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Entrevistas / HQ

Papo com Jeff Smith, o autor de Bone: “A filosofia de Peanuts, os estilos de Carl Barks e de Walt Kelly, a humanidade de Krazy Kat são o que me trouxe aos quadrinhos”

Entrevistei o quadrinista Jeff Smith, autor do clássico Bone, sobre o lançamento do primeiro volume da versão em cores da série no Brasil. A obra rendeu dez prêmios Eisner e 11 Harvey ao autor e fez dele um dos grandes nomes dos quadrinhos mundiais. A promessa da editora Todavia é que as duas coletâneas que fecham a coleção sejam lançadas no país até o final de 2019. Transformei a minha conversa com o artista em matéria para o jornal Folha de São Paulo e você confere o meu texto clicando aqui – recomendo a leitura da matéria para que você compreenda um pouco mais da jornada de Smith e Bone até o lançamento dessa edição brasileira.

Reproduzo a seguir a íntegra da minha entrevista com Jeff Smith. Na nossa conversa ele falou sobre as origens dos primos Bone ainda na sua infância, comentou as principais influências de sua formação como artista, abordou os desafios de manter uma série independente de 55 edições ao longo de 13 anos e adiantou um pouco sobre seu próximo projeto. A entrevista foi traduzida pelo jornalista, crítico, pesquisador e tradutor Érico Assis (valeu pela ajuda, Érico!). Papo massa, saca só:

“Era fim dos anos 1970. Tolkien, Moebius e, óbvio, Star Wars. Foi chute e gol. Logo eu me dei conta que preferia cultura pop a artes plásticas”

Qual a memória mais antiga que você tem da presença de quadrinhos na sua vida? Eu li que os seus pais eram leitores de quadrinhos, correto?

Meu pai gostava da Mad e lia ela pra mim quando eu era pequeno. Eu amava os desenhos, principalmente Spy v. Spy e os cartuns do Don Martin. Lembro de aprender a ler sozinho com um livrinho de tiras dos Peanuts. Ainda tenho esse livrinho!

Também li que você começou a criar os personagens e o universo de Bone quando era muito jovem. Qual foi o momento em que você decidiu transformar todos esses conceitos em uma série? Você lembra do instante em que decidiu explorar o mundo de Bone?

Lembro, sim. Depois do ensino médio, quando entrei na universidade, os Bones foram parar na mesma caixa das coisas de criança. Estudei artes plásticas, mas na época tinha uma onda de fantasia na cultura pop. Era fim dos anos 1970. Tolkien, Moebius e, óbvio, Star Wars. Foi chute e gol. Logo eu me dei conta que preferia cultura pop a artes plásticas. Em 1979, desenterrei os três primos Bone e comecei a trabalhar com essa ideia de como eles podiam se encaixar em um mundo vasto e de fantasia.

“Eu sabia que personagem de cartum tinha quatro dedos, nariz gigante e pé gigante, então desenhei assim”

Por que Bones? Em termos de fantasia estamos muito mais acostumados com criaturas como elfos, trolls e hobbits, conceitos de certa forma muito mais identificáveis e acessíveis para os leitores, você não acha?

Era o que eu tinha na mão. Eles eram meus! Como você mesmo lembrou, eu inventei os três quando tinha uns cinco anos. Eu sabia que personagem de cartum tinha quatro dedos, nariz gigante e pé gigante, então desenhei assim. E eles parecem ossinhos [bones]! O importante era eles terem personalidade. Já estavam lá, nos gibis toscos que eu fiz quando era criança, o carinha normal, o avarento e o pateta.

No final das contas, Bone é uma história com início, meio e fim em mais de 1400 páginas de quadrinhos, desenvolvidas por você ao longo de mais de 13 anos. O quanto da história você já tinha definida quando começou a publicar a série? O quanto você já sabia dos rumos e do fim da história quando ela teve início?

Minha primeira rodada com o Bone impresso foi uma tira diária no jornal da faculdade. Acho que eu recebia sete dólares por tira. Foi o que eu fiz, cinco dias por semana, durante quatro anos. Como eu tive esse tempo todo, consegui errar bastante e aprender o ofício, mas também brotaram umas coisas que eu ia usar depois. Fone Bone gamado na menina da fazenda, a Espinho. A misteriosa relação entre Vovó Ben e o Dragão Vermelho. A jornada de Fone Bone e Smiley Bone às montanhas para devolver o filhote perdido. O primeiro encontro com Queixo Duro, o leão gigante, e aquela figura meio Morte que mandava nas Ratazanas; tudo virou baliza no épico que depois eu tracei pra revista. O que aconteceu com a tira foi que, como toda tira, ela não tinha fim. Era uma série infinita de piadinhas e aventuras. Eu queria uma trama de verdade, e tramas têm fim. Quando eu inventei o final, consegui usar esses pontos de parada pra criar uma trama, no que eu esperava que virasse uma série em quadrinhos épica.

“Quando eu inventei o final, consegui usar esses pontos de parada pra criar uma trama, no que eu esperava que virasse uma série em quadrinhos épica.”

Ainda sobre Bone ser essa imensa saga de 1400 páginas: você tinha consciência da etapa da história em que você se encontrava enquanto desenvolvia o quadrinho?

Tinha, sim. Tinha que ter. Estava sempre ciente da narrativa, mas às vezes me perdia na selva. Eu tinha o hábito muito ruim de fugir no roteiro quando surgia uma coisa engraçada. Humor é um ímã, no meu caso. Talvez me dê mais trabalho pra voltar à trama, mas vale a pena expandir. Eu tinha uns arquivos e anotações para não sair muito da linha, em todo caso.

Você pensa sobre as experiências distintas entre ler Bone como foi lançado originalmente e nessas coletâneas imensas? O que você acha que alguém que nunca leu Bone pode ganhar tendo acesso à sua história pela primeira vez nessas edições gigantescas?

Se estes volumes mais recentes, e lindos, são seu primeiro contato com Bone, você vai sentir toda a textura e ritmo da trama, a jornada, como um romance ou um filme. Os leitores originais de Bone tiveram a experiência seriada, de uma série em quadrinhos que saía mais ou menos de dois em dois meses. Durante treze anos, cada edição tinha que se sustentar por si só e fazer o leitor voltar pedindo mais. Tenha em mente que, naquela época, a ideia de histórias mais compridas, ou graphic novels, ainda estava no início. Não sei se alguém notou que as aventuras dos Bone estavam se armando para uma conclusão até chegarmos bem pertinho do final! Claro que eu sabia, e por isso que, mais ou menos uma vez por ano, Vijaya e eu republicávamos os gibis em livro, para os novos leitores ficarem em dia. Eram os nove volumes que você precisava ler. Em preto e branco.

Edições em preto e branco são muito mais baratas do que coloridas, ainda mais no caso se publicações independentes, como era o seu caso quando começou com Bone. Quais são os benefícios para a história do preto e branco original do seu trabalho?

Eu gosto de gibi em preto e branco. Os gibis originais de Bone, a série, eram em preto e branco. Isso em parte porque eu não tinha dinheiro pra pagar por cores, mas também porque as tiras que eu adorava, como Peanuts e Dick Tracy, eram em preto e branco. Mas não há como discutir que as versões coloridas fazem mais sucesso.

Você poderia falar um pouco sobre a sua decisão de colorir Bone? Você sempre teve em mente a possibilidade de lançar uma versão colorida?

