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Posts por data agosto 2017

HQ

Boxe: Alexandre S. Lourenço inaugura o selo La Gougoutte com HQ de 22 páginas e 368 cenas de combate entre dois boxeadores

A revista Boxe é a primeira HQ impressa do quadrinista Alexandre S. Lourenço depois da excelente Você é Um Babaca, Bernardo. A publicação também marca a estreia do selo La Gougoutte, nome do estúdio do qual Lourenço faz parte junto com Bianca Pinheiro, Yoshi Itice e Greg Stella. Segundo o autor, a ideia é que as publicações independentes do quarteto saiam sob esse selo – o segundo título, Eventos Semiapocalípticos – Eduardo e Afonso de Itice está em campanha no Catarse.

As 22 páginas de Boxe mostram um confronto de seis rounds entre dois boxeadores pelo Título Municipal de Boxe Amador de São José dos Pinhais. De um lado, Raul “Seis Cabeças” Quintino e do outro Fabrizio “Fabuloso” Figueiredo, também conhecido como “O Rei do Boqueirão”. O gibi pode ser comprado na loja online do quadrinista.

No ano passado, em Você é Um Babaca, Bernardo, Lourenço surpreendeu seus leitores com as encantadoras 12 primeiras páginas da obra – compostas de quadros aparentemente autônomos, conectados apenas pela passagem do tempo na vida do protagonista. Em seu novo título, o autor volta a surpreender nas mesmas 12 primeiras páginas. Com exceção de suas últimas 10 páginas, Boxe é focado exclusivamente no confronto entre Quintino e Figueiredo.

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“Eu queria fazer um quadrinho curto e de forma independente, pra meio que entender como funciona”, conta o autor em relação à origem de seu novo projeto. “A história veio de um rascunho sem pretensão, desenhei um boxeador, depois o outro e gostei. A ideia inicial era fazer um quadrinho só com a luta. Uns 12 rounds e pronto. Aí fui desenvolvendo e terminou do jeito que tá”, diz.

Entre o “ding” do primeiro gongo e o juiz dar a luta por encerrada, Seis Cabeças e Fabuloso compartilham 368 cenas de trocação de golpes desenhados por Lourenço. Nenhum movimento dos lutadores se repete e o confronto ganha contornos dramáticos a partir de seu terceiro round. No entanto, encerrada a luta, o quadrinho ganha outro tom, ainda mais emocionante que o combate entre os boxeadores.

Lourenço é um dos meus quadrinistas preferidos. Tanto a temática quanto o projeto gráfico de Boxe são completamente distintos de Você é um Babaca, Bernardo. São menos páginas e o acabamento da obra é propositalmente mais simples e menos luxuoso. Ainda assim, é mais uma pérola do autor. Não deixe passar.

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HQ

Sábado (2/9) é dia de lançamento da revista Plaf #1 na EV Store de Recife

Sábado (2/9) é dia de lançamento do primeiro número da Plaf em Recife. A festa rola na EV Store (Rua Conselheiro Portela, 417, Espinheiro) a partir das 15h e você confere todas as instruções de como chegar ao evento na página do lançamento no Facebook. A revista estará sendo vendida por R$15 e a promessa é de boa música e a companhia dos editores da publicação e anfitriões da festa – Carol Almeida, Dandara Palankof e Paulo Floro.

Já leu a primeira edição da revista? O que achou? Confesso que tô aqui já no aguardo do segundo número, mas por enquanto acho que vale parabenizar os três idealizadores do projeto e comemorar. É uma edição histórica e fico muito feliz de fazer parte disso com uma matéria. Vida longa à Plaf! Aproveito a deixa pra listar os lugares em que a Plaf tá a venda. Além da loja online da própria revista, você também pode comprar esse primeiro número em Recife, João Pessoa, São Paulo e Curitiba. Ó:

RECIFE:
Fênix Geek House
Rua Conselheiro Portela 665 – Espinheiro
Tel: (81) 3268-2536

