Vitralizado

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6ª (25/3) é dia de lançamento de Cabeça de Vento, nova HQ de Frida e Xavier Ramos em São Paulo

Tem sido muito legal acompanhar o desenvolvimento do trabalho dos irmãos Frida Ramos e Xavier Ramos. Os dois já publicaram juntos os quadrinhos Um Dia Ruim, Causos, Olhe Por Onde Anda e Suco de Larana e agora anunciaram a quinta parceria. Batizada de Cabeça de Vento, a nova HQ da dupla será lançada na sexta-feira, dia 25 de março, na loja da Ugra (Rua Augusta, 1371 – loja 116) aqui em São Paulo, a partir das 18h30. Os dois autores estarão presentes para sessão de autógrafos. Você encontra outras informações sobre o lançamento lá na página do evento no Facebook.

Saca a sinopse do gibi, junto com a capa e uma das páginas da HQ: “O quadrinho narra uma história auto-biográfica, na qual o irmão mais velho (Xavier) terá que encarar frente uma situação que a anos ele vem se esquivando. Enquanto sua irmã (Frida) tem seu último dia de aula antes das férias”.

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Clean Break passado a limpo #2: cinema, fascismo e devoção religiosa

O quadrinista Felipe Nunes está com uma campanha de financiamento coletivo no Catarse para bancar a impressão de seu próximo trabalho. Clean Break é uma história distópica noir sobre a investigação de um crime misterioso em uma sociedade na qual o açúcar foi proibido. No início da semana passada entrou no ar aqui no Vitralizado o primeiro post da série Clean Break passado a limpo, surgida de conversas por email e Facebook com o autor nas quais ele fala sobre diversos aspectos e peculiaridades de seu próximo trabalho. No post de abertura da série, Nunes falou sobre as origens do projeto. Agora ele conta sobre o desafio de criar uma história com ambientação e temáticas tão distintas de seus trabalhos prévios (Klaus, Dodô e O Segredo da Floresta). A seguir, Felipe Nunes:

Clean Break passado a limpo #2: cinema, quadrinhos e o impacto da realidade

“Como disse, o livro é completamente diferente de tudo que já fiz. A história gira em torno de um departamento policial que trabalha sem recursos, sem apoio e quase que isolado no lado abandonado da cidade. E tem todo o contexto onde vivem, o modelo de sociedade, a maneira como cada um deles se relaciona com seus superiores e como a história de cada um é ligada com a cidade, o momento social e o que já viveram. Acho que só de ter me arriscado a criar três sub-tramas dentro da principal, uma pra cada personagem, já sinto como o maior de todos os desafios. Até então, meus quadrinhos só andavam em primeira pessoa, câmera na mão e uma narrativa bem objetiva. Aqui, muitas vezes, eu me sinto mais fazendo cinema do que quadrinhos: contextualizar sequências sem mostrar, criar subtextos e MUITO mais diálogos do que o normal, mudar a intenção e o clima de cada sequência de acordo com o momento da história e os personagens… Isso na parte prática, né? Eu não me imaginava abordando uma história adulta agora. O Dodô dialoga sobre divórcio, sobre solidão, mas são todos num contexto muito individualista (assim como o Klaus trata de descobertas pessoais). Aqui eu começo a abordar o impacto da sociedade na nossa vida, pra valer – e sinto que me identifico e funciono melhor operando assim”.

“Acho que por ter me permitido escrever um noir e escrever uma ficção científica, muitos clichês do gênero acabam aparecendo pra mim e pra trama, mesmo que em alguns momentos eu abrace esses clichês e em outros eu os renegue. Mas acredito que tudo funciona de uma maneira mais sutil. Eu tenho tentado ter um cuidado imenso pra não escancarar algumas coisas e deixar o leitor ir entendendo o cenário e os personagens ao longo da história. Mas pensando na nossa época, no momento que estamos, me pareceu muito plausível, e inclusive natural, estar escrevendo sobre esses temas, debatendo fascismo, devoção religiosa, sexualidade e silenciamento. Juro que não foi intencional, ‘escolher’ abordar isso tudo, mas sinto que o zeitgeist de ser um millenial, estar afundado na internet e nessas milhões de discussões me ajuda a criar inúmeras percepções e principalmente opiniões. Pela primeira vez, sinto que fiz um trabalho com opinião. Existe uma voz ali dentro e uma opinião. E provavelmente nada diz mais sobre mim do que meu próprio trabalho e a maneira como represento as coisas”.

