Vitralizado

HQ / Matérias

Tempo e espaço ao mesmo tempo: uma reflexão sobre como os quadrinhos expandem a narrativa sequencial mesmo sem precisar de outras mídias ou da internet

Fui convidado a escrever um artigo sobre histórias em quadrinhos para a 15ª edição da revista Caderno Globo, publicação da Rede Globo com edições temáticas sobre assuntos relevantes para a sociedade e distribuída de graça em universidades, biblioteca e centros de pesquisa. O tema da edição com a minha colaboração foi Narrativas (Des)Construídas.

O meu texto trata dos trabalhos de autores como Rodolphe Töpffer, Chris Ware e Nick Sousanis e da minha crença de que o que há de mais moderno na linguagem dos quadrinhos não diz respeito a experimentações multimídia, a buscas por maior interação com leitores ou a adaptações para outras linguagens. A vanguarda das HQs mundiais tem como foco a essência da narrativa sequencial e a investigação de suas dinâmicas mais fundamentais.

Você lê a íntegra da edição na página da revista e confere o meu texto clicando aqui.

A capa da 15ª edição da revista Caderno Globo
HQ

Seth fala sobre Palookaville, Clyde Fans, Charles M. Schulz e histórias sobre a vida como ela é. Ouça!

Já comentei por aqui como Clyde Fans, do Seth, é um dos grandes quadrinhos publicados nos Estados Unidos em 2019 – e que talvez só não seja “o” lançamento porque Rusty Brown, do Chris Ware, chega às livrarias logo mais, em setembro. Enfim, outro dia indiquei por aqui uma entrevista do Seth pro The Virtual Memories Show. Hoje recomendo outra entrevista com o autor.

Dessa vez ele conversou com a Debbie Millman, apresentadora do Design Matters. O papo é motivado pela publicação do trabalho mais recente dele, mas vai longe nas memórias de infância e do início da carreira dele como autor de histórias em quadrinhos. Papo bem massa e revelador sobre um dos quadrinistas mais interessantes do mundo hoje. Escuta aqui.

Aliás, já leu a minha entrevista com o Seth? Conversei com ele na época do lançamento da edição brasileira de A Vida é Boa, Se Você Não Fraquejar. Também recomendo o papo recente dele com o pessoal do The Comics Journal, focado também em Clydes Fans.

Entrevistas / HQ

Papo com Roger Cruz, autor de Os Fabulosos: “Queria exagerar mais ainda a anatomia, os gestos, as posturas e os discursos dos personagens dos gibis de super-heróis”

O quadrinista Roger Cruz não tem certeza, mas acredita que o último trabalho dele para uma editora norte-americana de quadrinhos de super-heróis foi publicado em 2009 ou 2010. Desde então, o foco do autor tem estado em ideias que ficaram de lado durante a época em que desenhava comics. Durante esse período ele lançou três álbuns da série Xampu, sobre a rotina de um grupo de amigos roqueiros na São Paulo do início dos anos 90; Quaisqualigundum, homenagem a Adoniran Barbosa em parceria com Davi Calil; e A Irmandade Bege, protagonizado por um grupo de idosos conspiracionistas.

No entanto, antes dessa investida em quadrinhos independentes e autorais, houve os X-Men. Os X-Men Alpha. Os X-Men Omega. A Geração X, a X-Factor e a X-Patrol. O Magneto, o Homem-Aranha, o Doutor Estranho, o Hulk e o Motoqueiro Fantasma. Alguns dos principais super-heróis da Marvel foram desenhados por Roger Cruz entre os anos 90 e a primeira década dos anos 2000. E são exatamente eles os alvos de Os Fabulosos.

Com um lançamento marcado para sábado (13/07), na Quanta Academia de Artes, em São Paulo, e outro no sábado seguinte (21/07), na Loja Monstra, também em São Paulo, Os Fabulosos é uma sátira do universo dos X-Men da Marvel e de todo o gênero de super-heróis. A HQ de 120 páginas narra três aventuras protagonizadas por personagens como Caolho, Careca, Nanico, Toró e Metalovski, versões bizarras de Ciclope, Professor Xavier, Wolverine, Tempestade e Colossus. Os inimigos do grupo são o vilão Magnetic e sua Irmandade, com a missão de destruir os “tão lindos e atraentes” Fabulosos por meio do Igualizador Total, máquina capaz de transformar toda e qualquer pessoa em “bestas disformes”.

