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Chris Ware de volta ao Brasil: Cia das Letras promete Rusty Brown para 2020 e reimpressão de Jimmy Corrigan para agosto de 2019. Confira uma prévia de Rusty Brown!

A editora Companhia das Letras promete para 2020 o lançamento do primeiro volume de Rusty Brown, próxima obra do quadrinista norte-americano Chris Ware. O álbum terá tradução de Caetano Galindo. A Companhia também anunciou a reimpressão de Jimmy Corrigan – O Menino Mais Esperto do Mundo. Publicada originalmente no Brasil em 2009 e esgotada há vários anos, a HQ retornará às livrarias nacional em agosto de 2019.

A capa e a sinopse de Rusty Brown foram reveladas pela editora norte-americana Pantheon Graphic Library em fevereiro de 2019. O livro de 352 páginas será lançado nos EUA em setembro de 2019. Compartilho a seguir a sinopse da obra (em tradução do tradutor, pesquisador e crítico Érico Assis), duas páginas da HQ e a capa revelada há alguns meses:

Uma página de Rusty Brown, próxima HQ do quadrinista Chris Ware, com lançamento previsto para 2020 no Brasil pela Companhia das Letras

“Rusty Brown é a articulação 100% interativa, 100% colorida de inter-relações espaço-temporais entre seis consciências plenas em um só dia no meio-oeste norte-americano e a minúscula partícula humana que estas involuntariamente orbitam. Cumulação dispersa e especial, floco de neve das maiores temáticas e dos menores momentos da vida, Rusty Brown almeja, literária e literalmente, nada menos que a coalescência de um hemisfério de toda a existência em uma só história ilustrada com qualidade museica, disposta com a devida perícia a fim de apresentar a ilusão inefável, empática e convincente da experiência tanto a leitores curiosos quanto à vida humana quanto aos tradicionais fãs da realidade comum. Da infância à velhice, não há trama congelada que não degele na trama de contos de uma criança que desperta sem superpoderes, um adolescente que cresce e vira déspota paterno, um pai que guarda seus pesares na superfície do planeta Marte e uma mulher em fins de terceira idade que busca o amor de uma só pessoa no planeta Terra”.

Eu considero Chris Ware o grande gênio contemporâneo das HQs. Mais conhecido no Brasil por Jimmy Corrigan, ele é autor da série Acme Novelty Library, publicada desde 1993 e atualmente em sua 20ª edição – quatro partes de Rusty Brown foram publicadas originalmente nos números 15, 16, 17 e 19 da série.

Até o momento, a obra-prima do autor é Building Stories, lançada em 2012. Eu escrevi sobre a HQ e o trabalho de Ware para a revista Galileu na época do lançamento da obra. A minha entrevista com o autor foi publicada na íntegra, em português, aqui no Vitralizado, e em inglês no site Bleeding Cool.

Uma página de Rusty Brown, próxima HQ do quadrinista Chris Ware, com lançamento previsto para 2020 no Brasil pela Companhia das Letras
A capa da edição norte-americana de Rusty Brown, próxima HQ do quadrinista Chris Ware, divulgada em fevereiro de 2019 pelos editores da Pantheon Graphic Library
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Je Suis Cídio #16, por João B. Godoi

O quadrinista João B. Godoi está morando na cidade de Angoulême, na França, e participando da classe internacional de quadrinhos da Ecole Européenne Supérieure de L’image (EESI). Desde sua chegada à Europa ele vem produzindo uma espécie de diário em quadrinhos batizada de Je Suis Cídio, mostrando um pouco da rotina dele em Angoulême. 

Hoje compartilho a 16ª atualização de Je Suis Cídio aqui no blog. Vocês conferem os 15 capítulos prévios do projeto clicando nos links a seguir: Je Suis Cídio #1Je Suis Cídio #2Je Suis Cídio #3Je Suis Cídio #4Je Suis Cídio #5Je Suis Cídio #6Je Suis Cídio #7Je Suis Cídio #8Je Suis Cídio #9Je Suis Cídio #10Je Suis Cídio #11Je Suis Cídio #12Je Suis Cídio #13Je Suis Cídio #14 e Je Suis Cídio #15.