A decisão de colorir foi, em parte, pragmática e, em parte, inspiração. Pragmática porque a maior editora de livros infantis do mundo, a Scholastic, nos procurou e queria lançar um selo de graphic novels com Bone. Uma das maneiras de renovar a história era colorir. No início eu hesitei, mas fui buscar conselhos com um dos meus ídolos, Art Spiegelman, criador da biografia gráfica Maus. Foi o Art quem me incentivou a colorir. Quando eu perguntei por quê – já que Maus, uma das inspirações para eu investir nos quadrinhos como minha arte, é em preto e branco – ele respondeu o seguinte: ‘Maus trata da guerra e devia ser em preto & branco, mas Bone trata da vida e só vai estar acabada quando estiver colorida.’

“Não sei se alguém notou que as aventuras dos Bone estavam se armando para uma conclusão até chegarmos bem pertinho do final”

Eu li uma resenha famosa de Bone, publicada pela revista Time, que diz que a série é ‘a melhor graphic novel para todas as idades já publicada’. Você tinha um público específico em mente quando começou a produzir Bone? Quais foram as suas impressões quando Bone começou a ser lida tanto por adultos quanto por crianças?

Fiquei surpreso. Quando eu lancei Bone, havia pouquíssimas crianças comprando ou lendo revistas em quadrinhos nos EUA. Isso mudou aos poucos. As graphic novels e o mangá ajudaram. Talvez eu nem devesse me surpreender, já que me esforcei para criar o gibi que eu queria ler quando criança! Hoje em dia, quando eu faço sessões de autógrafos, a fila tem adultos e crianças misturados.

Eu li várias entrevistas nas quais você fala sobre a influência de tiras de jornais na sua formação. Você poderia falar um pouco como essa influência se fez presente em Bone?

No timing do humor, quem sabe? A filosofia de Peanuts, os estilos de Carl Barks e de Walt Kelly, a humanidade de Krazy Kat são o que me trouxe aos quadrinhos. Ao mesmo tempo, são o que me prendem na prancheta.

“Quando alguém pergunta no que você trabalha, você diz ‘Eu desenho quadrinhos’ e respondem: ‘Massa! Que interessante!’ Isso não acontecia, sabe?”

Bone foi publicado pela primeira vez nos anos 90 e quase 30 anos depois nós ainda estamos aqui falando sobre essa série. O quanto você acha que o mundo dos quadrinhos mudou desde o começo da sua carreira?

Ih, cara. Tanta coisa. Tem resenhas de quadrinhos em jornais e revistas. Os gibis voltaram às mãos de milhões de crianças, você compra gibis onde tiver livros, música ou filmes. Hoje todos os filmes são de super-heróis. Quando alguém pergunta no que você trabalha, você diz ‘Eu desenho quadrinhos’ e respondem: ‘Massa! Que interessante!’ Isso não acontecia, sabe?

O que são quadrinhos para você, hoje?

Não sei uma definição específica, mas sei quando funciona. Quando uma série de imagens com palavras e figuras começa a se mexer, a transmitir tempo e espaço, aquilo ganha vida. Quando isso acontece, o leitor embarca na viagem.

Qual é o seu próximo trabalho? Você está desenvolvendo algum projeto novo no momento?

Estou trabalhando em um projeto chamado Tuki and the Dinga. É a reformulação de um projeto que eu larguei há uns anos e agora quero retomar. Ele se passa na aurora da nossa espécie, há dois milhões de anos.

A última! Você poderia recomendar algo que tenha lido, visto ou ouvido recentemente?

Recomendo tudo que foi escrito ou desenhado pelos fabulosos irmãos Bá e Moon. Atualmente estou lendo Macanudo, do argentino Liniers, e tenho uma compilação de discos ao vivo do Tom Petty em looping perpétuo. Agora eu vou fazer um sanduíche. Obrigado mais uma vez pela atenção! Tudo de bom!

Entrevistas / HQ

Papo com as editoras da revista A Criatura: “Tendo em vista a conjuntura política atual, surge a urgência de reafirmação da potência revolucionária das publicações independentes”

Está marcado para as 14h de domingo (16/12), em Belo Horizonte, o lançamento da revista A Criatura. A publicação é editada pelas artistas Clarice G. Lacerda, Ing Lee e Maria Trika e reúne o trabalho de 29 mulheres em homenagem ao aniversário de 200 anos do clássico Frankenstein ou O Prometeu Moderno, de Mary Shelley. Você confere outras informações sobre a festa de lançamento da revista na página do evento no Facebook. Além de um bate-papo com a presença das três editoras e de algumas das artistas presentes na publicação, o evento contará com uma exposição de trabalhos impressos na revista e show da banda Não Não-Eu.

As 76 páginas em preto e branco de A Criatura apresentam trabalhos de 29 artistas de estilos e origens distintos, além das três editoras e da responsável pelo projeto gráfico da publicação. A obra também marca a estreia do selo A Zica – capitaneado pelos editores da revista homônima que recentemente chegou ao seu quinto número.

Enviei algumas perguntas por email para Clarice G. Lacerda, Ing Lee e Maria Trika perguntado sobre o projeto. As três falaram sobre a origem d’A Criatura, justificaram a decisão de homenagear a obra-prima de Mary Shelley, trataram do processo de edição da revista e ressaltaram a importância de uma publicação independente composta apenas por trabalhos de artistas mulheres em um contexto de conservadorismo aflorado no país. Reproduzo a seguir a lista com os nomes das 33 artistas envolvidas na produção d’A Criatura e, em seguida, a íntegra da minha conversa com as três editoras da publicação. Ó:

(na imagem que abre o post, trabalho da artista Abajur presente na revista A Criatura)

Qual é a origem da Criatura? Como esse projeto teve início?

Maria Trika: A Criatura partiu de um convite dos meninos d’A Zica zine, que tinha acabado de lançar sua quinta edição através de um financiamento coletivo. O financiamento arrecadou mais do que o necessário e por isso eles decidiram investir no selo A Zica, com o objetivo de expandir e incentivar outras publicações independentes, com um recorte específico. Daí os meninos selecionaram eu, Ing e Cla para mergulharmos nessa e editar a publicação com total autonomia, sendo idealizada e realizada exclusivamente por mulheres, com o apoio financeiro d’A Zica.

Clarice G. Lacerda: Como a Maria colocou, A Criatura surgiu por um convite dos editores d’A Zica. Como felizmente a meta do financiamento coletivo foi inclusive ultrapassada, e tendo os editores recebido críticas sobre um desequilíbrio entre o número de artistas mulheres x artistas homens selecionadas para A Zica #5, optou-se que esta outra publicação, primeira a ser lançada pelo selo A Zica, fosse produzida apenas por mulheres. Em nosso primeiro encontro, os editores da Zica nos sugeriram um viés de trabalho que abordasse a colagem, ou o remix, como me lembro do João Perdigão dizer. E havia também a questão histórica: 2018 marcava o aniversário de 200 anos da criação do Frankenstein ou O Moderno Prometeu, da Mary Shelley. Colocado isso na reunião geral, eu, Ing e Maria seguimos com a conversa, pensando os possíveis de um modo feminino de trabalho, e nos perguntando o que poderia significar isso editorialmente. Conversamos um bocado sobre a obra literária e a autora que optamos por homenagear, era muito impactante pra nós imaginar uma jovem inglesa criando aquela narrativa duzentos anos atrás! Entendemos que esse monstro nunca teve nome próprio, e assim batizamos nosso projeto com o mesmo termo utilizado para nominar tal ser, assim surgiu A Criatura. Nos pareceu instigante pensar as relações entre o clássico, pioneiro da ficção científica, e as muitas formas como seguimos com o desafio de criar, de forma contínua, as mulheres que queremos ser. Decidimos que nossa metodologia de trabalho com A Criatura seria distinta daquela adotada pela A Zica, não nos interessava receber trabalhos prontos para selecionar. A chamada aberta que lançamos era sobretudo um convite ao encontro, ao diálogo, às trocas possíveis quando afirmamos o lugar de fala de cada uma. O desejo era de partilhar leituras e olhares sobre o Frankenstein, enxergar como o livro poderia reverberar hoje, como a obra, produzida num contexto tão distinto do nosso, poderia gerar ligações com o que está sendo produzido contemporaneamente por um grupo heterogêneo de mulheres.

