Vitralizado

HQ

Sete anos, por Xkcd

Eu sinto muita falta de algumas empreitadas mais ousadas do Randall Munroe do Xkcd, como os clássicos Click and Drag e Tempo. Enfim, ainda tô no aguardo de uma retomada das fases mais áureas da série. Mas, mesmo assim, volta e meia, o quadrinista/ engenheiro/ cientista ainda solta umas pérolas. Essa atualização de hoje (13/12) dele tá matadora. Dá uma lida aqui em cima. Linda, né?

HQ

5ª (14/12) é dia de lançamento de Síncope, de Aline Zouvi, em SP

Tá em São Paulo? Tem planos pra 5ª (14/12)? Recomendo um pulo na Ugra pro lançamento de Síncope da Aline Zouvi. Trabalho muito bonito sobre o qual falei na minha matéria de 10 HQs brasileiras lançadas na CCXP 2017. O evento rola a partir das 18h e a Ugra fica na loja 116 do número 1371 da Rua Augusta, você confere outras informações lá na página do lançamento no Facebook. Aproveito a deixa pra reproduzir a íntegra da entrevista que fiz com a quadrinista pra minha matéria pro UOL. Ó:

Eu lembro de você distribuindo alguns dos seus zines na Comic Con Experience de 2016. Um ano depois, você vai estar na CCXP 2017 com uma mesa própria e lançando seu primeiro quadrinho. Quais são as suas expectativas pro evento?

Parece que faz bem mais de um ano desde a última CCXP! Ao longo de 2017 eu trabalhei bastante para evoluir como quadrinista, e tinha dúvidas se o perfil da CCXP enquanto evento combinaria com o tipo de quadrinho que produzo, que é visto como “alternativo”, por mais sem sentido que hoje esse termo pareça. Minha maior expectativa pro evento é poder fazer meu trabalho chegar a mais pessoas, e pra isso eu aposto na pluralidade do público que atenderá à Comic Con.

Qual é a origem da trama de Síncope? Você lembra do instante em que teve a ideia de desenvolver esse projeto?

Síncope narra um dia na vida de uma personagem com ansiedade, e esta trama vem do meu interesse em representar pessoas com patologias, sejam elas físicas ou mentais. Trabalhei com isso em Condição, série de ilustrações sobre artistas e suas patologias, e queria levar o tema mais adiante em uma HQ – é algo que quero fazer há anos, por isso não me lembro exatamente do instante em que a ideia surgiu. Tentei maturá-la o máximo de tempo que consegui, mas a vontade de desenvolver o projeto foi maior. Pensando em seu lado prático, digamos que passei pelo menos um ano trabalhando nesta HQ, desde a pesquisa por referências até sua entrega na gráfica.

Você pode falar um pouco da técnica utilizada por você na criação do projeto?

Ao longo das aulas de desenho com modelo vivo ministradas por Laerte e Rafael Coutinho em 2017, primeiro no espaço LAJE e, em seguida, no espaço BREU, ambos em São Paulo, tive a oportunidade de trabalhar com técnicas que não me eram muito familiares. O giz pastel oleoso era uma delas, e aproveitei as aulas para explorar as texturas e combinações de cor no momento de desenhar os corpos dos modelos. A liberdade de criação no momento das aulas me permitiu, depois de alguns testes, chegar a um uso de massas de cor que optei usar em Síncope para expressar momentos de ansiedade vividos pela personagem principal. O que me interessa no uso do giz pastel oleoso em quadrinhos é também a ampliação de técnicas consideradas não tradicionais para a produção de HQs – algo que pretendo continuar estudando.

Você tem sido presença constante em eventos de quadrinhos, seja como público ou expositora. O que você vê de mais interessante na atual cena brasileira de HQs?

Em 2017 busquei, de fato, participar do máximo possível de eventos de quadrinhos para entender melhor o que está sendo produzido hoje e como funciona a relação dos quadrinistas entre si, com o público e com sua própria produção. O que vejo de mais interessante na cena brasileira atual independente – que é de onde posso falar -, é a busca de quadrinistas por um aperfeiçoamento profissional cada vez mais significativo, em conjunto com a proliferação (muito bem-vinda, eu acredito) de feiras e eventos de quadrinhos focados em atender a diversidade (de forma e conteúdo) das produções feitas hoje – sem contar os diversos canais para divulgá-los, como o próprio Vitralizado, o Balbúrdia e o Papo Zine, para citar alguns.

