Vitralizado

Posts por data setembro 2017

Entrevistas / HQ

Papo com Chester Brown, o autor de Maria Chorou aos Pés de Jesus: “Muito do que Jesus disse soa contraditório”

Antes de tudo, leia Maria Chorou aos Pés de Jesus – Prostituição e Obediência Religiosa na Bíblia, o mais recente trabalho do quadrinista Chester Brown publicado em português. A obra lançada no Brasil pela editora WMF Martins Fontes defende a ideia de que histórias do Velho e do Novo Testamento e parábolas narradas por Jesus pregam a prostituição como uma profissão nobre e que Deus prefere seguidores que o questionem a fiéis fundamentalista. E sim, a HQ também aponta indícios de que Maria, mãe de Jesus, seria uma prostituta.

Depois de lido o quadrinho, recomendo a leitura da minha matéria sobre a obra no UOL. Eu entrevistei o autor da HQ e expliquei um pouco dos conceitos explorados por Brown e as ideias defendidas por ele. As 292 páginas em preto e branco do título não são irônicas ou satíricas em relação às escrituras bíblicas, mas sempre fiéis ao texto original, sempre em prol da defesa dos argumentos do autor.

Por fim, depois de lida a HQ e o meu texto, volte aqui, invista na entrevista a seguir e tire suas próprias conclusões. Um dos pontos do quadrinista é exatamente que as palavras de todas as pessoas devem ser avaliadas e interpretadas, sejam as dele ou as de Jesus. “Acreditar que tudo que ele disse é útil é o caminho para uma estrada de erros”, diz o artista. Com vocês, Chester Brown:

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Você lembra do momento em que teve a ideia de criar o livro e de explorar esses conceitos que explorou no quadrinho?

Há dois pontos de partida para o livro.

Eu tinha lido The Illegitimacy Of Jesus da Jane Schaberg nos anos 80, logo depois que foi publicado. A Schaberg percebeu essa natureza estranha da genealogia de Jesus contida do Evangelho de Mateus. É estranha por incluir o nome de cinco mulheres e genealogias antigas raramente mencionam mulheres. Havia quatro mulheres nas escrituras hebraicas e a quinta era a mãe de Jesus, Maria. A genealogia também é estranha porque as quatro mulheres nessas escrituras também eram “más”. Eram mulheres que “se comportaram mal”. Duas delas eram prostitutas e duas “agiram como prostitutas”. A Schaberg argumenta que as quatro mulheres estavam nessa genealogia para indicar algo sobre a quinta mulher, Maria. Eu concordo com a Schaberg que algo estava sendo indicado sobre a Maria, mas eu discordo em relação a que seria esse indício. A Schaberg acha que essa genealogia indica que a Maria foi estuprada. Mas nenhuma das outras quatro mulheres foram estupradas. Para mim parecia óbvio que a genealogia está apontando que a Maria era uma prostituta ou, no mínimo, havia feito sexo em troca de um benefício material.

Eu queria fazer um livro sobre esse assunto há muitos anos, mas não sabia como. Não me soava interessante criar uma história fictícia sobre como a vida de Maria teria sido se ela fosse uma típica prostituta judia trabalhando no primeiro século.

Então em 2014 eu estava lendo um livro do John Dominic Crossan sobre as parábolas de Jesus e ele mencionou essa versão alternativa, antiga, não-bíblica, de uma dessas parábolas – a Parábola dos Talentos. Parecia para mim que essa versão alternativa indicava que Jesus via prostituição como socialmente benéfica. Eu quis imediatamente adaptar essa versão da parábola. Então eu percebi como a postura de Jesus em relação a prostituição é coerente com as evidências presentes na genealogia do Mateus de que Maria havia sido uma prostituta e o livro surgiu na minha cabeça em um intervalo de poucos dias: uma sequência de adaptações bíblicas. Eu fiquei muito empolgado e foi difícil me conter.

Eu queria saber sobre a sua formação cristã. Você se lembra do momento em que a Bíblia e a Igreja Católica passaram a fazer parte da sua vida? Como você passou a se interessar por esses tópicos religiosos?