“Foi a vontade de brincar com os X-Men como o Keith Giffen fazia com a Liga da Justiça ou o Peter David com o Hulk e Aquaman que me inspirou a escrever a luta contra a Irmandade”, conta Cruz sobre o ponto de partida de seu mais recente trabalho, citando algumas publicações mais bem-humoradas de heróis da Marvel e DC e seus respectivos autores.

Os Fabulosos marca o encontro da fase mais recente e autoral de Cruz com seus anos trabalhando para as grandes editoras norte-americanas de super-heróis. Na conversa a seguir ele fala sobre suas inspirações para seu mais recente trabalho, lembra sua experiência como autor da Marvel, revela seu distanciamento do universo dos comics e comenta a experiência com financiamento coletivo que permitiu a impressão de Os Fabulosos. Saca só:

“Não acompanho praticamente nada do que é produzido hoje nas grandes editoras de HQs de super-heróis”

Quadros de Os Fabulosos, trabalho do quadrinista Roger Cruz

Eu faço parte de uma geração que começou a acompanhar as suas produções exatamente com seus trabalhos para editoras norte-americanas de super-heróis. O que representa para você retornar a esse universo?

A ideia dos Fabulosos surgiu por volta de 2002, logo depois do filme dos X-Men de 2000 quando eu trabalhava exclusivamente para a Marvel. Não lembro o que eu estava desenhando na época, mas já tinha trabalhado em títulos como Uncanny X-Men, X-Men Alpha e Omega, Generation X, X-Factor, X-Man e X-Patrol.

Quero dizer, quando comecei a produzir o primeiro capítulo da HQ dos Fabulosos, eu ainda estava nesse universo e desenhava super-heróis diarimente. Foi a vontade de brincar com os X-Men como o Keith Giffen fazia com a Liga da Justiça ou o Peter David com o Hulk e Aquaman, que me inspirou a escrever o capítulo onde eles lutam contra a Irmandade.
Os capítulos seguintes da HQ foram escritos anos depois e desenhados recentemente, já pensando em uma mini-série ou edição única como acabou acontecendo.

Por que retornar a esse universo de super-heróis? O que você vê de mais interessante nesse gênero? Aliás, você ainda lê HQs de super-heróis?

Não acompanho praticamente nada do que é produzido hoje nas grandes editoras de HQs de super-heróis. Releio algumas coisas velhas relançadas mas até isso é raro.

Tenho acompanhado um pouco mais a produção independente no Brasil.
Como desenhista, me divirto com a estética das HQs de super-heróis, com o ritmo característico da narrativa e com as possibildades gráficas. Apesar disso, no momento prefiro eu mesmo explorar esse universo, escrevendo e desenhando histórias como essa dos Fabulosos.

“Os personagens que eu mais gostava quando moleque, foram os que fui desenhar durante minha carreira com HQs de super-heróis”

Quadros de Os Fabulosos, trabalho do quadrinista Roger Cruz

Há vários personagens de super-heróis, mas você opta por parodiar especificamente os X-Men. Por que eles?

Quando moleque, as histórias que eu mais curtia eram as dos X-Men da dupla [Chris] Claremont e [John] Byrne. Me empolgava ver como eles trabalhavam com aquele monte de personagens, as relações entre eles, os eventos grandiosos, recordatórios gigantes de narração e balões de pensamento.

Talvez por gostar de desenhar grupos de heróis e do tipo de composição de cena que eles permitem, acabei indo parar na linha de revistas dos mutantes quando entrei na Marvel. Por coincidência, os personagens que eu mais gostava quando moleque, foram os que fui desenhar e com os quais trabalhei por mais tempo durante minha carreira com quadrinhos de super-heróis.

Você pode contar um pouco sobre a produção das histórias do livro? Você faz críticas e brincadeiras com temas, tópicos e personagens muito específicos. Você construiu a trama a partir das ideias que queria abordar ou essas ideias surgiram a partir da trama?