“É uma afirmação da vida e de suas potencialidades tratar as dores que se carrega como combustível para criação de algo”

Trabalho de Paula Puiupo presente na revista A Criatura

Por que homenagear a Mary Shelley e os 200 anos da publicação de Frankstein?

Ing Lee: A obra dela foi inegavelmente um grande marco para a história da ficção científica. A narrativa de Frankenstein teve diversos desdobramentos ao longo de todos estes anos, possuindo relevância até os dias de hoje, por ser uma história que não apenas refletia os anseios de seu tempo, como também questões inerentes à existência humana, ou, ainda, como se lida com a diferença e o lugar do ‘outro’ na sociedade, cujas estruturas de poder marginalizam individualidades consideradas fora da norma vigente.

Maria Trika: Motivos não faltam, na minha opinião. Mary Shelley além de ser uma grande escritora, foi uma das poucas mulheres autoras (mas não foi a única, vale ressaltar outras precursoras como Ann Radcliffe e Jane Austen) da Literatura Gótica, durante o século 19, criando uma de suas maiores obras. Além disso, pessoalmente, tenho grande fascínio por Frankenstein, por suas peculiaridades perante aos demais clássicos sobre monstros, devido ao fato de sua monstruosidade estar relacionada diretamente a questões mais internas e abstratas como a memória, o olhar e a concepção de determinados conceitos como corpo, vida e morte.

Clarice G. Lacerda: Como a Ing colocou, a homenagem se justifica pela relevância que o livro tem ainda hoje, que o torna tão atual, pela muitas formas como ainda é possível acessá-lo e tecer caminhos de reflexão. Trata-se de uma narrativa densa, que coloca a relação morte-vida em primeiro plano, como colocado pela Maria, que não esconde o lado mais escuro, sombrio e monstruoso que todas nós temos. A narrativa trata do gesto da criação de uma forma não idealizada, mas sim problematizada eticamente, apontando as motivações e os perigos de uma ambição desmedida em desvendar os mistérios, quando há desejo excessivo de controle e poder. Mary Shelley me parece ter elaborado muitos aspectos de sua biografia, rica em doloridos desafios, na produção desta obra, e isso para mim é de relevância ímpar, de valor atemporal. É uma afirmação da vida e de suas potencialidades tratar as dores que se carrega como combustível para criação de algo, e não para a mortificação ou vitimização paralisante do sujeito. Nos debruçarmos sobre a trajetória da autora e mergulharmos em sua obra foi uma oportunidade de atualizarmos esse gesto afirmativo perante a realidade, especialmente quando vivenciávamos um período eleitoral bastante cruel. Foi uma chance de reformularmos perguntas juntamente com as artistas e a publicação é um conjunto de respostas possíveis, são trabalhos que nos colocam diante de mulheres que existem por que criam, resistem, insistem. Mulheres cheias de coragem, que estão abertas a enxergar e encaram de frente o monstro.

O evento de lançamento da revista A Criatura está marcado para o dia 16 de dezembro de 2018 em Belo Horizonte

Vocês podem falar um pouco, por favor, sobre o conteúdo d’A Criatura? Que tipo de trabalho está presentes na revista? Não é uma publicação exclusivamente de quadrinhos, correto?

Ing Lee: A publicação não se limita aos quadrinhos, abrangendo fazeres artísticos que vão desde as artes gráficas até a escrita. Tivemos inscrições de artistas de trajetórias bastante distintas e chegamos a selecionar algumas que trabalham com performance, que se interessaram pelo nosso projeto e se propuseram a experimentar outras linguagens.

Maria Trika: Correto. A publicação não é exclusivamente de quadrinhos. Na real, o conteúdo da revista é uma diversidade de trabalhos artísticos de mulheres que admiramos, que acreditamos na potência dos trabalhos e que teriam haver com a proposta d’A Criatura.

Clarice G. Lacerda: O conteúdo dA Criatura é muito heterogêneo, o que reflete também a equipe editorial formado por nós três. O grupo é formado por artistas de idades e localidades diferentes, que investigam linguagens e modos distintos de produção, o que colaborou para riqueza e potência da publicação, que contempla a diversidade, tramando relações entre singularidades. Em tempos de ‘outrofobia’ (citando um autor, Alex Castro) essa convivência editorial me parece ter grande relevância, para não dizer que se trata de uma proposição necessária.


“O conteúdo da revista é uma diversidade de trabalhos artísticos de mulheres que admiramos”

Trabalho da artista Si Ying Man presente na revista A Criatura

Vocês podem comentar, por favor, o processo de curadoria da revista? Como vocês chegaram nessas 33 artistas que tiveram trabalhos impressos nessa primeira edição?

Maria Trika: A ideia da curadoria das 29 artistas se deu da seguinte forma: após diversas conversas entre nós, as editoras, optamos por fazer abrir uma chamada para mulheres – cis e trans – artistas. No entanto, ao invés de analisarmos trabalhos já prontos, pedimos as candidatas que enviassem seus portfólios e uma ‘carta de intenção’ (só que sem tanta formalidade hahaha) dizendo porquê gostariam de participar d’A Criatura. Optamos por essa forma por acreditarmos em um processo mais harmonioso, cuidadoso, subjetivo e acolhedor, já que desde o início fez-se claro que A Criatura demandaria um trabalho em conjunto, diferente dos moldes normativos (estabelecidos, em boa parte – se não por inteiro – por homens brancos héteros, seguindo uma lógica quase que fálica de lidar com as coisas), que aparentemente, levam o título de alcançarem maior ‘produtividade’.

Ing Lee: Assim como a Maria disse acima, optamos por um processo diferente do que A Zica propõe: ao invés de selecionarmos pelos trabalhos já feitos, selecionaríamos primeiramente as artistas e só assim se iniciaria a feitura dos trabalhos para a publicação, que foi acompanhada de uma forma mais individualizada e levando em conta as particularidades de cada uma. Foi um processo que nós editoras pensamos ser mais acolhedor e visando estabelecer um vínculo mais próximo das artistas envolvidas.

Clarice G. Lacerda: 33 é o total de mulheres da equipe: três editoras, eu, Ing, Maria; Ana Paula Garcia, artista gráfica que integrou a equipe; e as 29 mulheres criadoras. Na real selecionamos 30 mulheres a partir da chamada aberta, mas uma delas optou por se dedicar integralmente à campanha do Haddad depois do resultado do segundo turno da eleição presidencial. Daí ficamos com esse número meio curioso, 29, pois não havíamos selecionado suplentes. Como Ing e Maria disserem, a seleção foi feita a partir da análise das trajetórias e pesquisas das inscritas, recebemos 95 inscrições no total. Levamos em consideração a relação entre o percurso de cada uma com o universo técnico e simbólico da colagem, e as conversas possíveis com questões que nos interessavam na leitura do Frankenstein. Como cada editora tem um perfil muito distinto, ponderamos juntas para chegarmos num grupo que contemplasse as diferenças que já identificávamos entre nós três.


“O resultado final da publicação é uma evidência da consistência que essa escolha editorial mais afetiva proporcionou para A Criatura”

Trabalho de artista Maira Públio presente na revista A Criatura

Vocês podem falar um pouco, por favor, sobre o processo de edição da revista? Como foi o trabalho de editar e reunir todas as publicações que vocês receberam?

