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Entrevistas / HQ

Paula Puiupo expõe originais na mostra Casca de Ferida, em São Paulo

A quadrinista Paula Puiupo selecionou 36 obras originais para expor na mostra solo Casca de Ferida. A exposição fica em cartaz na 9ª Arte Galeria (R. Augusta 1371, loja 113), em São Paulo, entre os dias 27 e 31 de agosto. Você confere outras informações sobre a abertura da mostra na página do evento no Facebook, clicando aqui.

Entre ilustrações, páginas da HQ Gume e pinturas, as obras escolhidas por Puiupo para a exposição foram todas produzidas entre 2018 e 2019, sendo a maior parte delas produzida com o uso de carvão e tendo como principal foco temas relacionados a memória e infância.

“Sempre que preciso fazer um apanhado de trabalhos antigos paro um tempo pra pensar sobre o que mudou de lá pra cá”, conta a autora ao blog sobre o balanço feito por ela enquanto elaborava a curadoria dos trabalhos que serão expostos. No papo a seguir, Puiupo fala sobre os bastidores de Casca de Ferida. Papo bão, saca só:

“Mesmo uma pintura sozinha tem narrativa, pode não ser sequencial, mas tem coisas pra contar, tem um processo gradual ali”

Um dos trabalhos de Paula Puiupo que estará em exposição na 9ª Arte Galeria

Você pode falar um pouco sobre a curadoria dessa exposição na 9ª Arte Galeria? Ela é feita a partir de algum recorte específico dos seus trabalhos?

Visto que boa parte do meu trabalho é digital, já tive a limitação de selecionar trabalhos dentro da minha produção em mídia tradicional. Por terem esse ponto comum, as obras acabam conversando entre si na plasticidade. Também são todos dos anos de 2018 / 19, que foi quando comecei a experimentar mais com carvão, temas rondando memória e infância… Constantes.

Um dos trabalhos de Paula Puiupo que estará em exposição na 9ª Arte Galeria

No catálogo da exposição consta que as obras que estarão expostas são produzidas a partir de três materiais: grafite, giz pastel oleoso e lápis de cor. O que mais te interessa em cada um desses materiais? Você tem alguma técnica e material de trabalho preferidos?

No carvão e no lápis de cor me atrai a precisão que o suporte de madeira em torno do pigmento me dá, os acidentes são mais controlados e posso ser mais minuciosa do que se usasse um pincel ou algo assim. Já no pastel oleoso, os acidentes são mais audazes, o material tem uma tridimensionalidade maior, trabalhar cor com eles é um processo mais dinâmico. Adoro o aveludado que ele deixa no papel, e poder usar os dedos para espalhar a tinta me faz sentir realmente em contato com o material. São processos bem diferentes e cada um requer um tipo de paciência diferente, gosto de exercitar essas paciências.

Essa exposição reúne ilustrações, pinturas e páginas de quadrinhos. Existe alguma distinção na sua cabeça em relação a como encarar cada um desses trabalhos? É muito diferente para você o ato de pensar e trabalhar em uma tela do processo de produzir uma HQ ou fazer uma ilustração?

É engraçado, não vejo como coisas tão diferentes. Talvez pelo meu trabalho de quadrinhos não ter os pés fincados no linear. Mesmo uma pintura sozinha tem narrativa, pode não ser sequencial, mas tem coisas pra contar, tem um processo gradual ali. O processo de fazer a série de pinturas expostas foi muito semelhante com o pensar em forma de quadrinhos, e vice-versa.

“Acho que no momento estou num processo contínuo de sintetizar o meu traço máximo possível”

Uma página da HQ Gume, de Paula Puiupo, que estará em exposição na 9ª Arte Galeria

Eu imagino que uma exposição como essa acaba também sendo uma oportunidade para você refletir e pensar sobre a sua produção. Isso aconteceu com você? Você nota muitas mudanças e transformações na forma como você pensa e faz quadrinhos ao longo dos anos?

Nossa sim, sempre que preciso fazer um apanhado de trabalhos antigos paro um tempo pra pensar sobre o que mudou de lá pra cá… Acho que no momento estou num processo contínuo de sintetizar o meu traço máximo possível. E também num processo de me distanciar do que por muito tempo eu tive como uma forma “correta” de fazer quadrinhos. Quero cada vez mais me desprender do tradicional e só me divertir desenhando.

