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Entrevistas / HQ

Papo com Lauro Larsen e Carlos Junqueira, os editores de Os Morcegos-Cérebro de Vênus e Outras Histórias: “O Código mutilou a indústria no seu momento de maior explosão criativa”

O trabalho de Lauro Larsen e Carlos Junqueira na restauração e edição dos quadrinhos presentes na coletânea Os Morcegos-Cérebro de Vênus e Outras Histórias resultou em um dos projetos editoriais mais interessantes publicados no Brasil em 2017. Como expliquei na minha matéria sobre o álbum para o UOL, a obra é uma coletânea de HQs norte-americanas de ficção científica produzidas entre 1939 e 1954, quando foi instaurado o catastrófico Comics Code Authority – código de autocensura focado em prezar pelo bom mocismo e a civilidade do conteúdo publicado nas HQs da época.

A coletânea publicada pela Mino presta um serviço imenso resgatando clássicos e várias obras esquecidas, mas de um vanguardismo ímpar mesmo nos dias de hoje. Publico a seguir a íntegra da minha conversa com os dois idealizadores do álbum. Recomendo antes uma lida na minha matéria pra você sacar ainda mais sobre o projeto. Aí depois volta aqui pra ler o que os editores disseram da obra. Papo bem massa e instigante em relação ao futuro da Coleção Incendiária. Ó:

“Era um período de ebulição criativa, de busca selvagem por chocar e surpreender os leitores”

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Como surgiu a ideia desse projeto?

Carlos Junqueira: Como colecionador fascinado pela Era de Ouro dos Quadrinhos, estou sempre procurando relançamentos desse tipo de material, principalmente no mercado norte-americano. Reparei que em muitas dessas edições as imagens pareciam simplesmente retiradas de páginas escaneadas da internet e impressas em papel. Por achar que conseguiria fazer algo melhor, comecei a desenvolver um meio de restaurar essas revistas e tentar deixar a arte com a melhor qualidade possível – e posso dizer que ficaram melhores do que as arte originalmente publicadas, por causa da qualidade de impressão daquela época. Assim que vi os primeiros resultados da restauração, pensei na hora que precisava lançar este material impresso! Como estaria apresentando artes com mais de 60 anos para um público novo, decidi pelo preto e branco. Devido à colorização utilizada na época, muitos dos desenhos foram prejudicados. Mostrei estas páginas para meu amigo e também colecionador Lauro Larsen e ele pensou a mesma coisa, precisávamos lançar esse material! A partir daí desenvolvemos a ideia de montar uma coletânea e tentar lançar via financiamento coletivo, mas assim que apresentamos o projeto para a Janaína de Luna, ela topou na hora lançar o livro pela Mino.

Lauro Larsen: O projeto partiu das experimentações do Carlos Junqueira com restauro de arquivos digitais. Assim que comecei a ver os resultados sabia que o destino natural seria montar uma antologia, o que eu não tinha previsto era a magnitude que o projeto iria tomar. Eu realmente não tinha dado conta do tanto de trabalho que envolveria a feitura. É bom salientar que o projeto do livro e totalmente nacional, não tínhamos um livro importado de base. Desde o recorte para a escolha das histórias, passando pela adaptação dos abres das HQs, tudo foi feito com o maior perfeccionismo.

Outro desafio inédito, pelo menos para mim, era como dar um destino editorial para o livro. Eu já não faço parte do conselho editorial da Mino, o que significou que quando começamos esse projeto eu ainda não sabia como ia conseguir publicar. A primeira ideia seria o Catarse, mas eu nunca fui um entusiasta deste tipo de financiamento e achava que sem o apoio de uma editora não conseguiria o patamar de excelência que eu via como única opção para o livro.

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Qual vocês consideram ser a principal importância de resgatar esse material?

Carlos Junqueira: Acredito que a principal importância deste trabalho está no resgate de artistas desconhecidos ou mesmo famosos, mas em começo de carreira naquela época, que produziram uma quantidade enorme de histórias, que hoje em dia são raríssimas, e apresentá-los para uma nova geração de leitores.

Lauro Larsen: Esse material representa o ápice da Era de Ouro, quando imaginação e experimentação ainda eram a regra do jogo. É importante para todo leitor ou profissional de HQ conhecer essas histórias, elas ajudaram a fundar o quadrinho moderno.

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Vocês estabeleceram dois recortes: pré-Comics Code e histórias do gênero de ficção científica. O que motivou esse filtro?

Carlos Junqueira: Acredito que antes do Comics Code os artistas tinham total liberdade de expressão sob o que estavam produzindo, isso caracterizou as artes e os enredos dessas histórias produzidas pré-Code e depois se perdeu. Além disso, é um material muito difícil de se encontrar por conta da grande quantidade de revistas que foram destruídas, literalmente queimadas, por serem apontadas como causa da ‘delinquência’ da juventude daquela época. Quase todos os relançamentos com material desta época gira em torno do tema terror, mas a quantidade de quadrinhos produzidos de ficção científica durante esse mesmo período foi muito marcante e vem sendo negligenciada pelas editoras até hoje. Juntando a isso tudo a nossa grande paixão pessoal pelo gênero, foi fácil chegar nesse filtro.

Lauro Larsen: Sabe, eu acho que aconteceu algo bem singular nesse período de 10 ou 15 anos que precede o Código. É uma mistura bem inusitada, em primeiro lugar existia o Macartismo, uma caça às bruxas promovida por pessoas e senhoras católicas com muito pouco a fazer. Em segundo lugar, existia um anseio desmedido dos donos das editoras e estúdios por produzir material em massa seguindo modismos de gênero e sem muita preocupação com o conteúdo desde que conseguisse atrair o máximo de leitores possível. No meio disso tudo, eu acredito que grande parte dos autores que produziam quadrinhos somente como um modo de sustento começou, a ver o real potencial de suas artes e importar suas ideias e seus desejos. Eles pouco se importavam se era uma aventura ambientada no espaço ou em uma cripta… Era um período de ebulição criativa, de afirmação das revistas em quadrinhos que se afastavam do seu primo rico, as tiras de jornais. Era uma fase de busca selvagem por chocar e surpreender os leitores e tudo isso é muito fascinante. São trabalhos que continuam a influenciar até hoje.

A escolha do tema de ficção científica é bem mais simples. Tínhamos que começar de algum lugar e, realmente, você não encontra tantas antologias de ficção como as de terror e até de romance. A ideia era trazer um material relevante, até mesmo para leitores acostumados a comprar essas antologias importadas.

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Na apresentação do trabalho vocês falam como conseguiram os scans dessas obras em domínio público em sites focados em preservação da história dos quadrinhos. Em quais condições estavam esses scans? Eles eram feitos a partir das edições originais? Quanto tempo levou pra recuperar todas essas HQs presentes no livro?

Carlos Junqueira:
A maioria destes scans possui uma ótima qualidade para se ler no computador ou em tablets, mas quando impressas ficam serrilhadas. Se você reparar bem, a maior parte das revistas sendo impressas hoje, por diversas editoras diferentes, vem do mesmo scan, apenas com tratamentos de imagem diferente e, em sua grande maioria, as editoras mantém as revistas com suas cores originais. Foi graças ao trabalho dos responsáveis por esses sites e de colecionadores que emprestam suas revistas para serem escaneadas que todos estes relançamentos estão sendo possíveis. Sem esse material online disponível, seria impossível pensar em um projeto como o nosso, devido ao alto custo para se adquirir as revistas originais, sem falar no tempo necessário para encontrá-las.

Do começo do processo até o produto final que temos agora, já se passaram quase dois anos de tentativas e erros até chegar ao melhor resultado possível, sempre trabalhando em cima do material disponível online. Cada página é tratada manualmente para remover toda a cor e restaurar todas as imperfeições, chegando a demorar até uma hora por página, dependo da qualidade do scan. Para chegarmos às 31 histórias do livro, cheguei a tratar mais de 150 HQs, que foram sendo filtradas até chegar à seleção final.

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Eu contei o nome de 23 autores nas biografias do livro. Há alguns artistas mais conhecidos, como Alex Toth, Jack Kirby e Joe Kubert, mas outros que imagino que poucos leitores conheçam. Desses nomes mais desconhecidos, há algum trabalho que chamou a sua atenção por algum motivo especial?

Carlos Junqueira: Para mim, a qualidade artística do trabalho produzido nesta época pelo Basil Wolverton, que depois ficou mais conhecido por seu trabalho de humor para a revista Mad, estava muito além do que vinha sendo feito por seus companheiros. Se você folhear as revistas originais em que estes trabalhos aparecem, não tem como comparar as outras histórias contidas nas publicações com as dele. Ele estava anos luz à frente do que estava sendo produzido.

Lauro Larsen: Fletcher Hanks, sem dúvidas. Ele tinha uma imagética selvagem, um destempero alucinado que impressiona até hoje. Não é de se surpreender que muitas de suas historias foram republicadas pela notória revista RAW, sem contar os livros dedicados a ele pela Fantagraphics.

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Eu fico muito impressionado com a criatividade não só dos enredos como também das artes e dos designs de páginas dos quadrinhos do livro. Você consegue fazer um comparativo entre esse conteúdo produzido até 1954 e ficções científicas e HQs norte-americanas do nosso presente? É generalista falar de todo um gênero e até de uma indústria, mas você vê muita influência dos trabalhos desses artistas em publicações recentes? Vê algum tipo de retrocesso ou avanço em relação a o que esses quadrinistas faziam e o que é feito nos dias de hoje?

Lauro Larsen: Bom, podemos dizer que esse período e a fundação do que se tornou o quadrinho moderno, em todos os graus. Você tem gente como Jack Kirby, Steve Ditko e Joe Kubert, que praticamente pavimentaram todo o quadrinho mainstream americano. Não existiria o mercado de super-heróis sem Jack Kirby. Por outro lado, você tem caras como Basil Wolverton e o Fletcher Hanks e fica claro o impacto que eles têm num quadrinho mais underground americano. Caras como o Charles Burns tem muita influência destes autores.

É complicado a questão do retrocesso. É claro que o Código mutilou a indústria no seu momento de maior explosão criativa e o cenário seria muito diferente sem ele, mas as coisas são como são. E muito dessa base foi usada na indústria de super-heróis da Era de Prata.

Carlos Junqueira: Acredito que muitas dessas artes poderiam estar sendo produzidas hoje em dia, de tão avançadas que eram para a época em que foram lançadas – e creio que a maioria dos leitores acreditaria se falássemos que são criações dos dias atuais.

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Qual balanço você faz em relação ao conteúdo que vocês selecionaram para o livro? Quando você vê todo esse material reunido, qual você considera ser o maior legado desses artistas para a linguagem dos quadrinhos?

Carlos Junqueira: Estou muito contente com o resultado final do livro, acho que conseguimos chegar onde queríamos: um produto de qualidade, feito com muito respeito pelos artistas envolvidos e principalmente respeito pelos fãs. Acho que muitos descobrirão gênios completamente desconhecidos e, assim como nós, vão se apaixonar pelos seus trabalhos.

Lauro Larsen: Não tem como quantificar o legado destes artistas para o quadrinho moderno. Acho que o livro dá um escopo bem completo do que era produzido nesses anos selvagens e eu não podia estar mais contente com todo o trabalho, acho que vai agradar tanto a jovens leitores quanto a leitores hardcore.

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O livro sai com o selo Coleção Incendiária. Quais são os planos de vocês para essa coleção?

Carlos Junqueira: O plano é conseguir chegar o mais longe possível (risos) Vai depender da recepção dos leitores. O que posso adiantar é que além de terror e ficção científica, esse período ainda teve uma quantidade enorme de histórias de outros gêneros, como western, super-heróis, romance e etc. Durante esses dois anos de projeto já restaurei mais de duas mil páginas, de diversos outros temas. Quem sabe o que pode vir por aí? Western? Terror? Só o tempo dirá…

Lauro Larsen: A Coleção Incendiária é auto-explicativa, né? A ideia é conseguir apresentar o maior número de gêneros que permeavam o quadrinho pré-Code, sempre com todo esmero e cuidado que essas obras merecem. E vou te falar, com o barulho que o anúncio do projeto conseguiu, estou bem confiante que não vai demorar muito para vermos um segundo volume da coleção.

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Entrevistas / HQ

Papo com Oscar Zarate, quadrinista e editor de A Vida Secreta de Londres: “Mais do que o editor de um livro eu me senti como o diretor de um orquestra”

Eu conversei com o quadrinista e editor argentino Oscar Zarate sobre o livro A Vida Secreta de Londres. O álbum recém-publicado por aqui pela Veneta chama atenção principalmente por reunir trabalhos de Alan Moore e Neil Gaiman. No entanto, os méritos da coletânea vão muito além da presença de dois dos maiores quadrinistas britânicos de todos os tempos. Em um período no qual se reflete tanto sobre o propósito das cidades e a relação de pessoas com os espaços urbanos nas quais elas vivem, o livro faz pensar principalmente sobre a influência desses espaços em seus moradores.

Transformei a minha conversa com Oscar Zarate em matéria pro UOL e recomendo bastante a leitura pra você saber mais sobre o projeto. Reproduzo a seguir a íntegra da nossa conversa e lembro que amanhã (22/7), a partir das 16h, estarei com o editor brasileiro do quadrinho, Rogério de Campos, lá na Ugra, pra um papo não apenas sobre o livro, mas também sobre HQs britânicas, psicogeografia e a conturbada realidade política e social de Londres em meio à saída eminente do Reino Unido da União Européia. Confirma presença lá na página do evento no Face e, em seguida, volta aqui pra ler a entrevista. Ó:

“Há um determinado horário do dia, quando os pubs fecham e outros tipos de sons ganham vida, que os prédios passam a contar suas próprias histórias, caso você tenha interesse em ouvi-las”

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Como surgiu a ideia do livro? Por que Londres?

Estou morando em Londres há pelo menos 40 anos, eu escolhi viver aqui e amo essa cidade. É um lugar que está sempre me inspirando com novas ideias de histórias e para a maior parte das minhas graphic novels. Qualquer coisa que eu tenha interesse em contar e desenhar, Londres é o local no qual essas coisas existem. O que despertou a concepção de A Vida Secreta de Londres foi o meu interesse em um determinado horário do dia, quando os pubs fecham e um outro tipo de silêncio e barulho começam a ganhar vida na cidade. Os prédios passam a contar suas próprias histórias, caso você tenha interesse em ouvi-las.

