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Posts por data outubro 2016

HQ

Falsificartoon: o Inktober do Elcerdo

Tenho acompanhado pelo Instagram algumas séries produzidas por quadrinistas para o Inktober. As atualizações que tenho mais aguardado e me divertido são as produzidas pelo Elcerdo e batizadas de Falsificartoon. Ele teve uma sacada bem boa de criar amálgamas entre personagens de quadrinhos, desenhos animados e filmes. Nessa brincadeira já surgiram pérolas como Sidshow Bob Cuspe (Sidshow Bob + Bob Cuspe), Zé Carinhoso (Zé Colmeia + Ursinhos Carinhosos) e Hagelix (Hagar + Obelix).

Você provavelmente já esbarrou com outras investidas do tipo pela internet, mas a execução do quadrinista e editor da Beleléu tá bem foda. Pedi pra ele me mandar aqui pro blog alguns de seus preferidos e enviei algumas perguntas pra ele sobre as origens da série e dicas de outros Inktobers que ele esteja acompanhando. Ó:

Brutos + Capitão Haddock = Brudock

Brutos + Capitão Haddock = Brudock

Como surgiu a ideia dos Falsificartoons?

Em julho eu comecei uma série chamada ‘Cadê seu zine?’ com idéia de que virasse um zine depois. Eram personagens da cultura pop, desenhos, quadrinhos e filmes, dando desculpas do porque não fizeram seu zine. Foi uma série boa de fazer, era super rápida, quase um rascunho, mas já com um traço que muito me agrada. É um pouco da mesma estrutura do ‘Falsificartoon’, dos desenhos de personagens, meio no meu estilo. Mas depois disso, entrei numa fase fissurado por Bootleg Toys, que são versões piratas de toys conhecidos, produzidos em baixas tiragem ou até mesmo como peças únicas. Alguns um pouco mais toscos, com pegadas cômicas, e outros levados bem a sério, com cartelas/embalagens com belos designs. As bancas de jornais aqui perto de casa, possuem uma variedade de bonecos chineses, versões falsificadas, e sempre me divirto quando passo por elas. Uma vez comprei um para presentear o Gabriel Góes (quadrinista). Era um boneco do Hulk, mas pintado como se fosse o Capitão América. Os pés descalços eram pintados de vermelho, simulado a bota. E o escudo, era simplesmente um papel redondo, pintado com a estrela. É um universo louco. Tem umas versões do super-homem com metralhadoras. Acabei entrando nessa nóia.

Cheguei a postar alguns sketches bobos no instagram, antes da fase inktober [as últimas quatro imagens do post] E seguem um pouco desta proposta.

Além disso, estou numa fase meio preguiçosa de desenhos super bem acabados, realistas e tal. Tentando fugir um pouco disso, buscando uma síntese, mas que seja algo natural. E fazer estas versões piratas/falsificadas, seria um bom exercício para trabalhar elementos dos personagens, mas de uma forma mais despretensiosa. Estava buscando minhas maiores referências de traço, dos tradicionais cartunistas de caneta pena e nanquim, como Ronald Searle, Jack Davis, Sempé, Quentin Blake e alguns mais atuais como Richard Thompson e John Cuneo. Eu tenho esta preocupação com o desenho, em dar aos personagens e as linhas de desenho alguma vida. Gosto destas linhas tremidas, soltas, falhadas, incompletas. O bom e velho “menos é mais”.

Popeye + Tintin = Popin

Popeye + Tintin = Popin

Você teve algum preferido até o momento? Chegou a pensar alguma trama protagonizada por algum deles?

Acho que os dois primeiros, são os que mais gosto. E parece que casaram muito bem os dois personagens de cada um. O Brutus com o Capitão Haddock, e o Tintin com o Popeye. Ah, tem o Bob Cuspe com o Sideshow Bob, também curti o resultado. E posso dizer que o que eu menos curti até agora foi o Haroldo com o Manda Chuva. Acho que deveria ter feito mais toscão.