Banca Guararapes
Av. Guararapes 223 – Centro
Tel: (81) 3224-5842

Bogart Café
R. Afonso Pena 96 – Santo Amaro
Tel:: (81) 3040-2243

EV Store
Rua Conselheiro Portela 417 – Espinheiro
Tel: (81) 3204-0973

JOÃO PESSOA
Comic House

Av. Nego 255 – Tambaú
Tel: (83) 3227-0656

SÃO PAULO
Ugra Press

Rua Augusta 1371 – Loja 116
Tel: (11) 3589-5459

Gibiteria
Praça Benedito Calixto 158 – 1o Andar – Pinheiros
Tel: (11) 3167-4838

CURITIBA
Itiban Comic Shop
Avenida Silva Jardim 845
Tel: (41) 3232-5367

 

Cinema

Little White Lies #71: Call Me by Your Name

Demorou, mas taí a capa da 71ª edição da Little White Lies, minha revista favorita de cinema. O filme em destaque dessa vez é o drama Call Me by Your Name, ainda sem título em português, mas previsto pra chegar por aqui no dia 18 de janeiro de 2018. O longa é dirigido pelo cineasta italiano Luca Guadagnino. Segundo o Imdb, o filme é ambientado em 1983 e conta o romance entre um jovem italiano e um estudante norte-americano enviado para fazer intercâmbio na Itália. Ó o trailer:

HQ

Vitralizado Recomenda #0016: Moby Dick (Pipoca & Nanquim), por Chabouté e Herman Melville

Eu nunca li o Moby Dick original de Herman Melville. Sabia da história sobre a caça à baleia branca e confesso o meu preconceito em relação a um enredo tratando de um grupo de pescadores caçando uma das criaturas mais bonitas da natureza. O Moby Dick (Pipoca e Nanquim) do quadrinista francês Chabouté tirou muito dessa minha cisma com a história. A trama trata exatamente de um grupo de ignorantes fadados à perdição por seguirem à risca as ordens de um capitão obcecado com um animal. O preto e branco de Chabouté é impressionante e acentua ainda mais o drama da tripulação do navio The Pequod. As proporções grandiosas do álbum e o formato luxuoso da publicação são coerentes com o tom épico da história. É mais um acerto da Pipoca & Nanquim e torço para que abra as portas para a chegada de outros trabalhos de Chabouté em português.

HQ

Papo com Richard McGuire, o autor de Aqui: “Eu sempre penso na possibilidade de que todas as coisas estejam acontecendo ao mesmo tempo, que o tempo é apenas uma ilusão”

Ficarei muito surpreso caso saia um quadrinho maior do que Aqui no Brasil em 2017. Maior em termos de qualidade, beleza, singularidade, ousadia e experimentação. O trabalho de Richard McGuire ganha edição em português três anos após seu lançamento nos Estados Unidos e 25 anos após a publicação da HQ do próprio McGuire que o inspirou a produzir a obra recém-publicada pela Companhia das Letras. Entrevistei o autor e transformei a nossa conversa em matéria para o UOL.

Recomendo uma lida no quadrinho, nos textos do Érico Assis sobre o livro lá no Blog da Companhia das Letras, na resenha da HQ no Guardian assinada pelo Chris Ware, depois no meu texto pro UOL e em seguida volta pra cá e leia a íntegra da minha conversa com o quadrinista. O que McGuire faz em Aqui é mágico. É a linguagem dos quadrinhos em seu estado mais elevado. Segue a entrevista:

“O ritmo do livro foi cuidadosamente concebido, mas a natureza não-linear da história convida o leitor a passear pelo livro, não é necessário uma leitura de página a página”

A primeira edição de Aqui foi publicada em 1989 em uma edição da Raw. Você lembra do momento em que teve a ideia de criar esse projeto e de explorar as ideias que gostaria nessa HQ?