Como foi a produção do livro? Os escritores e desenhistas podiam escolher os locais e personagens com os quais poderiam trabalhar? Coube a você montar as equipes criativas de cada história?

Como editor do livro eu tinha um mapa mental de como ele ficaria, do tom e do ritmo de cada história. Eram histórias que viajariam por toda Londres. Quando comecei a pensar os nomes daqueles que seriam os escritores, poetas, cineastas, comediantes e artistas que poderiam contribuir no livro, obviamente, eu pensei naqueles que já tinham um alguma relação com Londres em seus trabalhos e muito deles eram meus amigos também. Eu fui muito beneficiado pela oferta que tinha, com tantos talentos à minha disposição. Eu sabia que o Iain Sinclair queria escrever sobre o Rio Tâmisa, então tinha que pensar quem seria o artista para um escritor tão visionário e singular, aí cheguei no Dave McKean, seus trabalhos casam muito bem com a narrativa original do Iain. O Neil Gaiman estava morando por um tempo na região de Earl’s Court e perguntei se ele queria escrever sobre a vizinhança dele, um lugar único em Londres, no qual as pessoas estão sempre de passagem, sempre em trânsito, ficando apenas por breve períodos, ele disse sim e pensei no artista Warren Pleece, que tinha na época uma arte muito inquieta, passando uma sensação de agitação. O Alan Moore queria escrever uma espécie de epílogo para Do Inferno e como eu já tinha trabalhado com ele em A Small Killing foi natural que eu fizesse os desenhos.

Eu realmente gostei muito de trabalhar nesse livro. Quando penso no período de criação de A Vida Secreta de Londres eu sinto como se ele fosse a consequência direta de um esforço coletivo, de ouvir os autores e os artistas em relação a o que eles gostariam de contar e pensar qual artista trabalharia com cada escritor ou com qual artista cada escritor combinava. Mais do que o editor de um livro eu me senti como o diretor de um orquestra.

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Eu li uma resenha do álbum que diz que ele consegue fazer moradores de Londres verem a cidade de uma forma nova. Você tinha preocupação em surpreender os londrinos em relação às histórias presentes no livro?

Uma das vantagens de ser um estrangeiro é que você pode ver a cidade a partir de uma outra perspectiva, com um olhar mais fresco. Você acaba percebendo algumas coisas, coisas que um morador local não verá, peculiaridades que um londrino não vai pensar muito a respeito, mas que você consegue notar por ter vindo de fora. Você ainda acrescenta o olhar de outra cultura. Os autores e artista ficaram estimulados com a minha curiosidade sobre Londres.

Qual a importância do preto e branco para criar a atmosfera sombria do livro?

Pra mim, o preto e branco contém todas as cores necessárias para expressar a atmosfera sombria de A Vida Secreta de Londres.

Você ilustrou a história do Alan Moore e já tinha trabalhado com ele em A Small Killing. Os roteiros dele são muito famosos pelo excesso de detalhes. O que você pode dizer sobre trabalhar com ele? Os roteiros são realmente tão impressionantes como dizem?

Eu já conhecia os roteiros cheios de detalhes do Alan e tive a oportunidade de ver os roteiros de Do Inferno. Garoto, como ele escreve!

Trabalhar com ele em A Small Killing foi uma experiência diferente. Eu procurei o Alan com uma ideia que queria fazer. Falei com ele sobre esse garotinho, alguém sendo observado e etc e ele disse que sim, que gostava da minha ideia básica e que nós dois iríamos trabalhar juntos. Nós nos encontrávamos com muita frequência, em Northampton, onde ele vive, ou em Londres, onde eu vivo. Sempre conversávamos sobre o livro e a história cresceu de forma bastante orgânica, a partir desses encontros. Depois o Alan escreveu.

Como refletimos muito sobre a história eu estava muito familiarizado em relação a como ela seria – na verdade, o que ele escreveu era muito melhor do que eu esperava. Acredito que o Alan tinha consciência da nossa relação de proximidade e fez um roteiro bastante objetivo. O que eu sei é que, nem antes ou depois de A Small Killing, o Alan nunca trabalhou de forma tão próxima de alguém na construção de um livro. Trabalhar com o Alan é trabalhar com alguém que sabe escutar, uma pessoa incrivelmente generosa para se compartilhar ideias.

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O quanto você acha que o estilo de escrita do Alan Moore mudou desde a primeira vez que você trabalhou com ele?

Acredito que o Alan esteja escrevendo gradualmente cada vez menos para quadrinhos e cada vez mais focado nos seus trabalhos literários.

Londres tem sido alvo constante de atentados terroristas. Como você vê a cidade e os londrinos lidando com essas tragédias?

Poucos países europeus estão vivendo e sofrendo esses tipos de horrores como o Reino Unido. É a vida que estamos tendo agora. Como cidadão não é possível fazer muita coisa, você apenas segue vivendo sua vida tentando não pensar muito a respeito. Mas os governos poderiam fazer alguma coisa, como parar de vender armas para países repressores do Oriente Médio ou parar de bombardear outros países apenas por petróleo. Provavelmente não acabaria com esse tipo de horror em cidades como Londres, mas acredito que já ajudaria. Há outras questões tão importantes quanto esses ataques, como por exemplo a forma como o Reino Unido fará sua saída da União Europeia. A Inglaterra está uma bagunça. São tempos difíceis mas interessantes também, precisamos observar como todo esse horror será resolvido. Acho que a questão pode merecer uma resposta melhor, mas é assim que me sinto.

E como você acredita que quadrinhos e as artes podem ser úteis em um contexto mundial de radicalismo e conservadorismo como nos dias de hoje?

Nos quadrinhos, nas artes, como em tudo na vida, é sempre uma questão de qual lado você está. Você escolhe o seu lado e depois age. É muito importante escolher.

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Entrevistas / HQ

Papo com Guy Delisle, o autor de O Guia do Pai Sem Noção e Hostage: “Todo mundo pode se relacionar com a ideia de ser sequestrado de alguma forma, você está no lugar errado e no momento errado e então vira um refém”

O quadrinista canadense Guy Delisle acabou de publicar na América do Norte e na França o aclamado Hostage, já apontado por muitos especialistas como um dos grandes quadrinhos de 2017. O título narra o período de 111 dias no qual o funcionário da Médicos Sem Fronteiras Christophe André passou como refém de uma milícia no Cáucaso em 1997. Enquanto isso, no Brasil, chegou às livrarias o primeiro volume de O Guia do Pai Sem Noção, série de três livros no qual ele narra histórias engraçadas vividas por ele e seus dois filhos.

Entrevistei o quadrinista por telefone e transformei a minha conversa em matéria publicado no UOL. No meu texto, falo sobre o conteúdo de Hostage e de O Guia do Pai Sem Noção, comento um pouco mais sobre a trajetória do autor e também de seus trabalhos prévios sobre suas viagens a Shenzhen, Jerusalém, Burma e Pyongyang. Recomendo um pulo no UOL pra leitura do meu texto. Depois volta pra cá e dá uma lida na íntegra da nossa conversa. Ó:

“Eu fiz vários livros sobre viagens e aí resolvi que queria fazer algo menor, com humor. Nada relacionado a política ou geografia, apenas eu e as crianças”

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Você lembra do momento em que teve a ideia de criar a série do Guia do Pai Sem Noção?

Há um bom tempo eu tentei uma história, a primeira, e coloquei no meu blog. Depois eu recebi uma carta de um pai dizendo que ele e a esposa haviam esquecido a mesma coisa que eu, de colocar a tal recompensa do Rato do Dente. Foi engraçado. Era a minha primeira vez publicando na internet, então fiz a segunda e depois de algumas histórias o meu editor me ligou e disse que deveríamos transformar aquilo em um livro, que seria divertido. ‘Sim, claro! Por que não?’, então continuei fazendo as histórias. No começo eu não tinha em mente publicar isso em um livro, mas acabou acontecendo.

Quando o primeiro livro do Guia foi publicado os seus trabalhos mais famosos eram as obras de viagens. O Guia também é em primeira pessoa, mas é um gênero completamente diferente. Foi difícil pra você mudar o tema e o tom pra esse trabalho?

Eu fiz vários livros sobre viagens, depois do livro sobre Jerusalém, uma obra bem grande, e aí resolvi que queria fazer algo menor, com humor. Nada relacionado a política ou geografia, apenas eu e as crianças. Como eu estava mais em casa, de vez em quando alguma coisa acontecia. ‘Bem, isso é engraçado, talvez eu devesse fazer alguma coisa com isso’. Então a primeira aconteceu, depois a segunda e tudo isso acabou virando o livro.

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Os seus filhos já leram os livros? Como eles reagiram de se verem retratados como personagens de quadrinhos?

Hoje eles leem os livros, mas quando eu publiquei o primeiro eu não queria que o meu filho mais velho lesse. Mas como muitas crianças na escola dele estavam lendo achei que poderia ser um pouco constrangedor para ele e aí lemos juntos. Expliquei pra ele o que eram aquelas histórias, que elas estavam ali por serem engraçadas, para fazer graça com a realidade. Hoje os dois gostam dos Guias e eu também continuo gostando, então está tudo bem. Não tem nenhum problema.

E como foi a recepção da crítica em relação a esse contraste entre o Guia e seus trabalhos prévios?

Não saíram muitas críticas. Quando é humor parece que as pessoas não escrevem resenhas, elas devem ficar guardadas para outros tipos de livros (risos) Fiz algumas participações em programas de TV e de rádio, mas não muita coisa. Na verdade não me importo muito com isso. O livro funcionou bem, nós vendemos 100 mil cópias do primeiro, o que é o suficiente para mim (risos)

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Tanto os livros de viagens quanto os Guias são com você como personagem e sempre mostrando o seu ponto de vista. Como foi criar a partir da história de alguém em Hostage?

Foi a primeira vez que isso aconteceu e eu já queria contar essa história há um bom tempo. Eu apenas continuava adiando porque estava fazendo os livros de viagens. Em determinado momento nós paramos de viajar tanto e achei que era a hora de focar nesse trabalho que queria fazer há tanto tempo. Há dois anos resolvi que deveria fazer ao invés de ficar apenas pensando nisso. Então tirei dois anos para trabalhar nesse livro, porque sabia que seria algo muito longo.

Li uma entrevista na qual você fala que não considera os seus livros de viagens jornalísticos. Em qual gênero você define Hostage? É trabalho documental e quase jornalístico, concorda?

Eu acredito que alguém possa vê-lo dessa forma, mas… Quando eu penso em jornalismo tenho em mente um repórter que vai em algum lugar para falar sobre alguma coisa. Nesse caso eu estava contando a história do Christophe André, que havia me impressionado e era uma ótima história a ser contada, por ele ter sobrevivido a muita coisa e ter conseguido escapar. Sempre foi um livro muito interessante de trabalhar e não penso se é jornalismo ou não. Também não sei se é uma novela, talvez esteja mais para uma memória ou algo do tipo.

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Enquanto eu lia Hostage me colocava no lugar do Christophe André o tempo todo, sempre pensando o que poderia fazer no lugar dele. Você também fez isso? Cogitou como responderia e reagiria estando no lugar dele?

Eu já tinha pensando nisso antes mesmo de começar a trabalhar no livro. Quando eu conversava informalmente com ele já ficava imaginando “Uau! O que eu faria na situação dele?”. Mesmo antes da ideia do livro existir eu já me relacionava com a história do Christophe. Todo mundo pode se relacionar com a ideia de ser sequestrado de alguma forma, você está no lugar errado e no momento errado e então vira um refém. Então é uma história muito envolvente e achei que seria interessante de contar em formato de história em quadrinhos.

E sobre a forma como você reagiria em uma situação como aquela: na verdade é impossível saber. O Christophe me explicou que não era a mesma pessoa que passou aquele período sequestrado. No período em que passou sequestrado ele estava sob muito estress e apenas reagia diferente da forma como reagiria em uma situação cotidiana de sua vida normal. Por mais que você pense “eu faria isso ou aquilo”, você agiria de outra forma naquela situação, você também seria outra pessoa.

Você criou o livro a partir de suas conversas com o Christophe André. Como foi a produção a partir do momento em que encerrou a coleta desses depoimentos?

Eu sempre mantive contato com o Christophe e estamos lançando o livro juntos aqui na França. Enquanto fazia o livro eu mandava as páginas para ele e ele lia e me retornava com alguns comentários. Eu não queria que ele recebesse o livro pronto e dissesse que eu deveria ser mais preciso em relação a alguma coisa ou que isso e aquilo não havia acontecido. Pra evitar isso eu enviava as páginas enquanto produzia e fizemos algumas mudanças aqui e ali. Para mim era muito importante que fosse o mais fiel possível à realidade.

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Você não costuma usar muitas cores nos seus trabalhos. Como você chegou nessa paleta de cores azulada de Hostage?

No Crônicas de Jerusalém também tem algumas cores. Eu gosto de cores, mas a estética desse livro é de pouco texto e de desenhos muito simples. Queria que as cores também fossem simples. Eu queria que tudo fosse tão simples quanto o contexto no qual o personagem estava vivendo. A comida era simples, ele não tinha mais nada. Enfim, queria simplicidade e o traço e as cores precisavam seguir isso. Pensei em fazer em preto e branco, mas fiz a capa e gostei do azul e achei que aquela cor dialogava com a situação.

A maior parte dos seus livros, incluindo Hostage, é ambientada em lugares nos quais liberdades individuais são muito limitadas. Pelas suas experiências nesses locais, você fica assustado quando vê o aumento da popularidade e a chegada ao poder de indivíduos como Trump e Le Pen? Você teme ver na França a perda de liberdades individuais como viu nos países em que visitou?

Pode acontecer e por isso os movimentos de esquerda precisam ser fortes. Os franceses estão bastante conscientes disso tudo. Há muito debate sobre esse cenário, não sabemos o que pode acontecer e a Le Pen pode retornar, então precisamos ficar atentos. A eleição foi importante por mostrar que podemos evitar isso.

O Trump também foi uma decepção muito grande, mas é um risco que corremos com uma eleição e com o sistema democrático. A mesma coisa aconteceu aqui na Europa com o Brexit. Os britânicos estão começando a negociação para sair. Felizmente isso não representará o colapso da União Européia, mas há muito que se fazer a partir de agora.