Entrevistas / HQ

Papo com Pedro D’Apremont, autor de Notas do Underground: “A graça da série era justamente me soltar e fazer as coisas sem muito filtro”

Há dois eventos marcados para o lançamento do álbum Notas do Underground, do quadrinista Pedro D’Apremont: o primeiro no próximo sábado, dia 15 de junho, na Loja Monstra, em São Paulo, e o segundo no sábado seguinte, dia 22 de junho, na Itiban Comic Shop, em Curitiba. Na capital paulista, D’Apremont estará na companhia do editor da obra e do selo Pé-de-Cabra, Carlos Panhoca, da artista Arame Surtado e do editor Lobo Ramirez – que estarão lançando a revista Ketacop pelo selo Escória Comix. Já no evento no Paraná, também estará sendo lançada a nona edição da revista Weird Comix, do quadrinista Fábio Vermelho.

As 44 páginas coloridas de Notas do Underground reúnem pela primeira vez em português as sete histórias em quadrinhos publicadas por D’Apremont no site americano da revista Vice protagonizadas por músicos, fãs de música e figuras pouco usuais do punk e do metal.

“Desde a adolescência que sou apaixonado por metal e punk, toquei em bandas, contribuí pra blogs de resenha de discos, fui em centenas de shows, etc”, conta o quadrinista em conversa com o blog. “Me amarro em explorar microgêneros estranhos, discos raros e subculturas associadas a todo tipo de música e lugar, então esse tema de música underground sempre me foi muito querido”, explica o autor em relação ao tema da coletânea publicada pelo selo Pé-de-Cabra.

Reproduzo a seguir a íntegra da entrevista com D’Apremont, na qual ele fala mais sobre o desenvolvimento das histórias que estão impressas em Notas do Underground, expõe algumas de suas técnicas e influências e comenta a sua paixão pelos trabalhos do quadrinista Peter Bagge. Papo bem massa, saca só:

“Resolvi que ia voltar a fazer histórias curtas sobre coisas que eu gosto, não importa o quão de nicho elas são”

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

Eu queria saber como o Notas do Undergound teve início. A revista é uma coletânea das histórias que você publicou na Vice, certo? Mas como começou esse projeto com a Vice? Eles te passaram um tema ou você que sugeriu? Quanto tempo durou a parceria com eles? Que tipo de retorno você teve dos editores e dos leitores?

Eu e o Gabriel Góes já fazíamos a série Vania pra Vice desde 2016 (que também foi compilada e saiu como um gibi pela Ugra Press em 2017, Anexia é um Paraíso). Eu sempre gostei de fazer HQs pro portal deles porque o editor da seção de quadrinhos, o Nick Gazin, tinha uma preferência por histórias curtas e experimentais, o que criava uma espécie de laboratório onde nós podíamos testar diferentes formatos, estilos, narrativas e ver o que funcionava bem ou não. O problema é que como o Vania era um projeto a quatro mãos, as historias demoravam a sair e dependiam muito da disponibilidade não só minha como a do Góes também. Entre uma HQ do Vania e outra, a ideia de começar uma série paralela só minha, com historias mais soltas e sem necessariamente personagens recorrentes, foi fermentando na minha cabeça.

Acho que fazer quadrinhos sobre música foi uma sugestão da Cynthia Bonacossa na época em que a gente dividia um estúdio.  Por volta de 2016 e começo de 2017 eu andava super frustrado com meu trabalho. Me dediquei a vários projetos que já não me davam prazer em produzir e ao que tudo indicava, não iam muito a lugar nenhum. O mercado pra ilustração estava (e continua) péssimo e os poucos trampos freelancer que eu pegava eram bem merda. Desenhar, de repente, não era mais divertido e não me dava nenhum tesão. Pra tentar reverter essa situação resolvi que ia voltar a fazer histórias curtas sobre coisas que eu gosto, não importa o quão de nicho elas são. Desde a adolescência que sou apaixonado por metal e punk, toquei em bandas, contribuí pra blogs de resenha de discos, fui em centenas de shows, etc. Mas também sempre ouvi mil coisas diferentes e me amarro em explorar microgêneros estranhos, discos raros e subculturas associadas a todo tipo de música e lugar, então esse tema de música underground sempre me foi muito querido.