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Sábado (19/05) é dia de lançamento de Todos os Santos e papo sobre Tungstênio com Marcello Quintanilha e Heitor Dhalia em São Paulo

Ó, uma dica de programão pra sábado (19/5) caso você esteja em São Paulo: o quadrinista Marcello Quintanilha estará na sede da editora Veneta (R. Araújo, 124, 1º andar, República), a partir das 15h, para o lançamento do álbum Todos os Santos e para bater um papo com o cineasta Heitor Dhalia e os escritores e roteiristas Marçal Aquino e Fernando Bonassi sobre a adaptação para o cinema da HQ Tungstênio. O filme dirigido por Dhalia está previsto para chegar aos cinemas brasileiro em junho e já vi uns bons elogios sobre a produção. Você confere outras informações sobre o lançamento e a conversa lá na página do evento no Facebook.

Aliás, apesar de estar bem curioso pra assistir essa versão de Tungstênio para o cinema, recomendo sua presença no evento de sábado principalmente por causa de Todos os Santos. Ainda estou lendo o livro, mas adianto que é um projeto editorial muito bem sacado, fazendo um panorama da carreira de um dos quadrinistas mais interessantes do mundo hoje. Deixa passar esse não, viu?

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Raquel Vitorelo e a produção do segundo número da Série Postal 2018

A quadrinista Raquel Vitorelo reuniu um vasto conteúdo mostrando os bastidores da produção do segundo número da Série Postal 2018, o quadrinho Crônica. Assim como faço desde o início do projeto, eu vou publicando ao poucos esse material no site da coleção e depois reúno aqui no Vitralizado a íntegra do depoimento da autora e parte do material de making-of. Aliás, vale demais um pulo na página para conferir todas as imagens e rascunhos disponibilizados pela autora. E também recomendo uma visita ao site da Raquel, uma das autoras que mais chama a minha atenção na cena brasileira de quadrinhos. A seguir, Raquel Vitorelo e a produção do segundo número da Série Postal 2018:

“É uma proposta bem diferente, né? O postal tem um tamanho muito restrito. Ao mesmo tempo, isso é bem bacana, quando as coisas ficam livre demais é ainda mais difícil de pensar. Quando eu recebi o convite pra participar do projeto eu deixei um pouco essas limitações do suporte cozinhando na minha cabeça e pensei principalmente em algumas ideias que eu tinha pra quadrinho, assuntos que eu queria tratar e de qual forma eles poderiam ser melhor aproveitados pelo suporte”

“Gostar de brincar com o formato deve ter algo a ver com os meus pais, que são arquitetos. Eu cresci com eles trabalhando e eu achando que eles estavam brincando. Eu acho bacana brincar com os limites da linguagem, o papel, a dobra e como essas coisas também conversam ou não com a narrativa. Acho que não tem sentido não ter um significado narrativo algo que seria interessante de tratar. Por exemplo, no Perigeu eu fiz muitos testes aqui em casa pra ver se fazia sentido imprimir essa história num papel mais transparente”

“Já o Tomboy era uma ideia que eu tinha quase de um manifesto, uma espécie de perfomance de alguém falando com o leitor, diretamente. Uma coisa que eu gosto no Tomboy, que a princípio achei que era um defeito, mas acabei gostando, é que muita gente pega pra ler e não sabe direito por onde começar ou pra qual lado ir. De alguma forma, as pessoas acabam se cativando pelo discurso, completamente direto e pessoal pro leitor. Tentei fazer de uma forma que a própria ordem da dobra desse a ideia da ordem de leitura. É uma coisa meio linear, mas que também faz sentido se forem apenas alguns quadrinhos separados”

“Eu tentei brincar um pouco com uma falta de linearidade, misturando as legendas… Eu estava pensando nisso esses dias e me falaram uma coisa interessante: a minha proposta com esse quadrinho foi justamente misturar as legendas com as imagens que não estavam de acordo, quase como um jogo da memória em que você tem que achar o par, sabe? Essa foi a minha forma de lidar com essa linearidade meio que imposta. E eu também queria remeter um pouco aos quadradinhos do calendário, tem um diálogo interessante com as doenças crônicas, na verdade o meu tema”

