Vitralizado

Entrevistas / HQ

Papo com Oscar Zarate, quadrinista e editor de A Vida Secreta de Londres: “Mais do que o editor de um livro eu me senti como o diretor de um orquestra”

Eu conversei com o quadrinista e editor argentino Oscar Zarate sobre o livro A Vida Secreta de Londres. O álbum recém-publicado por aqui pela Veneta chama atenção principalmente por reunir trabalhos de Alan Moore e Neil Gaiman. No entanto, os méritos da coletânea vão muito além da presença de dois dos maiores quadrinistas britânicos de todos os tempos. Em um período no qual se reflete tanto sobre o propósito das cidades e a relação de pessoas com os espaços urbanos nas quais elas vivem, o livro faz pensar principalmente sobre a influência desses espaços em seus moradores.

Transformei a minha conversa com Oscar Zarate em matéria pro UOL e recomendo bastante a leitura pra você saber mais sobre o projeto. Reproduzo a seguir a íntegra da nossa conversa e lembro que amanhã (22/7), a partir das 16h, estarei com o editor brasileiro do quadrinho, Rogério de Campos, lá na Ugra, pra um papo não apenas sobre o livro, mas também sobre HQs britânicas, psicogeografia e a conturbada realidade política e social de Londres em meio à saída eminente do Reino Unido da União Européia. Confirma presença lá na página do evento no Face e, em seguida, volta aqui pra ler a entrevista. Ó:

“Há um determinado horário do dia, quando os pubs fecham e outros tipos de sons ganham vida, que os prédios passam a contar suas próprias histórias, caso você tenha interesse em ouvi-las”

sefredolondresmelindagebbie

Como surgiu a ideia do livro? Por que Londres?

Estou morando em Londres há pelo menos 40 anos, eu escolhi viver aqui e amo essa cidade. É um lugar que está sempre me inspirando com novas ideias de histórias e para a maior parte das minhas graphic novels. Qualquer coisa que eu tenha interesse em contar e desenhar, Londres é o local no qual essas coisas existem. O que despertou a concepção de A Vida Secreta de Londres foi o meu interesse em um determinado horário do dia, quando os pubs fecham e um outro tipo de silêncio e barulho começam a ganhar vida na cidade. Os prédios passam a contar suas próprias histórias, caso você tenha interesse em ouvi-las.

Como foi a produção do livro? Os escritores e desenhistas podiam escolher os locais e personagens com os quais poderiam trabalhar? Coube a você montar as equipes criativas de cada história?

Como editor do livro eu tinha um mapa mental de como ele ficaria, do tom e do ritmo de cada história. Eram histórias que viajariam por toda Londres. Quando comecei a pensar os nomes daqueles que seriam os escritores, poetas, cineastas, comediantes e artistas que poderiam contribuir no livro, obviamente, eu pensei naqueles que já tinham um alguma relação com Londres em seus trabalhos e muito deles eram meus amigos também. Eu fui muito beneficiado pela oferta que tinha, com tantos talentos à minha disposição. Eu sabia que o Iain Sinclair queria escrever sobre o Rio Tâmisa, então tinha que pensar quem seria o artista para um escritor tão visionário e singular, aí cheguei no Dave McKean, seus trabalhos casam muito bem com a narrativa original do Iain. O Neil Gaiman estava morando por um tempo na região de Earl’s Court e perguntei se ele queria escrever sobre a vizinhança dele, um lugar único em Londres, no qual as pessoas estão sempre de passagem, sempre em trânsito, ficando apenas por breve períodos, ele disse sim e pensei no artista Warren Pleece, que tinha na época uma arte muito inquieta, passando uma sensação de agitação. O Alan Moore queria escrever uma espécie de epílogo para Do Inferno e como eu já tinha trabalhado com ele em A Small Killing foi natural que eu fizesse os desenhos.

Eu realmente gostei muito de trabalhar nesse livro. Quando penso no período de criação de A Vida Secreta de Londres eu sinto como se ele fosse a consequência direta de um esforço coletivo, de ouvir os autores e os artistas em relação a o que eles gostariam de contar e pensar qual artista trabalharia com cada escritor ou com qual artista cada escritor combinava. Mais do que o editor de um livro eu me senti como o diretor de um orquestra.

mooreabre1

Eu li uma resenha do álbum que diz que ele consegue fazer moradores de Londres verem a cidade de uma forma nova. Você tinha preocupação em surpreender os londrinos em relação às histórias presentes no livro?