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Entrevistas / HQ

Papo com Raphael Salimena, o autor da coletânea Linha do Trem – The Best Of: “Geralmente quando eu me sinto muito confortável em um tipo de humor bate a necessidade de mudar”

Já recomendei por aqui a coletânea Linha do Trem – The Best Of, com alguns dos melhores trabalhos do Raphael Salimena. A verdade é que tava demorando pra alguma editora investir em uma publicação impressa com as tiras assinadas pelo Salimena e a Draco investiu muito bem nesse projeto. Os quadrinhos produzidos pelo artista de Juiz de Fora (MG) estão entre os mais engraçados, reflexivos e categóricos das HQs nacionais. É impressionante a quantidade de informações e referências que ele consegue incluir em um espaço tão delimitado como o formato quadrado de suas HQs para a série Linha do Trem.

Linha do Trem – The Best Of será lançada oficialmente no Ugra Fest 2017, sábado (8/7) e domingo (9/7) agora no SESC Belezinho aqui de São Paulo, com a presença do autor. Bati um papo por email com o Salimena sobre essa primeira empreitada impressa dele, sobre o futuro da sensacional Vagabundos no Espaço e também sobre alguns temas abordados por ele na primeira edição do podcast Linha Torta. Papo bem bão. Ó:

“Tento contribuir pro debate abordando mais o impacto que a política tem na sociedade do que as notícias em si”

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Eu já vi você comentando como se distanciou do papel e da tinta como ferramentas de produção dos seus quadrinhos, que hoje faz quase tudo no digital. Como é pra você ver o seu trabalho impresso, um formato distante da maneira como ele nasceu?

Eu adoro o descompromisso do digital, essa coisa de você ter uma ideia, produzir e alguns minutos depois aquilo já estar disponível na tela de milhares de pessoas. Acho que isso potencializa a marginalidade e a liberdade que me atraíram para os quadrinhos. Já o impresso tem a vantagem de não disputar a atenção do leitor como acontece com a leitura na tela, conseguindo dele um foco raro nos dias atuais. Vendo por esse lado é um pouco assustador pensar que pela primeira vez os leitores vão prestar mais atenção nas besteiras que eu faço, hahahah

Aliás, você pode falar um pouco da sua técnica pra criar as tiras desse livro? Foram todas feitas no computador? Eu gosto muito das suas cores e acho que dá pra falar numa paleta própria de cores suas. Como você chegou nelas?

As mais antigas foram feitas com papel e nanquim mas de um jeito muito esquisito, eu simplesmente desenhava os personagens e textos em lugares aleatórios de uma folha a4, escaneava, e só depois montava a tira no photoshop. Eu preciso muito do computador para diagramar e compor meu trabalho porque eu sou muito ansioso e gosto da possibilidade de mudar textos e enquadramentos na última hora. As vezes eu mudo até mesmo depois da hq já estar no ar, essa edição permanente é outra maravilha do mundo digital =D

Sobre as cores, no início eram basicamente para destacar personagens e ideias, eu não tinha muita preocupação com a paleta. Mas com o tempo, principalmente nas minhas histórias mais longas eu passei a me divertir bastante com a colorização. E eu não tenho muita teoria, é basicamente ficar experimentando até sair algo que me agrade, então acaba sendo a parte mais demorada do trabalho.

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Você parte de uma das gerações mais recentes da escola brasileira de quadrinhos de humor. O que eu mais gosto no seu trabalho é um atributo que também vejo na produção de quadrinistas como o Ricardo Coimbra e o Bruno Maron, que é a capacidade de expor as contradições e os absurdos da nossa realidade. O quanto você acha que a sua formação como jornalista e a sua experiência trabalhando em um jornal influenciaram nessa “linha editorial” do seu trabalho?

O que realmente me influenciava durante o período que eu fiz mais tiras era o meu cotidiano. Então esses momentos de faculdade e trabalho foram mais importantes pelas cenas que eu presenciava e pensava “isso dá tira” do que de uma maneira mais acadêmica. Estar em meio a pessoas diferentes que são “obrigadas” a conviver juntas é sempre um prato cheio para fazer humor. Ver e rever “Seinfeld” todos os dias naquela época pode ter influenciado bastante esse lado também =)

Por conta de toda a crise política e todo esse extremismo da realidade brasileira (que acaba ecoando de forma intensa nas redes sociais), a nossa sociedade é um prato muito cheio pra você. Mesmo que indiretamente, falar de política é algo inevitável no seu trabalho?

Acaba sendo, né? O que sempre me afastou do humor político é que fazê-lo com sutileza pode ser perigoso, ainda mais nessa época de gente que se informa por grupo de família no whatsapp. Eu tenho uma ideologia bem clara e ao mesmo tempo que não quero fazer um trabalho panfletário, se for algo muito aberto à interpretação pode ser usado em prol de discursos opostos ao meu. Mas eu sempre escrevi sobre o que está ao meu redor, e assim fica meio impossível não tocar no assunto porque isso também seria fugir da minha responsabilidade como formador de opinião (todos nós somos atualmente). No fim das contas eu tento contribuir para o debate abordando mais o impacto que a política tem na sociedade do que as notícias em si.

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Você tem um número expressivo de seguidores no Facebook e alguns dos seus trabalhos têm centenas de compartilhamentos. Você costuma acompanhar as discussões que eles geram? É importante pra você acompanhar a forma como seus quadrinhos estão sendo interpretados?

O feedback é sempre importante, em maior ou menor grau. Quando eu faço um humor que vale por si só, aquele que REALMENTE “é apenas uma piada”, eu gosto de ver se a punchline veio na hora certa, se os enquadramentos e expressões que eu usei foram os melhores, se eu realmente trabalhei aquela piada da melhor maneira possível. Agora, nos casos em que tem algum contexto político-social o feedback é muito importante para ver se eu não falei besteira. Porque esses assuntos são delicados e é muito fácil passar desinformação na ânsia de ser engraçado. Encontrar a sua voz artística dentro desse tipo de assunto é um processo complexo e demorado, e saber ouvir o público (e O QUE ouvir do público) é sempre importante pra mim.

Eu ouvi a primeira edição do seu podcast e lá você fala do momento que compreendeu a importância da funcionalidade de um desenho. Como você aplicou/tentar aplicar essa ideia nas suas tiras?

Desenhando o necessário para a melhor compreensão possível, e apenas isso. Isso quer dizer simplificar ao máximo em alguns momentos e carregar nos detalhes em outros. Desenhar “mal” propositalmente pode ajudar muito para conseguir humor, estranheza e até terror.

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No podcast você também fala que “fazia qualquer coisa” no começo dos seus trabalhos como quadrinista. Hoje, acho que suas tiras são muito identificáveis. Você se vê com um estilo? Consegue definir o que caracteriza o seu trabalho?

Infelizmente eu acho que acabei tendo um estilo, hahahah. Isso era tudo que eu não queria no início, porque gostava muito da experimentação que eu consegui em alguns momentos nos primeiros anos. Os lugares comuns que eu criei com o tempo foram mudando, geralmente quando eu me sinto muito confortável em um tipo de humor bate a necessidade de mudar. Atualmente isso está acontecendo até com o formato de tira em si, por isso estou me dedicando a hqs longas.

A versão impressa do Linha do Trem tá saindo praticamente ao mesmo tempo em que você encerrou seu trabalho pro UOL Tecnologia. A sincronicidade desses dois acontecimentos tem algum significado especial pra você?

Na verdade não, hahaha. Tive muita sorte por ter passado quase sete anos no UOL Tecnologia. Foi algo muito fora da curva para quem vive de HQ digital e eu realmente não esperava ficar esse tempo todo. Mas ao mesmo tempo eu me sentia repetitivo dentro do assunto às vezes e isso nunca é legal. Quando olho pro meu trabalho de tiras como um todo eu sempre vejo a busca por tentar algo diferente e não gosto de falhar nisso.

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Eu gostei muito do que você publicou até agora do Vagabundos no Espaço. Quais são os seus planos pra essa série? Você pretende dar uma periodicidade pra ela? Tem planos pra uma possível versão impressa?

Toda a minha energia criativa está voltada pro Vagabundos atualmente. Eu comecei com um humor bobo para partir de um lado do meu trabalho com o qual os leitores estão acostumados, mas pretendo levar a série para muitos outros lugares, em termos narrativos, artísticos e visuais. Por isso escolhi uma space opera, não para falar de especificidades de ficção científica, mas para poder levar aqueles personagens para onde eu quiser. Quero trazer pros meus quadrinhos aquela espera pelo “onde será que eles vão descer no próximo episódio?” que me faz amar Star Trek, Doctor Who e Futurama, não só em termos literais mas também narrativos. Nada me impede de botá-los num planeta em preto e branco para uma história de faroeste ou contracenando com uma espécie alienígena feita de traços infantis de giz de cera. Quanto à versão impressa, pretendo fazer sim porque sei que tem muito leitor que ainda não abraçou o digital e esses me interessam tanto quanto os outros. Só estou esperando ter um volume de páginas que apresente bem a proposta, imagino que com três capítulos fechados já seja o suficiente (estou na metade do segundo atualmente).

Pra finalizar! O que você tem lido, visto e ouvido nos últimos tempos? Tem alguma coisa que você recomenda que as pessoas leiam, vejam e escutem?

Eu tenho curtido muito mangá e anime. Os orientais têm um jeito muito diferente do nosso de ver e explicar o mundo, então eu recomendo pra todos que curtem somente obras ocidentais que conheçam o que eles tão fazendo por lá e vice-versa. A JBC lançou recentemente a primeira edição de Akira do Katsuhiro Otomo, que muita gente conhece pelo anime, e é fantástico ter finalmente em mãos o mangá. Nas primeiras páginas você já tem a certeza de estar diante de um clássico, o domínio de narrativa e desenho do autor ainda assusta mesmo tanto tempo depois do lançamento original. Também gosto muito de ver séries de tv e no momento estou revendo as temporadas antigas de twin peaks pra me preparar para a nova, e adorando cada minuto. Por falar do Lynch, só recentemente assisti Ereaserhead e já entrou pro meu top 10 de filmes favoritos. Mas a maior parte do meu tempo livre eu passo no videogame. Esses dias eu joguei Inside, que é uma narrativa super complexa, cheia de camadas, sem usar nenhuma palavra na construção. É o meu meio favorito de consumir ficção atualmente, se eu começar a falar sobre não paro mais!

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Entrevistas / HQ

Papo com Jason, o autor de Sshhhh!: “Se tenho uma regra para os meus quadrinhos, é: não conte tudo, deixe alguma coisa para o leitor”

As obras assinadas pelo quadrinista norueguês Jason são facilmente identificáveis. São HQs geralmente caracterizadas por desenhos minimalistas, por seus personagens antropomorfizados e por um storytelling extremamente eficaz. Sshhhh! (Mino) é o primeiro álbum do autor publicado no Brasil e reúne todos esses elementos. A obra chegou às livrarias brasileiras quase um ano após Jason fazer sua estreia no país, com um quadrinho de seis páginas presente na segunda edição da revista Antílope.

Sshhhh! é uma coletânea de contos curtos que reúne outros dos principais atributos esperados nos quadrinhos do autor: as tramas urbanas e também surreais, as reflexões sobre relacionamentos e solidão e o humor variando entre a poesia e o sarcasmo.

“Eu acho que tenho um estilo”, afirma Jason em conversa por email. “O meu primeiro álbum foi desenhado com um estilo muito realista, mas não fiquei muito feliz com o resultado e demorou muito tempo pra finalizar, então passei a tentar outros estilos e os personagens antropomorfizados surgiram. Eles pareciam encaixar no tipo de histórias que eu queria contar: fábulas”, diz o autor.

A eficácia da narrativa do Jason o tornaram reverenciado por quadrinistas de todo mundo. A edição brasileira vem acompanhada de exaltações assinadas por Laerte, Fábio Moon, Gabriel Bá, Rafael Coutinho e Gustavo Duarte. A chegada de Sshhhh! no Brasil deve ser aclamada também para que outros de seus trabalhos também possam ser publicados por aqui. Na conversa com o blog, Jason falou sobre quadrinhos noruegueses, sua paixão pelo trabalho de Hergé e por filmes noir e seu interesse recente pelos livros de Julio Cortázar. Papo bem bom. Ó:
 

“Eu acho que um quadrinho deve ser fácil de ler, mesmo que seja uma história sombria ou mais complexa. É preciso ser tentador para aquele leitor que dá uma espiada nas primeiras páginas em uma livraria, para que ele continue lendo e queira descobrir o que vai acontecer a seguir”

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Você não mora mais na Noruega, mas fico curioso em relação à cena de quadrinho local. Você pode contar um pouco como são os quadrinhos noruegueses? Você recomenda algum título em particular?

Há uma cena de quadrinhos em Oslo. Há várias pequenas editoras que publicam o que as pessoas chamam de quadrinhos alternativos. Começou mais ou menos nos anos 90, mesmo tendo alguns trabalhos de antes disso. A Noruega é um país pequeno, então é difícil viver de HQs. São pessoas que também trabalham com ilustração. Não tenho certeza se existe algum tipo particular de estilo norueguês. Eu acho que há mais realismo do que fantasia. Talvez seja algo típico da melancolia escandinava, é difícil dizer. Eu recomendaria o Steffen Kverneland, que fez um quadrinho sobre o Edward Munch, e também o Lars Fiske, que tem um livro saindo pela Fantagraphics sobre o Georg Grosz.

Sshhhh! é completamente sem palavras. Há alguma diferença nos seus métodos de trabalho entre criar um quadrinho mudo ou com palavras?

Há uma certa diferença. Sem texto para explicar o que está acontecendo você precisa ter um storytelling mais claro. Há também mais abertura para interpretação. Fica por conta de cada leitor o que ele tira da história. Fiz quadrinhos sem palavras durante um tempo porque acho mais fácil do que escrever diálogos e eu também buscava um público de fora da Noruega, uma audiência mais ampla. Depois acabou virando um desafio escrever diálogos. Hoje eu já acho a parte mais divertida, mas ainda faço uso de sequências de silêncio. Muitas vezes as palavras são desnecessárias.

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Muitos dos seus quadrinhos têm finais abertos e são classificados como nonsense. Quando você está criando os seus quadrinhos tem em mente qual poderá ser a interpretação dos seus leitores?

Não, na verdade eu busco esses finais em aberto. Se tenho uma regra para os meus quadrinhos, é: não conte tudo. Deixe alguma coisa para o leitor. É esse o tipo de quadrinho que gosto, aquele que não entrega tudo. Cinco leitores interpretarão uma mesma história de cinco maneiras diferentes e isso uma coisa boa.

Li uma matéria sobre o seu trabalho no Buzzfeed em que seus quadrinhos são comparados aos livros do Haruki Murakami. Assim como as suas HQs, os trabalhos dele também são marcados por finais abertos e enigmáticos. Você já leu algum livro dele?

