Vitralizado

HQ

Vitralizado Recomenda #0001: Erzsébet (Zarabatana), por Nunsky

O quadrinista português Nunsky conta a história da condessa húngara Erzsébet Báthory (1560-1614) nas 144 páginas em preto e branco de Erzsébet (Zarabatana, R$40). São atribuídas à protagonista da HQ centenas de assassinatos e relatos chocantes de tortura. Publicado em Portugal pela editora Chili Com Carne, o álbum ganhou o prêmio de Melhor Desenho no Festival de BD de Amadora em 2015. O diálogo mais imediato da arte de Nunsky é com o preto e branco de alto contraste dos trabalhos do norte-americano Charles Burns. A elegância das paginações convencionais do álbum tornam ainda mais impressionantes e macabros os crimes cometidos pela condessa.

OBS: a Vitralizado Recomenda é uma seção nova aqui do blog. A ideia é fazer críticas rápidas, registrando trabalhos recém-lançados no Brasil que chamem de alguma forma a minha atenção. Prefiro não definir uma periodicidade por enquanto, vamos ver até onde vai.

Cinema

The Graduate, por Laurent Durieux

Gosto muito dos trabalhos do Laurent Durieux e mais ainda de A Primeira Noite de Um Homem do Mike Nichols – é um dos meus filmes preferidos da vida. Daí acabei de ver que o pessoal da galeria belga Nautilus colocou a venda essa pérola aqui em cima, assinada pelo artista e inspirada no filme estrelado pelo Dustin Hoffman. A obra tá a venda em duas opções distintas de cores, uma por €60 e outra por €90. Olha aqui no OMG Posters as duas versões, qual a sua preferida? Sempre recomendo uma visita ao site do desenhista, mas também já publiquei por aqui trabalhos dele inspirados em Alien, O Poderoso Chefão, Cinzas do Paraíso e Indiana Jones. Demais, né?

HQ

Espadas e Bruxas: confira uma prévia de oito páginas da primeira HQ da editora Pipoca & Nanquim

O pessoal do Pipoca & Nanquim já vinha dando alguns indícios de projetos futuros e mais ambiciosos relacionados a quadrinhos. Hoje eles revelaram a primeira investida do canal como editora: anunciaram para maio o lançamento de Espadas e Bruxas, coletânea reunindo histórias de fantasia produzidas entre os anos 60 e 70 pelo quadrinista espanhol Esteban Maroto. Uma novidade do projeto é que o livro será vendido com exclusividade via Amazon – sendo que já está em pré-venda, por R$120.

Interessando isso tudo, hein? O meu conhecimento de quadrinhos de fantasia do mesmo gênero está quase limitado a alguns clássicos do Conan, mas fiquei curioso com Espadas e Bruxas principalmente pela arte – adianto por aqui algumas páginas do livro. Outra curiosidade fica em relação a essa parceria com a Amazon e o quanto isso pode passar a ser uma via de regra para outras editoras e autores aqui no Brasil. Será que vira moda? Como será a recepção do público? Aguardo cenas dos próximos capítulos. Saca o preview que o pessoal dA (agora é uma editora, né?) Pipoca & Nanquim me mandou:

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HQ

In the City #16, por Adrian Tomine

O Adrian Tomine divulgou no Instagram a ilustração da capa do 16º número da revista japonesa In The City. A publicação tem periodicidade semestral e todas as capas são assinadas pelo Tomine – saca aqui as ilustrações das edições anteriores. Como virou costume antes de divulgar qualquer arte nova, o quadrinista foi soltando no Instagram diferentes etapas da criação da obra focados em um detalhe da ilustração. Ó essa leva mais recente:

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HQ

Série Postal: a HQ produzida por Bianca Pinheiro para o nº4 da coleção

Taí a arte produzida pela Bianca Pinheiro para o quarto número da Série Postal. A HQ já está disponível na mesa da quadrinista na CCXP Tour Nordeste, rolando até domingo em Olinda. Em São Paulo você já encontra a HQ na Ugra, na Gibiteria e na Banca Tatuí. Nas próximas semanas a edição começa a chegar em outras lojas e galerias do país. Lá no tumblr da coleção você encontra uma série de posts bem legais produzidos pela Bianca mostrando cada uma das etapas da criação do quadrinho. Dá uma olhada! E pra quem não viu (ou quer rever): aqui estão as edições assinadas pela Taís Koshino, pelo Pedro Cobiaco e pelo Pedro Franz.

