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Entrevistas / HQ

Papo com Fábio Moon e Gabriel Bá, os autores de Como Falar com Garotas em Festas: “Existe um lirismo na aquarela, uma leveza, uma poesia que combina com a história”

Escrevi pra edição mais recente da Rolling Stone sobre Como Falar com Garotas em Festas HQ dos gêmeos Fábio Moon e do Gabriel Bá que adapta o conto homônimo do escritor Neil Gaiman e foi lançada no Brasil pela Companhia das Letras. Acho linda a arte da HQ, principalmente as cores, e gosto como os dois quadrinistas brasileiros administraram o conteúdo do enredo concebido pelo autor de Sandman, mantendo quase integralmente o texto original. Recomendo uma lida no gibi e também na minha matéria – atualmente nas bancas e em breve no site da revista. Depois volte aqui pra ler a íntegra da minha entrevista com Moon e Bá.

Na conversa os dois contaram como Gaiman só deu o aval pra adaptação após a leitura de Daytripper, eles falaram sobre o processo de adaptação do texto pro formato de HQ, o diálogo entre o conto e os temas de seus primeiros trabalhos e a semelhança entre a história do álbum e a clássica Fadas e Bruxas da Laerte. Ó:

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Vocês poderiam contar um pouco como surge esse projeto? Foi uma iniciativa de vocês? Como foi a interação entre vocês e o Neil Gaiman?

Fábio Moon: Todas as adaptações que fizemos até agora foram convites das editoras, e essa não foi diferente. A Diana Schutz, editora da Dark Horse, que editou nosso primeiro livro por lá (o De:TALES, lançado em 2006), nos escreveu nos convidando para adaptar esse conto. Estávamos afundados na produção do Dois Irmãos, nem cogitando fazer outra adaptação, mas o Neil Gaiman é um dos nossos autores favoritos e a chance de trabalhar com um conto dele, com uma temática que tem muito a ver com a sensibilidade das histórias que a gente gosta de contar, era irrecusável.

Gabriel Bá: O Neil Gaiman ia acompanhando todo o processo, a gente ia mandando para ele e pra Diana o roteiro, as páginas, mas eles nos deram liberdade para fazer a nossa versão, a nossa leitura. Eles tinham que aprovar tudo, mas o trabalho foi todo nosso.

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O texto do quadrinho é muito fiel ao original do Gaiman. Vocês trabalharam com um roteiro? Chegaram a conversar com o Neil Gaiman como seria essa versão em quadrinhos?

Fábio Moon: Acho que podemos dizer que todas as nossas adaptações são fieis aos originais. Só adaptamos histórias e autores que gostamos, então queremos manter o que achamos mais legal do original na nossa versão. O mais legal do texto do Neil Gaiman foi mantido: o ritmo da escrita, os diálogos, o jogo de palavras, tudo o que ele faz melhor do que ninguém. Não chegamos a conversar com o Neil Gaiman sobre como construir a adaptação, pois acho que ele já confiava no nosso trabalho. Ele ajudou mandando umas fotos de quando ele tinha a idade dos moleques, na época em que se passa a história, pra nos ajudar a compor o personagem principal.

Gabriel Bá: Fizemos o roteiro da mesma maneira que aprimoramos no Dois Irmãos, com rascunhos das páginas sendo feitos ao mesmo tempo em que o texto final era escrito, então o roteiro é uma mini-versão da história, um roteiro visual, desenhado. Não faz sentido pra gente descrever o que nós vamos desenhar, então o roteiro desenhado funciona melhor, já dá uma noção do tamanho dos quadros, do enquadramento, do ritmo de leitura na página.

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Essa não é a primeira adaptação de vocês. Há muita diferença entre adaptar um romance como o Dois Irmãos e O Alienista e um conto curto como esse do Gaiman?

Gabriel Bá:
Adaptar essa história foi um processo mais parecido com o do Alienista, que também era um conto, então pudemos manter quase todo o texto e expandir a história visualmente. No caso do conto do Neil Gaiman, não tínhamos um limite de número de páginas, como no Alienista, e isso nos possibilitou trabalhar melhor a narrativa e o ritmo visual da história, mas o trabalho de pesquisa e de adaptação do Dois Irmãos foi muito mais complexo, pois a história, além de mais longa, era muito mais complexa.

Fábio Moon: Toda adaptação envolve transformação, escolher trechos e palavras que se tornarão imagens. Acho que aprendemos muito com as adaptações anteriores, e esse processo de apropriação e reimaginação da história estava bem mais refinado quando trabalhamos a história do Neil.

Como vocês chegaram nessas cores que predominam ao longo da HQ?

Gabriel Bá: Fazer o livro colorido com aquarela foi uma sugestão da Diana. Ela viu nosso livro sobre São Luís para a coleção Cidades Ilustradas, todo colorido com aquarela, e nos propôs já no convite fazer uma história inteira dessa maneira. Existe um lirismo na aquarela, uma leveza, uma poesia que combina com a história, combina com essa sedução pela pessoa desconhecida, e então pensamos a história já com a aquarela na cabeça.

Fábio Moon: A história se passa nos anos 70, e fazer um livro todo colorido à mão numa época onde quase todos os quadrinhos são coloridos no computador ajuda a dar uma outra cara para o nosso livro, nos transporta para essa época onde tudo numa HQ era feito à mão. Abraçamos essa ideia e inclusive os balões e as letras são feitas manualmente, direto na página (embora acabamos fazendo uma fonte da minha letra para poder usar em versões internacionais).

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Alguns dos trabalhos iniciais de vocês na 10 Pãezinhos eram sobre relacionamentos, romances e jovens apaixonados como no Como Falar com Garotas em Festas. Vocês viram algum diálogo entre esse trabalho e essas obras mais do início da carreira de vocês?

Fábio Moon: Como eu falei, a Diana editou nosso primeiro livro na Dark Horse, e ele era justamente uma coletânea dessas histórias. Ela inclusive propôs para o Neil Gaiman na época, 2006, sobre a possibilidade daqueles dois gêmeos fazerem a adaptação do conto, mas o Neil não ficou entusiasmado. Depois que a gente fez o Daytripper, ficou mais fácil mostrar do que a gente era capaz, e o Neil Gaiman viu que seu conto estava em boas mãos. Só depois que ele aceitou é que ela nos fez o convite, e só depois que terminamos a adaptação ela nos contou essa história.

Gabriel Bá: Essa temática do relacionamento sempre nos interessou, e acreditamos que é o tipo de coisa que pode ser muito bem trabalhada em Quadrinhos, escolhendo o close certo, a troca de olhares, a intimidade da leitura que seduz o leitor. Além disso, vimos nessa história uma semelhança com uma história do Laerte, chamada Fadas e Bruxas, que também foi muito importante na nossa descoberta do potencial dos Quadrinhos. Vimos nessa adaptação uma chance de tratar de um tema que nos é querido, trabalhando a partir do conto de um autor que admiramos e ainda criando um diálogo visual com outro autor que, como o Neil Gaiman, foi fundamental na nossa formação como Quadrinistas.

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Vocês já assistiram ao filme com a Elle Fanning?

Fábio Moon:
Já vimos sim, mas só depois de terminar o nosso livro.

Gabriel Bá: Curiosamente, nossas duas últimas adaptações – este livro e o Dois Irmãos – foram adaptadas também para obras audiovisuais, mas ambas por pura coincidência, sem relação alguma com nosso trabalho. No entanto, mostra o potencial de boas histórias de quebrar barreiras de linguagens, além de mostrar as diferenças que cada linguagem pode oferecer para a história.

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Entrevistas / HQ

Papo com Chester Brown, o autor de Maria Chorou aos Pés de Jesus: “Muito do que Jesus disse soa contraditório”

Antes de tudo, leia Maria Chorou aos Pés de Jesus – Prostituição e Obediência Religiosa na Bíblia, o mais recente trabalho do quadrinista Chester Brown publicado em português. A obra lançada no Brasil pela editora WMF Martins Fontes defende a ideia de que histórias do Velho e do Novo Testamento e parábolas narradas por Jesus pregam a prostituição como uma profissão nobre e que Deus prefere seguidores que o questionem a fiéis fundamentalista. E sim, a HQ também aponta indícios de que Maria, mãe de Jesus, seria uma prostituta.

Depois de lido o quadrinho, recomendo a leitura da minha matéria sobre a obra no UOL. Eu entrevistei o autor da HQ e expliquei um pouco dos conceitos explorados por Brown e as ideias defendidas por ele. As 292 páginas em preto e branco do título não são irônicas ou satíricas em relação às escrituras bíblicas, mas sempre fiéis ao texto original, sempre em prol da defesa dos argumentos do autor.

Por fim, depois de lida a HQ e o meu texto, volte aqui, invista na entrevista a seguir e tire suas próprias conclusões. Um dos pontos do quadrinista é exatamente que as palavras de todas as pessoas devem ser avaliadas e interpretadas, sejam as dele ou as de Jesus. “Acreditar que tudo que ele disse é útil é o caminho para uma estrada de erros”, diz o artista. Com vocês, Chester Brown:

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Você lembra do momento em que teve a ideia de criar o livro e de explorar esses conceitos que explorou no quadrinho?

Há dois pontos de partida para o livro.

Eu tinha lido The Illegitimacy Of Jesus da Jane Schaberg nos anos 80, logo depois que foi publicado. A Schaberg percebeu essa natureza estranha da genealogia de Jesus contida do Evangelho de Mateus. É estranha por incluir o nome de cinco mulheres e genealogias antigas raramente mencionam mulheres. Havia quatro mulheres nas escrituras hebraicas e a quinta era a mãe de Jesus, Maria. A genealogia também é estranha porque as quatro mulheres nessas escrituras também eram “más”. Eram mulheres que “se comportaram mal”. Duas delas eram prostitutas e duas “agiram como prostitutas”. A Schaberg argumenta que as quatro mulheres estavam nessa genealogia para indicar algo sobre a quinta mulher, Maria. Eu concordo com a Schaberg que algo estava sendo indicado sobre a Maria, mas eu discordo em relação a que seria esse indício. A Schaberg acha que essa genealogia indica que a Maria foi estuprada. Mas nenhuma das outras quatro mulheres foram estupradas. Para mim parecia óbvio que a genealogia está apontando que a Maria era uma prostituta ou, no mínimo, havia feito sexo em troca de um benefício material.

Eu queria fazer um livro sobre esse assunto há muitos anos, mas não sabia como. Não me soava interessante criar uma história fictícia sobre como a vida de Maria teria sido se ela fosse uma típica prostituta judia trabalhando no primeiro século.

Então em 2014 eu estava lendo um livro do John Dominic Crossan sobre as parábolas de Jesus e ele mencionou essa versão alternativa, antiga, não-bíblica, de uma dessas parábolas – a Parábola dos Talentos. Parecia para mim que essa versão alternativa indicava que Jesus via prostituição como socialmente benéfica. Eu quis imediatamente adaptar essa versão da parábola. Então eu percebi como a postura de Jesus em relação a prostituição é coerente com as evidências presentes na genealogia do Mateus de que Maria havia sido uma prostituta e o livro surgiu na minha cabeça em um intervalo de poucos dias: uma sequência de adaptações bíblicas. Eu fiquei muito empolgado e foi difícil me conter.

Eu queria saber sobre a sua formação cristã. Você se lembra do momento em que a Bíblia e a Igreja Católica passaram a fazer parte da sua vida? Como você passou a se interessar por esses tópicos religiosos?

Eu fui criado como Protestante e os meus pais eram fiéis fervorosos. Em meio às minhas memórias mais antigas estão as nossas idas à igreja todo domingo. A minha mãe lia histórias da Bíblia constantemente para mim e para o meu irmão quando éramos crianças. Então o cristianismo e seus textos sempre fizeram parte da minha vida – nunca houve um ponto de partida específico.

Eu me lembro do momento em que comecei a duvidar das histórias bíblicas. Eu tinha cerca de 10 anos, talvez 12 anos, e encontrei uma cópia do livro The Passover Plot do Hugh Schonfield. Esse livro propõe que Jesus arrumou uma forma de ser drogado na cruz para que ele parecesse estar morto e evitasse morrer na crucificação. Aquela história fazia mais sentido para mim do que a história que os meus pais aparentemente acreditavam, que Jesus morreu na cruz e milagrosamente retornou dos mortos. Esse conhecimento tanto me perturbou quanto me deixou empolgado e aprofundou ainda mais o meu fascínio no Cristianismo.

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E qual é a memória mais antiga que você tem de quadrinhos na sua vida?

A minha mãe comprou para mim a edição de junho de 1966 do Batman, eu tinha 5 ou 6 anos. (Eu nasci em meio de 1960 e esses periódicos saiam antes da data indicada na capa). Eu já gostava das tirinhas publicadas em jornais, mas quando descobri que havia publicações inteiras destinadas e quadrinhos longos passei a querer ainda mais essas edições.

Como você chegou a essas histórias específicas que acabaram sendo adaptadas para confirmar a tese do livro?

Como eu expliquei, os dois pontos de partida da minha crença em relação à genealogia de Jesus estão nos indícios do Evangelho de Mateus de que Maria seria uma prostituta e nessa versão alternativa da Parábola dos Talentos. Então decidi fazer adaptações dessas histórias sobre mulheres “más” apresentadas por Mateus, assim como incluir um capítulo sobre a mãe de Jesus e adaptar essa versão alternativa da Parábola dos Talentos. Eu percebi como eram semelhantes essas versão da Parabola com a Parábola do Filho Pródigo, aí decidi adaptar essa história, já que vi como mais um argumento para a minha interpretação da postura de Jesus em relação a prostituição. Depois veio à minha mente a ideia de que Jesus foi ungido pela prostituta Maria Betânia. Como a palavra cristo significa “aquele que foi ungido”, Jesus foi feito cristão por uma prostituta – uma ideia me passou a soar muito importante em meio às outras conexões que estava fazendo. Então eu incluí um capítulo sobre a unção.