Cinema

As histórias contadas pelos objetos nos filmes de Guillermo Del Toro

O Luís Azevedo do excelente Beyond The Frame produziu um ensaio com o pessoal da Little White Lies centrado nas histórias dos vários objetos que compõem os filmes do Guillermo Del Toro. Vídeo bem massa, chamando atenção pra mais um dos muitos méritos do cineasta mexicano. Aliás, só lembrando, The of Water chega aqui no Brasil dia 11 de janeiro, com o nome de A Forma da Água. Dá o play:

HQ

Mariana Paraizo e a produção do 12º número da Série Postal

O desenvolvimento do trabalho de Mariana Paraizo para a 12º Série Postal é bastante interessante e propõe reflexões relevantes relacionadas a questões de direitos autorais e direitos de uso de imagem. Assim como fiz com os depoimentos de todos os autores do projeto, publiquei a entrevista que fiz com ela no Tumblr dedicado à coleção de postais e reúno por aqui a íntegra dos depoimentos. A seguir, aspas de Mariana Paraizo:

“Foi bem legal a oportunidade de participar do projeto. Parecia que se encaixava muito bem com essa vontade que eu tinha de construir uma narrativa a partir de imagens do Google. Eu tenho uma coisa com objetos antigos, coleções, coisas guardadas… No caso, eu queria fazer um trabalho em um cartão postal que remetesse a um cartão postal. Não queria só fazer uma imagem que fosse só passear pelo cartão sem ter nenhuma relação com o próprio formato. Achei essa caixa antiga de cartões postais do meu pai. Procurando o que fosse me estimular para fazer uma narrativa eu encontrei esse texto meio misterioso sobre uma moça chamada Kátia que não devolveu um chaveiro. Era estranho, era um cartão postal que parecia ter sido abandonado pela metade. Não parecia que a pessoa tinha chegado de fato ao que ela queria. Ficava uma coisa interrompida. Eu mostrei pro meu pai e ele não reconheceu. Ele lembrava da Kátia, amiga dele, mas que aquela letra não era dele, parecia do irmão dele e o cartão nem tinha sido mandado. Então já se instalou um vontade de trabalhar em cima dessa coisa meio misteriosa, que parecia que ia se relacionar bem com essa pesquisa no Google em que fui colocando palavras-chaves e procurando imagens pra formar sequências não completamente ao acaso, em uma composição que indicava um caminho interessante de narrativa sem que ela estivesse lá por completo”

“O que aconteceu é que essa primeira versão do postal foi barrada pelos direitos de imagem. Como eu usei os prints e não pedi permissão para cada um dos sites pra utilizar as imagens, o Itaú Cultural ficou preocupado com a possibilidade de processo. Isso me deixou meio chateada, mas da adversidade vivemos (risos). Tive que lidar com esse fato. Eu não via nenhuma possibilidade real de alguém buscar o direito dessas imagens de volta. São imagens que não são nem muito representativas e nem autorais, pareciam feitas por uma instituição para uma circulação mais comercial e que normalmente são deixadas e abandonadas ao relento. Elas não são localizadas, não ficam sendo acompanhadas para se ter um registro de sua localização. Mas enfim…”

-X-

“Daí a solução que encontrei para um segundo cartão postal com o tempo que tinha, foi lidar com essa situação como parte do cartão postal que eu ia fazer. Usei o printscreen da mesma forma, usei a sequência do Google da mesma forma e procurei por ‘autoria’ no Google. Dei uma borrada no nome do Google, mas deixei as cores. Trabalhei em cima da coisa de não usar a imagem na íntegra, mas indicar completamente o que ela era. No caso no Google eu borrei e coloquei ‘buscador’ por cima e nas outras imagens eu coloquei tarjas pretas em duas linhas de sequência de foto vindas da busca por ‘autoria’. Tirei as duas linhas e inseri no postal, na íntegra, e em cima de cada imagem coloquei a tarja preta e fui apagando aos poucos para mostrar o verso, mas não o suficiente para revelar que era uma fotografia ou uma imagem coorporativa ou instituicional com uso restrito”