Foram algumas etapas. Eu tinha acabado de me mudar para um apartamento, isso em 1988, e estava pensando em quem havia morado lá antes de mim. Eu tive a ideia de fazer um quadrinho que ficava indo e voltando no tempo. Eu escolhi o canto de uma sala porque poderia funcionar como uma tela dividida, como você vê de vez quando em filmes, de forma que o lado esquerdo fosse para frente e o lado direito para trás. Fiz alguns esboços simples. Depois um amigo me visitou e contou do computador dele com esse programa chamado Windows, foi quando ficou claro que eu poderia usar essa estrutura de janelas para mostrar múltiplas perspectivas do tempo simultaneamente.

Eu queria saber como foi a produção dessa versão expandida do livro. Você trabalhou com um roteiro? Eu li que você fez algumas pesquisas para recriar algumas características relacionadas ao passado do local no qual a casa está instalada, certo?

Demorou um tempinho para que eu descobrisse como expandir essa história de seis páginas para um livro. Na primeira versão não era um local real, depois eu decidi ambientar o livro na casa em que eu cresci. Eu estava resistindo à ideia de fazer algo autobiográfico, porque eu não queria que fosse um livro sobre mim. Mas eventualmente eu concluí que a minha família precisava ser o coração do livro. Esse lugar fica em New Jersey, a 45 minutos de Manhattan. Eu comecei fazendo pesquisas nessa área. Eu pesquisei sobre as tribos nativo-americanas que viveram lá por milhares de anos, sobre os dinossauros que viveram lá antes deles, os movimentos glaciais anteriores a isso e sobre a formação do planeta. Eu reuni todas formas de imagens e também busquei muita coisa nos meus álbuns de família. Eu tinha cadernos repletos de informações e historinhas engraçadas que queria incluir. Eu fiz uma linha do tempo em um rolo de papel e pendurei nas paredes do meu estúdio. Eu comecei a acrescentar notas e datas. Eu fiz pesquisas sobre o futuro, li sobre as mudanças climáticas e robôs, tudo e qualquer coisa que acreditava ser relevante. Era como um grande quebra-cabeças. No começo eu pensei que deveria ser focado em alguns personagens e cheguei a escrever diálogos, mas logo percebi como aquilo estava ficando diferente do original, o diálogo estava tornando tudo mais lento. Precisava ser movimento, porque era exatamente sobre isso, passagem do tempo, não era sobre personagens e diálogos. O próprio tempo era o protagonista e eu queria ele em ação como um rio revolto.

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As cores têm um papel muito importante em Here. Como você chegou nas paletas de cada período em que estava retratando?

Enquanto eu reunia as imagens comecei a apreciar as paletas de fotografias desbotadas, a química era diferente em cada período, então elas envelhecem de forma distinta. Eu comecei a usar essas paletas de cores como um sistema de codificação para a passagem do tempo, mas eventualmente eu desisti dessa ideia por ela ter acabado se tornando limitante. Eu tomei consciência que dependendo do momento do dia e do clima mesmo um quarto branco poderia mudar para todos os tipos de cores. A medida que o projeto continuava e os meus prazos ficavam cada vez mais curtos eu busquei ajuda de algumas pessoas. Eu tive muita sorte de conhecer a Maelle Doliveux, uma ilustradora muito talentosa, também cartunista e criadora de fantoches. Ela me ajudou muito com sugestões de ideias para as cores.

Eu li uma entrevista na qual você fala sobre a influência do Art Spiegelman no seu trabalho. Ele tem essa definição de quadrinho como tempo no espaço. Quando eu li Aqui pela primeira vez eu lembrei não apenas desse conceito, mas também de uma fala da Susan Sontag na qual ela diz que “o tempo existe para impedir que tudo não aconteça ao mesmo tempo…e o espaço existe para que tudo não aconteça com você”. Explorar essa relação entre tempo e espaço era um objetivo seu em Aqui?