Uma coisa puxa a outra. Geralmente, crio uma trama pra seguir, mas enquanto escrevo, as conversas entre os personagens podem apontar pra direções diferentes da trama principal. Se os desdobramentos em uma dessas direções for mais interessante, vou por ali.

Geralmente escrevo já rabiscando um esboço da página com personagens e balões já posicionados. Prefiro trabalhar com número não definido de páginas. Se planejo uma história para 22 páginas mas, enquanto escrevo, percebo que pode ser contada em 15 páginas, paro por ali. E o mesmo acontece quando percebo que preciso de mais páginas.

Quadros de Os Fabulosos, trabalho do quadrinista Roger Cruz

E como você chegou no estilo de desenho que acabou utilizando em Os Fabulosos? Ele tá muito mais estilizado e caricato do que seus trabalhos mais recentes no terceiro volume da série Xampu e na A Irmandade Bege, não é?

Em cada projeto escolho o que considero mais interessante em termos de estilo para cada história que quero contar. No Xampu, o preto e branco remete aos gibis undergrounds que eu lia nos anos 80 e 90.

Na Irmandade Bege, a paleta de cores remete à trama e ao título. Nos Fabulosos eu queria exagerar mais ainda a anatomia, gestos e posturas e discursos dos personagens dos gibis de super-heróis.

O inimigo dos Fabulosos tem sérios problemas com o fato dos heróis serem “tão lindos e atraentes”. Uma crítica muito comum aos quadrinhos de super-heróis é o padrão estético preconizado por eles. Isso também é um incômodo para você?

Esse padrão estético é uma característica que não é exclusiva do gênero de super-heróis e não me incomoda.

Mas serem tão “lindos e atraentes” e  dentro dos “padrõezinhos” nesse universo dos Fabulosos são vantagens que eles usam pra conseguir mais privilégios e patrocinadores, o que não é muito diferente do mundo real.
Por outro lado, os adversários, vistos aqui como vilões e fora dos padrões, são discriminados pela sociedade e é essa discriminação que move a Irmandade contra os Fabulosos.

“Eu não gosto dos traços hiper-realistas e uniformes funcionais e sem cor”

Quadros de Os Fabulosos, trabalho do quadrinista Roger Cruz

Você também faz referência à trama do primeiro filme dos X-Men, lançado no ano 2000 e um marco para essa leva recente de adaptações de HQs de super-heróis. O quanto você acha que essa onda de adaptações influenciou a forma como se pensa HQs de super-heróis e como o público interpreta esses trabalhos?

Sim, na primeira história, o plano do Mentor Magnetic (Magneto) é bem semelhante e faz referência ao plano do Magneto de construir um dispositivo para transformar os humanos em mutantes, mas nos Fabulosos o tal dispositivo tem outro objetivo. A relação entre Caolho (Ciclope) e Nanico (Wolverine) faz referência a relação deles no filme e também nos quadrinhos. Mas Fabulosos é uma paródia, então acho que é isso que o leitor espera encontrar na HQ.

Sobre os filmes, curto muito ver esses personagens na tela, mas penso que são produtos diferentes, cada um com suas qualidades e também limitações de linguagem. É inevitável a influência dos filmes nos quadrinhos mas, sei lá, são coisas muito diferentes. 

Como público, eu não gosto dos traços hiper-realistas e uniformes funcionais e sem cor nas HQs, mas é porque cresci lendo gibi nos anos 80 com desenhos bem estilizados com paleta de cor limitada e abstrata mas que achava ótima e ainda acho.

Quadros de Os Fabulosos, trabalho do quadrinista Roger Cruz

O que você acha que o gênero de super-heróis oferece de melhor e mais acrescenta à linguagem dos quadrinhos?

Tem uns 10 ou 15 anos que não acompanho a produção de quadrinhos de super-heróis, então eu não saberia dizer o que eles representam hoje.
Mas, para mim, na minha época, era como acompanhar aventuras de deuses e heróis, tais como os gregos e romanos, mas ambientadas no presente.

Comecei a desenhar copiando desenhistas da Marvel e DC e foi com gibis de super-heróis que desenvolvi a paixão por histórias em quadrinhos. 
O gênero de super-heróis foi para mim a porta de entrada para outros gêneros e produções de outros mercados.