HQ

Jão e a produção do 11º número da Série Postal

Uma das propostas do quadrinistas Jão ao produzir a 11ª edição da Série Postal foi controlar o tempo de leitura da HQ. Segundo o autor, a ideia era estimular que seus leitores voltassem à obra e não esgotassem a leitura em um primeiro contato. Publiquei as falas do Jão sobre o quadrinho no Tumblr da Série Postal e reúno a íntegra dos depoimentos por aqui. A seguir, falas do autor:

“O convite para fazer o postal veio num período em que eu estava trabalhando esse tipo de quadrinho, uma coisa mais experimental. Eu tinha começado a fazer o Flores, O Bárbaro e acho que as duas coisas juntaram. Era algo que eu estava afim de fazer naquele momento, no segundo semestre do ano passado, algo mais experimental e relacionado a movimento em quadrinhos. No primeiro semestre do ano passado eu tinha feito algumas experiências semelhantes que não cheguei a mostrar pra ninguém, mas as coisas foram andando pra chegar nisso. Quando veio o convite pra poder fazer essa história, pensei que aquilo que eu estava desenvolvendo, nesse tipo de narrativa, não necessariamente com um começo no canto superior direito e um fim no inferior esquerdo, sabe? Queria algo que você pudesse entrar por outro lugar. No caso dessa história específica, pensei em algo circular”

-X-

“Eu não tinha me ligado nessa conexão com Spy Vs. Spy, mas agora penso que tem tudo a ver. Na época que comecei a fazer quadrinhos, há uns 10 anos, eu lia muito. Então acho que é uma influência, sim”

“A construção da paleta de cores dos meus quadrinhos é uma questão meio bizarra. Eu posso ter uma vaga ideia de que quero trabalhar com uma cor específica e aí vou fazendo umas experiências até chegar numa paleta que compõe o todo. Mas eu também não tenho uma paleta padrão nos meus trabalhos. No caso do postal, eu fiz alguns testes com outras cores antes e tal, mas eu queria uma coisa que destacasse em algumas partes, até pra que as cores guiassem a leitura. Fui fazendo esses testes até chegar nessa composição final”

-X-

“Normalmente, quando vou criar uma história pequena, que precisa ser resolvida num espaço curto, eu tenho muito problema. Ao mesmo tempo, o conceito do postal me trouxe a história, toda essa narrativa circular me fez pensar no rolê do postal ser uma coisa que você vai mandar um recado pra alguém, pra uma pessoa que você gosta e tudo mais. Aí essa pessoa vai pegar essa HQ e vai colocar num quadro ou numa gaveta e de vez em quando vai retomar esse trabalho. Daí o que pensei foi isso: se eu fizesse uma história com início, meio e fim, uma coisa fechada, a pessoa não precisaria mais olhar pra ela. Eu queria que fosse um desafio, o postal estando na gaveta e permitindo uma viajada sempre que o leitor entrasse em contato com ele”

-X-

“Em relação ao roteiro, eu já tinha a história na cabeça e sabia o que ia acontecer nela. Eu sentei e fui fazendo e alguns elementos foram aparecendo. No caso do Baixo Centro, eu e o Rafael [co-autor da HQ] fizemos um roteiro básico, muito aberto, inclusive era pra ter apenas 16 páginas e acabou com 64. Então fui incluindo elementos e algumas cenas que já estavam escritas eu ampliei até chegar no resultado final. Nos últimos dias tô fazendo um processo completamente diferente desse: sentar e escrever um roteiro, pra uma história que estou planejando pro ano que vem. Eu tô fazendo um processo que tem muito tempo que não faço, até pelo fato da história ter diálogos. Então é importante ter essa prévia antes, pensar roteiro, o que vai acontecer com os personagens e construir algo mais amarrado”

Cinema / Séries

Escafandro Podcast – S02E05: Mindhunter e o amadurecimento de David Fincher

Mais uma edição do Escafandro Podcast no ar! Dessa vez, eu e os meus amigos Jairo Rodrigues e André Graciotti conversamos sobre Mindhunter e a carreira do David Fincher, produtor do seriado e diretor de alguns episódios e responsável por clássicos como Seven, Clube da Luta, A Rede Social e Zodíaco. E lembrando: agora você pode baixar (de graça) o Escafandro no iTunes, no Stitcher, seguir o nosso Tumblr ou também ouvir os programas pelo nosso canal no YouTube, como preferir. Dá o play!