Eu fui criado como Protestante e os meus pais eram fiéis fervorosos. Em meio às minhas memórias mais antigas estão as nossas idas à igreja todo domingo. A minha mãe lia histórias da Bíblia constantemente para mim e para o meu irmão quando éramos crianças. Então o cristianismo e seus textos sempre fizeram parte da minha vida – nunca houve um ponto de partida específico.

Eu me lembro do momento em que comecei a duvidar das histórias bíblicas. Eu tinha cerca de 10 anos, talvez 12 anos, e encontrei uma cópia do livro The Passover Plot do Hugh Schonfield. Esse livro propõe que Jesus arrumou uma forma de ser drogado na cruz para que ele parecesse estar morto e evitasse morrer na crucificação. Aquela história fazia mais sentido para mim do que a história que os meus pais aparentemente acreditavam, que Jesus morreu na cruz e milagrosamente retornou dos mortos. Esse conhecimento tanto me perturbou quanto me deixou empolgado e aprofundou ainda mais o meu fascínio no Cristianismo.

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E qual é a memória mais antiga que você tem de quadrinhos na sua vida?

A minha mãe comprou para mim a edição de junho de 1966 do Batman, eu tinha 5 ou 6 anos. (Eu nasci em meio de 1960 e esses periódicos saiam antes da data indicada na capa). Eu já gostava das tirinhas publicadas em jornais, mas quando descobri que havia publicações inteiras destinadas e quadrinhos longos passei a querer ainda mais essas edições.

Como você chegou a essas histórias específicas que acabaram sendo adaptadas para confirmar a tese do livro?

Como eu expliquei, os dois pontos de partida da minha crença em relação à genealogia de Jesus estão nos indícios do Evangelho de Mateus de que Maria seria uma prostituta e nessa versão alternativa da Parábola dos Talentos. Então decidi fazer adaptações dessas histórias sobre mulheres “más” apresentadas por Mateus, assim como incluir um capítulo sobre a mãe de Jesus e adaptar essa versão alternativa da Parábola dos Talentos. Eu percebi como eram semelhantes essas versão da Parabola com a Parábola do Filho Pródigo, aí decidi adaptar essa história, já que vi como mais um argumento para a minha interpretação da postura de Jesus em relação a prostituição. Depois veio à minha mente a ideia de que Jesus foi ungido pela prostituta Maria Betânia. Como a palavra cristo significa “aquele que foi ungido”, Jesus foi feito cristão por uma prostituta – uma ideia me passou a soar muito importante em meio às outras conexões que estava fazendo. Então eu incluí um capítulo sobre a unção.

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Eu queria saber mais sobre os seus desenhos no livro. São ilustrações muito cartunescas e você sempre respeita um grid muito definido. Há alguma justificativa especial para essa estética?

Essa técnica mais cartunesca é apenas o meu estilo natural de desenho. Eu tenho pouco interesse em desenhos realísticos. Os meus quadrinistas preferidos são aqueles que desenham com esse estilo mais de cartum.

No começo dos anos 80 eu estava lendo os quadrinhos do Harold Gray pra Aninha, A Pequena Órfã e eles eram muito atraentes, mesmo que Gray fizesse uso de um gride com painéis com o mesmo formato. Naquele momento eu compreendi que mudar o tamanho do painel não fazia diferença na experiência de leitura. Às vezes, layouts ousados de painéis podem até confundir o leitor. Então passei a fazer uso desse layout fixo de painéis para os meus quadrinhos.

Fundamentalistas religiosos sempre foram um problema no mundo, mas parece que vivemos em um período em que eles estão particularmente ativos. Você vê muita discrepância entre a sua leitura de Deus e a deles?

Muito do que Jesus disse soa contraditório. O John Dominic Crossan acredita que Jesus começou como um pregador raivoso e apocalíptico (seguindo o caminho de João Batista) e, em um determinado momento, por razões desconhecidas (talvez alguma experiência de “iluminação”), ele mudou sua atitude e começou a pregar sobre um Deus amoroso e misericordioso. Essa explicação faz sentido para mim. A quais pregações cada pessoa responde depende da forma como cada um vê o mundo. Você é intolerante e julga as outras pessoas? Então o Jesus apocalíptico vai ter mais apelo para você. Você é mais aberto e aceita as outras pessoas? Então o Jesus mais espiritual e amoroso vai responder melhor para você.