HQ / Séries

Angeli – The Killer: estreia sábado (15/4) a série em stop motion do Canal Brasil centrada na obra de Angeli

Sábado agora (15/4), às 23h45, estreia a excelente Angeli – The Killer, série em stop motion exibida pelo Canal Brasil sobre os personagens do Angeli. Assisti ao primeiro episódio da produção e escrevi sobre ele pra edição de abril da Monet da Editora Globo. O texto vem com algumas falas bem massa de um papo rápido que bati por email com o quadrinista e outras de conversas que fiz com alguns discípulos e adoradores do autor – Fabiane Langona (Chiquinha), Luciana Foraciepe, Douglas Utescher, Paulo Crumbim e Ricardo Coimbra. Recomendo bastante a série – sério, ri alto de alguns dos depoimentos do Angeli – e também uma lida na minha matéria. A íntegra do texto só na versão impressa, mas reproduzo por aqui os primeiros parágrafos. Ó:

Angeli sem crise

Um dos mais importantes quadrinistas brasileiros de todos os tempos tem suas taras, crises e paixões revistas em depoimentos animados com a técnica de stop motion

O quadrinista Angeli diz não se considerar um depravado, mas não vê problema em assumir o que chama de “uma quedinha pelos baixos instintos”. A revelação não deveria ser surpresa para ninguém quando expressa pelo criador de Rê Bordosa, Bob Cuspe, Skrotinhos, Mara Tara e outros dos personagens mais célebres dos quadrinhos brasileiros. No entanto, aqueles não iniciados na obra de um dos maiores e mais influentes quadrinistas nacionais de todos os tempos poderão tirar esse atraso com a estreia de Angeli – The Killer.

A série de 13 episódios apresenta uma versão animada em stop motion do ilustrador interagindo com outros de seus personagens, todos apresentados como bonecos. No primeiro episódio, batizado de Tara, Tabus e…Tubaína!, a exceção é a atriz Alessandra Negrini, em carne e osso interpretando a polêmica Mara Tara – uma presença mais que conveniente dado o tema da estreia.

“Pés femininos eu gosto bastante. Não preciso ficar lambendo, eu gosto de ver”, diz Angeli em uma série de revelações sobre seus gosto pessoais. “A bunda é um monumento, eu derrubaria tudo do Oscar Niemeyer pra colocar bundas no lugar”, afirma o protagonista em outro momento. Os depoimentos do autor são intercalados por participações constantes de seus personagens, dublados por artistas como Paulo Cesar Peréio (Bibelô), André Abujamra (Rhalah Rikota) e Milhem Cortaz (Bob Cuspe).

“Meu trabalho sempre foi voltado às críticas de costumes, comportamentos e a ideia de expor as falhas humanas – inclusive as minhas – e o humor foi um caminho para tal”, conta Angeli em entrevista à Monet. “Sempre busquei isso com certa acidez, numa tentativa de acertar a ferida e deixar cicatrizes. Não só com o riso mas também através da reflexão que tais críticas poderiam trazer”, diz o quadrinista.

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A matéria completa está disponível na edição de abril da Monet.

