e deixo o resto para você ler na versão impressa. Ó:

“Ghost World mostra o cotidiano de duas jovens recém-saídas da escola e ainda indecisas sobre as próximas etapas de suas vidas. São garotas no final da adolescência com quase nada para fazer além de lamentar suas frustrações amorosas e sexuais, zombar de ex-colegas de escola supostamente encaminhados profissionalmente e apostar que qualquer um sentado ao lado em um restaurante pode ser um serial killer ou membro de seita satânica.

Um leitor menos atento diria se tratar de um gibi sobre o nada. Uma mescla de Seinfeld com versões suburbanas e da Geração X pré-Millennials das protagonistas da série de TV Girls. Mas Ghost World é muito mais que isso e não está limitada à misantropia superficial de suas personagens principais. É um quadrinho tragicômico protagonizado por jovens repletas de nuances e contradições, dignas da preocupação de Clowes em ser fiel à complexidade juvenil”


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