Eu li alguns livros dele e não gostei tanto assim. Não sei precisamente a razão disso. Há uma certa simploriedade na linguagem, não sei. Não senti nenhuma grande conexão com os personagens.

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Eu vejo alguma conexão entre seus quadrinhos com desenhos como Adventure Time e Ricky and Morty, os dois investindo no mesmo estilo nonsense e no absurdo. Não sei se é um gênero, mas você vê algum motivo para o sucesso desse estilo nos dias de hoje?

Não conheço esses desenhos. Eu gosto do absurdo. De Magritte e Eugène Ionesco até Monty Phyton. Qual a razão do sucesso desse gênero? Eu não sei. Talvez porque o mundo está ficando cada vez mais absurdo? Quem vai saber? Tenho certeza que alguém já publicou um estudo sobre isso.

Você trabalha com designs de páginas muito específicos. Li que você é um grande admirador do Hergé e o considera um mestre do storytelling. Como essa narrativa dele influenciou o seu trabalho?

Sim, eu gosto de trabalhar com um grid específico e com um um uso tradicional de painéis e storytelling. O trabalho do Hergé é um bom exemplo desse storytelling claro e convidativo. Eu acho que um quadrinho deve ser fácil de ler, mesmo que seja uma história sombria ou mais complexa. Você não deve achar que é garantido que alguém vai querer ler o seu livro. É preciso ser tentador para aquele leitor que dá uma espiada nas primeiras páginas em uma livraria, para que ele continue lendo e queira descobrir o que vai acontecer a seguir.

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Você pode me contar um pouco sobre a dinâmica do seu trabalho? Você costuma trabalhar com roteiros fechados? Há alguma técnica ou método que você costuma utilizar nos seus quadrinhos?

Não, não costumo trabalhar com roteiros. É tudo improvisado, geralmente desenhado já na página. Eu costumo trabalhar em 20 ou 30 páginas ao mesmo tempo, desenhando um pouco e depois arte-finalizando. Estou acostumado a primeiro desenhar os personagens e só depois fazer os cenários. Às vezes eu começo escrevendo alguns trechos de diálogo, outras vezes os desenhos vem primeiro e crio os diálogos depois. Em cenas mais complicadas também costumo fazer thumbnails antes de começar a desenhar.

Os seus quadrinhos são muito identificáveis. Você acha que já tem um estilo definido? Foi muito difícil chegar nessa forma como você desenha e escreve nos dias de hoje?

Eu acho que tenho um estilo. Os personagens antropomorfizados e o estilo seguindo a linha clara. Demorou um tempo para chegar aí. O meu primeiro álbum foi desenhado com um estilo muito realista, mas não fiquei muito feliz com o resultado e demorou muito tempo pra finalizar, então passei a tentar outros estilos e os personagens antropomorfizados surgiram. Eles pareciam encaixar no tipo de histórias que eu queria contar: fábulas. Acredito que eles também sejam mais universais. Todo mundo consegue se identificar com o Pato Donald ou o Mickey Mouse.

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Eu acompanho o seu blog e você gosta muito de filmes clássicos e antigos. Mas você também costuma fazer comentários sobre blockbusters. Você tem algum gosto em particular para filmes ou topa assistir qualquer coisa que chegue a você?

Hoje estou mais por fora de filmes do que há alguns anos. Escrevo menos resenhas e assisto menos filmes. Ocasionalmente vejo algum filme da Marvel ou algum Missão Impossível e ainda me divirto com eles caso sejam bem feitos. Caso contrário eu prefiro filmes mudos ou produções dos anos 70, de qualquer gênero, de verdade. Seja western, ficção científica ou noir. Gosto de diretores com visões peculiares, como Jim Jarmusch, Hal Hartley, Wes Anderson e Aki Kaurismâki.

No blog você falado muito sobre as suas leituras das obras do Julio Cortázar. Há algum motivo em particular para a leitura desses trabalhos recentemente? O que mais você tem lido, visto e ouvido recentemente que recomendaria?

Sim, eu descobri o Cortázar recentemente, senti uma conexão muito grande com o trabalho dele. Por enquanto só li seus contos, ainda não li nenhum dos romances. Gosto do mistério e da ambiguidade de seus trabalhos. No momento estou lendo o livro mais recente do John Irving, mesmo sendo um pouco longo e não sendo seu melhor trabalho. Ainda gosto de livros dele como The Hotel New Hampshire e Cider House Rules. Tenho tentado ler vários clássico que havia evitado até então, como Kafka, Camus e Joyce. Espero encarar Ulysses ainda esse ano. Além de Cortázar, o Denis Johnson é provavelmente minha descoberta mais recente. Jesus’s Son e Angels são livro incríveis. Como disse, tenho visto menos filmes. Gostei de O Lagosta.

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Entrevistas / HQ

Papo com Esteban Maroto, o autor de Espadas e Bruxas: “O que faz os quadrinhos de bárbaros tão universais é a mitologia dos contos de fadas”

Dentre as memórias mais antigas do quadrinista espanhol Esteban Maroto está a leitura de uma versão ilustrada de As Mil e Uma Noites. Hoje aos 75 anos anos, o artista tem certeza como aquela obra teve impacto definitivo em sua formação. “Aquele presente me impressionou profundamente, acredito que marcou todas as minhas leituras seguintes”, conta o autor em entrevista por email. Maroto é o autor da coletânea Espadas e Bruxas, obra de estreia do canal Pipoca & Nanquim como editora. O álbum reúne três histórias publicadas pela primeira vez na íntegra no Brasil.

O acabamento gráfico da publicação reflete a imponência dos traços e das páginas de Maroto. A capa dura e o papel de alta gramatura do gibi estão em acordo com o design singular de cada uma das páginas produzidas pelo quadrinista. A ingenuidade das tramas de bárbaros e feitiçaria são compensadas com cenas de batalhas, cenários e criaturas sem iguais. O virtuosismo do autor e a belíssima edição resultam em um diálogo entre Espadas e Bruxas e Sharaz-De de Sergio Toppi, publicada em 2016 pela Figura no Brasil.

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A edição nacional de Espadas e Bruxas é marcada por seus vários textos complementares aos quadrinhos de Maroto, servindo como uma ótima introdução ao trabalho e ao legado de seu autor. O título ainda fica marcado por sua estratégia de distribuição exclusiva via Amazon. Em tempos de busca por novos modelos de negócio em um período de intensa instabilidade econômica, a Pipoca e Nanquim marca sua estreia tendo passado três dias seguidos de seu período de pré-venda como o livro de ficção mais vendido da loja virtual no Brasil.

Na entrevista com o blog, Maroto fala sobre o início de sua carreira, de sua falta de paciência com os quadrinhos de super-heróis, da infância como apaixonado por Goya e de suas visitas constantes ao Museu do Prado em Madri quando ainda era criança. Ó:

“Posso tanto criar uma história contemplando uma imagem quanto imaginar um universo visual após ler um romance ou um poema. Também posso fazer isso ouvindo música, não há nada mais inspirador do que uma melodia”

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Quais são as suas memórias mais antigas relacionadas a quadrinhos? O senhor se lembra do primeiro quadrinho que leu e do momento que decidiu trabalhar com HQs?

Quando eu tinha seis anos me deram uma versão ilustrada do livro As Mil e Uma Noites. Aquele presente me impressionou profundamente, acredito que marcou todas as minhas leituras seguintes. Confesso que gosto muito mais de ler obras literárias do que quadrinhos, talvez por preferir imaginar meus próprios mundos e dar os rostos que quiser aos personagens. Me lembro que o meu irmão, 12 anos mais velho do que eu, tinha uma coleção de quadrinhos do Flash Gordon em inglês, eu não entendia o texto, mas adorava observar aquelas imagens. Ao contrário do que acontecia com os livros, eu adorava imaginar as histórias.

Como é o seu processo de criação? O senhor tem algum método de trabalho que costuma ser aplicado em todos os seus trabalhos?

Sempre gostei mais da fantasia e da mitologia do que da realidade, que normalmente me deixa mais triste e deprimido. Posso tanto criar uma história contemplando uma imagem quanto imaginar um universo visual após ler um romance ou um poema. Também posso fazer isso ouvindo música, não há nada mais inspirador do que uma melodia.

A maior parte dos seus trabalhos são sobre bárbaros, guerreiros e feitiçaria. O senhor vê algum elemento particular nessas histórias que as tornam tão universais?

O que faz os quadrinhos bárbaros tão universais é a mitologia dos contos de fadas. Acredito que eles reúnem todos os elementos da filosofia. Conheço muito bem a mitologia clássica e alemã e no momento estou empenhado em ler sobre mitos orientais – um universo muito completo, repleto de deuses, parece que cada ação humana tem o seu próprio deus.

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O senhor vê muita diferença em relação à forma como as pessoas consomem histórias fantásticas nos dias de hoje em relação ao começo da sua carreira?

A chegada das novas tecnologias e da internet mudou profundamente o mundo. Hoje, um computador ou um telefone celular são capazes de armazenar tudo o que existe, basta um clique para ter acesso a qualquer coisa. Por outro lado, o excesso de informações muitas vezes acaba por massificar e deteriorar a cultura.

É possível fazer com que histórias de fantasias como as suas reflitam os dramas e conflitos da nossa realidade?

Um quadrinho se diferencia de um filme ou de um videogame principalmente por ser um meio muito barato para se contar uma história e expressar ideias. O problema é que é uma linguagem que acaba sendo sempre rebaixada e depreciada por intelectuais que pensam nas HQs como um produto para jovens com capacidade intelectual muito limitada.

Os trabalhos do senhor já foram publicados por editoras de países como Espanha, EUA, Itália e agora Brasil. O senhor vê muita diferença no público leitor de cada país?

Eu sempre trabalho tendo em mente leitores com a capacidade de pensar por conta própria e eles existem em todas as partes do mundo. O difícil é chegar a eles competindo com multinacionais que parecem se importar apenas com uma única coisa: a venda de seus produtos.

O livro do senhor ocupou durante três dias seguidos a lista de obras de ficção mais vendida da Amazon brasileira. É um feito bastante impressionante para uma HQ de fantasia dos anos 70, o senhor concorda?

Quando jovem eu vivia em Madrid, muito perto do Museu do Prado. Pela minha fixação por pinturas e ilustrações me deram uma bolsa de estudos e eu podia entrar no museu sempre que quisesse. Eu passava grande período contemplando as pinturas, principalmente os trabalhos do Goya. Eu ficava fascinado com a série Os Caprichos, mesclando texto e desenhos como fazer os quadrinhos. Com o tempo fiquei amigo de vários dos funcionários, eles achavam engraçado que um garoto tão jovem estivesse tão apaixonado. Eles me levaram ao acervo de pintura guardado no porão do museu e eu acredito que ter acesso àquilo foi como entrar na caverna de Ali Babá, ou a um dos palácios encantados presentes nos Contos de Mil e Uma Noites que tanto marcaram a minha vida.

Reconheço não ser um grande leitor de quadrinhos nos dias de hoje. O mundo dos super-heróis, cheio de efeitos especiais me entedia e cansa. Por mais que eu reconheça ficar impressionado durante alguns minutos, estou cansado de lutas e de homens e mulheres vestindo capas e cuecas apertadas. Tenho que viver, me alimentar e cuidar da minha família, para isso me vejo obrigado a realizar trabalhos dos quais não me sinto tão orgulhoso. Mas sempre que posso gosto de desenhar meus próprios roteiros, algo cada vez mais difícil dada as atuais conjunturas do mercado editorial.

Então eu só tenho a agradecer a atenção de vocês e torço para que nos deixem pelo menos seguir pensando. Difícil é ser livre, não que nos deixem trocar de amos de vez em quando.

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Entrevistas / HQ

Cynthia B. e a criação de Estudante de Medicina: “Se eu não estiver falando a verdade, mas estiver falando a verdade no fundo, quem vai saber? Foda-se. Sou eu, mas não sou eu”

Estudante de Medicina retrata os sete anos da quadrinista Cynthia B. na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ou quase isso. Segundo a autora, o livro não é uma biografia ao pé da letra – alguns dos fatos protagonizados por ela na HQ podem ter sido vivenciados por outras pessoas, por exemplo. Ainda assim, o álbum gira em torno das dúvidas e questionamentos da artista em relação à sua vocação profissional e o curso universitário escolhido por ela. O livro recém-lançado pela Veneta é o passo seguinte e mais maduro de uma das mais interessantes quadrinistas do país. Estudante de Medicina cumpre as altas expectativas criadas em torno de uma carreira construída em torno de pérolas como a já clássica Meu Aborto em Quadrinhos e o segundo número da coleção Ugritos, Germes.

Também recém-lançado na França, pela editora Vraoum!, com o nome de Carabin & Caipirinha, Estudante de Medicina começou a ser produzido por Cynthia quando ela ainda estava na faculdade. A obra foi finalizada durante o período da artista como uma das residentes da Maison des Auteurs na cidade de Angoulême, onde ela ainda reside atualmente. Conversei com a quadrinista via Skype sobre a produção do quadrinho, suas principais reflexões durante a criação do álbum, as tramas pessoais tratadas por ela na HQ e o conteúdo científico do livro. Papo bem bom. Ó:

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“O legal mesmo foi o momento em que eu falei: ‘foda-se se aconteceu ou não!’. É baseado na minha vida, mas é muita coisa inventada, muita coisa juntada, coisas de épocas diferentes ou com outras pessoas que encaixaram bem na história”

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Quando você teve a ideia de fazer o quadrinho?

Comecei a fazer o quadrinho quando ainda estava na faculdade. Eu tinha umas 80 páginas prontas, mas foram os primeiros quadrinhos que fiz, então são muito feios (risos). Tinha esse projeto de livro o tempo inteiro, mas aí fui trabalhar na Toscographics e as coisas foram acontecendo. Aí quando eu soube dessa residência, pronto! “Vou lá e fazer o livro”. Eu não gostava mais de alguns dos desenhos e também queria fazer uma história um pouco mais unificada. Eram muitos causos curtos na versão original e eu também estava tentando recolher todos os fatos, pra fazer um negócio meio realista. Depois eu concluí que foda-se, incluí coisas que não aconteceram comigo com outras que aconteceram comigo… Tentei juntar pra contar uma história maior. Ainda é muito fragmentado, né? Não é uma história só e fluida, mas eu tentei.

Quando você foi selecionada pra residência já precisou apresentar qual seria a história que pretendia contar?