Clarice G. Lacerda: Não recebemos publicações. As inscritas nos enviaram portfólios, sites pessoais, etc., para que pudéssemos conhecê-las um pouco. Cada editora teve a chance de se posicionar criticamente diante da trajetória das inscritas, e assim chegamos no grupo de 30, que depois passou a ser de 29. Confiamos nas mulheres que selecionamos, confiamos na abertura ao diálogo, confiamos em nós mesmas, e isso se refletiu na riqueza do processo editorial. Depois da seleção, fizemos uma reunião geral com todas as selecionadas, antes delas produzirem os trabalhos para A Criatura. Nesta ocasião, já havíamos definido o formato estrutural do projeto gráfico, que foi apresentado para o grupo: cada mulher criadora ocuparia o espaço de uma lâmina, frente e verso, e faria também uma parte do corpo, a ser escolhida livremente, para um pôster que a Ana Paula Garcia, nossa artista gráfica, iria compor. A publicação é na verdade um bloco, composto por este conjunto de lâminas, e um pôster que, dobrado, funciona como sobrecapa. É um corpo gráfico formado por partes distintas, que pode ser fragmentado de acordo com o desejo do leitor. Cada parte tem sua autonomia – tanto no bloco como no pôster –, e o conjunto conforma uma composição inusitada, tem um estranhamento ali que nos conecta muito com a ideia do monstro, da criatura da Mary Shelley. O bloco é formado por esses encontros, um tanto ocasionais, pois seguimos a ordem alfabética para ordenação das lâminas. Ao longo do processo criativo, dividimos o grupo das 29 selecionadas entre as três editoras, e assim pudemos dar assistência direta e ter uma interlocução mais próxima com as mulheres em seu processo criativo. Foi essencial esse tipo de metodologia pautada no acolhimento e no diálogo, sinto que o resultado final da publicação é uma evidência da consistência que essa escolha editorial mais afetiva proporcionou para A Criatura.

Maria Trika: Acredito que a Cla pode dizer melhor sobre isso, por ter mais experiência nessa questão. Talvez, eu consiga dizer mais sobre o processo afetivo, desde sua concepção, já estava estabelecido que A Criatura lidaria com muita pluralidade, por tratar-se de sensibilidades, subjetividades e, literalmente, corpos diferentes unidos para criar um só – que seria a publicação. Diante desse fato, nos, editoras, optamos por transformar essa união em potência de vida e não de morte. Transformar em vida, a junção de várias partes mortas (não necessariamente), como acontece com a criatura do livro. A partir daí, o processo foi de muita paciência, dedicação, respeito e aprendizado. Digo por mim, mas isso foi extremamente desafiador em certos momentos. Cada um habita o mundo de um jeito e fazer com que a diversidade mantenha-se enquanto potência, exige que a gente se flexibilize em alguns pontos, se desapegue de outros, resista em alguns momentos, fale e, principalmente, pare para ouvir e olhar o outro – de fato – (taí algo revolucionário, na atual conjuntura mundial e brasileira). E essa movimentação-dança entre sua existência e a do outro já é um aprendizado imenso, agora imagine isso enquanto ponto de partida para criar algo-outro corpo-mundo.

Quais as principais expectativas que vocês tinham em relação à revista e o que mais surpreendeu vocês em relação ao resultado final?

Clarice G. Lacerda: Eu tinha a expectativa de que uma metodologia editorial baseada em acolhimento, empatia, diálogo e reflexão conjunta gerasse uma publicação consistente, que desse um passo além, e mais aprofundado, em relação ao lugar comum, e um tanto simplista, que costumamos tratar a ideia de monstruosidade. O que me surpreendeu foi a maneira generosa e engajada como as mulheres realmente toparam encarar de frente a tarefa, enquanto atravessávamos um período de muita instabilidade no Brasil, a coragem do grupo em superar os efeitos deste terror e se afirmar criativamente no mundo chega a me dar arrepios. Os trabalhos d’A Criatura demonstram uma disposição, um fôlego para desmontar e reordenar formas de encarar ‘o lado mais negro’ que me chega como sopro de lucidez e saúde num contexto apinhado de perversidades. É muito bom se surpreender com a força feminina, dá uma esperança e um aconchego, estamos juntas e somos fortes.

Ing Lee: Nunca tive experiência como editora antes, então pra mim tudo foi muito novo e diferente, não tinha muito como prever o que sairia dali, mas desde o início fiquei bem animada com a proposta! O resultado final foi incrível, fico feliz por poder participar de uma iniciativa que abre espaço para várias mulheres criadoras de lugares e vivências tão distintas entre si. Tivemos a presença de artistas mais experientes e outras mais novas, combinação que deu super certo e que foi muito gratificante.

Maria Trika: A gente sempre se surpreende quando a ideia torna-se corpo, né?! E nesse caso a surpresa foi enorme, não por esperar menos das meninas ou algo assim, muito pelo contrário. A surpresa se deu porque ficou ‘lindimais’ e sentir esse encantamento, orgulho e admiração de uma só vez surpreende a capacidade de sentir da gente.


“Não estamos reafirmando um suposto feminino docilizado e bem comportado, estamos revelando o monstro, olhando ele nos olhos, arrancando suas vísceras e fazendo arte com elas, criando outra coisa, parindo o novo”

Trabalho da artista Elisa Carareto presente na revista A Criatura

A revista está saindo às vésperas da posse de Jair Bolsonaro na presidência e em um contexto de conservadorismo crescente no país. Qual vocês consideram o papel potencial de uma publicação independente como A Criatura, editada por mulheres e com obras apenas de mulheres, dentro desse cenário catastrófico?

Clarice G. Lacerda: Como disse antes, A Criatura, em seu próprio processo de criação, já refletiu muito uma das respostas que nos foi possível dar para esse tipo de cenário. Para mim, a catástrofe, como tudo, é transitória. Não creio ser produtivo exaltar uma narrativa dramática, de lamento e vitimização. Enxergo nesses momentos de crise uma oportunidade de desmoronamento e renascimento únicas, é um presente dependendo da forma como optamos encarar e nos posicionar diante da dor e do horror, que são essencialmente parte da vida desde que o mundo é mundo. Aqui reside a beleza da escolha e do livre arbítrio, do sujeito que é autor real de sua narrativa de vida singular. Sinto que a escolha do Frankenstein e a escuta da voz de Mary Shelley foram muito acertadas para esse momento. Não estamos reafirmando um suposto feminino docilizado e bem comportado, estamos revelando o monstro, olhando ele nos olhos, arrancando suas vísceras e fazendo arte com elas, criando outra coisa, parindo o novo. A potência do feminino, para mim, está muito nisso, no dom de gestar a vida no escuro das entranhas, de suportar a dor dilacerante para dar à luz ao outro. É a beleza da cadela lambendo a cria recém-nascida e comendo a própria placenta para ter energia e assim gerar o leite que amamentará a ninhada. O amor é também escatológico, tudo que vive gera resto. Falo da gestação, do parto e da criação como forças simbólicas, para além daquela fisiologia literal. É a força enlaçada da vida e da morte, pulsantes nisso que nada nem ninguém poderá calar, como dizem algumas mulheres que muito admiro, a força que faz o novo vir é inegociável. É isso, diante do horror, a nossa resposta foi criar A Criatura, e ela veio em bloco.