Fundamentalistas não querem aceitar que as ideias de Jesus provavelmente mudaram com o passar do tempo e ficaram mais profundas. Eles tentam conciliar o irreconciliável e dão o mesmo valor a tudo que ele disse. Na minha opinião ele ficou extremamente sábio, mas ele não começou dessa forma e no começo disse algumas coisas bem estúpidas. É preciso avaliar suas palavras, assim como é preciso fazer isso com as palavras de qualquer pessoa. Acreditar que tudo que ele disse é útil é o caminho para uma estrada de erros.

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Assim como Pagando por Sexo, Maria Chorou aos Pés de Jesus foi alvo de algumas controvérsias. Qual dos dois livros você acha que gerou mais polêmica?

As críticas foram mais pesadas com o Pagando por Sexo, pelo menos nas resenhas em inglês que eu li. As pessoas constantemente interpretam esse livro como se eu estivesse advogando de forma cínica pelos direitos das prostitutas por eu estar me beneficiando como alguém que paga por sexo. Como eu fui muito sincero em relação às minhas crenças religiosas em Maria Chorou, as pessoas talvez possam achar que estou escrevendo do coração. Elas podem acreditar que as minhas interpretações sejam improváveis ou erradas, mas a minha sinceridade é mais óbvia nesse livro.

Você vê muitas semelhanças entre as críticas que recebeu por conta de cada um dos livros?

Não. As críticas foram muito diferentes para os dois livros. No Pagando por Sexo os críticos estavam na maior parte utilizando o livro como uma desculpa para expressar suas opiniões em relação a prostituição e eventualmente ignorando o que eu escrevi. No Maria Chorou os críticos ficaram mais envolvidos com as ideias que eu estava apresentando, mesmo que discordassem delas.

Há alguma outra adaptação bíblica para os quadrinhos que te influenciou de alguma forma?

A melhor adaptação em formato de quadrinhos que eu conheço é o Gênesis do Robert Crumb, um feito magnífico. Com certeza me influenciou.

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A última! Você poderia recomendar algo que está lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Uma graphic novel publicada aqui no Canadá no início do ano: The Journal of The Main Street Secret Lodge do Steven Gilbert. A princípio é só uma história simples de um bom advogado enfrentando alguns criminosos em uma cidade canadense pequena no final do século XIX, mas o Gilbert enche a história de humor e pungência como raramente se vê nos quadrinhos.

Uma coleção de tiras publicada no ano passado: Underworld – From Hoboken to Hollywod do Kaz. Diversão bem descontraída.

Eu estou esperando ansioso pelo próximo livro da Byron Katie, A Mind At Home With Itself. A Katie é a pessoa mais sábia do planeta. Se você quer aprender como viver, leia os livros dela.

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HQ

Sábado (7/10): a festa de aniversário de 5 anos do Vitralizado na Ugra em SP!

Aê! Tô avisando com antecedência pra você anotar na agenda: na próxima 3ª, dia 3/10, o Vitralizado completa 5 anos de existência e vou comemorar com uma festa na Ugra no sábado (7/10). A festa tá marcada pra começar às 16h e terá duas atrações: o quadrinista Felipe Nunes vai estar por lá autografando o décimo número da Série Postal e eu estarei distribuindo o postal comemorativo de cinco anos do blog, com arte assinada pelo mestre Shiko. Também fiz 50 pôsteres numerados com o trabalho do Shiko que só serão vendidos durante o evento. Tá lindão, viu? Leva quem chegar primeiro!

Vitralizado 5 anos: a festa! + Série Postal # 10, por Felipe Nunes
Quando: 7 de outubro (sábado), 16h
Local: Ugra Press (Rua Augusta, 1371, Loja 116, Consolação, São Paulo – SP)
Entrada gratuita

O blog Vitralizado completa cinco anos no dia 3 de outubro de 2017! O aniversário de um dos mais importantes espaços sobre quadrinhos da internet brasileira será celebrado no dia 7 de outubro, sábado, a partir das 16h, na loja da Ugra em São Paulo. A festa contará com a presença do quadrinista Felipe Nunes lançando a 10ª edição da Série Postal. Durante o evento também será lançado o postal comemorativo de aniversário do Vitralizado, assinado pelo quadrinista Shiko. As duas obras serão distribuídas de graça.