Entrevistas / HQ

Cynthia B. e a criação de Estudante de Medicina: “Se eu não estiver falando a verdade, mas estiver falando a verdade no fundo, quem vai saber? Foda-se. Sou eu, mas não sou eu”

Estudante de Medicina retrata os sete anos da quadrinista Cynthia B. na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ou quase isso. Segundo a autora, o livro não é uma biografia ao pé da letra – alguns dos fatos protagonizados por ela na HQ podem ter sido vivenciados por outras pessoas, por exemplo. Ainda assim, o álbum gira em torno das dúvidas e questionamentos da artista em relação à sua vocação profissional e o curso universitário escolhido por ela. O livro recém-lançado pela Veneta é o passo seguinte e mais maduro de uma das mais interessantes quadrinistas do país. Estudante de Medicina cumpre as altas expectativas criadas em torno de uma carreira construída em torno de pérolas como a já clássica Meu Aborto em Quadrinhos e o segundo número da coleção Ugritos, Germes.

Também recém-lançado na França, pela editora Vraoum!, com o nome de Carabin & Caipirinha, Estudante de Medicina começou a ser produzido por Cynthia quando ela ainda estava na faculdade. A obra foi finalizada durante o período da artista como uma das residentes da Maison des Auteurs na cidade de Angoulême, onde ela ainda reside atualmente. Conversei com a quadrinista via Skype sobre a produção do quadrinho, suas principais reflexões durante a criação do álbum, as tramas pessoais tratadas por ela na HQ e o conteúdo científico do livro. Papo bem bom. Ó:

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“O legal mesmo foi o momento em que eu falei: ‘foda-se se aconteceu ou não!’. É baseado na minha vida, mas é muita coisa inventada, muita coisa juntada, coisas de épocas diferentes ou com outras pessoas que encaixaram bem na história”

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Quando você teve a ideia de fazer o quadrinho?

Comecei a fazer o quadrinho quando ainda estava na faculdade. Eu tinha umas 80 páginas prontas, mas foram os primeiros quadrinhos que fiz, então são muito feios (risos). Tinha esse projeto de livro o tempo inteiro, mas aí fui trabalhar na Toscographics e as coisas foram acontecendo. Aí quando eu soube dessa residência, pronto! “Vou lá e fazer o livro”. Eu não gostava mais de alguns dos desenhos e também queria fazer uma história um pouco mais unificada. Eram muitos causos curtos na versão original e eu também estava tentando recolher todos os fatos, pra fazer um negócio meio realista. Depois eu concluí que foda-se, incluí coisas que não aconteceram comigo com outras que aconteceram comigo… Tentei juntar pra contar uma história maior. Ainda é muito fragmentado, né? Não é uma história só e fluida, mas eu tentei.

Quando você foi selecionada pra residência já precisou apresentar qual seria a história que pretendia contar?

Eu tinha que fazer três páginas do projeto. Eu tinha 80, mas mesmo assim eu refiz as três que apresentei – e que acabaram nem entrando no livro. Aí, quando cheguei aqui, fiquei muito tempo trabalhando no roteiro. Então eu já tinha cadernos e cadernos de histórias da época, tinha alguns quadrinhos prontos. A minha bagagem pra França veio cheia de sketch books que eu tinha desde a minha época da faculdade. Aí vi tudo, fiquei pegando o que achava interessante. Fiz uma pilha de papéis com temas e palavras-chaves, colei tudo numa parede, aí fui juntando e tirando, achei que ia fazer em dois volumes e depois tirei mais, dessa bagunça toda saiu o livro. Não tenho mais nenhum plano de fazer um segundo, mas foi muito um trabalho de tirar coisas e juntar coisas pra conseguir ter uma parada realizável com alguma coerência.

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E como funcionava a residência? Os outros artistas e quadrinistas de alguma forma te ajudavam a pensar e editar esse trabalho?

