Vitralizado

HQ

PARAFUSO ZERO – Expansão, por Jão: em breve nas melhores lojas!

Talvez você tenha acompanhado a saga do projeto PARAFUSO ZERO – Expansão aqui no Vitralizado. O álbum do quadrinista Jão que conta com a minha participação como editor teve sua produção amplamente noticiada no blog. Investimos em uma campanha de financiamento coletivo no Catarse que por pouco não virou, mas o projeto agora ganhou sobrevida via o edital do Fundo Municipal de Cultura de Belo Horizonte.

As boas novas vieram agora pouco pelo Instagram do Jão: a HQ ficou em segundo lugar na categoria Artes Visuais do edital. E o autor da obra mandou avisar: “Projeto completamente reformulado e com uma equipe ampliada e foda trabalhando comigo!”.

Meu acesso aos bastidores de PARAFUSO ZERO – Expansão permite bancar: vem coisa realmente boa por aí. Prometo novas informações sobre o quadrinho para um futuro próximo e recomendo que você relembre a série PARAFUSO ZERO – Expansão: Bastidores, na qual eu e Jão conversamos sobre a trama, a produção e o desenvolvimento da HQ.

HQ

Festival de Angoulême 2020, por Charles Burns, Catherine Meurisse e Rumiko Takahashi

Os realizadores do Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême divulgaram hoje as artes do cartazes da edição de 2020 do evento, que será realizada entre os dias 30 de janeiro e 2 de fevereiro do próximo ano. Após Taiyo Matsumoto, Bernadette Després e Richard Corben assinarem as artes do material de divulgação do ano passado, os autores dos cartazes de 2020 são o norte-americano Charles Burns (aqui em cima), a francesa Catherine Meurisse e a japonesa Rumiko Takahashi – esses dois últimos no pé do post.

Assim como nas artes de 2019, os três autores de 2020 se retrataram como crianças descobrindo seus primeiros quadrinhos. O Charles Burns se desenhou lendo Tintim – A Estrela Misteriosa, enquanto Maurisse aparece lendo Asterix e Takahashi clássicos dos mangás. Segundo os organizadores do evento, a tradição dos três pôsteres por edição, iniciada no ano passado, vai se manter até 2023, quando será realizada a 50ª edição do festival, com uma exposição reunindo todos esses trabalhos.

A arte de Catherine Meurisse para o cartaz do Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême 2020
A arte de Rumiko Takahashi para o cartaz do Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême 2020
Entrevistas / HQ

Papo com Mitie Taketani, sócia-proprietária da Itiban Comic Shop: “Salvem a bibliodiversidade”

A Itiban Comic Shop completa 30 anos de existência no próximo sábado, dia 12 de outubro de 2019. O aniversário da uma dos espaços mais tradicionais dos quadrinhos nacionais já foi celebrado com um cartaz assinado pelo quadrinista Marcello Quintanilha, mas também será comemorado na própria loja, sábado (12/10), a partir das 11h, com produtos em desconto; shows das bandas Paraguaya e Giovanni Caruso, Rabo de Galo e Ska The Man; presença dos artistas do coletivo Cidade Fria; bebidas, quitutes e bolo. Você confere a programação completa da festa na página do evento no Facebook.

(crédito da foto acima, mostrando a atual fachada da Itiban: JC Branco)

A Itiban Comic Shop foi fundada em 1989 pelo casal Mitie Taketani e Xico Utrabo. Ao longo de seus 30 anos com a livraria, o casal acompanhou as diversas transformações pelas quais o mercado editorial e a cena brasileira de quadrinhos passaram durante o período – do auge da Devir como importadora de quadrinhos à chegada da Amazon ao Brasil.

Nesse meio tempo, a Itiban hospedou eventos com alguns dos principais nomes dos quadrinhos brasileiros e abrigou lançamentos de obras hoje consideradas canônicas para as HQs nacionais. Lourenço Mutarelli, Bianca Pinheiro, Laerte, Rafael Coutinho, Fábio Moon, Gabriel Bá, Marcello Quintanilha e Panhoca são alguns dos nomes estampados nos vários cartazes de eventos realizados no local.

Bati um papo com Mitie Taketani sobre os 30 anos da loja administrada por ela, o marido e a filha Tami Taketani. Ela lembrou das origens da Itiban e dos primeiros anos de funcionamento da livraria, fez um balanço do mercado editorial ao longo dos últimos 30 anos, listou alguns dos principais eventos organizados em sua loja, fez críticas ao “modelo Amazon” e deu pistas sobre o futuro da Itiban. Papo massa, saca só:

“Era um trabalho de abrir os horizontes…”

O público presente em um dos eventos de lançamento realizado na Itiban Comic Shop

Eu queria começar falando um pouco sobre a origem da Itiban. Como a loja surgiu? De quem foi a ideia de abrir a Itiban? O que significa Itiban?