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Eu queria saber mais sobre os seus desenhos no livro. São ilustrações muito cartunescas e você sempre respeita um grid muito definido. Há alguma justificativa especial para essa estética?

Essa técnica mais cartunesca é apenas o meu estilo natural de desenho. Eu tenho pouco interesse em desenhos realísticos. Os meus quadrinistas preferidos são aqueles que desenham com esse estilo mais de cartum.

No começo dos anos 80 eu estava lendo os quadrinhos do Harold Gray pra Aninha, A Pequena Órfã e eles eram muito atraentes, mesmo que Gray fizesse uso de um gride com painéis com o mesmo formato. Naquele momento eu compreendi que mudar o tamanho do painel não fazia diferença na experiência de leitura. Às vezes, layouts ousados de painéis podem até confundir o leitor. Então passei a fazer uso desse layout fixo de painéis para os meus quadrinhos.

Fundamentalistas religiosos sempre foram um problema no mundo, mas parece que vivemos em um período em que eles estão particularmente ativos. Você vê muita discrepância entre a sua leitura de Deus e a deles?

Muito do que Jesus disse soa contraditório. O John Dominic Crossan acredita que Jesus começou como um pregador raivoso e apocalíptico (seguindo o caminho de João Batista) e, em um determinado momento, por razões desconhecidas (talvez alguma experiência de “iluminação”), ele mudou sua atitude e começou a pregar sobre um Deus amoroso e misericordioso. Essa explicação faz sentido para mim. A quais pregações cada pessoa responde depende da forma como cada um vê o mundo. Você é intolerante e julga as outras pessoas? Então o Jesus apocalíptico vai ter mais apelo para você. Você é mais aberto e aceita as outras pessoas? Então o Jesus mais espiritual e amoroso vai responder melhor para você.

Fundamentalistas não querem aceitar que as ideias de Jesus provavelmente mudaram com o passar do tempo e ficaram mais profundas. Eles tentam conciliar o irreconciliável e dão o mesmo valor a tudo que ele disse. Na minha opinião ele ficou extremamente sábio, mas ele não começou dessa forma e no começo disse algumas coisas bem estúpidas. É preciso avaliar suas palavras, assim como é preciso fazer isso com as palavras de qualquer pessoa. Acreditar que tudo que ele disse é útil é o caminho para uma estrada de erros.

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Assim como Pagando por Sexo, Maria Chorou aos Pés de Jesus foi alvo de algumas controvérsias. Qual dos dois livros você acha que gerou mais polêmica?

As críticas foram mais pesadas com o Pagando por Sexo, pelo menos nas resenhas em inglês que eu li. As pessoas constantemente interpretam esse livro como se eu estivesse advogando de forma cínica pelos direitos das prostitutas por eu estar me beneficiando como alguém que paga por sexo. Como eu fui muito sincero em relação às minhas crenças religiosas em Maria Chorou, as pessoas talvez possam achar que estou escrevendo do coração. Elas podem acreditar que as minhas interpretações sejam improváveis ou erradas, mas a minha sinceridade é mais óbvia nesse livro.

Você vê muitas semelhanças entre as críticas que recebeu por conta de cada um dos livros?

Não. As críticas foram muito diferentes para os dois livros. No Pagando por Sexo os críticos estavam na maior parte utilizando o livro como uma desculpa para expressar suas opiniões em relação a prostituição e eventualmente ignorando o que eu escrevi. No Maria Chorou os críticos ficaram mais envolvidos com as ideias que eu estava apresentando, mesmo que discordassem delas.

Há alguma outra adaptação bíblica para os quadrinhos que te influenciou de alguma forma?

A melhor adaptação em formato de quadrinhos que eu conheço é o Gênesis do Robert Crumb, um feito magnífico. Com certeza me influenciou.

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A última! Você poderia recomendar algo que está lendo, assistindo ou ouvindo no momento?

Uma graphic novel publicada aqui no Canadá no início do ano: The Journal of The Main Street Secret Lodge do Steven Gilbert. A princípio é só uma história simples de um bom advogado enfrentando alguns criminosos em uma cidade canadense pequena no final do século XIX, mas o Gilbert enche a história de humor e pungência como raramente se vê nos quadrinhos.

Uma coleção de tiras publicada no ano passado: Underworld – From Hoboken to Hollywod do Kaz. Diversão bem descontraída.

Eu estou esperando ansioso pelo próximo livro da Byron Katie, A Mind At Home With Itself. A Katie é a pessoa mais sábia do planeta. Se você quer aprender como viver, leia os livros dela.

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Entrevistas / HQ

Papo com Jeff Lemire, o autor de Condado de Essex: “O local e a cultura em que nascemos está intensamente marcada em cada um de nós”

As 512 páginas em preto e branco de Condado de Essex chegam ao Brasil quase 10 anos após o lançamento do primeiro dos três livros que compõem o álbum de Jeff Lemire. Transformado em um dos capítulos da versão completa publicada em português, Contos da Fazenda chegou às lojas especializadas da América do Norte em 2008. Os dois livros seguintes, que fecham a trilogia e o completam a publicação da Mino, saíram até 2009. Desde então, Lemire se tornou um dos grandes nomes do mercado norte-americano de quadrinhos. Seu principal feito está em conciliar seus trabalhos autorais com obras mais comerciais produzidas para gigantes como Marvel e DC Comics sem jamais perder seu estilo pessoal.

“Eu soube desde cedo que não conseguia desenhar nada em um estilo foto-realístico e que a minha força como artista estava na minha habilidade de expressar emoções e sensações”, resume o quadrinista em relação ao ponto forte de seu trabalho. Tanto em O Soldador Subaquático quanto em Sweet Tooth, o principal mérito de Lemire está exatamente em sua capacidade de expor os sentimentos de seus personagens. Em Condado de Essex isso é explicitado na construção de personagens como o jovem Lester e os demais moradores da região, como Lou LeBeuf, Anne Quenneville e o tio Ken em tramas sobre memória, luto e família.

Bati um papo com Lemire sobre as origens de Condado de Essex e também falamos sobre a relação das pessoas com os locais em que foram criadas, o peso do escapismo nas HQs de super-heróis, o desenvolvimento do filme de O Soldador Subaquático e as mudanças no traço e no estilo de quadrinho dele ao longo dos anos. Papo massa. Ó:

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Condado de Essex chega ao Brasil quase 10 anos após a publicação do primeiro capítulo da série. A obra trata de um garoto de uma cidade fria do Canadá e também sobre hóquei. O livro não poderia ser mais distante da realidade brasileira, mas mesmo assim saiu em português. Enquanto você produzia a HQ chegou a pensar em como essa história poderia ser universal?

Eu não fazia ideia! Eu nem mesmo imaginava que chegaria a ser publicado em inglês. Honestamente, era um momento em que eu fazia quadrinhos apenas para mim. Eu estava buscando a minha voz como quadrinista naquela época. Às vezes eu penso que quanto mais específica for uma história mais universal ela pode se tornar. E essa era uma história muito específica sobre o lugar no qual eu cresci. Ao mesmo tempo, é óbvio, fico muito emocionado com o sucesso de Condado de Essex e como pessoas do mundo todo estão tendo a oportunidade de ler o quadrinho.

Ainda sobre as origens do livro, você se lembra do momento em que teve a ideia de contar essa história?

Antes de fazer o Condado eu passei quase cinco anos fazendo todos os tipo diferentes de quadrinhos, muitos deles não eram muito bons. Eu estava apenas tentandovários tipos de estilos e histórias, tentando experimentar e me encontrar como um autor.

Em algum momento eu dei um passo atrás e decidi que precisava ser mais honesto e sincero e eu precisava contar uma história. Nessa época eu já estava morando na cidade, em Toronto, por mais ou menos uma década e já conseguia olhar para o local em que cresci com certa perspectiva e aí a história começou a surgir para mim.

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Condado de Essex trata das memórias de um lugar e como as histórias desse local podem influenciar todos os seus habitantes. Você vê muito impacto dos lugares em que vivemos na definição de quem somos?

Eu acredito que eles sejam incrivelmente importantes. O local e a cultura em que nascemos está intensamente marcada em cada um de nós, mesmo que nós nos mudemos e passemos a morar em outros locais eu acredito que o local em que vivemos os nossos primeiros anos e a juventude tem um impacto imenso.

Um dos focos do livro está na relação dos personagens com hóquei. Imagino que o esporte tenha para vocês, canadenses, uma relação parecida com a nossa com o futebol. Qual importância do hóquei na sua vida? Há algum significado mais profundo nessa relação entre canadenses e hóquei no livro que talvez só seja compreensível para vocês?

Eu acho que essa é uma ótima comparação entre hóquei e futebol. É um esporte que tem um peso imenso na nossa cultura aqui. Eu cresci jogando hóquei, comecei quando tinha uns sete anos. Na verdade ainda jogo. A história do esporte era algo que me interessava muito quando escrevi o Condado de Essex. Me pareceu um ótima ideia criar um paralelo entre a história do lugar com a história do esporte e com as diferentes “famílias” que possuímos… Parentes de sangue e companheiros de equipe.

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Outro tópico importante no livro é a relação entre os personagens com super-heróis. Não quadrinhos, mas super-heróis, um conceito muito ligado à cultura norte-americana. Super-heróis foram muito importantes na sua infância?

Eles forma extremamente importantes para mim. Eles eram o meu escape e a coisa que mantinha a minha imaginação ativa quando criança. Eu cresci desenhando quadrinhos de super-heróis e copiando as ilustrações que mais gostava deles. O quadrinho que o Lester desenha em Condado de Essex era um dos meus desenhos feitos durante a infância. Eu ainda amo super-heróis e gosto de explorar diferentes aspectos deles nos meus trabalhos recentes para a Marvel e para a DC e também na minha série, Black Hammer.

Tanto em O Condado de Essex quanto em Sweet Tooth as histórias são apresentadas na maior parte do tempo a partir de perspectivas infantis. É interessante pra você colocar crianças como protagonistas?

Eu amo escrever personagens que sejam crianças. Eu acho as vozes delas muito fáceis de serem encontradas. E amo a imaginação farta que elas possuem. Eu também acho que as crianças sentem tudo de forma muito mais intensa que os adultos. Tudo tem um peso maior e mais importante quando você é criança. Eu amo investir nessas sensações de encantamento, inocência e mistério.

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O seu traço é muito particular e característico. Você vê muita mudança nele desde o lançamento de Condado de Essex? Aliás, você acha que tem um estilo de desenho? Se sim, como o define?

O meu estilo é muito particular. Eu soube desde cedo que não conseguia desenhar nada em um estilo foto-realístico e que a minha força como artista estava na minha habilidade de expressar emoções e sensações ao invés de realismo. Então eu aceitei e abracei essa ideia. Eu acho que o meu estilo evoluiu muito desde Condado de Essex. Hoje eu estou colorindo todas as minhas artes, dando um aspecto ainda mais orgânico ao meu trabalho.

É difícil para você adaptar o seu estilo entre seus trabalhos mais autorais e obras para editoras mais comerciais como Marvel e DC?

Quando eu comecei a escrever para outros artista eu lutei muito para levar o meu próprio estilo para esses trabalhos porque os meus desenhos e o meu estilo de ilustração tinham um peso grande no que eu fazia. Mas com o passar dos anos eu fui ficando cada vez melhor em me colocar no trabalho de outras formas. É claro, os trabalhos em que desenho serão sempre mais pessoais do que aqueles em que não desenho. Eu apenas entrego mais de mim quando desenho. Mas também tenho melhorado em me colocar em outros trabalhos.

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Como anda a adaptação de O Soldador Subaquático para o cinema? O roteiro já está pronto? Há algum cronograma da produção?

Não há muita coisa para contar. Hollywood tem um ritmo muito lento quando comparada com os quadrinhos. Tudo o que posso dizer a esse ponto é que o Ryan Gosling e seus sócios da Waypoint Entertainment compraram os direitos do livro e estão trabalho no desenvolvimento da adaptação.

Você está trabalhando em algum livro novo no momento? Você pode falar um pouco sobre ele?

No momento eu estou escrevendo e desenhando uma série chamada Royal City. Praticamente uma continuação de Condado de Essex em muitos aspectos. Trata de família, luto e memória.

Você pode recomendar alguma coisa que esteja lendo, ouvindo ou assistindo no momento?

No momento eu estou obcecado com os livros do Haruki Murakami e com a mais recente temporada de Twin Peaks!

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Entrevistas / HQ

Papo com Derf Backderf, o autor de Meu Amigo Dahmer: “O que me fascinava era a espiral descendente. Por que e como ele se torna um monstro”

O quadrinista Derf Backderf é honesto e impiedoso ao narrar a história de sua amizade com o serial killer Jeffrey Dahmer nas 288 páginas em preto e branco do excelente Meu Amigo Dahmer. O álbum marca a estreia do selo de quadrinhos da editora Darkside Books e constará em várias listas de melhores HQs publicadas no Brasil em 2017. Eu conversei com o autor do quadrinho e escrevi sobre a obra pra edição de agosto da revista Rolling Stone.