A Maison des Auteurs é pra profissionais, não é pra estudantes. É um bando de gente que fica nos seus ateliês e tem umas festas, a gente se encontra e vai pro estúdio de alguém. Eu não vou muito porque sou muito tímida e não gosto muito quando as pessoas visitam o meu espaço. Mesmo assim você conhece as pessoas, conversa com elas, fala sobre quadrinhos, sobre a forma de trabalhar. É um ambiente muito de quadrinhos, bem legal pra produzir um projeto, entrar dentro do negócio.

E como você chegou na editora aí na França? A residência já ajudava com algum contato?

Não. Na real o que rolou foi que um cara da residência passou um email com todos os nomes de editores, uma lista, e aí peguei um por um e mandei email pra todos, com cinco páginas do projeto traduzidas pra inglês, eu não sei escrever em francês. Aí mandei pra toda essa galera. Aí a Vraoum! me respondeu falando que tinha curtido, teve o Festival de Angoulême com uma exposiçãozinha com os trabalhos da Maison. Fui na mesa do editor, falei “oi” e ele disse que viu meus quadrinhos na exposição e que pra ele tava vendido. “Ah, ok”, né? Aí ele me deu o cartão dele e disse que a gente ia se falando. “Então tá”. Nos meses seguintes ficou uma conversa, demorou um tempo, coisa de contrato, e foi com ele que publiquei.

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O quadrinho tem algumas referências geográficas em relação ao Rio de Janeiro e também de música brasileira. Como ficou na edição francesa? O conteúdo é diferente do que saiu aqui?

Foi legal. Rolou isso tudo, a gente foi conversando e uma hora ele me disse que eu tinha que entregar o livro até início de novembro do ano passado pra ser impresso pro festival e a gente lançasse – na época eu ainda não sabia se a minha residência ia continuar e se eu voltaria pro Brasil. Aí ele não viu o livro. Outro dia ele até falou comigo: “Se eu tivesse lido o livro, talvez…”, enfim, rolaram questões com traduções e tal, mas no fim das contas ele não viu o livro antes de estar entregue. É exatamente o mesmo livro, o meu livro, pro bem ou pro mal, sou eu (risos).

Eu gosto dessa referência locais, acho que elas acabam tornando o livro ainda mais universal.

Pois é. Não sei se o cara teria implicado com isso. Até o título foi o cara que sugeriu, de colocar “caipirinha” aqui em francês. Eu gosto disso, sei lá, ver um filme da África do Sul com os personagens falando da realidade deles, tudo soa meio exótico. Não incomoda, você fica ligado pelo contexto o que mais ou menos é, né? Eu acho. Já as música eu fiquei na maior dúvida, se eu traduzia, o que fazia. Pra mim fazia parte, então não pensei se estava desenhando pros franceses, eu estava desenhando pra mim, sei lá. No final eu traduzi boa parte das músicas e coloquei uma referência no rodapé. Se a pessoa tiver curiosidade ela pode procurar.

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Como você disse, o quadrinho é uma reunião de causos, você não dividiu em capítulos, mas dá pra perceber onde começa uma coisa e termina outra, onde fecham os ciclos. Você produziu também pensando nesses ciclos e enredos menores?

Como eu falei, eu trabalhei com esses papéizinhos, então a coisa já tinha uma unidade. Eu mudei muito a ordem do livro e isso deu o maior trabalhão na real. Enquanto eu estava escrevendo tinha um processo assim: “Ah, essa história é muito parecida com essa então vou tirar, mas seu eu tiro essa ficam duas seguidas só de medicina, fica chato, então seria legal ter algo pessoal aqui no meio”. A ideia era ter um arco geral, a parte pessoal é mais fluida, a parte da medicina eu fui colocando onde era mais interessante, onde cabia. Foi um quebra-cabeça meio chato. Eram blocos que eu fechava.

E em relação ao traço? Você estabeleceu alguma estética padrão desde o começo? Tinha algo que você se propôs a fazer?