Se não fosse pelo Art eu não teria feito quadrinhos. Eu era um fã da revista RAW, fui a uma palestra que ele deu sobre a história dos quadrinhos e foi isso que me fez tentar fazer alguma coisa. Nesse evento o Art falou que quadrinhos são essencialmente ‘diagramas narrativos’ e foi essa ideia que me fez pensar. Eu amo essa fala da Sontag. Eu sempre penso na possibilidade de que todas as coisas estejam acontecendo ao mesmo tempo, que o tempo é apenas uma ilusão. Que o tempo como dimensão é como uma luz refratada, apenas uma forma fragmentada de ver os acontecimentos.

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Você alterna no Aqui algumas páginas muito simples com outras repletas de informações. Algo muito particular do livro é como ele intercala vários ritmos distintos. Era importante para você que essa transformação constante do ambiente determinasse um ritmo de leitura inconstante pro leitor?

Essa composição foi deliberada, para mim o ritmo tem papel semelhante ao de uma trilha sonora. As páginas iniciais são muito vazias e a ação é apresentada de forma muito lenta, com a inclusão de alguns poucos painéis. Ganha velocidade a cada página, com alguns Crescendos e algumas pausas. O texto pode ser lido como um poema, tudo como apenas uma voz mesmo que venham de várias pessoas. O ritmo do livro foi cuidadosamente concebido, mas a natureza não-linear da história convida o leitor a passear pelo livro, não é necessário uma leitura de página a página.

Você tinha como objetivo com o livro propor uma reflexão pro leitor em relação a o que é possível se fazer com a linguagem das histórias em quadrinhos? Era importante pra você oferecer ao leitor uma nova perspectiva do que pode ser compreendido como uma HQ?

A graça da leitura é ver como as coisas se relacionam e fazer conexões à medida que a leitura avança, na esperança de que seja revelado cada vez mais a cada releitura. Na versão eletrônica do livro é possível escolher por um modo randômico, os painéis e os cenários se misturam e as novas combinações sugerem novas conexões e acabo ainda sendo surpreendido. Eu acrescentei algumas animações que são programadas para ocorrer ocasionalmente porque achava que seria divertido algo que parecesse estar ocorrendo em ‘tempo real’, mas sempre estive consciente de que não era um filme, não há efeitos sonoros ou música, eu tentei manter ao máximo como uma experiência de leitura. Eu amo livros e não tenho preferência pela versão no papel ao invés da eletrônica. O livro é um meio perfeito, ele não requer nenhuma outra fonte de energia além do seu cérebro.

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Alguns momentos de Aqui me soam como um sonho. Não um sonho que eu tive, mas como a minha mente funciona quando estou sonhando. Isso faz sentido pra você?

Eu entendo essa conexão com o estado de sonho, mas a nossa consciência diária quando estamos acordados não é muito diferente. Nós estamos sempre nos adiantando em nossos pensamentos, constantemente fazendo associações com memórias, um relance da infância, a lembrança de uma conversa ou de algo que você leu, ou uma cena de um filme. Os nossos sentidos são inundados com tantas informações que construímos constantemente o nosso mundo a partir de milhões de fragmentos.

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Qual a memória mais antiga que você tem de quadrinhos na sua vida?

Eu tinha dois irmãos mais velhos que liam quadrinhos de super-heróis, mas eu nunca fui muito interessado. Eu gostava do Peanuts do Charles Schulz. Eu lia as tiras diárias e colecionava as coletâneas, era imensamente popular na época. Eu gostava de Nancy do Ernie Bushmiller, o design era tão simples e forte. Eu lembro de cortar e guardar as edições. Eu também lembro de cortar os painéis e rearranjá-los criando as minhas próprias histórias. Eu lembro de comprar um livro muito grande do Krazy Kat do George Herriman na loja de um museu quando tinha cerca de 11 anos. Eu fiquei totalmente abalado por ele, era um dos meus livros favoritos e ainda é um dos meus quadrinhos favoritos de todos os tempos.

Além de quadrinista você também é músico e tem experiência em diferentes campos de atuação. Como você se define profissionalmente?