HQ / Matérias

Dez HQs nacionais com lançamentos marcados pra CCXP 2017

Ei, vai à Comic Con Experience 2017 e não sabe por onde começar com os vários lançamentos de quadrinhos nacionais marcados para o evento? Conversei com alguns quadrinistas que estarão com publicações novas por lá, montei uma lista com alguns projetos que chamaram a minha atenção e transformei em matéria pro UOL. Não vou entregar o ouro por aqui, mas adianto que no texto tem papo com Wagner Willian, Bianca Pinheiro, Aline Zouvi, Luciano Salles e Felipe Parucci e menções a trabalhos de Paulo Crumbim, Julia Bax, Júlia Helena, Thiago Souto e Debora Santos e Márcio Moreira. Dá uma lida!

HQ

3ª (5/12) é dia de lançamento da coletânea Marcatti 40 em São Paulo

Tô bastante ansioso pra ver em mãos a coletânea Marcatti 40, publicada pelo pessoal da Ugra Press em homenagem aos 40 anos de carreira do lendário Marcatti. O lançamento do álbum tá marcado pra amanhã, 3ª (5/12), a partir das 18h, na loja da Ugra em São Paulo (R. Augusta, 1371, loja 116), com presença de alguns dos artistas com histórias publicadas no projeto e do próprio Marcatti.

O livro é uma coletânea com várias interpretações do personagem Fráuzio assinadas por fãs e pupilos do quadrinista homenageado, artistas do naipe de Fábio Zimbres, Guilherme Petreca, Juscelino Neco, Pablo Carranza, Germana Viana, Victor Bello, Luciano Salles, Pedro D’Apremont e outros. Tive a oportunidade de conferir algumas páginas da obra e garanto: tá imperdível. Mais informações sobre o lançamento lá na página do evento no Facebook.

Cinema / HQ / Séries

Vitralizado #62 – 11.2017

Pra quem tá chegando agora: na minha cabeça o Vitralizado é uma revista e todo final de mês eu faço um sumário de como seria a edição referente aos 30/31 dias que passaram. Assim sendo, a edição de novembro de 2017 do blog é um especial sobre Marcelo D’Salete e o lançamento de Angola Janga – Uma História de Palmares. O livro acabou de sair, ainda tem muita gente descobrindo o quadrinho, mas tenho certeza que ele será lembrado como um marco na história das HQs nacionais. Enfim, vamos lá. Segue o que rolou de mais importante no 62º mês de existência do blog:

*Ainda tenho mais alguns posts previstos sobre a Série Postal para breve, mas lancei as duas últimas edições do primeiro ano do projeto, os números 11 e 12, assinados por Jão e Mariana Paraizo. Viu as artes? Os quadrinhos foram lançados na Des.Gráfica, em São Paulo, e na Faísca, em Belo Horizontee por lá eu fui com o Jão à Rede Minas falar sobre o projeto. Também reuni por aqui o depoimento do Felipe Nunes sobre o trabalho dele pra coleção;

*Publiquei por aqui a íntegra das minhas duas entrevista com o Marcelo D’Salete sobre Angola Janga – Uma História de Palmares, papo que resultou na minha matéria sobre o livro pro UOL. Eu e o Lielson Zeni entrevistamos o autor no evento de lançamento da HQ na Ugra (papo gravado pelo Carlos Neto, do Papo Zine) e eu mediei uma conversa com D’Salete e o André Toral na Geek do Conjunto Nacional.