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“Eu estava falando com a minha mãe e ela sugeriu que daria pra ler os quadrinhos do postal em uma outra ordem. Foi engraçado ela sugerir isso, algo que eu nunca tinha reparado. Eu estava lendo recentemente sobre os requadros no Japão, nos mangás. Tem uma pesquisadora americana que mora no Japão há muitos anos e ela reparou que as páginas de mangá no Japão nunca tem uma encruzilhada. Como no Japão eles têm uma leitura da direita pra esquerda e de cima pra baixo, eles não têm uma hierarquia do que vem primeiro, se é na horizontal ou na vertical. Eles evitam as encruzilhadas para a ordem de leitura ficar mais evidente. O quadrinho que eu fiz foi com régua, direitinho, cortando na metade as proporções e tal e é isso que permite que ele tenha uma leitura meio diversificada. Foi algo que não pensei muito, mas vendo agora acho que ficou bacana, passa essa ideia eterna de dor e sofrimento da qual você não pode sair (risos)”

“Tem muita coisa que fazemos de forma intuitiva e isso que é legal em quadrinhos – em outras formas de expressão também, mas principalmente em quadrinhos: as leituras ficam muito abertas, existem muitas coisas que escrevemos e só descobrimos depois com a leitura de outras pessoas”

“Esse espaço mais limitado do cartão postal me fez pensar que eu conseguiria tratar bem essa questão da repetição e de uma calendário eterno dentro desse formato. O outro tema que eu tinha pensando não ia nessa proposta, era algo muito diferente. Acho que de vez em quando a gente saca umas pautas que estão em alta, mas entre tratar de uma pauta de um jeito ruim e não tratar da pauta, eu prefiro não tratar”

“Hoje eu acho que escolhi muito bem a cor, ainda mais com essa laminação fosca que ficou muito dá hora (risos) A ideia era que o postal tivesse uma cor vibrante, quase irritante mesmo. Eu não sei até que ponto posso dar spoilers, mas durante todos os quadros eu trato um pouco dos sintomas que eu tenho, eu tenho muita sensibilidade à luz. Enquanto eu desenhava, fui percebendo que o desenho estava mexendo com os meus sintomas e gatilhos”

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“A primeira versão que eu fiz foi azul, um azul bem escuro que passava uma sensação completamente diferente, meio triste, e não era isso que eu queria passar. Sem contar que estava mais convencional. Acho que seria interessante colocar uma cor ironicamente alegre (risos). Esse amerelão tem um pouco das versões em verde e vermelho, que eu também fiz. Esse contraste das cores complementares dá uma sensação agressiva, acho que essa é a palavra”

“Eu fiquei olhando em volta e pensando em coisas do meu dia a dia, completamente cotidianas, mas permeadas pela presença constante de uma doença. Pensei em coisas que não remetem necessariamente a um sintoma, mas fazem parte de uma existência conjunta com essa experiência de uma doença crônica”

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“Eu tenho enxaqueca crônica. Muitas pessoas têm enxaqueca e não sabem muito bem como lidar com isso. Eu tenho pesquisado muito a respeito e descobri que é uma das principais causas de invalidez no trabalho no mundo. As pessoas não têm muita noção que é um distúrbio muito comum, muita gente acha que não é nada demais e relativiza o problema”

“Eu costumo desenhar as coisas no papel, com lápis e lapiseira. Eu peguei o verso de um papel usado. Fiz um esboço e passei a limpo em um papel vegetal. Usei um grafite 0.9. Sempre trato no Photoshop, as cores são Photoshop. Eu faço muita mistureba, gosto de escanear muita coisa e vou mexendo milhões de vezes. Essas cores finais, primeiro eu pintei com um brush e fui mexendo nas configurações dele, de forma que ele misturasse as cores conforme a pressão da caneta do tablet. Depois eu manipulei as cores até elas ficarem mais saturadas e deu nisso”

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“Eu tive que refazer algumas vezes as letras, fiquei com medo de não dar leitura, por ser manual e tão pequenininha. Geralmente eu tenho esse receio. Eu sou designer e gosto de letras pitititicas, mas tem sempre o risco das pessoas não conseguirem ler. Fiquei fazendo vários testes. Primeiro eu escrevi a lápis, mas como o lápis tem essa textura meio ruidosa, ficou sujo demais. Aí refiz tudo no Photoshop também”