Eu penso em mim como um artista e me sinto muito confortável sendo multidisciplinar. Cada meio tem as suas potencialidades e eu não tenho preferências, eu amo fazer livros, filmes, objetos ou explorar novos meios. Eu tenho estado em meio a conversas sobre a possibilidade de uma versão em realidade virtual de Aqui, o conceito do livro parece ser perfeito para isso. Eu amo o que pode ser feito em colaboração com outros artistas, eu acho que isso é natural para mim por causa da minha experiência como músico. Levei toda uma vida de experimentações para chegar nesse ponto.

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HQ

Sábado (2/9), às 16h: uma palestra sobre os 60 anos de O Eternauta e o legado de Héctor Germán Oesterheld

O clássico O Eternauta dos argentinos Héctor Germán Oesterheld e Francisco Solano López completa 60 anos em 2017. As seis décadas de existência do personagem serão celebradas no próximo sábado (2/9) em uma palestra do professor argentino Miguel Angel Foncueva, radicado no Brasil e organizador da exposição HGO + Eternauta, que passou por mais de 10 cidades argentinas. Vi fotos de alguns dos materiais de Foncueva relacionados à obra de Oesterheld e é realmente impressionante a diversidade do conteúdo que ele possui sobre a criação máxima do quadrinista. Essa é imperdível mesmo, viu? Ó o sinopse que consta lá na página do evento no Facebook:

Palestra gratuita: 60 anos de Eternauta

Neste bate-papo com o professor argentino Miguel Angel Foncueva, serão abordados diversos aspectos da trajetória de Oesterheld, incluindo seu primeiro conto publicado, seus pseudônimos e as mensagens subjacentes em sua obra.

Foncueva também apontará as diferenças entre os comics americanos e a Escola Argentina de Historieta, considerando personagens de Oesterheld, como Gatito, Sargento Kirk, Ticonderoga, Ernie Pike e Bull Rocket.

Sobre o palestrante:

Miguel Angel Foncueva é Mestre em Cultura Argentina pelo INAP (Instituto Nacional de la Administración Pública) e professor de restauração de obras artísticas.

Foi idealizador e curador de diversas exposições, incluindo HGO + Eternauta, que circulou por mais de 10 cidades argentinas, e “Literatura Desenhada”, em homenagem ao desenhista Alberto Breccia.
Coordenou 7 edições do concurso “Historieta Argentina” e é o responsável pelo projeto para instituir o dia 4 de setembro (data da primeira publicação do Eternauta) o Dia da Historieta Nacional.

HQ

Uma conversa sobre Laika, corrida espacial e HQs na Ugra Press. Assista!

O Carlos Neto do Papo Zine gravou a conversa do último sábado lá na Ugra Press sobre Laika, HQ de autoria do quadrinista britânico Nick Abadzis recém-lançada pela Barricada, selo de quadrinhos da Boitempo Editorial. Eu mediei o papo com a presença da jornalista Cláudia Fusco, do físico Oton Cabo Winter e do historiador Gilberto Maringoni. O debate rendeu bastante, falamos sobre a história da Laika, do início da corrida espacial entre EUA e União Soviética e dos principais méritos do trabalho de Abadzis. Depois desse papo, o quadrinho ficou ainda mais interessante para mim. Dá o play:

Entrevistas / HQ

Papo com Derf Backderf, o autor de Meu Amigo Dahmer: “O que me fascinava era a espiral descendente. Por que e como ele se torna um monstro”

O quadrinista Derf Backderf é honesto e impiedoso ao narrar a história de sua amizade com o serial killer Jeffrey Dahmer nas 288 páginas em preto e branco do excelente Meu Amigo Dahmer. O álbum marca a estreia do selo de quadrinhos da editora Darkside Books e constará em várias listas de melhores HQs publicadas no Brasil em 2017. Eu conversei com o autor do quadrinho e escrevi sobre a obra pra edição de agosto da revista Rolling Stone.