O que mais te interessa em termos de quadrinhos hoje, Paula? O que você mais tem interesse em ler e tentar fazer e experimentar com a linguagem das HQs?

Hoje vejo quadrinhos como uma arte que pode se apropriar de linguagens qualquer estímulo visual. Por mais que não transpareça tanto, o que mais me interessa em quadrinhos são os diálogos e a relação entre personagens, coisas que não exploro tanto no meu próprio trabalho, mas ultimamente tenho assistido filmes e prestado muita atenção na naturalidade da fala, pra mim um quadrinho que captura essa naturalidade é um quadrinho bem feito. Se ele tem algo sincero e maduro pra dizer, o resto é o de menos.

Um dos trabalhos de Paula Puiupo que estará em exposição na 9ª Arte Galeria

Pra encerrar, no que você está trabalhando agora? Você já tem alguma próxima publicação em vista? Se sim, o que pode falar sobre ela?

Tô trabalhando em algumas coisas… Os quadrinhos como sempre andam em passos calmos, tenho uma pequena série que faço todo mês para o Patreon e pretendo publicar um compilado deles este ano ainda, quem sabe em outubro… Também tenho trabalhado bastante com ilustração e narrativas menos sequenciais, quem sabe um quadrinho mais experimental não sai daí.

Uma página da HQ Gume, de Paula Puiupo, que estará em exposição na 9ª Arte Galeria
Entrevistas / HQ

Papo com Thiago Borges, editor da revista Banda: “É fundamental a existência de outros veículos com voz própria, que fujam do consumismo e do hype”

Está no ar a campanha de financiamento coletivo da revista Banda. O projeto consiste em uma publicação jornalística bimestral de 36 páginas idealizada pelos jornalistas Carlos Neto (Papo Zine), Gustavo Nogueira (Êxodo) e Thiago Borges (O Quadro e o Risco) e pelo designer Douglas Utescher, um dos sócios da loja e editora Ugra Press – selo pelo qual a revista será impressa. O montante pedido para impressão da publicação é de R$ 7.950 e a expectativa é que o lançamento do primeiro número ocorra em outubro de 2019.

Eu estou entre os colaboradores da primeira edição da Banda ao lado da ilustradora e quadrinista Mariana Waetcher, autora da arte da capa da revista; da pesquisadora, tradutora e crítica de quadrinhos Maria Clara Carneiro; e do quadrinista, ilustrador, fotógrafo e tatuador Edson Bortolotte.

Com a proposta de apresentar edições temáticas, o primeiro número da revista terá como foco os clássicos da HQs nacionais. Editor da Banda, Thiago Borges conta que o objetivo dessa edição de estreia não é cravar uma lista de obras canônicas, mas trazer uma discussão sobre o conceito de clássico e refletir sobre alguns dos trabalhos mais importantes já publicados no país. Mas também há um gancho factual para o tema.

“Em 2019, completam-se vintes anos da publicação de O Dobro de Cinco, a primeira parte de Diomedes, a mais conhecida HQ do Lourenço Mutarelli”, explica Borges em conversa com o blog sobre o álbum tido por muitos como o grande clássico dos quadrinhos nacionais – daí a capa de Mariana Waechter, inspirada no detetive que protagoniza a obra, e a matéria principal da revista, uma entrevista com Mutarelli conduzida por Carlos Neto.

Você apoia a campanha de financiamento coletivo do primeiro número da Banda clicando aqui. A seguir, você lê a íntegra da minha entrevista com Thiago Borges, o editor da revista. Papo massa, saca só:

Afinal, o que é um clássico? Num país como o Brasil, com tão pouca leitura e inúmeras obras relevantes fora de catálogo, lidas por pouquíssimas pessoas, é possível levantar esse debate?

O logo da revista Banda

Eu queria saber sobre o ponto de partida da revista. Como a Banda começou a tomar forma? Qual a origem desse projeto?