A arte de Shiko para o postal será vendida como pôster em uma tiragem numerada de 50 exemplares, disponível apenas na Ugra Press. Leva quem chegar primeiro!

VITRALIZADO: Editado pelo jornalista Ramon Vitral, o Vitralizado é um dos principais espaços sobre HQs da imprensa nacional. Desde sua criação em outubro de 2012 já publicou entrevistas e matérias com alguns dos mais celebrados quadrinistas do mundo. Nos arquivos do site constam conversas com artistas como Chris Ware, Richard McGuire, Rutu Modan, Laerte, Liniers, Chester Brown, Box Brown, Shiko, Bruno Maron, Guy Delisle e outros grandes nomes das HQs.

SÉRIE POSTAL E FELIPE NUNES: A Série Postal é a primeira empreitada impressa do Vitralizado e foi realizada com apoio do Rumos do Itaú Cultural. A 10ª edição da coleção é assinada por Felipe Nunes, autor de obras como Klaus (Balão Editorial), Dodô (Stout Club) e O Segredo da Floresta (Stout Club).

SHIKO: O quadrinista Shiko foi convidado para produzir o postal comemorativo dos cinco anos do Vitralizado. Shiko é um dos autores mais celebrados das HQs brasileiras. Dentre seus trabalhos mais conhecidos estão as aclamadas Lavagem (Mino), A Boca Quente (independente), Piteco – Ingá (Panini) e O Quinze (Ática).

HQ / Matérias

Como Falar com Garotas em Festas, Fábio Moon, Gabriel Bá, Neil Gaiman e…Laerte?

Conversei com os quadrinistas Fábio Moon e Gabriel Bá sobre Como Falar com Garotas em Festas, adaptação feita pelos dois para quadrinhos para o conto homônimo do Neil Gaiman. O nosso papo virou matéria na mais recente edição da Rolling Stone. Eles me falaram sobre as origens do projeto, o processo de transformar o texto do criador de Sandman em um roteiro de quadrinho e a belíssima arte em aquarela da HQ. Os dois autores da obra também falaram sobre o diálogo entre o enredo de Gaiman e a trama concebida pela brasileira Laerte na clássica Fadas e Bruxas. Enfim, recomendo o quadrinho e também a Rolling Stone recém-chegada às bancas. Em breve a íntegra da minha conversa com os dois quadrinistas dá as caras por aqui.

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HQ

Le Monstre: a capa da HQ de Galvão Bertazzi para o 13º Ugrito

Taí a capa do 13º número da coleção Ugrito do pessoal da Ugra Press. O gibi foi batizado de Le Monstre e é assinado pelo quadrinista Galvão Bertazzi. A obra chega em breve às lojas especializadas, com 20 páginas e custando R$ 7. Já li a HQ e tá matadora, viu? Aliás, não teve um Ugrito lançado em 2017 que não fosse excelente, né? A Cadeado do Juscelino Neco, a Culpa da Cristina Eiko e a Arracém do Diego Gerlach estão entre minhas HQs brasileiras preferidas desse ano e Le Monstre tá pau a pau com as três. Já tô ansioso pelo próximo número.

HQ

A edição especial numerada de Jerusalem de Alan Moore produzida pela editora francesa Inculte

Ó, procê colecionador: a editora francesa Inculte produziu uma edição limitada de 200 exemplares de Jerusalem do Alan Moore. O conjunto inclui um box com o rosto do autor britânico ilustrado pelo Charles Burns pra Believer, um bookplate/ex-libris autografado com o rascunho da ilustração do escritor pra capa da edição inglesa e uma bolsa também com a arte do Charles Burns. Tudo isso por 100 euros. E aí, o que acha? Vai investir? Se sim, corre lá no site da Inculte. São só 200 cópias, cara…

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Entrevistas / HQ

Papo com Jeff Lemire, o autor de Condado de Essex: “O local e a cultura em que nascemos está intensamente marcada em cada um de nós”