“Assim que o Jeff começa a matar, ele se torna apenas mais um fanático sem graça para mim e eu perco todo o interesse”, me disse Backderf. O quadrinista trabalhou como consultor na aguardada e já elogiada adaptação de seu trabalho para o cinema, dirigida por Marc Myers e ainda sem previsão de estreia por aqui. Conversamos sobre seus métodos para a produção do gibi, seu relacionamento com Dahmer e seu envolvimento na versão para o cinema. Recomendo uma lida na minha matéria pra Rolling Stone e logo em seguida a íntegra da entrevista. Ó ela aqui:

“Todo mundo fracassa: os pais dele, os professores, a direção da escola, os policiais, os amigos dele e o próprio Jeff”

Meu Amigo Dahmer está saindo no Brasil cinco anos após ser publicados nos Estados Unidos. O livro conta a história de um serial killer, é protagonizado por um garoto de uma cidade pequena e muito fria de Ohio. A atmosfera do livro não poderia ser mais diferente da realidade brasileira, mas o livro está sendo lançado aqui e já saiu em outros países. Enquanto você produzia Meu Amigo Dahmer tinha em mente como essa história poderia ser tão universal? 

Para ser mais preciso, ele foi publicado em nove línguas. Sim, isso foi uma imensa surpresa. Eu sabia que o livro seria um sucesso nos Estados Unidos, mas não tinha ideia que seria tão popular em tantos países.

Em todos os livros que escrevo eu busco por personagens e temas que tenham algum tipo de apelo universal, algo com que o leitor possa se relacionar. No caso de Meu Amigo Dahmer é esse garoto estranho e deslocado e como ele é tratado pelos adultos e pelas outras crianças. Eu ouço o tempo todo dos leitores, ‘Wow, eu conheci um garoto IGUAL ao Jeff quando estava no Ensino Médio’. Então mesmo alguém tão bizarro como o Dahmer se torna uma pessoa com quem um leitor pode se identificar. Acho que esse é o cerne do livro.

O foco do livro está no Dahmer e no contexto em que ele vivia. Você não parece fascinado pelos crimes cometidos por ele ou por suas ações como serial killer. Ao mesmo tempo, as pessoas são fascinadas por morte, crimes e criminosos. Qual você acredita ser a razão do fascínio por esses temas?

Eu não faço ideia! Eu não entendo especialmente fãs de serial killers, mas há VÁRIOS deles por aí. Eu suspeito que seja apenas um conceito abstrato para eles, como zumbis ou vampiros. Para mim, no entanto, é tudo muito real.

Assim que o Jeff começa a matar ele se torna apenas mais um fanático sem graça para mim e eu perco todo o meu interesse nele. O que me fascinava era a espiral descendente. Por que e como ele se torna um monstro. Eu realmente continuo sem saber o motivo dele se tornar esse monstro, mas eu documentei o processo.

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No making-of do livro há essa cena extra em que você registra a sua reação ao ser informado dos crimes do Dahmer. Imagino a surpresa que você e seus amigos tiveram, mas o livro trata da sua relação com o Dahmer. Durante as suas pesquisas, houve alguma memória ou fato em particular que também te surpreendeu?

Eu fiquei surpreso como eu e meu amigo estávamos próximos daquele primeiro assassinato. Em determinado momento estávamos apenas alguns metros de distância. Isso foi um choque. Eu perdi algumas noites de sono quando conclui isso. Eu também fiquei surpreso em relação a como eram poucas as interações do Jeff com os meus colegas de sala. Eu entrevistei provavelmente 50 pessoas e a resposta mais comum foi “eu nunca falei com ele”. Nenhuma interação e algumas dessas pessoas foram pra escola com ele durante 10 anos! Isso explicitou como ele era isolado. Eu e os meus amigos eramos a única conexão social que ele tinha.

O que mais me assusta no livro é como os problemas dele pareciam explícitos e ninguém faz nada para ajudar de alguma forma. É inútil pensar “o que poderia ter acontecido se…”, mas você já pensou no que deu errado? Não me refiro apenas a você e a todos vocês ao redor do Dahmer, mas em relação à sociedade?