Eu fiquei imaginando umas tiras da versão do Ren com o Snoopy, e do Garfield com o Stimpy. Cheguei a anotar algumas idéias e talvez faça algumas. Usando umas tiras mais antigas, substituindo apenas os personagens por minhas versões, trazendo um pouco daquela tosquice do Ren and Stimpy ao universo do Garfield e Snoopy. Vamos ver se consigo.

Zé Colméia + Ursinhos Carinhosos = Zé Carinhoso

Zé Colméia + Ursinhos Carinhosos = Zé Carinhoso

Você recomenda algum perfil de artista que esteja participando do inktober? Algum específico que tenha chamado sua atenção?

Sou muito fã do Caio Gomez, e acho que ano passado ele conseguiu fazer o melhor inktober de 2015, o Mini-infartos. Que inclusive publicamos há poucos meses pela Beleléu (minha editora de quadrinhos). Gomez conseguiu colocar um ritmo no inktober que estava precisando. Era muita punhetagem de artistas tentando mostrar que sabiam usar nanquim, mas faltava algum conceito.

Não vejo muitos trabalhos do inktober neste caminho. Acho as piadinhas fundamentais, tem que contar algo, sabe? Te fazer querer ver o próximo. Tu acha que o cara nao vai ter mais idéias, que devem ter esgotado ali no dia 15 de outubro, mas a cada dia, vem uma surpresa nova. E este ano Gomez continuou com esta pegada. Então recomendo muito.

Tem o pessoal do Sapo Lendário (uma dupla), que está com um desenho bem bonito. Tem alguma influência japonesa e européia no traço deles. Não sei bem como fazem a divisão, mas uma hora puxo uma conversa com eles, para saber mais. Internet é assim né? Sempre descobrindo e conhecendo novos artistas.

Tem o meu camarada Bernardo França fazendo uma versão Samba All Stars, com as personalidades do samba, e — puta que pariu — o França tem um estilão de desenho animal, o cara é estudioso e não brinca em serviço. Talvez posso ousar em dizer aqui que considero ele um dos melhores ilustradores desta minha geração. E tem um louco, o Fernando Finamore, fazendo uma versão “roubada” mas muito massa. O inktober dele são GIFs animados, humilhação. E acrescentaria ainda o inktober da Celia Marquis, é bem legal o trampo dela

Mas vou te dizer, no geral, neste inktober tenho visto muita merda também.

Babar + Jotalhão = Babalhão

Babar + Jotalhão = Babalhão

Brutos + Capitão Haddock + Allan Sieber = Brudock Sieber

Brutos + Capitão Haddock + Allan Sieber = Brudock Sieber

Mickey + Pooh = Mickey Pooh

Mickey + Pooh = Mickey Pooh

Stimpy + Garfield = Stimfield

Stimpy + Garfield = Stimfield

Renpy Ren + Snoopy = Renpy

Renpy Ren + Snoopy = Renpy

Bob Cuspe + Sideshow Bob = Sideshow Bob Cuspe

Bob Cuspe + Sideshow Bob = Sideshow Bob Cuspe

Hagar + Obelix = Hagelix

Hagar + Obelix = Hagelix

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Cinema / HQ

Forrest Gump, por Rafael Coutinho

A Aleph vai publicar uma edição celebrando os 30 anos do lançamento do livro Forrest Gump do Winston Groom – que em 94 virou o filme do Robert Zemeckis protagonizado pelo Tom Hanks. Mas aí que umas das graças da edição é que ela será ilustrada pelo Rafael Coutinho. A editora divulgou pelo Facebook a sobrecapa em dupla-face do livro e algumas páginas com prévias das 13 artes feitas pelo quadrinista para a obra. A edição ilustrada de Forrest Gump tá prevista pra chegar às lojas a partir da segunda quinzena de novembro. Bem massa, hein?