Eu fiquei pensando tanto nisso. É muito chato, cara… Aquela que só reclama! (risos) Mas é cada coisinha que precisa ser pensada, você deixa de fazer uma coisa pra fazer outra. Na real esse meu jeito de desenhar meio que surge num dia que vou na casa do Gabriel Góis em Brasília, há uns anos, e aí ele me fez redesenhar uma página cinco vezes. Aí foda-se, né? Ele pediu, eu fui tentar do jeito que ele tava falando. Refiz meio puta, né? “Quem é ele pra ficar falando o que eu tenho que fazer?” (risos). E saiu um negócio meio diferente que gostei, com mais preto, consegui controlar mais a página. Eu não redesenhei cada página do livro cinco vezes, mas foi algo que surgiu e segui. Também teve a história do aborto nesse estilo e pro livro eu continuei fazendo isso, mas também é um pouco chato seguir o tempo todo o mesmo estilo. Então acho que no final das contas, quando me vinha uma ideia diferente eu deixava rolar. Tem uma história que é totalmente sem preto, que fiz no meu sketch book e eu gostei dela do jeito que tava, aí deixei como tá, é um traço bem diferente. Eu curto daquele jeito a unidade do livro.

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Em algum momento você cogitou usar cor? As cores da história do aborto são muito bonitas.

Eu ia fazer colorido, mas pra falar a verdade quando eu estava fazendo… Tipo assim, me deu um medinho e o editor francês disse que queria em preto e branco, acho que também por ser mais barato, e na real fiquei meio aliviada. É o primeiro livro e eu já estava surtando com tanta coisa (risos), quando ele disse que não precisava das cores eu disse “Ok, então beleza! Então concentro no preto e branco e tá tudo bem”. Fiquei meio grata de ser em preto e branco e eu curto o gibi em preto e branco, não sinto falta de cor.

No seu quadrinho você começa a falar dos átomos e nucleotídeos logo nas primeiras páginas, achei que ele seguiria mais por esse caminho, mas não. Você refletiu em relação a até onde ia com ciência e qual era a história que ia tratar ali?

Boa pergunta, deixa eu pensar (risos). Como eu te falei, quando eu estava pensando a história, com os blocos, tinha histórias que eu gostava, cada uma de diferentes fases da Faculdade de Medicina. Na primeira parte a gente tem ciências básicas, né? O curso básico. Depois vamos lidando mais com pacientes e tendo outras coisas. A coisa que pensei mais assim, em termos do leitor se divertir ou não, foi de tentar intercalar bem pra não ter muita ciência perto de muita ciência e muita história pessoal perto de muita história pessoal, pra dar uma respirada. Fora isso, foi mais natural em relação ao fato de que a minha proposta não era de fazer um tratado sobre medicina ou ensinar qualquer coisa. Tipo, até aquele começo meio que não ensina nada pra ninguém, né? É meio que o ambiente, né? A medicina serve como o ambiente onde tudo se passa. Cara, que frase essa! (risos).

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E o quanto você ainda tinha essas informações frescas na sua cabeça?

Aquela primeira página me deu um trabalho da porra. Ela é muito básica, então cada palavra eu fiquei questionando, sabe? Mas é tudo cientificamente correto, pode ver todas as ligações covalentes, botei até os hidrogênios porque me deu vontade (risos). Eu escrevi: “Como toda coisa no universo o nosso corpo é feito de átomos”. Tudo no universo é feito de átomos? Peraí, um buraco negro não é feito de átomos. Então passei pra “Como quase tudo no universo”. Aí cada merdinha eu fiquei pensando pra não escrever uma besteira, mas é capaz de eu ter escrito, saca? Não sei. Se alguém falar que eu escrevi uma besteira eu aceito, mas tentei escrever algo cientificamente correto e não quis pegar a Wikipedia. É difícil escrever e deixar tudo certo.

Mas bateu alguma dúvida durante essa produção? Você conversava com alguém nessas horas?

Quando eu tinha alguma dúvida, se eu não lembrava bem a coisa, eu sentava e pesquisava um pouco.