A impressão que eu tenho é que o editor começou a gostar mais dos meus quadrinhos com o tempo haha. No começo ele criticava muito meus roteiros, mas à medida que o tempo foi passando meus enredos foram ficando mais sólidos, mais parecidos com uma história com início, meio e fim e não só uma piada, e senti que ele as aprovava com mais entusiasmo. Eu não faço a menor ideia se os leitores gostaram desde que a Vice acabou com a sessão de comentários. Mas mais gente começou a me seguir e acompanhar meu trabalho desde que eu comecei essas hqs, o que é um bom sinal.

A série se encerrou no começo desse ano, quando a sessão de quarinhos do portal da Vice foi abandonada. Uma pena, tinha muita gente boa publicando lá. RIP.

O cartaz dos eventos de lançamento de Notas de Underground, nova HQ de Pedro D’Apremont, na Loja Monstra, em São Paulo, e na Itiban Comic Shop, em Curitiba

Você tinha um ponto de partida em comum para cada uma das HQs? Digo, algumas me soam como ficção, outras parecem ter elementos autobiográficos e outras são autobiográficas ao pé da letra. Você mantém algum caderno de ideias para essas histórias? Você conversava com amigos sobre histórias ambientadas no universo que é retratado na série?

Na verdade o único ponto de partida era que as historias tinham que se relacionar de algum jeito com o tema central da série. Fora isso era meio vale-tudo mesmo, o que foi bom, pois me fez experimentar com vários tipos de narrativa. Às vezes me dava na telha contar de um bar horrível que eu frequentava e fechou por causa de uma briga de faca, às vezes eu imaginava uma HQ em que uma banda de Black Metal se perdia na floresta enquanto gravava um clipe… A princípio eu usava tudo que dava espaço pra contar uma historia com começo, meio e fim em poucas páginas. A graça da série nesse primeiro momento era justamente me soltar e fazer as coisas sem muito filtro.

Depois de um certo tempo percebi que as HQs estritamente autobiográficas eram as que eu menos gostava de produzir. Sempre fica um pouco aquela dúvida no final de “será que eu só acho essa historia interessante por que ela aconteceu comigo?” ou: “será que essa é uma historia engraçada de se ouvir num bar mas não funciona como quadrinho?”. As minhas histórias fictícias quase sempre têm uma situação que aconteceu comigo ou com amigos e conhecidos misturada no meio, então acabei aposentando as auto-biográficas stricto sensu mais pra frente. Até porque parece que todo mundo produz quadrinhos autobiográficos hoje em dia. Eu mesmo já estou bem enjoado do gênero.

Em geral quando tenho uma ideia pra um roteiro novo eu a anoto num caderno. As primeiras anotações são sempre ideias super soltas, mas a partir delas eu vou dando carne à historia até ela parecer bem firme. Eu costumava evitar falar sobre minhas ideias antes de ter terminado meus quadrinhos, muito por medo de zicar mesmo, mas alguns dos roteiros dessa série eu discuti com o Nick Gazin antes. Primeiro porque se ele não gostasse do meu quadrinho ele não era publicado e eu não era pago haha. Mas depois vi que as críticas que ele fazia aos meus roteiros estavam me ajudando a fazer quadrinhos cada vez melhores e passei a curtir muito essa fase do processo.

“Tenho gostado cada vez mais de escrever tudo antes de fazer o planejamento visual, mas ainda sou muito inquieto, fico querendo desenhar logo”

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

Você pode contar um pouco sobre os seus métodos de produção dessas HQs? Você chegava a finalizar um roteiro antes de começar a desenhar? A coisa saia toda ao mesmo tempo? Você seguia algum padrão específico na produção desses quadrinhos?

As primeiras historias eu fiz sem um roteiro escrito, só storyboard. Eu sempre faço storyboards porque eles me ajudam a planejar tudo bem mais rápido e ter uma ideia do tamanho da HQ no final, mas eu tenho pouquíssima paciência pra sentar em frente ao computador e ficar escrevendo no Word. Um pouco mais pra frente eu passei a escrever roteiros “de verdade” porque as HQs foram ficando mais compridas e verborrágicas, e organizá-las direto no storyboard ficou muito difícil. Tenho gostado cada vez mais de escrever tudo antes de fazer o planejamento visual, mas ainda sou muito inquieto, fico querendo desenhar logo.