HQ

Clean Break passado a limpo #1: Felipe Nunes e as origens de sua próxima HQ

O quadrinista Felipe Nunes colocou no ar no Catarse a campanha de financiamento de seu novo quadrinho. Batizado de Clean Break, o projeto é o primeiro do autor em seguida aos sucessos Klaus, Dodô e O Segredo da Floresta. Desenhado com o preto e branco de alto contraste já característico de Nunes e com personagens antropomorfizados, o quadrinho é protagonizado pelos agentes do Departamento de Causas Vulgares da Cidade Velha, Alberico DeLucca e Silas Cástan, com o auxílio da jovem recruta Tarsila Kopf. O trio investiga um crime em um mundo no qual o açúcar foi proibido e a população vive a ditadura de um estilo de vida inflexivelmente saudável.

Eu já li uma primeira parte do álbum e acho muito promissor o universo que Nunes está construindo. Clean Break rompe com as tramas primariamente infantis dos três trabalhos prévios do autor e explicita a vontade dele em investir em outros temas, gêneros e estilos. A partir de hoje dou início a uma série de posts nos quais Nunes fala um pouco sobre as origens, as inspirações e o desenvolvimento da HQ. A seguir, Felipe Nunes:

Clean Break passado a limpo #1: Felipe Nunes e as origens de sua nova HQ

“Não me lembro exatamente em que momento da minha carreira eu decidi contar o tipo de história que vinha fazendo e que me colocou numa luz maior (Klaus e Dodô), mas por um tempo eu acreditei firmemente naquilo. Conseguia ver a maneira de fazer meu trabalho, os objetivos que buscava ali e me sentia confortável coordenando histórias de aparência inocente que tratassem de temas sérios – e tentando não ser tão didáticas quanto a maioria das coisas que via no gênero”.

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“Entre o fim do Dodô e o término de O Segredo da Floresta, tive um limbo de quase um ano sem escrever nada e foi onde passei pelas maiores mudanças da minha vida. Ali, construí parâmetros por inúmeras situações e ciclos que me fizeram mudar profundamente como pessoa, e naturalmente senti que começava a ver um cenário possível pra tentar arriscar outros tipos de história que gostava e consumia muito no cinema e na literatura, mas achava que nunca poderia contar (principalmente sci-fi, noir e suspense psicológico)”.

“Já tinha tido uma outra idéia (mencionada na entrevista pro Quadrinhos pra Barbados) que flertava com um romance adulto com crimes e cheguei a escrever 150 páginas e fazer mais de 70 em thumbnails, ou seja, um gibi pronto que nunca acabei – mas ali senti que conseguiria trabalhar em função da LINGUAGEM, e não dos meus gostos – ou seja, me desdobrar com narrativa, composição, design de personagem e o que fosse pra conseguir desenhar e contar o tipo de história que quisesse) e essa idéia era bem semelhante em núcleos, mas comecei a flertar com distopias e acabei chegando nessa conclusão – eu queria contar uma história policial, de investigação, eu tinha um bom cenário pra trabalhar isso (discutir política de drogas, higienização e controle social num contexto 2018) e tempo. Pela primeira vez senti que deveria dar mais espaço do que imaginava pra trama e cheguei em 200 páginas. Mas tudo mudou nessa história – sinto que pouca coisa se aproxima do outro Felipe, sintético, direto e objetivo em construir sentimento. Nessa história as coisas estão mais soltas, dispersas no ar, e me preocupo mais em criar essa caixa de percepção do que apontar o dedo pras coisas. Espero que funcione”.

Cinema

Little White Lies #75: Can Movies Save The World?

A minha revista favorita chega ao número 75. Os editores da Little White Lies optaram por uma proposta um pouco diferente na 75ª edição da publicação, fugindo do tradicional rosto que estampa a capa e investiram num número comemorativo com o questionamento ‘Can Movies Save The World?’. Lá no site do periódico consta que a edição vem com textos assinados por Guillermo del Toro, os irmão Safdie, J.A. Bayona, Colin Trevorrow e outros, todos dizendo o que filmariam para evitar a aniquilação total. Quero ler.