Eu e o Xico Utrabo, meu marido e sócio da loja, nos conhecemos em São Paulo. Eu nasci em São Paulo e ele é de Curitiba. Depois de estudar música na Argentina, no Uruguai e na Espanha, o Xico ficou um tempo na capital paulista em busca de uma gravadora para lançar a banda Máquina Zero. Tocou em várias “casas noturnas” e em algum momento nos encontramos no Madame Satã: rolou aquela empatia por causa da música, do movimento underground e do punk e, sim, nós já curtíamos quadrinhos.

Ele teve uma escola forte morando na Argentina e na Espanha e já trazia na bagagem coleções da El Vibora, Cimoc, Metal Hurlant, Fierro… E eu era leitora da Espada Selvagem de Conan, Mad, quadrinhos da L&PM, Spirit, Moebius… Viemos para Curitiba porque achamos que seria mais fácil sobreviver e resolvemos abrir a Itiban. No começo, era no esquema das bancas de jornais: tinha jornal, revistas, desde as pornôs até Veja, Caras – toda a porcaria editorial que enfiavam no nosso reparte, que na época era consignado. Aos poucos, fomos conseguindo um reparte melhor do que realmente nos interessava, as HQs e revistas de música, cinema, revistas importadas americanas e inglesas. Começamos a trabalhar com a importadora Devir na sorte! Foi realmente quando conseguimos ganhar um diferencial: quadrinhos importados de todas as editoras norte-americanas, DC/Marvel, Fantagraphics, Viz, Draw and Quarterly… Era o paraíso! Era caaaro (chamavam de “dólar-livro”), mas a gente queria mesmo assim. Era um trabalho de abrir os horizontes, pois esse material nunca chegava no mercado nacional ou chegava com uma defasagem gigante!

Acho que o nome Itiban vingou. Fomos os primeiros, pelo menos no Sul do Brasil, a abrir uma loja especializada em HQs. Itiban (Ichiban) significa “primeiro”, “number one”. O Paul McCartney até fez uma homenagem pra gente em Curitiba! Tá no YouTube! Hehehe

“Era o catálogo da Diamond ao nosso alcance e isso abriu muito a cabeça da galera”

A quadrinista Laerte Coutinho em bate-papo com o crítico e pesquisador Lielson Zeni durante o lançamento do álbum Muchacha na Itiban Comic Shop

Como foram os primeiros anos da Itiban? Quadrinhos sempre foram os principais produtos da loja?

Então, começamos como banquinha de jornal. Ligávamos do orelhão para fazer pedido, resolver problemas, ou era correio ou fax emprestado da casa da minha sogra. A Itiban era novidade na pequena Curitiba! Nossa propaganda era no boca a boca. Tivemos a sorte de estar bem ao lado de um grande jornalista, o Aramis Millarch, do jornal O Estado do Paraná, que escrevia sobre arte e cultura, frequentava regularmente a Itiban e escrevia sobre nosso pequeno reduto de aficcionados, que na época reunia galera da moda, teatro, cinema, música e muitos garotos tímidos atrás de novidades nas HQs.

As HQs eram um diferencial em relação aos outros jornaleiros, que nem davam bola para isso, e depois, quando começamos a receber também HQs importadas dos EUA, RPG e card-games, ganhamos e fidelizamos um novo público. Muitos leitores tiveram que aprender inglês para poderem acompanhar toda a variedade de HQs americanas que chegavam toda semana: super-heróis, underground, hentai, mangá… Era praticamente o catálogo da Diamond ao nosso alcance e isso abriu muito a cabeça da galera. O mundo era bem maior.

“Se por um lado não conseguimos ter todos os quadrinhos lançados, passamos a ampliar a curadoria”

A quadrinista Bianca Pinheiro em bate-papo com o crítico e pesquisador Rodrigo Scama na Itiban Comic Shop

Você consegue fazer um balanço entre o que a Itiban era quando foi inaugurada e o que ela é hoje? Digo: o quanto a loja mudou em termos de público e serviço?