Uma das vantagens de ser um estrangeiro é que você pode ver a cidade a partir de uma outra perspectiva, com um olhar mais fresco. Você acaba percebendo algumas coisas, coisas que um morador local não verá, peculiaridades que um londrino não vai pensar muito a respeito, mas que você consegue notar por ter vindo de fora. Você ainda acrescenta o olhar de outra cultura. Os autores e artista ficaram estimulados com a minha curiosidade sobre Londres.

Qual a importância do preto e branco para criar a atmosfera sombria do livro?

Pra mim, o preto e branco contém todas as cores necessárias para expressar a atmosfera sombria de A Vida Secreta de Londres.

Você ilustrou a história do Alan Moore e já tinha trabalhado com ele em A Small Killing. Os roteiros dele são muito famosos pelo excesso de detalhes. O que você pode dizer sobre trabalhar com ele? Os roteiros são realmente tão impressionantes como dizem?

Eu já conhecia os roteiros cheios de detalhes do Alan e tive a oportunidade de ver os roteiros de Do Inferno. Garoto, como ele escreve!

Trabalhar com ele em A Small Killing foi uma experiência diferente. Eu procurei o Alan com uma ideia que queria fazer. Falei com ele sobre esse garotinho, alguém sendo observado e etc e ele disse que sim, que gostava da minha ideia básica e que nós dois iríamos trabalhar juntos. Nós nos encontrávamos com muita frequência, em Northampton, onde ele vive, ou em Londres, onde eu vivo. Sempre conversávamos sobre o livro e a história cresceu de forma bastante orgânica, a partir desses encontros. Depois o Alan escreveu.

Como refletimos muito sobre a história eu estava muito familiarizado em relação a como ela seria – na verdade, o que ele escreveu era muito melhor do que eu esperava. Acredito que o Alan tinha consciência da nossa relação de proximidade e fez um roteiro bastante objetivo. O que eu sei é que, nem antes ou depois de A Small Killing, o Alan nunca trabalhou de forma tão próxima de alguém na construção de um livro. Trabalhar com o Alan é trabalhar com alguém que sabe escutar, uma pessoa incrivelmente generosa para se compartilhar ideias.

mooreavidasecreta2

O quanto você acha que o estilo de escrita do Alan Moore mudou desde a primeira vez que você trabalhou com ele?

Acredito que o Alan esteja escrevendo gradualmente cada vez menos para quadrinhos e cada vez mais focado nos seus trabalhos literários.

Londres tem sido alvo constante de atentados terroristas. Como você vê a cidade e os londrinos lidando com essas tragédias?

Poucos países europeus estão vivendo e sofrendo esses tipos de horrores como o Reino Unido. É a vida que estamos tendo agora. Como cidadão não é possível fazer muita coisa, você apenas segue vivendo sua vida tentando não pensar muito a respeito. Mas os governos poderiam fazer alguma coisa, como parar de vender armas para países repressores do Oriente Médio ou parar de bombardear outros países apenas por petróleo. Provavelmente não acabaria com esse tipo de horror em cidades como Londres, mas acredito que já ajudaria. Há outras questões tão importantes quanto esses ataques, como por exemplo a forma como o Reino Unido fará sua saída da União Europeia. A Inglaterra está uma bagunça. São tempos difíceis mas interessantes também, precisamos observar como todo esse horror será resolvido. Acho que a questão pode merecer uma resposta melhor, mas é assim que me sinto.

E como você acredita que quadrinhos e as artes podem ser úteis em um contexto mundial de radicalismo e conservadorismo como nos dias de hoje?