E as histórias que você narra? Você correu atrás de alguém pra confirmar se aquela coisa aconteceu daquele jeito ou algo do tipo?

Na verdade, o legal mesmo foi o momento em que eu falei: “foda-se se aconteceu ou não!”. É baseado na minha vida, mas é muita coisa inventada, muita coisa juntada, coisas de épocas diferentes ou com outras pessoas e encaixaram bem na história. Realmente não é uma autobiografia, é baseado em mim e tal.

E quando rolou esse momento em que você conclui que podia fazer o que quisesse e que não iria se prender a fatos?

É uma parada quase… Os meus pais não curtem muito que eu faça quadrinhos e menos ainda que eu faça quadrinhos autobiográficos. Eles não gostam que eu fale da nossa vida privada. Então comecei a fazer quadrinhos autobiográficos e isso pegava mó mal. Minha mãe e minha família inteira odiavam, é um negócio muito chato. Aí eu fiquei meio travada, eu queria escrever a história que aconteceu, mas que merda que meus pais não curtem. Essa pressão me travava. Um dia veio essa: se eu não estiver falando a verdade, mas estiver falando a verdade no fundo, quem vai saber? Foda-se. Sou eu, mas não sou eu. Se a minha família ficar brava, beleza. Como eu me distancio um pouco me sinto menos julgada talvez. Enfim, é papo pro meu psicanalista.

O Joe Matt falou sobre isso numa entrevista. Alguém perguntou como ele conseguia namoradas, porque pelos desenhos é o maior filho da puta do mundo. Ele falou isso que eu falei: “sou eu, eu sou um filho da puta, não tô dizendo que não sou, mas lá eu sou um personagem, me dá prazer em fazer ele ser filho da puta”. A minha personagem não é filha da puta, mas é o mesmo distanciamento que eu queria ter e rolou.

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Você citou seu psicanalista, deve ser mais intenso do que uma sessão escrever isso tudo, né?

Ah, sim. Demorou anos pra eu escrever e desenhar o livro, a vida foi acontecendo e no livro é até mais light. Na época eu não conseguia imaginar a minha vida não sendo aquilo. Então todos os problemas eram muito sérios. Demorou um tempo pra eu conseguir me distanciar o suficiente pra eu conseguir contar uma história que não fosse uma confissão. É uma história.

Existe toda uma escola de quadrinistas que se propõem a fazer quadrinhos autobiográficos, mas também com esse distanciamento que você citou.

O próprio Crumb, né? Mas com ele eu sempre fico com a impressão de estar lendo ele de verdade, saca? Sem filtro, o que é lindo. O Joe Matt que me abriu a cabeça de pensar que pode ser você e não ser você ao mesmo tempo. Eu nunca parei pra pensar muito se o Robert Crumb é realmente a pessoa que ele desenha, mas…

Eu tava pensando aqui no Chester Brown.

O Chester Brown é outro nível de observação do mundo, ele é desvencilhado dele mesmo. É quase um Buda (risos), mas é um bom exemplo.

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E quais outras coisas que você leu e te influenciaram e foram referência durante a produção?

Deixa eu pensar um pouco… Cara, Dr. House e séries de hospital. Eu tava vendo agora pouco House aqui. É até engraçado porque não tem no livro uma história sobre o House que tava no original. Na faculdade a gente adorava House.

Mas tem a piada sobre a lúpus, que era a doença sempre cogitada na série.

Ah, é! Tem isso mesmo. A gente adorava ficar discutindo sobre House porque na UFRJ era sempre lúpus também. Lá é centro de especialidade de lúpus, poucos casos de sei lá o que e lúpus pra caramba. Existe essa piada que acabou não entrando.

De quadrinhos eu cito o Joe Matt, o Allan Sieber,…essa galera meio autobiográfica. No livro eu cito também o Woody Allen, é muito prepotente, né? Mas eu curto muito. Gosto dos finais que não são muito felizes e essa leitura do amor que ele tem.