Com certeza. Meu Amigo Dahmer é uma história de fracassos. TODO mundo fracassa: os pais dele, os professores, os administradores da escola, os policiais, os amigos dele e o próprio Jeff, que fracassa da forma mais espetacular que alguém pode fracassar.

Como pessoas como o Jeff sempre aparecem na América de tempos em tempos, sejam serial killers ou atiradores, eu diria que não aprendemos nada ao longo dos últimos 40 anos. No caso do Dahmer, eu acredito que ele poderia ter sido controlado caso pelo menos um adulto tivesse notado alguma coisa e conseguido ajuda. Ele jamais teria sido ‘normal’. Talvez ele tivesse acabado dopado de medicamentos ou em um sanatório para o resto da vida. É um destino que ele teria escolhido com prazer e 17 pessoas não teriam sido assassinadas de maneira brutal. Essas são coisas que vale a pena conversar sobre e refletir a respeito.

“Desde o começo eu sentia que precisava escrever essa história com uma honestidade brutal”

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A maior parte do livro é ambientada dentro da sua escola. É um lugar com muita gente, muitos grupos, muitos bullies e muitas vítimas de bullying. Apesar de você deixar claro os motivos que fizeram do período retratado no livro uma exceção em termos de quantidade de alunos, não sei se é tão diferente assim da maior parte das escolas públicas dos dias de hoje. Você ainda vê o sistema educacional muito problemático no nosso presente?

Era uma escola de cidade pequena. Não acho que recebi uma educação muito boa lá, mas também não foi uma educação ruim. Lembre-se que estamos falando de 45 anos atrás, então muita coisa mudou. No geral, eu diria que os americanos hoje são ainda menos educados. Isso é bem óbvio.

Algo singular de Meu Amigo Dahmer é que todo mundo sabe como termina a jornada do protagonista. O seu principal trabalho era de desconstruir o Dahmer. Foi difícil pra você não cair em possíveis armadilhas maniqueístas em relação à personalidade do Dahmer?

É verdade, todo mundo sabe como a história acaba. Mas Meu Amigo Dahmer é uma história surpreendente porque nunca chegamos nesse final. A história para no dia que ele mata sua primeira vítima. Quando os leitores chegam naquela última página eles descobrem que leram uma história muito diferente daquela que achavam que iriam ler. Esse era o objetivo. Eu gosto de surpreender as pessoas. Não é uma luta do bem contra o mal. É a luta do Dahmer tentando desesperadamente se prender à sua humanidade contra uma loucura crescente.

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É impressionante como você é impiedoso com você e seus amigos ao retratar a relação de vocês com o Dahmer. Como todo mundo no livro, vocês também fracassaram em perceber como era problemática a vida dele e como ele precisava de ajuda. Foi difícil se colocar nessa posição?

Na verdade não. Desde o começo eu sentia que precisava escrever essa história com uma honestidade brutal. Eu e os meus amigos com certeza não éramos heróis, mas não conheço muitas pessoas de 17 anos que sejam. Éramos apenas garotos ingênuos de uma cidade pequena. Todo nós temos arrependimentos, claro. SE soubéssemos o que realmente acontecia na cabeça do Jeff e toda a carnificina que estava para acontecer, é claro que teríamos agido. Mas não sabíamos, então há arrependimento, mas não há culpa. A pergunta que sempre faço é: onde estavam os adultos?

Como você definiu a estética do livro? Li alguns dos seus outros trabalhos e Meu Amigo Dahmer parece de alguma forma mais limpo e objetivo, com pouco espaço para liberdades criativas, sendo tudo mais focado no storytelling. Foi difícil pra você chegar nesse formato?