Ing Lee: Não é de hoje que corpos racializados, LGBTQ+, periféricos, de mulheres e pessoas com deficiência sofrem com marginalizações… A luta segue como sempre seguiu, ela é contínua e forte. Mas é preciso repensar e redefinir estratégias de resistência. Tendo em vista a conjuntura política atual, surge a urgência de reafirmação da potência revolucionária das publicações independentes. Penso esta postura não somente em relação à nossa Criatura, mas para o cenário independente como um todo, que é justamente buscar meios de resistir por meio da união e acolhimento, priorizando a circulação dos trabalhos e ocupando espaços.

Maria Trika: A resposta é meio manjada já né. As mulheres, xs negrxs, LGBTQ+ e as pessoas periféricas, representam tudo que o governo que o dito novo presidente da república, ou pelo menos a imagem dele, é contra, que matar, aniquilar, violentar, oprimir e repreender. Por isso A Criatura já é parida no mundo calcada com o signo de resistência.


“É muito bom se surpreender com a força feminina, dá uma esperança e um aconchego, estamos juntas e somos fortes”

Há planos para que A Criatura seja uma publicação periódica? 

Clarice G. Lacerda: Estou completamente dedicada à parir, como o devido cuidado e rigor, essa Criatura que será lançada muito breve. Não gestamos gêmeos, vai vir um ser só por agora. O depois, é sempre um mistério.

Ing Lee: Por enquanto não temos nenhuma previsão disso. Não vejo sentido em uma continuidade d’A Criatura em si, mas espero que nossa publicação engatilhe novas articulações do gênero e estou sempre aberta à novas propostas!

Maria Trika: Isso ainda não foi conversado formalmente, mas nunca se sabe.

A capa e a 4ª capa da revista A Criatura

HQ

Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #6: “Um certo desprendimento ajuda”

Chega ao fim hoje a série Thiago Souto e a Av. Paulista, na qual o quadrinista fala sobre os bastidores, as inspirações e as influências de seu mais recente trabalho. Por muito tempo tentei me convencer de que te amava (Balão Editorial) conta com a minha participação no papel de editor e narra um passeio pela principal via de São Paulo em um domingo, quando ela é fechada para carros e aberta para pedestres, ciclistas e skatistas. Nesse capítulo final da série, Souto fala sobre a repercussão inicial da HQ após seu lançamento na Comic Con Experience 2018, comenta os sentimentos dele em relação ao livro finalmente impresso e faz um balanço inicial do projeto.

Você confere todos os posts da série Thiago Souto e a Av. Paulista clicando aqui. Ao longo das últimas seis semanas, o autor expôs aqui no Vitralizado muitas das reflexões e dos sentimentos decorrentes da produção e do lançamento da HQ, sua primeira em seguida a Labirinto (Mino). No pé do post de hoje, como material bônus, dou um breve relato sobre essa minha parceria com o autor.

Aproveito a deixa para reforçar o convite: está marcado para sábado (15/12), na loja da Ugra (R. Augusta, 1371, loja 116, São Paulo), a partir das 16h, o evento oficial de lançamento de Por muito tempo tentei me convencer de que te amava. Eu estarei por lá com o Thiago Souto para uma conversa sobre a obra mediada pelo jornalista Thiago Borges, editor do blog O Quadro e o Risco, seguida por uma sessão de autógrafos com o autor. Vamos?

Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #6: “Um certo desprendimento ajuda”

“Espaço pra diálogo”

“Eu fiquei bem satisfeito com o livro impresso, ele ficou bonito e o formato é bem legal, agradável pra ler. É um livro pequeno, bom pra manusear. Acho que deu um espaço bom pros desenhos. Gostei muito da escolha que fizemos pro papel e a impressão ficou ótima. O resultado do livro, como produto e objeto, ficou ótimo. Isso teve reflexo na Comic Con, as pessoas pegavam, manuseavam e ficavam interessadas. Isso abre espaço pra diálogo”.

“Eu nunca tinha feito um quadrinho com papel Pólen, só tinha trabalhado com ele em outros projetos. Enquanto fazia os desenhos coloquei um fundo meio amarelado em algumas páginas e achei que ficou legal. Funcionou quase como uma terceira cor, junto com o preto e o magenta. Ao invés do branco, esse amarelinho funcionou pra mim como uma outra cor e tornou ainda mais confortável a leitura”.

“Todo mundo odeia a Berrini”

“É um quadrinho diferente do meus trabalhos prévios. Algumas pessoas me procuraram no evento por terem ouvido falar do livro pelas redes sociais ou por conhecerem o Labirinto – um projeto bem diferente esteticamente, em termos de formato e tudo mais. A reação mais comum foi, ‘nossa, é muito diferente do que você já fez’. Eu gosto dessas reações. Por se tratar da Paulista e pela relação do personagem com a Paulista, o livro também acaba gerando uma certa identificação com a impressão que as pessoas têm da avenida. É uma relação comum para quem gosta da Paulista e de São Paulo e que também considera esses locais um pouco hostis”.  

“Também ajudaram na Comic Con os prints que imprimi com imagens do livro. Algumas pessoas viam e se interessavam pela HQ. Quando eu falava que as imagens faziam parte do livro, criava-se esse interesse por ele. Mostrar uma imagem de São Paulo para quem é de São Paulo evoca sentimentos de pertencimento e identificação e também gera interesse pelo quadrinho”.

“E muita gente que não é de São Paulo também levou o livro. Apesar de se passar em São Paulo, o quadrinho trata de uma dinâmica de relacionamento comum para quem vive em cidades grandes. Às vezes uma pessoa é de uma metrópole e o sentimento que ela tem é muito parecido com o que é apresentado no livro. Também estamos falando de um marco da cidade, então talvez alguém de fora que tenha ido à convenção tenha levado como uma lembrança da cidade, da mesma forma que você compra um cartão postal de um marco local”. 

“Talvez se eu tivesse falando de outro marco conhecido apenas para paulistas… Não dá pra falar da [Avenida Engenheiro Luís Carlos] Berrini. Todo mundo conhece a Berrini aqui em São Paulo, mas lá fora ninguém conhece. E ninguém ama a Berrini em São Paulo, todo mundo odeia (risos)”

“Recompensa mais imediata”

“É estranha a sensação. Foram dois meses de produção e agora o livro tá pronto, sendo lançado. Isso é completamente diferente. É boa a sensação de publicar alguma coisa, de ver alguma coisa pronta e já ter algumas respostas. É tudo muito imediato e instantâneo. Você faz, tem um período de correria até fechar, a coisa fica pronta e é lançada. Comparativamente, o processo do Labirinto foi muito longo e penoso e tudo isso agora é novo para mim”.

“Embora no Mikrokosmos também tenha sido um processo muito rápido, acabou sendo muito mais solitário. No caso do Por Muito Tempo, por eu ter contado com você e com o Guilherme, acho que a recompensa foi mais imediata”.

“Passou só uma semana desse primeiro lançamento, então eu espero que seja um livro que ainda tenha um eco. O resto do balanço será saber qual vai ser esse eco e como será a repercussão ao longo dos próximos meses, o que vai reverberar. As pessoas vão continuar falando? No Labirinto teve isso: eu lancei e depois de muito tempo ainda continuam procurando. Eu tô curioso pra saber qual será a repercussão desse trabalho, principalmente por ele ter caraterísticas muito diferentes do Labirinto”.

“Um pouco mais ágil”

“A primeira lição é que mesmo trabalhando de forma independente é fundamental ter um editor. Foi uma descoberta saber que dificilmente vou querer trabalhar sem um editor. Faz bastante diferença ter com quem conversar, ter com quem dividir uma ou outra dúvida, ter alguém que possa acrescentar novas ideias ao trabalho. Acredito que isso seja bom não só para mim, mas para qualquer pessoa que vá começar a produzir. Mesmo que não seja um editor em termos formais, é bom ter por perto alguém que acompanhe o trabalho, uma ou outra pessoa que possa trazer ideias honestas, alguém comprometido em potencializar o trabalho”.