As 512 páginas em preto e branco de Condado de Essex chegam ao Brasil quase 10 anos após o lançamento do primeiro dos três livros que compõem o álbum de Jeff Lemire. Transformado em um dos capítulos da versão completa publicada em português, Contos da Fazenda chegou às lojas especializadas da América do Norte em 2008. Os dois livros seguintes, que fecham a trilogia e o completam a publicação da Mino, saíram até 2009. Desde então, Lemire se tornou um dos grandes nomes do mercado norte-americano de quadrinhos. Seu principal feito está em conciliar seus trabalhos autorais com obras mais comerciais produzidas para gigantes como Marvel e DC Comics sem jamais perder seu estilo pessoal.

“Eu soube desde cedo que não conseguia desenhar nada em um estilo foto-realístico e que a minha força como artista estava na minha habilidade de expressar emoções e sensações”, resume o quadrinista em relação ao ponto forte de seu trabalho. Tanto em O Soldador Subaquático quanto em Sweet Tooth, o principal mérito de Lemire está exatamente em sua capacidade de expor os sentimentos de seus personagens. Em Condado de Essex isso é explicitado na construção de personagens como o jovem Lester e os demais moradores da região, como Lou LeBeuf, Anne Quenneville e o tio Ken em tramas sobre memória, luto e família.

Bati um papo com Lemire sobre as origens de Condado de Essex e também falamos sobre a relação das pessoas com os locais em que foram criadas, o peso do escapismo nas HQs de super-heróis, o desenvolvimento do filme de O Soldador Subaquático e as mudanças no traço e no estilo de quadrinho dele ao longo dos anos. Papo massa. Ó:

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Condado de Essex chega ao Brasil quase 10 anos após a publicação do primeiro capítulo da série. A obra trata de um garoto de uma cidade fria do Canadá e também sobre hóquei. O livro não poderia ser mais distante da realidade brasileira, mas mesmo assim saiu em português. Enquanto você produzia a HQ chegou a pensar em como essa história poderia ser universal?

Eu não fazia ideia! Eu nem mesmo imaginava que chegaria a ser publicado em inglês. Honestamente, era um momento em que eu fazia quadrinhos apenas para mim. Eu estava buscando a minha voz como quadrinista naquela época. Às vezes eu penso que quanto mais específica for uma história mais universal ela pode se tornar. E essa era uma história muito específica sobre o lugar no qual eu cresci. Ao mesmo tempo, é óbvio, fico muito emocionado com o sucesso de Condado de Essex e como pessoas do mundo todo estão tendo a oportunidade de ler o quadrinho.

Ainda sobre as origens do livro, você se lembra do momento em que teve a ideia de contar essa história?

Antes de fazer o Condado eu passei quase cinco anos fazendo todos os tipo diferentes de quadrinhos, muitos deles não eram muito bons. Eu estava apenas tentandovários tipos de estilos e histórias, tentando experimentar e me encontrar como um autor.

Em algum momento eu dei um passo atrás e decidi que precisava ser mais honesto e sincero e eu precisava contar uma história. Nessa época eu já estava morando na cidade, em Toronto, por mais ou menos uma década e já conseguia olhar para o local em que cresci com certa perspectiva e aí a história começou a surgir para mim.

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Condado de Essex trata das memórias de um lugar e como as histórias desse local podem influenciar todos os seus habitantes. Você vê muito impacto dos lugares em que vivemos na definição de quem somos?

Eu acredito que eles sejam incrivelmente importantes. O local e a cultura em que nascemos está intensamente marcada em cada um de nós, mesmo que nós nos mudemos e passemos a morar em outros locais eu acredito que o local em que vivemos os nossos primeiros anos e a juventude tem um impacto imenso.

Um dos focos do livro está na relação dos personagens com hóquei. Imagino que o esporte tenha para vocês, canadenses, uma relação parecida com a nossa com o futebol. Qual importância do hóquei na sua vida? Há algum significado mais profundo nessa relação entre canadenses e hóquei no livro que talvez só seja compreensível para vocês?