Basicamente no início, em 1989, o público era masculino, das mais diversas áreas e idades. Com a entrada do selo Vertigo, as mulheres se ligaram mais aos quadrinhos. Na medida em que novas editoras, selos, coletivos e autorxs surgiam, a loja crescia e nosso público também. Ah! Tivemos um Fanzine, o CULTCOMICS, que saiu em 1991, com páginas pretas e textos datilografados, colagens, tiras de humor, entrevistas e matérias. Durou uma edição, com tiragem de 100 exemplares.

Já no final da década de 1990, no atual endereço, na Silva Jardim, começamos a fazer eventos de lançamentos de quadrinhos e exposições. Um dos primeiros quadrinistas a pisar na Itiban foi o Lourenço Mutarelli, em 1999, lançando O Dobro de Cinco. Ele veio de ônibus e eu fui buscá-lo na rodoviária. Ele ainda estava dormindo no ônibus e tive que acordá-lo. Demorou um pouquinho pra despertar. Eu meio tímida, ele bem calado, entramos no carro naquele silêncio. Deixei ele, acho que no hotel (não lembro!) e ele me entregou o Mini Tonto Requiem. Agradeci e voltei pra casa. Peguei pra ler tomando café e ao final estava em prantos. Quando nos encontramos novamente para o evento na loja, eu dei um tapão nele. Tenho essa péssima mania… Mas ele gostou, deu risada e ficamos amigos. E sempre que ele lançava um novo quadrinho, vinha pra cá. Sempre bancamos sozinhos as vindas dos artistas.

A gente nunca teve grana pra investir no visual da loja, muito menos em propaganda. Pra gente, o importante era ter os melhores gibis, nacionais ou gringos, pra galera gritar de alegria! Hoje, com as vendas online, a gente se ferrou. Não seguimos esta “tendência” e não temos como concorrer, apesar de termos fiéis clientes que sempre nos prestigiam. Uma coisa que ampliou também, em função do surgimento de novas editoras, foi a variedade que temos atualmente. Se por um lado não conseguimos ter todos os quadrinhos lançados, pois é muito difícil na atualidade trabalhar com editoras que não consignam, passamos a ampliar a curadoria, investindo em títulos que não são quadrinhos, mas que conversam com eles através de temas importantes para refletir sobre nossa humanidade ou desumanidade.

O Iticlub, nosso clube de leitura de quadrinhos, deu um oxigênio pra loja. Trouxe novos leitores, fidelizou e está formando leitores mais críticos, com capacidade de análise mais profunda.

Parece que acompanhar seus cartunistas amados pelo Instagram já satisfaz o leitor, mas likes não pagam contas

O quadrinista Lourenço Mutarelli em evento de lançamento Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente na Itiban Comic Shop

O quanto você acha que os quadrinhos brasileiros mudaram ao longo desses 30 anos? Você vê alguma mudança maior na forma como quadrinhos são produzidos e publicados?

Claro, mudou. O avanço tecnológico proporcionou novas ferramentas de comunicação, troca de informação, aprendizado e publicação. Qualquer um pode fazer quadrinhos, desde a criação até a venda. A quantidade de publicações independentes cresceu muito e os temas são os mais diversos. A movimentação das mulheres nos quadrinhos que explodiu em 2013 foi fantástica, elas ganharam mais espaço, mais visibilidade. Ao mesmo tempo, com todo esse avanço tecnológico e tantas ferramentas, tenho um pouco de medo em relação aos nossos cartunistas com a falta do jornal impresso, das tiras de jornais, onde tudo começou. Parece que acompanhar seus cartunistas amados pelo Instagram já satisfaz o leitor, mas likes não pagam contas.

E também tem uma proliferação de novos selos da linha mais punk, violenta, crítica e também bem humorada, que além das revistas lançam camiseta, boné, cueca, bandana… As feiras de quadrinhos e impressos dão um impulso pra essa nova galera, do faça você mesmo. Nossos quadrinistas estão sendo publicados em vários países, conquistando prêmios internacionais e trazendo a atenção de fora para nosso mercado. 

“Vimos crescer uma geração de artistas que está até hoje batalhando no mercado nacional e internacional”

O crítico e pesquisador Lielson Zeni durante evento de lançamento do álbum Cachalote na Itiban Comic Shop, na companhia de Rafael Coutinho, Daniel Galera, Daniel Pellizzari e Rafael Grampá

E em relação à cena de quadrinhos de Curitiba, quais as principais transformações que você notou nos artistas e na produção local ao longo desses 30 anos?