“Assim que o Jeff começa a matar, ele se torna apenas mais um fanático sem graça para mim e eu perco todo o interesse”, me disse Backderf. O quadrinista trabalhou como consultor na aguardada e já elogiada adaptação de seu trabalho para o cinema, dirigida por Marc Myers e ainda sem previsão de estreia por aqui. Conversamos sobre seus métodos para a produção do gibi, seu relacionamento com Dahmer e seu envolvimento na versão para o cinema. Recomendo uma lida na minha matéria pra Rolling Stone e logo em seguida a íntegra da entrevista. Ó ela aqui:

“Todo mundo fracassa: os pais dele, os professores, a direção da escola, os policiais, os amigos dele e o próprio Jeff”

Meu Amigo Dahmer está saindo no Brasil cinco anos após ser publicados nos Estados Unidos. O livro conta a história de um serial killer, é protagonizado por um garoto de uma cidade pequena e muito fria de Ohio. A atmosfera do livro não poderia ser mais diferente da realidade brasileira, mas o livro está sendo lançado aqui e já saiu em outros países. Enquanto você produzia Meu Amigo Dahmer tinha em mente como essa história poderia ser tão universal? 

Para ser mais preciso, ele foi publicado em nove línguas. Sim, isso foi uma imensa surpresa. Eu sabia que o livro seria um sucesso nos Estados Unidos, mas não tinha ideia que seria tão popular em tantos países.

Em todos os livros que escrevo eu busco por personagens e temas que tenham algum tipo de apelo universal, algo com que o leitor possa se relacionar. No caso de Meu Amigo Dahmer é esse garoto estranho e deslocado e como ele é tratado pelos adultos e pelas outras crianças. Eu ouço o tempo todo dos leitores, ‘Wow, eu conheci um garoto IGUAL ao Jeff quando estava no Ensino Médio’. Então mesmo alguém tão bizarro como o Dahmer se torna uma pessoa com quem um leitor pode se identificar. Acho que esse é o cerne do livro.

O foco do livro está no Dahmer e no contexto em que ele vivia. Você não parece fascinado pelos crimes cometidos por ele ou por suas ações como serial killer. Ao mesmo tempo, as pessoas são fascinadas por morte, crimes e criminosos. Qual você acredita ser a razão do fascínio por esses temas?

Eu não faço ideia! Eu não entendo especialmente fãs de serial killers, mas há VÁRIOS deles por aí. Eu suspeito que seja apenas um conceito abstrato para eles, como zumbis ou vampiros. Para mim, no entanto, é tudo muito real.

Assim que o Jeff começa a matar ele se torna apenas mais um fanático sem graça para mim e eu perco todo o meu interesse nele. O que me fascinava era a espiral descendente. Por que e como ele se torna um monstro. Eu realmente continuo sem saber o motivo dele se tornar esse monstro, mas eu documentei o processo.

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No making-of do livro há essa cena extra em que você registra a sua reação ao ser informado dos crimes do Dahmer. Imagino a surpresa que você e seus amigos tiveram, mas o livro trata da sua relação com o Dahmer. Durante as suas pesquisas, houve alguma memória ou fato em particular que também te surpreendeu?

Eu fiquei surpreso como eu e meu amigo estávamos próximos daquele primeiro assassinato. Em determinado momento estávamos apenas alguns metros de distância. Isso foi um choque. Eu perdi algumas noites de sono quando conclui isso. Eu também fiquei surpreso em relação a como eram poucas as interações do Jeff com os meus colegas de sala. Eu entrevistei provavelmente 50 pessoas e a resposta mais comum foi “eu nunca falei com ele”. Nenhuma interação e algumas dessas pessoas foram pra escola com ele durante 10 anos! Isso explicitou como ele era isolado. Eu e os meus amigos eramos a única conexão social que ele tinha.

O que mais me assusta no livro é como os problemas dele pareciam explícitos e ninguém faz nada para ajudar de alguma forma. É inútil pensar “o que poderia ter acontecido se…”, mas você já pensou no que deu errado? Não me refiro apenas a você e a todos vocês ao redor do Dahmer, mas em relação à sociedade?

Com certeza. Meu Amigo Dahmer é uma história de fracassos. TODO mundo fracassa: os pais dele, os professores, os administradores da escola, os policiais, os amigos dele e o próprio Jeff, que fracassa da forma mais espetacular que alguém pode fracassar.

Como pessoas como o Jeff sempre aparecem na América de tempos em tempos, sejam serial killers ou atiradores, eu diria que não aprendemos nada ao longo dos últimos 40 anos. No caso do Dahmer, eu acredito que ele poderia ter sido controlado caso pelo menos um adulto tivesse notado alguma coisa e conseguido ajuda. Ele jamais teria sido ‘normal’. Talvez ele tivesse acabado dopado de medicamentos ou em um sanatório para o resto da vida. É um destino que ele teria escolhido com prazer e 17 pessoas não teriam sido assassinadas de maneira brutal. Essas são coisas que vale a pena conversar sobre e refletir a respeito.

“Desde o começo eu sentia que precisava escrever essa história com uma honestidade brutal”

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A maior parte do livro é ambientada dentro da sua escola. É um lugar com muita gente, muitos grupos, muitos bullies e muitas vítimas de bullying. Apesar de você deixar claro os motivos que fizeram do período retratado no livro uma exceção em termos de quantidade de alunos, não sei se é tão diferente assim da maior parte das escolas públicas dos dias de hoje. Você ainda vê o sistema educacional muito problemático no nosso presente?

Era uma escola de cidade pequena. Não acho que recebi uma educação muito boa lá, mas também não foi uma educação ruim. Lembre-se que estamos falando de 45 anos atrás, então muita coisa mudou. No geral, eu diria que os americanos hoje são ainda menos educados. Isso é bem óbvio.

Algo singular de Meu Amigo Dahmer é que todo mundo sabe como termina a jornada do protagonista. O seu principal trabalho era de desconstruir o Dahmer. Foi difícil pra você não cair em possíveis armadilhas maniqueístas em relação à personalidade do Dahmer?

É verdade, todo mundo sabe como a história acaba. Mas Meu Amigo Dahmer é uma história surpreendente porque nunca chegamos nesse final. A história para no dia que ele mata sua primeira vítima. Quando os leitores chegam naquela última página eles descobrem que leram uma história muito diferente daquela que achavam que iriam ler. Esse era o objetivo. Eu gosto de surpreender as pessoas. Não é uma luta do bem contra o mal. É a luta do Dahmer tentando desesperadamente se prender à sua humanidade contra uma loucura crescente.

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É impressionante como você é impiedoso com você e seus amigos ao retratar a relação de vocês com o Dahmer. Como todo mundo no livro, vocês também fracassaram em perceber como era problemática a vida dele e como ele precisava de ajuda. Foi difícil se colocar nessa posição?

Na verdade não. Desde o começo eu sentia que precisava escrever essa história com uma honestidade brutal. Eu e os meus amigos com certeza não éramos heróis, mas não conheço muitas pessoas de 17 anos que sejam. Éramos apenas garotos ingênuos de uma cidade pequena. Todo nós temos arrependimentos, claro. SE soubéssemos o que realmente acontecia na cabeça do Jeff e toda a carnificina que estava para acontecer, é claro que teríamos agido. Mas não sabíamos, então há arrependimento, mas não há culpa. A pergunta que sempre faço é: onde estavam os adultos?

Como você definiu a estética do livro? Li alguns dos seus outros trabalhos e Meu Amigo Dahmer parece de alguma forma mais limpo e objetivo, com pouco espaço para liberdades criativas, sendo tudo mais focado no storytelling. Foi difícil pra você chegar nesse formato?

Eu levei 18 anos para acabar o livro, então diria que sim, foi difícil! Eu comecei a fazer livros muito tarde na minha carreira. Eu tinha 50 anos quando concluí o meu primeiro. Antes disso eu tinha feito uma série de tiras e cartoons políticos, que exigem habilidades muito diferentes. Demorei um pouco para aprender como fazer histórias longas e desenvolver as habilidades necessárias de desenho.

Como foi seu envolvimento na produção do filme? Você já assistiu?

Eu tive pouco envolvimento. Eu escolhi o diretor e servi como um consultor, foi só isso. Inclui alguns detalhes no roteiro. O filme é muito bom. As performances, especialmente a do Ross Lynch como Jeff, são maravilhosas. Eu diria que cerca de 80% do filme vem diretamente do livro. É uma adaptação muito fiel e, obviamente, esse era o combinado. Caso não fosse assim eu não teria concordado em fazer. Está recebendo ótimas resenhas em festivais de cinema pelo mundo e será lançado nos Estados Unidos no outono e acredito que logo depois em outros países.

Você está trabalhando em algo novo?

Estou sempre trabalhando em um livro novo! Na verdade já publiquei dois livros depois de Meu Amigo Dahmer. O meu trabalho mais recente foi Trashed, lançado em 2015, vencedor do Prêmio Eisner e nomeado Livro do Ano pelo Partido Verde da França. É uma comédia maluca sobre um lixeiro que também mostra a realidade chocante da quantidade insana de lixo que nós humanos produzimos e o que ele se torna. É uma ficção, mas inspirado nas minhas próprias experiências como lixeiro na minha cidade natal com um pouco de jornalismo em quadrinhos. No momento estou terminando um livro sobre estar na estrada…com os Ramones!

A última! Você pode recomendar alguma coisa que está lendo, assistindo ou escutando no momento?

Ih cara, há TANTOS quadrinhos bons sendo lançados! Estamos em uma era de ouro dos quadrinhos, tirando essa besteira chata mainstream de super-heróis, óbvio. Essa semana eu li a linha All-Time Comics do Josh Bayer pela Fantagraphics. Gostei muito. O Kevin Huizenga lançou a última edição de Ganges, uma série incrível. E o Hamid Sulaiman finalmente me enviou uma cópia em inglês de Freedom Hospital. Um sucesso na França.

Miolo | Meu Amigo Dahmer-283

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Entrevistas / HQ

Papo com Nick Sousanis, o autor de Desaplanar: “O que mais me estimula nas HQs é a capacidade de reunir num único formato os aspectos sequenciais e simultâneos da consciência”

Poucas HQs geraram tanta repercussão fora do universo dos quadrinhos nos últimos anos quanto Desaplanar de Nick Sousanis. Como você provavelmente já ouviu falar por aí, o álbum é a primeira tese de doutorado da Universidade de Columbia apresentada em formato de história em quadrinhos, questionando a primazia da palavra escrita e defendendo a simbiose entre texto e imagem – sendo a linguagem das HQs a suposta representação perfeita dessa união. Recomendo o meu texto pra Folha de São Paulo sobre o gibi publicado por aqui pela Veneta.

Aproveito a vinda de Sousanis ao Brasil nos próximos dias para reproduzir a íntegra da nossa conversa. O autor é um dos convidados da 4ª edição das Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos da USP, iniciadas hoje, e também irá participar de um bate-papo no Istituto Europeo di Design (IED) de São Paulo na próxima quinta-feira (24/8). A seguir, a minha entrevista com o quadrinista:

“Os quadrinhos não só nos permitem respirar tanto no mundo das imagens quanto no dos textos como nos possibilitam ter experiências de simultaneidade e sequencialidade, o que lhes dá enorme poder diante de narrativas complexas ou para explorar ideias a fundo”

Você se lembra do momento em que teve a ideia de criar Desaplanar?

É difícil dizer se houve um momento em particular. O que posso dizer é: quando decidi voltar aos estudos e trabalhar no meu doutorado, eu sabia que queria fazer meu trabalho sobre quadrinhos. Eu havia retornado a fazer quadrinhos alguns anos antes (publiquei o meu próprio quadrinho durante o ensino médio) e estava muito empolgado com o potencial educacional do que eu estava fazendo – me permitia combinar o meu amor pela produção com o meu interesse em educação. Os meus pensamentos iniciais ao entrar no programa de doutorado eram de produzir um quadrinho como tese sobre algum tópico educacional – possivelmente física, já que o meu pai era um professor de física (e eu costumava fazer desenhos do Batman que ele utilizava para ilustrar problemas para suas aulas) e eu achava que um livro no formato de quadrinhos funcionaria bem. Quando entrei no programa, percebi que o que eu estava tentando fazer era mais radical do que eu esperava (com o sucesso de coisas como Maus, Desvendando os Quadrinhos, Watchmen, Fun Home, etc – eu presumi que o debate em relação à presença de quadrinhos na academia já havia sido superado. Ainda não foi.). Então enquanto eu estava desenvolvendo o trabalho, ele começou a mudar e se tornar muito mais sobre o próprio projeto. Parte disso veio das minhas conferências sobre o uso de quadrinhos na academia e comecei a fazer quadrinhos sobre coisas que explorava nas minhas palestras. O meu trabalho, mesmo as semi-paródias de quadrinhos de super-heróis que fazia quando criança, sempre teve como base meta-comentários, então não é tão surpreendente assim que esse tenha sido o caminho que eu segui.