Acho que todo mundo que, de uma forma ou de outra, mexe com quadrinhos tem certa vontade de criar um projeto especial pra ser chamado de seu. Um material pra estar impresso nas prateleiras das lojas, reunindo pessoas talentosas e com quem você tenha afinidade. Dá pra dizer que a revista surge desse conceito, sendo o Gustavo Nogueira a pessoa a colocá-lo em prática. Foi ele quem chamou a mim e ao Carlos Neto no começo do ano pra trocarmos ideia a respeito de fazer algo juntos. Uma revista, uma antologia, enfim, qualquer coisa pra sair da internet e estar presente no mundo físico. 

Nada contra a internet, pelo contrário! Adoro escrever meu blog e adoro a forma como, no online, não se tem limitação de espaço. Você pode escrever textos gigantescos ou criar vídeos enormes e publicá-los sem peso na consciência em relação a custos com gráfica, veiculação etc. Porém, ao mesmo tempo, os conteúdos acabam se tornando muito voláteis. Ou a pessoa já segue um site/canal e o acessa frequentemente para conferir as novidades, ou ela precisa dar sorte de trombar com uma postagem em rede social pra saber que tem material novo no ar. E com algoritmos limitando alcances, seja no Facebook, Instagram e outras, chegar ao público fica cada vez mais complicado.

Com um impresso, uma revista no caso, o leitor já terá noção da periodicidade, facilitando o consumo. E ainda tem aquela “aura” de pegá-la nas mãos, dedicar um tempo exclusivo a ela. É uma leitura diferente de estar sentado no computador com dezenas de abas abertas, música rolando no fone de ouvido etc.

Mas, voltando à gênese do negócio, no mesmo dia em que Gustavo, Carlos e eu nos encontramos pra começar a esboçar esse projeto, encontrei o Douglas Utescher no metrô e comentei com ele sobre a ideia de desenvolver um projeto com os rapazes. Nessa mesma reunião, surgiu algo como “precisamos incluir a Ugra nisso!” (risos). Era algo óbvio: nós todos nos vemos quase semanalmente, participando de eventos, bate-papos. Surgir algo dessa amizade foi muito natural (e incluo nisso também o convite a você, Ramon, para ser colaborador da edição de estreia).

“O principal, de verdade, será oferecer um conteúdo que justifique estar impresso, sem ser pedante ou rasteiro”

Os quatro idealizadores da revista Banda: Carlos Neto, Douglas Utescher, Gustavo Nogueira e Thiago Borges

O que você pode adiantar sobre a linha editorial da revista? 

Tentaremos fazer algo plural, com olhar crítico, sempre debatendo novas perspectivas a respeito de assuntos que possam ser considerados velhos. A edição de estreia será um exemplo disso: a pergunta “quais os clássicos dos quadrinhos brasileiros?” já foi feita e respondida por muita gente. E, agora, a gente pega um gancho interessante (os vinte anos da publicação de O Dobro de Cinco, a primeira parte de Diomedes, do Lourenço Mutarelli) para refletir sobre esse tema sob um viés diferente. Afinal, o que é um clássico? Num país como o Brasil, com tão pouca leitura e inúmeras obras relevantes fora de catálogo, lidas por pouquíssimas pessoas, é possível levantar esse debate?

O principal, de verdade, será oferecer um conteúdo que justifique estar impresso, sem ser pedante ou rasteiro. Minha inspiração está nas grandes revistas sobre quadrinhos, como The Comics Journal e PanelxPanel. Não estou dizendo que seremos a Comics Journal brasileira – seria até injusto nos comparar a uma verdadeira instituição das HQs mundiais e colocar uma pressão dessas em cima de nosso projeto, que ainda dá seus primeiros passos. Porém, sem essa inspiração em grandes trabalhos já consolidados, a Banda nem existiria. Por isso mesmo, temos uma ideia simples a respeito do público-alvo que queremos atingir: leitores de gibis, sejam pessoas experientes ou iniciantes, focadas em trabalhos de massa ou alternativos.

E outra coisa de extrema importância que vale ser comentada: não seremos apenas Carlos, Douglas, Gustavo e eu (a equipe fixa) os responsáveis por produzir a revista. Desde o início do projeto, temos a ideia de trazer colaboradores das mais variadas vivências para escrever, ilustrar, desenhar capas, ter colunas etc. O objetivo é contar com pessoas de diferentes visões de mundo para fazer com que a revista seja abrangente nas temáticas e abordagens.