Eu tinha que fazer três páginas do projeto. Eu tinha 80, mas mesmo assim eu refiz as três que apresentei – e que acabaram nem entrando no livro. Aí, quando cheguei aqui, fiquei muito tempo trabalhando no roteiro. Então eu já tinha cadernos e cadernos de histórias da época, tinha alguns quadrinhos prontos. A minha bagagem pra França veio cheia de sketch books que eu tinha desde a minha época da faculdade. Aí vi tudo, fiquei pegando o que achava interessante. Fiz uma pilha de papéis com temas e palavras-chaves, colei tudo numa parede, aí fui juntando e tirando, achei que ia fazer em dois volumes e depois tirei mais, dessa bagunça toda saiu o livro. Não tenho mais nenhum plano de fazer um segundo, mas foi muito um trabalho de tirar coisas e juntar coisas pra conseguir ter uma parada realizável com alguma coerência.

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E como funcionava a residência? Os outros artistas e quadrinistas de alguma forma te ajudavam a pensar e editar esse trabalho?

A Maison des Auteurs é pra profissionais, não é pra estudantes. É um bando de gente que fica nos seus ateliês e tem umas festas, a gente se encontra e vai pro estúdio de alguém. Eu não vou muito porque sou muito tímida e não gosto muito quando as pessoas visitam o meu espaço. Mesmo assim você conhece as pessoas, conversa com elas, fala sobre quadrinhos, sobre a forma de trabalhar. É um ambiente muito de quadrinhos, bem legal pra produzir um projeto, entrar dentro do negócio.

E como você chegou na editora aí na França? A residência já ajudava com algum contato?

Não. Na real o que rolou foi que um cara da residência passou um email com todos os nomes de editores, uma lista, e aí peguei um por um e mandei email pra todos, com cinco páginas do projeto traduzidas pra inglês, eu não sei escrever em francês. Aí mandei pra toda essa galera. Aí a Vraoum! me respondeu falando que tinha curtido, teve o Festival de Angoulême com uma exposiçãozinha com os trabalhos da Maison. Fui na mesa do editor, falei “oi” e ele disse que viu meus quadrinhos na exposição e que pra ele tava vendido. “Ah, ok”, né? Aí ele me deu o cartão dele e disse que a gente ia se falando. “Então tá”. Nos meses seguintes ficou uma conversa, demorou um tempo, coisa de contrato, e foi com ele que publiquei.

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O quadrinho tem algumas referências geográficas em relação ao Rio de Janeiro e também de música brasileira. Como ficou na edição francesa? O conteúdo é diferente do que saiu aqui?

Foi legal. Rolou isso tudo, a gente foi conversando e uma hora ele me disse que eu tinha que entregar o livro até início de novembro do ano passado pra ser impresso pro festival e a gente lançasse – na época eu ainda não sabia se a minha residência ia continuar e se eu voltaria pro Brasil. Aí ele não viu o livro. Outro dia ele até falou comigo: “Se eu tivesse lido o livro, talvez…”, enfim, rolaram questões com traduções e tal, mas no fim das contas ele não viu o livro antes de estar entregue. É exatamente o mesmo livro, o meu livro, pro bem ou pro mal, sou eu (risos).

Eu gosto dessa referência locais, acho que elas acabam tornando o livro ainda mais universal.

Pois é. Não sei se o cara teria implicado com isso. Até o título foi o cara que sugeriu, de colocar “caipirinha” aqui em francês. Eu gosto disso, sei lá, ver um filme da África do Sul com os personagens falando da realidade deles, tudo soa meio exótico. Não incomoda, você fica ligado pelo contexto o que mais ou menos é, né? Eu acho. Já as música eu fiquei na maior dúvida, se eu traduzia, o que fazia. Pra mim fazia parte, então não pensei se estava desenhando pros franceses, eu estava desenhando pra mim, sei lá. No final eu traduzi boa parte das músicas e coloquei uma referência no rodapé. Se a pessoa tiver curiosidade ela pode procurar.

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Como você disse, o quadrinho é uma reunião de causos, você não dividiu em capítulos, mas dá pra perceber onde começa uma coisa e termina outra, onde fecham os ciclos. Você produziu também pensando nesses ciclos e enredos menores?

Como eu falei, eu trabalhei com esses papéizinhos, então a coisa já tinha uma unidade. Eu mudei muito a ordem do livro e isso deu o maior trabalhão na real. Enquanto eu estava escrevendo tinha um processo assim: “Ah, essa história é muito parecida com essa então vou tirar, mas seu eu tiro essa ficam duas seguidas só de medicina, fica chato, então seria legal ter algo pessoal aqui no meio”. A ideia era ter um arco geral, a parte pessoal é mais fluida, a parte da medicina eu fui colocando onde era mais interessante, onde cabia. Foi um quebra-cabeça meio chato. Eram blocos que eu fechava.

E em relação ao traço? Você estabeleceu alguma estética padrão desde o começo? Tinha algo que você se propôs a fazer?

Eu fiquei pensando tanto nisso. É muito chato, cara… Aquela que só reclama! (risos) Mas é cada coisinha que precisa ser pensada, você deixa de fazer uma coisa pra fazer outra. Na real esse meu jeito de desenhar meio que surge num dia que vou na casa do Gabriel Góis em Brasília, há uns anos, e aí ele me fez redesenhar uma página cinco vezes. Aí foda-se, né? Ele pediu, eu fui tentar do jeito que ele tava falando. Refiz meio puta, né? “Quem é ele pra ficar falando o que eu tenho que fazer?” (risos). E saiu um negócio meio diferente que gostei, com mais preto, consegui controlar mais a página. Eu não redesenhei cada página do livro cinco vezes, mas foi algo que surgiu e segui. Também teve a história do aborto nesse estilo e pro livro eu continuei fazendo isso, mas também é um pouco chato seguir o tempo todo o mesmo estilo. Então acho que no final das contas, quando me vinha uma ideia diferente eu deixava rolar. Tem uma história que é totalmente sem preto, que fiz no meu sketch book e eu gostei dela do jeito que tava, aí deixei como tá, é um traço bem diferente. Eu curto daquele jeito a unidade do livro.

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Em algum momento você cogitou usar cor? As cores da história do aborto são muito bonitas.

Eu ia fazer colorido, mas pra falar a verdade quando eu estava fazendo… Tipo assim, me deu um medinho e o editor francês disse que queria em preto e branco, acho que também por ser mais barato, e na real fiquei meio aliviada. É o primeiro livro e eu já estava surtando com tanta coisa (risos), quando ele disse que não precisava das cores eu disse “Ok, então beleza! Então concentro no preto e branco e tá tudo bem”. Fiquei meio grata de ser em preto e branco e eu curto o gibi em preto e branco, não sinto falta de cor.

No seu quadrinho você começa a falar dos átomos e nucleotídeos logo nas primeiras páginas, achei que ele seguiria mais por esse caminho, mas não. Você refletiu em relação a até onde ia com ciência e qual era a história que ia tratar ali?

Boa pergunta, deixa eu pensar (risos). Como eu te falei, quando eu estava pensando a história, com os blocos, tinha histórias que eu gostava, cada uma de diferentes fases da Faculdade de Medicina. Na primeira parte a gente tem ciências básicas, né? O curso básico. Depois vamos lidando mais com pacientes e tendo outras coisas. A coisa que pensei mais assim, em termos do leitor se divertir ou não, foi de tentar intercalar bem pra não ter muita ciência perto de muita ciência e muita história pessoal perto de muita história pessoal, pra dar uma respirada. Fora isso, foi mais natural em relação ao fato de que a minha proposta não era de fazer um tratado sobre medicina ou ensinar qualquer coisa. Tipo, até aquele começo meio que não ensina nada pra ninguém, né? É meio que o ambiente, né? A medicina serve como o ambiente onde tudo se passa. Cara, que frase essa! (risos).

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E o quanto você ainda tinha essas informações frescas na sua cabeça?

Aquela primeira página me deu um trabalho da porra. Ela é muito básica, então cada palavra eu fiquei questionando, sabe? Mas é tudo cientificamente correto, pode ver todas as ligações covalentes, botei até os hidrogênios porque me deu vontade (risos). Eu escrevi: “Como toda coisa no universo o nosso corpo é feito de átomos”. Tudo no universo é feito de átomos? Peraí, um buraco negro não é feito de átomos. Então passei pra “Como quase tudo no universo”. Aí cada merdinha eu fiquei pensando pra não escrever uma besteira, mas é capaz de eu ter escrito, saca? Não sei. Se alguém falar que eu escrevi uma besteira eu aceito, mas tentei escrever algo cientificamente correto e não quis pegar a Wikipedia. É difícil escrever e deixar tudo certo.

Mas bateu alguma dúvida durante essa produção? Você conversava com alguém nessas horas?

Quando eu tinha alguma dúvida, se eu não lembrava bem a coisa, eu sentava e pesquisava um pouco.

E as histórias que você narra? Você correu atrás de alguém pra confirmar se aquela coisa aconteceu daquele jeito ou algo do tipo?

Na verdade, o legal mesmo foi o momento em que eu falei: “foda-se se aconteceu ou não!”. É baseado na minha vida, mas é muita coisa inventada, muita coisa juntada, coisas de épocas diferentes ou com outras pessoas e encaixaram bem na história. Realmente não é uma autobiografia, é baseado em mim e tal.

E quando rolou esse momento em que você conclui que podia fazer o que quisesse e que não iria se prender a fatos?

É uma parada quase… Os meus pais não curtem muito que eu faça quadrinhos e menos ainda que eu faça quadrinhos autobiográficos. Eles não gostam que eu fale da nossa vida privada. Então comecei a fazer quadrinhos autobiográficos e isso pegava mó mal. Minha mãe e minha família inteira odiavam, é um negócio muito chato. Aí eu fiquei meio travada, eu queria escrever a história que aconteceu, mas que merda que meus pais não curtem. Essa pressão me travava. Um dia veio essa: se eu não estiver falando a verdade, mas estiver falando a verdade no fundo, quem vai saber? Foda-se. Sou eu, mas não sou eu. Se a minha família ficar brava, beleza. Como eu me distancio um pouco me sinto menos julgada talvez. Enfim, é papo pro meu psicanalista.

O Joe Matt falou sobre isso numa entrevista. Alguém perguntou como ele conseguia namoradas, porque pelos desenhos é o maior filho da puta do mundo. Ele falou isso que eu falei: “sou eu, eu sou um filho da puta, não tô dizendo que não sou, mas lá eu sou um personagem, me dá prazer em fazer ele ser filho da puta”. A minha personagem não é filha da puta, mas é o mesmo distanciamento que eu queria ter e rolou.

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Você citou seu psicanalista, deve ser mais intenso do que uma sessão escrever isso tudo, né?

Ah, sim. Demorou anos pra eu escrever e desenhar o livro, a vida foi acontecendo e no livro é até mais light. Na época eu não conseguia imaginar a minha vida não sendo aquilo. Então todos os problemas eram muito sérios. Demorou um tempo pra eu conseguir me distanciar o suficiente pra eu conseguir contar uma história que não fosse uma confissão. É uma história.

Existe toda uma escola de quadrinistas que se propõem a fazer quadrinhos autobiográficos, mas também com esse distanciamento que você citou.

O próprio Crumb, né? Mas com ele eu sempre fico com a impressão de estar lendo ele de verdade, saca? Sem filtro, o que é lindo. O Joe Matt que me abriu a cabeça de pensar que pode ser você e não ser você ao mesmo tempo. Eu nunca parei pra pensar muito se o Robert Crumb é realmente a pessoa que ele desenha, mas…

Eu tava pensando aqui no Chester Brown.

O Chester Brown é outro nível de observação do mundo, ele é desvencilhado dele mesmo. É quase um Buda (risos), mas é um bom exemplo.

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E quais outras coisas que você leu e te influenciaram e foram referência durante a produção?

Deixa eu pensar um pouco… Cara, Dr. House e séries de hospital. Eu tava vendo agora pouco House aqui. É até engraçado porque não tem no livro uma história sobre o House que tava no original. Na faculdade a gente adorava House.

Mas tem a piada sobre a lúpus, que era a doença sempre cogitada na série.

Ah, é! Tem isso mesmo. A gente adorava ficar discutindo sobre House porque na UFRJ era sempre lúpus também. Lá é centro de especialidade de lúpus, poucos casos de sei lá o que e lúpus pra caramba. Existe essa piada que acabou não entrando.

De quadrinhos eu cito o Joe Matt, o Allan Sieber,…essa galera meio autobiográfica. No livro eu cito também o Woody Allen, é muito prepotente, né? Mas eu curto muito. Gosto dos finais que não são muito felizes e essa leitura do amor que ele tem.

E além do livro, tem algo legal daí, não necessariamente ligado a quadrinho, que você esteja curtindo?

Não tem nada a ver com quadrinhos, é mais pessoal, mas tava lendo agora o Jogo das Contas de Vidro do Herman Hesse. Eu tava ouvindo muito Alan Watts, os áudio-livros. Isso tudo tem me influenciado em termos de aceitar como contar história. De coisas legais aqui da França tem um artista chamado Pozla, esse livro Carnet de Santé Foireuse. Também tem o Édika, melhor coisa de blague visual que já vi em toda a minha vida, muito sensacional. Melhor coisa do mundo. Ele faz uns quadrinhos que são gags visuais o tempo inteiro, são histórias completamente insanas, tudo brincando o tempo todo com o fato de ser quadrinho. E ele desenha de um jeito tão engraçado…fiquei doida com ele. É tipo um Monty Python, nunca tem um final claro. Ele inventa uma parada e encerra o quadrinho, sabe? É muito doido. Tipo um Monty Python em quadrinho.

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Entrevistas / HQ

Rafael Coutinho e os sete anos de produção de Mensur

Mensur é a primeira grande HQ brasileira de 2017. O álbum de autoria do quadrinista Rafael Coutinho foi produzido ao longo de sete anos, entre 2010 e 2017 – um período no qual o autor também publicou os três primeiros volumes da série O Beijo Adolescente, criou a editora Narval Comix, idealizou a coletânea O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 e esteve envolvido em vários projetos e eventos relacionados a quadrinhos, entre outras coisas. Ao longo dos últimos três dias foi publicada no Vitralizado uma longa entrevista feita com o artista em seu ateliê no bairro Butantã no dia 2 de fevereiro de 2017, mesmo data em que Mensur foi enviada para impressão. Você lê a entrevista, dividida em três partes, nos links a seguir:

Rafael Coutinho e os sete anos de produção de Mensur – Parte I: “Cheguei a encarar como um projeto que eu nunca iria acabar e que eu teria que viver com essa dívida”;

Rafael Coutinho e os sete anos de produção de Mensur – Parte II: “O protagonista precisava ser a representação das múltiplas facetas da agressividade dentro da vida de alguém”;

Rafael Coutinho e os sete anos de produção de Mensur – Parte III: “É a estética do preto e branco do Cachalote com características da fragmentação do Beijo no âmbito de uma história adulta”.