No meu primeiro semestre no programa de doutorado (eu não consigo contar direito essa história de forma linear), o meu orientador, professor Ruth Vinz, nos mandou estudar algum pesquisador que respeitássemos e que lêssemos tudo que ele tivesse feito para que aprendessemos a partir da perspectiva particular dessas pessoas em relação a pesquisa. Eu escolhi o Alan Moore (o que funcionou, mas acabou sendo uma escolha pouco ortodoxa, para dizer o mínimo em uma classe de pesquisadores de educação) e apesar de eu já ser muito bem versado nos seus trabalhos, eu reli e sintetizei tudo o que poderia sobre ele – e também me aprofundei em teorias sobre quadrinhos de maneira geral. Ao longo desse processo eu comecei a pensar na forma como a página estática e plana [‘flat’, em inglês] de um quadrinho poderia conter mais informações do que parecia possível –a meu ver, mais do que um texto conseguiria. De alguma forma, a página estava ‘desaplanando’ [‘unflattening’, em inglês] para mim. O termo ficou na minha cabeça. Ao mesmo tempo, o meu programa de doutorado era em estudos interdisciplinares em educação (antes eu fiz um mestrado em estudos interdisciplinares em matemática e arte, então isso fazia sentido para mim). Eu estava muito interessado na necessidade de perspectivas multidisciplinares. Eu utilizei a metáfora do parallax para um quadrinho curto que fiz sobre a produção da pesquisa e me referi a isso como ‘desaplanar’. Ao mesmo tempo, estavau estudando em uma faculdade de educação – muito preocupada com o que está acontecendo com os sistemas de avaliação de instituições americanas de educação e muito interessada em formas de educação que fujam à norma. Eu queria falar sobre a incorporação de disciplinas múltiplas – e muito importante, formas múltiplas de trabalho. Foi aí que a ideia de ‘Desplanar’ ficou muito mais política, por eu estar buscando reverter preconceitos relacionados ao uso de ferramentas visuais para estimular o pensamento. Então eu passei a difundir não apenas os quadrinhos como uma forma legítima de discurso acadêmico, mas também a ideia mais ampla de que devemos questionar o predomínio da palavra escrita e começar a apresentar novas possibilidades. Então isso tudo, pra fechar o ciclo, passou a ser o argumento para a sua própria existência, assim como para outras coisas semelhantes. O termo ‘desaplanar’ ganhou uma multiplicidade de significados relacionados a educação, interdisciplinaridade e interação imagem-texto, bem como significados ligados ao ponto de partida: quadrinhos são legais. Foi definitivamente mais uma emersão orgânica ao longo do tempo do que um único momento!

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Como foi a produção do livro? Você trabalhou com um roteiro? Quanto tempo você demorou para terminar?

Não houve um roteiro. Sempre me perguntam: ‘você escreveu primeiro as palavras ou começou pelos desenhos?’ E eu respondo: ‘sim’. É basicamente aquele ponto do trabalho em que imagens e texto juntos permitem que você entenda as coisas de forma que não é possível com apenas um deles – tudo diz respeito a múltiplas perspectivas. O trabalho surge dos meus rascunhos. Eu tenho ideias que tenho curiosidade de explorar, para compreender melhor para mim, para compartilhar – e eu crio mapas de esboços e enquanto trabalho com eles aprendo qual é o meu caminho. (Muitos dos meus mapas de esboços são reproduzidos no final de ‘Desaplanar’ e compartilhei muitos outros no meu site, www.spinweaveandcut.com). Posso dizer com certeza que se eu tivesse escrito primeiro um roteiro e depois tentado ilustrar, seria um projeto diferente e teria ido a um caminho completamente distinto. Muito do livro tomou aquela forma por eu ver coisas nos meus rascunhos que despertavam uma ideia e me indicavam para outras pesquisas. Eu nunca tentei ‘fazer caber’ um desenho em alguma coisa que eu tivesse escrito. Disto isto, palavras com certeza têm um papel fundamental. Os meus esboços são repletos de palavras, e palavras são um gatilho para desenhos, assim como desenhos sugerem palavras que os acompanhem. Apesar de não haver um roteiro, havia uma espécie de sinopse. A verdadeira sinopse (também presente no final do livro) foi rabiscada em duas largas folhas de papel jornal após um noite sem sono na qual eu finalmente encontrei uma forma de organizar todas as ideais com as quais eu estava trabalhando em uma sequência coerente. Mas ao mesmo tempo, eu mantinha as minhas notas em um documento de Word – citações, referências, notas para mim, diálogos e mesmo descrições de imagens e cenas. Eu digitava isso tudo e ia desenhar a partir dessas ideias junto com os meus mapas de esboços. A utilidade das palavras é que elas são facilmente adaptáveis e, talvez ainda mais importante, fáceis de encontrar. No final eu tinha quase 100 páginas de papel jornal e quatro cadernos em aspiral repletos de rascunhos e ideias. Ao digitar isso tudo eu assegurei que não perderia rumo das coisas que queria incluir mesmo que eu não pudesse as encontrar imediatamente no meio de tudo isso!

Esse foi o processo para o livro, mas acabou sendo mais ou menos a mesma coisa para cada uma das páginas. Uma vez que eu transformava um capítulo em esboço, eu pegava cada uma das páginas (ou ocasionalmente uma sequência interligada de páginas) e começava a rabiscar o que eu poderia fazer ali.

“Eu realmente não quis definir ‘unflattening’, pelo menos não com mais palavras. Em todo o meu trabalho, pelo uso de metáforas, tento criar coisas que possam ser lidas de formas diferentes dependendo de quem estiver lendo”

O fato de eu não usar um narrador visível, de não ter um personagem recorrente (com exceção dos flutuantes anônimos do primeiro capítulo) e nenhuma história, significava que eu precisava resolver o que fazer em cada página – das metáforas que eu utilizava às formas como eu organizava a leitura. E essa solução só vem a partir dos desenhos e da minha imersão, de tentar coisas diferentes e confiar que isso vai me conduzir a algum lugar interessante. Constantemente isso significava retornar aos livros para pesquisar mais ou algo novo incitado pelos meus desenhos e que fará algum diálogo com o que eu já estava trabalhando.

Em relação ao tempo… Essas são coisas difíceis de dizer. Do primeiro esboço oficial que eu criei ao final foram quase três anos. Se é da primeira página que eu realmente desenhei, foram quase dois anos e meio. Eu já estava trabalhando em muitas dessas ideias no meu primeiro ano na faculdade e várias delas muito antes disso – coisas como aquelas figuras planando vieram de um painel que eu fiz em Detroit quase uma década antes.

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Eu gosto do título do livro em português. ‘Desaplanar’ é quase literal em relação ao original e também não está presente no nosso dicionário. Acho engraçado como a palavra ‘Unflattening’ pode ter várias interpretações mesmo não tendo nenhum sentido em particular. Foi muito importante para você chegar ao título do quadrinho? Em algum momento você cogitou como poderia ser desafiador traduzir esse título para outras línguas?

Ah! Até agora eu não sabia o significado de ‘desaplanar’! E o Google Translate aparentemente me explicou errado, como um amigo brasileiro me explicou. Se eu estou entendendo corretamente a tradução dele, acho que tem o sentido certo. E sim, ‘unflattening’ não é bem uma palavra em inglês. É aparetentemente utilizada para se referir a algo em codificação computacional (como eu vim a descobrir apenas depois da publicação de ‘Unflattening’), mas não é algo que consta em dicionários. Eu ofereço uma espécie de definição no início do livro, mas a palavra só aparece lá, é introduzida na página seguinte e uma terceira vez logo no fim. Eu realmente não quis definir ‘unflattening’, pelo menos não com mais palavras. Em todo o meu trabalho, pelo uso de metáforas, tento criar coisas que possam ser lidas de formas diferentes dependendo de quem estiver lendo. Eu queria que ‘Unflattening’ tivesse essa espécie de significado variável também – é algo diferente para cada leitor. Eu prefiro que você sinta o que é ao invés de conseguir articular com palavras. Isso também constitui o argumento do livro – certas coisas vão além do que palavras conseguem expressar e até podem soar irracionais, mas, parafraseando a filósofa Susanne Langer, elas apenas não cabem na estrutura da linguagem.

Eu não pensava como ‘Unflattening’ seria traduzido até acabar sendo traduzido. Eu tive algumas idas e vindas com o editor francês em relação a isso, com a ajuda da minha esposa e de alguns amigos fluentes em francês (algo que não sou). A escolha deles ‘Le Déploiement’ é, se eu entendi corretamente, bastante diferente da forma como o título será publicado no brasil. Não sei como isso afeta o leitor. Os editores coreanos deixaram em inglês. E ainda não tenho certeza do significado em sérvio. É muito importante para mim que a palavra – seja lá qual for a tradução – reproduza esse mesmo sentimentos de ação e continuidade. É por isso que corrijo rapidamente todas as pessoas que referem ao título em inglês como ‘Unflattened’. É exatamente o conceito errado! Implica algo que esteja finalizado, para o que já sabemos todas as respostas. Eu quero o verbo no gerúndio em inglês indique algo que está em processo, inacabado (e interminável), nos deixe mais com questões do que respostas definitivas. Isso está mais alinhado com a tradição americana e pragmática do Dewey e do James – e seus trabalhos lidam de forma internsa com o que eu acredito ser o significado de ‘Unflattening’. E talvez o livro seja um esforço meu para compreender esse único termo e abordá-lo em suas mais diferentes direções possíveis. Unflattening não é o somatório de todo o livro, é a questão que divide o livro.

Um dos principais focos do livro está na relação entre imagens e texto e é difícil imaginar muitas linguagens tão dependentes dessa relação quanto as histórias em quadrinhos. Há muitas definições para o que é um quadrinho, mas eu gostaria de saber o que são quadrinhos para você. Você tem algum definição em particular?

Muito do que eu acredito que quadrinhos sejam vem das minhas aulas sobre quadrinhos e da produção desse livro. Eu certamente fui muito influenciado pelo que o Scott McCloud produziu no seminal Entendendo os Quadrinhos e que continua a ser verdade ainda nos dias de hoje. A definição dele realmente abriu as portas para se pensar que quadrinhos como alguma coisa. Em relação a definições particulares, eu fui em direções diferentes. As teorias do Thierry Groenstee em O Sistema dos Quadrinhos realmente ressoaram em relação a como me vejo fazendo quadrinhos. (E em uma reviravolta adorável, o Thierry acabou publicando a edição francesa de Unflattening). Se o McCloud enfatiza a natureza sequencial dos quadrinhos, o Groensteen aponta para a natureza interconectada da página. Costumo falar de todas essas coisas (bem como da interação palavra-desenho) como ativos dos quadrinhos. Jeitos de dizer algo nos quadrinhos que não poderia ser dito de outra forma. Como eu digo em ‘Desaplanar’, o que mais me estimula nos quadrinhos é a capacidade de reunir num único formato os aspectos sequenciais e simultâneos da consciência. Isso é o que eu enfatizo nas minhas aulas e palestras sobre quadrinhos. E isso é uma outra forma de desaplanar – e eu acho, como digo no livro, que é como percebemos as coisas nas nossas cabeças. Quero dizer, nós testemunhamos o tempo passar de forma sequencial – os ponteiros do relógio avançam, mudamos de uma atividade para outra, e assim por diante. Mas, ao mesmo tempo, os pensamentos estão sempre à deriva, acontecendo todos de uma vez. Os quadrinhos não só nos permitem respirar tanto no mundo das imagens quanto no dos textos como nos possibilitam ter experiências de simultaneidade e sequencialidade, o que lhes dá enorme poder diante de narrativas complexas ou para explorar ideias a fundo. Então, para mim, é a habilidade de capturar tanto os momentos sequenciais, mas também todos aqueles tangenciais e não-lineares e as camadas de experiência que não se adequam confortavelmente em um pedaço de papel com linhas ou em mídias baseadas na passagem do tempo, mas que conseguem ser produzidas maravilhosamente nessa forma estática, plana e espertamente dinâmica.

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Uma definição muito popular do que é quadrinho vem do Scott McCloud, como “imagens pictóricas justapostas em sequência deliberada”. Há alguns anos o Chris Ware publicou o Building Stories, uma publicação sem leitura deliberada pelo autor e com 87 bilhões, 178 milhões, 291 mil e 200 diferentes possibilidades de leitura. Você acha importante experimentar e oferecer novas possibilidades para os seus leitores em relação a como quadrinhos podem ser compreendidos?

Ah! Eu deveria ter lido antes as suas perguntas! Como eu mencionei a definição do McCloud sobre quadrinhos anteriormente eu tinha começado a escrever alguma coisa sobre as ideias do Ware sobre memórias e quadrinhos – e acabei deixando de fora. E caramba, eu nunca tinha visto alguém calcular o número de possibilidades de leitura de Building Stories! Para a sua pergunta, é importante para mim. Como disse anteriormente, eu não tenho personagens ou uma história, então cada página eu estou tentando dar forma à ideia que quero passar – quais metáforas usar, o que aquilo se parece e como conduzo o leitor por isso? Isso significa, pelo menos para esse projeto, que nenhuma das minhas páginas repetiria a estrutura de outra. Cada layout do livro é diferente. Isso começou um pouco por acidente. A minha esposa passava por onde eu estava desenhando, via uma nova página e dizia, ‘Eu não tinha visto essa antes’. Alguns dias depois ela volta e dizia a mesma coisa e em algum momento eu decidi que não repetiria nenhuma composição no livro. (Há uma sequência no segundo interlúdio que é deliberadamente repetida como uma forma de mostrar repetição, mas a cada repetição começa a desconstruir essa estrutura até que ela deixa de existir por completo). Eu amo o que o Ware está fazendo com o formato e tive uma ótima experiência explorando formatos e histórias diferentes com os meus alunos. Eu acredito que enquanto gosto de experimentar em cada página, provavelmente também sou um pouco conservador em termos de formato. Gosto de fazer coisas que possa segurar nas mãos, passar as páginas e ler como eu fazia quando tinha cinco anos. Mas se a ideia pedisse uma variação de formato eu teria seguido até ver onde ela me levaria. Eu tive alunos que construíram alguns quadrinhos maravilhosos em três dimensões e que exploraram suas ideias de formas únicas. Eles me inspiram bastante – e eu tive essa experiência com o meu mural em Detroit que parecia outra coisa dependendo do ângulo do qual você o observava. Acho que ainda tenho tanto a aprender sobre fazer quadrinhos que posso esperar um pouco para testar os limites dos formatos tradicionais.

Eu também gosto da definição do Art Spiegelman sobre quadrinhos, como tempo no espaço. Quando penso nisso lembro de uma fala da Susan Sontag em que ela diz que “O tempo existe com o objetivo de evitar que tudo aconteça ao mesmo tempo…e o espaço existe para que tudo não aconteça com você”. Cada uma das páginas de ‘Desplanar’ possui designs muito específicos e investem em relações distintas entre o tempo e o espaço. Você reflete muito sobre essa relação entre tempo e espaço?