Quadros de Os Fabulosos, trabalho do quadrinista Roger Cruz

Quais as melhores memórias que você têm do seu período trabalhando com quadrinhos de super-heróis? Quais são as piores?

Eu penso que aproveitei e celebrei pouco cada conquista daquela época.
O dia-a-dia para um desenhista lento e inexperiente como eu era no começo, era cansativo e estressante por causa dos prazos, e eu me cobrava demais em cada cena, em cada página. Mas era um trabalho muito bem pago e compensava financeiramente. E o mais importante, era um trabalho que eu gostava de fazer e sabia fazer. Conhecia bem aqueles personagens e era divertido poder dar vida e movimento pra eles com o meu traço.

Desde 2009 ou 2010 que não faço nenhum trabalho regular para editoras gringas. O último foi Uncanny X-Men: First Class. De lá pra cá, tenho me dedicado a ideias que ficaram de lado durante a época que desenhava comics. 

Sempre que tinha um tempo livre, entre uma página e outra de super-heróis, escrevia e esboçava essas ideias mas não conseguia trabalhar em dois projetos ao mesmo tempo. Ainda não consigo. Uma das coisas melhores coisas daquela época foi conhecer e poder trabalhar com tantos artistas que hoje são amigos e inspirações.

“O que mais nos atraia na ideia do financiamento coletivo era conhecermos a demanda exata do livro”

Quadros de Os Fabulosos, trabalho do quadrinista Roger Cruz

Você já teve trabalhos publicados por editoras nacionais e internacionais, publicou de forma independente e por meio de editais e com Os Fabulosos teve sua primeira experiência com financiamento coletivo. Como foi/tem sido essa experiência com o Catarse para você?

Eu já sabia muito do que pode dar errado em um financiamento coletivo pelas experiências dos amigos e pelas dicas da própria plataforma, então fui bastante cauteloso e eu e minha esposa nos programamos bem pra minimizar os possíveis problemas.

Resolvemos só lançar a campanha com o livro pronto pra ir pra gráfica, estabelecemos metas modestas e com recompensas que não fossem complicadas de organizar e enviar.

O que mais nos atraia na ideia do financiamento coletivo era conhecermos a demanda exata do livro, já que o espaço que temos para guardar livros em casa está diminuindo. Depois dos lançamentos, começamos a enviar para os apoiadores. 

Um quadro de Os Fabulosos, trabalho do quadrinista Roger Cruz

Você pode recomendar algo que esteja lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Descobri por acaso na internet, os excelentes Wandering Island e Wandering Emanon, do Kenji Tsuruta. Curti Dark, do Netflix, e Cobra Kai, do YouTube, e no momento, estou ouvindo Synthwave em um canal chamado NewRetroWave, breguices antigas em playlists de Rock e Metal.

A capa de Os Fabulosos, HQ de Roger Cruz inspirada no universo dos X-Men

Entrevistas / HQ

Papo com Deborah Salles e Sofia Nestrovski, autoras de Viagem em Volta de uma Ervilha: “A gente queria fazer um livro sobre nada, mas que fosse bom de olhar. Que educasse nossa maneira de prestar atenção no mundo”

Publicado pela editora Veneta, Viagem em Volta de uma Ervilha é o primeiro quadrinho de Deborah Salles e Sofia Nestrovski lançado por uma editora. Anteriormente, em 2018, a dupla havia trabalhado junta em Minha Casa Está um Caos, um dos vencedores do edital da Coleção Des.Gráfica, organizado pelo Museu da Imagem e do Som. Responsável pela arte dos trabalhos da dupla, Salles também havia publicado a independente Quase Um Ano e quarta edição da Série Postal 2018.

Entrevistei as duas autoras para escrever sobre Viagem em Volta de uma Ervilha para o jornal O Globo. Você lê o meu texto sobre a HQ clicando aqui. Reproduzo a seguir a íntegra da minha conversa com as artistas, na qual elas falam sobre a dinâmica de trabalho que desenvolveram durante a produção do livro, comentam as influências do quadrinista Winsor McCay e do poeta britânico William Wordsworth e apresentam algumas cenas inéditas que acabaram fora versão final do quadrinho. Papo massa, saca só:

“Foram surgindo as afinidades e a vontade de criar algo no mundo enquanto a nossa amizade ia se criando”

Um quadro de Viagem em Volta de uma Ervilha, de Deborah Salles e Sofia Nestrovski

Por causa do Minha Casa Está um Caos e pelos posts de vocês no Instagram eu presumo que a amizade de vocês não é de hoje. Vocês podem me contar, por favor, como se conheceram? E quando vocês criaram alguma coisa juntas pela primeira vez?