“Também foi legal trabalhar com uma editora diferente. A Balão tem uma estrutura diferente da Mino e um modo diferente de funcionar. É importante pra mim ter essas experiências distintas. Eu ainda tô no início da minha produção como quadrinista, ainda tenho que passar por muita coisa e acho muito importante viver esses processos diferentes. Existem jeitos diferentes de fazer um quadrinho e é preciso descobrir o que você prefere e onde se encaixa melhor. Essa experiência foi muito positiva nesse aspecto”.

“Já em relação ao processo de produção, eu desenvolvi esse desprendimento maior em relação ao que estava fazendo. Produzindo dentro de um prazo menor foi necessário aceitar muito mais aquilo que já foi feito. Não dá tempo de ficar revisitando o que já está pronto e já foi incorporado ao trabalho. Isso talvez traga um pouco mais de agilidade para trabalhos futuros, mesmo que eles sejam mais longos, e também me deu um pouco mais de confiança. Tá feito e não dá mais tempo de mudar? Segue em frente. No final deu certo. Claro que é sempre bom planejar e pensar bem antes de fazer as coisas, mas ter um certo desprendimento também ajuda, seja qual for a proporção do trabalho”.

BÔNUS

Nota do editor, por Ramon Vitral

Por muito tempo tentei me convencer de que te amava é a minha quarta experiência como editor de histórias em quadrinhos, a primeira em um livro impresso. Eu editei as 17 edições dos dois primeiros anos da Série Postal, trabalhei com o quadrinista Jão no desenvolvimento da ainda inédita PARAFUSO ZERO – Expansão e ainda estou envolvido em um projeto ainda não anunciado por seu autor. Ou seja, apenas uma dessas três empreitadas foi impressa, mas sendo a edição dos postais uma experiência completamente distinta da parceria com Thiago Souto no desenvolvimento de uma publicação longa.

Ainda tenho pouca bagagem como editor e a minha atuação no quadrinho de Thiago Souto se deu principalmente por meio das conversas constantes que mantivemos ao longo do período de produção da obra. Como jornalista, escrevendo sobre HQs e atualizando quase diariamente o blog, um dos meus principais objetivos sempre foi tentar compreender um pouco melhor a mente de um artista, entender melhor como alguém pensa um quadrinho, conhecer alguns dos métodos e das técnicas e acompanhar cada etapa da produção de um gibi. Editar Por muito tempo foi realizador nesses aspectos e me instigou a aprofundar ainda mais essas investigações pessoais.

Estou muito feliz pelo quadrinho que chega às lojas e tenho certeza que prendi um monte com o Thiago e com o Guilherme Kroll, editor e sócio da Balão Editorial (responsável por publicar a HQ). Agradeço aos dois pela confiança e recomendo procê a leitura imediata da HQ e dos seis posts da série Thiago Souto e a Av. Paulista. É provável que outros projetos do tipo sejam assunto aqui no Vitralizado em 2019, mas enquanto isso, deixo novamente o convite pro lançamento da HQ no sábado (15/12). Nos vemos por lá?

FIM

ANTERIORMENTE:
>> Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #6: “Um certo desprendimento ajuda”;
>> Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #5: “Um processo mais intuitivo”;
>> Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #4: “Um quadrinho com um título imenso”;
>> Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #3: “Experimento voltado para a desconstrução”;
>> Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #2: “É muita gente diferente compartilhando o mesmo espaço”;
>> Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #1: “Parecia coisa de ficção científica”.

HQ

Sábado (15/12) é dia de lançamento de Por tanto tempo tentei me convencer de que te amava, de Thiago Souto

Você está convidado para o evento de lançamento da nova obra do quadrinista Thiago Souto, o álbum Por tanto tempo tentei me convencer de que te amava. Publicada pela Balão Editorial e com a minha participação no papel de editor, o livro será lançado no sábado, dia 15 de dezembro, na loja da Ugra (R. Augusta, 1371, loja 116, São Paulo), a partir das 16h. Eu estarei por lá com o Thiago batendo um papo com o jornalista Thiago Borges, editor do blog O Quadro e o Risco, sobre os bastidores da produção da HQ. Em seguida à conversa, sessão de autógrafos com o autor. Você encontra outras informações sobre o lançamento lá na página do evento no Facebook. Vamos?

E ó, se quiser saber um pouco mais sobre Por tanto tempo tentei me convencer de que te amava, recomendo uma lida na série Thiago Souto e a Av. Paulista, na qual ele fala sobre as principais inspirações e influências do quadrinho e também conta outras curiosidades relacionadas ao projeto. Lembrando que amanhã (13/12) entra no ar o último post da série.

Entrevistas / HQ

Papo com os autores da coletânea Porta do Inferno: “A gente vê o diabo diariamente e faz de conta que não”

Os editores e quadrinistas Lobo Ramirez (Escória Comix) e Luiz Berger (Gordo Seboso) uniram forças para lançar a coletânea Porta do Inferno. O álbum de 76 páginas reúne histórias assinadas pelos dois editores e outros quatro artistas: Emily Bonna, Victor Bello, Diego Gerlach e o quadrinista mexicano Abraham Diaz. A obra tem início com um enredo assinado por Berger mostrando a abertura da porta do inferno na terra e as HQs seguintes apresentam algumas das consequências desse ocorrido, tendo o narrador Caio Tira-na-Cara como o responsável por conduzir o leitor ao longo do álbum.

Autor do épico ASTEROIDES – Estrelas em Fúria, lançado em março de 2018, em parceria da Escória Comix com a Ugra Press, Lobo Ramirez é das figuras mais ativas da cena brasileira de quadrinhos. Em 2017 ele publicou os celebrados NÓIA – Uma História de Vingança (Escória Comix/Vibe Troncha Comix), de Diego Gerlach, e os dois volumes do já clássico Úlcera Vórtex, de Victor Bello. Nove meses após ASTEROIDES, ele publica a parceria com Berger para encerrar o ano de seu selo pessoal com a coletânea de histórias de horror, morte e destruição protagonizadas pelos demônios de Porta do Inferno.

Após responder à breve entrevista a seguir e revelar o primeiro lançamento de sua editora para 2019 (O Alpinista, de Victor Bello), Lobo Ramirez entrevistou cada um dos cinco autores de Porta do Inferno para o Vitralizado. Nas conversas, os artistas falam sobre as inspirações para suas histórias na publicação e expõem suas suspeitas em relação à vinda do anticristo à terra. Saca só:

– LOBO RAMIREZ –

As portas do inferno estão abertas em território brasileiro?

Lobo Ramirez: Escancaradas.

Qual foi a inspiração de vocês para esse formato, com vários autores escrevendo histórias com a mesma temática?

Lobo Ramirez: A real é que esse era pra ser um quadrinho longo do Berger, mas ele desencanou de terminar e eu fiquei enchendo o saco pra lançar porque as páginas eram fodas. Então surgiu a ideia de chamar um pessoal e continuar a historia do ponto que ele parou. Eu não sei se tem alguma coisa nesse formato específico, já deve ter, mas de toda forma eu achei interessante o resultado e quero tentar outros títulos nesse mesmo estilo.

Quais será a próxima investida da Escória Comix?

Lobo Ramirez: Bom, oficialmente confirmado e em produção é um quadrinho do Victor Bello cujo título revelarei exclusivamente agora: O Alpinista, um gibi que ele vem produzindo desde o começo de 2018. Mas já tenho previstos outros 14 títulos novos para 2019, então vai ser um ano de varias investidas. Deus me acuda.