Nos quadrinhos, nas artes, como em tudo na vida, é sempre uma questão de qual lado você está. Você escolhe o seu lado e depois age. É muito importante escolher.

mckeansinclair

vidasecretalondresveneta

HQ

Vitralizado Recomenda #0013: Cannon (Pipoca & Nanquim), por Wallace Wood

Levei algumas semanas para chegar ao fim de Cannon (Pipoca & Nanquim). Tentar ler em uma sentada a coletânea das tiras de Wallace Wood protagonizadas pelo espião que dá título à obra pode ser uma experiência maçante, por isso vale investir sem pressa, tendo em mente a forma como a série foi concebida – uma tira de publicação periódica e não como o álbum de 276 páginas lançado no Brasil. O tom ingênuo das aventuras do protagonista do quadrinho é condizente com os propósitos escapistas do título, concebido para servir como distração para os soldados norte-americanos instalados em bases militares no exterior. Principalmente por isso, impressiona a quantidade de informação e o dinamismo da arte de Wood. Mais do que tudo, o lançamento é uma prestação de serviço da Pipoca & Nanquim.

HQ

Sábado (22/7), a partir das 16h, na Ugra: uma conversa com Rogério de Campos sobre A Vida Secreta de Londres

Sábado (22/7) estarei na Ugra a partir das 16h pra conversar com o editor da Veneta, Rogério de Campos, sobre a coletânea A Vida Secreta de Londres. Acho um papo bem promissor e sobre um dos grandes lançamentos de 2017 – não é todo dia que você vê por aí um álbum com trabalhos de Alan Moore, Neil Gaiman, Dave McKean, Iain Sinclair e Melinda Gebbie. Recomendo uma lida na minha matéria sobre o livro lá no UOL pra você sacar mais sobre o projeto. Ó a sinopse do que deve rolar lá na Ugra, tirada da página do evento no Facebook:

“O quadrinista e editor argentino Oscar Zarate reuniu artistas como Alan Moore, Neil Gaiman, Dave McKean, Iain Sinclair e Melinda Gebbie para expor alguns dos segredos da capital inglesa no álbum A Vida Secreta de Londres. A coletânea recém-publicada no Brasil pela Editora Veneta será lançada oficialmente na Ugra Press, no dia 22 de julho, com um bate papo entre o editor brasileiro da obra, Rogério de Campos, e o jornalista Ramon Vitral.

A conversa vai tratar das origens do projeto de Zarate, das diferentes vertentes dos quadrinhos britânicos representadas no livro, da relação das cidades com as pessoas que nelas habitam e da conturbada realidade política e social de Londres em meio à saída eminente do Reino Unido da União Européia”

HQ

Uma conversa com Diego Gerlach e Lobo Ramirez sobre os títulos da Escória Comix e da Vibe Tronxa Comix. Assista!

O Carlos Neto do Papo Zine gravou grande parte da minha conversa com os quadrinistas Diego Gerlach e Lobo Ramirez lá na Ugra no sábado passado (15/7). O trecho filmado por ele mostra partes nas quais conversamos sobre os métodos de produção dos dois quadrinistas, as inspirações de ambos para seus trabalhos mais recentes (Rogéria #3, Arracém e Nóia) e também sobre a influência da realidade no processo de criação dos dois autores. Foi demais. Dá o play:

HQ / Matérias

Oscar Zarate e a produção da coletânea A Vida Secreta de Londres

Entrevistei o quadrinista e editor argentino Oscar Zarate e transformei a nossa conversa em matéria pro UOL. Ele é o organizador e um dos autores da coletânea A Vida Secreta de Londres, recém-publicada por aqui pela Veneta e com trabalhos de uma galera do naipe de Alan Moore, Neil Gaiman, Dave McKean, Iain Sinclair e Melinda Gebbie. Algumas das histórias do álbum tratam de temas muito pertinentes em relação à dinâmica de grandes centro urbanos e as pessoas que neles habitam. Recomendo uma lida no meu texto pra você saber mais sobre as histórias presentes na obra, a concepção do projeto e a experiência de Zarate em ilustrar um roteiro de Alan Moore. Tá aqui o link.

mooreabre1

HQ

HQs e imprensa: uma conversa com Lielson Zeni, Daniel Lopes, Carolina Ito e Paulo Ramos no Ugra Fest 2017. Assista!