Eu também queria saber sobre os materiais que você usa. Você usa tinta e papel ou trabalha com o digital? 

Tirando as cores (que são feitas no Photoshop) faço tudo do jeito mais tradicional possível. Uso pincel, bico de pena, nanquim e canetinhas.

Na hora de finalizar meus desenhos eu sigo o mesmo método do Peter Bagge: pincel nos personagens e objetos moles ou fofos e bico de pena/caneta nos objetos mais retos ou sólidos. É meio estranho mas funciona bem.

Ultimamente eu tenho substituido as canetinhas por bico de pena, porque elas ficaram muito vagabundas e caras. A tinta dessas UniPin apaga muito quando você usa a borracha, e isso é um inferno quando você vai escanear a página.

“Aposto que se algum outro cartunista visse meu processo do começo ao fim ia ficar chocado com o quão tosco ele é”

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

Você pode falar sobre a paleta de cores? Acredito que exista uma paleta predominante nas histórias, certo?

Sim, todas as historias seguem mais ou menos a mesma paleta. Como o tema que conecta todas as historias é muito solto, achei que eu precisava compensar isso fazendo elas com visual bem coerente entre si.

Eu sou um péssimo colorista e não me lembro exatamente como cheguei nessa paleta. Mas tenho quase certeza que comecei copiando as cores de algum quadrinho ou ilustração que eu gosto e fui ajustando os tons e valores de cada cor individual até chegar em algo que me agradava e diferia o suficiente do material original no qual eu me inspirei. Eu não tenho uma educação formal em artes plásticas ou design, então muitas vezes faço as coisas na base da tentativa e erro. Aposto que se algum outro cartunista visse meu processo do começo ao fim ia ficar chocado com o quão tosco ele é. Também apago tudo mil vezes e encho a página de corretivo.

Aos poucos fui fazendo pequenas mudanças na paleta, mas ela permaneceu praticamente a mesma desde o começo da série. Fui acrescentando sombra e focos de luz nas últimas histórias e diferentes tonalidades de acordo com a hora do dia, mas sempre fico cabreiro de tentar complicar demais as coisas e estragar tudo. Em geral trabalho melhor com paletas bem reduzidas.

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

A capa dessa edição é sensacional. Como você chegou nela? Foi difícil definir essa capa?

Pô, valeu! Haha

Eu fiz várias capas antes de chegar nessa. Uma delas acabei usando de 4ª capa. O desenho ficou legal e tudo mais, mas achei que tinha alguma coisa faltando. Mandei pro Nick Gazin e pedi a opinião dele. Ele disse que o que faltava algum elemento mais humano. Não tem nenhuma pessoa no desenho, só uns amplificadores quebrados, com várias garrafas, latas de cerveja e bitucas de cigarro em cima.  Ninguém ia se identificar com essa imagem.

Na versão final eu quis dar uma ideia de movimento, de quebradeira, bem forte. Uma das primeiras coisas que me vieram à cabeça foi um mosh gigante e alguém pulando do palco. Aí foi questão de olhar um monte de referências (umas fotos do Fugazi tocando ao vivo, principalmente) e tentar descobrir o jeito mais dinâmico de desenhar a capa. Depois disso foi tranquilo.

O título originalmente ia ser no estilo de um logo de banda metal extremo, completamente ilegível, mas me convenceram de que era uma péssima ideia.

“Talvez a minha coisa favorita das HQs nacionais são aquelas histórias longas dos Pirata do Tietê, tanto pelo desenho insano quanto pelos enredos”

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

Eu vejo no seu traço e nas histórias que você conta uma relação com autores americanos que se propõe a narrar eventos banais e corriqueiros – e torná-los de alguma forma interessantes e/ou engraçados. Tô pensando nuns quadrinistas-cronistas como o Daniel Clowes e o Charles Burns, por exemplo. Essa galera é influência pra você? 