A Gibiteca de Curitiba teve papel fundamental para o surgimento de novos artistas. Quando abrimos a Itiban, sempre participávamos dos eventos no Solar do Barão organizados pela Gibiteca, como festivais de fanzines, shows, encontros de RPG, exposições… Vimos crescer uma geração de artistas que está até hoje batalhando no mercado nacional e internacional. Assim como outros festivais de Quadrinhos, a Bienal de Quadrinhos de Curitiba também incentivou o interesse pelos quadrinhos, surgindo uma geração de autoras e autores que se autopublicam, formam coletivos e participam de várias feiras gráficas pelo país. Isso aconteceu no mercado brasileiro em geral. Pessoas descobrindo as possibilidades de se contar uma história por meio dos quadrinhos.

Também fico curioso em relação às mudanças na dinâmica entre a loja e os artistas e editores. Como a interação entre vocês e os autores e as empresas que publicam quadrinhos se transformou ao longo desses 30 anos?

No começo o contato era feito por telefone/fax ou ao vivo, hoje por email e redes sociais, mas no fim, isso só acelerou o processo e o acesso às informações. A dinâmica é a mesma, tento acompanhar as editoras e os artistas para sincronizar os lançamentos.

“Todos os encontros com o Mutarelli foram emocionantes e, a cada novo lançamento, a loja parece um templo, onde ele tem o poder da palavra, faz a galera rir e se emocionar”

O crítico e pesquisador Rodrigo Scama em bate-papo com Pedro D’Apremont e Fabio Vermelho na Itiban Comic Shop

Você consegue listar os eventos mais memoráveis realizados na Itiban nesses 30 anos de atividade da loja? Houve algum lançamento em particular que foi mais marcante para você?

Não consigo, mas vou tentar. Todos os encontros na Itiban foram lindos. Com casa lotada ou não, é o melhor momento quando conseguimos aproximar o artista e o público, sair pra beber e dar risada. Bem, vamos lá: já falei lá em cima da primeira vez com o Mutarelli. Aliás, todos os encontros com ele foram emocionantes e, a cada novo lançamento na loja, parece um templo, onde o Lourenço tem o poder da palavra, faz a galera rir e se emocionar. Dá abraço e consola.

Além do Mutarelli, quem sempre vem lançar seus livros aqui são os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, e sempre com casa lotada de fãs. A Laerte veio lançar Muchacha e chegou arrasando de saia e salto alto. Lotou a loja. Foi lindo!

Teve o lançamento da Cachalote estreando aquele projeto da Companhia das Letras que unia um escritor e um quadrinista. No caso, Daniel Galera e Rafael Coutinho. Além dos dois, estava o Daniel Pellizzari e o Rafael Grampá. Danieis e Rafaeis com a mediação do Lielson Zeni. 

Finalmente consegui trazer o Rogério de Campos, que conhecemos desde o tempo da Conrad Editora e que nunca tinha pisado na loja, apesar de vários convites. Quando soube que a Veneta iria lançar o Manifesto Comunista em Quadrinhos neste ano, eu não resisti e enviei uma mensagem propondo um lançamento na Itiban. Falei com a Ana e ela passou pro Rogério, que perguntou quando seria . Eu respondi: “Primeiro de maio.” Ele aceitou na hora. 

O evento foi amplamente compartilhado nas redes sociais e atingiu pessoas não propriamente fãs de quadrinhos, mas do comunismo hehehe. Uma pessoa na plateia perguntou qual o conselho que ele daria hoje sob o atual governo e ele respondeu prontamente: “Cuidem-se uns dos outros.” 

“Precisamos formar uma crítica especializada”

Os críticos e pesquisadores Liber Paz e Rodrigo Scama em bate-papo com Rogério de Campos no lançamento de Manifesto Comunista em Quadrinhos na Itiban Comic Shop

Acredito que você também acompanhou o surgimento e desaparecimento de vários espaços de produção de conteúdo sobre quadrinhos. Qual análise você faz dos produtores de conteúdo sobre quadrinhos dos dias de hoje e do conteúdo produzido por essas pessoas?

Tenho saudade das matérias de quadrinhos publicadas nos jornais. Tinha o Diego Assis na Folha de São Paulo, o Telio Navega no jornal O Globo. Hoje, tem você e o Erico Assis escrevendo para os jornais, milhões de canais no YouTube e alguns sites. Com algumas exceções, a maior parte parece estar só querendo vender e não abrir espaço para uma crítica bacana. Precisamos formar uma crítica especializada.

“O modelo Amazon está acabando com as pequenas livrarias e a possibilidade de surgirem novas”

Mitie Taketani, sócia-proprietária da Itiban Comic Shop

Como a chegada da Amazon ao Brasil impactou os negócios da Itiban?