*Ainda relacionado a Angola Janga: o editor do livro, Rogério de Campos, enviou aqui pro blog um texto falando sobre o lançamento da HQ e ressaltando a importância e o papel fundamental das livrarias independentes;

*E também fiz uma entrevista bem legal com o Gidalti Jr., autor de Castanha do Pará e vencedor do primeiro troféu Jabuti na categoria História em Quadrinhos. Reli o papo aqui e fico feliz: o prêmio está em boas mãos;

*Já ouviu a mais recente edição do Escafandro Podcast? Dessa vez, eu, o Jairo e o André conversamos sobre a segunda temporada de Stanger Things;

*Escrevi duas Vitralizado Recomenda, uma dedicada ao excelente Terreno, do Paulo Crumbim, e outra à belíssima edição de 20 anos do clássico Ghost World, de Daniel Clowes, publicado pela Nemo;

*Lindona essa capa da segunda edição da Plaf, hein? Arte assinada pelo Christiano Mascaro;

*E aí, já tem um Monograph pra chamar de seu? O Chris Ware falou com o Guardian sobre o livro e também gravou uma entrevista para TV sobre o projeto;

*Compartilhei por aqui a gravação feita pelo Carlos Neto do Papo Zine da minha conversa com o Bruno Dorigatti, na Ugra, sobre o selo de quadrinhos da DarkSide Books;

*E essa novidade de que a Zarabatana vai publicar Hostage em português, hein? Tremendo acerto. O livro sai no Brasil com o título Fugir – O Relato de um Refém;

*Já se inscreveu pro curso de criação de quadrinhos do João Pinheiro?;

*Adiantei por aqui o preview de Superpunk, nova HQ independente do Guilherme Petreca. Também divulguei as capas de Labirino, do Thiago Souto, e de Formigueiro, do Michael DeForge, dois lançamentos da Mino;

*Três rapidinhas: o Adrian Tomine fez mais uma ilustração pra New Yorker; a capa da Little White Lies #72 é dedicada a Three Billboards Outside Ebbing, Missouri; e o Alejandro Alonso Villarreal produziu mais um ensaio, dessa vez dedicado ao clássico 2001;

*Alguns eventos que já rolaram/tão pra rolar: sábado (2/12) é dia de festa de aniversário de três anos da Banca Tatuí aqui em São Paulo, com rinha de quadrinistas e lançamento de Já Era, do Felipe Parucci; sábado também rola o lançamento dos três mais novos álbuns da Mino: Labirino, Porco Pirata e Market Garden; no início de novembro rolaram aqui em São Paulo a Miolos e a Feira Breve; ontem (30/11) teve lançamento de Frio Dedentadura Muda da Baboon Comix; e também na noite de 5ª foi inaugurada a Fanzinoteca Faísca em Belo Horizonte;

>> Veja o que rolou no Vitralizado #61 – 10.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #60 – 09.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #59 – 08.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #58 – 07.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #57 – 06.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #56 – 05.2017;
>> Veja o que rolou no Vitralizado #55 – 04.2017;
>>Veja o que rolou no Vitralizado #54 – 03.2017;
>>Veja o que rolou no Vitralizado #53 – 02.2017;
>>Veja o que rolou no Vitralizado #52 – 01.2017;
>>Veja o que rolou no Vitralizado #51 – 12.2016;
>>Veja o que rolou no Vitralizado #50 – 11.2016;
>>Veja o que rolou no Vitralizado #49 – 10.2016;
>>Veja o que rolou no Vitralizado #48 – 09.2016;
>>Veja o que rolou no Vitralizado #47 – 08.2016;
>>Veja o que rolou no Vitralizado #46 – 07.2016.

HQ

Gidalti Jr. recebe o primeiro Prêmio Jabuti de HQs: “As editoras deveriam estar mais atentas ao cenário independente”

O quadrinista Gidalti Jr. receberá na noite de hoje, no Auditório do Parque do Ibirapuera, em São Paulo, o troféu de primeiro colocado no Prêmio Jabuti 2017 na categoria estreante de Histórias em Quadrinhos. O artista nascido em Belo Horizonte, criado em Belém e residente em São Paulo foi anunciado como o vencedor da premiação no início de novembro, por seu trabalho no álbum Castanha do Pará, publicação independente, bancada via financiamento coletivo no site Catarse e primeira HQ do autor. A segunda colocada no Jabuti 2017 foi a coletânea Hinário Nacional, de Marcello Quintanilha, publicada pela editora Veneta, e a terceira colocação ficou com Quadrinhos dos Anos 10, de André Dahmer, lançada pela Companhia das Letras.

Como informado pelo presidente da Câmara Brasileira do Livro, Luís Antônio Torelli, no dia 3 de maio, em evento realizado na sede da instituição para o anúncio da criação da categoria Histórias em Quadrinhos, a inclusão de HQs no Prêmio Jabuti é fruto direto da campanha iniciada pelo quadrinista Wagner Willian em dezembro de 2016 que resultou em um abaixo-assinado com mais de 2118 nomes.