Entrevistas / HQ

Rafael Coutinho e os sete anos de produção de Mensur – Parte III: “É a estética do preto e branco do Cachalote com características da fragmentação do Beijo no âmbito de uma história adulta”

Apesar da produção de Mensur ter sido iniciada em 2010, o álbum recém-lançado pela editora Companhia das Letras é bastante atual. Na terceira parte e última parte da entrevista com Rafael Coutinho, são abordados temas como a postura conversadora do protagonista do quadrinho, a construção da estética do livro e, principalmente, as mudanças de perspectivas do autor em relação ao potencial da linguagem das histórias em quadrinhos ao longo dos sete anos de produção de Mensur. A primeira parte da entrevista está disponível aqui e a segunda pode ser lida aqui. Segue o trecho final da conversa:

[OBS: A entrevista a seguir não revela informações específicas sobre o desenrolar da trama de Mensur, mas pode apresentar interpretações que alguns considerariam spoiler. Fica o alerta caso prefira guardar para ler a conversa após a leitura da obra]

“O Gringo precisou que eu tivesse 37 anos e dois filhos pra se revelar inteiro para mim. Mas também acho que é um personagem que eu não entendo plenamente. Gostaria de ter contado mais coisas sobre ele, contar mais aspectos da vida dele. Uma hora simplesmente não dá mais, precisa fechar e começar outras coisas”

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Mensur é ambientado em Minas Gerais com rua de pedra e bruta, que reflete muito da sisudez dos personagens do quadrinho. Ter Outro Preto como principal ambiente da história foi uma escolha que ia além da questão das repúblicas?

Não sei se aprofundei tanto assim sobre Ouro preto, queria ter ido mais fundo. Não sei se sou capaz de falar de Minas Gerais e entendi isso rapidamente. Eu queria falar mesmo das repúblicas e da experiência que tive ali. Queria que isso estivesse mais presente, mas não consegui. Não consegui e não quis também. Me sentia pouco à vontade, não queria que as fraternidades ou repúblicas ficassem marcadas no livro como rituais selvagens de gente desmiolada. Pelo contrário até, quando estive por lá os meninos que me receberam me trataram super bem e saí com uma sensação curiosa. Existe o machismo inerente, a hierarquia que me incomoda, os trotes agressivos e todos os rituais de passagem que são coisas que não concordo, mas ao mesmo tempo é bonito ver esse código de ética e conduta que os une e protege. Eles são uma família, têm muito respeito um pelo outro, ficam unidos pelo resto da vida. Os veteranos passam lá pela vida todas e são sempre homenageados. Tirando quem tá envolvido ali, se é filho de gente rica, X ou Y, isso não importa pra mim. Eu não tenho conhecimento suficiente pra ir por aí. Eu não queria de forma alguma representar aquilo tudo como uma coisa ruim. Assim como o mensur, não queria que as pessoas saiam dizendo “que coisa selvagem e horrível!”. Pelo contrário, me encanta um lugar no qual esse limite fica nebuloso, em que o que me incomodava naquele ritual e naquela dinâmica também passava a me encantar. No fim do dia são só pessoas. Pessoas e grupos que se organizam. Então não, não entendo suficientemente de Minas pra falar dela dessa forma.

Hoje quando você olha a jornada desse personagem você fica satisfeito de onde chegou com ele?

É aquilo que te disse, eu vivi com o Gringo durante sete anos. Tive conversas mentais constantes com ele. Ele me contava coisas da vida, aspectos que fui aprender só no quarto ou quinto ano. “Ah, você é capaz disso? Olha! Então tá, você é super rígido moralmente, mas também tem um lado humano, só que nem sempre, pode também ser cuzão e cruel”. Tive que negociar com ele. Realmente, foi uma negociação.

Eu concordo com outros artistas e escritores que dizem que a história ganha uma vida própria em algum momento. Sinto que em vários momentos ela foi me dando coisas em função do quanto eu estava preparado para entender. Tinha aspectos da história que eu não tinha ferramenta humana para entender. Não entendia como os seres humanos se comportam dentro de um determinado contexto. Entendia de um jeito meio raso que seria representado de um jeito meio raso. Aos poucos acho que fui amadurecendo para a história que eu queria contar. Sabe? O Gringo precisou que eu tivesse 37 anos e dois filhos pra se revelar inteiro pra mim. Mas também acho que é um personagem que eu não entendo plenamente. Gostaria de ter contado mais coisas sobre ele, contar mais aspectos da vida dele. Uma hora simplesmente não dá mais. precisa fechar e começar outras coisas.

É uma história que você começou a fazer há sete anos, mas que dialoga bastante com o mundo atual, mesmo ele sendo totalmente diferente da realidade na qual você começou a produzir. Há sete anos ninguém fazia ideia desse mundo tão preto e branco em que estamos inseridos. Você vê uma adaptação dessa obra que começou em 2010 com o mundo de 2017?

Cara, aconteceu isso, né? Quando eu comecei o Mensur era o Capitão Nascimento e agora é o Trump. O mundo se tornou mais conservador e reacionário. A própria justificativa do livro… Em algum momento eu li o livro e pensei, ‘isso aqui é um livro de direita’. Fiquei com medo de que isso fosse acontecer, que as pessoas interpretassem dessa maneira. Mas já estava muito andado e percebi que não adianta, todo ano vai acontecer alguma coisa e o livro precisa seguir o seu caminho.

Como um sujeito de esquerda – eu me considero um sujeito de esquerda – me encanta muito a direita. Desde o começo me encantou, eu sempre pensei no comportamento conservador e reacionário, que busca sempre uma resposta pela intolerância. É uma postura muito diferente da minha, algo que tenho muita dificuldade de entender e por isso me encanta, a exclusão, a proteção dos valores de um grupo em detrimento do resto da população. Eu tenho vários amigos com esse perfil e não são todos iguais. Eles se unem em torno de alguns valores, mas são diversos entre eles. Tenho amigos de centro-direita, outros pemedebistas, outros pessedebistas, outros que votaram no Lula, mas depois não votaram mais e acham o Dória interessante. Pessoas que não acham que nordestino é preguiçoso, mas acham que desempregado é quem não tá correndo atrás de verdade. Pessoas que acham que políticas de cota e Bolsa Família abrem precedente pra ninguém fazer nada. São raciocínios que tenho dificuldade pra entender.

Quando comecei a fazer a história eu percebi que existia um diálogo entre esse ritual, essa luta, e esse tipo de perfil social. Eu precisava tentar descobrir esses personagens, onde eles estão, quem eles são. O próprio Gordo, o Professor, e a mãe do Gringo. Onde o conservadorismo se expressa, de que forma ele pode se expressar e como ele é inerente a todos nós, todos nós somos reacionários de alguma forma. É um mundo de indivíduos, todos protegendo os próprios interesses, é o que o capitalismo e a nossa sociedade pregam. O erro é tentar fingir e passar um pano no fato de que, sim, somos todos individualistas. Amigos que enchem a boca pra dizer que são de esquerda e não fazem nenhum trabalho social? Não ter entrado em uma favela nos últimos 25 anos? Existe também um ultraindividualismo que nos faz ainda mais mal e dificulta tudo ainda mais. Nesse sentido, buscar por uma moralidade comum a todos nós, se é que existe uma moralidade democrática, era um desafio interessante. A ideia era que o Gringo fosse um personagem que buscasse um tipo de justiça comum a todos nós e mostrasse como ele tem muita dificuldade em achar isso, talvez não exista esse código que nos une e que faz com que o mundo seja mais justo para todos.

Que bom que eu sou artista e não tenho que resolver essas questões (risos). Eu posso só ficar suscitando e causando problemas. O livro não tenta solucionar essas questões, eu queria ser fiel ao personagem, ao que ele sentia e como ele se posicionava a respeito das coisas. Eu queria descobrir isso, aprender com ele. Ele gosta do mendigo que mora na porta dele ou não? Ele acha ok a menina ser alcoólatra ou não? Até onde ele negocia a própria solidão? No fim das contas estamos todos também negociando isso. Não é uma luta só ideológica. Somos humanos, capazes de coisas horríveis, todos nós, se colocados em situações horríveis.

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Você fica curioso em relação a como as pessoas vão interpretar o Gringo? Você está bem resolvido com ele? Tem alguma expectativa em relação a como ele será interpretado?

Não, acho que as minhas expectativas já foram supridas pelas pessoas para quem mostrei e acompanharam a produção. A minha maior preocupação é que o Gringo ficasse realmente tridimensional. Que ele fosse profundo o suficiente pra alimentar as necessidades dos leitores em relação ao personagem que é apresentado. Eu precisava preencher essas lacunas e acho que isso aconteceu. E isso precisa acontecer para que ocorra essa conexão, que as pessoas não só se importem pelo personagem, mas se identifiquem com os piores aspectos dele. Esse era o meu principal desejo. Se a pessoa gosta ou não é outra coisa e isso não quero saber. Tanto dele, quanto de outros personagens e do que eles eventualmente façam.

E em relação à arte. Você sempre teve definido qual seria a estética padrão do livro ou ela foi mudando enquanto você fazia?

No Cachalote foi mais difícil, o meu desenho foi mudando e eu tive que manter um estilo até o final. Depois do Cachalote eu já tinha um novo desenho que eu tava louco pra fazer e também tinha uma postura também um pouco diferente, eu tinha aprendido um monte de coisa. Desde o Cachalote até aqui não teve um dia que eu não desenhei. Foram muito projetos de muitos tipos diferentes, então sinto que tecnicamente evoluí. Quando comecei o Mensur eu já tinha um tanto dessa técnica que eu sabia que ia conduzir o resto do livro, bem como um tipo de construção de página que eu tava querendo fazer. Saí de uma estrutura muito rígida do Cachalote entrei com o Beijo no meio, com uma estrutura bem fragmentada. O Mensur se encaixa no meio desse caminho. É a estética do preto e branco do Cachalote com características da fragmentação do Beijo no âmbito de uma história adulta, mais sisuda. Tinha essa paginação, mais fragmentada que eu queria testar, mas menos fragmentada que a do Beijo. O Beijo quase existiu pra que eu pudesse aprender coisas para colocar no Mensur e vice-versa. Também rolaram vários outros trabalhos no meio que foram agregando algumas pecinhas por aí. Eu também queria muito que o Mensur não fosse formalmente uma profusão de loucuras, mas que ele tivesse uma construção um pouquinho mais convencional, pra que não fugisse do meu controle. Eu sabia, desde o começo, que no final eu ia querer fazer uma coisa totalmente diferente do resto, um espaço narrativo de experimentação. Não tinha claro como ia ser, não tinha claro até pouco tempo atrás. Ele tinha uma pré-definição formal, que se manteve nos sete anos, mas que dentro disso aconteceram duzentas coisas. Isso também manteve o meu tesão pelo livro, me ajudou a me manter interessado, não era apenas uma questão de conduzir a história até o final. O livro me permitiu muita descoberta, nele todo. Pra mim não tem 10 páginas que sejam similares às 10 seguintes.

Você disse que foi moldando o roteiro ao longo de sete anos, mas demorou um ano pra fechar essa primeira versão da história. Com a arte também teve um período no qual você investiu exclusivamente?

Eu sou muito sistemático. Nos primeiros dois anos eu fiz thumbnails, terminei tudo e fiz leituras de thumbnails com o André, pra mostrar o desenrolar da coisa. Aí teve um período, que não vou saber te dizer qual, que fiz só esboço. Tenho a sensação que fiquei uns três anos só fazendo esboços. Esboços, lápis, lápis, lápis e depois escaneei tudo, montei em pdf o livro todo e aí consegui finalmente olhar ele todo, montei os balões no esboço pra ver se tinha uma história ali e se tava andando, vi buracos, fiz mais esboços, completei esses buracos, ainda tinha outros e passei pra nanquim. Deixei esses últimos buracos pro final. Aí fiz um ano ou dois, acho que dois, de arte final. Mas não fiquei em cima todo dia, fiz milhares de pausas.

Seria impossível ficar por conta desse trabalho?

Pra mim foi (risos). Não sou mais o garoto do Cachalote, não posso me dar ao luxo de ficar fazendo só quadrinho. Tenho duzentas outras coisas. Foi sempre uma negociação: trabalhava um mês para conseguir duas semanas pra fazer o Mensur, no seguinte eu não tinha essa sorte, aí dois meses depois conseguia abrir mais uma semana. Passava mais um mês e meio e conseguia abrir mais alguns dias. Passavam quatro meses e conseguia abrir mais um mês, guardando dinheiro… Passou a ficar mais complicado depois que o meu filho nasceu e precisei gerar mais grana. Minha vida burocrática também começou a ficar muito complicada, com a Narval e tudo mais, principalmente pela vida de pai. Pra que tudo isso acontecesse e eu conseguisse abrir espaço pro Mensur, precisei me disciplinar muito. A vida ficou muito marcadinha no calendário, com os horários e os dias, pra que tudo acontecesse.

Nesse meio do caminho você teve vários empreendimentos, não só pessoais, mas também projetos profissionais, como a Narval, mais ligados a negócios mesmo. Hoje, com o livro saindo, você tem interesse em ter algum envolvimento na divulgação e venda desse projeto? Você consegue se distanciar desse processo? No Mensur é só o Rafael Coutinho artista?