“A ideia não é cravar uma lista de obras, mas, sim, trazer a discussão à tona, analisar o próprio conceito de clássico e com isso entender os quadrinhos importantes feitos em nosso país”

Duas páginas da entrevista do jornalista Carlos Neto com o quadrinista Lourenço Mutarelli presentes na primeira edição da revista Banda
Duas páginas da entrevista do jornalista Carlos Neto com o quadrinista Lourenço Mutarelli presentes na primeira edição da revista Banda

Por que tratar dos clássicos dos quadrinhos brasileiros na edição de estreia da revista?

Como a revista é temática, e teremos ainda uma campanha no Catarse para financiá-la, a primeira edição deveria ser algo instigante ao leitor. Propor um debate como esse sempre vai chamar a atenção de quem gosta de quadrinhos no Brasil. Então, esse é um motivo. Existe outra razão também, mais factual: em 2019, completam-se vintes anos da publicação de O Dobro de Cinco, a primeira parte de Diomedes, a mais conhecida HQ do Lourenço Mutarelli. E Diomedes é um paradigma na produção nacional, pois abriu as portas para esse tipo de publicação de fôlego, que foge da tradição do humor e tem características mais literárias na condução da trama. Ainda dá pra citar toda a aura em torno do Mutarelli, um cara recluso que fez trabalhos geniais e passou a renegá-los. Isso tudo gera interesse e achamos válido fazer essa pergunta “quais são os clássicos do gibi brasileiro?” a partir daí. A ideia não é cravar uma lista de obras, mas, sim, trazer a discussão à tona, analisar o próprio conceito de clássico e com isso entender os quadrinhos importantes feitos em nosso País.

Por que convidar a ilustradora e quadrinista Mariana Waetcher para assinar a capa? Vocês passaram alguma pauta para ela nesse “remake” do Diomedes?

Nós queríamos alguém que tivesse certa proximidade com o trabalho do Lourenço, na questão do traço mesmo, pois aí seria possível fazer a ligação entre a capa e o tema que estamos abordando. E a Mariana bebe muito do estilo dele. A forma como utiliza preto e branco, como insere detalhes no desenho, como faz as figuras humanas serem meio disformes, trazendo uma aura de irrealidade para o jogo. Enfim, uma honra contarmos com um talento desse logo porte em nosso primeiro número. E não poderíamos ficar mais felizes com o resultado final. Passamos um briefing básico sobre o assunto dessa edição, resumos bem básicos das matérias que estão sendo preparadas. A ideia é deixar o artista o mais livre possível para criar, sem muitas limitações. E como cada capa terá um desenho exclusivo de convidado, queremos ser surpreendidos sempre.

Por que a opção pelo Catarse?

Porque não temos dinheiro (risos). Bom, não deixa de ser verdade. Mas a questão é séria: todos os envolvidos na criação trabalham com quadrinhos de forma independente, sem ligação com grandes corporações. Daí, não existe outra alternativa a não ser optar por um financiamento coletivo. Acho que a união de pessoas que já possuem certo reconhecimento na área, incluindo também os eventuais colaboradores, pode ajudar a fazer o projeto virar. Faremos na revista o mesmo trabalho plural e de qualidade que cada um possui individualmente.

Vale lembrar ainda que a campanha vai bancar somente a primeira edição. Com ela impressa, será possível dar sequência aos demais números. E a campanha é do tipo “tudo ou nada”. Ou atingimos o valor total ou a publicação não existirá.

“Veículos voltados para a indicação de compras são importantes, mas não podem ser os únicos a terem audiência”

Print assinado pelo quadrinista Kainã Lacerda que presente na campanha de financiamento coletivo da revista Banda

A produção de conteúdo sobre quadrinhos na internet brasileira está cada vez mais voltada pro consumo. Desde a chegada da Amazon no Brasil há uma proliferação de canais no YouTube e sites especializados voltados pra indicação da compra de HQs. Qual é o papel da Banda dentro desse contexto?