“Me inscrevi no prêmio Jabuti por descargo de consciência e na, melhor das hipóteses, esperava ser finalista”, pondera Gidalti Jr. em entrevista ao blog. A conversa foi realizada pouco mais de dez meses após uma primeira entrevista, feita em fevereiro, na véspera do evento de lançamento de Castanha do Pará em São Paulo. “Meu método de trabalho é bem caótico e ainda está em processo de amadurecimento, uma vez que só produzi um álbum”, contou Gidalti no início do ano. Em meio a participações em programas de TV em decorrência da imensa repercussão da vitória no Jabuti e no intervalo de um passeio com a filha, o quadrinista respondeu a algumas perguntas por email sobre sua conquista, o impacto da vitória em sua vida profissional e seus planos futuros com quadrinhos. A seguir, Gidalti Jr.:

“O financiamento coletivo foi a opção que encontrei para convencer as pessoas de que o meu trabalho merecia uma chance”

Na nossa conversa de fevereiro você falou sobre os três anos de produção do livro. Você disse que hoje tem uma relação melhor com o tempo, que uma das lições da produção do Castanha foi aprender a respeitar a sua arte e manter uma disciplina tendo em mente que o tempo passa e a obra fica. Às vésperas de receber o troféu de primeiro lugar no Jabuti de estreia da categoria Histórias em Quadrinhos, qual balanço você faz de todo esse período de investimento no Castanha?

Fazer quadrinhos é um oficio árduo e exige disciplina. Alguns quadrinistas conseguem ter uma dinâmica rápida no fazer, especialmente os que atuam no mercado americano. Particularmente, preciso de muita reflexão na hora de compor os quadros, na escolha da melhor palavra ou a forma ideal para comunicar o que desejo como autor. Pensar figurino, locação, enquadramento, elenco, entre outros, é quase como o trabalho de um diretor de cinema, sendo que você dirige a si próprio. Logo, a tarefa de fazer quadrinhos sempre será monumental. Passei muitos anos na publicidade, onde tudo é muito rápido e envolve mais dinheiro e mais pessoas para a realização de um trabalho e isso me deixou um pouco ansioso quando iniciei minha empreitada como quadrinista. Estava muito focado em gerenciar o processo como faz um publicitário, cuidando dos aspectos macroscópicos ligados ao marketing e pouco em trabalhar como um artista. Também posso refletir sobre a influência que o mercado americano de super-heróis ainda exercia sobre mim, pois estava sempre me cobrando velocidade, aperfeiçoamento técnico ao extremo e mobilizando equipe de finalistas e coloristas. Estava me distanciando do capricho do artesão, que nunca delega processos e executa com paciência e precisão o ofício. Então, largar a publicidade e encarar um projeto de quadrinhos foi algo que mudou muito minha forma de encarar o trabalho. Acho que fazer quadrinhos está mais próximo de uma pesquisa acadêmica. Cada dia você coloca um tijolo, conecta uma informação, resolve um problema estético ou de narrativa, encontra a palavra perfeita. Minha relação com o ensino acadêmico foi importante nesse processo, pois pude manter um trabalho de jornada parcial para bancar minimamente as despesas. O contato com a literatura acadêmica em artes visuais e comunicação social, o convívio com professores, intelectuais e outros artistas do universo das artes também me ajudaram a direcionar o meu trabalho para uma abordagem mais pessoal.

Quando você é novato no mundo da produção de histórias em quadrinhos, a maioria dos colegas mais experientes te aconselha a produzir algo mais modesto em termos de quantidade de páginas e de labor técnico. A lógica é correta, mas eu já estava acostumado com rotinas de trabalho intensos e já havia desenvolvido uma boa abertura para a crítica e pude receber conselhos valiosos de muitos amigos e aperfeiçoar cada vez mais o trabalho. Procuro estar atento a todas as dicas e conselhos, mas é preciso ter consciência de que a responsabilidade e as consequências das escolhas são nossas, portanto, procuro fazer aquilo que verdadeiramente acredito.