Não é de hoje, mas também não é tão antiga assim. Ela tem exatamente a idade deste livro novo: quase dois anos. A gente se aproximou porque queria fazer algo juntas. Já tínhamos nos encontrado uma vez ou outra, por uma amiga em comum (beijo pra Milena), mas nunca tínhamos conversado de verdade. Partiu da Deborah o convite para pensarmos num projeto coletivo. Daí em diante foram surgindo as afinidades e a vontade de criar algo no mundo enquanto a nossa amizade ia se criando.

O livro foi se realizando por meio de muita troca e muita convivência. Começamos a nos ver quase diariamente durante esse período, porque foi um momento em que nós duas estávamos trabalhando em casa, passando os dias sozinhas… então fazia sentido que a gente se juntasse para trabalhar em companhia. A gente começou a passar o dia juntas, mas cada uma fazendo suas próprias coisas, parando de tempos em tempos para tomar um café ou comer um doce ruim de padaria. Nessa convivência, é claro, a gente conversava muito sobre o livro e ia experimentando modos diferentes de fazê-lo.

Como foi o início dessa experiência juntas?

Foi uma descoberta para nós duas: como trabalhar juntas, como ir se afinando uma à outra. Teve muita troca de referências durante todo o processo. Criamos uma pasta no dropbox onde fomos colocando todo tipo de coisa que queríamos compartilhar entre nós — músicas, poemas, uma caligrafia bonita num papel antigo… São referências que nos ajudaram a pensar no projeto, mas que também nos fizeram mais amigas, mais íntimas. Não é pouca coisa.

“Talvez tenha sido essa a ideia ou sentimento inicial do livro: uma vontade de se colocar no mundo”

Quadros de Viagem em Volta de uma Ervilha, de Deborah Salles e Sofia Nestrovski

Eu queria saber o mesmo sobre o Viagem em Volta de uma Ervilha: houve algum momento específico em que esse quadrinho começou a tomar forma? Houve alguma ideia ou sentimento inicial que vocês tinham em mente quando começaram a desenvolver esse projeto?

Talvez ele nunca tenha parado de tomar forma, e se a Veneta não tivesse aparecido, a gente estaria mexendo nele até hoje. Teve alguns momentos em que a gente achou que ele já estava pronto. E não estava. Em abril de 2018, a gente teve um desses momentos. Foi o nosso “primeiro-pronto”. Mandamos um PDF dele para alguns amigos e a maior parte deles nos respondeu com aquele emoji que é só dois olhinhos e nenhuma boca.

Mentira, nenhum deles fez isso, mas acho que foi essa a sensação que nos deu. As pessoas não estavam entendendo o que a gente estava tentando fazer. Então a gente decidiu repensar o projeto, porque aquilo tinha virado uma conversa fechada, que não comunicava com as pessoas além de nós duas. Comunicação é um negócio difícil, mas era o que a gente queria tentar.

Talvez tenha sido essa a ideia ou sentimento inicial do livro: uma vontade de se colocar no mundo. É um pouco vago. A gente queria abrir uma conversa. Talvez seja isso.

Acredito que esse livro foi tomando forma principalmente a partir das reflexões da Sofia pro mestrado e da Deborah sobre quadrinhos e design. Fico curioso pra saber o quanto a Deborah tava inserida nos estudos da Sofia e a Sofia nas reflexões da Deborah sobre HQs. Como foi pra vocês a experiência de uma ir se inteirando e dominando o universo habitado pela outra?

A gente se conheceu num momento muito parecido, em que as duas precisavam se concentrar muito em projetos das quais tinham que dar conta sozinhas. Eram trabalhos muito individuais e de muita pesquisa, então chega um momento que parece que você está flutuando no vazio e sua cabeça virou um balão de ar.