E além do livro, tem algo legal daí, não necessariamente ligado a quadrinho, que você esteja curtindo?

Não tem nada a ver com quadrinhos, é mais pessoal, mas tava lendo agora o Jogo das Contas de Vidro do Herman Hesse. Eu tava ouvindo muito Alan Watts, os áudio-livros. Isso tudo tem me influenciado em termos de aceitar como contar história. De coisas legais aqui da França tem um artista chamado Pozla, esse livro Carnet de Santé Foireuse. Também tem o Édika, melhor coisa de blague visual que já vi em toda a minha vida, muito sensacional. Melhor coisa do mundo. Ele faz uns quadrinhos que são gags visuais o tempo inteiro, são histórias completamente insanas, tudo brincando o tempo todo com o fato de ser quadrinho. E ele desenha de um jeito tão engraçado…fiquei doida com ele. É tipo um Monty Python, nunca tem um final claro. Ele inventa uma parada e encerra o quadrinho, sabe? É muito doido. Tipo um Monty Python em quadrinho.

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HQ

Taís Koshino e a produção do terceiro número da Série Postal

Rendeu o marking-of da Taís Koshino para a terceira edição da Série Postal, você viu? Continuo publicando diariamente no tumblr do projeto uma série de depoimentos de cada um dos artistas envolvidos na coleção sobre a produção de seus trabalhos. A ideia é sempre divulgar as falas com exclusividade por lá e depois de algumas semanas reunir o conjunto de cada autor em um único post por aqui. Em breve rola o lançamento da HQ da Bianca Pinheiro na CCXP Tour, então já tá na hora de reunir no Vitralizado os depoimentos da Taís sobre o número três. São falas que não pretendem esgotar as HQs por completo, só aprofundar um pouco mais os temas e conceitos tratados em cada HQ. A seguir, aspas de Taís Koshino:

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“Gosto de sempre começar lendo e pesquisando. Para esse quadrinho, comecei lendo um pouco de Jacques Derrida, buscando sobre a questão do envio: quem escreve? para quem? E para enviar, destinar, expedir o quê? E sobre a questão da palavra que desvia, da espera, do retorno. Mas como de costume, não entendi muito, fiquei apenas com aquela coceira que dá no cérebro quando lemos algo que nos intriga”

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“Então fui ler artigos e ensaios sobre o cartão postal, o que mais me interessou foi ‘O Postal Ilustrado da Frente ao Verso: Imagens Mais que Reprodutíveis’ da Maria da Luz Correia. Texto interessante que traz um diálogo com Benjamin, Nancy e Blanchot, apresenta o cartão postal como uma escritura acentrada, de dupla face, assim como acontece nos quadrinhos, é um encontro, uma colisão, um enfrentamento, entre imagem e palavra. A imagem, como sua parte pública, comumente é uma reprodução, feita em massa, de uma obra de arte; o texto, como a parte privada, um espaço de comunicação interpessoal entre o remetente e o destinatário. E esses dois lados não são separáveis ou divisíveis”

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“Depois de ler, visitei meu arquivo pessoal de cartões postais, são poucos, mas importam muito, sinto que escolhi cada um. A maioria é da minha viagem de intercâmbio para europa: cartões do museu Thyssen-Bornemisza (Madrid); cartões do museu do Van Gogh (Amsterdam) e do Tate (Londres); cartões diversos; cartões de lembrança de lugares; cartões que ganhei de presente; o mais engraçado que tenho apenas um postal que me foi enviado por uma amiga de infância quando ela fazia intercâmbio nos EUA. Não descobri o que há de comum entre eles, mas entre eles, há um pouco de mim”