Troquei toda uma estabilidade profissional e o conforto de estar perto da família em Belém para empreender na área artística em São Paulo, logo, sempre foquei em fazer algo consistente e de valor artístico. Os primeiros anos em São Paulo foram os mais difíceis. Frequentei feiras de quadrinhos pelo Brasil para entender mais sobre os bastidores. Tive muitas derrotas, como a não aceitação em vários editais, negativas de editoras e propostas desrespeitosas, mas isso só me fez ter mais vontade de trabalhar e abrir as portas mesmo que na marra.

Felizmente, hoje existem muitas possibilidades para concretizar um projeto empreendedor. O financiamento coletivo foi a opção que encontrei para convencer as pessoas de que o meu trabalho merecia uma chance. Creio que a paciência para escolher a hora certa de materializar o álbum foi determinante para o sucesso da obra. Talvez, se eu tivesse conseguido um edital ou fechado com alguma proposta de editoras, o álbum não seria premiado, pois os eventos aconteceram de maneira orquestrada para ele fosse o estreante da categoria no prêmio Jabuti. Penso que o reconhecimento da premiação ao meu trabalho comprova que nada pode parar uma pessoa determinada.

Poucos quadrinhos conseguem romper a cobertura especializada formada principalmente por sites, blogs e canais do YouTube. Eu imagino que essa vitória no Jabuti atraiu um outro olhar para o Castanha do Pará. O que você achou dessa atenção? Como foi a sua relação com a dita “grande imprensa” em seguida ao anúncio da sua vitória?

Não há dúvidas de que o espaço na mídia para minha obra se ampliou após o Jabuti, especialmente no contexto nacional, uma vez que em Belém a imprensa sempre foi muito generosa comigo. Mas há de se reconhecer que parte da grande imprensa tem o foco nos produtos mainstream, pois existem forças de mercado que regem essa dinâmica. O mundo é assim. Ponto! Vamos trabalhar para ser interessantes também. Novamente sobre meu trabalho, vejo que muitos canais tiveram uma abordagem rica e até mesmo orgulhosa em relação ao fato de ser um álbum independente e com pegada social forte, mas outros praticamente protocolaram a notícia ou mesmo ignoraram. Entendo as regras do jogo e estou trabalhando arduamente naquilo que acredito, para assim abrir mais espaço em todos segmentos da mídia, mas o que me move é a qualidade e a quantidade de leitores que alcanço. Penso que a inserção na dita “grande imprensa” já foi pior para os autores brasileiros, especialmente os independentes, mas as coisas estão melhorando significativamente nos últimos anos, pois essa produção tem se mostrando muito consistente e madura.

“Temos hoje vários projetos editoriais com o foco em autores brasileiros, mas gostaria de ver mais ousadia no mercado nacional para que os autores tenham melhores condições de trabalho”

Uma coisa que chama atenção na vitória do Castanha está no fato de ser uma obra independente vitoriosa em uma premiação voltada para editoras. Como você interpreta esse fato?

Me inscrevi no prêmio Jabuti por descargo de consciência e na, melhor das hipóteses, esperava ser finalista por algumas razões: primeiro, por nunca ter publicado nem mesmo um fanzine antes do Castanha. Sempre fui consumidor e produzia só por diversão. Ainda bem que o prêmio é para a obra e não para o histórico do autor ou para editoras, como você sugeriu. Segundo, porque meu trabalho é independente e eu sabia que estaria competindo com grandes editoras e eventualmente, autores já consagrados. Quando foram anunciados os finalistas, fiquei realmente muito feliz, mas ao ver os gigantes que concorriam comigo, me dei por satisfeito onde tinha chegado. Ainda bem que me surpreendi e pude ganhar ainda mais confiança em relação à minha poética. Estou renovado e gratificado com esse reconhecimento. Creio que as editoras deveriam estar mais atentas ao cenário independente. Temos hoje vários projetos editoriais com o foco em autores brasileiros, mas gostaria de ver mais ousadia no mercado nacional para que os autores tenham melhores condições de trabalho, embora entenda que o mercado é difícil para todos, pois o que realmente precisamos é de mais leitores.

O Castanha é a sua primeira obra e você ganhou o primeiro lugar do Jabuti com ela. Acho que ainda tá cedo, mas que tipo de impacto você espera que essa vitória possa ter na sua carreira como quadrinista?