Sim, sou fã dos dois! Vivo relendo os livros do Clowes que eu tenho aqui em casa e nunca me canso deles. Sou muito influenciado pelas coisas da Laerte e do Angeli da época da Circo e Chiclete com Banana também, que tinham essa coisa de misturar o dia a dia na cidade de São Paulo com situações bem absurdas e escrotas. Talvez a minha coisa favorita das HQs nacionais são aquelas histórias longas dos Pirata do Tietê, tanto pelo desenho insano quanto pelos enredos.

Mas meu favorito de todos os americanos em relação a roteiro é o Peter Bagge. Quase todo ano eu releio Hate de cabo a rabo, e cada vez mais me impressiona como cada personagem ali dentro parece real. Quanto mais tempo passa mais me identifico com o Buddy Bradley e é meio assustador o quanto que eu passei por situações parecidas com a de alguns personagens depois de ter lido Hate.

É dose, sou muito paga-pau da “geração Fantagraphics” mesmo.

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

E eu fiquei pensando também na relação do livro com os primeiros quadrinhos do Joe Sacco. Acho que você não se propõe a fazer jornalismo, mas tá ali registrando e narrando o que viu – e também tem o termo “notas” no título, presente constantemente nos quadrinhos do Joe Sacco. Ele também foi/é uma influência pra você?

Na verdade não. Eu li O Derrotista quando estava na faculdade e gostei bastante, mas os quadrinhos dele nunca mexeram muito comigo.
O título do meu gibi é uma brincadeira com o Notas do Subterrâneo do Dostoiévski. Nas traduções em português às vezes ele aparece como “Diário do Subterrâneo” também, mas preferi usar a palavra ‘notas’ porque tem uma conotação mais informal que se relaciona bem com as historias curtas. Além do mais, ‘diário’ ia fazer parecer que o gibi inteiro é composto por historias autobiográficas.

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

No que você está trabalhando atualmente? Você tem algum livro novo nos seus planos?

Estou terminando uma HQ do Harry e do André, aqueles dois personagens adolescentes que aparecem algumas vezes no Notas. Não sei ainda o que vou fazer com ela, nem aonde essa história vai ser publicada, já que eu não estou mais na Vice e fechei meu Tumblr. Veremos qual espaço virtual passarei a habitar!

Espero nos próximos meses terminar um projeto grande que eu negligenciei completamente no último ano, mas não vou falar muito aqui pra não zicar. E também quando você fala que vai fazer uma coisa as pessoas vão cobrar depois, é mó chato.

Um quadro de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont

A última! Você pode recomendar algo que esteja lendo /assistindo/ ouvindo no momento?

Esses dias quase que só tenho assistido/lido mangás e animes dos anos 80. Finalmente peguei Berserk pra ler uns meses atrás e já virou uma das minhas HQs favoritas.  O negócio é desgraceira atrás de desgraceira e tem um ritmo absurdo. Cada volume é um disco de Death Metal em forma de gibi, dá vontade de fumar um cigarro depois de terminar de ler. Fora isso tenho acompanhado JoJo’s Bizarre Adventure religiosamente, mas tudo que o mundo menos precisa agora é de mais alguém falando de JoJo.

De música não tenho descoberto nada muito novo… Tem um DJ de House que eu tenho ouvido sem parar quando estou desenhando, chamado Bill Jobs. Se alguém quiser uma recomendação de um som bem obscuro, ouça Circle Of Ouroborus. Principalmente um split deles com o Drowning The Light que chama Moonflares. Essa banda é criminalmente desconhecida, e eu acho ela muito única. Escute sem saber o que esperar.

Pode uma recomendação de videogame também? Joguem Nidhogg.

A capa de Notas do Underground, HQ de Pedro D’Apremont
Entrevistas / HQ

Papo com Tom Gauld, autor de Golias: “Pode ser que os quadrinhos venham da parte de mim que está feliz por estar só e mais aberta à tristeza”

O álbum Golias é o primeiro quadrinho do artista escocês Tom Gauld publicado no Brasil. Lançada por aqui pela editora Todavia, a HQ narra a história do confronto bíblico entre Davi e Golias, mas sob o ponto de vista do gigante filisteu. Eu entrevistei o quadrinista britânico sobre a criação de Golias e essa conversa virou matéria para o Segundo Caderno do jornal O Globo – que você lê clicando aqui.