Nesse período todo eu gastei toda a minha energia nesse sentido. Me desinteressei em relação a alguns aspectos. Foram dois Catarses, mais dois ou três financiamentos coletivos internos da Cachalote. Testei modelos muito variados de trabalho e divulgação e cansei. Dessa vez eu gostaria que o livro andasse pelas próprias pernas. A Companhia tem uma estrutura muito boa nesse sentido e eu vou seguir um pouco a orientação deles. Mas eu não consigo muito parar, vou continuar levando o livro, tenho muitas viagens pra esse ano já marcadas, é muito provável que continue fazendo o lançamento em diferentes cidades e estados. Mas acho que essa coisa de fazer produtos, pôsteres, canecas, tênis, bonés, sites, acho que tô sentindo um certo cansaço. Preciso muito ser pai, mais do que eu sou. Sinto também que eu gastei grande parte das minhas soluções gráficas e narrativas nesses 10 anos e cinco livros, além dos ilustrados e editados. Visualmente eu tenho me sentido um pouco desgastado no que eu tenho para oferecer. Então eu queria tirar esse ano pós-Mensur para balanço, para não pegar nenhum livro e viver pelo menos 2017 sem essa dívida. O livro é uma dívida, consigo mesmo, com a editora, com as pessoas, principalmente consigo mesmo. Dormir com a sensação de dívida, “não terminei o que tinha de terminar e não estou nem perto de terminar”, isso me torturou durante muito tempo. Mesmo com prazeres do meio, eu esqueci como era não ter isso. Gostaria muito de ficar esse ano pra balanço. Mas eu sei também que sou quadrinista, já tenho ideias para as próximas histórias, só não quero me engajar em nenhuma. Queria tirar um aninho…

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Os direitos do Mensur ficaram com você ou com o Rodrigo?

Os direitos de audiovisual são da RT, possíveis adaptações para TV e cinema. Igual ao Cachalote, mesma coisa. Também não sei até onde o Mensur vai nesse sentido. O Cachalote tá com ele há sete anos e não virou, então… Acho que também é uma esfera da qual não quero fazer parte e nem ficar fantasiando. Eu faço quadrinhos, gosto de quadrinhos e quero ver isso em quadrinhos. Realmente não fico fantasiando se isso vai virar filme ou não, série ou não. Realmente não sei até onde isso vai.

Você mais de uma vez afirmou nessa conversa que é um quadrinista. É assim que você se apresenta profissionalmente?

Sim, mas eu realmente acho que quadrinho é arte, ao contrário de muitos artistas e quadrinistas. Quadrinhos não são diferentes de qualquer outra mídia. Quero dizer, ela tem suas especificidades mecânica e estruturais, mas da mesma forma que me expresso com pintura me expresso com quadrinho e me sinto muito à vontade para me expressar com inúmeras outras. Acho que me sinto artista e me expresso mais em quadrinhos do que nas outras. Acho que quadrinhos são muito mais do que a gente costuma enxergar. Vejo um projeto de quadrinhos como um projeto de arte, que precisa ser absolutamente único, celebrando aspectos diferentes dos meus desejos e anseios como artista, pra mim ele prescinde de um direcionamento conceitual. Precisa ser o trabalho mais importante da minha vida até ali. Tanto quando eu faço um desenho grande com o Gabriel Góes quanto quando eu faço um livro ilustrados como o Barão de Munchausen ou uma exposição de quadros. Preciso que aquilo seja muito importante, tecnicamente novo e bem feito nos parâmetros daquela mídia. Precisa ser importantíssimo pra mim, pessoalmente. Intimamente é muito importante.

Se eu passar os próximos cinco anos fazendo uma animação, vou encarar da mesma forma como encarei o Mensur. Vai ser a mesma frequência, a mesma entrega. Nesse sentido eu não vejo diferença. Mas sim, atualmente sou mais quadrinista. É um lugar onde me sinto mais à vontade mesmo. Entre os meus colegas do meio, nos festivais e eventos. Entendo que tive um papel, que me envolvi muito intensamente com a militância e o desenvolvimento do meio no Brasil nos últimos anos. Tenho muita paixão por isso, mas demorei muito pra entender que quadrinho e pintura são a mesma coisa. Depois da faculdade, quando eu era da Choque ou da Base V, era muito difícil fazer as duas coisas dialogarem. Era quase uma identidade paralela que eu tinha que viver. Embora eu enxergasse no meu íntimo que era a mesma coisa. Eu não conseguia celebrar aquilo ali, parecia que eu estava arrumando uma desculpas e que era necessário fazer o parêntese do quadrinho toda hora. Hoje em dia isso passou 100%, não tenho mais nenhum problema.

Sete anos depois da Cachalote, mudou muito a sua leitura de o que é possível fazer com quadrinho?

Mudou. Nesses últimos anos principalmente eu fui apresentado ao maravilhoso mundo do quadrinho experimental. Acho que faço parte de uma geração que passou a buscar esse tipo de frequência e produção de um jeito meio novo dentro do contexto brasileiro, talvez mundial. Pra nós, todos, era muito comum analisar os trabalhos uns dos outros com esse viés experimental, de buscar por uma nova estruturação, de um novo jeito de entender o meio, cada um tentou à sua forma. Me vejo muito parte desse contexto. Acho que isso começou a andar com suas próprias pernas depois que amadureci artisticamente. Apareceram novos projetos e percebi que todo ano vinham coisas de muitos lados e tudo bem. Não tinha que ficar buscando tanto. Sou muito grato por isso. Eu não recebo tantas propostas de quadrinhos e são pouquíssimas de ilustração. Talvez por uma orientação minha ou externa, partem principalmente de pessoas que vêem meus trabalhos em outras mídias e querem apostar e testar. Eu recebo convites de teatro e dança… Eu gostaria muito de coregrafar um grupo dançando. (falando para o gravador) Pessoal de dança, estejam atentos aí! (risos).

Na verdade tudo tá muito conectado, né? Eu não saberia dizer onde a Cachalote ou o Mensur conversam com outras mídias. Mas sempre que sento pra um trabalho coisas de cada um desses trabalhos se misturam um pouco e vão se misturando ainda mais. Gosto muito disso. Costumo ter momentos em que acho que estou em uma alucinação de ácido voltando pra casa em que me vem um clique: ‘Ahhh! Isso daquele trabalho com esse aqui, montando uma coisa que ainda não sei o que é, pode ser muito incrível! Nossa, carvão com aquela coisa lá!’. Aí vai sempre ficando mais claro e isso tudo me move muito.

Eu e o Góes demos uma aula recente e brincamos com spray com os alunos e metemos um lápis por cima do spray. Aí entendi que o lápis vai muito bem em cima do spray, que seca super rápido. Isso abriu outras portas para outros projetos. Essas coisas me movem muito. Eu tava conversando com o Pedro Franz sobre isso. Como quando descobrimos uma técnica ou desenvolvemos uma história com um tipo de desenho ele parece fazer parte de você agora, então fica tudo adquirido. O Franz tava contando como voltar ao desenho pra um projeto e como ele se sente à vontade, retornando pra um lugar já conhecido pra ele, mesmo que não seja algo atual da carreira dele. É como andar de bicicleta, um lugar adquirido. Isso também é bom, dá um alívio voltar pra aquilo eventualmente. O Mensur me garantiu esse lugar novo, em que já tenho voltado em outros trabalhos, usado aspectos dele. Pode ser um posicionamento de corpo, um lugar de câmera, uma desconstrução de perspectiva, um uso de preto,… Então é isso. Concluir livro tem um pouco disso. É fazer uma faculdade, a faculdade daquele livro. Você aprendeu aquelas porras ali, aguentou e agora tem o diploma daquela merda ali. Seja lá o que ela for (risos).

Estamos falando aqui e o livro tá na gráfica, nem saiu ainda e você ainda vai precisar trabalhar bastante em entrevistas e eventos de divulgação. Ainda assim, o fato dele estar sendo impresso e lançado, representa um fim de ciclo pra você?

Sim. Muito. Vejo um fim de ciclo de livros que eu fiz, que me tomaram um longo tempo, cada um de um tamanho. É um conjunto de ciclos, teve o do Cachalote e do Fabuloso, por exemplo. Era um obsessão de fazer esses livros. Eles foram aumentando e virando projetos maiores, acho que cheguei em um lugar que fechou um ciclo mesmo. Gostaria muito de fazer uma pausa, um balanço, não sei o que vai ser depois. Vou continuar trabalhando igual ou vai ser um período de muito curso, ainda toco a Desgráfica com o MIS, tem os cursos do Sesc que são uma delícia de fazer, além de convites para cursos específicos e viagens. Vou pra Beja em maio, depois no segundo semestre pra Angola, bem massa, um festival lá. Então encerrei os três Beijos, o Mensur, a Cachalote, também pode entrar o Barão nesse pacote, agora tem o projeto do Lucas Santana, aí vou eventualmente testar o mercado estrangeiro, que nunca testei. Estou fechando conversas com agentes e tô ansioso pra ver o que vai sair. Se saem novos projetos daí ou se os livros serão vendidos para outros países, tomara que sejam. É algo que ensaiei durante muito tempo, testar o mercado de fora com um agente.

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Entrevistas / HQ

Rafael Coutinho e os sete anos de produção de Mensur – Parte II: “O protagonista precisava ser a representação das múltiplas facetas da agressividade dentro da vida de alguém”

Na segunda parte da entrevista com Rafael Coutinho sobre os sete anos da produção de Mensur, conversamos sobre a criação do protagonista da HQ, a prática do mensur como reflexo dos combates de MMA e a construção do roteiro da obra. Em determinado trecho da conversa, o autor fala sobre as duas vezes que testemunhou pessoas sendo espancadas e como o registro desses ocorridos determinou diretamente tanto no desenrolar de Cachalote quanto de Mensur. A primeira parte da entrevista está disponível aqui. Segue um novo trecho da conversa:

[OBS: A entrevista a seguir não revela informações específicas sobre o desenrolar da trama de Mensur, mas pode apresentar interpretações que alguns considerariam spoiler. Fica o alerta caso prefira guardar para ler a conversa após a leitura da obra]

“A orelha moída do Jiu-jitsu seria mais ou menos equivalente à cicatriz na cara do século XIX. Existe uma admiração dos seus pares e da sociedade pelas marcas de um ritual de agressividade inerente àquilo”

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Sobre o Mensur. Você disse ter concluído em determinado momento que não queria falar no livro exclusivamente sobre o mensur, apesar de ser uma prática que te fascinava de alguma forma. Aliás, é uma prática, certo? Os mensuren não consideram um esporte, correto?

Não. É um duelo, um ritual, um rito de passagem. Eu fui pra Bélgica uma vez e tentei assistir, lá eles praticam bastante. Também tentei na universidade de Frankfurt, que é conhecida no meio. Mas você não pode chegar lá e pedir pra ver. ‘Ah, quero dar uma passadinha e ver’, não. Quem faz não pode publicar foto ou compartilhar vídeo, é um negócio realmente muito fechado. Hoje em dia as pessoas não tem os cortes que tinham antigamente, a luta para bem antes de alguém perder um nariz, antes era comum perder um nariz ou uma orelha.

O que você definiu primeiro, esse cara que é o protagonista da história ou o contexto sobre o qual queria tratar?

Era o contexto. Quando eu entendi que não ia se passar na Alemanha e também não ia trazer personagens alemães pro Brasil ou nada do tipo, comecei a procurar esse sujeito. Quem seria esse sujeito? Aí aos poucos fui encontrando os contornos da trama. De início eu defini que alguém lutando mensur morreria e eu queria que a história se passasse dez anos depois desse ocorrido. A estrutura principal era construída em torno dessa ideia de que mensur é uma coisa pitoresca no Brasil. Não queria construir um lugar em que fosse comum ter mensur. Queria que fosse realista, que tanto eu quanto o leitor sentíssemos essa estranheza de algo que não tem praticantes, mas no entanto um grupo fez e um deles entrou numas e ficou obcecado com o negócio. A partir daí fiquei um bom tempo tentando descobrir que outras práticas dialogavam com o mensur do ponto de vista simbólico mesmo, como a nossa obsessão com MMA. Em todos os textos sobre mensur fica claro que o propósito da dela é muito vazio, principalmente hoje em dia. Era uma prática muito ligada a uma cultura de guerra, de homens que precisavam provar socialmente que tinham força, suas masculinidades, pra sobreviver dentro de um contexto de guerra na Europa do século XVIII e XIX. O mensur foi praticado ao longo de vários períodos e dentre eles teve o próprio nazismo. Existiram discussões se aquilo era ou não parte da estrutura e se ele iria ser ou não fagocitado pelo nazismo. Ficou claro que não, que não era uma prática típica do nazismo apesar de muitos nazistas terem praticado. Se você der Google em ‘mensur’, vai ver várias fotos de nazistas e de praticantes com a suástica.

As origens do mensur tem a ver com esses meninos que iam pra universidade em uma época em que duelar na rua era normal. Aí esses duelos matavam os jovens. Os caras chegavam na universidade e perguntavam: ‘e o fulaninho?’, ‘morreu no caminho’. Então as universidades começaram a trazer pra dentro de suas estruturas o duelo pra que ninguém morresse. Conforme os anos foram passando isso foi ganhando contornos muito mais estruturados, exigentes. Não pode mexer, por exemplo. Mexer é uma ofensa à própria fraternidade, você é punido com vários golpes na cara. Quando está levando esses golpes também não pode mexer e soltar um pio. Após isso tudo existe o ritual de sutura, feitos por médicos residentes da universidade que também fazem parte do mensur e costuram o sujeito ali na hora e o sujeito não pode mexer. Então é todo um ritual mesmo de demonstração de força, resiliência e resistência.

Nada mais do que isso, né? O personagem mesmo explica no início quais são as regras, não envolve um matar o outro, mas quem resiste por mais tempo. A relação com o MMA é muito explícita principalmente pelo fato das várias regrinhas criadas para ser socialmente aceitável o fato de estarmos vendo dois sujeitos se matando dentro de uma jaula.

A orelha moída do Jiu-jitsu seria mais ou menos equivalente à cicatriz na cara do século XIX. Existe uma admiração dos seus pares e da sociedade por ser daquela forma, pelas marcas de um ritual de agressividade inerente àquilo.

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E parece algo deslocado temporalmente, tanto o mensur quanto o MMA, de você estar vendo práticas de violência quase primitiva legitimadas por regras.

Não só isso. O começo disso tudo foi muito fruto de uma situação que eu vivi, que o meu irmão viveu quando era vivo. Ele e os amigos saíram de uma festa e um deles arrumou uma briga com um rapaz lá, o cara se irritou com um dos amigos do meu irmão, eles tentaram apaziguar o cara, que tava meio bêbado e com o sangue quente, eles também ficaram muito envolvidos, uma coisa levou à outra e depois de muito tentarem tranquilizar o cara… Ele saia, dava meia volta e ameaçava, dizia que os amigos dele iam quebrar todo mundo ali, aí os amigos do meu irmão se irritaram e pegaram ele na porrada.