Eu mediei no Ugra Fest 2017 o bate-papo HQs e Imprensa: Quem Faz, Quem Noticia e Quem Critica. Participaram da conversa o Lielson Zeni, o Daniel Lopes, a Carolina Ito e o Paulo Ramos. Sou suspeito pra falar qualquer coisa, mas gostei muito dos temas e das reflexões propostas na mesa. Acredito que tratamos de ideias interessantes não apenas para quem quer produzir conteúdo sobre quadrinhos, mas também para os próprios quadrinistas. O pessoal do site Tapioca Mecânica esteve no evento e gravou as quase duas horas de conversa. Acho que vale tirar um tempinho pra assistir, viu? A foto aqui em cima eu roubei do Facebook da Carolina Ito. Dá o play:

Entrevistas / HQ

Papo com Guy Delisle, o autor de O Guia do Pai Sem Noção e Hostage: “Todo mundo pode se relacionar com a ideia de ser sequestrado de alguma forma, você está no lugar errado e no momento errado e então vira um refém”

O quadrinista canadense Guy Delisle acabou de publicar na América do Norte e na França o aclamado Hostage, já apontado por muitos especialistas como um dos grandes quadrinhos de 2017. O título narra o período de 111 dias no qual o funcionário da Médicos Sem Fronteiras Christophe André passou como refém de uma milícia no Cáucaso em 1997. Enquanto isso, no Brasil, chegou às livrarias o primeiro volume de O Guia do Pai Sem Noção, série de três livros no qual ele narra histórias engraçadas vividas por ele e seus dois filhos.

Entrevistei o quadrinista por telefone e transformei a minha conversa em matéria publicado no UOL. No meu texto, falo sobre o conteúdo de Hostage e de O Guia do Pai Sem Noção, comento um pouco mais sobre a trajetória do autor e também de seus trabalhos prévios sobre suas viagens a Shenzhen, Jerusalém, Burma e Pyongyang. Recomendo um pulo no UOL pra leitura do meu texto. Depois volta pra cá e dá uma lida na íntegra da nossa conversa. Ó:

“Eu fiz vários livros sobre viagens e aí resolvi que queria fazer algo menor, com humor. Nada relacionado a política ou geografia, apenas eu e as crianças”

del1

Você lembra do momento em que teve a ideia de criar a série do Guia do Pai Sem Noção?

Há um bom tempo eu tentei uma história, a primeira, e coloquei no meu blog. Depois eu recebi uma carta de um pai dizendo que ele e a esposa haviam esquecido a mesma coisa que eu, de colocar a tal recompensa do Rato do Dente. Foi engraçado. Era a minha primeira vez publicando na internet, então fiz a segunda e depois de algumas histórias o meu editor me ligou e disse que deveríamos transformar aquilo em um livro, que seria divertido. ‘Sim, claro! Por que não?’, então continuei fazendo as histórias. No começo eu não tinha em mente publicar isso em um livro, mas acabou acontecendo.

Quando o primeiro livro do Guia foi publicado os seus trabalhos mais famosos eram as obras de viagens. O Guia também é em primeira pessoa, mas é um gênero completamente diferente. Foi difícil pra você mudar o tema e o tom pra esse trabalho?

Eu fiz vários livros sobre viagens, depois do livro sobre Jerusalém, uma obra bem grande, e aí resolvi que queria fazer algo menor, com humor. Nada relacionado a política ou geografia, apenas eu e as crianças. Como eu estava mais em casa, de vez em quando alguma coisa acontecia. ‘Bem, isso é engraçado, talvez eu devesse fazer alguma coisa com isso’. Então a primeira aconteceu, depois a segunda e tudo isso acabou virando o livro.

del2

Os seus filhos já leram os livros? Como eles reagiram de se verem retratados como personagens de quadrinhos?

Hoje eles leem os livros, mas quando eu publiquei o primeiro eu não queria que o meu filho mais velho lesse. Mas como muitas crianças na escola dele estavam lendo achei que poderia ser um pouco constrangedor para ele e aí lemos juntos. Expliquei pra ele o que eram aquelas histórias, que elas estavam ali por serem engraçadas, para fazer graça com a realidade. Hoje os dois gostam dos Guias e eu também continuo gostando, então está tudo bem. Não tem nenhum problema.

E como foi a recepção da crítica em relação a esse contraste entre o Guia e seus trabalhos prévios?