Eu acho que essa é uma ótima comparação entre hóquei e futebol. É um esporte que tem um peso imenso na nossa cultura aqui. Eu cresci jogando hóquei, comecei quando tinha uns sete anos. Na verdade ainda jogo. A história do esporte era algo que me interessava muito quando escrevi o Condado de Essex. Me pareceu um ótima ideia criar um paralelo entre a história do lugar com a história do esporte e com as diferentes “famílias” que possuímos… Parentes de sangue e companheiros de equipe.

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Outro tópico importante no livro é a relação entre os personagens com super-heróis. Não quadrinhos, mas super-heróis, um conceito muito ligado à cultura norte-americana. Super-heróis foram muito importantes na sua infância?

Eles forma extremamente importantes para mim. Eles eram o meu escape e a coisa que mantinha a minha imaginação ativa quando criança. Eu cresci desenhando quadrinhos de super-heróis e copiando as ilustrações que mais gostava deles. O quadrinho que o Lester desenha em Condado de Essex era um dos meus desenhos feitos durante a infância. Eu ainda amo super-heróis e gosto de explorar diferentes aspectos deles nos meus trabalhos recentes para a Marvel e para a DC e também na minha série, Black Hammer.

Tanto em O Condado de Essex quanto em Sweet Tooth as histórias são apresentadas na maior parte do tempo a partir de perspectivas infantis. É interessante pra você colocar crianças como protagonistas?

Eu amo escrever personagens que sejam crianças. Eu acho as vozes delas muito fáceis de serem encontradas. E amo a imaginação farta que elas possuem. Eu também acho que as crianças sentem tudo de forma muito mais intensa que os adultos. Tudo tem um peso maior e mais importante quando você é criança. Eu amo investir nessas sensações de encantamento, inocência e mistério.

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O seu traço é muito particular e característico. Você vê muita mudança nele desde o lançamento de Condado de Essex? Aliás, você acha que tem um estilo de desenho? Se sim, como o define?

O meu estilo é muito particular. Eu soube desde cedo que não conseguia desenhar nada em um estilo foto-realístico e que a minha força como artista estava na minha habilidade de expressar emoções e sensações ao invés de realismo. Então eu aceitei e abracei essa ideia. Eu acho que o meu estilo evoluiu muito desde Condado de Essex. Hoje eu estou colorindo todas as minhas artes, dando um aspecto ainda mais orgânico ao meu trabalho.

É difícil para você adaptar o seu estilo entre seus trabalhos mais autorais e obras para editoras mais comerciais como Marvel e DC?

Quando eu comecei a escrever para outros artista eu lutei muito para levar o meu próprio estilo para esses trabalhos porque os meus desenhos e o meu estilo de ilustração tinham um peso grande no que eu fazia. Mas com o passar dos anos eu fui ficando cada vez melhor em me colocar no trabalho de outras formas. É claro, os trabalhos em que desenho serão sempre mais pessoais do que aqueles em que não desenho. Eu apenas entrego mais de mim quando desenho. Mas também tenho melhorado em me colocar em outros trabalhos.

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Como anda a adaptação de O Soldador Subaquático para o cinema? O roteiro já está pronto? Há algum cronograma da produção?

Não há muita coisa para contar. Hollywood tem um ritmo muito lento quando comparada com os quadrinhos. Tudo o que posso dizer a esse ponto é que o Ryan Gosling e seus sócios da Waypoint Entertainment compraram os direitos do livro e estão trabalho no desenvolvimento da adaptação.

Você está trabalhando em algum livro novo no momento? Você pode falar um pouco sobre ele?

No momento eu estou escrevendo e desenhando uma série chamada Royal City. Praticamente uma continuação de Condado de Essex em muitos aspectos. Trata de família, luto e memória.

Você pode recomendar alguma coisa que esteja lendo, ouvindo ou assistindo no momento?

No momento eu estou obcecado com os livros do Haruki Murakami e com a mais recente temporada de Twin Peaks!