Eu compartilho a seguir a íntegra desse papo com Gauld. Ele comentou o ponto de partida de Golias, o desenvolvimento de seu estilo e as inspirações por trás de Mooncop – próximo trabalho do autor a ser publicado no Brasil, também pela Todavia. Saca só:

“Eu realmente não me importo se algo é uma história em quadrinhos, um livro ilustrado, um romance ilustrado ou romance gráfico, contanto que seja interessante”

Um quadro de Golias, primeiro álbum do quadrinista Tom Gauld publicado no Brasil

Qual a memória mais antiga que você tem da presença de quadrinhos na sua vida?

Eu cresci no interior e toda semana meus pais levavam eu e o meu irmão à livraria e nos deixavam escolher qualquer livro que quiséssemos. Os únicos quadrinhos eram os livros de Asterix e Tintin, então eles se tornaram minha introdução aos quadrinhos.

Eu gostaria de saber o que são quadrinhos para você. Você tem alguma definição pessoal?

Eu costumo pensar em quadrinhos como palavras e imagens trabalhando juntas na página para construir uma narrativa. A parte “trabalhando juntas” é provavelmente o mais importante. Por exemplo, um livro que tenha apenas uma foto e algum texto em cada página, provavelmente não é uma história em quadrinhos: os dois precisam interagir. Para mim, o que faz uma boa história em quadrinhos não são desenhos bonitos ou frases elegantes, mas sim como imagens e texto trabalham juntos na página para criar uma coisa nova que é muito maior do que suas partes.

É claro que essa definição não leva em conta histórias em quadrinhos sem palavras. O que serve para mostrar que não sou capaz de definir exatamente histórias quadrinhos de maneira satisfatória. No final das contas, eu realmente não me importo se algo é uma história em quadrinhos, um livro ilustrado, um romance ilustrado ou romance gráfico, contanto que seja interessante.

Um quadro de Golias, primeiro álbum do quadrinista Tom Gauld publicado no Brasil

Como você se define profissionalmente? Você trabalha como ilustrador, cartunista e quadrinista. Vocês tem alguma palavra preferida para definir a sua atuação?

Eu fico feliz em ser chamado por qualquer um desses nomes. Eu geralmente digo que sou cartunista e ilustrador.

É muito fácil reconhecer um quadrinho feito pelo Tom Gauld. Você diria que tem um estilo pessoal? Se sim, como você poderia falar um pouco como chegou a ele?

Sim, eu reconheço que tenho um estilo de desenho identificável. Quando eu estava na escola e depois na faculdade de arte, trabalhei de muitas formas distintas, copiando artistas diferentes, tentando encontrar meu próprio estilo e me sentindo frustrado por não conseguir. Eu acho que quase todos os artistas passam por isso quando começam. Mas as coisas mudaram quando comecei a desenhar quadrinhos, no final do meu período na faculdade. Eu estava tão ocupado tentando aprender todas as novas habilidades que eu precisava para contar uma história (escrita, layouts de página, passagem de tempo, etc) que eu apenas desenhei no estilo simples que eu usava quando não estava tentando impressionar ninguém. Esse estilo simples funcionou bem para meus primeiros quadrinhos e, com algumas mudanças e evoluções, ainda é o estilo que uso agora. Então eu encontrei meu estilo quando parei de tentar encontrar um estilo.

“Eu geralmente vejo toda a idéia em pequenas versões no meu caderno de desenho antes de passar para desenhos a lápis no papel”

Quadros de Golias, primeiro álbum do quadrinista Tom Gauld publicado no Brasil

Além do estilo do seu traço também vejo alguns temas e sentimentos muito presentes no seu trabalho. Penso principalmente em solidão e melancolia. Você costuma pensar muito sobre solidão e melancolia? Você se considera solitário e melancólico?

Eu não me descreveria como um solitário, parece extremo demais, mas estou feliz em minha própria companhia, provavelmente por mais tempo que muitas outras pessoas. Da mesma forma, sinto melancolia às vezes, mas não de forma esmagadora. Eu acho que você está correto ao notar que esses temas estão presentes nos quadrinhos, mas eles estão mais presentes nos quadrinhos do que na minha vida. Eu acho que pode ser que os quadrinhos venham da parte de mim que está feliz por estar só e mais aberta à tristeza.