Outra vez, eu deveria ter lido antes as suas perguntas! Eu constantemente me refiro à ideia do Spiegelman do espaço “arquitetônico” da página e, como já falei, me preocupo o tempo com essa estrutura. Como mover alguém pela página, como as peças se encaixam e como essas mesmas constrições acabam dando forma às ideias que eu coloco na página. Para mim, trata-se realmente de fazer uso daquele espaço – as limitações de uma página que me instigam a criar novas ideias. E talvez tenha sido por isso que respondi a pergunta anterior daquela forma – eu estou tão intrigado por estar preso nessa caixa que é a página (e outras regras que determino previamente) e tento descobrir uma forma de escapar. Na página na qual me refiro à definição do Scott McCloud definição de quadrinhos, no espaço em que escrevi ‘a passagem do tempo é escrita em espaço’, eu redesenhei um calendário lunar Paleolítico – mostrando as fases da lua. Essencialmente, é a passagem do tempo desenhada em espaço. Por isso, acabo vendo calendários como espécies de quadrinhos. E eu acho (e isso é algo que espero abordar na continuação de ‘Desaplanar’) que as observações da passagem do tempo, da percepção de como as coisas mudam e de seu registro, é crítico para como nos tornamos humanos. E como eu já disse, os quadrinhos realmente nos permitem jogar com o tempo e o espaço de maneiras poderosas.

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Foi receptivo o retorno que você teve do mundo acadêmico em relação a Desplanar? Você acha importante a experimentação em relação a formatos, como você fez, nesse universo da academia?

O mundo acadêmico tem sido extremamente receptivo a Desaplanar, certamente muito mais do que eu poderia ter esperado ou antecipado. Antes mesmo de eu começar a desenhar o livro, as pessoas começaram a falar sobre o que eu estava planejando e isso resultou em um artigo no Chronicle of Higher Education e em vários olhos para o trabalho desde o começo. Acho que acabou saindo em um momento particular da história em que trabalhos acadêmicos de várias área (talvez principalmente de humanidades digitais) estão famintos por novas formas de estudos e eu estava lá. O momento também coincidiu com um crescimento imenso de interesse por quadrinhos em geral, principalmente por educadores. Tive sorte de fazer esse trabalho enquanto essas duas forças estavam em movimento, o que resultou em várias oportunidades de compartilhar meu estudo em outras universidades e conferências antes mesmo de concluir a tese e publicá-la. Eu tenho estado emocionado com universidades que escolheram o livro como leitura para seus calouros e também em suas disciplinas. Eu fiquei chocado quando Desaplanar ganhou o prêmio do American Publishers Awards for Professsional and Schorlarly Excellence de 2016 em Humanidades! É não apenas o primeiro quadrinho a vencer esse prêmio, mas o primeiro quadrinho mesmo a ter sido indicado a ele. E eu espero que abra mais uma porta na qual os quadrinhos possam entrar e não voltar a serem questionados.

“O que mais me estimula nos quadrinhos é a capacidade de reunir num único formato os aspectos sequenciais e simultâneos da consciência”

Um dos meus objetivos com esse trabalho era de que importava menos o fato de eu ser o primeiro a fazer isso do que o de não ser o último. Eu queria que esse trabalho ajudasse outras pessoas a fazer suas próprias explorações. Com certeza ajudou o fato da Columbia ter me graduado e acho que a impressão pela Harvard University Press também ajudou muito. Se você está estudando e tem uma ideia que não se parece com nada que veio antes, você passa a ter mais alguma coisa para apontar e dizer que há um precedente. Já vi isso acontecer e estou confiante que mais mudanças virão.

Também quero deixar claro que não fiz isso para que todos façam suas dissertações em histórias em quadrinhos! 🙂 Na verdade, quero que seja perfeitamente aceitável que estejam todos aptos a fazer e, mais importante, que todos os formatos que as pessoas tiverem para se fazerem compreensíveis possam ser incorporados para o trabalho, ao invés de dar com a porta na cara por alguém ter dito que não poderia ser assim. Eu gostaria de nos ver seguindo adiante em direção a um lugar no qual a qualidade do trabalho e o domínio do seu argumento e da sua forma são o que importa.

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Você está trabalhando em algum projeto novo no momento? 

Sim, um livro complementar ao Desaplanar que vai sair pela Harvard University Press também. E ah, se tenho dificuldade para falar de um livro que terminei há três anos, é ainda mais difícil falar sobre um que ainda estou desenvolvendo 🙂 Mas vou tentar. Eu acho que se Desaplanar argumentou a favor da sua própria existência, esse próximo vai tratar do aspecto mais prático das coisas. É uma lembrança de onde viemos e das criaturas curiosas e divertidas como começamos – e o motivo de ser importante continuarmos fazendo essas coisas. Desaplanar era uma tentativa de pensar como o mundo e particularmente o ensino poderia ser para a minha então não-nascida filha (ela nasceu três semanas antes de eu defender a minha dissertação). Dessa vez eu definitivamente fui afetado pela experiência de aprender com ela, assim como das minhas aulas e de querer ajudar as pessoas a reaprender a importância de fazer perguntas e a saber que são capazes de atos criativos. Eu vejo isso como algo muito mais criativo do que o primeiro e muito mais autocontido.

A última! Você pode recomendar alguma coisa que tenha lido, assistido ou ouvido recentemente?

Cara, sou terrível pra esse tipo de coisa… Eu estou lendo como um maluco agora – coisas sobre cognição, evolução humana, gestos, matemática e as origens das linguagens – tudo voltado para esse próximo trabalho, mas não tenho certeza como muito disso seria de interesse geral. Uma das minhas descobertas recentes de quadrinhos foi a graphic novel sem palavras do Marc-Antoine Matthieu. A minha filha leu e releu algumas vezes. É um quadrinho brilhante e inspirador. Nós também acabamos de ler o The Walking Man do Jiro Tamiguchi, que acabou de sair em inglês (apesar de também ser quase sem palavras) e também já esgotou. É um quadrinho poético sobre um homem andando e noticiando o mundo ao seu redor. Curioso, os dois títulos que mencionei mostram alguém andando e descobrindo coisas. Há muitos bons quadrinhos saindo agora, eu li o assustadoramente belo The Best We Could Do do Thi Bui e ele realmente fala da forma dos quadrinhos para contar histórias que precisam ser lidas. Oh, eu e minha esposa acabamos de assistir Mulher-Maravilha e adoramos!

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Entrevistas / HQ

Papo com Lauro Larsen e Carlos Junqueira, os editores de Os Morcegos-Cérebro de Vênus e Outras Histórias: “O Código mutilou a indústria no seu momento de maior explosão criativa”

O trabalho de Lauro Larsen e Carlos Junqueira na restauração e edição dos quadrinhos presentes na coletânea Os Morcegos-Cérebro de Vênus e Outras Histórias resultou em um dos projetos editoriais mais interessantes publicados no Brasil em 2017. Como expliquei na minha matéria sobre o álbum para o UOL, a obra é uma coletânea de HQs norte-americanas de ficção científica produzidas entre 1939 e 1954, quando foi instaurado o catastrófico Comics Code Authority – código de autocensura focado em prezar pelo bom mocismo e a civilidade do conteúdo publicado nas HQs da época.

A coletânea publicada pela Mino presta um serviço imenso resgatando clássicos e várias obras esquecidas, mas de um vanguardismo ímpar mesmo nos dias de hoje. Publico a seguir a íntegra da minha conversa com os dois idealizadores do álbum. Recomendo antes uma lida na minha matéria pra você sacar ainda mais sobre o projeto. Aí depois volta aqui pra ler o que os editores disseram da obra. Papo bem massa e instigante em relação ao futuro da Coleção Incendiária. Ó:

“Era um período de ebulição criativa, de busca selvagem por chocar e surpreender os leitores”

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Como surgiu a ideia desse projeto?

Carlos Junqueira: Como colecionador fascinado pela Era de Ouro dos Quadrinhos, estou sempre procurando relançamentos desse tipo de material, principalmente no mercado norte-americano. Reparei que em muitas dessas edições as imagens pareciam simplesmente retiradas de páginas escaneadas da internet e impressas em papel. Por achar que conseguiria fazer algo melhor, comecei a desenvolver um meio de restaurar essas revistas e tentar deixar a arte com a melhor qualidade possível – e posso dizer que ficaram melhores do que as arte originalmente publicadas, por causa da qualidade de impressão daquela época. Assim que vi os primeiros resultados da restauração, pensei na hora que precisava lançar este material impresso! Como estaria apresentando artes com mais de 60 anos para um público novo, decidi pelo preto e branco. Devido à colorização utilizada na época, muitos dos desenhos foram prejudicados. Mostrei estas páginas para meu amigo e também colecionador Lauro Larsen e ele pensou a mesma coisa, precisávamos lançar esse material! A partir daí desenvolvemos a ideia de montar uma coletânea e tentar lançar via financiamento coletivo, mas assim que apresentamos o projeto para a Janaína de Luna, ela topou na hora lançar o livro pela Mino.

Lauro Larsen: O projeto partiu das experimentações do Carlos Junqueira com restauro de arquivos digitais. Assim que comecei a ver os resultados sabia que o destino natural seria montar uma antologia, o que eu não tinha previsto era a magnitude que o projeto iria tomar. Eu realmente não tinha dado conta do tanto de trabalho que envolveria a feitura. É bom salientar que o projeto do livro e totalmente nacional, não tínhamos um livro importado de base. Desde o recorte para a escolha das histórias, passando pela adaptação dos abres das HQs, tudo foi feito com o maior perfeccionismo.

Outro desafio inédito, pelo menos para mim, era como dar um destino editorial para o livro. Eu já não faço parte do conselho editorial da Mino, o que significou que quando começamos esse projeto eu ainda não sabia como ia conseguir publicar. A primeira ideia seria o Catarse, mas eu nunca fui um entusiasta deste tipo de financiamento e achava que sem o apoio de uma editora não conseguiria o patamar de excelência que eu via como única opção para o livro.

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Qual vocês consideram ser a principal importância de resgatar esse material?

Carlos Junqueira: Acredito que a principal importância deste trabalho está no resgate de artistas desconhecidos ou mesmo famosos, mas em começo de carreira naquela época, que produziram uma quantidade enorme de histórias, que hoje em dia são raríssimas, e apresentá-los para uma nova geração de leitores.

Lauro Larsen: Esse material representa o ápice da Era de Ouro, quando imaginação e experimentação ainda eram a regra do jogo. É importante para todo leitor ou profissional de HQ conhecer essas histórias, elas ajudaram a fundar o quadrinho moderno.

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Vocês estabeleceram dois recortes: pré-Comics Code e histórias do gênero de ficção científica. O que motivou esse filtro?

Carlos Junqueira: Acredito que antes do Comics Code os artistas tinham total liberdade de expressão sob o que estavam produzindo, isso caracterizou as artes e os enredos dessas histórias produzidas pré-Code e depois se perdeu. Além disso, é um material muito difícil de se encontrar por conta da grande quantidade de revistas que foram destruídas, literalmente queimadas, por serem apontadas como causa da ‘delinquência’ da juventude daquela época. Quase todos os relançamentos com material desta época gira em torno do tema terror, mas a quantidade de quadrinhos produzidos de ficção científica durante esse mesmo período foi muito marcante e vem sendo negligenciada pelas editoras até hoje. Juntando a isso tudo a nossa grande paixão pessoal pelo gênero, foi fácil chegar nesse filtro.

Lauro Larsen: Sabe, eu acho que aconteceu algo bem singular nesse período de 10 ou 15 anos que precede o Código. É uma mistura bem inusitada, em primeiro lugar existia o Macartismo, uma caça às bruxas promovida por pessoas e senhoras católicas com muito pouco a fazer. Em segundo lugar, existia um anseio desmedido dos donos das editoras e estúdios por produzir material em massa seguindo modismos de gênero e sem muita preocupação com o conteúdo desde que conseguisse atrair o máximo de leitores possível. No meio disso tudo, eu acredito que grande parte dos autores que produziam quadrinhos somente como um modo de sustento começou, a ver o real potencial de suas artes e importar suas ideias e seus desejos. Eles pouco se importavam se era uma aventura ambientada no espaço ou em uma cripta… Era um período de ebulição criativa, de afirmação das revistas em quadrinhos que se afastavam do seu primo rico, as tiras de jornais. Era uma fase de busca selvagem por chocar e surpreender os leitores e tudo isso é muito fascinante. São trabalhos que continuam a influenciar até hoje.

A escolha do tema de ficção científica é bem mais simples. Tínhamos que começar de algum lugar e, realmente, você não encontra tantas antologias de ficção como as de terror e até de romance. A ideia era trazer um material relevante, até mesmo para leitores acostumados a comprar essas antologias importadas.

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Na apresentação do trabalho vocês falam como conseguiram os scans dessas obras em domínio público em sites focados em preservação da história dos quadrinhos. Em quais condições estavam esses scans? Eles eram feitos a partir das edições originais? Quanto tempo levou pra recuperar todas essas HQs presentes no livro?

Carlos Junqueira:
A maioria destes scans possui uma ótima qualidade para se ler no computador ou em tablets, mas quando impressas ficam serrilhadas. Se você reparar bem, a maior parte das revistas sendo impressas hoje, por diversas editoras diferentes, vem do mesmo scan, apenas com tratamentos de imagem diferente e, em sua grande maioria, as editoras mantém as revistas com suas cores originais. Foi graças ao trabalho dos responsáveis por esses sites e de colecionadores que emprestam suas revistas para serem escaneadas que todos estes relançamentos estão sendo possíveis. Sem esse material online disponível, seria impossível pensar em um projeto como o nosso, devido ao alto custo para se adquirir as revistas originais, sem falar no tempo necessário para encontrá-las.