Meu irmão me contou isso no dia seguinte com a mão engessada. Meu irmão era um sujeito muito racional, inteligente e articulado, muito culto, lia muito e tal, mas ele tinha esse lado ‘dos moleques’, ele fazia Jiu-jitsu e era muito ligado a esporte… Eu lembro dele dizer na época, contou que foram pegos numa espiral de agressividade que foi aumentando, aumentando e aumentando e eles machucaram muito o menino, não paravam. Continuaram indo atrás dele, ele tentou fugir pelo estacionamento e quebraram a cara mais, a namorada conseguiu por A mais B colocar ele dentro do carro, eles quebraram o vidro do carro, tiraram ele de lá e quebraram ainda mais. Ele foi pro hospital e ficou bem mal.

Meu irmão me contou isso com uma excitação muito grande. Ainda sob os efeitos da excitação da coisa em si. Eu fiquei muito horrorizado, mas confesso que também fiquei excitado em saber até onde eles tinham ido e como a coisa tinha concluído. Fiquei tentando dizer pra ele o tempo inteiro que aquilo não tinha sido nada legal, na verdade era horrível. Anos depois, meu irmão se casou e foi pros Estados Unidos, a gente continuou durante muitos anos falando sobre esse incidente. Já estávamos distantes do acontecimento, nós dois sozinhos, foram algumas das ligações que a gente trocou falando sobre esse lado selvagem mesmo do homem, do ser masculino no mundo. Ele viu que tinha algo muito perigoso dentro de si. Um sujeito capaz de fazer coisas horrível e tinha que conviver com esse monstrinho que ele foi com alguém. Ele machucou muito alguém. Foi absolutamente impiedoso e cruel, agressivo mesmo.

Enfim, eu vi também um sujeito ser linchado na rua uma vez. Em mais de uma festa em que estive um grupo destruiu alguém na minha frente. No Cachalote apareceu essa cena e quando estava fazendo o Mensur eu vi que desenhei a mesma cena, com um grupo sentando o cacete em cima de um cara, esse cara consegue devolver alguns socos e fugir. Isso me marcou muito. Caralho, isso é masculino. Tá, mulheres também descem o cacete em outras mulheres, esse contexto também pode existir… É um mundo selvagem, que se expressa mais na história masculina. Então Mensur é toda uma reflexão sobre isso. Quando eu li sobre mensur me vieram imediatamente todas essas experiências aí. ‘Cacete, eu preciso falar sobre isso!’.

Mais uma vez, tudo parece dizer respeito à criação de regras para o cultivo e a prática de ódio e selvageria.

É. O Cultivo do Ódio do Peter Gay é basicamente uma reunião de relatos variados sobre como a agressividade humana se expressa socialmente no século XIX na Europa. Não só nas classes baixas, mas como na burguesia. Os jogos sociais criam essas bolhas onde a agressividade acontece. Aí o livro coloca também instantes em que o racismo se expressou abertamente sob momentos de agressividade e ódio social coletivo. É como a gente descobre esses aliases, essas desculpas mesmo, pra esse ódio se expressar. O Mensur é basicamente sobre isso.

Você já assistiu aquele filme com o Michael Cann dos anos 70, Rollerball, que é basicamente sobre esse esporte de um futuro não muito distante em que as pessoas basicamente se matam durante uma partida? É basicamente uma desculpa pra um sujeito assistir uma pessoa destruir outra. É dos anos 70 e é imenso o diálogo com o MMA também.

Sim. E existe também a coisa do ritual, que também é muito curiosa e um outro aspecto. Eu não sou a favor do mensur e nem dessa postura agressiva, mas é injusto resumir toda essa experiência ao simples fato de que “ah, são homens ou um grupo de pessoas buscando desculpas pra se agredir”.

No livro eles justificam a prática do mensur ressaltando bastante esse aspecto relacionada à suposta honra dos praticantes.

É um conceito também muito difícil, de fato, de acharmos todos os contornos hoje em dia. Na sociedade moderna não existe mais essa celebração da honra, é um conceito antigo que foi substituído por alguma outra coisa que eu não sei exatamente o que é. ‘Hombridade’, também é um conceito muito antigo. Mas ainda temos de alguma forma. Existe aquele famoso “seje homem, rapaz!” (falando mais alto).

São conceitos que estão cada vez mais deslocados no dia de hoje, não acha? O livro pra mim é muito sobre deslocamento. Pessoas fazendo coisas em contextos que não são esperados, práticas pouco convencionais e todos esses caras pregando uma hombridade máxima descontextualizada com o mundo em que estamos vivendo.

A própria condição do Gringo como um sujeito disposto a sempre fazer prevalecer a moralidade e a corretidão em uma época como a nossa, em que essas coisas são absolutamente desconectadas e sem sentido. “Ser homem” está conectado a sermos sujeitos viries e fodedores, não diz respeito ao caráter. Então eu fiz uma grande reflexão interna sobre esse sujeito desconectado que busca um tipo específico de moralidade. Como esse cara ia viver dentro dos múltiplos jeitinhos que encontramos? Das exceções à regra dentro dessa esfera dos costumes e da constituição do caráter? Como é que esse cara continuaria vivo? O que ele estaria sentindo?

Em nenhum momento ele parece estar à vontade e isso reflete no nome dele, né?

É…é verdade, eu não tinha pensado nisso (risos). Ele não consegue encontrar esse espaço dele. Em vários momentos no livro eu descobri que ele queria fazer parte de algo mais flexível, de uma moralidade mais flexível. Isso foi importante descobrir durante a produção: em quais momentos ele tentaria ser mais de boa com tudo e como ele não conseguiria. Isso eu fiquei lapidando durante muito tempo. Onde seria? No desconto que ele ia pedir em algum lugar, no atendimento da NET em que fosse pedir alguma coisa ou então no contato com alguém? Ou na própria palavra de alguém que disse que cumpriria algo que não iria conseguir. É um sujeito com dificuldade de entender as entrelinhas do que é acordado socialmente. Onde esses momentos iam ficar expressos e claros? Por que ele se muda tanto? O que acontece? Além disso eu queria muito que pseudo-práticas de mensur acontecessem no livro, onde um ritual de golpe na cara poderia existir.

Sim, há muitas cenas de duelos, principalmente de palavras e gestos. Como a cena do jantar com os amigos ou da vizinha que espera que ele estivesse por lá cuidando da mãe.

Sim. Ele também é incapaz de cumprir com a rigidez que ele se impõe e prega pro mundo.

Tem aquela cena no bar em que é um dos poucos instantes em que ele se solta um pouco. Tá meio bêbado e falando sozinho e chama uma moça pra dançar. Em um breve momento em que ele se solta acaba não sabendo como interagir com outras pessoas.

Durante muito tempo eu fiquei com dificuldade de aceitar essa cena. Será que ele faria isso? Será que ele se permitiria fazer isso dentro da doidera que ele é? Nesse momento do livro era importante deixar claro que era ele falando sozinho. Ele ensaiava na cabeça ser um cara mais de boa, quase como um ator em uma peça de teatro. Ele tenta ser mais de boa, mas não consegue. Foi difícil, porque eu não sou assim. Foi complicado enxergar pelos olhos do Gringo, foi complicado. Consigo enxergar os momentos em que essas situações sociais de exceção acontecem, mas pra mim é difícil enxergar como alguém não cede. Minha mãe é um pouco assim, minha mulher é um pouco assim. Eu sou meio o oposto.

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Pra mim, essa recusa de entrega está muito representada em tudo que não é dito. Eu gosto da cena do jantar na casa do Gordo pela várias trocas de olhares e feições muito específicas. Tá explícito que tem algo rolando ali que não entendemos direito. É quase teatral pelos movimentos e trejeitos de cada um.

Sim. Na verdade alguns filmes me nortearam enquanto eu fazia. Gosto muito dos filmes do John Cassavetes. Muitos deles me ajudaram a entender onde eu tava querendo chegar. Essa cena do jantar é muito cassaveteana pra mim. As conversas. Outro que me ferrou a cabeça na época que estava fazendo foi O Profeta do Jacques Audiard. Mexeu muito comigo isso do sujeito tendo de começar do zero na cadeia e falando sozinho. Tem algo ali entre o Gringo e menino do filme. Quais outras dimensões da nossa realidade mexiam com esses mesmos temas?

Também tinha a questão da sexualidade do Gringo, desculpa larguei o raciocínio da pergunta (risos). Aos poucos fui descobrindo que essa sexualidade dele também era fruto dessa dificuldade dura de se deixar abrir e que vinha de lá, quando ele começou a fazer os duelos. No jantar chega a ex-namorada…eu tô entregando muito do livro, as pessoas vão ler e vão ver a história toda (risos).

Queria retratar todas as dimensões dessa pessoa que eu era capaz de compreender, que poderiam ser afetadas por essa rigidez, e também em que medida o mensur era uma coisa absolutamente necessária pra ele, não só do ponto de vista moral. Ele procura por essa rigidez moral e no mensur ele encontrou um grupo que fez um juramento em torno de um ritual rigoroso e cheio de regras. Mas quais outros aspectos da vida dele também seriam influenciados por isso? A dificuldade dele se relacionar, a sexualidade dele não fica clara e a própria masculinidade dele. Eu acabei também questionando a respeito da minha masculinidade, o que constitui ela e até onde ela vai? Os meus desejos e como eu me comporto em grupos de homens, se eu me posiciono ou não, a favor ou contra, de X ou Y comportamento que acho merda ou legal. O que da masculinidade me atrai?

Tinha algo no Mensur que eu queria que existisse o tempo todo, algo acima do tesão sexual e acima da moralidade, algo que atrai o Gringo sem que ele consiga fugir. Não é que ele tá à vontade e o ritual é importante e simplifica todo o resto da vida e dá orientação, mas há uma atração física mesmo, talvez até sexual, mas física. Pelos relatos que eu li, o Jerome K. Jerôme foi um cara importantíssimo nas minhas leituras e ele conta relatos dessa época. Ele acha um ritual vazio de significado e burro, praticado por jovens burros, numa época em que as coisas estavam um pouco mais modernas. Ele diz que no primeiro duelo você estava enojado, no segundo você já não estava tanto e no terceiro sentia uma sede de sangue mesmo. Ele diz: “Você começa a ver tudo vermelho”. Ele fala do cheiro de sangue, carne e cerveja, álcool, todos os homens olhando praquilo e os golpes sendo desferidos. No começo você fica fisicamente avesso àquilo, seu corpo fica enrijecido, mas você quer sair dali. No segundo o seu olho já não desvia mais do golpe, você quer ver até o fim. É uma coisa selvagem mesmo, imagino que essa seja a palavra.

Muita gente expressa a mesma coisa em relação ao MMA.

Eu estudei MMA durante uma época, não fiz e não lutei, mas vi muita luta pro Mensur e comecei a ficar muito envolvido. Durante um período de um ano eu sabia o nome de todos os lutadores, acompanhava mesmo. Era o auge do Anderson Silva, também um lutador muito curioso. Mas também me sentia avesso àquilo tudo. Nunca acreditei nessa coisa de que é um esporte, é uma luta. Nunca acreditei que não é selvageria, pelo contrário. De fato, são pessoas treinadas, mas todas as pessoas que conheci e que começaram a lutar ou praticar algo relacionado a luta desenvolvem um radar interno. Nem que você não queira, acaba ficando eternamente de olho a situações de agressão ao redor de você, conjecturando a possibilidade de eventualmente entrar ali e resolver o assunto. Todas as pessoas, mesmo as mais racionais. Agora você tem artifícios, tem ferramentas, você conseguiria de fato entrar numa briga e quebrar o braço de alguém e resolver o problema. Uma pessoa está batendo na outra? Agora você tem a técnica, sabe que não precisa ir muito longe, pode simplesmente apagar o cara em três movimentos tranquilos. Até essa suposta tranquilidade de quem faz esse tipo de luta já me deixava bem ressabiado, assustado. Ouvi um amigo meu falando: “Se eu quisesse te apagava agora, Rafa”. Essa possibilidade é aterrorizante (risos). Putz, tem pessoas aí andando que consegue facilmente te matar com pequenos movimentos, porque treinam diariamente para isso. É autodefesa? Não importa. O sujeito tem artifícios capazes de resolver. É como ter uma arma em casa, não precisa usar, você pode ser o sujeito mais pacífico do mundo, mas você tem a possibilidade de pegar a ferramenta e acabar com a vida de alguém. Enfim, me perdi. Mensur foi sobre todas essas reflexões, até onde a agressividade humana pode ir nos tempos modernos, atuais.

Mas não apenas sobre isso, também trata de vícios, né? Do Gringo acordar diariamente e ver na sombra de um lustre uma espada e querer pegar aquele objeto.

Algo absolutamente fisiológico. No caso dele começa a brincar com o que é real e o que não é. Você vê as coisas distorcidas. “Será que o que eu estou vendo é de fato real?” É uma pessoa que passa muito tempo sozinha, procurando alguma coisa que absolutamente não está lá, fugindo de um fantasma, com esse radar interno pra agressão, ligado para as cicatrizes das pessoas, no ônibus e nas ruas.

Na construção do roteiro e do personagem eu também fiquei muito tempo tentando fugir dos clichês. É muito fácil cair em lugares comuns nesse tipo de reflexão. Sei lá, chutando aqui de bate-pronto, “homens que fazem Jiu-jitsu são todos homossexuais enrustidos que ficam se roçando um no outro”, isso é um cliché totalmente deturpado e fácil, bobo. Claro que não é isso. Talvez exista uma pulsão sexual em tudo que a gente faz. Comer é um momento sexual, dormir é um momento sexual, mas é muito mais do que isso. Eu queria achar no enredo esses momentos não-fáceis, em que não fico só entregando um sujeito machista num ritual machista, celebrando uma agressividade absolutamente machista e descabida, expondo as mazelas do mundo masculino… Eu não tinha nenhum interesse nisso. Ao mesmo tempo que eu também não queria que o livro fosse uma exaltação sobre a agressividade, a celebração da agressividade. Ele tinha que existir nesse lugar mais delicado. O protagonista tinha que ser, pra mim, uma representação dessas múltiplas facetas da agressividade dentro da vida de alguém.

Eu quero muito que o leitor siga com o livro até o fim sem saber se o Gringo matou ou não aquela pessoa que morreu no começo. Mas eu estou totalmente entregando o livro agora para os seus leitores (risos). Eu lembro de uma entrevista com o Galera. Como ele é incrível e maravilhoso, consegue dar uma entrevista inteira sobre um livro sem contar nada da história. Eu tô aqui dizendo tudo, que o cara faz isso e aquilo (risos).

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