Como citei anteriormente, todos da equipe fixa trabalham com HQs de forma independente. Com a revista, seguiremos assim, sem se render ao aspecto comercial da coisa. A opção por edições temáticas vai ao encontro disso: queremos que cada Banda possa ser lida depois de muito tempo de lançada, pois terá uma certa atemporalidade nos assuntos. E essa escolha editorial também traz independência, pois não precisaremos incluir pautas ligadas às notícias ou lançamentos do dia a dia, ao que está vendendo ou na moda. 

Pra mim, veículos voltados para a indicação de compras são importantes, mas não podem ser os únicos a terem audiência. É fundamental a existência de outros veículos com voz própria, que fujam do consumismo e do hype. Existem vários desse tipo, e é nesse espaço onde a Banda se encaixará.

Quais os planos de vocês pro futuro da revista? A segunda edição já está em produção? Vocês têm alguma periodicidade em mente?

Confiamos, de verdade, que a campanha possa dar certo. Esperamos que bastante gente compre a ideia desse projeto, que foi (e está sendo) pensado com carinho. A revista será bimestral. A edição de estreia será lançada em outubro – quem sabe até possamos participar da feira Des.Gráfica, em São Paulo – e a segunda, em dezembro. Já temos o tema dela (e também o da terceira edição) e um esboço das pautas a serem incluídas, mas está cedo para divulgarmos (risos). O foco é fazer o primeiro número virar.

A capa da primeira edição da revista Banda, com arte assinada pela quadrinista e ilustradora Mariana Waechter
Cinema

Escafandro Podcast: O melhor da década no cinema

Está no ar a 17ª edição do Escafandro Podcast! Dessa vez, eu e os meus amigos Jairo Rodrigues e André Graciotti lembramos de alguns dos nossos filmes preferidos na década de 2010 e conversamos sobre alguns dos momentos mais memoráveis do cinema nesses últimos 10 anos. Época boa, viu? Tá cada vez mais difícil encontrar qualquer coisa em cartaz que não seja super-herói, mas acredito que o saldo tenha sido positivo.

Você baixa o programa Escafandro Podcast: O melhor da década no cinema clicando aqui e também pode seguir o nosso Tumblr e ouvir o Escafandro no nosso canal no YouTube, pelo iTunes, pelo Stitcher e agora também pelo Spotify. Como preferir. Dá o play!

Entrevistas / HQ

Papo com Lucas Gehre, autor da série Quadradinhas: “Acredito que o conteúdo e a estrutura podem se influenciar mutuamente e que é interessante trabalhar com possíveis variações nesse equilíbrio”

Está marcado para sábado, 17 de agosto, o lançamento de Quadradinhas 2, a segunda coletânea da série homônima do quadrinista Lucas Gehre. A sessão de autógrafos com o autor está marcada para começar às 16h de sábado, na loja da Ugra (Rua Augusta, 1371, loja 16), em São Paulo. Você encontra outras informações sobre o lançamento na página do evento no Facebook, clicando aqui.

Apesar de algumas investidas prévias de Gehre no formato fixo que caracteriza o projeto, as Quadradinhas tiveram início em 2010, quando o autor produziu aquela que ele considera a primeira leva de quadrinhos da série. Publicadas na primeira coletânea das Quadradinhas, lançada em 2016, as 10 tiras iniciais foram produzidas para o Concurso de Ilustração da Folha de 2010, no qual ele ficou em segundo lugar.

O projeto só foi retomado em 2012, já com seu nome oficial, publicado semanalmente no blog da revista Samba. A periodicidade semanal durou até 2015, quando a série passou a ser diária. Até hoje, já foram publicadas mais de mil e duzentas Quadradinhas e as coletâneas impressas da série apresentam as tiras em ordem cronológica.

“Aprendi a importância de continuar produzindo, de desenvolver um trabalho que eu consiga produzir no ritmo que me proponho e atingindo o resultado que eu pretendo, em termos de desenho e produto final”, conta Gehre em bate-papo por email com o blog sobre uma das lições desse período de quase sete anos de produção ininterrupta de um dos projetos mais longevos das HQs nacionais.