Não foi só a Amazon que impactou negativamente nos nossos negócios, foi o modelo Amazon de pré-venda e descontos, que editoras e grandes redes adotam, que está acabando com as pequenas livrarias e a possibilidade de surgirem novas. Daqui a pouco, as editoras vão ter que novamente pagar pra ficarem bem expostas nas “gôndolas” dos supermercados e pagar para fazer lançamentos com seus autores.

Como a crise do mercado editorial brasileiro tem impactado a rotina da Itiban?

Assim como todo brasileiro que não faz parte do 1% , eu só penso em como pagar as contas, como criar eventos que atraiam o público. A nossa única vantagem é que temos casa própria e nossas filhas já se formaram. Não consigo mais ler, tenho que ter sincronia e sensibilidade para saber o que pode vender, entender as necessidades das pessoas e procurar receber com agilidade. Em agosto/setembro tive que devolver 100% dos títulos que estavam consignados. Isso acabou comigo. Por não termos um sistema eficiente de controle de estoque e cadastro, tudo é feito na mão. Digitei cada título, Isbn, preço, etc, pra fazer a devolução – foram mais de 40 caixas grandes embora. A maioria das editoras não quer mais consignar, porque levaram calote com a quebra da Livraria Cultura e a Fnac pulando fora. A Amazon é ao mesmo tempo a heroína e vilã do mercado.

Sem a aprovação da lei do preço único, não tenho mais esperanças de continuar a trabalhar decentemente. O algoritmo vai substituir o livreiro. Boa sorte. Salvem a bibliodiversidade.

“Nunca planejamos nada para o futuro. Chegamos até aqui sem pensar muito longe, só no agora”

A fachada da Itiban Comic Shop

Desde o dia 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita, militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista que reflete muito do que é a nossa sociedade hoje. Qual você considera ser o papel de uma livraria independente como a Itiban dentro desse contexto?

Ser espaço para discussão e reflexão. Oferecer livros de qualidade.

Quais são os seus planos para o futuro da Itiban?

Nunca planejamos nada para o futuro. Chegamos até aqui sem pensar muito longe, só no agora. Num encontro de família, falando sobre estarmos passando por um momento ruim, a Yasmin comentou: “Desde a minha infância ouço vocês falarem isso”.

Me lembrei do meu primeiro parto, morri de dor antes e depois, achei que nunca mais ia engravidar e…. Quatro anos depois nasceu a Tamica! A Tami tem dado um novo fôlego pra loja e me faz lembrar de mim mesma quando sempre estava de bom humor e cheia de energia. Taí, quem sabe ela seja o futuro da Itiban.

Tami e Mitie Taketani após um dos encontros do clube de leitura Iticlub
Entrevistas / HQ

Papo com Luiz Navarro, coorganizador da Feira Canastra: “O mercado editorial tradicional realmente está em crise, mas a produção independente é efervescente”

Está marcada para o próximo fim de semana, dias 12 e 13 de outubro, em Belo Horizonte, a primeira edição da Feira Canastra de publicações independentes. Com entrada gratuita, o evento será realizado no espaço CentoeQuatro (Praça Rui Barbosa, 104), nos dois dias a partir das 11h e reunindo 64 expositores entre selos, editores e artistas independentes. Você confere a lista completa com o nome dos expositores e outras informações sobre a feira na página do evento no Facebook.

“Vamos trazer feirantes de várias outras cidades, numa pequena amostra do que tá sendo produzido no país, o que até agora a gente não via muito por aqui”, explica um dos coorganizadores da Canastra e um dos editores da revista Zica, Luiz Navarro, em papo por email com o blog.

Idealizador da feira ao lado da editora Ana Rocha, responsável pela Polvilho Edições, Navarro conta no papo a seguir como foi definida a linha curatorial do evento, fala sobre a decisão de sediar a Canastra no centro de Belo Horizonte e ressalta a importância de um festival de publicações independentes em tempos de crise do mercado editorial e de conservadorismo aflorado no país. Papo massa, saca só:

“A nossa principal expectativa é que os belo-horizontinos conheçam e despertem mais a atenção para o que tá sendo produzido em publicações independentes fora daqui”

O cartaz da Feira Canastra no espaço CentoeQuatro, onde será realizado o evento (Gabriel Caram)

Você pode falar, por favor, um pouco sobre o ponto de partida da Feira Canastra? Como esse projeto teve início? Quem são as pessoas envolvidas na produção do evento? 