Do começo do processo até o produto final que temos agora, já se passaram quase dois anos de tentativas e erros até chegar ao melhor resultado possível, sempre trabalhando em cima do material disponível online. Cada página é tratada manualmente para remover toda a cor e restaurar todas as imperfeições, chegando a demorar até uma hora por página, dependo da qualidade do scan. Para chegarmos às 31 histórias do livro, cheguei a tratar mais de 150 HQs, que foram sendo filtradas até chegar à seleção final.

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Eu contei o nome de 23 autores nas biografias do livro. Há alguns artistas mais conhecidos, como Alex Toth, Jack Kirby e Joe Kubert, mas outros que imagino que poucos leitores conheçam. Desses nomes mais desconhecidos, há algum trabalho que chamou a sua atenção por algum motivo especial?

Carlos Junqueira: Para mim, a qualidade artística do trabalho produzido nesta época pelo Basil Wolverton, que depois ficou mais conhecido por seu trabalho de humor para a revista Mad, estava muito além do que vinha sendo feito por seus companheiros. Se você folhear as revistas originais em que estes trabalhos aparecem, não tem como comparar as outras histórias contidas nas publicações com as dele. Ele estava anos luz à frente do que estava sendo produzido.

Lauro Larsen: Fletcher Hanks, sem dúvidas. Ele tinha uma imagética selvagem, um destempero alucinado que impressiona até hoje. Não é de se surpreender que muitas de suas historias foram republicadas pela notória revista RAW, sem contar os livros dedicados a ele pela Fantagraphics.

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Eu fico muito impressionado com a criatividade não só dos enredos como também das artes e dos designs de páginas dos quadrinhos do livro. Você consegue fazer um comparativo entre esse conteúdo produzido até 1954 e ficções científicas e HQs norte-americanas do nosso presente? É generalista falar de todo um gênero e até de uma indústria, mas você vê muita influência dos trabalhos desses artistas em publicações recentes? Vê algum tipo de retrocesso ou avanço em relação a o que esses quadrinistas faziam e o que é feito nos dias de hoje?

Lauro Larsen: Bom, podemos dizer que esse período e a fundação do que se tornou o quadrinho moderno, em todos os graus. Você tem gente como Jack Kirby, Steve Ditko e Joe Kubert, que praticamente pavimentaram todo o quadrinho mainstream americano. Não existiria o mercado de super-heróis sem Jack Kirby. Por outro lado, você tem caras como Basil Wolverton e o Fletcher Hanks e fica claro o impacto que eles têm num quadrinho mais underground americano. Caras como o Charles Burns tem muita influência destes autores.

É complicado a questão do retrocesso. É claro que o Código mutilou a indústria no seu momento de maior explosão criativa e o cenário seria muito diferente sem ele, mas as coisas são como são. E muito dessa base foi usada na indústria de super-heróis da Era de Prata.

Carlos Junqueira: Acredito que muitas dessas artes poderiam estar sendo produzidas hoje em dia, de tão avançadas que eram para a época em que foram lançadas – e creio que a maioria dos leitores acreditaria se falássemos que são criações dos dias atuais.

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Qual balanço você faz em relação ao conteúdo que vocês selecionaram para o livro? Quando você vê todo esse material reunido, qual você considera ser o maior legado desses artistas para a linguagem dos quadrinhos?

Carlos Junqueira: Estou muito contente com o resultado final do livro, acho que conseguimos chegar onde queríamos: um produto de qualidade, feito com muito respeito pelos artistas envolvidos e principalmente respeito pelos fãs. Acho que muitos descobrirão gênios completamente desconhecidos e, assim como nós, vão se apaixonar pelos seus trabalhos.

Lauro Larsen: Não tem como quantificar o legado destes artistas para o quadrinho moderno. Acho que o livro dá um escopo bem completo do que era produzido nesses anos selvagens e eu não podia estar mais contente com todo o trabalho, acho que vai agradar tanto a jovens leitores quanto a leitores hardcore.

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O livro sai com o selo Coleção Incendiária. Quais são os planos de vocês para essa coleção?

Carlos Junqueira: O plano é conseguir chegar o mais longe possível (risos) Vai depender da recepção dos leitores. O que posso adiantar é que além de terror e ficção científica, esse período ainda teve uma quantidade enorme de histórias de outros gêneros, como western, super-heróis, romance e etc. Durante esses dois anos de projeto já restaurei mais de duas mil páginas, de diversos outros temas. Quem sabe o que pode vir por aí? Western? Terror? Só o tempo dirá…

Lauro Larsen: A Coleção Incendiária é auto-explicativa, né? A ideia é conseguir apresentar o maior número de gêneros que permeavam o quadrinho pré-Code, sempre com todo esmero e cuidado que essas obras merecem. E vou te falar, com o barulho que o anúncio do projeto conseguiu, estou bem confiante que não vai demorar muito para vermos um segundo volume da coleção.

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Entrevistas / HQ

Papo com Oscar Zarate, quadrinista e editor de A Vida Secreta de Londres: “Mais do que o editor de um livro eu me senti como o diretor de um orquestra”

Eu conversei com o quadrinista e editor argentino Oscar Zarate sobre o livro A Vida Secreta de Londres. O álbum recém-publicado por aqui pela Veneta chama atenção principalmente por reunir trabalhos de Alan Moore e Neil Gaiman. No entanto, os méritos da coletânea vão muito além da presença de dois dos maiores quadrinistas britânicos de todos os tempos. Em um período no qual se reflete tanto sobre o propósito das cidades e a relação de pessoas com os espaços urbanos nas quais elas vivem, o livro faz pensar principalmente sobre a influência desses espaços em seus moradores.

Transformei a minha conversa com Oscar Zarate em matéria pro UOL e recomendo bastante a leitura pra você saber mais sobre o projeto. Reproduzo a seguir a íntegra da nossa conversa e lembro que amanhã (22/7), a partir das 16h, estarei com o editor brasileiro do quadrinho, Rogério de Campos, lá na Ugra, pra um papo não apenas sobre o livro, mas também sobre HQs britânicas, psicogeografia e a conturbada realidade política e social de Londres em meio à saída eminente do Reino Unido da União Européia. Confirma presença lá na página do evento no Face e, em seguida, volta aqui pra ler a entrevista. Ó:

“Há um determinado horário do dia, quando os pubs fecham e outros tipos de sons ganham vida, que os prédios passam a contar suas próprias histórias, caso você tenha interesse em ouvi-las”

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Como surgiu a ideia do livro? Por que Londres?

Estou morando em Londres há pelo menos 40 anos, eu escolhi viver aqui e amo essa cidade. É um lugar que está sempre me inspirando com novas ideias de histórias e para a maior parte das minhas graphic novels. Qualquer coisa que eu tenha interesse em contar e desenhar, Londres é o local no qual essas coisas existem. O que despertou a concepção de A Vida Secreta de Londres foi o meu interesse em um determinado horário do dia, quando os pubs fecham e um outro tipo de silêncio e barulho começam a ganhar vida na cidade. Os prédios passam a contar suas próprias histórias, caso você tenha interesse em ouvi-las.

Como foi a produção do livro? Os escritores e desenhistas podiam escolher os locais e personagens com os quais poderiam trabalhar? Coube a você montar as equipes criativas de cada história?

Como editor do livro eu tinha um mapa mental de como ele ficaria, do tom e do ritmo de cada história. Eram histórias que viajariam por toda Londres. Quando comecei a pensar os nomes daqueles que seriam os escritores, poetas, cineastas, comediantes e artistas que poderiam contribuir no livro, obviamente, eu pensei naqueles que já tinham um alguma relação com Londres em seus trabalhos e muito deles eram meus amigos também. Eu fui muito beneficiado pela oferta que tinha, com tantos talentos à minha disposição. Eu sabia que o Iain Sinclair queria escrever sobre o Rio Tâmisa, então tinha que pensar quem seria o artista para um escritor tão visionário e singular, aí cheguei no Dave McKean, seus trabalhos casam muito bem com a narrativa original do Iain. O Neil Gaiman estava morando por um tempo na região de Earl’s Court e perguntei se ele queria escrever sobre a vizinhança dele, um lugar único em Londres, no qual as pessoas estão sempre de passagem, sempre em trânsito, ficando apenas por breve períodos, ele disse sim e pensei no artista Warren Pleece, que tinha na época uma arte muito inquieta, passando uma sensação de agitação. O Alan Moore queria escrever uma espécie de epílogo para Do Inferno e como eu já tinha trabalhado com ele em A Small Killing foi natural que eu fizesse os desenhos.

Eu realmente gostei muito de trabalhar nesse livro. Quando penso no período de criação de A Vida Secreta de Londres eu sinto como se ele fosse a consequência direta de um esforço coletivo, de ouvir os autores e os artistas em relação a o que eles gostariam de contar e pensar qual artista trabalharia com cada escritor ou com qual artista cada escritor combinava. Mais do que o editor de um livro eu me senti como o diretor de um orquestra.

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Eu li uma resenha do álbum que diz que ele consegue fazer moradores de Londres verem a cidade de uma forma nova. Você tinha preocupação em surpreender os londrinos em relação às histórias presentes no livro?

Uma das vantagens de ser um estrangeiro é que você pode ver a cidade a partir de uma outra perspectiva, com um olhar mais fresco. Você acaba percebendo algumas coisas, coisas que um morador local não verá, peculiaridades que um londrino não vai pensar muito a respeito, mas que você consegue notar por ter vindo de fora. Você ainda acrescenta o olhar de outra cultura. Os autores e artista ficaram estimulados com a minha curiosidade sobre Londres.

Qual a importância do preto e branco para criar a atmosfera sombria do livro?

Pra mim, o preto e branco contém todas as cores necessárias para expressar a atmosfera sombria de A Vida Secreta de Londres.

Você ilustrou a história do Alan Moore e já tinha trabalhado com ele em A Small Killing. Os roteiros dele são muito famosos pelo excesso de detalhes. O que você pode dizer sobre trabalhar com ele? Os roteiros são realmente tão impressionantes como dizem?

Eu já conhecia os roteiros cheios de detalhes do Alan e tive a oportunidade de ver os roteiros de Do Inferno. Garoto, como ele escreve!

Trabalhar com ele em A Small Killing foi uma experiência diferente. Eu procurei o Alan com uma ideia que queria fazer. Falei com ele sobre esse garotinho, alguém sendo observado e etc e ele disse que sim, que gostava da minha ideia básica e que nós dois iríamos trabalhar juntos. Nós nos encontrávamos com muita frequência, em Northampton, onde ele vive, ou em Londres, onde eu vivo. Sempre conversávamos sobre o livro e a história cresceu de forma bastante orgânica, a partir desses encontros. Depois o Alan escreveu.

Como refletimos muito sobre a história eu estava muito familiarizado em relação a como ela seria – na verdade, o que ele escreveu era muito melhor do que eu esperava. Acredito que o Alan tinha consciência da nossa relação de proximidade e fez um roteiro bastante objetivo. O que eu sei é que, nem antes ou depois de A Small Killing, o Alan nunca trabalhou de forma tão próxima de alguém na construção de um livro. Trabalhar com o Alan é trabalhar com alguém que sabe escutar, uma pessoa incrivelmente generosa para se compartilhar ideias.

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O quanto você acha que o estilo de escrita do Alan Moore mudou desde a primeira vez que você trabalhou com ele?

Acredito que o Alan esteja escrevendo gradualmente cada vez menos para quadrinhos e cada vez mais focado nos seus trabalhos literários.

Londres tem sido alvo constante de atentados terroristas. Como você vê a cidade e os londrinos lidando com essas tragédias?

Poucos países europeus estão vivendo e sofrendo esses tipos de horrores como o Reino Unido. É a vida que estamos tendo agora. Como cidadão não é possível fazer muita coisa, você apenas segue vivendo sua vida tentando não pensar muito a respeito. Mas os governos poderiam fazer alguma coisa, como parar de vender armas para países repressores do Oriente Médio ou parar de bombardear outros países apenas por petróleo. Provavelmente não acabaria com esse tipo de horror em cidades como Londres, mas acredito que já ajudaria. Há outras questões tão importantes quanto esses ataques, como por exemplo a forma como o Reino Unido fará sua saída da União Europeia. A Inglaterra está uma bagunça. São tempos difíceis mas interessantes também, precisamos observar como todo esse horror será resolvido. Acho que a questão pode merecer uma resposta melhor, mas é assim que me sinto.

E como você acredita que quadrinhos e as artes podem ser úteis em um contexto mundial de radicalismo e conservadorismo como nos dias de hoje?

Nos quadrinhos, nas artes, como em tudo na vida, é sempre uma questão de qual lado você está. Você escolhe o seu lado e depois age. É muito importante escolher.

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Entrevistas / HQ

Papo com Guy Delisle, o autor de O Guia do Pai Sem Noção e Hostage: “Todo mundo pode se relacionar com a ideia de ser sequestrado de alguma forma, você está no lugar errado e no momento errado e então vira um refém”

O quadrinista canadense Guy Delisle acabou de publicar na América do Norte e na França o aclamado Hostage, já apontado por muitos especialistas como um dos grandes quadrinhos de 2017. O título narra o período de 111 dias no qual o funcionário da Médicos Sem Fronteiras Christophe André passou como refém de uma milícia no Cáucaso em 1997. Enquanto isso, no Brasil, chegou às livrarias o primeiro volume de O Guia do Pai Sem Noção, série de três livros no qual ele narra histórias engraçadas vividas por ele e seus dois filhos.