Na conversa a seguir, Gehre lembra o ponto de partida dos experimentos que resultariam nas Quadradinhas, fala sobre as técnicas utilizadas por ele e sobre a rotina de produção do projeto e também apresenta algumas de suas principais reflexões decorrentes desses sete anos de Quadradinhas. Papo massa, saca só:

“Muitas vezes eu fecho a estrutura da ‘página’ de uma Quadradinha antes de saber qual vai ser o conteúdo, e daí a estrutura acaba indicando possibilidades narrativas”

Uma das HQs publicadas em Quadradinhas 2, de Lucas Gehre

Você lembra do ponto de partida das Quadradinhas? Houve algum instante ou algum estímulo em particular que te fizeram dar início a esse projeto?

Antes das Quadradinhas ‘mesmo’ eu já estava explorando o formato das tiras e alguns quadrinhos com quase a mesma estrutura que eu uso na série. Entre 2007 e 2009, fiz muitos quadrinhos nesses formatos super curtos, trabalhando muito em cadernos, em uma produção bem espontânea. Algumas coisas dessa fase foram publicadas na primeira revista Samba e outras no meu primeiro livro ‘solo’, Amarelo, Laranja e Vermelho, composto por três livretos com material desses cadernos. Daí em 2010 quando rolou aquele concurso da Folha, eu fiz o que eu considero as 10 primeiras Quadradinhas e fiquei em segundo lugar. Nesse período rolava o blog da Samba e eu produzia uma das séries semanais que a gente publicava lá, onde fiz várias coisa diferentes, mais curtas, em temáticas e estilos bem variados. Em 2012 eu retomei o formato das Quadradinhas, aí que tive que nomear o material, porque no blog precisava ter um título pra série. Foi do formato de série pro blog que veio também o lance de numerar cada uma, que eu mantive quando passei a publicar no Facebook e agora estou publicando no Instagram também.

Por que as Quadradinhas têm o formato que têm?

A escolha por esse formato tem um lado que vem da exploração dos grids de página de quadrinhos e o meu trabalho em geral tem a ver com isso, com estrutura e experimentação. Mas tem um lado que foi meio arbitrário, é um formato em que eu cheguei e achei interessante. Isso tem a ver com um aspecto que eu acabei incorporando no trabalho, onde muitas vezes eu fecho a estrutura da ‘página’ de uma Quadradinha antes de saber qual vai ser o conteúdo, e daí a estrutura acaba indicando possibilidades narrativas. Muitas vezes a gente pensa que a história é que deve indicar a estrutura, mas eu acredito que o conteúdo e a estrutura podem se influenciar mutuamente e que é interessante trabalhar com possíveis variações nesse equilíbrio.

“Continuo fazendo, continuarei imprimindo, virou um projeto a longuíssimo prazo”

O flyer do evento de lançamento de Quadradinhas 2, marcado para o dia 17 de agosto, na loja da Ugra, em São Paulo

Você começou a publicar as Quadradinhas em 2010, hoje já são mais de mil e duzentas tiras. Que balanço você faz entre o que o projeto era, quando surgiu, e o que ele é hoje?

Quando comecei a série o pensamento sobre esse trabalho era mais imediato, tipo ‘fazer uma série agora’, ‘inscrever no concurso’, mas quando eu transformei em série semanal, depois de alguns meses entendi que seria legal manter essa continuidade a longo prazo. Depois intensifiquei a produção para o ritmo diário, fiz campanha no Catarse e o primeiro livro impresso. Ver a série num livro, duzentas Quadradinhas, lado a lado, deu outra força pro projeto, permitiu outra leitura. Ficou mais evidente o vocabulário próprio das Quadradinhas, a identidade desse trabalho. Acho interessante também mencionar que nas edições impressas eu estou publicando todas, na ordem em que foram feitas, então dá pra ver como eu fui passando por temas, cores, quando teve mais abstratas ou mais narrativas. Agora estou lançando o segundo livro impresso, depois de outra campanha no Catarse. E é isso, já são 1200, já dava pra preencher mais quatro livros. Continuo fazendo, continuarei imprimindo, virou um projeto a longuíssimo prazo mesmo.