A Canastra surgiu do desejo que nós, produtores de publicações de BH, sempre tivemos de realizar uma feira que estivesse dentro do circuito de feiras que já rola no Brasil há alguns anos, mas que a cidade ainda não estava inserida. Tanto eu, João [Perdigão] e Batista, pela Zica, ou a Ana Rocha, da Polvilho Edições, já participamos de várias feiras em outras cidades, mas a gente sentia que faltava uma feira em que quem é de BH pudesse conhecer o que tá sendo produzido em publicação independente e experimental em outras cidades. Do mesmo jeito, vários publicadores de outras cidades nos perguntavam sobre uma feira por aqui. As vezes a gente tem a impressão de que a cidade tava meio isolada, nesse sentido. Fizemos algumas pequenas feiras no esquema “na tora” há alguns anos atrás, como a Feira Gráfica, mas faltava realizar uma feira com uma produção um pouco melhor, com uma estrutura melhor. Pra Canastra, estamos envolvidos eu e a Ana Rocha, que idealizamos a feira e a sua identidade, o João Perdigão, que sempre esteve com a gente e tá ajudando na produção, a Isadora Moema, que tá ajudando muito com a divulgação, o Gabriel Caram e o Tarley McCartiney, que também tão ajudando na produção e vão produzir um mini doc sobre a feira, e a Renata da Matta, que tá fazendo a cenografia.

Publicações do selo A margem ; press, um dos expositores da Feira Canastra

Belo Horizonte tem uma tradição de eventos relacionados a quadrinhos e publicações independentes, penso principalmente no FIQ e na Faísca. Como a Feira Canastra se diferencia desses outros eventos?  

O FIQ e a Faísca são incríveis pelo público que alcançam e em como já conquistaram afetivamente os belo-horizontinos. O FIQ é um evento enorme, produzido pela própria prefeitura de BH, com vinte anos de história e um público imenso, de massa, com presença de grandes editoras do mercado. Eu mesmo lembro quando era adolescente e ficava fascinado em frequentar um evento assim, destinado só aos quadrinhos, na minha cidade. E a Faísca tem um mérito maravilhoso de agregar os produtores não só de publicações, mas também muitos jovens artistas visuais de BH. Com uma periodicidade mensal, a Helen e o Jão (os criadores) conseguiram envolver o público de um jeito muito especial. E não para por aí: BH tem vários outros eventos dedicados a literatura, como as feiras Textura e Urucum, o Festival Literário Internacional (FLI-BH), o Salão do Livro Infanto Juvenil, a Primavera Literária e o Festival Livro na Rua. Já a Canastra se difere um pouco destes todos porque tem um recorte e uma curadoria inédita que a gente considera muito importante, que são as publicações independentes e experimentais de pequenos coletivos e editoras do Brasil inteiro, seja em artes gráficas, fanzines, quadrinhos ou literatura. Não se limita a isso, mas é essencial para definir a nossa identidade. Vamos trazer feirantes de várias outras cidades, numa pequena amostra do que tá sendo produzido no país, o que até agora a gente não via muito por aqui.

“Estamos investindo no estímulo de um mercado que aparentemente é considerado agonizante, que é o mercado editorial”

Publicações da editora Cultura e Barbárie, um dos expositores da Feira Canastra (Marina Moros)

Aliás, qual análise vocês fazem da cena de publicações independentes de Belo Horizonte? Há algum movimento ou alguma tendência local que chame a atenção de vocês?  

Belo Horizonte é uma cidade com um cenário cultural muito rico. É impressionante a quantidade de artistas, seja das artes visuais, música, literatura, teatro e etc, que estão produzindo – e produzindo com muita qualidade. Nas publicações independentes não é diferente. Temos muito boas pequenas editoras, como a Relicário e a Chão da Feira, que estão produzindo livros com um apuro editorial excelente. Temos alguns coletivos de criação gráfica muito bons também, como a Entrecampo, que tá investindo muito na pesquisa em risografia, ou a Tipografia do Zé e a 62 Pontos, que têm um trabalho incrível também. Ao mesmo tempo a gente tem a Polvilho, com livros de artista, ou A Zica, uma publicação underground. E mais um monte de artistas e coletivos surgindo e fazendo coisas diferentes. Daí, não dá pra falar numa tendência única. A gente tem é diversidade mesmo e isso é muito bom. 

Por que fazer a Feira Canastra na Praça Rui Barbosa? Por que essa opção pelo centro de Belo Horizonte? 