Entrevistei o quadrinista por telefone e transformei a minha conversa em matéria publicado no UOL. No meu texto, falo sobre o conteúdo de Hostage e de O Guia do Pai Sem Noção, comento um pouco mais sobre a trajetória do autor e também de seus trabalhos prévios sobre suas viagens a Shenzhen, Jerusalém, Burma e Pyongyang. Recomendo um pulo no UOL pra leitura do meu texto. Depois volta pra cá e dá uma lida na íntegra da nossa conversa. Ó:

“Eu fiz vários livros sobre viagens e aí resolvi que queria fazer algo menor, com humor. Nada relacionado a política ou geografia, apenas eu e as crianças”

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Você lembra do momento em que teve a ideia de criar a série do Guia do Pai Sem Noção?

Há um bom tempo eu tentei uma história, a primeira, e coloquei no meu blog. Depois eu recebi uma carta de um pai dizendo que ele e a esposa haviam esquecido a mesma coisa que eu, de colocar a tal recompensa do Rato do Dente. Foi engraçado. Era a minha primeira vez publicando na internet, então fiz a segunda e depois de algumas histórias o meu editor me ligou e disse que deveríamos transformar aquilo em um livro, que seria divertido. ‘Sim, claro! Por que não?’, então continuei fazendo as histórias. No começo eu não tinha em mente publicar isso em um livro, mas acabou acontecendo.

Quando o primeiro livro do Guia foi publicado os seus trabalhos mais famosos eram as obras de viagens. O Guia também é em primeira pessoa, mas é um gênero completamente diferente. Foi difícil pra você mudar o tema e o tom pra esse trabalho?

Eu fiz vários livros sobre viagens, depois do livro sobre Jerusalém, uma obra bem grande, e aí resolvi que queria fazer algo menor, com humor. Nada relacionado a política ou geografia, apenas eu e as crianças. Como eu estava mais em casa, de vez em quando alguma coisa acontecia. ‘Bem, isso é engraçado, talvez eu devesse fazer alguma coisa com isso’. Então a primeira aconteceu, depois a segunda e tudo isso acabou virando o livro.

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Os seus filhos já leram os livros? Como eles reagiram de se verem retratados como personagens de quadrinhos?

Hoje eles leem os livros, mas quando eu publiquei o primeiro eu não queria que o meu filho mais velho lesse. Mas como muitas crianças na escola dele estavam lendo achei que poderia ser um pouco constrangedor para ele e aí lemos juntos. Expliquei pra ele o que eram aquelas histórias, que elas estavam ali por serem engraçadas, para fazer graça com a realidade. Hoje os dois gostam dos Guias e eu também continuo gostando, então está tudo bem. Não tem nenhum problema.

E como foi a recepção da crítica em relação a esse contraste entre o Guia e seus trabalhos prévios?

Não saíram muitas críticas. Quando é humor parece que as pessoas não escrevem resenhas, elas devem ficar guardadas para outros tipos de livros (risos) Fiz algumas participações em programas de TV e de rádio, mas não muita coisa. Na verdade não me importo muito com isso. O livro funcionou bem, nós vendemos 100 mil cópias do primeiro, o que é o suficiente para mim (risos)

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Tanto os livros de viagens quanto os Guias são com você como personagem e sempre mostrando o seu ponto de vista. Como foi criar a partir da história de alguém em Hostage?

Foi a primeira vez que isso aconteceu e eu já queria contar essa história há um bom tempo. Eu apenas continuava adiando porque estava fazendo os livros de viagens. Em determinado momento nós paramos de viajar tanto e achei que era a hora de focar nesse trabalho que queria fazer há tanto tempo. Há dois anos resolvi que deveria fazer ao invés de ficar apenas pensando nisso. Então tirei dois anos para trabalhar nesse livro, porque sabia que seria algo muito longo.

Li uma entrevista na qual você fala que não considera os seus livros de viagens jornalísticos. Em qual gênero você define Hostage? É trabalho documental e quase jornalístico, concorda?

Eu acredito que alguém possa vê-lo dessa forma, mas… Quando eu penso em jornalismo tenho em mente um repórter que vai em algum lugar para falar sobre alguma coisa. Nesse caso eu estava contando a história do Christophe André, que havia me impressionado e era uma ótima história a ser contada, por ele ter sobrevivido a muita coisa e ter conseguido escapar. Sempre foi um livro muito interessante de trabalhar e não penso se é jornalismo ou não. Também não sei se é uma novela, talvez esteja mais para uma memória ou algo do tipo.

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Enquanto eu lia Hostage me colocava no lugar do Christophe André o tempo todo, sempre pensando o que poderia fazer no lugar dele. Você também fez isso? Cogitou como responderia e reagiria estando no lugar dele?

Eu já tinha pensando nisso antes mesmo de começar a trabalhar no livro. Quando eu conversava informalmente com ele já ficava imaginando “Uau! O que eu faria na situação dele?”. Mesmo antes da ideia do livro existir eu já me relacionava com a história do Christophe. Todo mundo pode se relacionar com a ideia de ser sequestrado de alguma forma, você está no lugar errado e no momento errado e então vira um refém. Então é uma história muito envolvente e achei que seria interessante de contar em formato de história em quadrinhos.

E sobre a forma como você reagiria em uma situação como aquela: na verdade é impossível saber. O Christophe me explicou que não era a mesma pessoa que passou aquele período sequestrado. No período em que passou sequestrado ele estava sob muito estress e apenas reagia diferente da forma como reagiria em uma situação cotidiana de sua vida normal. Por mais que você pense “eu faria isso ou aquilo”, você agiria de outra forma naquela situação, você também seria outra pessoa.

Você criou o livro a partir de suas conversas com o Christophe André. Como foi a produção a partir do momento em que encerrou a coleta desses depoimentos?

Eu sempre mantive contato com o Christophe e estamos lançando o livro juntos aqui na França. Enquanto fazia o livro eu mandava as páginas para ele e ele lia e me retornava com alguns comentários. Eu não queria que ele recebesse o livro pronto e dissesse que eu deveria ser mais preciso em relação a alguma coisa ou que isso e aquilo não havia acontecido. Pra evitar isso eu enviava as páginas enquanto produzia e fizemos algumas mudanças aqui e ali. Para mim era muito importante que fosse o mais fiel possível à realidade.

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Você não costuma usar muitas cores nos seus trabalhos. Como você chegou nessa paleta de cores azulada de Hostage?

No Crônicas de Jerusalém também tem algumas cores. Eu gosto de cores, mas a estética desse livro é de pouco texto e de desenhos muito simples. Queria que as cores também fossem simples. Eu queria que tudo fosse tão simples quanto o contexto no qual o personagem estava vivendo. A comida era simples, ele não tinha mais nada. Enfim, queria simplicidade e o traço e as cores precisavam seguir isso. Pensei em fazer em preto e branco, mas fiz a capa e gostei do azul e achei que aquela cor dialogava com a situação.

A maior parte dos seus livros, incluindo Hostage, é ambientada em lugares nos quais liberdades individuais são muito limitadas. Pelas suas experiências nesses locais, você fica assustado quando vê o aumento da popularidade e a chegada ao poder de indivíduos como Trump e Le Pen? Você teme ver na França a perda de liberdades individuais como viu nos países em que visitou?

Pode acontecer e por isso os movimentos de esquerda precisam ser fortes. Os franceses estão bastante conscientes disso tudo. Há muito debate sobre esse cenário, não sabemos o que pode acontecer e a Le Pen pode retornar, então precisamos ficar atentos. A eleição foi importante por mostrar que podemos evitar isso.

O Trump também foi uma decepção muito grande, mas é um risco que corremos com uma eleição e com o sistema democrático. A mesma coisa aconteceu aqui na Europa com o Brexit. Os britânicos estão começando a negociação para sair. Felizmente isso não representará o colapso da União Européia, mas há muito que se fazer a partir de agora.

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Entrevistas / HQ

Papo com Raphael Salimena, o autor da coletânea Linha do Trem – The Best Of: “Geralmente quando eu me sinto muito confortável em um tipo de humor bate a necessidade de mudar”

Já recomendei por aqui a coletânea Linha do Trem – The Best Of, com alguns dos melhores trabalhos do Raphael Salimena. A verdade é que tava demorando pra alguma editora investir em uma publicação impressa com as tiras assinadas pelo Salimena e a Draco investiu muito bem nesse projeto. Os quadrinhos produzidos pelo artista de Juiz de Fora (MG) estão entre os mais engraçados, reflexivos e categóricos das HQs nacionais. É impressionante a quantidade de informações e referências que ele consegue incluir em um espaço tão delimitado como o formato quadrado de suas HQs para a série Linha do Trem.

Linha do Trem – The Best Of será lançada oficialmente no Ugra Fest 2017, sábado (8/7) e domingo (9/7) agora no SESC Belezinho aqui de São Paulo, com a presença do autor. Bati um papo por email com o Salimena sobre essa primeira empreitada impressa dele, sobre o futuro da sensacional Vagabundos no Espaço e também sobre alguns temas abordados por ele na primeira edição do podcast Linha Torta. Papo bem bão. Ó:

“Tento contribuir pro debate abordando mais o impacto que a política tem na sociedade do que as notícias em si”

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Eu já vi você comentando como se distanciou do papel e da tinta como ferramentas de produção dos seus quadrinhos, que hoje faz quase tudo no digital. Como é pra você ver o seu trabalho impresso, um formato distante da maneira como ele nasceu?

Eu adoro o descompromisso do digital, essa coisa de você ter uma ideia, produzir e alguns minutos depois aquilo já estar disponível na tela de milhares de pessoas. Acho que isso potencializa a marginalidade e a liberdade que me atraíram para os quadrinhos. Já o impresso tem a vantagem de não disputar a atenção do leitor como acontece com a leitura na tela, conseguindo dele um foco raro nos dias atuais. Vendo por esse lado é um pouco assustador pensar que pela primeira vez os leitores vão prestar mais atenção nas besteiras que eu faço, hahahah

Aliás, você pode falar um pouco da sua técnica pra criar as tiras desse livro? Foram todas feitas no computador? Eu gosto muito das suas cores e acho que dá pra falar numa paleta própria de cores suas. Como você chegou nelas?

As mais antigas foram feitas com papel e nanquim mas de um jeito muito esquisito, eu simplesmente desenhava os personagens e textos em lugares aleatórios de uma folha a4, escaneava, e só depois montava a tira no photoshop. Eu preciso muito do computador para diagramar e compor meu trabalho porque eu sou muito ansioso e gosto da possibilidade de mudar textos e enquadramentos na última hora. As vezes eu mudo até mesmo depois da hq já estar no ar, essa edição permanente é outra maravilha do mundo digital =D

Sobre as cores, no início eram basicamente para destacar personagens e ideias, eu não tinha muita preocupação com a paleta. Mas com o tempo, principalmente nas minhas histórias mais longas eu passei a me divertir bastante com a colorização. E eu não tenho muita teoria, é basicamente ficar experimentando até sair algo que me agrade, então acaba sendo a parte mais demorada do trabalho.

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Você parte de uma das gerações mais recentes da escola brasileira de quadrinhos de humor. O que eu mais gosto no seu trabalho é um atributo que também vejo na produção de quadrinistas como o Ricardo Coimbra e o Bruno Maron, que é a capacidade de expor as contradições e os absurdos da nossa realidade. O quanto você acha que a sua formação como jornalista e a sua experiência trabalhando em um jornal influenciaram nessa “linha editorial” do seu trabalho?

O que realmente me influenciava durante o período que eu fiz mais tiras era o meu cotidiano. Então esses momentos de faculdade e trabalho foram mais importantes pelas cenas que eu presenciava e pensava “isso dá tira” do que de uma maneira mais acadêmica. Estar em meio a pessoas diferentes que são “obrigadas” a conviver juntas é sempre um prato cheio para fazer humor. Ver e rever “Seinfeld” todos os dias naquela época pode ter influenciado bastante esse lado também =)

Por conta de toda a crise política e todo esse extremismo da realidade brasileira (que acaba ecoando de forma intensa nas redes sociais), a nossa sociedade é um prato muito cheio pra você. Mesmo que indiretamente, falar de política é algo inevitável no seu trabalho?

Acaba sendo, né? O que sempre me afastou do humor político é que fazê-lo com sutileza pode ser perigoso, ainda mais nessa época de gente que se informa por grupo de família no whatsapp. Eu tenho uma ideologia bem clara e ao mesmo tempo que não quero fazer um trabalho panfletário, se for algo muito aberto à interpretação pode ser usado em prol de discursos opostos ao meu. Mas eu sempre escrevi sobre o que está ao meu redor, e assim fica meio impossível não tocar no assunto porque isso também seria fugir da minha responsabilidade como formador de opinião (todos nós somos atualmente). No fim das contas eu tento contribuir para o debate abordando mais o impacto que a política tem na sociedade do que as notícias em si.

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Você tem um número expressivo de seguidores no Facebook e alguns dos seus trabalhos têm centenas de compartilhamentos. Você costuma acompanhar as discussões que eles geram? É importante pra você acompanhar a forma como seus quadrinhos estão sendo interpretados?

O feedback é sempre importante, em maior ou menor grau. Quando eu faço um humor que vale por si só, aquele que REALMENTE “é apenas uma piada”, eu gosto de ver se a punchline veio na hora certa, se os enquadramentos e expressões que eu usei foram os melhores, se eu realmente trabalhei aquela piada da melhor maneira possível. Agora, nos casos em que tem algum contexto político-social o feedback é muito importante para ver se eu não falei besteira. Porque esses assuntos são delicados e é muito fácil passar desinformação na ânsia de ser engraçado. Encontrar a sua voz artística dentro desse tipo de assunto é um processo complexo e demorado, e saber ouvir o público (e O QUE ouvir do público) é sempre importante pra mim.