Foi muito bom descobrir que, de repente, a gente tinha com quem compartilhar nossas pesquisas. A natureza de trabalhar junto é meio essa: parar pra conversar, ficar um tempão em silêncio depois, ver o que a outra está fazendo… acho que a gente se apresentou uma para a outra também pelo nosso trabalho.

Além disso, teve muita ajuda num sentido mais prático, a Deborah leu e releu e diagramou o mestrado da Sofia, a Sofia fez várias poses estranhas para que a Deborah pudesse desenhar no TCC, que ela leu e releu também… E os trabalhos com certeza foram mudando por essas influências. Bônus: o mestrado da Sofia fala sobre poetas da virada do século 18 para o 19 que eram muito amigos, conviviam quase diariamente e escreveram um livro em conjunto.

Um dos rascunho iniciais do apartamento no qual é ambientado Viagem em Volta de uma Ervilha

Vocês podem me contar um pouco sobre a construção desse trabalho? Qual era a dinâmica de trabalho de vocês? Vocês trabalharam com um roteiro fechado?

Não tivemos um roteiro fechado. Foi muito na tentativa e erro. A gente tinha feito histórias inteiras que, de última hora, entendemos que não cabiam no quadrinho, estavam destoando. Então tiramos. Mas podemos mostrar uma palhinha (não comprometedora) delas:

Quadro de uma história que acabou ficando de fora de Viagem em Volta de uma Ervilha
Quadro de uma história que acabou ficando de fora de Viagem em Volta de uma Ervilha
Quadro de uma história que acabou ficando de fora de Viagem em Volta de uma Ervilha

Para cada história que fizemos, foi um processo diferente. Às vezes era como se a gente estivesse começando um livro novo, do zero, a cada história nova. Então deu um trabalhão. Se trabalho deixasse alguém rico, a gente agora seria milionárias.

Estudos de diagramação das páginas 32 e 33 de Viagem em Volta de uma Ervilha
Primeira versão de um desenho do epílogo de Viagem em Volta de uma Ervilha
Esboço final de um desenho do epílogo de Viagem em Volta de uma Ervilha

Sofia, eu gosto muito como o seu texto no quadrinho é disposto em parágrafos blocados com cara de quadros. Você pensou no seu texto a partir dessa disposição visual associada aos desenhos da Deborah? Você sentiu algum desafio particular em construir um texto para uma história em quadrinhos?

Alguns dos textos já estavam prontos antes de eu conhecer a Deborah, e a gente foi pensando em como dividi-los para encaixarem nas páginas. O texto de abertura, por exemplo, era todo escrito em parágrafos longos, e a gente sentou juntas para separá-lo em pedacinhos. Mas o mais legal, pelo menos pra mim, foi quando comecei a pensar a escrita junto com o desenho, pensar numa espécie de roteiro. Propus coisas de desenho para a Deborah e deu certo porque a Deborah é uma gênia. É muito bom trabalhar com gênios.

Foi uma grande descoberta e uma grande alegria e uma grande libertação fazer esse livro. Várias coisas grandes. O que permitiu que o livro fosse pequenininho, para ele ter só o que precisava ter, e todas as rebarbas de emoção puderam permanecer conosco. 

“Tinha alguma coisa na minha pesquisa que parecia conversar com o livro, e hoje eu acho que eram os espaços vazios e de silêncio”

Um quadro de Viagem em Volta de uma Ervilha, de Deborah Salles e Sofia Nestrovski

Aliás, Sofia, o que mais te interessa na linguagem dos quadrinhos? 

A primeira coisa que eu penso é que me interessa aprender uma língua nova. E o quadrinho é isso para mim: um jeito novo de falar. Vou contar uma história.

“Uma cesta de pesca é feita para capturar peixes. Mas depois que você tem o peixe, você não precisa mais pensar na cesta. Uma armadilha é feita para capturar lebres. Mas depois que você tem a lebre, não precisa mais pensar na armadilha. Palavras são feitas para capturar ideias. Mas quando você já capturou essas ideias, não precisa mais pensar nas palavras. Se eu pudesse apenas encontrar alguém para conversar comigo que tivesse parado de pensar nas palavras…”

Essa historinha é de Zhuang Zhou, um filósofo chinês que viveu mais de dois mil anos atrás. Me faz pensar nas possibilidades do quadrinho. E me faz pensar no que foi trabalhar com a Deborah.