O centro de BH é uma região que passou por uma ressignificação muito importante nos últimos anos. Houve um movimento de reocupação do espaço público pela juventude e pela periferia que começou ali do lado, na Praça da Estação, com eventos como a Praia da Estação, o Duelo de MCs e o carnaval de rua. É um lugar democrático, de relativo fácil acesso a diversos pontos da cidade e isso é muito importante. Além disso, o espaço do Centoequatro é um lugar ideal para receber um evento como uma feira de publicações por se tratar de um prédio histórico, amplo e confortável.

“Talvez agora seja o caso de pensar um pouco mais alto, de como popularizar a leitura e o acesso ao livro”

Trabalhos do coletivo uruguaio Microutopias, um dos expositores da Feira Canastra (Darío Marroche)

Qual a expectativa de vocês para essa primeira edição da Feira Canastra? 

A nossa principal expectativa é que os belo-horizontinos conheçam e despertem mais a atenção para o que tá sendo produzido em publicações independentes fora daqui. E que esse momento sirva também como uma oportunidade para que os produtores de outras cidade conheçam melhor o que tá sendo produzido aqui – e vice-versa, que o pessoal daqui se inspire com o que vem de fora também – e assim surjam amizades, parcerias e intercâmbios criativos, que é das coisas mais legais em feiras de publicação.

Desde o dia 1º de janeiro de 2019 o Brasil é governado por um presidente de extrema-direita, militarista, pró-tortura, fascista, misógino, machista, xenófobo, homofóbico e racista que reflete muito do que é a nossa sociedade hoje. Qual vocês consideram o papel de uma feira independente como a Canastra dentro desse contexto? 

Produzir uma feira de publicações independentes, além do esforço quase heróico de se produzir cultura no Brasil, é um ato político por vários motivos. Estamos produzindo uma feira de publicações com recursos públicos e dando espaço para uma curadoria bem democrática e diversificada: diversas editoras e publicações enfocam conteúdo relacionado à temática LGBT, protagonismo feminino ou inclusão racial, por exemplo. Vários são jovens artistas que vêm da periferia.  É muito importante que a gente crie estes espaços de produção. E, além disso, há a micropolítica. Estamos investindo no estímulo de um mercado que aparentemente é considerado agonizante, que é o mercado editorial. Isso tem uma complexidade interessante: o mercado editorial tradicional realmente está em crise, mas a produção independente é efervescente.  Ela segue forte e cada vez mais rica e diversificada, com produções muito sofisticadas ou experimentações muito boas. O público está atento a isso e responde muito bem, a gente vê isso claramente nas feiras. E estamos falando de produções em papel, produções impressas, que estavam teoricamente condenadas a desaparecer. Mas, pelo contrário, as pessoas tem um apreço muito especial ao que é feito com apuro gráfico e editorial, com uma materialidade física, que se pode tocar. As pessoas gostam disso. É um contraponto à ditadura hipnótica do conteúdo digital onipresente que a gente vive. Isso, pra mim, é micropolítica no melhor sentido. Sem contar que em uma feira o público tem contato direto com o artista, o autor ou o editor. Isso é muito relevante. É verdade que o público ainda é muito restrito. Infelizmente, no Brasil, o hábito de leitura é muito pequeno. Isso acontece não porque um livro é caro: não se lê porque nunca houve estímulo real ao hábito de leitura. É uma questão cultural, fruto de décadas de precarização da educação básica, e sem perspectivas de boas mudanças por enquanto. Mas, se estamos aqui investindo em publicação independente, podemos ser um pouco loucos mas estamos tentando fazer a nossa parte. Talvez agora seja o caso de pensar um pouco mais alto, de como popularizar a leitura e o acesso ao livro. Desconfio que já tem gente pensando nisso. Os quadrinhos, por exemplo, são uma ótima alternativa nesse sentido, pois têm um apelo e uma aceitação pelo público muito bons e um potencial de narrativas e experimentações gráficas incríveis

Material de divulgação da Feira Canastra
HQ

Confira a arte de Marcello Quintanilha para o aniversário de 30 anos da Itiban Comic Shop

A Itiban Comic Shop de Curitiba é um dos principais polos dos quadrinhos brasileiros e celebra seus 30 anos de existência no próximo sábado, dia 12 de agosto – você confere outras informações sobre a festa de aniversário clicando aqui. Ainda devo escrever um pouco mais sobre esses 30 anos da Itiban, mas compartilho a arte produzida pelo quadrinista Marcello Quintanilha para celebrar essa nova idade da loja.