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HQ

Os Últimos Dias de Pompeo: o clássico do italiano Andrea Pazienza ganha edição brasileira pela Veneta

Agitados esses últimos meses de 2016, hein? A editora Veneta programou para a segunda quinzena de novembro o lançamento de Os Últimos Dias de Pompeo, considerado por muitos a obra-prima do quadrinista italiano Andrea Pazienza (1988-1956). O autor foi um dos fundadores da lendária revista italiana Frigidaire e teve algumas HQs curtas publicadas na Animal aqui no Brasil, ainda nos anos 80. O álbum a ser lançado pela Veneta conta os instantes finais da vida de um artista viciado em heroína – história que se confunde com a morte precoce de Pazienza, por overdose, pouco menos de um ano depois do lançamento da HQ na Itália.

Com 136 páginas em preto e branco e capa dura, o livro vai custar R$ 74,90. E olha, que ano pra Veneta, hein? Bulldogma, Sopa de Lágrimas, Hip Hop Genealogia, Vida no Inferno, Sendero Luminoso, Ye, Matadouro de Unicórnios, Hinário Nacional, Hídrico,…enfim, difícil concorrer com eles em 2016. Ó o texto da contracapa de Os Últimos Dias de Pompeo:

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HQ

O Soldador Subaquático de Jeff Lemire será a próxima HQ da editora Mino

O próximo título da editora Mino será O Soldador Subaquático do quadrinista canadense Jeff Lemire. O título é de 2013, saiu lá fora com o nome de The Underwater Welder e deverá ser publicado por aqui nos mesmos moldes da edição lançada pela Top Shelf nos Estados Unidos. O preço do álbum ainda não foi anunciado, mas ele deve chegar às lojas entre novembro e dezembro.

Acho uma boa investida da Mino: o Jeff Lemire é conhecido por aqui pela ótima Sweet Tooth e por seus trabalhos pra Marvel e DC. Vai ser bem legal ver um projeto mais pessoal dele saindo em português. Gosto do quadrinho e curto quando o Damon Lindelof diz no prefácio da obra que se trata do “mais espetacular episódio jamais filmado de Além da Imaginação”. Ó o teaser recém-divulgado pela editora:

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HQ

O making of de uma sequência de duas páginas de São Paulo dos Mortos Vol. 03, por Daniel Esteves e Alex Rodrigues

A campanha de financiamento coletivo do terceiro volume da série São Paulo dos Mortos estará aberta no Catarse até o dia 28 de outubro de 2016. Até o momento, o projeto do roteirista Daniel Esteves conseguiu 104% da meta pedida na campanha, tendo arrecadado R$ 11.561,00. Assim como nas duas primeiras edições da coleção e em obras clássicas do gênero, São Paulo dos Mortos propõe uma reflexão sobre a sociedade em que vivemos a partir de um futuro próximo pós-apocalíptico no qual o mundo foi assolado por uma praga zumbi. No caso, como diz o nome da HQ, a história é ambientada em São Paulo.

Pedi para o autor da obra um especial nos mesmos moldes dos já produzidos pra cá por Dalton Cara, Liber Paz, Felipe Nunes e Murilo Martins, mostrando o passo a passo de um trecho do quadrinho. A sequência de duas páginas escolhida por Esteves antecede uma invasão de dois dos protagonistas do álbum ao Templo de Salomão, a sede da Igreja Universal do Reino de Deus – nas palavras do quadrinista, “aquele prédio grandioso e horrível localizado no Brás”.

O texto a seguir é de autoria de Daniel Esteves e apresenta cada uma das etapas de construção dessa sequência em parceria com o desenhista Alex Rodrigues. Cá entre nós, um tremendo serviço em relação a como construir um gibi e um enorme incentivo pra quem ainda não investiu na campanha do São Paulo dos Mortos Vol. 3. Saca que massa:

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MAKING OF – São Paulo dos Mortos
por Daniel Esteves
Ilustrações de Alex Rodrigues

São Paulo dos Mortos surgiu em 2013. Naquele ano viabilizamos no catarse e, junto a diversos artistas, publicamos o primeiro volume. Composto por cinco histórias, a motivação primordial para sua existência foram alguns fatos políticos da época. A principal história da edição, Carona para o Governador, falava sobre a violência da Polícia Militar e a respeito da criminosa reintegração de posse do Governo de São Paulo, contra a comunidade do Pinheirinho em São José dos Campos. A HQ trazia inclusive a participação ‘especial’ do eterno governador de São Paulo Geraldo Alckmin. Além dessa, tivemos outras quatro histórias no primeiro e uma história no segundo volume, com o personagem ‘Mortoboy’, um motoboy que atua arrumando coisas difíceis para as pessoas durante o apocalipse zumbi.