Um painel do quadrinista Luiz Berger presente em Porta do Inferno

– LUIZ BERGER –

LOBO RAMIREZ: Você já participou, como convidado e editor, de diversas antologias de quadrinhos, reunindo nomes nacionais e internacionais. Alguns nomes se repetem nessas publicações, por que Porta do Inferno é diferente das outras?

Luiz Berger: Sim, vários nomes se repetem e acho que vão continuar se repetindo nas próximas antologias. Eu gosto de seguir uma linha editorial com uma identidade, que é bem parecida, ou até igual, à do lobo ramirez. O que difere a Porta do Inferno das anteriores, é que nessa não são só histórias que seguem um tema, como a revista Goró, que reunia histórias sobre bebida, colocadas meio que em ordem aleatória. Nesse caso, as histórias começam do mesmo ponto, da porta do inferno que foi aberta no final da primeira história do gibi, e todas estão conectadas pelos comentários do personagem-narrador Caio Tiro-na-Cara, como em várias revistas de terror dos anos 50. Acho que essa revista está muito mais bem amarrada que as anteriores.

LOBO RAMIREZ: Quando você vai largar mão de ser trouxa e começar a produzir quadrinhos de merda com mais frequência?

Luiz Berger: Acho que esse ano eu volto a fazer com muito mais frequência. Editar essa revista me deu um belo ânimo pra voltar com o Gordo Seboso.

– ABRAHAM DIAZ –

LOBO RAMIREZ: Você já participou de várias antologias de quadrinhos, incluindo Goró (Gordo Seboso), que tem três dos quadrinistas presentes na Porta do Inferno. Há muitos outros quadrinistas nesse meio mais podre no México? Ou você acha que há uma cota de retardados dos quadrinhos por país?

ABRAHAM DIAZ: No México, o quadrinho marginal está apenas começando a se desenvolver. Sem dúvida, há muitos cartunistas começando a publicar quadrinhos podres e eu acho que nos próximos anos haverá um boom nos quadrinhos mexicanos e na arte em geral.

LOBO RAMIREZ: Você acha que Porta do Inferno é mais uma imagem de um bando de marginais falando sobre o diabo, cocô, violência e blasfêmias gratuitas?

ABRAHAM DIAZ: Sim, eu acho que Porta do Inferno é isso, mas eu também acho que não poderia ser outra coisa hahaha

– EMILLY BONNA –

LOBO RAMIREZ: Conte-nos um pouco sobre sua relação com quadrinhos. Você tem um trabalho com ilustração, mas já tinha feito quadrinhos antes? Qual a diferença entre produzir um quadrinho e uma ilustração?

Emilly Bonna: Na infância não cheguei a ler muitos quadrinhos, mas me chamava atenção a estrutura deles, que possibilitava contar histórias através de desenhos. Comecei a fazer breves historinhas pra mim mesma aos nove anos e, conforme foi passando os anos, continuei fazendo quadrinhos e zines bem amadores e com pouca circulação. Na ilustração eu posso passar uma ideia rápida do que quero expressar e nos quadrinhos as formas de explorar um tema são mais amplas.

LOBO RAMIREZ: Por que você aceitou fazer parte desta patotinha horrível de pessoas degeneradas? Não tem medo do que vão falar de você na igreja?

Emilly Bonna: Eu estava no culto da igreja Deus é Amor e no meio da oração, Jesus, na forma do piolho da irmã que estava na cadeira da frente, me disse: ‘Participe de uma HQ de alto grau satânico para enaltecer o Diabo, tô brigado com meu pai Deus, quero deixar o véio puto’. E então cumpri o pedido de Cristo, amém. Não tenho medo do que vão falar pois já envenenei todos os membros da igreja com cianeto misturado no suquinhos Tang de uva.

– VICTOR BELLO –

LOBO RAMIREZ: Na história Fuim, o Xupador de Ossos, mesmo em poucas páginas, você insere uma vasta gama de personagens e parece que a qualquer momento podemos acompanhar qualquer um deles com uma história diferente. Nessa história específica, quais foram suas inspirações para os personagens?

VICTOR BELLO: Nessa história eu quis fazer uma investigação estilo Arquivo X. O demônio não teve uma inspiração específica, mas os personagens da gangue que trafica cascos de tartaruga eu me inspirei em personagens aleatórios de filmes da produtora Troma, gente esquisita. Outros, como as vítimas, busquei as características em típicos personagens que morrem em filmes slashers, então uma das vítimas é um jovem pixador que usa drogas, o outro é um pescador que pesca tartaruga em extinção. São pessoas que num filme slasher são descartáveis. O jovem pixador é parecido também com personagens de propaganda cristã anti-drogas.

LOBO RAMIREZ: Não te incomoda os editores dessa revista claramente estarem ganhando milhões às custas de jovens talentos?

VICTOR BELLO: Incomoda. E me incomoda tanto que pretendo roubar toda a fortuna desses dois em um golpe que já está em curso e assim montar minha própria editora. Os contratarei com carteira assinada, pagarei um salário e os tratarei com toda decência.

– DIEGO GERLACH –

LOBO RAMIREZ: Fazer parte do gibi Porta do Inferno é mais uma de suas participações numa antologia de quadrinhos. Qual o lugar você enxerga que essa história tem dentro do seu trabalho? Ela dialoga de alguma forma com a sua produção atual ou cada título,  cada quadrinho, se adequa a necessidades específicas?

DIEGO GERLACH: Acho que tem as duas coisas, sempre dialoga com as outras HQs que tenho feito e por outro lado também sempre supre uma necessidade específica. Essa HQ pra Porta do Inferno tem umas coisas que vinha fazendo em outros trabalhos (grids fixos, desenho digital fotoreferenciado), mas ao mesmo tempo a demanda era específica (e inédita pra mim): uma HQ de terror com uma pegada clássica. Levou um bom tempo pra ser concluída, ela meio que mudou de rumo e acabei incorporando alguns elementos de uma lenda urbana que me foi contada algumas vezes na época em que fazia catequese. O terço final foi criado no intervalo do primeiro pro segundo turno das eleições de 2018.

LOBO RAMIREZ: Você acha que o verdadeiro anticristo vira à terra como um homem de deus?

DIEGO GERLACH: Como ateu criado no catolicismo, o diabo pra mim é o conceito alegórico definitivo… Mesmo que não exista um ‘verdadeiro’. Tem vários ‘homens de deus’ que são o diabo em pessoa (preciso dar exemplos…?), vão na direção diametralmente oposta dos ensinamentos do mito crístico. É isso: a gente vê o diabo diariamente e faz de conta que não. (Como curiosidade, meu avô queria que eu me tornasse padre.)

HQ

Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #5: “Um processo mais intuitivo”

O novo álbum do quadrinista Thiago Souto está sendo lançado entre hoje (6/12) e domingo (9/12) na Comic Con Experience 2018. O artista estará autografando Por muito tempo tentei me convencer de que te amava (Balão Editorial) na mesa F36 do evento. Eu sou o editor da obra e tenho publicado no Vitralizado a série Thiago Souto e a Av. Paulista, na qual o autor fala sobre as inspirações e referências da HQ e as reflexões tidas por ele enquanto produzia o quadrinho. Na atualização de hoje, reproduzo o depoimento no qual Souto me contou sobre a arte da obra e o estilo que ele desenvolveu para esse projeto.