E compartilho não apenas por ser um belo trabalho do autor de obras como Talco de Vidro, Tungstênio e Luzes de Niterói, mas também pela arte estar sendo bloqueada no Facebook. Estranho, beeem estranho, viu? Ficam aqui o registro do ocorrido, a celebração do trabalho de Quintanilha e os parabéns à Itiban.

A arte de Marcello Quintanilha para a festa de aniversário de 30 anos da Itiban Comic Shop
Cinema / HQ / Séries

Vitralizado, 7 anos!

[[A designer e ilustradora Giovanna Cianelli assina a arte do postal de aniversário de sete anos do Vitralizado. O lançamento do postal está marcado para os dias 19 e 20 de outubro, na Feira Des.Gráfica, em São Paulo. Você confere as edições prévias dos postais comemorativos de aniversário do Vitralizado ao final do post]]

Vitralizado, 7 anos!

O Vitralizado completa hoje, dia 3 de outubro de 2019, 7 anos de existência. Essa nova idade do blog é celebrada em meio a reformas. Estou cada vez mais certo dos princípios editoriais do blog, mas nos últimos dois anos tenho revisto o ritmo das postagens, os formatos dos posts e o conteúdo que compartilho por aqui.

Apesar da discussão predominante sobre quadrinhos, HQs não eram o foco principal do blog quando ele entrou no ar em 2012. O Vitralizado surgiu como um espaço de generalidades e notícias quentes, mais condizente com o meu trabalho na época, como repórter de cultura do jornal O Estado de S. Paulo.

Hoje não tenho mais interesse em produzir 60 posts por mês. O blog também dedica cada vez menos espaço a hard news. O conteúdo compartilhado por aqui busca ser cada vez mais aprofundado e crítico, cobrindo a vanguarda da linguagem dos quadrinhos sem jamais deixar de fazer oposição às lideranças de extrema-direita que governam o país e refletem muito do que é a nossa sociedade.

Acredito cada vez mais no jornalismo independente do blog, voltado à prestação de serviço público, sem os vínculos institucionais e publicitários tão disseminados entre produtores de conteúdo e que desacreditam a maior parte do material produzido por esses formadores de opinião.

Também reforço meu empenho em colocar lado a lado, sem distinção, os trabalhos de quadrinistas brasileiros e estrangeiros, sejam eles consagrados ou estejam em início de carreira. Ao longo dos 12 meses do sétimo ano do Vitralizado você encontrou entrevistas exclusivas com quadrinistas, editores e jornalistas especializados como Abraham Diaz, Adrian Tomine, Aline Lemos, Aline Zouvi, Box Brown, Carol Almeida, Chabouté, Claudio Martini, Clarice G. Lacerda, Dandara Palankof, David Lloyd, Deborah Salles, Diego Gerlach, Emil Ferris, Emilio Fraia, Emily Carrol, Emilly Bonna, Érico Assis, Fabio Vermelho, Felipe Portugal, Galvão Bertazzi, Guilherme Kroll, Guy Delisle, Helô D’Ângelo, Ing Lee, Jason, Jeff Smith, Jillian Tamaki, Kate Evans, Lobo Ramirez, Lovelove6, Lucas Gehre, Luiz Berger, Marcello Quintanilha, Maria Trika, Panhoca, Paula Puiupo, Paulo Floro, Pedro Dapremont, Rodrigo Okuyama, Rodrigo Rosa, Roger Cruz, Rogério de Campos, Sergio Chaves, Sofia Nestrovski, Thiago Borges, Tom Gauld, Victor Bello e Wagner Willian.

E muito desse material publicado no Vitralizado acabou se estendendo para além do blog, sendo publicado em meios como UOL, Folha de São Paulo, O Globo e Caderno Globo, da TV Globo; e sendo apresentado em formato de curso realizado no Sesc Pompeia, em São Paulo. Pela quarta vez também foi realizado o Prêmio Grampo, em parceria com o blog Balbúrdia. E prometo para breve novidades sobre uma nova parceria, com o Instituto Itaú Cultural, em um projeto que deverá aprofundar muito do conteúdo presente aqui no blog.

Por enquanto é isso. Vou tocando as reformas do blog por aqui e agradeço suas visitas ao longo desses últimos sete anos. Tava massa, ficou melhor e suspeito que vá melhorar. Inté.

O postal comemorativo de 4 anos do Vitralizado, assinado por Jairo Rodrigues
O postal comemorativo de 5 anos do Vitralizado, assinado por Shiko
O postal comemorativo de 6 anos do Vitralizado, assinado por Benson Chin
O postal comemorativo de 7 anos do Vitralizado, assinado por Giovanna Cianelli