Você pode falar um pouco sobre os seus métodos de trabalhos e suas técnicas? Que tipo de material você geralmente utiliza? Você tem alguma rotina de trabalho?

Todos os meus trabalhos, desde ilustrações até curtas-metragens e graphic novels, começam nos meus cadernos de esboços. Eu estou sempre fazendo pequenas anotações e rabiscos e alguns deles ficam sentados por anos antes de se transformarem em uma obra de arte acabada. Eu geralmente vejo toda a idéia em pequenas versões no meu caderno de desenho antes de passar para desenhos a lápis no papel. Eu faço muitos desenhos e quando eu tenho um que funciona, eu uso uma mesa de luz para traçar os contornos básicos em um papel melhor com uma caneta Uni-Ball. Em seguida, adiciono todos os detalhes, textura e hachura na caneta e, quando termino, digitalizo no computador e adiciono a cor no photoshop.

Eu trabalho melhor no começo do dia. Algumas das minhas melhores ideias surgem na viagem de ônibus até o trabalho pela manhã e faço rabiscos em um pequeno caderno de bolso para não deixá-las escapar. Eu tento ir ao meu estúdio às 8h30 e fazer o máximo de desenho possível antes do almoço. Em um mundo perfeito, eu nem ligaria o computador até a tarde, porque é uma distração terrível. Eu normalmente fico sem energia criativa por volta das 16h, então eu resolvo alguma papelada ou emails por um tempo e volto para casa às 17:30. Às vezes, faço algumas anotações e rabiscos em meus cadernos de esboços à noite.

“Quanto mais eu pensava sobre a história, mais eu percebia que Golias é o verdadeiro azarão”

O que você pensa ao ver o seu trabalho sendo publicado em um país como o Brasil? Você fica curioso em relação à forma como seu quadrinho será lido e interpretado em uma realidade tão diferente daquela em que você vive?

Além de algumas poucas palavras de francês, eu só falo inglês, então tenho que confiar nos editores e tradutores para fazer os quadrinhos funcionarem em um novo idioma. Mas como você está sugerindo, é mais do que apenas a linguagem que muda. Estou realmente feliz por meu trabalho e o humor em particular terem encontrado uma audiência no exterior. Ambos Golias e Mooncop são inspirados por obras de arte existentes (os filmes bíblicos e de ficção científica) que são bastante universais.

Por que contar a história de Davi e Golias sob a perspectiva do Golias?

Eu gostava da ideia de pegar uma história bem conhecida e contar de outro ponto de vista. O mito de Davi e Golias me atraiu porque é dito completamente do ponto de vista de Davi. O Golias é apenas um personagem, ele é apenas um dispositivo de enredo ou uma representação do mal, de modo que deixou muitas perguntas para eu responder na minha história: Por que ele está ameaçando os israelitas? O que ele fez antes? Como ele se sente sobre isso?

Eu também achei que quanto mais eu pensava sobre a história, mais eu percebia que Golias é o verdadeiro azarão. A história não é gigante versus garoto, é gigante versus garoto e O-Todo-Poderoso-Criador-do-Universo.O Golias está condenado desde o começo, então eu não pude deixar de sentir simpatia por ele.

“Algumas coisas são ruins e outras são boas, mas são tantas, que me sinto mais confuso do que otimista ou pessimista”

Quadros de Golias, primeiro álbum do quadrinista Tom Gauld publicado no Brasil


E você poderia me falar um pouco sobre a origem de Moocop?

A idéia de um policial na lua veio de um brinquedo dos anos 1960 que encontrei, que era um carro com ‘Space Patrol’ escrito de um lado e um motorista em uma cúpula de vidro empunhando um canhão de laser. A embalagem mostrava o carro em uma lua deserta, com a terra no céu negro acima. O brinquedo sugeriu um futuro em que não apenas havíamos colonizado a lua, mas o empreendimento foi bem sucedido o suficiente para exigir uma força policial fortemente armada. A distância entre essa idéia otimista e datada do futuro e o fato de que ninguém pôs os pés na lua desde 1972 pareceu engraçada e meio trágica. Comecei a imaginar a vida de um policial solitário patrulhando a lua e a história cresceu a partir daí.