Eu ouvi a primeira edição do seu podcast e lá você fala do momento que compreendeu a importância da funcionalidade de um desenho. Como você aplicou/tentar aplicar essa ideia nas suas tiras?

Desenhando o necessário para a melhor compreensão possível, e apenas isso. Isso quer dizer simplificar ao máximo em alguns momentos e carregar nos detalhes em outros. Desenhar “mal” propositalmente pode ajudar muito para conseguir humor, estranheza e até terror.

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No podcast você também fala que “fazia qualquer coisa” no começo dos seus trabalhos como quadrinista. Hoje, acho que suas tiras são muito identificáveis. Você se vê com um estilo? Consegue definir o que caracteriza o seu trabalho?

Infelizmente eu acho que acabei tendo um estilo, hahahah. Isso era tudo que eu não queria no início, porque gostava muito da experimentação que eu consegui em alguns momentos nos primeiros anos. Os lugares comuns que eu criei com o tempo foram mudando, geralmente quando eu me sinto muito confortável em um tipo de humor bate a necessidade de mudar. Atualmente isso está acontecendo até com o formato de tira em si, por isso estou me dedicando a hqs longas.

A versão impressa do Linha do Trem tá saindo praticamente ao mesmo tempo em que você encerrou seu trabalho pro UOL Tecnologia. A sincronicidade desses dois acontecimentos tem algum significado especial pra você?

Na verdade não, hahaha. Tive muita sorte por ter passado quase sete anos no UOL Tecnologia. Foi algo muito fora da curva para quem vive de HQ digital e eu realmente não esperava ficar esse tempo todo. Mas ao mesmo tempo eu me sentia repetitivo dentro do assunto às vezes e isso nunca é legal. Quando olho pro meu trabalho de tiras como um todo eu sempre vejo a busca por tentar algo diferente e não gosto de falhar nisso.

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Eu gostei muito do que você publicou até agora do Vagabundos no Espaço. Quais são os seus planos pra essa série? Você pretende dar uma periodicidade pra ela? Tem planos pra uma possível versão impressa?

Toda a minha energia criativa está voltada pro Vagabundos atualmente. Eu comecei com um humor bobo para partir de um lado do meu trabalho com o qual os leitores estão acostumados, mas pretendo levar a série para muitos outros lugares, em termos narrativos, artísticos e visuais. Por isso escolhi uma space opera, não para falar de especificidades de ficção científica, mas para poder levar aqueles personagens para onde eu quiser. Quero trazer pros meus quadrinhos aquela espera pelo “onde será que eles vão descer no próximo episódio?” que me faz amar Star Trek, Doctor Who e Futurama, não só em termos literais mas também narrativos. Nada me impede de botá-los num planeta em preto e branco para uma história de faroeste ou contracenando com uma espécie alienígena feita de traços infantis de giz de cera. Quanto à versão impressa, pretendo fazer sim porque sei que tem muito leitor que ainda não abraçou o digital e esses me interessam tanto quanto os outros. Só estou esperando ter um volume de páginas que apresente bem a proposta, imagino que com três capítulos fechados já seja o suficiente (estou na metade do segundo atualmente).

Pra finalizar! O que você tem lido, visto e ouvido nos últimos tempos? Tem alguma coisa que você recomenda que as pessoas leiam, vejam e escutem?

Eu tenho curtido muito mangá e anime. Os orientais têm um jeito muito diferente do nosso de ver e explicar o mundo, então eu recomendo pra todos que curtem somente obras ocidentais que conheçam o que eles tão fazendo por lá e vice-versa. A JBC lançou recentemente a primeira edição de Akira do Katsuhiro Otomo, que muita gente conhece pelo anime, e é fantástico ter finalmente em mãos o mangá. Nas primeiras páginas você já tem a certeza de estar diante de um clássico, o domínio de narrativa e desenho do autor ainda assusta mesmo tanto tempo depois do lançamento original. Também gosto muito de ver séries de tv e no momento estou revendo as temporadas antigas de twin peaks pra me preparar para a nova, e adorando cada minuto. Por falar do Lynch, só recentemente assisti Ereaserhead e já entrou pro meu top 10 de filmes favoritos. Mas a maior parte do meu tempo livre eu passo no videogame. Esses dias eu joguei Inside, que é uma narrativa super complexa, cheia de camadas, sem usar nenhuma palavra na construção. É o meu meio favorito de consumir ficção atualmente, se eu começar a falar sobre não paro mais!

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Entrevistas / HQ

Papo com Jason, o autor de Sshhhh!: “Se tenho uma regra para os meus quadrinhos, é: não conte tudo, deixe alguma coisa para o leitor”

As obras assinadas pelo quadrinista norueguês Jason são facilmente identificáveis. São HQs geralmente caracterizadas por desenhos minimalistas, por seus personagens antropomorfizados e por um storytelling extremamente eficaz. Sshhhh! (Mino) é o primeiro álbum do autor publicado no Brasil e reúne todos esses elementos. A obra chegou às livrarias brasileiras quase um ano após Jason fazer sua estreia no país, com um quadrinho de seis páginas presente na segunda edição da revista Antílope.

Sshhhh! é uma coletânea de contos curtos que reúne outros dos principais atributos esperados nos quadrinhos do autor: as tramas urbanas e também surreais, as reflexões sobre relacionamentos e solidão e o humor variando entre a poesia e o sarcasmo.

“Eu acho que tenho um estilo”, afirma Jason em conversa por email. “O meu primeiro álbum foi desenhado com um estilo muito realista, mas não fiquei muito feliz com o resultado e demorou muito tempo pra finalizar, então passei a tentar outros estilos e os personagens antropomorfizados surgiram. Eles pareciam encaixar no tipo de histórias que eu queria contar: fábulas”, diz o autor.

A eficácia da narrativa do Jason o tornaram reverenciado por quadrinistas de todo mundo. A edição brasileira vem acompanhada de exaltações assinadas por Laerte, Fábio Moon, Gabriel Bá, Rafael Coutinho e Gustavo Duarte. A chegada de Sshhhh! no Brasil deve ser aclamada também para que outros de seus trabalhos também possam ser publicados por aqui. Na conversa com o blog, Jason falou sobre quadrinhos noruegueses, sua paixão pelo trabalho de Hergé e por filmes noir e seu interesse recente pelos livros de Julio Cortázar. Papo bem bom. Ó:
 

“Eu acho que um quadrinho deve ser fácil de ler, mesmo que seja uma história sombria ou mais complexa. É preciso ser tentador para aquele leitor que dá uma espiada nas primeiras páginas em uma livraria, para que ele continue lendo e queira descobrir o que vai acontecer a seguir”

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Você não mora mais na Noruega, mas fico curioso em relação à cena de quadrinho local. Você pode contar um pouco como são os quadrinhos noruegueses? Você recomenda algum título em particular?

Há uma cena de quadrinhos em Oslo. Há várias pequenas editoras que publicam o que as pessoas chamam de quadrinhos alternativos. Começou mais ou menos nos anos 90, mesmo tendo alguns trabalhos de antes disso. A Noruega é um país pequeno, então é difícil viver de HQs. São pessoas que também trabalham com ilustração. Não tenho certeza se existe algum tipo particular de estilo norueguês. Eu acho que há mais realismo do que fantasia. Talvez seja algo típico da melancolia escandinava, é difícil dizer. Eu recomendaria o Steffen Kverneland, que fez um quadrinho sobre o Edward Munch, e também o Lars Fiske, que tem um livro saindo pela Fantagraphics sobre o Georg Grosz.

Sshhhh! é completamente sem palavras. Há alguma diferença nos seus métodos de trabalho entre criar um quadrinho mudo ou com palavras?

Há uma certa diferença. Sem texto para explicar o que está acontecendo você precisa ter um storytelling mais claro. Há também mais abertura para interpretação. Fica por conta de cada leitor o que ele tira da história. Fiz quadrinhos sem palavras durante um tempo porque acho mais fácil do que escrever diálogos e eu também buscava um público de fora da Noruega, uma audiência mais ampla. Depois acabou virando um desafio escrever diálogos. Hoje eu já acho a parte mais divertida, mas ainda faço uso de sequências de silêncio. Muitas vezes as palavras são desnecessárias.

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Muitos dos seus quadrinhos têm finais abertos e são classificados como nonsense. Quando você está criando os seus quadrinhos tem em mente qual poderá ser a interpretação dos seus leitores?

Não, na verdade eu busco esses finais em aberto. Se tenho uma regra para os meus quadrinhos, é: não conte tudo. Deixe alguma coisa para o leitor. É esse o tipo de quadrinho que gosto, aquele que não entrega tudo. Cinco leitores interpretarão uma mesma história de cinco maneiras diferentes e isso uma coisa boa.

Li uma matéria sobre o seu trabalho no Buzzfeed em que seus quadrinhos são comparados aos livros do Haruki Murakami. Assim como as suas HQs, os trabalhos dele também são marcados por finais abertos e enigmáticos. Você já leu algum livro dele?

Eu li alguns livros dele e não gostei tanto assim. Não sei precisamente a razão disso. Há uma certa simploriedade na linguagem, não sei. Não senti nenhuma grande conexão com os personagens.

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Eu vejo alguma conexão entre seus quadrinhos com desenhos como Adventure Time e Ricky and Morty, os dois investindo no mesmo estilo nonsense e no absurdo. Não sei se é um gênero, mas você vê algum motivo para o sucesso desse estilo nos dias de hoje?

Não conheço esses desenhos. Eu gosto do absurdo. De Magritte e Eugène Ionesco até Monty Phyton. Qual a razão do sucesso desse gênero? Eu não sei. Talvez porque o mundo está ficando cada vez mais absurdo? Quem vai saber? Tenho certeza que alguém já publicou um estudo sobre isso.

Você trabalha com designs de páginas muito específicos. Li que você é um grande admirador do Hergé e o considera um mestre do storytelling. Como essa narrativa dele influenciou o seu trabalho?

Sim, eu gosto de trabalhar com um grid específico e com um um uso tradicional de painéis e storytelling. O trabalho do Hergé é um bom exemplo desse storytelling claro e convidativo. Eu acho que um quadrinho deve ser fácil de ler, mesmo que seja uma história sombria ou mais complexa. Você não deve achar que é garantido que alguém vai querer ler o seu livro. É preciso ser tentador para aquele leitor que dá uma espiada nas primeiras páginas em uma livraria, para que ele continue lendo e queira descobrir o que vai acontecer a seguir.

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Você pode me contar um pouco sobre a dinâmica do seu trabalho? Você costuma trabalhar com roteiros fechados? Há alguma técnica ou método que você costuma utilizar nos seus quadrinhos?

Não, não costumo trabalhar com roteiros. É tudo improvisado, geralmente desenhado já na página. Eu costumo trabalhar em 20 ou 30 páginas ao mesmo tempo, desenhando um pouco e depois arte-finalizando. Estou acostumado a primeiro desenhar os personagens e só depois fazer os cenários. Às vezes eu começo escrevendo alguns trechos de diálogo, outras vezes os desenhos vem primeiro e crio os diálogos depois. Em cenas mais complicadas também costumo fazer thumbnails antes de começar a desenhar.

Os seus quadrinhos são muito identificáveis. Você acha que já tem um estilo definido? Foi muito difícil chegar nessa forma como você desenha e escreve nos dias de hoje?

Eu acho que tenho um estilo. Os personagens antropomorfizados e o estilo seguindo a linha clara. Demorou um tempo para chegar aí. O meu primeiro álbum foi desenhado com um estilo muito realista, mas não fiquei muito feliz com o resultado e demorou muito tempo pra finalizar, então passei a tentar outros estilos e os personagens antropomorfizados surgiram. Eles pareciam encaixar no tipo de histórias que eu queria contar: fábulas. Acredito que eles também sejam mais universais. Todo mundo consegue se identificar com o Pato Donald ou o Mickey Mouse.

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Eu acompanho o seu blog e você gosta muito de filmes clássicos e antigos. Mas você também costuma fazer comentários sobre blockbusters. Você tem algum gosto em particular para filmes ou topa assistir qualquer coisa que chegue a você?

Hoje estou mais por fora de filmes do que há alguns anos. Escrevo menos resenhas e assisto menos filmes. Ocasionalmente vejo algum filme da Marvel ou algum Missão Impossível e ainda me divirto com eles caso sejam bem feitos. Caso contrário eu prefiro filmes mudos ou produções dos anos 70, de qualquer gênero, de verdade. Seja western, ficção científica ou noir. Gosto de diretores com visões peculiares, como Jim Jarmusch, Hal Hartley, Wes Anderson e Aki Kaurismâki.

No blog você falado muito sobre as suas leituras das obras do Julio Cortázar. Há algum motivo em particular para a leitura desses trabalhos recentemente? O que mais você tem lido, visto e ouvido recentemente que recomendaria?

Sim, eu descobri o Cortázar recentemente, senti uma conexão muito grande com o trabalho dele. Por enquanto só li seus contos, ainda não li nenhum dos romances. Gosto do mistério e da ambiguidade de seus trabalhos. No momento estou lendo o livro mais recente do John Irving, mesmo sendo um pouco longo e não sendo seu melhor trabalho. Ainda gosto de livros dele como The Hotel New Hampshire e Cider House Rules. Tenho tentado ler vários clássico que havia evitado até então, como Kafka, Camus e Joyce. Espero encarar Ulysses ainda esse ano. Além de Cortázar, o Denis Johnson é provavelmente minha descoberta mais recente. Jesus’s Son e Angels são livro incríveis. Como disse, tenho visto menos filmes. Gostei de O Lagosta.

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