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HQ

Já Era: confira a capa e uma prévia da HQ de Felipe Parucci publicada pela Lote 42

O quadrinista Felipe Parucci vai publicar seu próximo trabalho, Já Era, bancado por financiamento coletivo no Catarse, pela editora Lote 42. O álbum já está finalizado, terá 354 páginas e será lançado em dezembro, durante a Comic Con Experience em São Paulo. O quadrinho prévio de Parucci, Apocalipse, Por Favor, foi uma tremenda obra de estreia e estou ansioso em relação a Já Era.  No material de divulgação da HQ os editores classificaram o álbum como uma “dramédia psicodélica em quadrinhos”, protagonizada por uma garota “cansada de uma sociedade tomada pela ansiedade de evoluir, prosperar e lucrar”. Ó a sinopse oficial do livro e a prévia de três páginas da obra:

“Já Era conta a história de Regina, uma publicitária que trabalha muito, mas ganha pouco. Suas interações sociais são extremamente tediosas e vive em um mundo repleto de piras erradas. Cansada de seu cotidiano decepcionante e com um empurrãozinho do destino, ela vê a oportunidade de comprar um barco e sair navegando sem rumo, em busca de uma razão de existir. Entretanto, as ondas do destino acabam levando Regina para uma viagem surreal e ela encontra a oportunidade de mudar o nosso mundo. Ou só o mundo dela?”

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Sábado (30/9) é dia de lançamento da Plaf #1 em São Paulo

Ó que massa: o primeiro número da Plaf terá um evento de lançamento em São Paulo no sábado (30/9), a partir das 16h, na loja da Ugra. A festa vai contar com um bate-papo com o Paulo Floro, um dos editores da revista junto com a Carol Almeida e a Dandara Palankof. Serei o responsável por mediar essa conversa com o Paulo e vou querer saber sobre a produção desse primeiro número da Plaf, do futuro da revista e alguns pitacos dele em relação ao jornalismo especializado em quadrinhos no Brasil.

Certeza de papo bom. Tive um prazer imenso em participar da edição de estreia da revista e tô muito curioso em relação aos próximos números. E acho ótimo conversar com o Paulo sobre esse momento de agitação também nos meios de comunicação especializados em HQs por aqui. E aí, vamos? Vai ser massa, viu? Dá um pulo lá na página do evento no Facebook.

HQ

Here/Aqui: leia a versão original da obra-prima de Richard McGuire publicada nas páginas da edição de abril de 1992 da Piratas do Tietê

O quadrinista João Pinheiro acabou de prestar um imenso serviço pra quem gosta de boas HQs. Autor de títulos como Carolina, junto com a Sirlene Barbosa, e Burroughs, ele escaneou a capa, o editorial e as seis páginas do 14º número da Piratas do Tiête em que foi publicada a versão original de Here/Aqui do Richard McGuire. A revista saiu em abril de 1992 e vem com um texto da Laerte explicando a origem da pérola presente naquela edição. Ela conta não conhecer nenhum outro trabalho de McGuire, que ele é baixista da banda Liquid Liquid e que a HQ saiu num almanaque da “sofisticada e vanguárdica” RAW.

Logo depois vem um “retrato aleatório” do autor de Aqui. “Na verdade não tenho a menor ideia de como é a cara do Richard McGuire”, escreve Laerte. Reproduzo a seguir a capa, o editorial da revista e as seis páginas de Here presentes na Chiclete com Banana #14. Antes disso, registro mais uma vez um imenso obrigado ao João Pinheiro. Valeu, cara! Saca só:

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Vitralizado Recomenda #0018: Quase Um Ano (independente), por Deborah Salles

Você encontra grande parte do trabalho da quadrinista Deborah Salles no Medium. Quase Um Ano (independente) reúne trechos desse material e outros quadrinhos até então inéditos assinados por ela. O álbum recém-lançado pela autora é uma coletânea de reflexões e crônicas cotidianas sobre tópicos rotineiros – como a dificuldade de chegar a tempo para uma aula da faculdade, a escolha de um filme, encontros com amigos e reuniões familiares. O mérito maior da autora é prender a atenção do leitor com temas tão banais, criando um diálogo com obras de gigantes como Harvey Pekar e Adrian Tomine – aliás, ambos mencionados no álbum de Salles. A forma como a autora usa referências fotográficas para construir sua arte é um dos pontos altos do quadrinho, assim como os ótimos textos e diálogos verossímeis da HQ. Já estou no aguardo por outras obras da artista.


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