Como bônus do post de hoje, incluo uma breve entrevista com Guilherme Kroll, sócio-editor da Balão Editorial, responsável pela publicação da HQ. Ele fala sobre sua decisão de lançar o quadrinho e apresenta aqueles que considera os principais méritos do novo trabalho de Thiago Souto. Saca só:

Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #5: “Um processo mais intuitivo”

“Segui mais os meus instintos”

“Eu cheguei a fazer uns esboços prévios bem descompromissados, eram uns desenhos da Avenida Paulista que fiz antes de escrever o roteiro. Eles não tinham nenhum propósito relacionado especificamente à história, poderiam ser apenas ilustrações no final das contas. Quando comecei a pensar na história foi natural usar o mesmo estilo que eu já vinha adotando nesses desenhos. Talvez tenha sido um processo meio intuitivo, quase inconsciente. Pra ser bem sincero, não lembro mesmo se comecei a fazer esses desenhos da Paulista antes ou depois de começar a escrever o roteiro. Suspeito que tenha sido um pouquinho antes”.

“Acho que eu já tinha na cabeça a ideia de uma história com esse visual. Quando finalizei o roteiro, retomei aqueles desenhos, eram sobre a cidade e a Paulista, então foi natural eles entrarem na história. Mas não eram exatamente desenhos de preparação, eram ilustrações soltas e descompromissadas. Se eu colocar um desses desenhos iniciais do lado de uma página do livro impresso, existe uma diferença porque a arte foi se transformando à medida em que fui desenhando”.

“No Labirinto eu fui desenhando muito nos meus sketchbooks até chegar num estilo de desenho que eu achava que casasse direitinho com a história. No Por muito tempo não teve esse processo de ficar procurando o desenho, ele meio que surgiu e eu aceitei, desenhei da forma como ele veio. Não fiquei pirando muito se eventualmente aparecesse uma proposta mais adequada. Foi um processo mais intuitivo nesse sentido, eu segui mais os meus instintos. O que floresceu com mais força permaneceu na história”.

“Bombardeado por informações”

Páginas do novo trabalho de Thiago Souto, já na versão finalizada, sem a presença de requadros ou sarjetas

“O desenvolvimento da história e desse estilo foi engatando aos poucos. Quando fizemos a decupagem do roteiro eu ainda tinha a ideia de usar requadros, sarjetas e tudo mais. Cogitava talvez até fazer algumas experimentações, mas pretendia usar esses elementos e nas primeiras versões das páginas iniciais eles estavam lá. Nesse primeiro momento eu ainda estava pensando de uma forma mais… Tradicional? Nesse começo eu usava o requadro, mas pouco definido, quase não existiam bordas e as sarjetas não tinham uma delimitação clara. Fui desenhando as outras páginas e o processo passou a ficar mais semelhante a uma colagem”.

“Nas nossas primeiras conversas concluímos que tudo isso pelo que passa o personagem meio que surge de uma vez só, não é que primeiro você vai sentir o cheiro do churrasquinho, depois ouvir a música, em seguida escutar as conversas e aí ver a multidão. Não, tudo meio que te arrebata de uma vez só. Quando comecei a desenhar essas cenas, comecei a pensar como uma colagem, ‘sinto o cheiro, vejo a muvuca e tudo faz parte do mesmo desenho'”.

“Quando passei a pensar dessa forma a história começou a fluir melhor. A experiência de andar na Paulista tem um pouco disso: você entra e as coisas vão acontecendo sem você ter controle do que aparece ali na sua frente. Apesar de algumas atrações se repetirem todo domingo, cada experiência é diferente e você é surpreendido cada vez que volta. De repente, trabalhando desse forma quase inconscientemente, eu trouxe um pouco dessa sensação de estar tudo acontecendo ao mesmo tempo, você não tem controle da situação e é bombardeado por informações”.

“Essa espécie de colagem foi funcionando bem à medida que eu desenhava. Quando eu percebi isso, voltei para as primeiras páginas, que tinham esse tratamento um pouco mais ‘tradicional’, e mudei um pouco o que havia feito. Os desenhos entram uns nos outros, da mesma forma que um evento acaba interferindo no outro o tempo inteiro quando você passa ali na Paulista. O som da banda interfere na apresentação do mágico, tá tudo em conflito o tempo inteiro”.

“Outro tipo de experiência”

“Uma das poucas coisas pré-definidas antes que eu começasse a desenhar foi composição do texto com as imagens, o texto fundindo com o cenário em alguns momentos. Em alguns trechos o texto praticamente faz parte do desenho. A forma como o texto seria retratado estava evidente pra gente desde o começo, então talvez essa ideia de que as coisas estão interferindo umas nas outras já tivesse maturando na minha cabeça quando eu escrevi o roteiro e na sua quando você leu o texto”.

“Duas referências em comum que tivemos para retratar esse percurso feito pelo personagem e a forma como ele e o texto se mesclam ao cenário foram o Little Nemo in Slumberland e os trabalhos do Ralph Steadman – que explora bastante essa composição entre imagens e palavras. Ele trabalha a tipografia meio como um desenho, não usa fontes aleatórias”.

“Uma referência que talvez não fique muito clara para quem lê, foi o Jiro Taniguchi, do O Homem que Passeia e do Gourmet. Esses dois livros mostram um cara andando e muito da história é da relação do personagem com o espaço. Claro que as duas obras têm histórias de fundo rolando, mas o principal é o jeito como essa pessoa enxerga o que está ao redor dela. No caso do meu personagem, é uma experiência totalmente diferente. O tema de relação com espaço é o mesmo, mas é um outro tipo de experiência”.

“Então eu voltei pro magenta…

A primeira versão de duas páginas da nova HQ de Thiago Souto, com a presença mais explícita de requadros e sarjetas

“A escolha das cores foi uma questão técnica. Rodar um livro colorido é muito caro, rodar um livro em duas cores é muito mais barato. O processo de impressão tem quatro cores e usar as cores puras acaba barateando a impressão. Na hora de escolher qual seria, eu já tinha usado o preto e tinha mais três opções, o magenta, o ciano ou o amarelo. A mais emotiva e passional era o magenta”.

“O amarelo puro pode ficar muito claro e nós imprimiríamos o livro no papel Pólen, que já é amarelado. O azul é uma cor legal, mas pra essa história não seria tão apropriada. Então eu voltei pro magenta, uma boa saída porque, no final das contas, além de tudo, a cor tem uma função narrativa muito evidente nesse quadrinho. A forma como ela se manifesta na história tem um significado”.

BÔNUS:

[[Por muito tempo tentei me convencer de que te amava foi publicado pela Balão Editorial. Na breve conversa a seguir, Guilherme Kroll, um dos sócios da editora, comenta as impressões iniciais dele sobre a obra e a decisão de participar do projeto]]

Quais as suas impressões iniciais ao saber sobre o conteúdo de Por muito tempo tentei me convencer de que te amava?

Guilherme Kroll: Eu sempre quis publicar o Thiago Souto, ele me mandou uma amostra das páginas e eu já estava convencido. Fizemos uma reunião na qual ele apresentou o texto do projeto e os seus desdobramentos e achei que o livro tinha tudo a ver com nosso catálogo.

Por que a Balão Editorial topou participar do projeto? Qual você considera o principal mérito da HQ?

Como eu falei, o livro tem tudo a ver com a gente. Uma história completa, que foge de clichês e formatos narrativos convencionais, mas sem deixar de ser acessível. Eu acho que é um gibi com muita qualidade, com muitas camadas de leitura e com uma arte exuberante. Pensando bem, a única resposta para este livro é ‘sim’. Não tinha como a gente não publicar isso.

CONTINUA…

ANTERIORMENTE:
>> Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #4: “Um quadrinho com um título imenso”;
>> Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #3: “Experimento voltado para a desconstrução”;
>> Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #2: “É muita gente diferente compartilhando o mesmo espaço”;
>> Thiago Souto e a Av. Paulista – Parte #1: “Parecia coisa de ficção científica”.