Eu levei 18 anos para acabar o livro, então diria que sim, foi difícil! Eu comecei a fazer livros muito tarde na minha carreira. Eu tinha 50 anos quando concluí o meu primeiro. Antes disso eu tinha feito uma série de tiras e cartoons políticos, que exigem habilidades muito diferentes. Demorei um pouco para aprender como fazer histórias longas e desenvolver as habilidades necessárias de desenho.

Como foi seu envolvimento na produção do filme? Você já assistiu?

Eu tive pouco envolvimento. Eu escolhi o diretor e servi como um consultor, foi só isso. Inclui alguns detalhes no roteiro. O filme é muito bom. As performances, especialmente a do Ross Lynch como Jeff, são maravilhosas. Eu diria que cerca de 80% do filme vem diretamente do livro. É uma adaptação muito fiel e, obviamente, esse era o combinado. Caso não fosse assim eu não teria concordado em fazer. Está recebendo ótimas resenhas em festivais de cinema pelo mundo e será lançado nos Estados Unidos no outono e acredito que logo depois em outros países.

Você está trabalhando em algo novo?

Estou sempre trabalhando em um livro novo! Na verdade já publiquei dois livros depois de Meu Amigo Dahmer. O meu trabalho mais recente foi Trashed, lançado em 2015, vencedor do Prêmio Eisner e nomeado Livro do Ano pelo Partido Verde da França. É uma comédia maluca sobre um lixeiro que também mostra a realidade chocante da quantidade insana de lixo que nós humanos produzimos e o que ele se torna. É uma ficção, mas inspirado nas minhas próprias experiências como lixeiro na minha cidade natal com um pouco de jornalismo em quadrinhos. No momento estou terminando um livro sobre estar na estrada…com os Ramones!

A última! Você pode recomendar alguma coisa que está lendo, assistindo ou escutando no momento?

Ih cara, há TANTOS quadrinhos bons sendo lançados! Estamos em uma era de ouro dos quadrinhos, tirando essa besteira chata mainstream de super-heróis, óbvio. Essa semana eu li a linha All-Time Comics do Josh Bayer pela Fantagraphics. Gostei muito. O Kevin Huizenga lançou a última edição de Ganges, uma série incrível. E o Hamid Sulaiman finalmente me enviou uma cópia em inglês de Freedom Hospital. Um sucesso na França.

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HQ

A cocoon over there!, por Liniers

O quadrinista argentino Liniers produziu uma HQ pra edição de hoje do New York Times. O quarinho é assinado por ele e por sua filha do meio, Clementina Siri, ganhou o título A cocoon over there! e narra uma conversa entre o autor e a garotinha sobre o primeiro ano dela em uma escola os Estados Unidos. Linda a HQ. Aliás, são sempre muito bonitos os trabalhos do Liniers protagonizados pelas filhas dele. Acho Los sábados son como un gran globo rojo uma das grandes obras dele e uma pena que ainda não tenha saído em português.

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Suspensão de Bom Senso: estão abertas as inscrições para a oficina de quadrinhos de humor com Ricardo Coimbra e Bruno Maron na Laje

Dois dos meus quadrinistas preferidos vão dar uma oficina sobre HQs de humor na Laje aqui em São Paulo no próximo mês. As inscrições pro curso Suspensão de Bom Senso do Ricardo Coimbra e o Bruno Maron estão abertas lá na página da Laje. O evento rola nos dias 16 e 17 de setembro, das 14h às 19h. A matrícula custa R$380. Segundo os organizadores da oficina, não é necessário “saber” (aspas deles) desenhar, apenas ter vontade de desenhar e escrever besteira. Recomendo um pulo na página do curso no Facebook. Ó a sinopse das aulas:

“Trabalhando e entendendo o humor nessa era surreal que vivemos. Curso teórico e prático com dois gênios do humor contemporâneo: Ricardo Coimbra e Bruno Maron, que se realizará em um final de semana:

– O riso segundo Bergson
– Moral x Ética
– Millôr e o anticlímax intelectual
– Exibição da realidade confundida com endosso
– O riso na era da hipersensibilidade progressista
– George Carlin e o registro do inconfessável”


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