Acho que fará com que as pessoas se interessem mais pela obra e por meus futuros trabalhos, o que pode gera mais credibilidade para com o mercado. Continuo ciente de que a empreitada é sempre dura e exige muita paixão e disciplina. Não romantizo e sou cético em relação a tudo. Na minha opinião, o grande beneficiário deste prêmio é o gênero em si, afinal, teremos outros ganhadores no futuro e os que já foram premiados, devem continuar a produzir em alto nível ou cairão no esquecimento. Logo, creio que toda a classe deva estar feliz com o reconhecimento da CBL aos quadrinhos, o que deve estimular todos a produzir mais. Creio ainda que o mercado possa expandir mais a partir da maior circulação dos finalistas na mídia.

“Posso dizer que recebi muitas abordagens e estou apreciando tudo com calma, mas certamente as condições para meus próximos trabalhos devem ser melhores. Espero surpreender novamente”

Você já tem planos para um próximo trabalho? Chegou a ser procurado por alguma editora em seguida a essa vitória no Jabuti?

Trabalho com alta regularidade e intensidade moderada. Só assim consigo manter várias áreas da vida equilibrada e dar conta de tudo. Continuo com minha rotina de professor universitário e pesquisador e estou dedicando muito tempo para minha filha que nasceu há poucos meses. Estou sim, produzindo uma nova HQ. Está em uma fase de aprimoramento do roteiro e pesquisa iconográfica e não sei exatamente quando devo iniciar a exposição desse material. Posso adiantar que é novamente ambientada na região norte do Brasil, na Amazônia urbana. Vai tocar em assuntos como violência e difamação. Além de produzir histórias em quadrinhos em estrutura tradicional, estou envolvido em um projeto de pesquisa acadêmica em poéticas visuais, que investiga as possibilidades de hibridização entre a pintura, a narrativa e a palavra, também em fase inicial. Sobre propostas pós-prêmio, posso dizer que recebi muitas abordagens e estou apreciando tudo com calma, mas certamente as condições para meus próximos trabalhos devem ser melhores. Espero surpreender novamente.

Você encerrava aquela primeira entrevista que fizemos falando sobre a sua satisfação com o resultado do livro, que estava feliz com a cobertura da imprensa e o retorno do público até então. Ainda assim, você também dizia que era muito cedo para avaliar e que o livro não tinha alcançado todo o público esperado. E agora? Como você avalia a recepção do público e da cena brasileira de quadrinhos ao seu trabalho? Você já alcançou todo o público que esperava?

Acho que o alcance da minha obra está melhorando muito, mas ainda é muito pequeno. Publicar de forma independente, em regra, te coloca em um patamar de tiragem baixo. Distribuir e comercializar são tarefas complicadas para quem tem uma rotina de produção como a minha. Trabalhei de forma independente porque no momento foi a melhor opção, mas estou ciente de que esse formato pode me limitar em alguns aspectos. Estou muito satisfeito com tudo, mas acho que preciso agregar outras forças para que o meu trabalho ganhe mais espaço no mercado, na mídia e alcance mais leitores, que é o grande propósito de se produzir literatura. Sei que minha obra é direcionada para um público mais adulto. Isso é evidente nos eventos em que o público mais maduro costuma apreciar mais a proposta de brasilidade e foco ao contexto amazônico que apresento em meu trabalho. Portanto, penso que meus leitores sejam mais restritos ainda e de maior dificuldade de serem alcançados. A predominância da associação entre quadrinhos e literatura infanto-juvenil ainda é muito forte no Brasil. Em relação à cena brasileira de quadrinhos, acho que fui muito bem recebido. A grande questão se resume a publicar, de preferência algo sólido. Enquanto você só fala de projetos e de coisas que fará, das dificuldades do mercado e da vida, a comunidade não vai te respeitar. Agora, no momento em que você mostra algo palpável, realizado, todos os players te olham como alguém que faz parte da cena. Isso é justo e natural. Portanto, é sempre bom falar menos e fazer mais. Tenho consciência que sou um autor novo e a questão do alcance vá melhorar com trabalho e tempo. Num mundo conectado e cada vez mais tecnológico, é sempre possível ampliar ainda mais o seu público e vou sempre almejar isso.


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