Deborah, mesma pergunta procê: o que mais te interessa na linguagem dos quadrinhos?

Poderia dar a mesma resposta, porque para mim também é uma linguagem totalmente nova, um jeito de pensar o desenho que eu só comecei a experimentar há pouco tempo. Como alguém que desenha, gosto muito de poder trabalhar uma mesma ideia em quantas páginas for necessário, e com recursos que parecem infinitos. Felizmente, eu sou alguém que desenha trabalhando com alguém que escreve, então é como se todo aquele infinito se multiplicasse por mil.

Deborah, me fala sobre as suas técnicas? Como você faz os seus desenhos? Qual material você usa? 

Como estava fazendo meu TCC — também um quadrinho — quando começamos o nosso livro, parti dos mesmos materiais que já estava usando, caneta-pincel e nanquim. Tinha alguma coisa na minha pesquisa que parecia conversar com o livro, e hoje eu acho que eram os espaços vazios e de silêncio. Mas a primeira ponte que fiz entre os dois trabalhos foi repetir os materiais, e não deu certo. O nosso livro exigia um grau de precisão muito maior, e eu mudei para bico de pena, um pincel bem fino e duas cores de nanquim. 

Cenas de uma história que acabou ficando de fora de Viagem em Volta de uma Ervilha
Cenas de uma história que acabou ficando de fora de Viagem em Volta de uma Ervilha

Eu adoro a forma como vocês exploram o branco algumas páginas. Por que essa opção por tanto espaço “vazio”?

Para permitir que o leitor tenha um espacinho para ele também.

Também queria saber mais sobre a opção de cores utilizadas por vocês. Por que essas cores?

No começo, o livro era todo colorido.

Um primeiro rascunho de Viagem em Volta de uma Ervilha, ainda em cores

Depois, a gente percebeu que isso poderia ficar confuso, além de diminuir muito nossas possibilidades de publicação, porque deixa a impressão bem mais cara. Então o rosa partiu de uma observação da Deborah de que o apartamento da Sofia tinha muitas coisas vermelhas. E que o rosa é a versão encantada do vermelho.

Mas essa cor tem mais de um significado: em primeiro lugar, o rosa é o lugar onde a vida imaginária do livro acontece. Mas ele às vezes cumpre uma função instrumental mesmo, de criar contrastes nos desenhos e de chamar a atenção para algo específico num quadro.

Depois que a gente já tinha entendido que o nosso quadrinho teria essas duas cores, teve um livro que nos ajudou a entender como desenvolver nossas ideias: Eloise, parceria da Kay Thompson (texto), com Hilary Knight (desenhos). É um livro infantil maravilhoso, sobre uma criança mal-educada e inquieta, vivendo sozinha num quarto com seus animais de estimação. Um pouco como a gente:

Uma página de Eloise, parceria de Kay Thompson com Hilary Knight

Me falem, por favor, um pouco sobre a influência do Little Nemo in Slumberland e do Winsor McCay na construção desse livro?

Por um lado, existe algo do tom geral do Little Nemo que nos atrai — em primeiro lugar, isso de você não saber se é um quadrinho para crianças ou para adultos. E isso de ele viver histórias mágicas e cheias de aventuras nos sonhos, mas o que muitas vezes as motiva é um troço totalmente banal e estranho: aquilo que ele comeu no jantar. A indigestão cria histórias lindas. Tem algum senso de humor aí que a gente não sabe explicar, mas que nos deixa curiosas.

Por outro lado, tem o virtuosismo do desenho do Winsor McCay. Ele é inimitável, o que enche a gente de vontade de imitar. Por exemplo:

Quadros de The Airship Adventures of Little Nemo, de Winsor McCay
Estudos de Deborah Salles para Viagem em Volta de uma Ervilha

Gosto muito de histórias sobre rotinas e banalidades, são temas predominantes em trabalhos como Seinfeld e nas HQs do Adrian Tomine, por exemplo, e acho que o Viagem gira muito em torno disso. Esses temas também são caros para vocês? 