Não saíram muitas críticas. Quando é humor parece que as pessoas não escrevem resenhas, elas devem ficar guardadas para outros tipos de livros (risos) Fiz algumas participações em programas de TV e de rádio, mas não muita coisa. Na verdade não me importo muito com isso. O livro funcionou bem, nós vendemos 100 mil cópias do primeiro, o que é o suficiente para mim (risos)

guydelisle

Tanto os livros de viagens quanto os Guias são com você como personagem e sempre mostrando o seu ponto de vista. Como foi criar a partir da história de alguém em Hostage?

Foi a primeira vez que isso aconteceu e eu já queria contar essa história há um bom tempo. Eu apenas continuava adiando porque estava fazendo os livros de viagens. Em determinado momento nós paramos de viajar tanto e achei que era a hora de focar nesse trabalho que queria fazer há tanto tempo. Há dois anos resolvi que deveria fazer ao invés de ficar apenas pensando nisso. Então tirei dois anos para trabalhar nesse livro, porque sabia que seria algo muito longo.

Li uma entrevista na qual você fala que não considera os seus livros de viagens jornalísticos. Em qual gênero você define Hostage? É trabalho documental e quase jornalístico, concorda?

Eu acredito que alguém possa vê-lo dessa forma, mas… Quando eu penso em jornalismo tenho em mente um repórter que vai em algum lugar para falar sobre alguma coisa. Nesse caso eu estava contando a história do Christophe André, que havia me impressionado e era uma ótima história a ser contada, por ele ter sobrevivido a muita coisa e ter conseguido escapar. Sempre foi um livro muito interessante de trabalhar e não penso se é jornalismo ou não. Também não sei se é uma novela, talvez esteja mais para uma memória ou algo do tipo.

del3

Enquanto eu lia Hostage me colocava no lugar do Christophe André o tempo todo, sempre pensando o que poderia fazer no lugar dele. Você também fez isso? Cogitou como responderia e reagiria estando no lugar dele?

Eu já tinha pensando nisso antes mesmo de começar a trabalhar no livro. Quando eu conversava informalmente com ele já ficava imaginando “Uau! O que eu faria na situação dele?”. Mesmo antes da ideia do livro existir eu já me relacionava com a história do Christophe. Todo mundo pode se relacionar com a ideia de ser sequestrado de alguma forma, você está no lugar errado e no momento errado e então vira um refém. Então é uma história muito envolvente e achei que seria interessante de contar em formato de história em quadrinhos.

E sobre a forma como você reagiria em uma situação como aquela: na verdade é impossível saber. O Christophe me explicou que não era a mesma pessoa que passou aquele período sequestrado. No período em que passou sequestrado ele estava sob muito estress e apenas reagia diferente da forma como reagiria em uma situação cotidiana de sua vida normal. Por mais que você pense “eu faria isso ou aquilo”, você agiria de outra forma naquela situação, você também seria outra pessoa.

Você criou o livro a partir de suas conversas com o Christophe André. Como foi a produção a partir do momento em que encerrou a coleta desses depoimentos?

Eu sempre mantive contato com o Christophe e estamos lançando o livro juntos aqui na França. Enquanto fazia o livro eu mandava as páginas para ele e ele lia e me retornava com alguns comentários. Eu não queria que ele recebesse o livro pronto e dissesse que eu deveria ser mais preciso em relação a alguma coisa ou que isso e aquilo não havia acontecido. Pra evitar isso eu enviava as páginas enquanto produzia e fizemos algumas mudanças aqui e ali. Para mim era muito importante que fosse o mais fiel possível à realidade.

del5

Você não costuma usar muitas cores nos seus trabalhos. Como você chegou nessa paleta de cores azulada de Hostage?

No Crônicas de Jerusalém também tem algumas cores. Eu gosto de cores, mas a estética desse livro é de pouco texto e de desenhos muito simples. Queria que as cores também fossem simples. Eu queria que tudo fosse tão simples quanto o contexto no qual o personagem estava vivendo. A comida era simples, ele não tinha mais nada. Enfim, queria simplicidade e o traço e as cores precisavam seguir isso. Pensei em fazer em preto e branco, mas fiz a capa e gostei do azul e achei que aquela cor dialogava com a situação.