Em qual momento a produção das Quadradinhas se tornou diária? Por que se impor essa periodicidade?

Fiquei quase três anos fazendo semanalmente, entre 2012 e 2015. O ritmo semanal já é um desafio, mas depois desse período eu já estava bem seguro, com um método bem organizado e eficiente de produzir. Então eu resolvi impor o ritmo diário ali no final de 2015. A tirinha tem essa relação com a publicação diária, as tiras de jornal, tradicionalmente, têm essa periodicidade. Combina com esse tipo de narrativa curtíssima, que proporciona uma leitura muito rápida, mas daí todo dia você vê aquilo de novo e vai criando uma relação duradoura. Funciona bem pro público, cabe em qualquer momento do seu dia, não exige muito tempo de concentração. É legal ver como às vezes uma tirinha mexe com a pessoa, que depois volta e comenta, como às vezes aquela experiência tão rápida pode proporcionar uma reflexão ou uma dúvida, ou quando vem alguém e oferece uma interpretação muito particular, além da intenção original que eu possa ter colocado ali.

“O meu processo é bem eficiente e consigo fazer uma Quadradinha em aproximadamente 30 minutos”

Uma das HQs publicadas em Quadradinhas 2, de Lucas Gehre

Você tem uma rotina para a produção de cada tira? Você tem um momento do seu dia dedicado exclusivamente para esse trabalho? 

Varia um pouco, mas eu tenho. O ideal é sempre produzir pelo menos na véspera do dia em que vou publicar. Por muito tempo eu segui o horário de publicar sempre de manhã no blog e meio dia no Facebook, depois fiquei só com o horário de meio dia no Facebook. De um ano pra cá eu tenho variado mais os horários, li em algum lugar que é melhor pro algoritmo e identifiquei que no Facebook eu tenho conseguido mais envolvimento com as publicações a partir de umas 18-19h. Então muitas vezes eu tenho feito no dia mesmo, logo antes de publicar. Quando preciso viajar ou de alguma forma vou ficar ocupado, eu consigo adiantar as tirinhas, fazer logo várias e deixar programadas paras serem publicadas diariamente. O meu processo é bem eficiente e consigo fazer uma Quadradinha em aproximadamente 30 minutos, até menos se eu estiver fazendo várias de uma vez. O lance de não ter um tema, de poder variar entre abstratas e mais narrativas, me ajuda a não ficar muito tempo sofrendo em busca de uma ideia, normalmente eu resolvo rápido e sem sofrer.

Quais técnicas e materiais você usa para produzir as Quadradinhas?

Eu uso uma série bem simples de materiais. Tenho um grid de base, impresso com a estrutura de nove quadrinhos. Usando uma mesa de luz eu desenho os requadros seguindo esse guia, já no papel da arte final, normalmente um Canson 140g/m2, com uma caneta 0.5 dessas Micron ou Unipin. Ainda na mesa de luz, sobre essa folha da arte final eu sobreponho uma folha comum e seguindo os requadros de base faço o esboço do desenho já de canetinha mesmo, sem me preocupar muito em errar ou rasurar. É nessa etapa que eu tenho a ideia, decido as palavras que vou usar, planejo a composição. No final eu transponho o esboço na folha comum para o papel da arte final, na mesa de luz, com a mesma canetinha. Depois digitalizo e faço o tratamento final e as cores no Photoshop.

Uma das HQs publicadas em Quadradinhas 2, de Lucas Gehre

Qual é o público das Quadradinhas? Você tem muito retorno com a série nas redes sociais? As pessoas interagem com você por conta desse trabalho?

O público das redes sociais é bem diverso, mas é uma maioria de mulheres, entre 20 e 30 anos. Acho que uma boa parte são pessoas que não necessariamente são ‘o público’ de quadrinhos, muita gente que talvez nem leia outras coisas nessa linguagem. Acho isso legal porque uma das ideias por trás das Quadradinhas é fazer um trabalho que seja acessível, que possa atingir um número grande de pessoas. Tenho um retorno bom nas redes sim, apesar de atualmente o Facebook estar muito difícil, mas tem um pessoal que acompanha por lá e sempre comenta e compartilha. Tenho tido bastante retorno no Instagram, mais recente, fiz o insta das Quadradinhas só no ano passado. É sempre bom saber que as pessoas gostam e acompanham o trabalho.