São muito, e chegaram em nós por muitas referências diferentes. Para dar uma resposta um pouco longa: a maior influência nesse sentido foi provavelmente o William Wordsworth (1770-1850), que é o poeta que a Sofia pesquisou no mestrado. Ele escrevia poemas sobre coisas muito miúdas do cotidiano, porque percebia que as pessoas estavam vivendo num estado de distração muito forte, ficando cegas e insensíveis ao que se passava com elas. Foi o período da Revolução Industrial e do crescimento das cidades na Inglaterra, e os modos de vida estavam mudando. Wordsworth intuiu que esses grandes acontecimentos — impulsionados também pela mídia, que começava a ganhar força — faziam as pessoas perderem contato com elas mesmas, e buscarem emoções cada vez mais fortes, quase como um vício. Os modos de vida estavam mudando e os modos de sofrimento também. A literatura da época era cheia de sangue e lágrimas e exageros; Wordsworth quis escrever num tom que devolvesse às pessoas o que elas tinham de mais humano e inalienável: a atenção. É algo muito simples, mas muito difícil de conseguir, sobretudo nesses momentos — um pouco como hoje — de grande instabilidade política. O que Wordsworth estava fazendo era nos mostrar de novo as coisas que a gente já se acostumou a ver — aquelas coisas do dia a dia que nem percebemos mais. Ele nos reapresenta ao mundo, e nos mostra que de perto ou de dentro tudo é interessante. Ele estava propondo uma educação da atenção.

Isto é um ponto. Mas teve também outras influências (gostamos de Seinfeld e de Adrian Tomine também!), como o filme A cidade onde envelheço (2016), de Marília Rocha. É um filme muito sutil, sobre a vida de duas amigas morando em Belo Horizonte. Não acontece praticamente nada nele, mas é tão bom de olhar. A gente queria fazer algo assim também: um livro sobre nada, mas que fosse bom de olhar. Que educasse nossa maneira de prestar atenção no mundo, e de dar atenção uma à outra. 

Pra gente, agora, resta saber qual vai ser o olhar dos leitores para o livro. Estamos curiosas. E queremos estar atentas.

A capa de Viagem em Volta de uma Ervilha, HQ de Deborah Salles e Sofia Nestrovski publicada pela editora Veneta
HQ / Matérias

Deborah Salles e Sofia Nestrovski falam sobre Viagem em Volta de uma Ervilha, gatos e coisas miúdas do cotidiano

Entrevistei as quadrinistas Deborah Salles e Sofia Nestrovski para escrever pro jornal O Globo sobre Viagem em Volta de uma Ervilha, parceria das duas recém-publicada pela editora Veneta. O foco da HQ de 116 páginas em preto, branco e rosa está na rotina e no convívio das autoras durante um período de pesquisas e reflexões de ambas sobre suas vidas acadêmicas enquanto convivem com a gata Princesa Ervilha.

Incluí no texto algumas aspas das artistas para expor as influências delas durante a construção da HQ – referências que vão de poetas românticos ingleses dos séculos 18 e 19 ao clássico Little Nemo in Slumberland, de Winsor McCay. Você lê o meu texto clicando aqui.

Quadros de Viagem em Volta de uma Ervilha, álbum de Deborah Salles e Sofia Nestrovski publicado pela editora Veneta

HQ

Je Suis Cídio #18, por João B. Godoi

O quadrinista João B. Godoi está morando na cidade de Angoulême, na França, e participando da classe internacional de quadrinhos da Ecole Européenne Supérieure de L’image (EESI). Desde sua chegada à Europa ele vem produzindo uma espécie de diário em quadrinhos batizada de Je Suis Cídio, mostrando um pouco da rotina dele em Angoulême. 

Hoje compartilho a 18ª atualização de Je Suis Cídio aqui no blog, a última da primeira temporada da série. Vocês conferem os 17 capítulos prévios do projeto clicando nos links a seguir: Je Suis Cídio #1Je Suis Cídio #2Je Suis Cídio #3Je Suis Cídio #4Je Suis Cídio #5Je Suis Cídio #6Je Suis Cídio #7Je Suis Cídio #8Je Suis Cídio #9Je Suis Cídio #10Je Suis Cídio #11Je Suis Cídio #12Je Suis Cídio #13Je Suis Cídio #14Je Suis Cídio #15Je Suis Cídio #16 e Je Suis Cídio #17.