Mooncop me fez pensar bastante sobre a nossa realidade hoje e as nossas perspectivas. Você é otimista em relação ao nosso futuro?

Eu tento me manter positivo. Mas sinto que hoje as coisas estão acontecendo e mudando mais rápido do que nunca. Algumas coisas são ruins e outras são boas, mas são tantas, que me sinto mais confuso do que otimista ou pessimista.

Artes, literatura e ciência são temas muito presentes no seu trabalho. Estamos testemunhando um número cada vez maior de governos de extrema-direita nos quais artes e ciência acabam são costumeiramente atacados. Você vê algum motivo em particular para essas áreas serem vítimas habituais desses governos?

Parece que geralmente a direita política quer manter as coisas como estão ou voltar aos ‘bons e velhos tempos’. Enquanto a arte e a ciência estão frequentemente tentando coisas novas ou olhando para as coisas de uma nova maneira.

Eu acho que alguns políticos só estão interessados em coisas para as quais um valor monetário pode ser facilmente agregado, e ciência e arte são menos fáceis de serem valorizadas assim.

Um quadro de Golias, primeiro álbum do quadrinista Tom Gauld publicado no Brasil

Você está produzido algum projeto novo no momento?

Eu estou trabalho em dois livros no momento. Um é uma coletânea de cartuns sobre ciência e o outro é um livro ilustrado para crianças.

A última! Você poderia recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Gostei muito da nova graphic novel do Jon McNaught, Kingdom, que fala sobre a vida comum e mundana de uma forma muito bonita e interessante.

Eu ouço muito rádio e podcasts enquanto desenho e particularmente gosto de In Our Time da BBC que analisa um tópico diferente da história, da ciência e das artes a cada semana. Três especialistas falam sobre o assunto, mas o anfitrião é brilhante em fazê-los explicar as coisas em termos que alguém como eu possa entender.

A capa de Golias, primeiro álbum do quadrinista Tom Gauld publicado no Brasil
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Prêmio Dente de Ouro 2019: Hibernáculo, de Amanda Paschoal Miranda, vence na categoria Quadrinhos

O álbum independente Hibernáculo, da quadrinista Amanda Paschoal Miranda, é o vencedor da categoria Quadrinhos do Prêmio Dente de Ouro 2019. O anúncio foi feito na tarde de hoje (8/6), durante a Feira Dente, realizada no Espaço Cultural Renato Russo, em Brasília. A publicação ficou com o prêmio após concorrer com mais de 60 obras – avaliadas por um júri composto por mim, pelo quadrinista Heron Prado e pela jornalista, pesquisadora e tradutora Dandara Palankof

Amanda Paschoal Miranda deu uma entrevista ao Vitralizado na época do lançamento de Hibernáculo e essa conversa pode ser lida clicando aqui. A obra também esteve entre as leituras recomendadas da Retrospectiva Vitralizado 2018.

O anúncio da vitória de Hibernáculo, HQ de Amanda Paschoal Miranda no Prêmio Dente de Ouro 2019

Junto com Hibernáculo, estiveram na final da categoria Quadrinhos do Prêmio Dente 2019: Raiz (independente), de Dudu Torres; Sua Voz (Coleção Des.Gráfica), de Flavushh; Sam Taeguk(independente), de Paty Baik, Monge Han e Ing Lee; Lume (independente), de Luiza Nasser; Partir (Coleção Des.Gráfica), de Grazi Fonseca; Tilt (independente), de Raquel Vitorelo; Cara-Unicórnio (independente), de Adi. A; Me Leve Quando Sair (independente), de Jéssica Groke; e O Vazio que Nos Completa (Jupati Books), por Sergio Chaves e Allan Ledo. 

A obra vencedora na categoria Poesia do Prêmio Dente de Ouro 2019 foi Sangue, de Nanda Fer Pimenta. Já na categoria Zine o título vitorioso foi Pés Pretos Cantam Sonhos, de Pedro Silva e AUA Editorial.

Quadros de Hibernáculo, HQ de Amanda Paschoal Miranda vencedora do Prêmio Dente de Ouro 2019 na categoria Quadrinhos