Algumas ideias pro primeiro volume ficaram de fora. Entre elas uma onde um Pastor de uma igreja evangélica era mordido por um zumbi durante uma sessão de exorcismo. Outra ideia deixada pro futuro foi dum personagem dentista, que trabalharia nesse mundo novo arrancando dentes de zumbis para que as famílias pudessem continuar convivendo com o parente ‘zumbificado’.

Dito isso, falaremos sobre uma das histórias que estará no terceiro volume. Ambientada no Templo de Salomão, a sede da Igreja Universal do Reino de Deus, aquele prédio grandioso e horrível localizado no Brás, resgata a antiga ideia do Pastor, mas de forma diferente. Além disso, o Doutor (aquele dentista citado anteriormente), estará nessa HQ, assim como em outra do álbum. Teremos também o retorno do Mortoboy, fazendo parte dessa mesma história no Templo de Salomão. Apesar de no primeiro volume não trabalharmos muito com a ideia de personagens fixos, isso foi pensado no segundo e será parte grande do conteúdo do terceiro volume. Abaixo alguns esboços para os dois personagens citados, o Doutor e o Mortoboy, ambos feitos pelo ilustrador Alex Rodrigues. O Mortoboy é conteúdo produzido da segunda edição, já o Doutor é desenho novo.

model-mortoboy

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Normalmente eu escrevo todas as ideias no papel, depois vou criando personagens e ambiente (se isso for necessário, depende da história), e tento criar o máximo possível da história. A seguir penso em quantas páginas isso vai ter, mesmo que não consiga ser exato nesse processo, mas prefiro dividir a ação pelas páginas, para pensar no ritmo e no que eu conseguirei colocar na HQ. O que eu entrego para o desenhista é um ROTEIRO-FINAL dividido em páginas, decupado em quadros, com as descrições e textos de cada cena, porém, tentando ser o mais objetivo possível, e evitando tirar o espaço para a criatividade do desenhista. A seguir exemplo de duas páginas de roteiro:

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Com esse roteiro em mãos o artista (Alex Rodrigues) fez os primeiros thumbnails das páginas. A partir dele discutimos as cenas, e algumas coisas são repensadas, gerando outros esboços. Isso funciona muito bem com desenhistas que tenho um grande contato, como é o caso dele. Por exemplo, na quarta página o roteiro falava em 4 cenas, mas o Alex desmembrou uma delas, deixando a página com 05 quadros. Depois de me enviar o esboço a gente conversou e vi a necessidade de uma cena a mais para fechar a ação.

esboco-03

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Depois disso ele partiu para uma versão mais acabada da página, como o processo dele é todo digital então seria quase o equivalente a um lápis. Para não haver dúvidas batemos mais uma vez com o roteiro antes de ele finalizar.

lapis-03

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A seguir a finalização dele. Essas páginas ainda estão em processo de produção, faltando as onomatopeias e balões, que serão aplicados.

Normalmente esse é o processo de produção de uma página. O roteiro final que entrego aos desenhistas, os esboços que recebo, as conversas em cima disso, com sugestões de ambos os lados e a versão final. Algumas vezes as páginas saem mais facilmente, noutras demora um pouco mais.

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HQ

Chip Kidd, por Chris Ware

Esbarrei no Twitter com essa página aqui em cima, um convite criado pelo Chris Ware para uma palestra do Chip Kidd no Art Director’s Club em 1994. Ela acabou sendo impressa na coletânea Book One do designer norte-americano, uma retrospectiva dos trabalhos dele produzidos entre 1986 e 2006.