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“Não sei explicar ao certo como depois de tudo isso a ideia surge. Meu processo criativo se dá muito dentro da minha cabeça, eu gosto de estudar bastante e buscar referências, mas depois disso, preciso ficar relaxada, sair com os amigos, ir no cinema, assistir uma palestra, nesse tempo que me dou, as informações vão se conectando, tomando forma, se dando sentido. E ai pronto, cria-se, surge o que necessito fazer. Sempre faço esse sketch da página do quadrinho para ter uma noção melhor da composição que quero ter na página”

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“Para esse quadrinho, fiz três páginas que ficaram sobrepostas, cada página tem um grid de 12 quadros de tamanho igual. A primeira página é de desenho de linha e tem um clima de romance, na cama, um casal de mulheres. Na segunda, há somente as linhas do lençol que encobre. E na terceira, uma outra história, virada de ponta cabeça, pintada com tinta, sem contornos, uma narrativa de uma carta escrita que não se sabe se foi enviada (ou recebida)”

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“Eu prefiro desenhar em papeis menores, para esse quadrinho, fiz em um A5. Quando não desenho o grid na página, sempre faço essa mesa de luz improvisada com um grid por baixo da folha que irei desenhar, para me ajudar a manter o planejamento inicial. Coloquei papéis em cima a medida que ia desenhando as páginas. Na página da tinta, a mais difícil para mim, fiz marcações a lápis e depois fui colorindo, escolhi usar quatro cores e deixa-las chapadas”

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“Tô sempre refletindo sobre o que dá pra fazer com quadrinhos, qual é o limite dos quadrinhos e até se existe um limite ou não. Eu particularmente amo trabalhar com restrições, isso consegue guiar minha produção, de forma que eu consiga encontrar um limite dentro da própria restrição e do quadrinho que eu estou fazendo. Às vezes, quando eu preciso criar do nada, demora muito mais, mas ter um obstáculo conhecido me faz pensar em como contorná-lo”

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Ajude a bancar a produção de um vídeo para registrar a importância do Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ)

O pessoal da Pulo Comunicação lá de Belo Horizonte colocou no ar uma campanha de financiamento coletivo para a produção de um vídeo com depoimentos de vários agentes culturais do Brasil, para registrar a importância do Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ) – pra você que pegou o bonde andando, o evento corre risco de não rolar em 2017.

O crowdfunding é iniciativa das duas cabeças da Pulo, a jornalista Helen Murta e o quadrinista Jão. Os dois estarão na CCXP Tour em Recife e vão aproveitar a deixa pra recolher alguns desses depoimentos por lá. Acho uma sacada bem boa e uma investida bem massa. Ter uma manifestação como essa registrada em vídeo pode ampliar bastante o apelo pela continuidade do FIQ. Eles tão pedindo R$2 mil pra tirar a ideia do papel. Eu já investi. Quem mais topa? Clica aqui.

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Proteste a favor do FIQ na página da Prefeitura de Belo Horizonte no Facebook

O professor e jornalista Paulo Ramos deu o alerta: está ameaçada a edição de 2017 do FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), o maior festival de quadrinhos da América Latina. Segundo o relato compartilhado na noite de ontem por Ramos, a Prefeitura de Belo Horizonte não incluiu o evento na verba de cultura do município para este ano. “Apesar de constar na programação das atividades culturais de 2017, o evento não foi incluído na relação de itens a serem custeados pelo município, divulgada em audiência pública, realizada na capital mineira nessa quarta-feira (05.04). Não por coincidência, data do festival, um dos mais importantes do país, ainda não foi confirmada pela organização. O FIQ ocorre a cada dois anos, sempre no segundo semestre”, explica o pesquisador.

A reação por parte de quadrinista, editores e leitores foi imediata. A principal ação até o momento é uma série de questionamentos publicados no espaço de comentários de um post na fanpage da Prefeitura de Belo Horizonte. As críticas são enfáticas e extremamente fundamentadas, ressaltando o absurdo de não investir em um dos mais relevantes eventos de cultura do país. Deixe aqui o seu protesto.