A maior parte dos seus livros, incluindo Hostage, é ambientada em lugares nos quais liberdades individuais são muito limitadas. Pelas suas experiências nesses locais, você fica assustado quando vê o aumento da popularidade e a chegada ao poder de indivíduos como Trump e Le Pen? Você teme ver na França a perda de liberdades individuais como viu nos países em que visitou?

Pode acontecer e por isso os movimentos de esquerda precisam ser fortes. Os franceses estão bastante conscientes disso tudo. Há muito debate sobre esse cenário, não sabemos o que pode acontecer e a Le Pen pode retornar, então precisamos ficar atentos. A eleição foi importante por mostrar que podemos evitar isso.

O Trump também foi uma decepção muito grande, mas é um risco que corremos com uma eleição e com o sistema democrático. A mesma coisa aconteceu aqui na Europa com o Brexit. Os britânicos estão começando a negociação para sair. Felizmente isso não representará o colapso da União Européia, mas há muito que se fazer a partir de agora.

hostage

HQ / Matérias

Os Morcegos-Cérebro de Vênus e Outras Histórias e o despertar da Era de Ouro dos quadrinhos norte-americanos

O trabalho de Carlos Junqueira e Lauro Larsen na coletânea Os Morcegos-Cérebro de Vênus e Outras Histórias resultou em uma dos álbuns mais interessantes e divertidos publicados no Brasil em 2017. Os dois editores do projeto restauraram 29 histórias em quadrinhos de ficção científica lançadas nos Estados Unidos entre 1939 e 1954 e assinadas por autores do naipe de Jack Kirby, Alex Toth, Steve Ditko e Wally Wood. É um quadrinho mais sensacional que o outro numa edição de 208 páginas com acabamento de luxo. Conversei com os dois idealizadores do álbum e transformei nosso papo em matéria pro UOL, dá uma lida.

capamorcegos

HQ

Sábado (15/7), a partir das 15h, na Ugra: Diego Gerlach e Lobo Ramirez falam sobre sobre Arrecém, Nóia, Rogéria #3 e as atividades da Escória Comix

Sério, caras, anotem aí, essa é imperdível: no sábado (15/7), a partir das 15h, estarei mediando uma conversa com os quadrinistas/editores Diego Gerlach e Lobo Ramirez na loja da Ugra aqui em São Paulo. No mesmo dia estarão sendo lançados os excelentes Arrecém (12ª edição da coleção Ugritos), Nóia – Uma História de Vingança! e o terceiro número da revista Rogéria e os dois convidados vão falar sobre suas respectivas obras e também das atividades do selo Escória Comix.

Quem já leu esses trabalhos mais recentes do Gerlach e os títulos publicados por Ramirez sabe da loucura e da qualidade dos quadrinhos concebidos pelos dois. Certeza de papo bom e recomendo que vocês cheguem cedo na Ugra, suspeito que a casa estará cheia. Você confere as instruções de como chegar na Ugra na página do evento no Facebook.

HQ

A Sapata Press está em busca de autoras de países de língua portuguesa com interesse em publicar HQs

O projeto editorial Sapata Press da quadrinista Cecilia Silveira está em busca de autoras de países de língua portuguesa com interesse em publicar histórias em quadrinhos. Na convocatória presente no site do selo é explicado que a preferência é por trabalhos de mulheres e pessoas não-binárias, sejam elas trans ou cisgénero, independentemente de raças e orientação sexual. Lá na página do projeto constam alguns dos temas que serão priorizados na seleção dos quadrinhos e também uma explicação sobre a dinâmica de publicação das HQs.

Segundo Silveira, as autoras selecionadas terão os seus trabalhos lançados em Portugal e no Brasil. A ideia é que a Sapata Press cubra os gastos de produção e impressão dos quadrinhos. Os ganhos com as vendas terão como prioridade cobrir os custos do trabalho e qualquer lucro será dividido meio a meio entre a autora e a editora. Os trabalhos também serão publicados no site do selo. Promissor, hein? Já no aguardo pra saber o que vai sair daí. Dá uma sacada na página do projeto e fica de olho também na fanpage da editora.