Apesar de algumas das Quadradinhas apresentarem histórias e narrativas com início, meio e fim, a maior parte delas eu interpreto como um experimento de linguagem. Qual foi a maior lição ou talvez o grande aprendizado que as Quadradinhas te deram em relação à linguagem dos quadrinhos durante esses quase dez anos do projeto?

Acho que foram muitos aprendizados importantes ao longo dos anos. Mencionei ali em cima esse lance sobre estrutura e conteúdo que eu acho que é uma coisa interessante. Fazendo essa série tão longa, usando sempre essa mesma estrutura, com as suas poucas variações possíveis, deixando a estrutura puxar a narrativa, sugerir as soluções e as histórias, me faz pensar muito sobre esse equilíbrio entre essas forças na composição de um quadrinho. Outro ponto que acho legal destacar, não é exatamente sobre a linguagem dos quadrinhos, mas é sobre o fluxo de trabalho, aprendi muito a importância de continuar produzindo, de desenvolver um trabalho que eu consiga produzir no ritmo que me proponho e atingindo o resultado que eu pretendo, em termos de desenho e produto final. Acho que  isso tem a ver com a linguagem, no sentido de que quadrinhos são muito trabalhosos de se fazer, então é importante encontrar um sistema em que você consiga realizar o seu projeto, senão pode demorar demais e se tornar uma experiência frustrante.

“Os momentos de contemplação e reflexão que eu consigo ter ao longo dos meus dias se projetam nessa hora de produzir”

Uma das HQs publicadas em Quadradinhas 2, de Lucas Gehre

Mesmo que a leitura das Quadradinhas às vezes dure questões de segundos, esses segundos acabam servindo pra mim como um instante de contemplação e reflexão em meio ao caos que é a internet e a realidade que estamos vivendo. Os seus instantes investindo na série, trabalhando na Quadradinha do dia, também são um momento de introspecção e escape da realidade para você?

Não exatamente, na verdade eu desenvolvi esse método pessoal muito eficiente, então eu consigo produzir inclusive em situações bem adversas e variadas. Acho que os momentos de contemplação e reflexão que eu consigo ter ao longo dos meus dias se projetam nessa hora de produzir, onde eu acabo sendo mais focado e atento ao processo de trabalho mesmo.

Você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Recomendo o novo Ugrito da Lovelove6, Lombra, uma série do Netflix que chama Guerras do Brasil e o último disco do Black Alien. São coisas que eu curti recentemente e acho que valem conhecer.

A capa de Quadradinhas 2, de Lucas Gehre
Cinema

Escafandro Podcast: 20 anos de 1999 – O último grande ano de Hollywood?

Está no ar mais uma edição do Escafandro Podcast! Dessa vez, eu e os meus amigos André Graciotti e Jairo Rodrigues conversamos sobre os vários filmes fora da curva produzidos por Hollywood em 1999. Conversamos sobre Matrix, Clube da Luta, Quero ser John Malkovich, Sexto Sentido, A Bruxa de Blair, O Mundo de Andy, Gigante de Ferro e várias outras pérolas lançadas no último ano da década de 90 e deixamos a pergunta no ar: 1999 foi o último grande ano de Hollywood? Papo bem bão, como sempre.

Você baixa o programa por aquitambém pode seguir o nosso Tumblrouvir o Escafandro no nosso canal no YouTube, pelo iTunes, pelo Stitcher. e agora também pelo Spotify. Como preferir. Dá o play!

HQ

The Velvet Hammer Burlesque no El Rey Theater, por Daniel Clowes

Já viu essa arte aqui em cima? Esbarrei com ela dia desses nos tumblr da vida. Trabalho do Daniel Clowes pra um show da trupe norte-americana neoburlesca de teatro e dança The Velvet Hammer Burlesque no El Rey Theater, em Los Angeles. Não encontrei a data exata da apresentação, mas aqui diz que é do início dos anos 90 – apesar do autor de Ghost World e Paciência ter datado a arte ali no cantinho, do lado da assinatura dele, com o ano de 1959.